Abby
Dois anos antes...
- Você entende o porquê, não é, filha?
Mamãe pergunta com pesar, mas eu só consigo pensar que hoje deveria ser o dia mais feliz da minha vida. Porque exatamente hoje estou fazendo dezoito anos. Contudo, ao abrir os meus olhos nessa manhã lindamente ensolarada, empacotei todos os meus sonhos e os guardei cuidadosamente dentro de uma mochila.
Sim, eu estava pronta para seguir viagem. Eu só precisava fazer a última prova do meu último ano no colegial e ingressar em uma faculdade de administração. Entretanto, a voz cautelosa e sussurrada de minha mãe me diz que não. Que eu preciso me esquecer do meu futuro, largar todos os meus sonhos e salvar todos os membros da minha família.
- O seu pai está doente, Abby. - Ela diz com uma voz trêmula e um pouco embarga. - E ele já não pode mais colocar o alimento em nossa mesa.
Suspiro baixo, sentindo um nó sufocar a minha garganta.
- Você é a nossa única esperança, filha. Se você não for com Senhor Leone agora, todos morreremos de fome.
E é isso.
O meu destino já está traçado. E o meu sacrifício salvará meus quatro irmãos pequenos da fome e da miséria. E ainda, renderá um tratamento de saúde para o meu pai. Além disso, lhes dará uma vida digna. Mas como eu disse, para isso acontecer terei que me casar com o mais cruel, desprezível e poderoso homem dessa cidade. Pensar nisso, faz o nó sufocar ainda mais a minha garganta.
Entretanto, me pego fazendo um sim para ela.
- Eu entendo, mamãe. - Solto uma afirmação trêmula, enquanto tento secar as lágrimas dolorosas, que impiedosamente escorrem pelo seu rosto.
Eu queria poder estar forte por ela agora. Queria que ela soubesse que vai ficar tudo bem. E mesmo quando algumas lágrimas escapam dos seus olhos, ela sorri para mim.
- Acredite, Abby, você será tratada como uma rainha naquela casa luxuosa. E terá todo o conforto para o resto de sua vida.
Deus, eu espero que ela esteja certa. Que a minha felicidade esteja realmente escrita nesse novo caminho que preciso trilhar. Penso quando a porta da minha casa se abre e um homem imponente passa por ela. Entretanto, o seu olhar endurecido me encara. Avalia-me as minhas vestes simples. Sua feição sempre rígida demais se desenha diante dos meus olhos e eu penso que o meu mundo encantado acaba de desabar. Logo alguns homens invadem a casa humilde e um deles segura a pequena mala que está em um canto de parede, contendo as poucas roupas que tenho.
- Você precisa mesmo ir com ele? - Desperto quando Anne, minha irmã caçula pergunta aos sussurros e prontamente me agacho para ficar da sua altura.
Sorrio, porque não quero que ela tenha medo desse momento tão obscuro da minha vida. Portanto, começo a ajeitar algumas mechas loiras e desgrenhadas dos seus cabelos atrás da sua orelha.
- Sim, eu preciso ir, querida. - Forço mais um sorriso para que ela saiba que está tudo bem.
Que tudo vai ficar bem.
Eu não quero deixá-la preocupada comigo. Não quando eu sou sua irmã mais velha e não é justo que a minha pequenina tenha essa preocupação.
- Quando você vai voltar, Abby? - Eduard inquire, enquanto me abraça apertado.
- Talvez demore um pouco para isso acontecer. Mas quero que saiba que eu te amo muito, e que nunca irei te esquecer.
- Eu também te amo!
Beijo calidamente a sua bochecha.
- Eu quero pedir uma coisa muito especial para você - falo para o Lucke, meu irmão do meio.
- O que você quiser, irmãzinha.
- Preciso que você seja o homem dessa casa, enquanto o papai não melhora. Você consegue fazer isso?
- Eu consigo.
Abby
Catorze anos. Ele não deveria ter tal responsabilidade sobre os seus ombros, mas é preciso.
- Quero que vocês estudem, Lucke. Estou fazendo isso por vocês. Então, faça com que todos tenham um lindo futuro.
- Está bem.
- E quero que cuide da nossa mãe e do nosso pai, também. - Ele faz um sim com a cabeça.
- Já chega, precisamos ir! - Vitório solta um rosnado assustador, usando um tom firme na voz e os poucos segundos que me restaram, os abracei coletivamente, do jeito que pude.
Dentro de um carro espaçoso e luxuoso, me concentro em olhar pela janela, enquanto lágrimas quentes molham o meu rosto. Contudo, seguro alguns soluços, porque não quero mostrar-lhe a minha vulnerabilidade.
O meu futuro é incerto ao lado do Senhor Vittorio Leone.
Tudo o que sei sobre esse homem é que a sua crueldade não tem limites. Um mafioso capaz de fazer qualquer coisa para manter seu reinado e poderio intacto. E isso inclui destruir todos que se atreverem entrar no seu caminho. Desperto dos meus pensamentos perturbadores quando sinto o toque quente da sua mão pesada sobre a minha. Puxo uma respiração profunda para engolir o meu choro silencioso.
- Você precisa saber de algumas coisas sobre mim, Abby. Além de você, tenho mais duas esposas. - Vittorio diz com um tom seco e não menos rude. Em silêncio, seco as minhas lágrimas, mas continuo com o meu olhar fixo na janela do carro. - Não se preocupe, você jamais será tratada como a minha amante porque é muito especial para mim.
Engulo em seco. Engulo o meu choro.
- Contudo, quero que saiba que jamais a usarei para me dar herdeiros. Eu já tenho dois. E isso já me basta.
Sinto o toque dos seus dedos debaixo do meu queixo e no ato, Vittorio me faz olhar dentro dos seus olhos. O seu polegar captura uma lágrima desgarrada.
- Não me olhe como se você fosse uma coelhinha assustada, Abby- sussurra áspero. - Você não faz ideia do quanto a amo. De que eu te amei no momento que te vi no meio daquela feira agitada. Tão perdida. Tão sofrida. Precisando dos meus cuidados. Deus sabe que a desejei com todo o meu ser. Que eu te quis para mim. E é por isso que você está aqui comigo agora.
Meu coração dispara feito um louco quando Vittorio aproxima do seu rosto do meu.
- Você mexeu comigo de um jeito que eu não sei explicar, Coelhinha. - Volta a sussurrar. E logo o seu hálito quente bate contra a minha pele, fazendo-me arrepiar inteira. - É incontrolável. É absurdo. E me faz queimar por dentro, linda mia.
Seguro um soluço.
- Ah, Abby, não fique assim. Entenda que você nasceu para mim. E eu prometo que nunca irei dividi-la com mais ninguém. Nem mesmo com um filho.
E na sequência, é como se recebesse o beijo da própria morte direto nos meus lábios. E quando ele se afasta, e tira a sua mão de cima da minha, sinto que estou algemada para sempre a sua vida obscura.
... Acredite, Abby, você será tratada como uma rainha naquela casa luxuosa. E terá todo o conforto que precisar para o resto de sua vida.
Mamãe não estava errada. Penso quando o veículo para em frente a uma mansão extremamente luxuosa, cercada por um imenso jardim verdejante e com poucas flores, além de algumas árvores. Do lado de fora, observo os seus muros altos, ladeados por cercas elétricas. E dentro deles tem homens armados e espalhados por todos os lados.
Uma prisão. Penso consternada, pois não há como escapar desse lugar mesmo que eu quisesse.
Logo sinto o seu toque firme na base da minha coluna e sou imediatamente guiada para dentro do casarão, onde alguns empregados usando uniformes já nos aguardam enfileirados, além de duas mulheres bem-vestidas.
Um rei.
É exatamente assim que eles o olham à espera de suas ordens. E inevitavelmente os meus olhos percorrem por cada parte da sala de estar. Um cômodo amplo demais, bem iluminado e decorado com um requinte exorbitante.
- Quero que vocês conheçam a Abby Niccolo. - Vittorio diz, atraindo a minha atenção para as pessoas em pé na nossa frente. - Em poucos dias ela se tornará a minha nova esposa.
Percebo os olhares altivos das mulheres caírem sobre mim.
- Vocês já sabem como isso funciona, certo? Ava, eu quero que a leve para o seu quarto agora. Quero que lhe dê um banho, que vista algo apropriado e digno da esposa do Senhor dessa casa. E depois, dê-lhe algo para comer. Enfim, a noite eu a quero no meu escritório para uma cerimônia rápida e formal.
Abaixo a minha cabeça para essa última parte. E sequer consigo engolir o nó que está em minha garganta. Penso que as algemas que puseram nos meus pulsos logo ficarão ainda mais apertadas.
- Sim, Senhor Leone! Venha comigo, Abby. - A garota pede, levando-me na direção de uma escadaria. Contudo, Vittorio continua a dar as suas ordens.
- Vocês já me conhecem e já sabem como eu sou. Portanto, quero que ensine para Abby tudo que uma esposa submissa precisa saber.
- Certo, marido! - Escuto as mulheres dizerem sem contestá-lo, mantendo seus olhares abaixados.
Do topo da escadaria, dou uma olhada de lado no exato momento que duas crianças adentram a sala e correm para os braços do mafioso. Diferente de como falara com seus empregados e esposas, Vittorio age com carinho com elas, dando-lhes beijos e até a sua voz abranda um pouco.
Pelo menos ele tem um lado humano. Penso antes de adentrar um quarto no final de um corredor comprido.
Blade
...
O silêncio é quebrado pelos gritos agudos. Não são simples gritos: são gritos que me dilaceram por dentro todos os dias – repetidas vezes. Que queimam a minha pele e que rasgam o meu coração em mil pedaços.
- Papai! Papai, me ajuda! - A voz infantil ecoa dentro da minha mente como lâminas afiadas, cortando o ar.
Corro desesperado. Contudo, o cenário se dissolve em sombras escuras e distorcidas, como um maldito labirinto sem saída. Cada passo me afasta dela. Cada tentativa de encontrá-la é inútil. Entretanto, o som das suas súplicas aumenta. É desesperador. Até que sinto a minha respiração falhar.
- Papai, não me deixe!
...
Acordo em um sobressalto. A tensão angustiante me faz levar as mãos para o meu rosto em uma tentativa de me acalmar. Respiro fundo algumas vezes e segundos depois levanto-me da cadeira executiva, e caminho até a parede de vidro do amplo escritório. Ponho as mãos nos bolsos e fito o céu escuro.
- Está tudo pronto, Blade. - Vicenzo, meu irmão mais novo e chefe da minha segurança, avisa, entrando de repente no meu escritório, dentro de uma danceteria. Contudo, permaneço de costas para ele, apenas observando a noite desprovida de estrelas.
Lembrar que perdi tudo na mesma noite em que os gritos da minha família se calaram é o atormento que carrego comigo – e não estou falando de dinheiro ou de bens materiais. Estou falando sobre o meu tudo. A minha vida. Desde então não tenho paz e o silêncio me mata um pouco a cada dia. Uma decisão errada trouxe o caos e a destruição, e, desde então, acordo com os gritos das pessoas que mais amei nesse mundo. Mas isso não é tudo. O olhar frio e implacável do homem que roubou a minha felicidade de forma cruel e desumana está sempre me acompanhando. Aquele olhar me assombra, me consome e me lembra de que a justiça que o mundo me negou só poderá vir pelas minhas próprias mãos.
- Solte o som, Vicenzo - ordeno baixo e calmo, ainda sem olhá-lo.
Para chegar até aqui precisei tornar-me um homem vil e impiedoso. Cada inimigo que derrubei foi mais um tijolo na fortaleza que construí em torno de mim. Hoje sou temido e respeitado, mas nada disso preenche o vazio dentro de mim ou acalma a fúria que arde em minhas entranhas. Entretanto, estou pronto para pôr o meu plano de vingança em prática e eu até já tenho o meu alvo.
Penso, olhando fixo para a linda mulher que entra na minha boate de braços dados com o poderoso Vittorio Leone.
- Ele chegou, chefe. - Alguém avisa o óbvio, e finalmente viro-me para encará-los.
- Ótimo. Já sabem o que fazer - rosno. Vicenzo faz um gesto para o seu homem, que sai imediatamente. - Leve-o para a sala VIP e sirva o melhor da casa para ele e seus convidados.
- Certo. - Sem me contestar, Vicenzo me dá as costas e se dirige à saída.
- Vicenzo? - O chamo quando ele alcança a passagem. - Não se esqueça de verificar as câmeras e os microfones. Nada pode escapar esta noite.
- Pode deixar, irmão.
Dito isso, ele sai, fechando a porta atrás de si. No instante seguinte, deixo o meu esconderijo e sigo para uma escadaria metálica do segundo andar, onde fica o meu refúgio: uma antessala de paredes e portas de vidro escuro, de onde observo a multidão jovem animada, confundindo-se entre flashes e luzes néon que correm pelo amplo salão. Não demora e a minha diversão começa - e, acredite, não estou falando dos pecados carnais, como as bebedeiras e o sexo sujo.
Eu sou a própria escuridão e gosto de observar os segredos mais profundos que somente os poderosos tentam esconder. É assim que obtenho controle sobre suas vidas e mantenho os meus inimigos presos a mim.
- Caramba, ela é muito linda! - Vicenzo sibila, extasiado, fazendo-me olhar para outra direção.
Abby Leone. Aproximo-me da parede escura para observá-la melhor. Ele tem razão, é extremamente linda e sem perceber, é sexy também. Contudo, ela se parece com um bichinho assustado. Mas, a sua beleza jovial transcende qualquer medo que busque esconder. É impossível não devorá-la com os meus olhos: essa mulher parece irradiar luz por todos os poros - uma luz que atravessa até mesmo a blindagem desses vidros. E isso me inquieta.
Volto a mirar no seu marido: na maneira como ele fala com seus comparsas. No tom que usa para impor o poder que juga ilimitado. O jogo sujo envolvendo dinheiro, armas e mulheres.
- Esta noite será longa. - Vicenzo resmunga, oferecendo-me uma bebida, que eu aceito sem contestar.
O que ele não sabe é que a noite é o meu reinado. Ela nunca me cansa. Não me limita. Pelo contrário: a escuridão da noite me revigora, alimenta o meu poder e a minha sede de vingança. Enquanto bebo o líquido amargo, percebo a esposa do chefe da máfia levantar-se. É como se tivesse uma coleira no seu pescoço: Vittorio a mantém em rédeas curtas, sempre sob o seu domínio. Pergunto-me: quanto ele a quer de verdade? Ou o que seria capaz de suportar para mantê-la viva e segura do seu lado?
Em breve eu serei a ameaça viva dessa aliança que ele julga indestrutível. Penso e fecho as mãos em punho.
- Fique de olho no Vittorio, Vicenzo! - ordeno. - Não deixe nenhum de seus atos escapar. Avise a equipe para manter as câmeras sempre ligadas. Eu quero saber tudo o que ele conversar esta noite.
- Tudo está conforme pediu, irmão. Amanhã estará tudo em sua mesa nas primeiras horas do dia.
- Ótimo!
Esvazio o copo, largando-o em cima da minha mesa e na sequência, saio da sala para me aventurar entre corpos suados e agitados. De onde estou, consigo ver Abby Leone. Aparentemente tímida e reclusa. Talvez tudo não passe de um teatro, certo? E como se fosse atraído por ela, decido subir a escadaria ao lado da área VIP para alcançar o terraço, e respirar o ar frio da noite. Contudo, na metade do percurso, paro abrupto diante de uma jovem de olhar grande e assustado.
Estranhamente, essa garota faz o meu coração frio palpitar. O cheiro que ela exala provoca algo estranho dentro de mim: rompe terminações nervosas antes adormecidas e, assim, algo dentro começa a ferver - um calor incontrolável e agoniante que não consigo controlar.
Engulo em seco, mas mantenho o meu olhar gélido no seu.
- Me desculpe! - diz ela. A sua voz trêmula e suave preenchendo os meus ouvidos. Despertando em mim um ser que não via há anos. - Acho que... errei o caminho. Eu deveria ir à área VIP, mas por algum motivo vim parar aqui...
- A área VIP fica do outro lado - informo e aponto a direção.
- Ah... obrigada! - Abby sorri, trêmula. É um sorriso pequeno, tímido, nitidamente forçado.
Ela tenta passar por mim, mas, sem explicação, dou alguns passos de lado, impedindo a sua passagem, ainda mantendo o olhar firme fixo no seu rosto pálido. Seu olhar vacila e volta a encontrar o meu. Contudo, vejo medo em suas retinas.
Mas medo de quê?
De quem?
- Eu... preciso ir - ela repete. E, por mais firme que sua voz soe, o tremor é quase palpável. Afasto-me e ela passa por mim como um raio, deixando um rastro do seu perfume para trás.
- Aquela não era a esposa do Vittorio Leone? - Vicenzo indaga do alto da escadaria, despertando-me. Subo os degraus em direção ao escritório.
- Ela mesma - ralho com fingido desdém, trincando o maxilar.
- Por que a deixou ir embora? - ele contesta, surpreso.
A resposta é bem simples: eu não sei. Bastava um sinal meu e ela simplesmente desapareceria da face da terra.
- Sim, eu deixei.
- Mas eu pensei que...
- Tudo a seu tempo, meu caro irmão. Tudo a seu tempo - resmungo, calmo, observando Abby voltar para os braços do meu inimigo, enquanto ele afaga as suas costas com carinho.