Alice Lewis
Eu não sei por quanto tempo fiquei ali sentada naquele banco duro, olhando para as paredes descascadas da sala de espera do hospital. O cheiro áspero de álcool e desinfetante parecia grudar na minha pele, e eu não conseguia mais distinguir se o aperto no meu peito era ansiedade ou pura exaustão. Minha mãe estava lá dentro, conectada a fios, tubos e esperanças mínimas. E eu... eu estava aqui fora, impotente.
Minha conta bancária estava no vermelho há meses, e a ideia de pagar por outro dia de tratamento parecia um insulto cruel. Por que insistem em cobrar tão caro pela vida? Eu só tinha vinte e dois anos. Não era para eu estar decidindo entre comprar remédios ou pagar a conta de luz.
Estava tão absorta em meus pensamentos que quase não percebi o homem que entrou na sala de espera. Quase. Ele tinha uma presença que não dava para ignorar, uma aura de autoridade que fez o ar parecer mais pesado. Alto, bem vestido, com um terno sob medida que provavelmente custava mais do que tudo o que eu tinha no armário. Seu olhar varreu a sala até pousar em mim, e ele caminhou direto na minha direção.
- Você é a... - Ele parou, como se precisasse reunir as palavras certas. - ...a filha de Clara?
Minha garganta secou. Ninguém chamava minha mãe de Clara. Para todos aqui, ela era apenas "a paciente do leito 8".
- Quem é o senhor? - perguntei, tentando manter o tom firme, mas soando mais desconfiada do que autoritária.
Ele se sentou ao meu lado, sem pedir permissão, e se inclinou para frente, com os cotovelos apoiados nos joelhos. Por um momento, pensei que ele fosse algum tipo de advogado ou algo assim. Mas então ele disse:
- Meu nome é Arthur Lacerda. Eu sou... seu pai.
Eu ri. Quer dizer, não foi um riso de verdade, mas aquele tipo de gargalhada histérica que explode quando algo simplesmente não faz sentido.
- Meu pai? - repeti, cruzando os braços. - Isso é uma piada? Porque, olha, hoje não é o dia.
Ele suspirou, como se esperasse aquela reação.
- Eu sei que parece absurdo, mas é verdade. Eu e sua mãe... tivemos uma história complicada. Minha família nunca aceitou nosso relacionamento, e nós acabamos nos separando antes de você nascer.
Eu o encarei, esperando que ele completasse a frase com algo mais convincente. Mas, em vez disso, ele puxou uma foto do bolso interno do paletó.
- Isso é ridículo... - comecei, mas minha voz morreu quando vi a imagem. Era uma garota. Ela parecia comigo, mas não exatamente. Os cabelos pintados de um loiro impecável, a pele impecável, roupas caras. Como uma versão de mim mesma em um universo paralelo onde eu não tinha que contar moedas.
- Quem é ela? - perguntei, minha voz falhando.
- Sua irmã gêmea, Aurora. Vocês foram separadas no nascimento.
Eu ri de novo, mas dessa vez foi mais amargo. - Claro. Uma irmã gêmea. Por que não? Isso é hilário. Você é rico, tem outra filha, e resolveu aparecer agora?
Ele se inclinou para trás e passou a mão pelo cabelo, como se estivesse tentando manter a calma.
- Aurora desapareceu há duas semanas. Eu marquei um casamento para ela... algo que ajudaria a resolver uma dívida da nossa família... e ela fugiu. Eu não tenho outra opção a não ser pedir sua ajuda.
Eu pisquei, tentando entender o que ele estava dizendo.
- Minha ajuda? - repeti, incrédula. - O que diabos você espera que eu faça?
- Quero que você finja ser Aurora, pelo menos até conseguirmos encontrá-la.
Eu ri de novo, mas dessa vez foi vazio.
- Você só pode estar brincando.
- Eu não estou. Se você concordar, eu pago todas as despesas do hospital. Tudo o que sua mãe precisar, ela terá.
Meu coração acelerou, e eu senti a bile subir pela minha garganta. Ele não podia estar falando sério. Era chantagem emocional, manipulação pura. Mas então um som cortou o ar: o alarme do monitor da sala ao lado. Eu me levantei instintivamente, mas Arthur segurou meu braço.
- Estão estabilizando ela - ele disse, a voz mais suave agora. - Mas você sabe que isso não vai durar muito sem os cuidados certos.
Fechei os olhos, sentindo as lágrimas queimarem.
- Tudo bem. - Minha voz era quase um sussurro. - Mas isso não significa que eu confie em você. É só pela minha mãe.
Arthur não sorriu, mas pareceu aliviado.
- Vamos transferi-la imediatamente para o melhor hospital. Amanhã, falamos sobre os próximos passos.
Horas depois, quando finalmente cheguei em casa, o silêncio parecia mais alto do que o normal. Sentei na beira do meu colchão, sem conseguir tirar os olhos do teto. Minha mente era um caos. Como eu não sabia nada sobre meu pai? Sobre uma irmã gêmea? Minha mãe sempre foi tão fechada sobre o passado, mas por quê? O que realmente aconteceu entre ela e Arthur? E por que ele não lutou por mim?
Minhas mãos tremiam, e eu segurei o travesseiro com força, como se aquilo fosse me ajudar a colocar os pensamentos em ordem. Uma parte de mim estava furiosa com minha mãe por esconder tanto. Outra parte estava curiosa demais para julgar. Eu queria respostas, mas as perguntas pareciam maiores.
E então havia Aurora. Uma parte de mim queria odiá-la por ter tudo o que eu nunca tive, mas como odiar alguém que eu nem conhecia? Talvez ela estivesse tão perdida quanto eu, ou talvez não. Ela fugiu do casamento arranjado - teria sido por medo? Por desespero? Ou porque sabia que podia?
Cada vez que eu fechava os olhos, as imagens se misturavam: o rosto da minha mãe, pálido no leito do hospital; Arthur, falando com tanta certeza como se pudesse comprar soluções; e Aurora, sorrindo em uma foto que parecia tirada de uma revista. Eu sentia como se tivesse tropeçado em um capítulo de um livro que não era meu, e agora precisava descobrir como terminava.
Suspirei, cobrindo o rosto com as mãos. Amanhã. Amanhã eu enfrentaria Arthur de novo e tentaria entender onde exatamente eu me encaixava nessa história. Por enquanto, tudo o que eu podia fazer era tentar dormir - mesmo que o sono estivesse a milhões de quilômetros de distância.
Alice Lewis
O despertador tocou, mas era como se eu não precisasse dele. Não tinha pregado os olhos a noite inteira. Minha mente parecia uma tempestade de pensamentos, cada um mais confuso e sufocante que o outro. A luz da manhã entrava pela fresta da cortina, fazendo com que meu quarto pequeno parecesse ainda menor. Suspirei, sentindo o peso de um dia que mal começara.
Levantei-me e fui direto para a cozinha. Um café forte era o mínimo que eu podia fazer por mim mesma. Enquanto a cafeteira trabalhava, puxei meu notebook da mesa e comecei a digitar: "Arthur Lacerda". Ele não havia dito muito sobre si, mas agora eu tinha um nome e precisava de respostas.
O resultado da pesquisa foi quase imediato. Arthur Lacerda. CEO de uma multinacional com sede no exterior, especializado em investimentos de alto risco. Fotos dele surgiram, todas parecendo algo saído de uma capa de revista. Era estranho pensar que aquele homem impecável, com um semblante tão determinado, era meu pai. Havia notícias recentes sobre sua chegada à cidade, mas detalhes mais pessoais eram escassos. Nada sobre minha irmã, Aurora, ou sobre a família do noivo da minha irmã que ele mencionara.
"Por que ele veio me procurar agora?" Pensei, enquanto folheava uma matéria que exaltava seu sucesso profissional. Era evidente que ele não era um homem qualquer, mas, ao mesmo tempo, tudo nele parecia cercado de mistério.
Depois de um café rápido e um banho frio para tentar acordar, fui ao hospital. Precisava ver minha mãe. Mas também sabia que Arthur estaria lá, e não sabia o que esperar.
Quando cheguei, ele estava na sala de espera, conversando com um médico. Vestia-se tão bem quanto no dia anterior, mas algo em sua expressão parecia mais pesado. Assim que me viu, encerrou a conversa e veio na minha direção.
- Alice. - Ele disse meu nome como se o conhecesse há anos. - Precisamos conversar.
- Sobre o quê agora? - Respondi, cruzando os braços. Eu ainda não confiava nele e não fazia questão de esconder isso.
Ele apontou para um banco no canto da sala, longe dos ouvidos curiosos. Sentamos, e ele começou a explicar, com um tom quase ensaiado:
- O herdeiro com quem Aurora deveria se casar é filho de uma das famílias mais influentes da cidade. O problema é que ele está preso no momento, mas isso não deve durar muito. Precisamos que você o conheça assim que ele for liberado.
- Você está dizendo que quer que eu me case com um criminoso? - Minha voz subiu sem que eu percebesse. Algumas pessoas na sala olharam, mas não me importei.
Arthur suspirou, esfregando a têmpora como se eu fosse a parte mais frustrante de seu dia.
- Não é tão simples assim. Sim, ele cometeu erros, mas o casamento é a única forma de evitar algo pior. Essa família... eles não são do tipo que perdoa dívidas.
- Então é por isso que Aurora fugiu, não é? Ela percebeu que isso tudo é uma loucura. E agora você quer jogar isso em cima de mim? - Eu me levantei, sentindo o calor subir pelo meu rosto.
Arthur não tentou me impedir. Ele apenas me olhou com aquela expressão que eu já estava começando a odiar - como se ele soubesse algo que eu não sabia.
- Eu cometi erros, Alice. Muitos. Para ganhar poder, para proteger o que eu construí. Mas as consequências foram maiores do que eu esperava. Se você não fizer isso, pode colocar não apenas sua mãe em risco, mas a si mesma. Essas pessoas não jogam limpo.
Fiquei parada ali, digerindo suas palavras. Minha mente girava com imagens de mafiosos armados, Aurora fugindo por sua vida, e eu no meio de tudo. Tudo isso por um homem que eu nunca tinha conhecido, que dizia ser meu pai, mas que parecia mais um estranho.
- Eu preciso de tempo para pensar. - Disse finalmente, tentando manter a voz firme. - Amanhã dou minha resposta.
Arthur assentiu lentamente, como se essa fosse a única concessão que ele podia fazer.
Deixei-o ali e fui para o quarto da minha mãe. Ela estava tão pálida, tão frágil. A cada dia parecia mais distante da mulher forte que me criou. Peguei sua mão, esperando que de algum jeito ela pudesse me ouvir.
- O que eu faço, mãe? - Perguntei, minha voz um sussurro. - Como você aguentou tudo isso sozinha? Você sabia sobre Arthur? Sobre Aurora?
Mas ela não respondeu. Não podia. O som ritmo do monitor ao lado dela era a única coisa que quebrava o silêncio.
Eu me sentei ao lado dela, sentindo as lágrimas deslizarem pelo meu rosto. Não era só sobre o casamento ou a família mafiosa. Era sobre tudo. Minha vida inteira parecia uma mentira, e agora eu estava presa em uma história que não era minha.
"Vale a pena?" Pensei. Eu nunca vivi de verdade. Nunca tive um momento que fosse realmente meu. Meus pensamentos vagaram, e uma onda de vergonha tomou conta de mim. A ideia de estar com um homem pela primeira vez - um homem que nem sequer escolhi - era assustadora. Minha pele queimou com a simples possibilidade. Era algo tão íntimo, tão meu, e agora parecia que também queriam tomar isso de mim.
Passei as mãos pelo rosto, tentando limpar as lágrimas, mas elas continuavam a cair. Não sabia o que fazer. Tudo parecia errado, mas, ao mesmo tempo, não fazer nada também parecia um erro. Eu precisava de respostas, mas todas as perguntas estavam enterradas em segredos que minha mãe não podia mais revelar.
O dia terminou com um peso insuportável em meu peito. Eu não sabia o que viria a seguir, mas sabia que estava sozinha nessa decisão. E, pela primeira vez, desejei não ter que ser tão forte.
Alice Lewis
Cheguei em casa sentindo como se o mundo estivesse desmoronando sobre mim. Mal fechei a porta, e a realidade da minha vida voltou a me atingir. Meu pequeno apartamento, com paredes que precisavam de uma nova pintura e móveis que já tinham visto dias melhores, parecia ainda mais apertado naquela manhã. Suspirei, jogando a bolsa no sofá e indo direto para a caixa de correio. Era um hábito rotineiro, mas que raramente trazia boas notícias.
Ao abrir, a pilha de contas atrasadas parecia me zombar. Avisos de corte de serviço, cobranças bancárias e cartas de cobrança preenchiam o pequeno espaço. Peguei tudo e voltei para dentro, jogando os papéis sobre a mesa da cozinha. Por um momento, encarei aquela bagunça, pensando se um dia conseguiria resolver aquilo. E se aceitar a proposta do Arthur fosse uma forma de finalmente organizar minha vida? Resolveria as contas, salvaria minha mãe e talvez tivesse uma chance de recomeçar. Mas, ao mesmo tempo, era um preço alto demais a pagar.
Sem saber o que fazer ou com quem desabafar, peguei meu celular e disquei para a única pessoa que podia ouvir toda aquela loucura sem me julgar: minha melhor amiga, Clara. Ela atendeu no terceiro toque, com a voz animada como sempre.
- Alice! Finalmente resolveu dar as caras. Onde você tem se metido? - Clara perguntou, em tom de brincadeira.
- Clara, é uma longa história, e eu realmente preciso de você agora. É... complicado.
O tom da minha voz deve ter chamado sua atenção, porque ela parou de brincar.
- Claro, amiga. Me conta tudo. O que aconteceu?
E eu contei. Contei sobre Arthur, sobre Aurora, sobre o casamento arranjado com um homem perigoso que estava preso e que logo seria solto. Clara não me interrompeu, mas eu conseguia ouvir a incredulidade no silêncio do outro lado da linha.
- Alice, você tem certeza de que não está ficando louca? Tipo, isso é muito... novela mexicana.
- Eu sei! - Exclamei, exasperada. - Eu também achei que fosse alguma pegadinha, mas é real, Clara. Eu vi as fotos, vi os documentos. Ele é mesmo meu pai, e Aurora existe. Eu nem sei o que pensar.
Clara ficou em silêncio por um instante, digerindo a história.
- Ok, ok. Vamos supor que tudo isso seja verdade. Você realmente vai fingir ser sua irmã? Vai se casar com esse cara?
- Não sei! Eu não quero fingir ser Aurora, muito menos me casar com o noivo dela. Isso é... é errado. E dormir com ele? Nem pensar!- Minha voz saiu mais alta do que pretendia.
Clara soltou uma risada curta.
- Ah, Alice... Virgens geralmente pensam assim.
Senti meu rosto esquentar. Era difícil admitir isso, mas Clara já sabia, como sempre sabia tudo sobre mim.
- Não é só isso, Clara. - Respondi, a voz mais baixa. - Ele é perigoso. Ele está preso, Clara! Preso! E vai ser solto em breve. Como eu posso confiar em alguém assim? E se ele for um louco insensível?
- Ok, ok, entendi. Isso realmente é assustador. Mas você não precisa decidir agora, certo?
- Arthur quer uma resposta até amanhã. Eu nem sei o que dizer. Se eu não aceitar, ele disse que as coisas podem piorar.
Clara ficou em silêncio por um momento, provavelmente tentando encontrar algo que pudesse me ajudar. Quando finalmente falou, sua voz tinha aquele tom decidido que ela usava quando tinha uma ideia.
- Olha, Alice, se você não quer trepar com o noivo da sua irmã, por que não faz isso com outra pessoa antes? Algo menos... carregado. Alguém que você escolha.
- Clara! - Exclamei, chocada. Meu rosto devia estar vermelho como um tomate.
- Sério! Vamos sair hoje à noite. Beber um pouco, olhar uns caras bonitos. Mesmo que você não faça nada, pelo menos vai esquecer essa história louca por algumas horas. O que me diz?
Eu hesitei. A ideia parecia absurda, mas talvez fosse exatamente do que eu precisava. Algo para tirar minha mente de todo aquele caos.
- Ok. - Respondi, suspirando. - Mas não prometo nada, Clara.
- Sem promessas, amiga. Apenas confie em mim.
Desliguei o telefone e olhei para as contas espalhadas na mesa. Minha vida estava um caos completo, mas talvez, por uma noite, eu pudesse fingir que tudo estava bem. Talvez, apenas talvez, eu pudesse me permitir respirar.