• LUARA DA SILVA RODRIGUES
• 22 anos
Eu matei meu pai biológico...
Com somente uma facada que penetrou o centro do seu peitoral e desceu rasgando sua pele, abrindo espaço e fazendo com que suas tripas voassem para fora junto ao seu sangue contaminado pela podridão de ser um estuprador de merda, eu o matei sem nem pensar duas vezes antes de cometer tal crime.
Não me arrependo, mas me sinto tremer violentamente enquanto assisto seu corpo sem vida jogado sobre o chão de terra com algumas poucas moscas pousando sobre suas tripas expostas.
Logo ao lado, Derick, que até ontem eu tinha certeza que era meu irmão, afunda a pá na terra avermelhada, recheada de cascalho que a ferramenta joga para o lado, impulsionada por ele, que está concentrado na missão de fazer uma cova para esconder o corpo da minha vítima, que fez de mim, a sua.
Mesmo limpa e vestida com roupas compridas, ainda me sinto suja, contaminada com seu sangue e suas digitais em cada centímetro do meu corpo, e me culpo por isso pois fui eu quem aceitei encontrá-lo após ele dizer que sabia de verdades que meus pais, Lorena e Luan, sempre esconderam de mim.
Eu fui burra. Burra!
Tinha a vida perfeita, pais perfeitos, e fui burra o suficiente para ir atrás da verdade que agora massacra o meu peito e me faz preferir a morte a uma vida sobrevivendo com as lembranças do maldito que se disse meu pai biológico em cima de mim, fodendo a porra do meu corpo dopado por alguma droga que ele mesmo me deu.
Eu tento não pensar, tento não lembrar, mas essa merda parece um loop eterno que fica passando na minha mente de novo.
E de novo.
E de novo.
- LUA! - tomo um susto quando as duas mãos grandes de Derick se apertam sobre as laterais do meu rosto, me puxando de volta a realidade ao virem acompanhada da sua voz rouca ainda em transição. - Vai ficar tudo bem, amor. Tá ouvindo?
- Não me chame assim. - peço com a voz embargada enquanto olho nas suas íris azuis esverdeadas.
A dor de saber que não é meu irmão de sangue me fazendo querer gritar para não sucumbir à loucura de que passei anos acreditando na mentira contada por seus pais quando a verdade é que eu sou filha da mulher que eles mais odiaram na vida, a culpada por Violeta, a bebê que sempre é lembrada, não ter tido a oportunidade de nascer e fazer parte da família que eu não mereço porque tenho o sangue de dois doentes. O maldito sangue que pode ser capaz de contaminar tudo e todos ao meu redor.
- Tudo bem... - suas íris agitadas passam por cada centímetro do meu rosto com atenção e eu inspiro com calma, engolindo o choro ao elevar minhas mãos até às suas, que estão segurando meu rosto com firmeza. Querendo as tirar de mim, mas apertando para manter ele perto por mais alguns segundos. - Darei uma pausa até você ficar mais calma. O que acha?
- Bom. - sussurro embargada, fechando meus olhos quando ele gruda sua testa na minha, ficando calado de início, só sentindo minha respiração ofegante soprar forte contra sua pele clara iluminada pelo farol do seu carro que está a alguns metros atrás de mim. - Obrigada.
Resumo o agradecimento na simples palavra porque não sei como de fato agradecer por ele ter desistido do vôo que o levaria para a Inglaterra pra estudar na faculdade dos sonhos dele só para vim atender ao meu chamado.
- Não precisa agradecer, Lua. Sabe que faria tudo por você, meu... - ele se cala, engolindo a maldita palavra que define o que eu não gostaria, mas que descobri no segundo em que o vi chegando para me ajudar a se livrar do corpo do meu progenitor que sinto por ele de forma recíproca. - Isso é mais difícil do que eu pensei.
Eu concordo com ele, abrindo meus olhos e focando nos seus que brilham intensamente diante dos meus.
Sinto mais vontade de chorar porque é doentio sentir mais do que amor fraternal por ele, que além de ter sido criado comigo, como um dos meus irmãos caçulas, também é quase quatro anos mais novo que eu.
- Eu amo você, Lua. - inspiro com calma, meu coração acelerando dentro do peito e meus olhos perdendo o foco com o acúmulo das lágrimas neles. - Amo da forma que não deveria, mas eu amo porque isso tá acima do que eu consigo ou não controlar.
- Acho que tá na hora da gente ir embora. - eu o interrompo num sussurro, sua proximidade começando a me sufocar a partir do momento que sinto seus lábios roçando os meus enquanto ele falava. - Papai e... - pigarreio, deixando uma lágrima grossa deslizar por meu rosto ao reformular a frase que mais machuca ao ser dita: - Seus pais devem estar preocupados com a gente.
- Ahh, Lua...
Aperto meus olhos, soluçando ao deixar o choro sair livre ao finalmente ter forças para tirar suas mãos de mim e levantar do chão em que eu estava.
Meu corpo inteiro treme. Fraco, sujo por algo que contaminou muito mais do que as minhas roupas e a minha pele enquanto eu me forço a caminhar até o corpo estirado com as tripas para o lado de fora não muito distante de nós.
Ele fede e me faz sentir repulsa ao olhar pro seu rosto de pele avermelhada enfeitada por uma barba grisalha, que eu cuspo antes de me abaixar ouvindo Derick pedindo pra mim parar.
Mas eu não paro, não enquanto não vejo o corpo do doente que está com a alma queimando no inferno dentro da cova rasa feita pelo garoto que a partir de hoje eu vou me manter o mais longe possível porque não quero a sua vida e a minha entrelaçada da forma que só mostraria o quão parecida eu sou com aquela que me deu a luz.
- Lua, caralho!
Ele agarra a minha mão antes que eu a feche sobre o cabo da pá e me puxa a força pra ele, me prendendo no abraço que me sufoca e me faz gritar se debatendo por ser distorcido por minha mente o suficiente para se parecer com o do nojento agora dentro da cova.
- Sou eu, Lua! - suas mãos agarram meus ombros com força e me sacodem enquanto permaneço tentando sair do aperto do seu toque que parece queimar os lugares sujos pelo toque forçado de outro alguém. - Pelo amor de Deus, sou eu!
Meu corpo se eleva, retesado, quando de um segundo pro outro suas mãos sobem para as laterais do meu rosto e me puxam para cima, na direção do seu com uma força que faz meu pescoço estralar e a respiração ser travada no segundo em que finalmente abro meus olhos e tenho os seus se aprofundando na imensidão azul das minhas íris.
- Olha pra mim, filha da puta! - sua voz soa entre dentes, rouca, em transição, irritada e preocupada enquanto ele age de uma forma que nunca agiu comigo antes. - Tá olhando? Sou eu. Derick. E eu nunca, jamais, em hipótese alguma vou fazer o que aquele desgraçado fez contigo. Está me ouvindo? Eu nunca vou te tocar sem a tua permissão, Lua. Eu nunca vou te forçar a nada porque eu te amo pra caralho e eu quero que seja minha quando estiver bem. Quando estiver pronta pra ser minha e só minha. Pode ser daqui a um mês, daqui a um ano ou dez. Eu não me importo em esperar porque eu sei que um dia você vai ser minha e quando esse dia chegar, ninguém vai ficar entre nós. Eu não vou deixar que fiquem. Está me ouvindo?
- Me solta... - eu peço embargada ao soltar a respiração numa lufada pesada, sentindo seus lábios nos meus e nossos corpos sem espaço algum entre eles. - Por favor, me solta.
- Vai pro carro, Lua. Me espera lá que eu vou só enterrar o desgraçado. - ele me libera e dá um passo para o lado, me dando espaço para passar por ele sem nem olhar para trás ao abraçar meu próprio corpo e fazer o que ele pediu.
Eu abro a porta do carona e entro fechando ela, encarando com os olhos cheios de lágrimas as minhas mãos agora sujas e ouvindo vir do lado de fora o som da pá batendo contra a terra cascalhada.
Fico assim por segundos, minutos... Não sei quanto tempo. Mas me assusto quando ele entra batendo a porta do motorista, me fazendo só então deixar de olhar pras minhas mãos para olhar pro seu rosto iluminado pela luz interna ligada no teto do carro.
- Vai ficar tudo bem, Luara. - ele sussurra quase inaldível e mesmo sabendo que não, eu confirmo brevemente, segundos antes de ter minha atenção levada para fora do carro ao notar as luzes de vários faróis focando em nós, se aproximando com rapidez e me fazendo ver com mais nitidez os vários carros que nos cercam. - Puta merda!
Meu coração dispara, descontroladamente palpita forte dentro da caixa torácica quando vejo homens e mais homens saltarem dos carros ao redor do que estamos.
Armados! Eles estão armados com pistolas que são direcionadas para o interior do carro em que eu e Derick estamos.
- Derick... Meu Deus! - eu chamo assustada, minha mão buscando a sua de forma automática. - E agora?
- Fica calma... - engulo a saliva e levo meu olhar desesperado pra ele, notando que analisa a situação com o rosto impassível, como se fosse normal os vários homens estarem ao redor do seu carro. Dispostos a tirarem nossas vidas. - Vai ter que confiar em mim, tudo bem?
Meu corpo pula sobre o assento, assustado, quando um dos homens vestidos de preto bate com o cabo da sua arma contra o vidro da janela dele, gritando em inglês enquanto manda quem está dentro descer, se não, eles vão atirar.
- Confiar em você? - volto meu olhar pra ele, entrando em alerta quando o vejo se inclinar sobre o câmbio de marcha na minha direção. - Derick...
- Só confia em mim, amor. - engulo a saliva sentindo ela descer densa, quase indigerivel quando ele toca meus ombros e me puxa pra si num abraço que me dá a impressão de estar carregado de espinhos, que espetam meu corpo em contato com o seu. - Lembra do que eu falei? Que eu vou sempre te proteger?
Eu me sinto sufocar quando ele pergunta num sussurro, sua voz soando baixa o suficiente para que eu consiga ouvir o homem que bateu na sua janela segundos atrás, chamar o meu nome e sobrenome com sotaque britânico fazendo meu corpo inteiro arrepiar de um jeito horrível por lembrar que o desgraçado que matei também tinha o mesmo sotaque.
- Derick... - tento afastar ele quando sinto sua mão subir por minhas costas, dando a volta no meu pescoço e vindo parar na minha garganta de uma forma que eu não gosto de sentir - Derick... - chamo novamente, assustada e com medo quando ele firma a pegada sobre minha pele, me fazendo entrar em desespero total por começar a entender o que ele está prestes a fazer comigo. - Por favor, não faz isso...
Eu sinto o ar ser travado na minha garganta por sua mão, impossibilitado de seguir seu caminho até meus pulmões graças ao aperto do garoto que mesmo sendo mais novo é muito mais forte e habilidoso que eu graças aos anos de box e defesa pessoal que ele praticou com a intenção de sempre saber como me defender.
- Eu amo você, Lua.
Ele sussurra fazendo minha garganta queimar ao tocar em lugares estratégicos que me fazem sentir meu corpo amolecer em segundos e meus olhos pesarem de uma forma dolorosa demais.
- E eu não vou deixar que você foda com tudo ao sair lá fora. Não... O que tiver que acontecer, vai ser comigo.
Eu fecho meus olhos, deixando as lágrimas saírem sem controle porque não consigo se quer me mexer de tão pesado que sinto meu corpo nesse momento.
- Ninguém, nunca mais, vai tocar em você. E se te deixar inconsciente é a forma de te proteger de agora pra frente, acredite... Eu vou te deixar inconsciente quantas vezes forem necessárias, meu amor.
• DERICK DA SILVA RODRIGUES
• 18 anos
O corpo dela amolece indicando sua inconsciência e eu inspiro lentamente, a liberando sobre o assento antes de voltar a sentar com a coluna ereta, meu olhar examinando todos os quatro cantos ao redor do carro em que estamos.
Minha única preocupação é ela, meu foco principal é manter sua vida a salvo e por esse motivo, permaneço o mais calmo que consigo.
Não tem motivos para que eu perca meu tão subestimado autocontrole, não agora, não enquanto ela permanece bem.
- Sai do carro! - o maldito portando uma pistola prateada, vestido com terno totalmente preto, bate forte contra o vidro da minha janela, fazendo a superfície trincar. - Vai, filho da puta!
Eu gasto alguns segundos para chegar a conclusão de que eles não nos querem mortos porque se quisessem, já teriam abrido fogo contra meu automóvel, e solto o ar da mesma forma que o traguei. Lentamente.
Com o coração batendo tranquilo dentro da caixa torácica e o sangue sendo bombado de forma normal por minhas veias, eu me inclino pegando meu celular sobre o painel antes de sair clicando nos botões laterais que fazem a ligação de emergência ser iniciada para o padrinho da minha garota. O único que não a julgaria por saber que ela matou um verme que só estava fazendo peso no mundo.
- Algum problema?
Bato a porta atrás de mim ao perguntar em inglês, o idioma que notei ser o fluente deles, enquanto deslizo meu celular para o bolso dianteiro da minha calça com o gravador apontado para cima, ciente que dessa forma Hércules escutará toda a conversa a seguir.
- Cadê a Luara? - o fodido que trincou a minha janela pergunta em inglês, sua arma vindo para a minha têmpora direita quando tenta abrir a porta em que saí e eu a bato novamente, permanecendo com a mão aberta sobre o metal frio para impedir que tenha êxito na sua missão. - Saia ou eu vou atirar e acabar com a tua vida de merda. Quem você pensa que é?
- Antes que você tente, eu já te mandei pro inferno. Acredite nisso.
Eu não sinto medo quando o ameaço, na verdade, eu raramente sinto medo de algo. Penso que seja alguma configuração minha que veio errada porque meus pais são os seres humanos mais medrosos que conheço, tudo é motivo para os dois perderem o autocontrole, mas também não sei... Talvez eu só seja mais uma prova viva de que pessoas boas podem sim ter filhos que são o seu total oposto. Ou seja, pessoas ruins.
Não que eu seja ruim, totalmente ruim, mas eu facilmente me tornaria se a vida de quem eu amo estivesse em perigo. Disso eu tenho certeza.
- Se afaste do garoto, Michel. - sem mover um centímetro do meu corpo, minhas íris buscam no meu campo de visão o dono da voz grossa que ecoa me fazendo ter certeza de que é o líder deles. - Não faz eu falar outra vez.
Eu engulo a saliva, inspirando com calma quando minhas retinas refletem pro meu cérebro a imagem do homem branco enorme, cheio de músculos e uma barba por fazer que combina a cor amarelo areia com seus fios levemente compridos. Ele é o único que está usando um sobretudo por cima das suas peças casuais e exala todo o poder que parece ter sobre os outros, que estão ao seu redor, mais para protegê-lo do que atacar a mim como o tal Michel parece determinado nesse momento.
- Esse garoto é abusado, Ethan. - a pressão contra a minha têmpora aumenta e eu travo meu maxilar, sentindo quando meu celular vibra dentro do bolso com a autorização de localização sendo cedida ao padrinho da Lua ao mesmo tempo em que ouço a trava da arma sendo desfeita. - Nós não precisamos dele. Não é só a garota que viemos buscar? Então... Eu mato ele, você pega ela e nós vamos embora desse país de merda.
- Você não vai tocar na minha garota. - eu deixo claro, com minha voz soando firme para que não haja dúvidas de que eu seria capaz das maiores atrocidades para manter ela a salvo.
- Ahh, não? - ele rir debochado e dá um passo para trás, me fazendo entender que vai dar a volta no carro para ir até ela e pela primeira vez em muitos anos, fazendo meu coração acelerar com o amaldiçoado ódio sendo dispersado no meu corpo, que vibra com o sangue fervendo nas veias. - Você quer me ver tocando na sua garota?
- Você não vai tocar nela!
Anos de treinamento passam em segundos por minha mente, me recordando dos golpes mais eficazes quando avanço na direção do filho da puta sentindo cada fração do meu corpo vibrando na frequência do ódio quando o atinjo com um chute de esquerda que faz ele cair por cima do capô do meu carro deixando a arma voar e se acomodar no espaço do para-brisas enquanto ele desliza puxando o ar para dentro dos pulmões e me xingando no seu idioma natal.
- Ou você mata ele ou ele vai matar você e vai transformar a sua garota na puta particular dele. - o tal Ethan fala alto o suficiente para que eu o ouça e se antes já estava puto, determinado em mandar o filho da puta para o quinto dos infernos, agora isso era uma questão de honra. - Decida!
Michel levanta olhando pro cara por segundos, estes que uso para pular por cima do capô e pegar a arma sobre o canto de lá do para-brisas.
Não vou mentir e dizer que é a primeira vez que pego em uma. Não... Embora meu pai abomine violência com armas, ele tem uma em casa e eu sempre me senti atraído pela eficiência dela. O suficiente para pegá-la escondido sempre que podia e testá-la porque o fato de saber que no lugar exato, um projétil penetrado era fatal, me enchia de satisfação. Arrisco dizer que era até excitante imaginar o estrago feito por ela, principalmente na cabeça de quem merece.
- O que você está fazendo, cara? - ele pergunta incrédulo, seu olhar saindo do homem de sobretudo e buscando o meu quando elevo a arma no ar com meus dedos se fechando com força ao redor do cabo e meu coração acelerado de forma incomum, como nunca antes, dentro da minha caixa torácica. - Abaixa a merda dessa arma, moleque! Você não vai atirar, se quer sabe como fazer isso.
- Eu deixo a garota livre se você mandar esse filho da puta, doente traidor, para o inferno agora.
A voz potente anuncia e eu engulo a saliva, puxando e soltando o ar pesado entre as narinas. Uma parte minha sendo a responsável por deslizar meu indicador para o espaço do gatilho e a outra por me alertar que depois que eu o puxar, não terá mais volta, que eu terei minhas mãos sujas de sangue.
Eu, filho do meio de Luan e Lorena, de duas pessoas que são conhecidas pela bondade que tem em seus corações, me tornarei um assassino. Alguém que trará desgosto aos meus pais. E por que? Porque a vida de Luara, o bem estar e liberdade dela sempre estará acima de tudo na minha vida.
Eu amo aquela mulher com todas as minhas forças, sou obcecado, viciado no sorriso e cheiro dela e por isso, nesse momento, cometo um pecado muito maior do que só amar a minha irmã de criação.
Eu me torno algoz de outro ser humano ao apertar o gatilho duas vezes seguidas, sentindo o solavanco que a arma me dá quando dispara o primeiro projétil e logo em seguida, com o automático da pistola deslizando outra cápsula para o cano, o segundo que acerta em cheio o olho direito do filho da puta que não tem tempo se quer para falar um A, antes de ter a alma arrancada do corpo que cai sofrendo espasmos violentos sobre o chão de terra avermelhada cheia de cascalho na superfície.
Meu ouvido zuni, afetado pelo som estridente saído da pistola entre meus dedos e eu ofego, assustado com meus olhos fixos no corpo que pouco a pouco vai parando de se mover no chão, vai tendo seu sangue vermelho intenso drenado pela terra.
Eu queria me sentir culpado, queria me sentir mal com a cena que fui o responsável por estar assistindo nesse momento. Mas não sinto nada que não seja o pavor de ter meu corpo todo eletrizado, consumido por uma adrenalina que me faz ter certeza que eu faria isso quantas vezes fosse necessária. Por Luara ou qualquer outra pessoa da minha família, eu seria capaz de matar quem quer que fosse.
- Bom trabalho...
Minhas mãos apertadas sobre a arma se movem no ar, levando a mira para o rosto branco do homem de sobretudo, iluminado pelos faróis dos carros ao redor do meu, e ele sorrir dando um passo de cada vez na minha direção. Vindo lentamente enquanto continua sob minha mira fazendo gesto para os homens também armados abaixarem suas armas e permanecerem onde estão.
- Derick da Silva Rodrigues, dezoito anos, filho primogênito e de sangue de Lorena da Silva e Luan Rodrigues... - ele começa, falando tranquilo e confiante de que não vou atirar porque agora me mostra que sabe muito mais de mim do que eu gostaria e isso coloca não só a Lua em perigo, como também todos da nossa familia. - Estudante superdotado de direito que devido ao dom da sabedoria, ganhou uma bolsa na Universidade de Oxford e deveria ter embarcado a mais de sete horas atrás com destino a Inglaterra.
Eu engulo a saliva, puxando o soltando o ar com força entre as narinas enquanto aperto meus dentes uns nos outros, sentindo ódio por ele estar confiante o suficiente para parar com o peitoral diante do cano da arma que tenho em mãos, olhando fixamente nos meus olhos com os seus que são tão azuis quanto os de Luara. Algo que faz um arrepio fodido subir por minha espinha com a certeza que faz minha cabeça latejar quando ouço sendo dita por ele:
- Sou irmão consanguíneo da Luara. Um dos seis que foram frutos de um estupro cometido pelo verme que eu ajudei a chegar nela porque acreditei que havia mudado e só queria o amor da filha caçula.
Meus dentes se apertam com ainda mais força, chegando ao ponto do meu corpo todo tremer com o ódio que sinto porque parte da merda que aconteceu com a Luara é culpa dele. É o que está admitindo nesse momento.
- Não sou teu inimigo... Ele era. - sua cabeça se move na direção do homem que matei a pouco. - Aquele maldito era tão doente quanto o nosso pai e eu só fui descobrir isso quando peguei ele e o verme conversando por chamada, rindo com o feito do maldito que ainda teve a coragem de contar parte por parte do que fez com a minha irmã.
O choque de ouvir ele admitindo que quem matei era seu meio-irmão como se fosse algo normal, sem importância, estampa meu rosto e por mais forte que tenha tentando permanecer, acabo deixando que o medo me domine ao ponto de sentir minhas mãos trêmulas quase perderem o força sobre a arma.
Eu não matei só um ser humano. Eu matei um dos irmãos da mulher que eu amo.
Alguém doente como o pai!
Torno a retomar minha postura ao pensar por esse lado, sem desviar meu olhar dos do homem à minha frente um só segundo.
- Quero que venha comigo, Derick. Que se torne meu braço direito dentro do Cartel do Reino Unido. Em troca, eu garanto a segurança e o sucesso em qualquer carreira que minha irmã quiser tomar a partir de hoje.
Eu faço que não porque é loucura, não faz sentido.
Braço direito, Cartel, eu?
- Luara tem meu sangue. Ter matado nosso pai comprova isso... - ele puxa o canto direito dos lábios num meio sorriso, orgulhoso, suas mãos subindo e cobrindo as minhas ao redor da arma. - E você, Derick... Não é nada parecido com seus pais. Eles jamais matariam alguém, por mais mal que esse alguém o fizessem. Não é da índole deles. Mas é da sua. Vejo isso nas suas íris. Você se quer parece arrependido de ter tirado a vida de outrem. Não é verdade? Ou estou errado e você só está em choque?
Eu me recuso a responder sua pergunta porque a maldita resposta vai contra tudo que fui ensinado por meus pais até hoje.
- Foi o que eu pensei. - ele retira a arma das minhas mãos sem dificuldade e a leva para o cós da sua calça jeans, ajeitando o sobretudo em seguida e me dando as costas com a voz grossa ecoando cheia de autoridade: - Se despeça da minha irmã e venha. Creio que o padrinho dela está para chegar e não quero estar aqui quando isso acontecer.
Eu não faço idéia de como ele sabe que Hércules está vindo, mas meu corpo treme quando ele para perto do corpo sem vida ao chão e o chuta, fazendo com que ele fique de bruços antes de me olhar sério por cima do ombro direito.
- Eu tenho tudo sobre controle, Derick. Nunca se esqueça disso. E quando algo acontece sem que eu saiba ou permita, é dessa forma que eu costumo encerrar um ciclo. - ele aponta para o verme no chão, se referindo a morte. - Se apresse porque eu não tenho a noite toda. Nosso jatinho sai em no máximo uma hora e se te conforta saber, eu deixarei que faça sua faculdade em paz e lhe darei alguns dias durante os próximos anos para confraternizar com sua família sem que nenhum de nós esteja por perto.
Eu fecho minhas mãos em punho, com ódio e medo infiltrado em cada fração do meu corpo enquanto o assisto seguir caminho até os carros, mandando que os outros homens juntem o corpo do verme e o joguem em um dos porta malas para colocar fogo antes de embarcarmos.
Despreocupado, é assim que ele age. Ciente que não tenho escolha a não ser obedece-lo porque não sei até onde iria por algo que ainda não faz sentido para mim.
Por que eu?
A pergunta se repete outra vez e meus olhos buscam o corpo sem vida sobre o chão.
Eu o matei e eu não me arrependo disso.
O quão ruim eu sou?
Eu não consigo pensar numa resposta para tal pergunta e sou fisgado para o agora quando o carro em que o homem que se disse irmão de Luara entra, pisca os faróis na minha direção quase como se quisesse que eu faça logo o que me deu tempo e espaço para fazer antes de partir para longe.
A sensação que sinto quando aceno brevemente e sigo na direção da porta do carona, e que parte do meu coração está sendo arrancado do meu peito, forçado a ser entregue a quem ele ama para que num futuro quando tivermos a chance de viver tudo que eu queria que ela estivesse pronta para viver agora, eu ainda o tenha guardado e seguro, longe de todo o sangue que já tenho a ciência que manchará ainda mais minhas mãos porque posso ser novo, mas não sou idiota para achar que não terei que matar outra vez.
- Quero que permaneça calma. - eu sussurro ao abrir a porta e ver que ela já está consciente, toda encolhida dentro das minhas roupas que ficaram largas no seu corpo pequeno e chorando sobre o banco do carona enquanto me olha com as íris azuis cheias de lágrimas. - Está me ouvindo?
Puxo o celular do bolso, vendo que permanece com a chamada ligada e o jogando sobre o painel sem me importar se Hércules vai ou não ouvir o que tenho a dizer para ela. Eu só quero que ele não perca o sinal da localização e a deixe sozinha aqui por mais tempo do que ela possa suportar sem sucumbir a loucura.
- Quem é ele, Derick? E por que parece que você vai segui-lo?
- Porque eu vou, meu amor. - respondo baixinho, me inclinando sobre seu corpo e tomando seu rosto fino entre minhas mãos grandes, que param seu movimento de negar freneticamente enquanto seus olhos se tornam ainda mais molhados. - Hércules já deve está vindo te buscar e eu não vou esperar ele chegar. Tudo bem? Meu celular vai ficar com você e assim que eu conseguir outro, eu te ligo pra saber como está, se chegou bem em casa.
- Não, Derick... - ela soluça, cheia de dor colocando suas mãos sobre as minhas e apertando como se não quisesse que eu fosse. Mas é por ela que eu vou rezando mentalmente para que realmente permaneça segura e tenha sucesso no que quer que queira fazer a partir daqui. - Fica comigo, por favor.
- Eu queria, amor... Mas hoje, agora, eu não posso. Pode aceitar isso, hum?
A luz interna faz suas lágrimas brilharem e eu elevo meus lábios até o canto dos seus olhos, beijando cada um deles antes de descer com meus lábios, parando diante dos seus, mantendo meus olhos dentro dos seus com meu coração disparado e minha pele quente, incendiada pelo ódio que sinto de mim mesmo por não ter outra alternativa a não ser deixá-la aqui, agora.
- Eu amo você, Luara. - confesso o que ela está cansada de saber porque sempre fiz questão de deixar isso claro para ela e para os nossos pais.
Eles acham que é amor de irmãos, ela sabe que não é às vezes, raramente, também parece sentir o mesmo por mim.
- Eu não sei quando vou voltar a repetir isso olhando nos seus olhos, mas eu quero que se lembre disso. Tudo bem? - ela faz que sim, chorando intensamente enquanto sente no seu rosto o quão pesada e quente está a minha respiração. - Eu amo você desde os meus doze anos e não é um amor passageiro, Lua. É um amor que eu sei que vai permanecer até o fim comigo... Talvez quando nos reencontrarmos, eu tenha mudado um pouquinho - sorrio para amenizar o quão mentiroso sinto que estou sendo. - Mas eu sempre vou ser seu. Meu coração e o meu amor, sempre serão seus.
- Eu sei que sim.
Ela sorrir em meio ao choro e eu inspiro com força o ar liberado por seus lábios, engolindo esse pouquinho dela quando toco seus lábios com os meus de forma casta, sem ultrapassar seu limite sentindo quando seu corpo estremece ao mesmo tempo em que o meu arrepia com nosso primeiro selinho.
Eu não falo mais nada, ela muito menos. Permanecemos assim por alguns segundos, até que a buzina de um dos carros ecoa me lembrando que está na hora de ir e com um sorriso forçado nos meus lábios, eu me afasto dela. Piscando galante antes de fechar sua porta e abrir a de trás para retirar minha mala pronta dali.
- Você vai ficar bem até eu voltar? - minha voz vacila quando ela soluça mais alto, se encolhendo ainda mais sobre o banco ao sussurrar que sim para que eu não me sinta mais culpado ainda por deixá-la aqui depois de tudo que passou nas últimas horas. Sozinha. - Então, até mais, amor.
Ela não responde, seu choro não permite, e engolindo a saliva, eu puxo minha mala para fora do carro e bato a porta antes de seguir calado, perdido em pensamentos na direção do carro que pisca o alerta sem parar, quase como se me chamasse pra ele. Pra minha ruína como ser humano e nascimento como alguém que meus pais com certeza abominariam se algum dia souberem que eu me tornei.
- Não se preocupe com ela. Luara ficará bem e longe de qualquer ser que possa vir a fazer mal a ela novamente. - Ethan diz de forma tranquila assim que abro a porta do carro em que ele está sentado no canto de lá, me olhando de forma impassível. - Dou a minha palavra.
- A sua palavra e nada para mim tem o mesmo efeito. - resmungo, irritado, tirando dele um sorriso divertido.
- Ah, Derick... Não sabe quantos anos esperei para encontrar alguém com suas qualidades e defeitos. Se sinta orgulhoso e lisonjeado por ter a oportunidade que eu estou lhe dando.
Entro calado, colocando a minha mala média entre nós e batendo a porta com meu olhar se fixando no para-brisas onde vejo além dele o meu carro ficando para trás quando o automóvel em que estou dá a ré junto aos outros. Se afastando de quem eu amo e sinto que nunca mais verei da mesma forma depois de hoje.
Mas talvez seja melhor assim.
Eu tenho a ciência de que sempre serei de Luara e ela sempre será minha, querendo ou não, ela será. Mas agora, sob tais circunstâncias que nos cercam e nos obrigam a se afastar, entendo que não é a nossa hora e o que me resta é esperar que ela chegue o mais rápido possível.
De preferência, depois que eu executar a ideia que acabo de ter ao olhar de soslaio para o homem imponente sentado perto da outra janela;
A de que um dia terei força e autoridade o suficiente para combater a sua e tomar o seu lugar, só para reduzir a nada tudo que ele pensa que é de valor na sua vida.
[...]
• LUARA DA SILVA
• 34 anos
Eu estaciono meu carro em frente a igreja mais próxima da casa dos meus pais, Luan e Lorena, tragando o ar com calma enquanto meus olhos analisam o entra e sai de pessoas ali na frente.
Nos bancos de trás, minha mala feita às pressas está ocupando boa parte do assento e na minha cabeça, a notícia do falecimento da minha avó Leona ainda paira como uma nuvem de culpa, me lembrando que eu tive a oportunidade de conversar com ela ainda ontem, mas estava ocupada treinando para a corrida de início da temporada que vai ocorrer meados do mês que vem e acabei não atendendo quando ela me ligou para me cobrar outra vez a atenção que deixei de lhe dar depois que comecei a conciliar a carreira de pilota da Estock Car e a de psicóloga graduada em Transtorno do Espectro Autista.
Meu peito aperta com a dor da perca, do luto e saudade de quem eu optei por manter longe de mim nos últimos anos porque olhar dia após dia pra cada um deles e lembrar que eu era uma intrusa entre eles, alguém que não merecia todo o amor que me davam, era demais pra mim, mas dos meus olhos nenhuma lágrima escorre porque tenho a leve a impressão de que esgotei o restinho de estoque que tinha a quase dez anos atrás, quando logo depois de enterrar meu padrinho Hércules, Derick decidiu se mudar definidamente para o Reino Unido para focar nos estudos e futura carreira de juiz que buscava para si e hoje exerce com maestria.
Eu fui obrigada a me despedir das duas pessoas que mais amava nessa vida na mesma noite. Aquilo doeu na alma e por doer, eu optei por fazer minha mente acreditar que assim como meu padrinho, Derick também havia morrido.
Mas ele não morreu e ter a ciência de que posso estar a alguns minutos de distância dele nesse momento, me faz travar dentro do carro por mais tempo do que eu gostaria.
- Minha princesa?
Heitor, meu melhor amigo que divide apartamento comigo desde que se separou do marido que é meu chefe de equipe, chama baixinho com a mão de unhas compridas subindo para os meus fios negros caídos por meus ombros. Acariciando com calma enquanto me analisa com as íris castanhas comuns que enfeitam seu rosto de pele morena, másculo, coberto pela barba por fazer tão escura quanto seus cabelos cortados curtinhos.
- Tudo bem se quiser ligar o carro e sair daqui, fugir como está acostumada... - seu tom aveludado não disfarça o quão errado ele considera a sua idéia. - Mas creio que não seria o certo a se fazer agora. Não é mesmo? O que a doutora Luara diria ao seu paciente, se ele estivesse nessa mesma situação?
Eu não consigo pensar como profissional quando os problemas são os meus e suspiro frustada, me xingando mentalmente ao fazer um bico com meus lábios ao tirar meus olhos dos do professor de ensino médio que toda semana eu me obrigo a consultar para impedir que ele enlouqueça por causa dos abençoados alunos que têm.
- Você tem quase trinta e cinco anos, Luara...
Permaneço calada quando ele sussurra tão frustado quanto eu.
- Já está na hora de parar de fugir e começar a enfrentar seus medos ou você vai viver assim pra sempre... De namoricos que nunca passam do primeiro encontro, de traumas que te impedem de acreditar que você é um mulherão da porra que merece todo o amor do mundo, inclusive da sua familia. Ou você acha o quê? Que eles te criaram forçados? Não, Lua... Eles te escolheram, independente do sangue que você carrega. Porque é tão difícil pra você entender isso?
Aperto as mãos sobre o volante do meu Camaro ZL1 e me inclino deslizando os dedos sobre o material com relevos emborrachados que servem para massagear minha palma quando apoio a testa sobre meus dorsos, me xingando de burra boca aberta que não conseguiu manter o próprio segredo escondido dele, que numa noite de bebedeira necessária para nós dois conseguiu arrancar de mim todos os segredos que eu guardava nessa vida e não me julgou, só me abraçou forte e acolhedor quando descobriu que fui estuprada por meu próprio pai e que era completamente apaixonada pelo meu irmão de criação que é alguns anos mais novo que eu.
- Em minha defesa... - começo, reunindo coragem para sair do carro porque ele está certo, já passou da hora de parar de fugir de Luan, Lorena e todo o restante da família por medo de sei lá o quê. - Como eu vou acreditar que sou um mulherão da porra sendo que todos os homens com quem me relaciono desaparecem logo após o primeiro encontro? Até o rapaz da igreja que estava falando em casamento e tudo mais...
Eu lembro de olhos fechados, me sentindo mal com isso porque é algo que me chateia, eu aos quase trinta e cinco anos não ter nenhum namorado para chamar de meu porque minha vida pessoal é uma piada de mal gosto. O que me salva é a vida profissional, ainda.
- Você é um mulherão da porra sim. Não se sinta menos do que você é por causa de homens que só queriam te comer... Inclusive, saudades. - franzo meu cenho, abrindo meus olhos e virando meu rosto na direção do seu quando ele corrige: - Não de te comer. Eca! De ser rebelde e dar pra outro que não seja o Rian. - ele menciona o ex marido que todos os sábados vai parar lá em casa, na sua cama provisória para ser mais específica.
- Eu não sou a única com problemas mal resolvidos aqui, não é mesmo? - ele bufa, olhando lá pra fora quando o som alto do escape de uma moto ecoa passando próximo ao carro em que estamos, me chamando atenção quando o estalo do retrovisor retrátil sendo empurrado contra o vidro da janela denuncia que o piloto da moto esportiva o dobra por implicância antes de se enfiar no espaço a minha frente. - Heitor...
Eu chamo trêmulamente, minha mão direita buscando a sua para apertar sem desviar meus olhos do piloto à minha frente. Usando calça e sapatos sociais com uma camiseta de manga comprida da mesma cor, ele desce da moto tirando o capacete, revelando ser quem eu ainda não estava pronta para ver.
Derick...
Ele não é mais o mesmo garoto de dez anos atrás, é um homem. Um homem alto, forte, com barba rala e postura que agora ele impõe enquanto desliza as mangas da sua camiseta para cima, revelando o braço direito cheio de veias marcadas sob sua pele fechada de tatuagens até o cotovelo.
Meu coração bate descontroladamente quando Heitor segura a minha mão e aperta chamando meu nome, mas é impossível desviar dele nesse momento. É impossível não lembrar da noite em que nos vimos pela última vez e ELE confessou que tinha deixado de me amar, que por esse motivo não tinha mais razões para ficar vindo ao Rio de Janeiro todos os anos só para me ver.
Eu me senti uma idiota porque até aquele momento eu me guardava pra que ele fosse o único homem a me tocar depois do maldito que eu não me arrependo de ter matado.
Eu fiz isso porque já o amava, já o queria tanto que doía no peito fingir que não sentia nada por ele, justo por ele que sempre me respeitou ao ponto de entender que na primeira e segunda vez que veio, eu ainda não estava pronta pra ele, mas que na terceira, na maldita última vez que nos encontramos sob circunstâncias semelhantes a de hoje, eu queria e estava pronta para que tomasse muito mais do que um beijo meu.
Mas ele não tomou. Ele optou por ir embora e me deixar quando eu mais precisava dele. Outra vez, porque Derick tem dessas...
- Amiga, ele tá vindo pra cá. Reage pelo amor de Deus!
Eu me sinto entrar em crise de pânico quando vejo ele fazendo a curva da frente do carro para vim até a minha porta. Todo alto e imponente com o capacete passado no braço e o boné preto com detalhes em cinza, que estava preso na alça da sua calça, subindo para a sua cabeça de fios castanhos claros levemente compridos.
- Oo, sua cara de anta! - eu me dobro pro lado quando recebo um beliscão na cintura e só então olho para o meu agressor. - Ele é bonito? É. É gostoso? Também. Mas ele te fez sofrer e você mesmo me disse:
- Derick faz parte do meu passado e é lá que ele vai ficar. - eu repito com ele e bufo, frustrada.
- Acontece que meu passado vive voltando pro meu presente.
Suspiro para me conformar com isso porque sei que só é assim pois em algum momento da minha vida eu deixei de lidar com meus problemas e comecei a fugir deles, fazendo com que se tornassem uma grande bola de caos que vai acabar me matando se eu não agir para a destruir da forma correta antes que isso aconteça.
- Vai ficar no carro por mais quantos minutos? - a voz rouca e potente ecoa adentrando minha audição pelo lado esquerdo no segundo em que minha porta é aberta, me fazendo virar o rosto para olhar, e no meu campo de visão o que se revela são os quadris bem encaixados na calça social com volume bem satisfatório na frente. Aí Deus! - Luara?
- Hum?
Engulo a saliva, minha respiração soando ofegante quando ele se inclina me observando por baixo da aba do boné preto que tem em sua cabeça, os olhos azuis esverdeados tão escuros quanto estavam na última vez que nos vimos se fixando nos meus quando sua língua desliza lentamente entre seus lábios rosados, deixando úmidos e ainda mais atraentes ao meu ver.
Isso é covardia.
- Quem é seu amigo e por que está sozinha com ele aqui dentro a mais de vinte minutos quando deveria estar lá dentro da igreja, fazendo companhia aos nossos pais?
- Eu acho que não te devo... - me calo, fazendo uma careta ao ter minha ficha caindo para outra questão. - Como sabe que estou aqui a todo esse tempo se chegou agora?
- Os seguranças que tomam conta de você pra mim, me avisaram. - ele se ergue depois de revelar de forma tranquila, como se fosse algo normal, e eu arregalo meus olhos, buscando os de Heitor que parece tão em choque quanto eu quando a voz rouca ecoa em tom autoritário ao mandar: - Vamos, saia daí. Agora.
Eu penso em dizer que não farei o que manda porque é ridículo que ele haja como se sempre tivesse moral e autoridade sobre mim, mas buscando uma rota de fuga com meu olhar, acabo o parando no loiro de fios grisalhos que acaba de sair da igreja vestido num terno preto caro, seu olhar focando pro céu quando uma das suas mãos se ergue para o rosto, como se estivesse lutando contra as lágrimas que ele mais do que ninguém deveria estar derramando agora. Afinal de contas, é a sua mãe que logo mais será enterrada.
- Luara, não me faça te tirar a força desse carro.
Eu bufo outra vez, me libertando do cinto porque não quero saber se ele realmente seria capaz disso nesse momento. No fundo eu sei que ele seria, mas também não tenho certeza porque ele mudou muito. A forma como falou comigo a pouco deixa isso bem claro.
O antigo Derick nunca me chamaria pelo nome e sim, pelo apelido.
- Se você não quiser entrar, pode me esperar naquela lanchonete ali da esquina. Tudo bem? - falo com Heitor, ouvindo o som do sapato social batendo com impaciência contra o asfalto quente ao meu lado.
- Eu vou fazer isso porque não sou íntimo da sua família. Só vim mesmo porque fiquei com medo de te deixar pegar a estrada sozinha. - eu aceno, deixando um sorriso agradecido enfeitar meus lábios quando me inclino deixando um selinho sobre os seus. - Amo você, princesa.
- Eu também amo você, Thor. - faço um bico, me sentindo grata por ter ele fazendo parte da minha vida.
E pensar que esse safado me odiava porque sentia ciúmes de como seu ex sempre me tratou no autódromo. Hoje ele finge odiar o ex e me ama porque o mundo não gira, ele capota.
- Quer saber... - o impaciente diz com a voz mais rouca que antes, se inclinando para dentro do carro novamente no segundo em que tiro a chave da ignição e coloco meus pés para fora.
Nosso movimento em conjunto é o suficiente para que acabemos por ficar cara a cara com o outro, tão perto que sou capaz de sentir seu hálito com cheiro de cigarro, que eu nem sabia que ele fumava, soprar quente contra meus lábios.
- Eu já estou saindo.
Sussurro, sentindo meu corpo amolecer quando sua mão direita se encaixa na minha cintura esquerda e aperta com força o suficiente para deixar a marca dos seus dedos ali enquanto seu maxilar trava diante dos meus olhos, que vagam por cada centímetro do seu rosto, passando por sua barba bem aparada com alguns fios loiros as enfeitando,
nariz fino e empinado que eu tenho certeza que ele operou porque não era assim, até parar nos seus olhos esverdeados que estão escuros e sem brilho nenhum. Tão vazios quanto os meus ficaram nos primeiros meses depois que ele foi embora definitivamente.
- Eu vou ir ali comer, tá? Podem ficar à vontade. Vocês já estão, né? - Heitor fala atrás de mim e eu engulo a saliva quando os olhos de Derick se erguem pra ele, que logo sai batendo a porta.
- Vamos, Luara Rodrigues... - Derick diz entre dentes, apertando minha cintura uma última vez antes de a soltar e se erguer me dando espaço para sair do carro. - Nosso pai precisa de nós dois agora.