Prólogo
Salvatore D'Aquila
"Eu estava a um centímetro de seus lábios. Eu olhava para aqueles lindos olhos que estavam semicerrados esperando um beijo meu. Me aproximei lentamente, envolvendo-a em meu abraço, minha língua avançou um pouco encontrando com a dela em uma dança sensual, a minha salvadora, o meu anjo gemia se entregando para mim. Um sonho que finalmente se tornava real."
Capítulo 1
Anna Bellucci
Eu tinha acabado de sair da Universidade, tinha ido para o ensaio de final de ano. Ajeitei as partituras em minha pasta e apressei os passos. Era uma caminhada de menos de vinte minuto até em casa.
Apesar das quatro estações, estarem tocando no meu fone de ouvido, a distância escutei freadas bruscas, um arrepio percorreu meu corpo. Não era tarde da noite, mas as ruas ficavam pacatas e poucas pessoas se arriscavam a te ajudar se você precisasse. Tudo culpa da Sacra Corona Unita, uma das máfias mais potentes. Assim todos diziam, eu tentava acreditar que isto era exagero.
Eu não frequentava os lugares que eles dominavam e eu não saia para outro lugar que não fosse casa, igreja, faculdade de música e o orfanato.
Ajustei os meus fones no ouvido, enquanto descia para a Bari Vecchia. Esta parte da cidade era um labirinto, que eu conhecia muito bem. Eu desci uma escada para a pequena rua de pedras. Era um pouco escuro, mas passando por lá, eu chegaria mais rápido em casa. Quando virei à direita, vi alguns homens batendo em alguém. Eu deveria ter corrido, mas eu não conseguiria ir embora e deixar alguém em perigo. Então, enchi meu pulmão de ar e buscando coragem gritei:
- Polícia! Por aqui, eles estão aqui!
Os homens se viraram em minha direção por um segundo. Eu congelei e somente então, vi que alguém estava caído e muito machucado. Um homem apontou a arma para mim, mas outro imediatamente cochichou algo em seu ouvido e eles correram na outra direção.
Eu me aproximei do corpo caído, apoiei sua cabeça no meu colo. Enquanto eu tirava lenços umedecidos da minha bolsa e limpava o seu rosto eu tentava falar com ele.
- Ei, você consegue me dizer como se chama?
Eu queria apenas me certificar de que ele não estava morto. Tremi com a possibilidade, mas logo o alívio veio quando ele levantou sua mão e tocou meu rosto. Seus olhos estavam nos meus. Ele murmurou:
- Meu anjo salvador...
Mesmo fraca a sua voz era grave. Ele realmente era muito bonito. Peguei meu telefone para chamar a polícia. Mas alguém o retirou da minha mão.
- Eu vou gritar....
- Não tema, garota. Você o encontrou? - o homem ajoelhado a minha frente tocava o outro e me olhava sério.
- Sim, tinham homens por aqui, estavam agredindo-o. Ele não disse muito, mas está respirando...
O homem sorriu. E entregou meu celular.
- Salvatore tem mais de sete vidas. Claro que ele está respirando. Como você se chama?
Eu estava fora do meu estado normal, provavelmente eu ainda estava em choque por tudo. Afinal eu estava sentada no chão, com um estranho desacordado e ferido em meus braços, tendo uma conversa com outro desconhecido.
- Anna. - Eu não consegui mentir.
- O que fez eles escaparem?
- Eu gritei que a polícia estava aqui.
O homem soltou uma risada desacreditada. Mas antes que eu pudesse dizer algo mais, uma dezena de homens chegaram e eles se aproximaram carregando Salvatore para o carro. Eu me levantei apressada, eu precisava sair dali.
- Muito prazer, Anna. Eu sou Raffaele Gotti. Melhor amigo e braço direito de Salvatore. Permita-me te levar em casa. - ele estendeu a mão para mim.
- Eu não vou entrar no carro...
- Tudo bem. Eu vou te acompanhar até a sua casa, vamos a pé se quiser.
- Não precisa, em dez minutos estarei lá.
- Escute, conheço Salvatore e ele não me perdoará se souber que eu não te acompanhei.
Eu mesmo com medo, concordei. Ele assim o fez, caminhou ao meu lado até a porta da minha casa. Eu agradeci por ele ter mantido silêncio. Quando cheguei no portão de casa, ele disse:
- Eles viram você?
A pergunta tinha me pegado de surpresa, após me recuperar eu apenas fiz que sim com a cabeça.
- Vou esperar você entrar. Boa noite, Anna.
- Boa noite.
Entrei e fechei a porta apressada. Agradeci por vovó estar dormindo. Se ele descobrisse o que eu tinha presenciado naquela noite, eu não sairia mais de casa. Tive dificuldade de dormir. Uma angústia estava pairando no peito.
***
No dia seguinte agradeci por vovó ter ido para a missa. Assim ela não me perguntaria sobre a noite passada. Voltaria cheia de novidades da paróquia e não me indagaria quando eu voltasse da faculdade.
Eu ainda estava angustiada, imagens da noite passada ainda estavam frescas em minha mente. Eu precisava me concentrar nos estudos. Voltar para a minha vida, apagar aquelas horas.
Peguei minha mochila e sai de casa. Comecei a caminhar, mas não fiz dois passos até que um carro se encostasse perto de mim. Olhei assustada para o Bentley Mulsanne preto, o vidro do banco de trás abaixou lentamente revelando um rosto da noite passada.
Salvatore- pensei.
- Anna...
Eu olhei assustada para ele. Eu estava paralisada mais uma vez perdida ao ouvir sua voz.
- Entre, vou te levar. - ele falou enquanto abria porta.
- Não, obrigada.
- Por favor, eu insisto. Tenho que te agradecer.
Eu parei de caminhar e olhei para ele. Pelo jeito ele estaria disposto a continuar por muito mais tempo aquela cena. Os vizinhos já estavam olhando pela janela. Respirei fundo e entrei rapidamente no carro.
Ele sorriu e estendeu a mão para mim.
- Prazer, sou Salvatore D'Aquila. - Estendi minha mão para ele enquanto ele falava.
- Anna Bellucci. Prazer.
O carro estava em movimento e eu ainda estava hipnotizada olhando o rosto bonito de Salvatore, mesmo com alguns machucados e inchados era visível a sua beleza.
- Agradeço por sua coragem na noite passada.
Meu rosto ficou quente e eu sabia que naquele momento eu estava vermelha. Ele olhava divertido o meu constrangimento.
- Eu não fiz nada demais.
- Você se arriscou por mim. Estou em débito com você. Você não pode sair por aí sozinha, principalmente à noite.
- Eu sempre saí sozinha. Eu ...
O carro parou, eu olhei para fora e estávamos na frente da minha universidade. Eu não tinha dito para ele onde eu estava indo. Mas ele já sabia. Por tudo o que tinha acontecido ontem e seu comportamento naquele momento, eu tinha minhas desconfianças. Ele me olhava e sorria. Eu não disse mais nada, abri a porta. Desci apressada, mas me atrapalhei tropeçando e quase caindo. Mal entendi quando fui amparada por braços fortes. Raffaele me segurou e sorriu. Salvatore ficou ao seu lado e pude ver o quanto ele era ainda mais imponente.
- Boa aula, Anna. - Ele se aproximou e beijou minha bochecha, me deixando sem palavras.
Virando-se para Raffaele ele calmamente disse:
- Quero que ela seja protegida o tempo todo. Todos os lugares que ela for, os meus homens devem segui-la.
- Eu não quero isto! - Falei bem mais alto que eu gostaria atraindo olhares de alguns colegas para a cena.
Ele apenas me ignorou e entrou no carro com Rafaelle. Eu estava nervosa e totalmente envergonhada por ser o centro das atenções enquanto eu entrava para o pátio.
Era impossível não chamar atenção, eu tinha cinco brutamontes em ternos pretos me seguindo. Todos desconfiam de quem eram aqueles homens, do que eles faziam parte. Os seus homens entraram comigo para a faculdade, nem mesmo na sala de aula eu tinha paz. Meus colegas estavam sempre cochichando a respeito. Os professores sempre irritados. Mas estranhamente ninguém tinha coragem de falar em voz alta ou fazer algo a respeito.
Eu tentei pedir para que se afastassem, que ficassem longe. Mas um deles apenas respondeu que seguia ordens do chefe Salvatore.
Claro, Salvatore! Eu não sabia exatamente o que a Máfia fazia, eu tinha minhas desconfianças claro, já tinha assistido filmes, eu já tinha escutado rumores. Mas tudo parecia tão surreal, tão longe da vida pacata que eu levava.
E em uma noite, com um ato samaritano eu trouxe para minha vida um mafioso. Eu tive esperanças de que ele me deixaria em paz, esqueceria esta história de me proteger. Mas eu estava enganada.
No dia seguinte, ele não apareceu, mas mandou um motorista em um carro luxuoso. Obviamente, eu me recusei a entrar no carro. Naquele mesmo momento meu telefone tocou e ele apenas disse:
- Entre no carro! Ou eu mesmo vou aí te pegar nos braços e te colocar em segurança!
Eu fiquei assustada, não sabia se pelo fato que Salvatore realmente faria isto ou pelo fato que eu realmente poderia estar em risco. Eu não disse nada, voltei para o carro que me esperava. Quando o motorista abriu a porta para mim, Salvatore do outro lado da linha disse apenas.
- Melhor assim. Tem algo para você no carro. Tenha um bom dia, Anna.
Ele não esperou por uma resposta minha e desligou. Somente aí percebi a rosa vermelha e uma pequena caixa acompanhada de um pequeno bilhete.
Ansiosa eu peguei o bilhete e comecei a ler: ...Non sono un angelo, né un genio, né un fantasma... (Gaston Leroux, Il fantasma dell'Opera
"...Não sou um anjo, nem um gênio, nem um fantasma..." - O fantasma da Ópera
Eu conhecia bem este trecho, aquela opera. Pelo jeito ele gostava de ler. Sorri. Peguei a caixa e abri. Dentro estava um colar com um pingente delicado em forma de clave de sol. Eu tinha amado o gesto. Eu peguei o telefone a agradeci por mensagem.
A partir daí virou rotina, carros luxuosos, uma rosa vermelha, o trecho de uma opera ou um poema. Eu escrevia e ele respondia. E seguíamos falando sobre arte, sobre a vida, de tudo. Mas sem aprofundar no seu lado obscuro. Eu amava falar com ele, era seguro por mensagem, não ter aqueles olhos intensos sobre mim.
Mas passaram alguns dias em que ele nada escreveu, apenas a rosa foi enviada. Me senti estranha. Até mesmo, abandonada. Então me dei conta, a quão patética eu estava sendo. Um homem como ele não acharia graça em uma garota como eu por muito tempo. Ele tinha perdido o interesse e eu precisava seguir. Foi então que cansada de tudo decidi quebrar sua regra.
Um dia após a aula, cansada de toda a situação em que eu mesma tinha me metido sozinha, pulei da janela de trás da sala do anfiteatro e corri para a rua. Conseguindo pegar um ônibus. Eu estava feliz, finalmente livre daquele espetáculo dele. Se eu tivesse escutado o que vovó dizia eu não estaria naquela situação.
Encostei minha cabeça na janela do ônibus, olhando o mar banhar a praia do outro lado da avenida. De repente uma Bugatti La Voiture Noire ultrapassou o ônibus e bruscamente freou. Todos gritaram e motorista do ônibus começou a xingar o motorista do carro esportivo. Mas quando o ocupante do carro luxuoso desceu ajeitando o seu terno caro e caminhou com elegância para dentro do ônibus todos se calaram. Salvatore caminhou lentamente e parou do meu lado.
Ele era irritante, convencido e eu estava muito zangada. Mas ele não me deixaria ali de qualquer maneira. E eu já tinha me dado por vencida. Afinal, ele tinha me tratado bem apesar de seu comportamento protetivo.
Ele estendeu sua mão e esperou tranquilamente. Eu estava perdida, pois segurei sua mão e fui levada para o seu carro. Ele nada disse e partiu estrada a fora acelerando forte, assim como estava acelerado o meu coração.
Eu tinha subido naquele ônibus fugindo e acabei no carro com Salvatore. Ele avançou pela estrada em alta velocidade, muito acima do limite permitido. Eu nunca tinha andado com alguém que quebrasse tantas regras em tão poucos minutos. Seus gestos conduzindo o carro eram seguros, ele parecia à vontade. Eu normalmente tinha medo de desobedecer a qualquer uma das regras a mim impostas.
Mas Salvatore parecia ser feito para desafiar todas as regras que surgissem em sua vida. E de certa forma, algo me atraia para ele.
Eu sabia que estava errado e que Deus me perdoasse, mas eu estava gostando de sentir aquela adrenalina.
- Você não pode sair sozinha!
Ele falou, mas os seus olhos estavam na estrada.
- Eu não preciso que você me proteja. - respondi prontamente.
Ele deu um sorriso torto. Mas nada falou. A voz melancólica de Lana Del Rey cantando Salvatore, estava tocando. A melodia me causava uma estranha sensação e a presença de Salvatore D'Aquila parecia ditar que aquela letra era um presságio, uma advertência.
Eu não era experiente em nada que se tratava do coração, muito menos de pele. Mas ao meu lado estava um homem mais que experiente e letal. Não pela arma que eu vi escondida em sua jaqueta, mas ele era letal apenas por ser quem era. Salvatore possuía a beleza de uma escultura de Canova. Seu corpo alto e forte, seus densos cabelos negros e seu olhar escuro davam a ele uma beleza que não passava despercebida.
Ele parou o carro, tínhamos chegado no Castello Normanno. Ele não disse nada, desceu do carro e abriu a porta para mim, estendendo a sua mão. Eu nem deveria ter entrado em seu carro, mas lá estava eu. A curiosidade era um pecado? Salvatore me instigava a querer conhecê-lo.
Caminhamos de mãos dadas até a parte mais alta do castelo.
- Você ama música. Sempre tocou piano?
- Sim. O meu sonho é tocar na Orquestra de San Remo. Eu sempre assisto as apresentações pela TV e eu me imagino fazendo parte ...
Parei de falar, eu estava sendo estupida falando sem parar. Ele me olhava atentamente ainda segurando a minha mão.
- Um sonho bobo. - falei enquanto tirava minha mão da dele.
Me virei observando o imenso mar a nossa frente.
- Não é um sonho bobo, Anna. Gostaria de te ver tocando algum dia.
Tudo era muito estranho, toda quela situação entre nós. Não fazia sentido algum.
- Salvatore, eu não posso ser seguida o tempo todo. Você não pode me forçar a fazer tudo do seu jeito. Mal nos conhecemos.
- Por isto eu te trouxe aqui. Para conversarmos, para mim é essencial que você confie em mim. Pois, eu preciso te proteger.
- Eu não preciso de proteção, não faço parte do seu mundo...
Ele se aproximou de mim, tirando uma mexa de cabelo do meu rosto quando começou a falar:
- Infelizmente, agora faz.
- Eu não...
- Quando você me salvou, meu anjo. Você declinou para o meu mundo. Os homens que viram você, poderão atentar contra a sua vida.
Meus joelhos fraquejaram, minhas pernas estavam bambas, me apoiei no muro de pedra.
- Mas eu não fiz nada.
- Se você não tivesse me ajudado, talvez aquele teria sido meu fim. Os meus homens estavam a minha procura, mas me perderam por alguns minutos que poderiam ter sido cruciais.
- Raffaele disse que você tem mais de sete vidas.
Ele riu.
- Algo que dizem por aí. Mas não acredite em tudo o que ouve, anjo. Pergunte, o que quer saber ao meu respeito, vou tentar sanar todas as suas dúvidas.
Respirei fundo. Eu queria saber mais, eu estava curiosa a respeito daquele belo e perigoso homem.
- Você machuca pessoas?
Ele sorriu novamente.
- Você sabe que sim. Naquela noite não fui o único a apanhar, eu me defendi. Geralmente, não perco muitas lutas. Mas naquela noite eu estava embriagado, fiquei em desvantagem quando meus homens me perderam. Foi por isto que corri risco. Pergunte....
Ele alisou meu rosto. E seu toque me causou arrepios.
- Você tem namorada?
- Eu não namoro. E você?
Eu fiquei vermelha, eu sabia que sim. Minhas bochechas estavam quentes demais.
- Nunca namorei.
Ele tensionou o maxilar, como se engolisse o que queria dizer. Mas depois de um silêncio embaraçante ele quebrou o silêncio.
- Você tem mais alguma pergunta? - ele me estudava atentamente.
- Não. - a maneira como ele estava me olhando me deixava nervosa, pois ele olhava meus lábios.
- Preciso te levar para a casa.
Ele não pegou a minha mão na volta para o carro. E o ato me decepcionou um pouco. Eu deveria ter perguntado mais sobre ele. Mas algo na maneira como ele se movia e me olhava me fazia ficar sem fôlego e sentir um calor anormal em meu corpo.
O percurso até minha casa foi silencioso até chegarmos na minha rua.
- Eu vou pedir para que meus homens te deem mais espaço. Mas a proteção continua! Eles apenas manterão uma distância segura para te deixar confortável. Mas nada de fugas!
- Obrigada. Eu prometo que estou tentando aceitar tudo isto.
- Já é um início, Anna.
Eu sorri para ele. E Deus, ele sorrindo para mim, ficava ainda mais bonito. Ele se aproximou lentamente, se curvando sobre mim quando coloquei a mão para abrir o carro.
Eu podia ver os detalhes perfeitos de seu rosto, mesmo com as marcas leves da agressão, ele parecia perfeito demais. Seu olhar era perigoso e o meu coração alterou as batidas quando os seus lábios preguiçosamente passaram pelo meu rosto, pousando um beijo demorado em minha bochecha.
Quando ele se afastou eu estava em transe, olhando para ele que sorria.
- Nos vemos em breve, Anna.
Eu reuni as minhas forças junto com as minhas bolsas e desci do carro fazendo de tudo para não olhar para trás.
Quando entrei em casa, vovó limpou a garganta.
- Boa noite, Anna. Quem era o homem bonito que te trouxe?
Quase pulei do susto, eu pensei que ela estaria dormindo.
- Apenas um amigo da faculdade, vovó. - tentei parecer convincente.
Eu nunca mentia, eu nunca tinha mentido em toda a minha vida. Mas de repente a minha vida já não era como antes.
Ela parecia ter acreditado no que eu disse, pois seguimos por um tempo em uma conversa amigável sobre a quermesse que em breve aconteceria.
Quando fui para a cama, antes de dormir, Salvatore veio a minha mente bagunçar com a minha sanidade.
***
No outro dia quando sai de casa pela manhã, não tinha carro me esperando e eu agradeci por isto. Comecei a caminhar pela rua. Era o meu dia livre da faculdade e eu queria passear um pouco, distrair a minha cabeça de tudo o que estava acontecendo.
Mas o destino reservava algo diferente, pois de uma das pequenas vielas um homem pulou na minha frente e me arrastou com ele para um beco.
Eu não podia gritar, ele estava tampando a minha boca, o pânico tomou conta de mim. Eu tentava escapar, mas ele era muito mais forte do que eu. Lembrei das palavras de Salvatore me advertindo sobre os riscos que eu estava correndo. Lágrimas desceram do meu rosto, minha bolsa estava jogada no chão e o homem se esfregava em meu corpo.
- Fique quietinha, vai ser melhor...
Um disparo foi feito, o homem que me segurava caiu no chão gemendo e eu gritei. Na minha frente estava Salvatore com um olhar totalmente diferente do que eu já tinha visto. Ele me segurou me puxando para atrás dele.
- Eu vou te matar bastardo! A próxima bala vai ser no coração!
Ele apontou a arma para o homem que só gemia de dor. Sem pensar eu puxei a camisa de Salvatore.
- Salvatore, por favor, não o mate... não quero isto.
Ele parecia travar uma luta interna. Mas me puxou para os seus braços e me tirou dali, me levando para o seu carro. Ele acelerou, e eu estava tremendo, limpando as lágrimas que desciam. Eu não conhecia Salvatore, o pouco que tivemos por mensagens, por conversas não eram o bastante.
- Você está bem? Escute, sinto muito por isto. Eu posso te levar para algum lugar divertido...
Ainda com a adrenalina e a dor em meu peito, eu disse:
- Eu quero te conhecer, quero ver o seu mundo.
Ele parou o carro bruscamente e me olhou por um momento, secando minhas lágrimas. Foram longos os minutos que antecederam a sua fala:
- Tudo bem. Vou te levar para um acerto de contas. Mas será do meu jeito, você vai obedecer e ficará em segurança.
Eu apenas concordei e ele voltou o carro para a estrada. Até parar de frente a um galpão abandonado. Descemos e ele segurou a minha mão me levando para dentro. Os seus homens estavam lá, eu já conhecia muitos deles. Raffaele se aproximou, me olhou, mas suas palavras foram para Salvatore.
-Os homens vão desarmá-los assim que entrarem, assim será seguro para que você desça.
Rafaelle apontou para baixo, mostrando os homens entrando em ação. Tudo foi muito rápido alguns homens entraram no galpão sendo surpreendidos e rendidos por vários homens de Salvatore, a luta teve início.
Vi que eram os mesmos homens que agrediram Salvatore e rapidamente falei.
- São os homens daquela noite, que te machucaram.
Raffaele, desceu correndo as escadas. Salvatore tirou algo de seu bolso e colocou em meus ouvidos, me entregando seu celular.
- As coisas ficarão violentas, se sentir medo escute a música que preparei para você.
Ele beijou minha testa e desceu as escadas. Eu vi quando um homem avançou para cima dele. Mas ele rapidamente o acertou com um soco nocauteando-o. Ele seguiu, em ação. Todos combateram, realmente eles não estavam usando armas. Talvez porque queriam informações e matar não ajudaria, comecei a imaginar. Minhas mãos tremiam e eu aumentei o volume.
Eu estava ouvindo Beethoven, como trilha sonora para a cena violenta que eu estava assistindo, como se fosse um filme do cinema. Estranhamente meus olhos não saíram de cima de Salvatore, ele era uma máquina potente, sagaz e violenta. Sua camisa estava cheia de sangue e não era o dele. Ele ergueu o seu olhar e sorriu para mim, isto fez o meu coração falhar por um segundo, eu estava atraída por ele. A sua violência já não me parecia tão assustadora e eu queria ficar mais perto de Salvatore.
Depois daquela briga no galpão, Salvatore se limpou e veio até mim, depois de ter ficado um tempo interrogando os homens que foram rendidos por eles.
Ele estava com um pequeno corte no lábio e quando se aproximou vi que os nós de seus dedos estavam inchados. Era errado, mas eu estava achando-o sensual naquele momento em que sorria para mim.
- Achei que você sairia correndo, Anjo. - ele disse tocando o meu rosto, erguendo-o para ele.
Tentei voltar a respirar.
-Eu ouvi Beethoven. - foi o que consegui dizer e ele sorriu.
- Venha, vou te levar em um lugar.
Entramos no carro e ele manteve o silêncio. Eu ainda estava tremendo, mas estranhamente feliz por ele estar bem. Ele me levou para um pequeno restaurante na parte alta da cidade. Ele ainda tinha sangue em sua camisa, mas ninguém ousava encará-lo quando entramos no local. Fomos muito bem recebidos. Quando fizemos nossos pedidos ele segurou minha mão sobre a mesa.
- Hoje te mostrei um pouco do meu mundo e você me surpreendeu. Aliás desde que te conheci você me surpreende.
Eu sorri sentindo as minhas bochechas quentes.
- Eu estava curiosa.
- Certo. E eu estou curioso sobre você.
- Você teve acesso a muitas informações sobre mim. E nos últimos dias temos falado muito sobre mim.
- Não tanto quanto eu gostaria de saber.
Abaixei o meu olhar quando vi seus olhos intensos sobre mim. Ele continuou.
- Agora mesmo, gostaria muito de saber o que se passa em sua mente.
- E eu gostaria de saber o que se passa na sua. - disparei e ele sorriu maliciosamente.
- Acredito que o que tenho em mente neste momento talvez não seja o que você espera de mim.
- O que você acha que eu espero?
Ele respirou fundo, soltando o ar pesadamente.
- Anna, eu não sou o pior dos demônios, mas ainda sim, eu sou um. E te corromper é uma grande tentação para mim.
Eu nao acreditava que ele me faria mal, eu tinha entendido isto do momento em que entrei em seu carro naquela manhã, depois do seu incidente com os outros mafiosos.
- Somos amigos. - falei baixo.
Ele sorriu.
- Amigos.
Ele disse a palavra como se estivesse a experimentando pela primeira vez.
Nós prosseguimos o jantar em silêncio. Enquanto saíamos do restaurante ele apenas disse:
- Venha, vou te levar para casa.
Eu esperei seu toque, sua mão na minha, mas nada aconteceu. Eu entrei no carro e admirava a paisagem da minha janela quando senti seu toque em minha mão. Ele só a deixava pelo breve instante no qual ele tinha que passar a marcha. Eu fiquei feliz por sentir seu toque quente em minha pele novamente. Isto estava se tornando um vício. Eu tentei mover meu pensamento e fiz uma pergunta.
- As brigas são sempre assim?
- Esta não foi a mais violenta, se é o que deseja saber. Mas eu não sou um sanguinário, como dizem. Eu não minto dizendo que em minhas mãos não existe sangue. Mas todos que eu mandei ao inferno eram demônios piores do que eu.
Eu estava começando a entender o que ele dizia. Se eu olhasse com meu olhar cristão eu não acharia isto certo. Mas saber que ele elimina pessoas ruins, deixava as coisas diferentes no meu ponto de vista. Salvatore poderia ser um demônio, mas para mim, ele estava sendo um anjo protetor, talvez um vingador.
Quando chegamos na frente da minha casa, ele levou a minha mão que ele segurava em seus lábios e beijou. O beijo foi casto, mas me esquentou o coração e o meu corpo. Mandando em confusão o meu cérebro.
- Boa noite, Anna.
- Boa noite, Salvatore.
Eu saí do carro e entrei em casa sentindo o seu olhar sobre mim.
Eu tive uma noite normal, jantei com vovó e toquei La Traviata a exaustão. E no fim, me peguei tocando Salvatore de Lana del Rey. Parei imediatamente ao perceber o meu deslize. E lá estavam os olhos curiosos de vovó sobre mim.
- Está distraída, querida.
- Eu apenas, quis tocar algo novo vovó. Agora, estou muito cansada, vou dormir.
Beijei sua testa e fui dormir tentando não pensar nele.
***
No dia seguinte quando sai de casa, o carro esportivo de Salvatore me esperava a alguns metros de casa. Sorri ao ver que era ele e entrei recebendo um beijo seu em minha bochecha. Ele como de costume, me entregou uma rosa e piscou para mim enquanto dava partida no carro.
- Bom dia, Anna.
- Bom dia, Salvatore.
- Como foi sua noite?
- Boa. - Eu tinha sonhado com ele. E ao sentir sua pergunta parecia que ele sabia tudo o que tinha acontecido no meu devaneio noturno. - enrubesci.
Ele nada disse apenas sorriu. Eu estava ficando acostumada em ter ele me levando e buscando da faculdade. Estava me acostumando com seu sorriso, com seu toque, eu estava gostando muito de ter Salvatore por perto.
- Eu preciso de mais tempo com você, Anna.
Sua frase repentina me pegou de surpresa me assustando, o que o fez rir.
- Mas você me leva e busca da faculdade todos os dias....
- Não é o bastante, quero te conhecer mais. Eu te disse isto por mensagem. Mas não se preocupe, pensarei em algo.
Não deu tempo para que eu dissesse mais nada. Ele parou o carro na porta da faculdade e ele como de costume beijou minha bochecha. Deu a volta no carro e abriu a porta para mim. Imediatamente identifiquei seus homens começando a me seguir assim que adentrei os portões e ele partiu.
Os meus colegas já não davam tanta importância sobre os seguranças me seguindo. Mas isto não significava que os boatos tinham cessado. Eu ainda era a garota do chefe da Máfia.
O dia tinha passado mais lento do que eu gostaria. Não via a hora de sair da aula, eu tinha trocado algumas mensagens com Salvatore informado que eu sairia um pouco mais cedo para ir ao Orfanato.
Chegada a hora, eu o esperava do lado de fora da faculdade. Apesar de ele ter me falado para esperá-lo dentro. Eu estava na calçada na frente do prédio da faculdade nada poderia acontecer.
Vi um grupo de mulheres se aproximarem, achei que elas entrariam na faculdade, mas elas pararam na minha frente. Todas me olhavam feio e eu assustada não sabia o que fazer.
- Ei, olha ela! Não entendo o que ele viu nela. - uma delas disse.
Uma outra se aproximou ainda mais, tocando uma mecha do meu cabelo. Me encarando com desdém:
- Você deveria se envergonhar de namorar o homem de outra mulher...
Eu não estava entendendo nada, até que uma delas disse.
- Você estragou tudo, bonequinha. Antes o chefe Salvatore tinha tempo para nos dedicar, agora ele fica com você. Uma de nós é quem deveria estar no seu lugar.
Elas esperavam uma reação minha, mas eu não poderia. Eu estava horrorizada com o que elas estavam falando. Salvatore era chefe delas? Eu restei em silêncio, mas isto parecia deixá-las ainda mais furiosas. Eu tentei me afastar, mas uma delas agarrou meu cabelo me puxando. Ela levantou a mão para me bater, eu fechei os olhos esperando um tapa que não veio. Abri os olhos e Salvatore estava apertando com força o seu punho. Os olhos dele mostravam toda sua fúria.
- Eu vou arrebentar qualquer um que tocar nela, isto inclui vocês! Não pensem nem sequer por um segundo que eu perdoarei tal ato, vou feri-las na mesma intensidade.
As mulheres vendo o homem furioso a sua frente, correram. A única que ficou, foi a que Salvatore mantinha presa pelo pulso. Fugiram abandonando a companheira. A mulher estava assustada, na verdade, ela parecia aterrorizada.
- Agora, você! Vou te ensinar uma lição. Você jamais ousará chegar perto dela novamente. Não ousará sequer pensar na Anna.
Ele sacou a sua arma e apontou para a mulher. Em segundos eu me posicionei entre os dois e o abracei.
- Por favor, deixe-a ir, Salvatore. Eu estou bem. Não faça nada.
Ele soltou a mulher e me envolveu em seu corpo musculoso. Mas ainda mantinha a arma apontada para a mulher.