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Noiva do Mendigo Milionário

Noiva do Mendigo Milionário

Autor: LuciyMoon
Gênero: Romance
Nellie entregou seu coração e economias para um homem que desapareceu sem deixar vestígios. Agora o rosto dele está estampado nos jornais, com um nome, status e noiva que não lhe pertencem... Ou pertencem? ~*S2*~ Movida por compaixão, Nellie acolheu um estranho desmemoriado e maltrapilho, a quem chamam de Rato. Ele era sujo, confuso e não sabia quem era, mas nela encontrou abrigo e amor. Por amor, Nellie entrega a ele todas as suas economias e um valioso broche de família... E nunca mais tem notícias dele. Acreditando ter sido enganada e roubada, folheando uma revista vê o olhar e rosto dele em Teodoro Willians, um milionário poderoso, dono de um império hoteleiro, que está prestes a se casar com outra. Será que o mendigo que a enganou sempre foi um milionário fingindo ser pobre? Ou será que aquele homem que amou e perdeu tem um sósia, um irmão gêmeo? Nellie não tem respostas, só uma certeza: precisa encará-lo, descobrir a verdade e recuperar o que é seu.
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Capítulo 1 Um Rato

Um Rato.

Precisou de apenas um Rato para virar a vida de Nellie Castilho de ponta cabeça.

Mas não um Rato qualquer. Este media mais de um metro e oitenta, tinha cabelos pretos como azeviche, ondulados e selvagens, e possuía olhos tão escuros que pareciam um mar noturno, chamando-a a mergulhar neles.

Um Rato que roubou não apenas seu amor, mas todas as suas economias... Embora Nellie nem sonhasse que isso aconteceria meses antes, em uma – até então – comum tarde de terça-feira, quando equilibrava uma bandeja repleta de pratos e copos entre as mesas do Bar e Restaurante Escaravelho.

- Bisteca no ponto como o senhor pediu - disse educadamente, depositando o prato diante do cliente, que esperava com o guardanapo preso no colarinho.

Tentou se afastar, mas ele segurou a barra de sua camisa.

- Cada dia que passa fica mais bonita, Nellie - comentou, os olhos sedentos percorrendo o corpo dela. - Uma flor doce no meio deste fim de mundo.

Segurando a vontade de estapear a mão dele, manteve o sorriso profissional.

- O senhor veio para comer ou para fazer poesia?

- Vim para ver você. - Ele inclinou-se para frente, seguindo com aquele olhar que causava asco na jovem. - E para repetir o convite. Vamos jantar hoje? Posso te levar a um restaurante chique na capital...

- Sou dona de um restaurante. E não saio com clientes - respondeu secamente, virando-se para atender outra mesa, mas a mão persistiu e agarrou seu pulso com força.

- Não seja difícil, garota. Sou um homem paciente, mas tenho limites.

Nellie sentiu o coração acelerar de raiva, mas manteve a compostura.

- Olavo, solte meu braço!

- Deixa a menina, Olavo - um cliente na mesa ao lado tentou intervir, mas sua voz saiu baixa, sem muito empenho.

- Cuide da sua vida e não meta o nariz nos meus negócios! - Olavo disparou, sem desviar os olhos de Nellie.

O homem baixou a cabeça e voltou a comer, derrotado.

- Não sou um negócio, menos ainda seu - Nellie retrucou, puxando o braço com brusquidão.

Olavo finalmente a soltou, mas não sem antes deslizar o polegar sobre a pele nua de seu antebraço.

- Em breve será minha potranca.

- Potranca é a pu...

- Nellie, o frango com quiabo tá divino - uma mulher interveio em desespero.

Respirando fundo, Nellie se afastou sorrindo para a cliente.

- Obrigada! O cozinheiro ficará feliz com seu feedback.

Vendo a jovem fugir novamente as suas investidas, o fazendeiro sorriu confiante. Quanto mais rebelde, mais doce seria quando a domasse.

Nellie sentia o peso do olhar de Olavo em suas costas enquanto se movia entre as mesas, e não precisava virar-se para saber que o nojento a devorava com os olhos.

Seguiu para o balcão, onde Lurdes, sua amiga e companheira de trabalho, servia aguardente para dois trabalhadores.

- Ele nunca vai desistir - a amiga alertou baixinho.

- E eu nunca vou aceitar aquele porco - revidou, fazendo um dos trabalhadores engasgar com a bebida.

Os homens se afastaram apavorados, temendo que Olavo ouvisse e colocasse na conta deles o afronte da jovem. Notando a situação, as duas riram.

Foi quando a gritaria do lado de fora começou. Altos e estridentes demais para serem ignorados.

- O que está acontecendo lá fora? - questionou movendo a cabeça em direção à porta, assim como os demais no estabelecimento.

Uma voz feminina - aguda, estridente, inconfundível - cortava o ar com acusações febris.

- LADRÃO! MENDIGO IMUNDO!

- É a Sônia - alguém na mesa do fundo comentou, se levantando. - Tá gritando igual uma galinha esganada.

- E o filho dela - acrescentou outro olhando pela janela. - Tão cercando alguém na frente da mercearia.

Nellie largou a bandeja sobre o balcão.

- Lurdes, cuida do bar que vou ver o que tá acontecendo.

- Nellie, espera! - Lurdes chamou, mas Nellie já estava do lado de fora.

A rua estava um caos, com uma pequena multidão se aglomerando como abelhas enraivecidas em volta de três pessoas.

Ao vencer a muralha de pessoas, os olhos de Nellie se arregalaram.

Um home maltrapilho, sujo e visivelmente ferido estava caído no chão. Em pé, acima dele, a dona da mercearia brandia uma vassoura como se fosse uma espada.

- LADRÃO! - repetia desferindo golpes no homem caído. - RATO IMUNDO DOS INFERNOS!

Ao lado dela, o filho mais novo também golpeava a figura caída no chão, só que com chutes.

- Some daqui, rato imundo! - ele mandava, embora, com os golpes sucessivos, não desse a menor chance do pobre homem levantar. - Volta pro buraco de onde saiu!

Chocada por ninguém intervir, observou as roupas sujas, rasgadas, expondo a pele curtida pelo sol, coberta de arranhões, sangue e terra seca. Os pés estavam descalços, em carne viva, as solas sangrando. O cabelo preto como azeviche, estava emaranhado, repleto de folhagem e lama que, junto da barba em igual estado, escondia as feições do homem que engatinhava para fugir dos golpes, um braço pendendo em um ângulo estranho.

- PEGA ELE, FILHO! - Sônia ordenou, e o filho obedeceu, avançando com os punhos cerrados.

- Acha que pode roubar nossa mercearia e sair ileso? - ele berrou, e seu punho voou em direção ao rosto do mendigo.

O golpe não atingiu o alvo. Inesperadamente o homem desviou. Seu movimento foi tão inesperado que Paulo desequilibrou e caiu.

- OLHEM O QUE ESSE RATO FEZ COM MEU FILHO! - Sônia bradou erguendo alto a vassoura.

- Eu... fo... me... - a voz do homem saiu rouca, estranha, como se custasse um esforço sobre-humano. - Fome... - balbuciava se encolhendo, o braço bom se erguendo contra o golpe que se anunciava.

Mas o golpe não o alcançou.

Uma mão pequena segurou o pulso de sua algoz impedindo a nova agressão.

- O que pensa que está fazendo, Sônia? - Nellie questionou, os olhos âmbar flamejando ao pegar a vassoura e a jogar longe.

A madeira bateu na parede da mercearia com um estalo seco, atraindo os olhares por um segundo, antes de se voltarem para a figura mignon desafiando a merceeira vinte centímetro maior.

- Esse homem roubou meus pães! - Sônia esganiçou, o rosto vermelho e as veias do pescoço saltando. - Ele é um ladrão!

- Chama a polícia então - Nellie revidou soltando o pulso de Sônia com brusquidão. - Vamos ver o que o delegado acha de vocês espancando um homem que mal consegue ficar em pé.

- Tá defendendo ladrão, agora? - O filho de Sônia perguntou incrédulo, levantando e sacudindo a poeira da calça. - Olha pra ele, Nellie! Deve ser um fugitivo ou pior!

- Pior o quê? - Nellie virou-se para encará-lo, a fúria nos olhos âmbar fazendo o rapaz recuar. - Olhe pro pobre homem, pros pés em carne viva, o estado das roupas e o ouça o que ele diz. Está claramente exausto, com fome, e querem espancá-lo por causa de pão? Isso é covardia. - Levou a mão ao bolso da calça jeans, pegando seu celular. - Quanto foi? Me diz que te faço o ¹pix.

- Vai proteger esse... - Sônia engoliu em seco, olhando com mais atenção o homem caído, notando o que foi apontado, mas não querendo recuar. Não na frente de quase toda a cidade. - Vou chamar o delegado - anunciou, abrindo caminho na multidão em direção à delegacia, seguida pelo filho.

As pessoas começaram a se afastar, embora o olhar permanecesse cravado no homem caído e em sua inesperada protetora.

Nellie se agachou em frente ao homem maltrapilho, que permanecia de joelho, os olhos escuros presos nela. Sorriu.

- Tá tudo bem agora. Ninguém vai te machucar mais. Pode confiar em mim.

Estendeu a mão.

- Sou Nellie. Qual seu nome?

- Eu... - a voz falhou, e ele engoliu em seco, os olhos nunca se desviando dos dela. Quando continuou, as palavras saíram roucas, arrastadas. - Eu... Eu...

Nellie franziu a testa e abriu a boca para voltar a questionar, mas, inesperadamente, o homem tombou para frente, caindo pesadamente nos braços dela.

~x~

¹ Pix: Meio de pagamento instantâneo brasileiro criado pelo Banco Central (BC) em novembro de 2020, em que os recursos são transferidos entre contas em poucos segundos, a qualquer hora ou dia.

Capítulo 2 Um Mendigo

O peso a desequilibrou, fazendo-a cair de bunda no asfalto quente. O cheiro de suor, terra e sangue invadiu suas narinas, mas ela aguentou a vontade de empurra-lo ao sentir o calor emanando dele.

- Meu Deus...! - sussurrou, passando a mão pelo cabelo emaranhado do homem. A testa dele estava quente, febril. - Rápido! Alguém me ajuda!

Logo obteve ajuda, respirando aliviada quando, Bento, o cozinheiro do restaurante e um cliente tentaram erguer o homem do chão.

- O que aconteceu? - Bento perguntou, puxando o corpo desacordado de sob a amiga e patroa. - Quem é esse cara?

- Não sei. Ele desmaiou antes de dizer - Nellie respondeu, avaliando o rosto desacordado do mendigo. Barba cerrada, pele suja, cabelo negro e emaranhado em folhagem e algo gosmento e escuro. Seria sangue? - Está ferido e ardendo de febre...

- Deixem esse vagabundo aí - a voz de Olavo chegou até Nellie, que se voltou para o fazendeiro parado na porta do bar, os polegares afundados no cinto de couro e o olhar de desprezo fixo no homem desacordado. - Chamarei o delegado pra se livrar desse lixo.

- Ele precisa de ajuda - Nellie revidou indignada. - É um ser humano com fome e doente. Mas você é incapaz de empatia pelo visto.

O fazendeiro deu um passo à frente, o rosto endurecendo como concreto.

- Não seja teimosa, potranca. Esse homem pode ser perigoso.

- Primeiro: Meu nome é Nellie. Segundo: Ele está desmaiado e doente - Nellie rebateu, sentindo a respiração irregular do mendigo e a pele em chamas. - Ele pode morrer.

- Que morra então!

Ela sentiu as palavras dele como um tapa, o nojo subiu tão forte que teve que engolir em seco para superar o gosto amargo que se formou na boca.

- Você não é homem, é um verme. - Nellie não esperou pela reação do fazendeiro, se voltando para Bento concluiu: - Temos que levá-lo até o posto.

- Ele é muito pesado, não vai dar... - Bento comentou suando só em segurar o mendigo e respirar.

- E fede como o cão - o cliente remendou, abanando o nariz e deixando todo o esforço com o cozinheiro. - Olavo tem razão. Esse cara pode ser um bandido. Tem vindo muitos pra esses lados por causa da construção dos granfinos - emendou ao reparar no olhar de Olavo sobre eles.

- Vai dar, sim - Nellie insistiu, ignorando a opinião plantada por Olavo. Porém, percebendo a dificuldade de sustentar o peso do mendigo, e estando longe do posto, indicou em direção ao Escaravelho: - Vamos colocá-lo no meu fusquinha, assim fica mais fácil. O doutor precisa ver esses ferimentos

- Estou mandando deixarem esse lixo na rua - Olavo bradou pegando o celular, os olhos castanhos se estreitando em uma advertência silenciosa. - Mandarei o delegado cuidar do resto.

- Olavo, isso não é da sua conta. - Os olhos de Nellie se estreitaram. - A não ser que você tenha alguma coisa a ver com o estado desse homem?

O fazendeiro deu um passo atrás, a face vermelha.

- Claro que não!

- Então cale a boca e me deixe cuidar do pobre homem - exigiu, comandando: - Vamos!

O cliente largou o homem, Bento se manteve do lado de Nellie.

- Ele tá pesado e fedido - Bento murmurou, enganchando os braços sob as axilas do homem, enquanto Nellie segurava as pernas. - E ninguém vai nos ajudar... - salientou.

- Aquele imbecil só perturba a minha vida - Nellie resmungou de volta, levando com esforço o mendigo até seu carro, um fusca azul-claro estacionado em frente ao Bar e Restaurante Escaravelho.

Colocaram ele no banco de trás e Nellie se preparava para entrar ao lado dele quando seu ajudante informou:

- Não vou com você.

- Como assim não vai? - Olhou descrente para o cozinheiro. - Preciso de ajuda para carregar ele quando chegarmos.

- Olha, Nellie... Isso é loucura - ele respondeu. - Esse cara claramente é um problema, dos grandes, e fede pior que um gambá morto.

- Você nunca sentiu o cheiro de um gambá vivo, quem dirá morto - retrucou aborrecida.

- Mas se sentisse seria igual ao fedor desse cara - retrucou encobrindo o nariz. - Tenho que cuidar da cozinha do Escaravelho... Além disso, o Olavo chamou o delegado...

- Que importa o Olavo? O homem está morrendo! - A indignação queimou em sua garganta.

- Olha pra esse cara, Nellie. Tá todo fodido, fedendo, cheio de sangue. Sequer sabemos quem ele é! Pode ser um assassino, um fugitivo.

Nellie sentiu a raiva subir como fogo do peito até os olhos.

- Ah, quer saber? Pode fugir como todo mundo faz quando aquele verme estala os dedos - disse sem esconder a fúria e desprezo. - Dou conta sozinha.

O rapaz abriu a boca para dizer algo, mas o olhar de Nellie o fez calar. Encolheu os ombros e se afastou.

Bento abriu a boca, mas o olhar pesado de Nellie o calou. Encolhendo os ombros, se afastou, desaparecendo dentro do Escaravelho.

- Seja sensata, potranca - Olavo pediu se aproximando dela quando seguiu para o banco de motorista. - O que sua mãe vai pensar disso?

- Não meta minha mãe nisso - exigiu fechando a porta. - E me deixe em paz.

Fechou a janela para ignorar de vez o fazendeiro. O que logo se mostrou um erro. Suas narinas arderam e os olhos lacrimejaram. Contra vontade teve de concordar que o desconhecido fedia como um animal morto depois de rolar na merda.

Assim que pegou distância do fazendeiro, abriu a janela e inspirou fundo o ar de fora, contando os segundo para chegar ao posto de saúde, tanto para ajudar o pobre homem quanto para salvar seu olfato.

~*~

Conforme o fusca se afastava, os primeiros murmúrios de fofoca pipocavam e olhos ferozes seguiam o veículo até perdê-lo de vista. Olavo Guedes, tamborilando os dedos no cinto, não conseguia aguentar a insatisfação com a rebeldia e língua afiada da mulher que desejava.

- Vai aprender a me respeitar, potranca. Por bem ou por mal.

Capítulo 3 Um Andarilho

A viagem até o posto durou menos de vinte minutos, mas para Nellie pareceu uma eternidade. Além do odor insuportável que empesteava o ar, tornando difícil o ato de respirar, a estrada de terra era acidentada, cheia de buracos e pedras soltas. A cada solavanco, o homem gemia baixinho, e Nellie sentia o coração apertar.

- Vamos, aguente firme - murmurou, tanto para si mesma quanto para o homem inconsciente.

O fusca afundou bruscamente ao passar por uma vala, e o homem caiu do banco, batendo contra o chão do carro.

- Droga! - Nellie freiou bruscamente, o carro derrapando na terra.

Saiu do carro e abriu a porta de trás. O cheiro a atingiu como um murro, mas ela ignorou, ajoelhando-se para verificar se o homem estava bem e respirando.

- Perdão - pediu, passando a mão pelo cabelo emaranhado dele.

Os olhos dele se moveram sob as pálpebras fechadas, e ele ganiu baixinho uma palavra que Nellie não conseguiu entender.

- O que disse? - Inclinou a cabeça, aproximando o ouvido dos lábios dele.

- Água... Água... por... favor...

Nellie sentiu os olhos arderem, e não era pelo cheiro. Era pelo pedido, pela súplica. Algo tão simples e tão desesperado.

- Vai receber água assim que chegarmos no doutor. Aguenta mais um pouco, tá?

Não houve resposta. Ele tinha desmaiado de novo. Mas o pedido de água ficou ecoando na cabeça de Nellie enquanto ela entrava de volta no carro, ligava o motor e seguia em direção ao posto de saúde.

Mal estacionou em frente à porta dupla do posto de saúde e já pulava para fora, indo apressada para dentro dele.

- Ajudem! - chamou, atraindo os olhares de três pessoas aguardando na recepção. - Preciso de ajuda!

A enfermeira na recepção ergueu o olhar do computador, franzido o rosto diante do desespero da dona do Escaravelho.

- Nellie? O que aconteceu?

- Tem um homem no meu carro... Muito ferido... Preciso de ajuda para colocá-lo numa maca... - pediu esbaforida.

- Quem é?

- Não tenho tempo para discussões! - disse fazendo a mulher recuar em choque pela resposta seca. - Ele está sangrando, tem uma ferida na cabeça e não sei quantas mais pelo corpo. Se a senhora não vai me ajudar, então me arrume uma maca e eu mesma vou carregá-lo.

A mulher enfim se moveu, chamando um colega, que trouxe a maca para se encaminharem até o fusca. O cheiro precedeu a chegada deles no fusca. Suor, terra, matéria orgânica em decomposição, o odor acre de sangue fazendo os narizes crisparem.

- De que bueiro tirou esse cara, Nellie!

- Nunca vi esse sujeito na cidade - disse a atendente se recusando a ajudar na transferência. - Pelo menos sabe quem é?

- Um andarilho que precisa de ajuda médica - respondeu ajudando a puxar o corpo inerte do desconhecido para fora do carro.

O desconhecido gemeu quando seu corpo encontrou a superfície dura da maca, e Nellie segurou sua mão em apoio.

- Vão cuidar de você - murmurou, mesmo sabendo que ele provavelmente não podia ouvi-la. - Vai ficar bem.

Os olhares de choque se multiplicaram quando entraram no posto com o homem na maca, todos sussurrando entre si enquanto abanavam o rosto.

- Doutor Arnaldo! - chamou o enfermeiro, e a porta da sala do único médico da cidade se abriu, revelando o homem de cabelos brancos, que olhou para a cena com olhos estreitados.

- O que houve?

- Esse andarilho passou mal na praça - respondeu Nellie, parada ao lado do enfermeiro guiando a maca. - Não sei quem é, mas precisa de socorro.

- Leve para a sala dois. - O médico indicou seguindo com o enfermeiro para o local indicado.

- Ele vai ficar bem? - perguntou preocupada.

- Vamos ver - respondeu o médico entrando na sala. - Aguarde aqui.

Enquanto o desconhecido era levado para o local indicado, Nellie sentou no banco largo da recepção. Como esperado, foi alvo de um questionário sobre o ocorrido. As respostas levando tanto os demais quanto ela a se perguntarem que loucura a atingiu.

"Quem era aquele homem?" Não sei.

"De onde tinha vindo?" Não sei.

"Porque se envolveu no resgate de um completo desconhecido?" Não sei.

Era óbvio, no olhar de quem estava ali e quem chegou posteriormente e se informou do ocorrido, que sua atitude tinha sido impulsiva e sem levar em consideração as consequências.

Havia arranjado briga com toda a família que controlava a mercearia para defender um ladrão. Pegou o pão por fome, mas isso não mudava o fato de que roubou. E Nellie pagou pelo roubo.

Certamente rodava de boca em boca sua atitude. Cidade minúscula, julgamento gigante, resumia Aramanday.

Por último, tinha conseguido insultado Olavo, o mais poderoso fazendeiro da região. Disso não se arrependia. Tinha aguentado por tempo demais os desmandos e absurdos do fazendeiro, que tinham piorado desde que ele decidiu – sem levar a opinião dela em consideração - que a queria como esposa.

De uma coisa tinha certeza: não podia deixar uma pessoa morrer só por ser maltrapilha. Não importava o que Olavo dissesse e nem a fofoca que se construía por sua decisão.

- A construção nas terras do Olavo tem atraído muita gente esquisita - lamentou um senhor sem tirar o olhar do televisor passando as notícias do dia.

- Não são mais do Olavo - a mulher ao lado dele comentou. - Ele vendeu o terreno prum pessoal podre de rico.

- Continua a ser dele. Olavo disse que vai ganhar uma nota quando concluírem - o velho revidou. - E vai atrair turistas pra cidade.

- Vão fazer o que aqui se dizem que lá vai ter até shopping? - Um rapaz novo, tossindo a cada golfada de ar, soltou com pouco caso, jogando no celular.

- As pessoas gostam de cidade rústica.

- Aqui só tem moscas - o adolescente destacou, não tirando a mão do jogo nem mesmo para poupar os demais dos respingos da tosse constante.

- Deixe de leseira, muleque. E pega uma máscara pra cobrir a boca - o velho mandou encarando irritado o rapaz até ele mudar de cadeira, se afastando para tossir longe deles.

- Acho que essa construção nem vai continuar depois da morte que teve uns dias atrás - uma mulher sentada ao lado de Nellie disse justificando: - Tem um povo pedindo pra pararem as obras. Dizem que não tão cuidando da segurança deles.

- Encontraram o corpo do cara que caiu no precipício? - A enfermeira no balcão questionou interessada.

A mulher balançou a cabeça em negativa.

- Pararam as buscas. Ouvi que o delegado concluiu que ninguém sobreviveria uma semana dentro da Mata do Eçarai.

O velho coçou a barba.

- As onças devem tá com o bucho cheio agora.

- Verdade. Pobre sujeito. Veio trabalhar e encontrou seu fim - a enfermeira concluiu apiedada.

- Assim como muitos - o velho falou comentando desdenhoso: - Por isso duvido que vão parar a construção, ainda mais sendo projeto de gente graúda, cheia da grana e com Olavo de olho.

Os demais, até o adolescente, assentiram em concordância.

Nellie, apertando as mãos no colo e com o olhar fixo na porta, não dava muita atenção à conversa, agradecendo que o foco tinha se movido para longe dela e do andarilho que resgatou.

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