Selene Halloway estava noiva de Cassian Thorn - ou apenas Cas, como ela carinhosamente o apelidara durante a adolescência, quando a paixão intensa e cheia de rebeldia os consumiu. Ambos tinham a mesma idade: vinte e cinco anos, com a pequena diferença de que Cassian era cinco meses mais velho. Selene tinha cabelos negros e uma pele bronzeada que contrastava perfeitamente com seus olhos azul-claros, um detalhe que sempre encantou Cassian desde o dia em que a viu pela primeira vez.
Ele se lembrava nitidamente desse momento, a primeira vez que seus olhos verdes se encontraram com os dela no grande hall da Partenon High School.
Naquela época, Selene era baixa, com os cabelos cortados pouco abaixo do pescoço, pele clara e uma timidez que a tornava alvo das piadas cruéis dos estudantes mais influentes. Tinha acabado de se mudar para Flerks, uma cidade importante, habitada por uma mistura de americanos e alemães. Selene, americana de nascença, destacava-se das outras garotas de um jeito que Cassian nunca tinha experimentado. O destino os colocou lado a lado por acaso, quando esbarraram um no outro nas primeiras duas semanas de aula. A amizade entre eles floresceu rapidamente, muito para o descontentamento das paixões anteriores de Cassian.
Cassian Thorn era o tipo de homem que não passava despercebido. Imagine o homem mais bonito que já viu - e multiplique isso por mil. Cassian era ainda mais impressionante. Alto, talvez vinte centímetros mais alto que Selene, ele tinha um rosto anguloso, cabelos acobreados, olhos verdes intensos e uma pele clara salpicada de sardas, herança de sua mãe. Naquela época, status e poder eram tudo para ele. Capitão do time de basquete, Cassian vivia rodeado de admiração e privilégios. Parte do que Selene conquistou depois, deveu-se à amizade que tinham.
O ensino médio foi uma batalha constante, mas ao final do primeiro ano, Selene já havia se transformado de uma garota tímida na jovem mais popular da escola. Ela trocou a solidão por festas cheias de glamour, afastando-se das pessoas que costumava frequentar. Selene tinha agora as chaves para um novo mundo. Ela não era apenas Selene - era Selene, a namorada de Cassian, a futura senhora Thorn. Os pais de Cassian a adoravam, tratavam-na como uma divindade, e a sabedoria dela a levou a subir, degrau por degrau, até alcançar a mansão da família Thorn quatro anos depois. É fato que Selene Halloway amava Cassian Thorn. Também é fato que Cassian Thorn amava Selene Halloway. Mas, igualmente verdade é que, apesar de todo o amor que sentiam, a fidelidade não era o forte de nenhum dos dois. O relacionamento começou a ruir cedo, mas eles sempre encontravam um jeito de retomar os laços, até que tudo parecia caminhar para a estabilidade - até certo dia.
Cassian tinha um irmão mais velho, que estava estudando fora dos Estados Unidos. Seu nome era Lucian Thorn. Se Cassian era o equilíbrio e a beleza, Lucian era o caos e a tentação. Quando ele voltou para Flerks para assumir os negócios da família, foi o início do fim para o relacionamento de Selene e Cassian. Lucian era o desequilíbrio perfeito, a faísca que incendiaria o que eles levaram cinco anos para construir. E é a partir daqui que a verdadeira história começa.
Como de costume, após uma tempestade em Flerks, o pior havia passado. Nada mais interferiria no dia, exceto os problemas elétricos ocasionais e a retirada das árvores derrubadas pela força implacável da natureza. O asfalto ainda estava molhado, brilhando sob os últimos resquícios de luz, e o vento, forte e frio, soprava cortante pelo horizonte, como se carregasse consigo o peso das árvores que havia derrubado. O frio era um velho conhecido na região, e, desde que Selene Halloway se mudara para cá, quase nove anos atrás, ela se adaptara facilmente.
Os cabelos negros de Selene estavam presos em um rabo de cavalo, prático e elegante. Calçava sapatos pretos, brilhantes, um presente de Cassian. O vestido, da mesma cor, ajustava-se ao seu corpo perfeitamente, alcançando a altura dos joelhos. Um cardigan, um pouco mais escuro que caqui, completava seu visual com classe. A presença dela era inegável - uma mulher esplendorosa que atraía olhares onde quer que passasse. Mas nada em sua aparência chamava mais atenção do que o batom vermelho que acentuava seus lábios e os óculos escuros que davam o toque final ao look daquele dia. Seus passos eram precisos, como se cada movimento fosse calculado.
Selene tinha um destino em mente: um prédio envidraçado a poucos minutos de onde estava, especificamente o décimo andar, segunda porta à direita. Enquanto caminhava, ela recapitulava mentalmente o que estava por vir, como sempre fazia. Era uma mulher determinada, e sua memória afiada muitas vezes deixava os outros intimidados. Assim que entrou no prédio, o som abafado de seus sapatos ecoou no saguão elegante. Ela seguiu direto para o elevador, sem hesitar. Lá dentro, o espelho a refletia, mostrando a mulher que, por fora, parecia intocável - mas por dentro, algo estava em chamas, algo que ela tentava apagar, mas que a consumia aos poucos. Talvez fosse o peso das escolhas, dos segredos que insistiam em voltar à tona, ou a iminente chegada de Lucian, que mudaria tudo. Quando as portas do elevador se fecharam, Selene soltou um leve suspiro, permitindo-se, por um breve instante, lembrar-se daquele olhar. O olhar de Lucian Thorn. E ali, entre o décimo e o vigésimo andar, ela soube que, apesar de sua vida parecer estar no controle, havia uma força muito maior que estava prestes a puxar o tapete sob seus pés.
O elevador parou. As portas se abriram lentamente, revelando o corredor que a aguardava. Ela retirou os óculos calmamente, mordendo o lábio com uma precisão cuidadosa, evitando borrar o batom vermelho. Sem hesitar, virou-se em direção à porta. O nome "Presidente" estava gravado em letras douradas, reluzindo contra a madeira envernizada. Com um movimento firme, sua mão direita fechou-se em punho e bateu três vezes, como sempre fazia. O som reverberou levemente pelo corredor, até que a voz grave e rouca ecoou por trás da porta, fazendo seus nervos se acenderem.
- Entre!
Selene Holloway respirou fundo, tentando controlar a inquietação que crescia em seu peito. Sua mão pousou suavemente sobre a maçaneta e, com um breve movimento, abriu a porta por completo. Quando seus olhos finalmente recaíram sobre ele, a tensão no ar parecia quase palpável.
Lucian Thorn, o homem que a esperava do outro lado, era mais que apenas a sombra de um irmão mais velho. Ele exalava poder. O tipo de força silenciosa que dominava o ambiente sem esforço algum. Sentado em sua poltrona de couro, a luz suave da sala destacava os ângulos marcantes de seu rosto - a mandíbula forte, os lábios finamente esculpidos, sempre prontos a exibir um sorriso de desdém ou uma palavra cortante. Os cabelos, lisos e perfeitamente penteados para trás, refletiam o brilho do ambiente, realçando a cor escura que contrastava com seus olhos de um azul profundo e enigmático. O olhar dele, intenso, parecia fitar Selene com a precisão de quem via mais do que a superfície, como se pudesse decifrar seus pensamentos mais secretos. A tatuagem que escapava do colarinho aberto de sua camisa preta dava uma pista do perigo e da história que Lucian carregava consigo. Vestido impecavelmente em um terno escuro que abraçava cada músculo definido de seu corpo, Lucian era a personificação de controle - um homem de poucas palavras, mas de ações devastadoras. Havia nele uma aura de mistério, como se algo sempre estivesse por acontecer. Não importava quantos segredos ele escondia, o magnetismo entre eles, mesmo naquela sala fechada, parecia inescapável.
Selene sabia que, assim que seus olhares se cruzaram, não havia mais retorno. Lucian Thorn, com seu charme letal e uma perigosa segurança de si, era a razão pela qual seu mundo cuidadosamente construído começava a ruir.
- Sente, por favor! - Lucian indicou a poltrona à sua frente, com um gesto casual, mas firme.
Selene, sem hesitar, tirou o cardigan, pousando-o sobre a mesa de vidro antes de se sentar e cruzar as pernas com elegância. Os olhos de Lucian caíram sobre ela, demorando-se no rosto antes de descerem lentamente pelo decote. Ele alisou o bigode discretamente, fechando os olhos por um instante, como se precisasse reorganizar seus pensamentos. Uniu as mãos, apoiando os cotovelos na mesa e o rosto nas pontas dos dedos por um breve momento de reflexão.
- Aceita um vinho? - ofereceu com a mesma voz rouca e penetrante.
- Está frio demais para apreciar um vinho, Lucian Thorn, - ela retrucou, a voz um tanto firme. - Mas aceito um uísque, se tiver.
Lucian levantou-se sem demora, seus movimentos precisos, quase predatórios. Foi até a pequena mesa ao fundo da sala, onde uma garrafa de uísque repousava à espera, como um ritual que ele já havia feito muitas vezes antes. Serviu dois copos generosos e entregou um a Selene, enquanto segurava o outro para si. Voltou a sentar-se, seu olhar nunca deixando o dela.
- Três vezes em uma única semana, - Lucian comentou, os olhos azuis brilhando com malícia. - E meu irmão nem desconfia.
- Sou uma mulher cautelosa, - Selene começou, mas sua voz fraquejou. - Eu amo o Cassian, sou feliz ao lado dele, apesar dos problemas, mas...
- Mas é a mim que procura quando foge da sua rotina enfadonha, - ele interrompeu com um sorriso que provocava e ao mesmo tempo intimidava. Tomou um gole do uísque, pousou o copo ao lado e passou a mão pelos cabelos, ajeitando-os com a confiança de quem sabe exatamente onde pisa. - Nove anos com a mesma pessoa deve ser... entediante. A mesma monotonia. As mesmas coisas, os mesmos desejos, as mesmas posições. Nada muda. Petrificado no tempo. Eu também amo meu irmão, mas... vamos lá, ele é cego.
- O que fazemos é imperdoável, - Selene insistiu, tentando manter a compostura.
Lucian apenas riu, um som baixo e carregado de desdém.
- Ele é um tolo, - sua voz saiu ainda mais cortante. - Eu poderia transar com você na cama dele, ao lado dele, e ele nem perceberia.
O suspiro que escapou dos lábios de Selene denunciava o quanto aquela ideia a perturbava, e, ao mesmo tempo, a atraía.
- Por isso, - ela respirou fundo, forçando-se a recobrar a sanidade, - não devemos mais continuar. Eu amo Cassian. Estamos noivos, felizes, e vamos nos casar. Quero construir minha família. Foi um erro eu ter vacilado... ter traído.
Lucian ergueu uma sobrancelha, intrigado.
- Você é minha, Selene. Está presa a mim. Não há como fugir.
- Claro que há, Lucian, - ela replicou, embora sua voz não estivesse tão firme quanto desejava. - Isso foi um erro. Já disse.
- Seus olhos, seu corpo, sua voz me pedindo mais... Não parecem pensar assim, - ele provocou, aproximando-se ligeiramente. - Você vem até mim porque sabe que aqui você vive. Cassian? Ele é um garoto que nunca aprendeu nada.
- Não fale assim dele, - ela tentou interrompê-lo, mas ele apenas sorriu de lado, um sorriso que parecia saber mais do que deveria.
- Falo, sim, - ele insistiu. - Você acha mesmo que ele vai te perdoar quando descobrir que você me quis tanto quanto eu te quis? Que você traiu ele... comigo?
Selene engoliu em seco. A verdade nua e crua estava ali, em cada palavra pronunciada por Lucian, esmagando suas tentativas de negar o inegável.
- Você não ousaria, - ela murmurou, temerosa.
- Ousadia mantém homens como eu no controle, - ele afirmou com convicção. - Cassian precisa de mim. Apesar de tudo, eu o amo. Ele é meu irmão.
- Por ele ser seu irmão, e meu noivo, é que devemos parar agora, - Selene repetiu, tentando reafirmar a sua vontade.
Lucian coçou a nuca, parecendo ponderar por um instante, mas a malícia nos olhos não diminuía.
- Mesmo que eu concorde em parar... - ele começou a caminhar lentamente ao redor dela, como um predador. - Sempre haverá uma brecha. Você voltará, Selene. Sabe disso. Virar para mim como uma mendiga à procura de um pedaço de vida, implorando por algo mais. Não estou certo?
- Não, você está errado, Lucian, - ela tentou reafirmar, mas sua voz estava longe de transmitir confiança.
Ele se aproximou, suas mãos pousando nos ombros dela com uma pressão suave, mas firme. Seus dedos deslizaram levemente pelo corpo dela, e Selene sentiu o corpo aquecer, traída por sensações que não conseguia controlar.
- Lembra da primeira vez que nos vimos? - ele sussurrou, sua voz baixa e envolvente. Ela fechou os olhos, mas não conseguiu afastar a memória. - Você estava de vermelho, ao lado de Cassian. Quando te vi, algo mudou. Pela primeira vez, tive inveja dele. Não por ele ter ficado mais bonito com o tempo, mas porque ele tinha você.
As mãos dele desceram até o colo dela, explorando seu corpo com a destreza de quem já sabia exatamente como despertar cada sentimento reprimido. Ela mordeu os lábios, tentando conter o gemido que escapou involuntariamente.
- Lucian, pare... - ela implorou, a voz falhando.
Mas ele ignorou o pedido, deixando que suas mãos continuassem a ditar o ritmo, dominando-a com facilidade.
- Quer que eu pare? - ele sussurrou, a barba roçando a pele sensível de seu pescoço.
Lucian sorriu com a pergunta, como se já soubesse a resposta que estava escondida nas profundezas de Selene, naquele canto escuro de sua mente onde a culpa e o desejo se entrelaçavam. Ele não precisava da palavra "sim" para continuar. O corpo dela já havia se entregado, mesmo que a mente resistisse. Ele deslizou os dedos pelo pescoço dela, subindo até seu queixo, forçando-a a erguer o rosto e encarar seus olhos intensos. Havia algo hipnótico em seu olhar, algo que Selene, por mais que lutasse, não conseguia resistir. Ela sentia que o controle escorregava por entre seus dedos como areia fina.
- Quer que eu pare? - ele repetiu, a voz baixa e suave, quase carinhosa. Mas o sorriso em seus lábios denunciava a verdadeira intenção. Ele não pararia, e ela sabia disso.
Selene não respondeu, os lábios entreabertos, o corpo já traindo seus pensamentos. Aquele breve silêncio, aquela hesitação, era tudo o que Lucian precisava.
- Está vendo, - ele murmurou, seus dedos traçando uma linha suave pelo seu colo, explorando a pele exposta, arrepiando-a de desejo e dúvida. - As palavras são vazias, Selene. Não precisamos delas. Não precisamos dessas convenções, dessas regras que tentam nos prender, nos sufocar - Ele se inclinou mais perto, seus lábios roçando levemente o lóbulo da orelha dela, a barba acariciando a pele sensível de seu pescoço. Selene fechou os olhos, o coração batendo forte, o calor se espalhando em ondas que ela não conseguia mais controlar. - Não precisamos de palavras, - ele continuou, a voz um sussurro, sedutora e venenosa ao mesmo tempo. - Cassian pode viver no mundo de palavras e promessas. Ele pode se contentar com o "eu te amo" rotineiro e as expectativas vazias de uma vida normal. Mas você e eu, Selene... nós estamos além disso.
Ele pressionou os lábios no pescoço dela, os dedos descendo mais uma vez até o corpo que se encolheu levemente, mas logo cedeu àquele toque familiar, proibido, que a incendiava.
- Eu não deveria... - ela sussurrou, quase como uma última tentativa de resgatar algum fragmento de moralidade, mas a convicção em sua voz era tão frágil quanto o batom que já começava a borrar.
Lucian riu, um som baixo e sombrio, e afastou o rosto para encará-la novamente, com aquele olhar que perfurava sua alma, como se ele já soubesse tudo sobre ela, seus segredos mais obscuros, seus desejos mais inconfessáveis.
- "Deveria" é outra palavra vazia, - ele sussurrou, os dedos agora tocando seus lábios suavemente. - Você não é guiada pelo que "deve" fazer, Selene. É guiada pelo que quer. E o que quer está aqui, na sua frente. O resto são ilusões que você usa para se proteger da verdade.
Selene sentia o corpo tremer. Havia uma batalha interna, uma guerra travada entre a moralidade que ela havia construído e o desejo primitivo que Lucian acendia dentro dela. Mas a batalha era desigual. Ele sabia como jogar, como manipular, como seduzir não apenas seu corpo, mas sua mente. Ele a fazia sentir-se viva de uma maneira que Cassian nunca havia conseguido.
- Me deixe ir, Lucian... - ela sussurrou, sem acreditar realmente em suas próprias palavras.
- Deixar você ir? - ele repetiu, rindo, enquanto suas mãos deslizavam pela cintura dela, puxando-a mais perto, fazendo-a sentir o calor de seu corpo contra o dela. - Você não quer ir, Selene. Você quer estar aqui. Comigo. Sempre quis - ela tentou afastá-lo, uma tentativa fraca, mas seus dedos se entrelaçaram nos cabelos de Lucian, como se inconscientemente já o quisesse mais perto, mais intenso. - Olhe para você, - ele continuou, a voz envolvente, as palavras escolhidas com uma precisão que apenas alguém como Lucian poderia alcançar. - Você está aqui, agora, comigo, não é? Porque você sabe, no fundo, que isso é o que você quer. Mais do que o anel no dedo. Mais do que as promessas que você fez ao Cassian. Mais do que qualquer ideia de moralidade.
Ele deslizou as mãos pelas pernas dela, sentindo sua resistência diminuir a cada toque, a cada palavra sussurrada. Ela mordeu os lábios, o corpo reagindo de uma maneira que sua mente ainda tentava negar, mas falhava miseravelmente.
- Deixe de lado essa farsa de dever e culpa, - ele disse, a voz agora mais firme, mais dominadora. - Porque a verdade, Selene, é que você está presa a mim. Eu sou o que você deseja. O que você precisa. E, eventualmente, todos os seus "deveria" irão desaparecer, e só restará o que você realmente quer.
Ela fechou os olhos, sentindo os lábios de Lucian percorrerem seu pescoço novamente, suas mãos firmes puxando-a para mais perto. A luta interna se dissolvia, como gelo derretendo ao sol. Ele estava certo. No fundo, muito mais profundo do que ela gostaria de admitir, era isso que ela queria. O proibido. O perigoso. Lucian Thorn.
- Então, me diga, Selene... - ele sussurrou, os lábios agora perto demais dos dela. - Vai continuar lutando contra o que quer, ou vai ceder ao que sempre foi seu desejo?
Ela abriu os olhos lentamente, sua respiração pesada, os lábios dele tão próximos que parecia inevitável.
- Não me deixe mais lutar, Lucian... - ela sussurrou, antes de finalmente ceder à tentação, suas palavras morrendo quando seus lábios se encontraram com os dele, selando o destino que ela já sabia ser impossível de evitar.
Lucian sorriu contra seus lábios, sabendo que havia vencido. Como sempre. Ele intensificou o beijo, dominando-a com uma paixão quase brutal, enquanto suas mãos firmes deslizavam pelas curvas de Selene, apertando-a contra si. Ela gemia entre os lábios dele, sentindo o calor subir rapidamente pelo corpo, a mente nublada pelo desejo. Suas mãos encontraram o peito firme de Lucian, deslizando pelos músculos definidos sob a camisa bem ajustada, o toque tão familiar quanto intoxicante.
Ele a puxou para seu colo, a respiração pesada, os dedos hábeis já começando a explorar o corpo dela com uma mistura de urgência e controle. Selene jogou a cabeça para trás, o cabelo escorrendo livremente pelos ombros enquanto os lábios de Lucian se moviam para seu pescoço, mordiscando e beijando com uma precisão que a deixava ainda mais entregue. O vestido apertado parecia sufocante, como uma barreira inútil entre o desejo fervilhante dos dois.
- Você não consegue mais resistir, consegue? - ele murmurou contra a pele dela, suas mãos agora já descendo até as coxas, subindo lentamente pela barra do vestido, provocando-a com toques leves e torturantes. - Seu corpo grita pelo meu. Não precisa mais lutar contra isso.
Ela tentou formular uma resposta, algo que demonstrasse alguma resistência, mas tudo o que conseguiu foi um suspiro profundo e um arquejo quando os dedos dele alcançaram a parte mais íntima de seu corpo, ainda coberta pelo tecido fino da calcinha. Lucian sorriu, um sorriso de pura satisfação. Ele sabia que a tinha completamente em suas mãos agora, sabia que não havia mais volta para Selene. Seus dedos deslizaram habilidosamente pelo tecido, pressionando levemente enquanto seus lábios se moviam pelo colo dela, subindo até a orelha e sussurrando palavras que a faziam tremer de antecipação.
- Sabe o que mais, Selene? - ele continuou, a voz rouca e carregada de malícia. - Cada vez que você se rende a mim, fica ainda mais minha. Eu vou fazer você lembrar disso todas as vezes, até que não exista mais culpa, apenas desejo.
Ela mordeu o lábio, os dedos fincando nos ombros dele enquanto seus corpos se moviam juntos, a tensão entre eles crescendo como uma chama alimentada pela brisa. Lucian afastou levemente a calcinha, e os dedos dele finalmente a tocaram diretamente, arrancando um gemido baixo dos lábios dela.
- Lucian... - foi tudo o que ela conseguiu murmurar, a voz falha, embargada pelo prazer que ele habilmente provocava em seu corpo.
Ele riu baixinho, satisfeito, enquanto seus dedos começavam a se mover em círculos lentos e controlados, arrancando dela gemidos cada vez mais altos. A luta interna de Selene estava perdida. Tudo o que restava era a fome insaciável que Lucian sabia exatamente como saciar.
- Você é minha, Selene. Sempre foi e sempre será. - Ele murmurou entre beijos enquanto sua outra mão deslizava pela cintura dela, puxando-a para mais perto, colando os corpos com uma intensidade que só aumentava a cada segundo.
Ela se mexeu no colo dele, as pernas agora escancaradas, o corpo em chamas sob o toque preciso. Os dedos de Lucian trabalharam em um ritmo constante, mas intenso, levando-a rapidamente ao limite, o corpo dela reagindo de forma involuntária, entregue àquela sensação devastadora que só ele parecia ser capaz de proporcionar.
- Lucian, eu... - ela tentou falar, mas a voz se perdeu em meio ao gemido alto quando ele pressionou mais forte, o prazer rasgando seu corpo em ondas violentas. Ela agarrou seus ombros com força, os quadris movendo-se contra os dedos dele, buscando mais, querendo mais, precisando mais.
Lucian a observava com olhos famintos, cada reação dela o alimentando de uma maneira quase primitiva. Ele adorava ver o controle que ela tentava manter desmoronar completamente diante dele. Com um sorriso predador, ele a puxou para mais perto, os lábios roçando os dela enquanto sussurrava:
- Diga que é minha. Diga que nunca vai conseguir me esquecer.
Ela ofegou, os quadris se movendo mais rápido enquanto os dedos dele continuavam a levar seu corpo a níveis de prazer que ela jamais experimentaria com outro homem, nem mesmo com Cassian, seu noivo. O clímax se aproximava, cada músculo de seu corpo tenso, a mente perdida em um redemoinho de prazer e culpa.
- Eu... - Selene tentou falar, mas o prazer a consumia demais para formar qualquer palavra coerente.
Lucian riu suavemente, sabendo que ela estava à beira do colapso, exatamente onde ele queria. Ele se inclinou, os lábios roçando os dela enquanto seus dedos aceleravam o movimento.
- Diga, Selene - ele ordenou, a voz suave, mas implacável. - Diga que sou eu quem você realmente deseja.
E naquele momento, enquanto o corpo dela finalmente se rendia ao orgasmo que a varreu com força, Selene não conseguiu mais resistir. O nome dele escapou de seus lábios em um gemido baixo e desesperado, confirmando tudo o que ele já sabia. Ela era dele.
Já era noite. Selene Holloway estava sentada à beira da cama, os olhos fixos no nada enquanto o peso da culpa a sufocava. Seus cabelos negros ainda úmidos escorriam pelos ombros, contrastando com a pele nua e fria. As pernas estavam estendidas, os pés tocando o chão, mas sua mente vagava longe. Cada pensamento era uma punição, uma batalha silenciosa entre o que ela deveria ser e o que estava se tornando. Ela suspirou, os lábios pressionados numa linha fina de hesitação.
Sabia que, brevemente, Cassian entraria pela porta, exausto do trabalho, buscando nela o conforto de sempre - conforto que, ironicamente, agora era uma ilusão. E com ele, toda a pressão, toda a falsa normalidade de um relacionamento que havia se quebrado em pedaços invisíveis, mas que ainda pendiam por um fio.
Ela fechou os olhos, tentando silenciar a mente que a maltratava. Lucian. Seu nome ecoava como um veneno doce. Era como se a presença dele, mesmo ausente, estivesse ali, impregnando o quarto com lembranças que ela queria, mas ao mesmo tempo temia. O toque dele em sua pele ainda estava fresco em sua memória, o calor inegável que havia corrido por suas veias, o desejo incontrolável que a fizera ceder mais uma vez. Mas agora, o arrependimento a consumia.
"Por que eu faço isso?" murmurou para si mesma, mas a resposta era clara. Lucian oferecia algo que Cassian nunca poderia - um perigo que a seduzia, uma paixão crua e brutal que a fazia sentir viva de uma maneira que o noivo, apesar de todo o amor, não conseguia mais provocar. O som de uma chave na fechadura trouxe Selene de volta à realidade. Seu coração acelerou. A porta se abriu e Cassian entrou, um sorriso cansado no rosto, alheio à tempestade que rugia dentro dela.
- Oi, amor - ele disse, caminhando até ela e inclinando-se para um beijo.
Selene sorriu de volta, mas o sorriso não alcançou seus olhos. Ela beijou Cassian de volta, sentindo o gosto familiar, mas algo dentro dela gritava por liberdade. Por algo que ela sabia que não deveria querer, mas que desejava mesmo assim.
Cassian não percebeu o distanciamento, ou talvez preferisse ignorar. Ele a abraçou, como fazia todas as noites, trazendo consigo a segurança de um futuro planejado, estável. Mas Selene sabia que aquele abraço, por mais caloroso, não poderia apagar as marcas que Lucian havia deixado. O conflito entre amor e desejo, entre lealdade e traição, era uma batalha que ela sabia que não terminaria tão cedo. E em algum lugar, no fundo de sua mente, Selene já se perguntava quando seria a próxima vez que seus caminhos cruzariam novamente com os de Lucian, sabendo que, por mais que lutasse contra, a tentação sempre a faria ceder.
Cassian era, sem dúvida, um homem de tirar o fôlego. Sua beleza era marcada por traços esculpidos com perfeição. Os cabelos loiros caíam suavemente sobre sua testa, e a tatuagem que se estendia pelas costas musculosas dava-lhe um ar de mistério que contrastava com sua natureza gentil. Seus olhos, de um tom profundo e cativante, sempre expressavam uma compreensão silenciosa, quase como se enxergassem além das palavras, tentando capturar os pensamentos que Selene não dizia. Ele era carinhoso, atencioso, o tipo de homem que sempre se preocupava em garantir o bem-estar da noiva, fazendo o possível para compreender suas angústias, mesmo quando ela não as explicava por completo.
Por mais que seu físico fosse impressionante e sua presença cativante, era sua doçura que o destacava. Cassian era aquele que, mesmo após um longo dia de trabalho, sempre fazia questão de abraçar Selene com ternura, ouvir sobre seu dia, e tentar, de alguma forma, aliviar qualquer peso que ela carregasse. Ele acreditava na força do amor que compartilhavam e não tinha dúvidas de que estavam construindo um futuro sólido juntos. No entanto, Cassian não sabia da tempestade que assolava a mente de Selene. A confiança que tinha nela era inabalável. Para ele, o amor era suficiente para superar qualquer obstáculo, qualquer dúvida. Ele a amava profundamente e estava disposto a enfrentar qualquer coisa para manter a felicidade que acreditava ter encontrado ao seu lado. Mas havia algo que ele não podia ver - a sombra de Lucian que pairava sobre seu relacionamento.
Lucian e Cassian carregavam entre si um abismo de sete anos que ia muito além da idade. Lucian, aos trinta e dois, já havia traçado um caminho sinuoso de manipulações e desejos egoístas, enquanto Cassian, com seus vinte e cinco anos, ainda navegava nas águas da juventude, buscando se encontrar. Eram irmãos, sim, e sempre mantinham uma convivência aparentemente próxima, com conversas e momentos partilhados, mas a sombra de Lucian pairava sobre Cassian de maneira quase sufocante. A influência de Lucian era como uma maré traiçoeira - discreta, mas irresistível. Ele tinha uma habilidade nata de moldar a realidade ao seu bel-prazer, guiando o irmão com palavras bem escolhidas, empurrando-o para caminhos que Cassian, em sua ingenuidade, não conseguia reconhecer como perigosos.
Lucian era como um pomar repleto de frutos visivelmente tentadores, mas todos eles envenenados, corroídos por dentro. E embora Cassian, com sua bondade natural, tentasse se manter puro, acabava se rendendo à sedução velada do irmão, caindo nas armadilhas que Lucian dispunha com maestria. Lucian era o espelho distorcido onde Cassian, sem perceber, refletia-se pouco a pouco. E cada decisão que tomava sob a influência do irmão o afastava de quem realmente era, e o aproximava de um mundo corrompido, feito de desejos egoístas e vícios encobertos por uma máscara de afeto familiar.
- Quer jantar fora? - Cassian perguntou, sua voz suave, carregada de preocupação.
A morena, com o olhar distante, negou de imediato. Parecia perdida em pensamentos sombrios que a perseguiam há dias.
- Eu posso esquentar alguma coisa da geladeira - respondeu, tentando soar prática, mas sua voz falhou, revelando o quanto ela se sentia desconectada.
Cassian franziu a testa, a preocupação cada vez mais evidente. Sentou-se ao lado dela na beirada da cama, seus olhos analisando-a com cuidado, como se quisesse desatar todos os nós invisíveis que pareciam prendê-la a algum lugar distante. Ele buscava, com o olhar, encontrar respostas no rosto dela, aquele que tantas vezes conheceu como uma morada de paz, mas que agora se escondia em inquietações.
- Essas suas idas à psicóloga estão te deixando... diferente - ele comentou, escolhendo cuidadosamente as palavras. - Já se passaram seis meses, Selene. Compartilhe comigo o que tanto te atormenta, meu amor.
Ela se levantou bruscamente, afastando-se dele como se o toque, ou mesmo a proximidade, a sufocasse. A sombra de algo mais pesado que Cassian não conseguia decifrar pairava sobre ela.
- Você me ama, Cas? - a pergunta saiu quase como um sussurro, carregada de uma urgência que o assustou.
- Mas que pergunta mais sem sentido, Selene. É claro que eu te amo. Estamos noivos, lembra? Por que você está me perguntando isso agora?
Ela o olhou com intensidade, os olhos brilhando com uma emoção que Cassian não sabia nomear. Selene parecia à beira de desmoronar, e, ao mesmo tempo, tentava manter o controle de si mesma, como alguém que se equilibra à beira de um precipício.
- Vamos embora de Flerks, por favor - implorou, sua voz carregada de desespero.
Cassian piscou, surpreso com o pedido.
- Mas... você ama Flerks. O que está acontecendo? Por que essa súbita urgência?
Selene se aproximou de novo, seus dedos trêmulos segurando o rosto dele com delicadeza, enquanto seus olhos imploravam por compreensão.
- Eu estou sufocando aqui, querido - confessou, a voz embargada. - Não consigo mais ser eu mesma.
Cassian ficou em silêncio por um momento, sentindo o peso daquelas palavras. Algo estava profundamente errado, e ele sabia que não poderia ignorar mais.
- Se você sente isso, Selene, vamos embora. Para onde quiser. Você só precisa me dizer... o que está acontecendo? Eu só quero te ajudar.
Cas observou a tensão no rosto dela aumentar, mas antes que pudesse dizer mais alguma coisa, Selene começou a caminhar de um lado para o outro pelo quarto, os dedos entrelaçados de forma nervosa. Ela parecia uma tempestade prestes a se formar, suas palavras saindo de forma atropelada, confusas e carregadas de uma intensidade que ele não estava acostumado a ver.
- Não... não é tão simples, Cas! - ela exclamou, sua voz tremendo. - Não é só sobre Flerks, não é só sobre essa cidade... - Parou de repente, encarando a janela, o peito subindo e descendo rápido como se buscasse fôlego. - Eu sinto que estou... presa, sufocada. Como se tivesse algo aqui dentro, algo que eu não consigo... - Sua mão foi ao peito, apertando o tecido da camisa como se quisesse arrancar o que estivesse a atormentando.
Cassian tentou se aproximar, a suavidade em seus movimentos contrastando com a intensidade das emoções dela, mas Selene recuou novamente, voltando a andar de um lado para o outro, mais rápido agora, os cabelos negros balançando com cada passo.
- Não sei como te explicar - ela murmurou, as palavras saindo apressadas. - Não sei como colocar isso em palavras sem que tudo pareça... errado, sem que você pense que eu sou a errada aqui. Mas eu juro, Cas, juro que não sei mais quem eu sou. Eu não consigo respirar nesse lugar, com tudo isso.
Ele a observava, impotente, tentando encontrar uma brecha em suas palavras, algo que pudesse entender e ajudá-la a se abrir de vez, mas Selene contornava o assunto como se estivesse fugindo de si mesma, de seus próprios pensamentos.
- Por favor, me diga o que está acontecendo - ele insistiu, tentando manter a calma, mas com o coração apertado.
Selene parou de andar, os olhos cravados no chão, e então, com um suspiro pesado, balançou a cabeça.
- Eu não posso, Cas... eu não consigo.
O loiro suspirou profundamente, como se tentasse encontrar uma solução no próprio ar.
- São meus pais? Eles estão te pressionando para desistir do casamento? - perguntou, a voz tingida de preocupação.
Selene levou as mãos à cabeça, os olhos vermelhos denunciando o choro contido por tanto tempo, agora prestes a transbordar.
- Não. Não são seus pais, Cas... - murmurou, a voz embargada, quase sufocada pelas próprias emoções.
- Então quem é, Selene? - ele insistiu, a frustração misturada com desespero. - Me diga, por favor, para que eu possa ajudar você.
Selene começou a andar de um lado para o outro novamente, o desespero tomando conta de cada movimento. As mãos trêmulas apertavam as têmporas, como se tentar controlar a dor e a confusão em sua mente fosse possível com aquele simples gesto. Os soluços, até então contidos, finalmente escaparam, rasgando o silêncio pesado do quarto.
- Eu... eu não sei, Cas... eu não sei mais! - ela choramingou, as palavras atropelando-se, sem lógica ou direção. - Não são seus pais, não é o casamento... é tudo! Eu estou sufocando, Cas! Eu... não consigo respirar! Eu não sei mais quem eu sou! - o pranto ficou mais forte, seus ombros sacudindo com a intensidade das lágrimas que agora caíam livremente.
Cassian levantou-se devagar, o olhar confuso, mas cheio de ternura. Aproximou-se com cuidado, temendo que qualquer palavra ou gesto errado pudesse quebrá-la ainda mais. Suas mãos grandes e firmes pousaram nos ombros dela, tentando trazer algum tipo de ancoragem à mulher que ele amava tanto.
- Shhh, calma, Sel... - ele sussurrou, puxando-a com cuidado para seus braços, envolvendo-a em um abraço. - Eu estou aqui. Você não está sozinha.
Mas Selene Holloway já estava sozinha, não por uma ausência externa, mas porque havia se desertado de si mesma. Abandonada no labirinto de sua própria mente, ela se via incapaz de alcançar a saída. Não eram os outros que a deixavam; era ela que, lentamente, afundava em um poço de angústia, onde o prazer e a dor se entrelaçavam como velhos conhecidos. O abismo que tanto temera agora se estendia à sua frente, e cada passo mais perto da borda era como uma rendição silenciosa ao hedonismo sombrio que a tentava com promessas de alívio imediato, mas de consequências devastadoras. Cassian, por mais que quisesse, não poderia salvá-la. Ele, com todo o seu carinho e compaixão, não compreendia a profundidade do caos interno de Selene. O prazer era, para ela, uma fuga, e o sofrimento, uma constante companhia. Cassian, em sua inocência, acabaria por se afastar, incapaz de suportar a verdade que ela escondia. Não por falta de amor, mas por uma cruel ironia: quanto mais ele tentasse segurá-la, mais ela se perderia dentro de si. No fim, não era ele que a abandonaria. Ela já havia se perdido muito antes, cedendo ao veneno sutil da vida bela, onde cada prazer momentâneo a levava mais fundo à dor inevitável.
Cassian Thorn sempre despertava cedo, antes mesmo que o sol invadisse as janelas do quarto. Seu corpo era esculpido com dedicação, cada músculo firme e bem definido, resultado de uma rotina disciplinada de corrida matinal pelas ruas do condomínio. Aquela hora do dia era sua favorita - o ar fresco, o silêncio quebrado apenas pelo som rítmico de seus passos no asfalto. Ao retornar, ele se ocupava da cozinha, preparando o café da manhã com zelo. Panquecas fofas e suco natural eram a escolha preferida de Selene, e Cassian fazia questão de deixar tudo pronto, um pequeno gesto de carinho que parecia trazer equilíbrio ao caos que se instalara na vida deles.
Selene Holloway, a futura senhora Thorn, deveria sentir-se grata, mas Cassian sabia que algo não estava certo. Ela, que antes adorava cozinhar e tinha prazer em criar receitas, agora deixava a comida passar do ponto. Parecia distante, como se seu espírito estivesse perdido em algum lugar que ele não conseguia alcançar. Preocupado, ele decidiu contratar ajuda para aliviar sua noiva das responsabilidades domésticas: uma arrumadeira e uma cozinheira. Ele esperava que isso a ajudasse a encontrar o caminho de volta para si mesma, ou ao menos que diminuísse o peso que parecia pressioná-la diariamente.
Mas a verdade era mais amarga do que Cassian podia imaginar. Não eram os afazeres domésticos que a sufocavam. Havia algo mais profundo, algo que se enraizava dentro dela, uma inquietação que crescia a cada dia. Selene não estava apenas perdendo o ponto do alimento; estava perdendo o ponto da própria vida.
Naquela manhã, ao acordar, Selene sentiu o cheiro familiar das panquecas e do café fresco. Era um gesto doce, como sempre. Mas ao invés de conforto, aquilo a fez sentir-se ainda mais distante, como se Cassian estivesse tentando remendar uma rachadura que ele não sabia onde começava. Ela desceu as escadas, os pés descalços tocando o chão frio da cozinha. Viu o marido, perfeito em sua rotina, esculpido em disciplina e amor, e sentiu um nó no estômago.
- Bom dia - ele disse, com aquele sorriso caloroso que ela tanto amava - ela tentou sorrir de volta, mas não conseguiu. O olhar de Cassian captou a hesitação nos olhos de Selene, e ele se aproximou, preocupado. - Selene, o que está acontecendo? - ele perguntou, a voz suave, mas com uma ponta de angústia.
Ela abaixou a cabeça, incapaz de enfrentar a profundidade da pergunta. Havia tanto que queria dizer, mas as palavras morriam antes de alcançarem seus lábios.
- Eu... não sei, Cass - respondeu, quase em um sussurro, enquanto suas mãos se encontravam em um gesto nervoso. Ela começou a andar pela cozinha, como se o movimento pudesse acalmar os pensamentos que a devoravam por dentro. - Eu só... sinto que estou presa. Aqui, em mim, em tudo. Não consigo mais ser a pessoa que era.
Cassian a observava atentamente, tentando entender o que estava acontecendo por trás dos olhos marejados dela.
- Você não precisa carregar isso sozinha. Eu estou aqui. Sempre estarei - ele se aproximou mais, tentando tocá-la, mas ela se afastou ligeiramente.
- Eu sei que está. E isso só piora - a voz dela falhou, e ela pressionou as mãos contra o peito, como se tentasse conter o tumulto de emoções dentro de si. - Eu te amo, Cassian, mas não consigo escapar de mim mesma.
O loiro levantou-se lentamente, como se tentasse conter uma tensão interna, engolindo em seco. Seus dedos passaram pelo rosto num gesto mecânico, enquanto ele respirava fundo, uma tentativa clara de se acalmar.
- Tudo bem, não vou insistir mais - ele disse, a voz baixa, lutando para não deixar o desconforto transparecer. - O Lucian nos convidou para um jantar hoje à noite, na casa dele. Se arrume, vai gostar.
Ele se inclinou, deixando um beijo suave nos cabelos dela, um gesto de ternura que apenas amplificava a sensação de sufocamento em Selene. Assim que ele saiu, ela sentiu as pernas fraquejarem, e precisou se apoiar no balcão para não desmoronar ali mesmo. Seu corpo tremia levemente, como se algo sombrio estivesse à espreita, esperando o momento exato para emergir.
Lucian. O nome ressoava em sua mente como uma sombra que ela tentava ignorar, mas que sempre retornava, mais forte, mais perigosa. A ideia do jantar na casa dele fez seu estômago revirar. Cada passo para aquela noite parecia um prenúncio, uma queda inevitável para o abismo que ela sabia que estava cada vez mais perto. O chão que ela pisava já começava a rachar, e era apenas questão de tempo até que todo o seu mundo desmoronasse completamente. Ela fechou os olhos, tentando controlar a respiração, mas o pavor crescia dentro dela, como uma tempestade prestes a explodir.
Um certo dia, não mais tão vago na memória corrompida de Selene Holloway, sua mãe, Tris, lhe dissera: "Quando tocamos o céu, sentimos nele toda a necessidade e a prudência e nos sujeitamos, lentamente, ao que pode ser considerado bom. Porém, quando é ao contrário, quando tocamos, sem querer, as sombras, parte de nós vai embora. O medo passa a nos sufocar e, sem querer, nos destrói." Tris Holloway estava, digamos, certa, mas quando nossos dedos percorrem um corpo amaldiçoado, quando nosso coração bate para o mal, nada mais importa.
Na verdade, a densidade da sombra é o toque, e tudo que o envolve.
Depois que Cassian, seu noivo, saiu para o trabalho, Selene se dissolveu das roupas e encheu a banheira. Afundou-se nela, deixando que a água morna envolvesse seu corpo tenso, vagando pelos seus pensamentos fragmentados. Os olhos estavam avermelhados, uma mistura de noites mal dormidas e a dor inconfessável que carregava dentro de si. O corpo protestava, cada músculo parecia gritar, mas era sua mente que a torturava incessantemente. Havia um borrão em tudo, como se o que antes era tão sólido agora escorresse pelos seus dedos, escapando-lhe. Ela fechou os olhos, e o rosto de Lucian surgia nas sombras. O coração dela batia mais rápido. Cassian, o homem que ela jurava amar, estava cada vez mais distante na névoa da sua culpa, enquanto o toque proibido de Lucian, marcado por uma intensidade sombria, a puxava mais para o fundo. Cada memória da última vez em que esteve com ele queimava em sua mente. Ela sabia que, se continuasse nesse caminho, sua alma se perderia completamente.
Um grito silencioso ecoou em seu peito, mas nenhum som saiu. Selene afundou-se mais na água, deixando-a cobrir seus ouvidos, abafando o som do mundo exterior, como se assim pudesse silenciar a tempestade que rugia dentro dela. Mas as memórias vinham implacáveis, arrastando-a para a escuridão que sua mente tanto temia. O toque de Lucian, sempre frio, mas ao mesmo tempo arrebatador, voltava em flashes, como uma faca que perfurava a sua sanidade. O cheiro dele, a textura de sua pele, o sussurro rouco de suas palavras sedutoras - tudo estava gravado em sua carne, e por mais que tentasse, ela não conseguia apagar.
Havia algo em Lucian que despertava o pior nela. Ele personificava a própria decadência, o prazer nascido do sofrimento. Quando estava com ele, cada toque a fazia sentir-se viva e morta ao mesmo tempo. Era como se estivesse presa em uma corda bamba entre o êxtase e a destruição. No fundo, ela sabia que ele a estava moldando, destruindo sua essência, mas, ao mesmo tempo, isso a fazia se sentir mais intensamente do que jamais sentira com Cassian. O amor de Cassian era doce, constante, mas o que Lucian lhe oferecia era visceral, irracional, uma chama que queimava tudo que tocava.
"Você está se perdendo" ecoava a voz de Tris em sua mente. Sua mãe sempre avisara sobre os perigos das sombras, mas Selene não havia escutado. Agora, era tarde demais. Lucian havia feito com que ela experimentasse algo que nunca soubera existir, um mundo de sombras onde prazer e culpa andavam de mãos dadas, onde a moralidade não passava de um conceito frágil, facilmente quebrado.
Ela tocou os próprios lábios, lembrando-se de como eles haviam tremido sob o beijo de Lucian. Cada vez que estava com ele, ela sentia como se algo dentro dela estivesse sendo arrancado. Não era apenas um prazer físico; era uma forma de destruição que ela secretamente ansiava. Cada encontro a levava mais fundo para um abismo sem fim, onde cada passo era mais escuro que o anterior. A culpa, porém, era constante, como um peso invisível que a esmagava a cada momento em que pensava em Cassian. Ele era o símbolo de tudo que deveria ser bom em sua vida - estabilidade, carinho, segurança. Mas em comparação com Lucian, a segurança de Cassian era sufocante, sua bondade irritante, e sua ignorância, cruel. Ela amava Cassian, ou ao menos acreditava nisso, mas ao mesmo tempo odiava o que esse amor a fazia sentir. Odiava que ele não fosse suficiente para impedir sua queda.
- Eu não sou a mesma pessoa - ela sussurrou para si mesma, seus lábios mal se movendo sob a água. - Não posso voltar atrás.
Lucian a havia corrompido, não de forma evidente, mas aos poucos, como uma doença que se instala silenciosamente e toma conta. Agora, cada toque de Cassian era um lembrete da traição, uma cicatriz invisível que ela carregava. E, por mais que tentasse, sabia que não poderia manter essa farsa por muito mais tempo. Seu segredo estava começando a apodrecer dentro dela, e a qualquer momento poderia transbordar, arruinando tudo. Ela abriu os olhos e encarou o teto, tentando respirar fundo, mas o ar parecia pesado, carregado de culpa e desejo. A cada respiração, a sensação de estar afundando mais no abismo ficava mais forte. E Lucian... ele estava sempre lá, à espreita, pronto para puxá-la ainda mais fundo, com aquele sorriso diabólico que fazia seu corpo tremer. Selene sabia que estava à beira de perder tudo, mas não conseguia parar.
Selene Holloway estava impecável, vestida com um deslumbrante vestido vermelho de cetim que delineava cada curva de seu corpo de forma provocante. O tecido brilhava sob a luz suave do abajur, como se refletisse a inquietação que corria por suas veias. A maquiagem, perfeitamente aplicada, destacava sua pele bronzeada e seus olhos escuros, que agora pareciam guardar segredos profundos demais para serem ditos. O batom vermelho, tão vibrante quanto o vestido, contrastava com o ar de pureza que ela costumava exalar, mas por dentro, sentia-se tão suja quanto os atos que cometera.
Era noite, e a casa estava silenciosa, exceto pelo suave som dos passos de Cassian, que acabara de chegar do trabalho. Ela podia ouvi-lo se aproximar. Mesmo sem vê-lo, o peso da culpa já começava a sufocá-la. O espelho à sua frente refletia uma mulher linda, mas descomposta internamente. Por trás da perfeição, havia um coração corroído por desejos proibidos e a consciência de que sua alma estava em ruínas.
Cassian entrou no quarto, e por um momento, o ar entre eles pareceu congelar. Seus olhos imediatamente caíram sobre ela. Ele sorriu, encantado pela visão da mulher que amava, sem suspeitar do turbilhão de pecado que ela carregava no peito. Lentamente, aproximou-se, seus passos suaves, como se temesse quebrar o encanto da cena. Cassian, sempre gentil, envolveu os braços ao redor dela por trás, puxando-a para mais perto de seu corpo firme. Selene, ainda olhando para o reflexo no espelho, sentiu o calor de suas mãos descansarem em sua cintura.
- Você está deslumbrante - ele sussurrou em seu ouvido antes de deixar um beijo suave no topo de sua cabeça. A voz dele era carregada de carinho, e a sinceridade por trás das palavras fazia com que o nó de culpa no estômago de Selene se apertasse ainda mais. - Como sempre, a mulher mais linda que já vi.
Ela fechou os olhos ao sentir os lábios dele deslizando suavemente pelo pescoço, mas ao invés de prazer, tudo o que sentia era o peso esmagador da impureza. As mãos de Cassian, tão gentis, pareciam queimar sua pele, como se pudessem perceber a mancha invisível que ela carregava. A cada elogio, a cada gesto de amor, Selene mergulhava mais fundo em seu tormento, sabendo que ele não tinha ideia do monstro que ela havia se tornado. Ela engoliu em seco, forçando um sorriso no espelho, mas o reflexo de seus próprios olhos a denunciava. Não havia mais como escapar da verdade, mesmo envolta naquele vestido luxuoso, naquela maquiagem perfeita. Por fora, era uma deusa; por dentro, uma mulher quebrada, devorada por suas próprias escolhas. Cassian, tão inocente e cego, não sabia que estava beijando uma mulher que, por mais que amasse, havia se perdido para outro homem. E esse homem não passava de seu próprio irmão, Lucian.
- Você está bem? - ele perguntou, a voz carregada de preocupação, ainda sem soltar o abraço. Selene assentiu levemente, sem se atrever a olhar diretamente para ele.
- Sim - ela mentiu, a voz falhando, quase inaudível.
Cassian Thorn era a imagem da perfeição. Sua pele clara contrastava com a jaqueta preta de couro, que parecia abraçar seus ombros largos de forma impecável. O olhar dele, profundo e intenso, escondia um mistério que Selene não conseguia decifrar, mesmo após tantos anos juntos. Seus cabelos loiros, sempre alinhados, conferiam-lhe uma aparência quase única, algo que o distanciava do comum. Os olhos azuis, penetrantes como lâminas, observavam o mundo com uma mistura de frieza e charme, uma combinação que sempre a deixava dividida entre adoração e medo. Ele era lindo, inegavelmente, mas havia algo nele que parecia intocável, algo que ela nunca conseguiria alcançar.
Selene caminhava ao lado de Cassian, de mãos dadas, mas seu coração estava disparado, suas pernas quase trêmulas. Eles estavam chegando à mansão de Lucian, o irmão mais velho de Cassian, e uma sensação de ansiedade tomava conta dela, como se cada passo que dava a aproximasse de um abismo sem fundo. O frio da noite era amenizado pelo toque quente das mãos de Cassian, mas, mesmo assim, ela não conseguia se livrar daquela sensação sufocante de que algo estava prestes a acontecer.
Ela se sentia fora de lugar, desconfortável dentro de seu próprio corpo. O vestido vermelho que vestia parecia estar apertado demais, sufocante, como se o tecido se enroscasse em sua pele, não a deixando respirar. O ar estava pesado ao seu redor, cada respiração mais difícil que a anterior, e seu estômago se retorcia, gerando uma sensação de náusea que ela tentava controlar a qualquer custo. O portão da mansão de Lucian estava à vista, e, ao vê-lo, Selene apertou a mão de Cassian com força, em busca de um conforto que, no fundo, sabia que ele não poderia oferecer. O nervosismo irradiava de seu corpo, quase palpável, mas Cassian parecia não perceber. Ele andava ao lado dela com uma confiança inabalável, seu rosto impassível, como se fosse o dono do mundo que pisava.
Cassian virou-se para ela com um sorriso tranquilizador, completamente alheio ao caos que se passava dentro dela.
- Está tudo bem, amor? - Ele perguntou, a voz macia, tentando dissipar as nuvens de preocupação no rosto de Selene.
Ela apenas acenou com a cabeça, incapaz de formar palavras. O pavor se acumulava dentro dela, uma maré crescente que ameaçava engoli-la por completo assim que atravessassem os portões de Lucian.
Lucian Thorn abriu a porta com uma tranquilidade que beirava o perturbador. Ele se apoiou no batente, um sorriso enigmático desenhado em seus lábios, mas seus olhos - frios, calculistas, como gelo prestes a queimar - eram a verdadeira arma. Vestido impecavelmente em um terno negro, cada linha de seu corpo parecia esculpida pela escuridão. O tecido da roupa se ajustava perfeitamente aos seus músculos, como se a própria noite o envolvesse. O cabelo escuro e perfeitamente penteado brilhava sob a luz suave da entrada, dando-lhe um ar de uma autoridade inquestionável. Havia uma presença em Lucian que, mesmo sem esforço, dominava a sala antes mesmo de qualquer palavra ser dita.
Seus olhos primeiro pousaram em Cassian, seu irmão mais novo, mas foi apenas um olhar breve. O suficiente para esboçar um sorriso que parecia mais um jogo do que qualquer expressão verdadeira de afeto. O abraço entre eles foi breve e seco, a mão de Lucian repousando nas costas de Cassian por apenas um segundo, mais uma formalidade do que um gesto de carinho. Mas quando os olhos de Lucian deslizaram para Selene, a sala pareceu mudar de temperatura. Ele a observou com uma intensidade sufocante, o olhar varrendo-a dos pés à cabeça como se a estivesse avaliando, decifrando cada fração de seus pensamentos. Selene sentiu um calafrio percorrer sua espinha, seus nervos à flor da pele. A forma como ele a olhava era como se ele soubesse, como se já tivesse conhecimento de todos os seus segredos. Seus olhos não deixavam espaço para fuga, como se ele a tivesse prendido com o olhar, uma presa sob o domínio do predador.
Lucian inclinou-se, devagar, com uma lentidão estudada, e beijou o rosto de Selene de forma quase cerimonial. O contato era breve, mas carregado de algo mais profundo, como se ele estivesse cravando sua presença nela, deixando uma marca invisível que queimava.
- O que aconteceu com a minha linda cunhada? - Ele murmurou suavemente, quase num sussurro.
Sua voz era baixa, cheia de charme e perigo. Ele sorria, mas seus olhos continuavam frios, controladores. Selene mal conseguia responder, seu corpo enrijecido sob a presença dele, enquanto Cassian permanecia alheio, distraído pelo hábito de sempre confiar em Lucian. Ele não sabia o quanto a presença do irmão devorava lentamente a sanidade de Selene, ou talvez simplesmente não quisesse perceber.
Lucian recuou um passo, a postura ereta, tão confiante que o chão sob ele parecia se curvar em submissão. Ele era o diabo em forma masculina - uma mistura venenosa de poder e persuasão, controle absoluto e um charme maligno. O sorriso que mantinha nos lábios era maldito, uma armadilha para todos que ousassem se aproximar demais.
A mansão de Lucian ficava escondida entre as árvores altas de uma floresta, como se estivesse intencionalmente isolada do resto do mundo, estando a pouco mais de vinte minutos do centro de Flerks. A fachada de pedra robusta dava ao lugar um ar de antiguidade, como uma fortaleza perdida no tempo. As luzes douradas que emanavam das grandes janelas refletiam calor, mas havia uma frieza inerente na atmosfera, algo que nem mesmo as chamas tremeluzentes do fogo externo poderiam dissipar. O crepitar do fogo no círculo de cadeiras dispostas ao redor evocava um convite, uma promessa de conforto que escondia intenções mais profundas.
Lucian, sempre o anfitrião calculista, caminhava ao lado de Selene e Cassian, sua postura ereta e passos suaves sobre as pedras cuidadosamente posicionadas ao redor da propriedade. - Aqui - ele disse, gesticulando com um movimento leve de mão, - é onde costumo passar minhas noites. A tranquilidade aqui é insubstituível, Cassian. Por que não vem morar comigo? A casa é grande, o suficiente para nós três.
Selene Holloway engoliu em seco enquanto seu noivo abriu um sorriso, como se pensasse na proposta.
Ele guiou os dois através de um caminho que descia suavemente, chegando à entrada principal. Portas de madeira maciça se erguiam à frente deles, abrindo-se com um toque sutil de Lucian, revelando o interior da mansão. A sala de estar era ampla, com móveis de couro preto e detalhes em madeira escura, exalando poder e riqueza sem jamais cruzar a linha da ostentação. Obras de arte abstrata pendiam das paredes, mas eram os pequenos detalhes - as sombras nos cantos, a luz suave e indireta - que faziam Selene se sentir como se estivesse sendo observada, sempre à beira de ser devorada por algo invisível.
- O andar de cima - Lucian continuou, sem se deter por muito tempo em qualquer cômodo, - tem quartos para todos, caso decidam passar a noite - ele virou a cabeça em direção a Selene, seus olhos sempre analisando, como se tentasse desvendar os segredos que ela guardava. - Ou talvez para outras ocasiões.
O ar na casa parecia mais denso à medida que avançavam. A cozinha, com balcões de mármore e aço escovado, era um contraste frio com o calor externo. Selene notou como Lucian se movia pelo espaço com naturalidade, um rei no seu castelo de gelo.
- E aqui - ele disse, parando diante de uma parede de vidro que dava para uma varanda, - é onde gosto de apreciar o entardecer. - Do lado de fora, as luzes da fogueira ainda crepitavam, refletindo sombras nos troncos das árvores.
Cada canto da mansão parecia cuidadosamente planejado, não apenas para impressionar, mas para sufocar. Para garantir que aqueles que cruzavam seus umbrais nunca mais se sentissem completamente livres. Selene sentia um nó crescente em seu estômago, a ansiedade pulsando sob sua pele. As paredes da casa, embora amplas e sofisticadas, pareciam se fechar ao redor dela, cada nova sala trazendo uma sensação crescente de aprisionamento. Lucian, com seu sorriso fácil e olhar penetrante, era o mestre desse labirinto.
Cassian, por outro lado, não percebia o desconforto da noiva. Ele admirava a mansão com olhos curiosos, mas sem profundidade. Lucian, claro, notou.
- O que acha, irmão? - perguntou, dando-lhe um sorriso polido.
Cassian sorriu de volta.
- Impressionante, como sempre, Lucian.
- Ah, eu me esforço - Lucian respondeu, com um olhar que escondia mais do que revelava. - Mas, por favor, façam desta casa sua também. Há tanto para descobrir aqui.
A sala de estar era um reflexo de tudo o que Lucian representava: controle, poder e uma frieza impenetrável. As janelas de vidro iam do chão ao teto, deixando a vista das montanhas desoladas se misturar com a escuridão dos móveis de couro preto, que exalavam uma elegância austera. O chão de madeira escura ecoava seus passos, cada som quase sufocado pelo ambiente vasto, como se a própria sala absorvesse toda a vida e calor que tentasse penetrar ali. A luz, difusa e suave, tornava a atmosfera mais pesada, como se pairasse uma tensão invisível no ar.
Lucian entrou primeiro, seus movimentos fluidos, quase felinos, enquanto caminhava até a poltrona de couro mais próxima. Sentou-se com a calma de quem está no controle absoluto, os dedos longos e tatuados repousando sobre os braços da cadeira, cada gesto calculado. Ele inclinou o corpo para trás, a postura relaxada, mas o olhar era afiado, observando cada detalhe da presença de Selene e Cassian.
- Façam como se estivessem em casa - ele disse, a voz carregada de um cinismo que Selene não pôde deixar de sentir na pele. Seus olhos se fixaram nela por um momento, com a mesma intensidade que usava para estudar qualquer pessoa que entrasse em seu território.
Ele fez um gesto preguiçoso com a mão, indicando o sofá oposto, um convite que soava mais como uma ordem velada. Cassian, sempre o mais leve e despreocupado dos dois, aceitou com um sorriso, puxando Selene pela mão para sentar-se ao seu lado. No entanto, a tensão no corpo dela era palpável, como se o próprio ar ao redor de Lucian fosse denso demais para respirar livremente.
- Espero que gostem do lugar. Eu cuido pessoalmente de cada detalhe - ele continuou, o tom casual, mas com aquela ponta de veneno disfarçada.
Lucian tinha o dom de fazer tudo parecer uma armadilha elegante, um jogo que apenas ele sabia as regras.
Selene desviou o olhar para a vista das montanhas através das janelas, sentindo-se pequena naquele espaço vasto e dominador. O ambiente era imponente, mas nada se comparava ao peso da presença de Lucian, que, com seu sorriso perverso, parecia absorver qualquer segurança que ela pudesse ter tentado reunir.