O relógio Van Cleef & Arpels no seu pulso foi observado por Amelia Frye.
Os elegantes ponteiros dourados marcavam 16h45.
Faltavam quinze minutos para o Cartório de Registro Civil de Nova York fechar.
Seu polegar cutucando insistentemente a pele já gasta ao lado da unha do indicador, num hábito nervoso que ela achava já ter abandonado anos atrás.
A funcionária Sullivan, uma mulher de rosto gentil e cabelos grisalhos, apareceu na porta do escritório pela nona vez, com um olhar cheio de compaixão que fez o estômago de Amelia se revirar.
"Talvez seja o trânsito, querida", disse a senhora Sullivan ao colocar um copo de água com açúcar na mesinha ao lado da cadeira de Amelia.
Amelia forçou um sorriso, parecendo uma máscara prestes a se quebrar, e respondeu: "Sim, o trânsito de Nova York é sempre terrível."
Seu olhar se desviou para o pôster na parede, onde havia um casal sorridente, com as palavras "Casamentos felizes começam aqui" estampadas em letras alegres abaixo deles. A ironia da situação pesou sobre seu peito, dificultando sua respiração.
De repente, seu celular vibrou na bolsa, fazendo com que seu coração fosse parar na garganta, pensando que poderia ser Kayson.
Com os dedos trêmulos e frios, ela o pegou. A tela se iluminou, mas o nome que apareceu não era o que ela esperava, e sim de Leo Foster, o assistente de Kayson.
Nesse momento, o último lampejo de esperança dentro dela se apagou, deixando um vazio frio e sombrio. Ao respirar fundo, ela sentiu o ar arder nos seus pulmões antes de atender a ligação.
"Senhorita Frye", disse Leo num tom educado, profissional e completamente indiferente. "Me desculpe, mas o senhor Edwards teve um imprevisto. A senhorita Carlisle torceu o tornozelo durante um ensaio, e ele precisou ir até lá."
Kamila Carlisle.
Esse nome era um veneno já conhecido, que se espalhou pelo celular e chegou direto ao seu cérebro. Era sempre Kamila. O motivo do primeiro aniversário que ele perdeu, do terceiro aniversário que ele perdeu e, agora, da nona promessa perdida.
Sem dizer mais nada, Amelia encerrou a ligação.
A tela do celular ficou preta, refletindo seu rosto pálido e entorpecido. Ela parecia uma estranha para si mesma.
Abrindo a conversa com Kayson, seus polegares se moveram com uma precisão estranha e distante ao digitar.
"Kayson Edwards, estamos terminados."
Enviar.
Após enviar a mensagem, sem hesitar, ela clicou em "Bloquear e excluir contato".
Enquanto ela fazia isso, um silêncio profundo invadiu sua mente. A pedra gigante que vinha esmagando seu peito há anos finalmente rolou para longe, lhe permitindo respirar novamente. O ar, antes rarefeito e pesado, agora estava leve e puro.
Ela se levantou tão abruptamente que a cadeira arrastou no chão de linóleo com um rangido.
A senhora Sullivan se assustou, cuja expressão passou de pena para preocupação.
Amelia foi até a mesa da funcionária e colocou o copo de água intocado sobre ela.
Então, ela olhou para a senhora Sullivan e disse com uma voz clara e firme como não tinha há anos: "Já me decidi. Não vou me casar."
A senhora Sullivan abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu.
Mais para si do que para a funcionária, Amelia acrescentou em um sussurro: "Nunca mais."
Com isso, ela se virou e saiu do cartório.
O vento frio de novembro atingiu seu rosto, mas não a congelou, apenas a despertou.
Pegando seu celular novamente, ela percorreu seus contatos até encontrar um nome que havia salvo há sete meses, um número para o qual ela nunca havia ligado.
Ela se lembrava do homem, o maior rival de Kayson. Ele a havia abordado numa festa de gala, seus olhos azuis cheios de uma diversão maliciosa enquanto dizia algo totalmente absurdo para ela.
Na época, ela havia considerado isso uma provocação, uma forma de irritar Kayson.
Agora, essa era sua única opção.
Seu coração batia forte contra as costelas enquanto ela clicava no botão de chamada.
O celular tocou apenas uma vez antes de ser atendido. Uma voz profunda e magnética cortou o ruído da cidade.
"Quem é?"
Amelia fechou os olhos, respirou fundo e deixou as palavras escaparem antes que ela perdesse a coragem.
"Senhor Thornton, aquilo que você disse há sete meses... a proposta ainda está de pé?"
Um momento de silêncio se seguiu do outro lado da linha, seguido por uma risada baixa e perigosamente divertida que fez um arrepio percorrer sua espinha.
Uma risada abafada ecoou do outro lado da linha, com um tom tão cheio de cinismo que fez Amelia corar.
"Que oferta é essa? Minha memória não é muito boa, principalmente para coisas que foram rejeitadas", disse Garrett com uma voz arrastada.
Mordendo o lábio inferior para se manter concentrada, Amelia se esforçou para manter a voz firme ao responder: "Você disse que se eu precisasse de um marido, era só te ligar."
Depois de respirar fundo, ela continuou: "Você disse que precisava de uma esposa para enfrentar sua família."
Houve silêncio do outro lado da linha novamente, e dessa vez, ele se prolongou tanto que Amelia achou que ele estava prestes a desligar, mas então ouviu um leve ruído de tecido, como se ele estivesse colocando um casaco.
Então, a voz dele surgiu novamente, sem todo aquele tom de brincadeira de antes, se tornando incisiva, direta e decisiva:
"Onde você está?"
O coração de Amelia disparou, e ela respondeu automaticamente, com a voz não passando de um sussurro: "No cartório."
"Ótimo. Fique aí. Me dê dez minutos", disse Garrett.
Amelia ficou paralisada por um momento, então perguntou: "Dez minutos?"
"A Torre Thornton fica a três quarteirões daqui. Estou indo. Vamos nos registrar", ele afirmou com um tom que não deixava margem para discussão.
Logo depois, ele encerrou a ligação.
Amelia ficou paralisada na calçada, com o celular ainda pressionado contra a orelha e a mente completamente em branco. Ligar para ele foi um ato de puro impulso e desespero, uma tentativa de provar a si mesma que tinha algum controle sobre sua própria vida. Ela nunca imaginou que ele concordaria.
O pânico começou a se instalar, enquanto uma onda fria a invadia. Seu primeiro impulso foi correr, chamar um táxi e voltar para a miséria silenciosa da sua vida.
Mas então ela se lembrou do rosto de Kayson, sua testa franzida com uma preocupação fingida por Kamila. A ideia de voltar para aquela vida, esperando por mais uma promessa quebrada, era mais aterrorizante do que essa aposta insana.
Pensando nisso, ela respirou fundo e se forçou a se manter firme, como uma soldada aguardando seu destino.
Enquanto isso, no último andar do prédio da Corporação Edwards, Kayson andava de um lado para o outro no seu escritório, com um nó de irritação se formando no estômago.
Ele enviou uma mensagem para Amelia:
"Amor, desculpe. A situação de Kamila foi uma emergência. Vou te recompensar depois."
Mas um ponto de exclamação vermelho apareceu, indicando que não foi entregue.
Ele franziu a testa, pensando que poderia ser um problema de sinal, então tentou novamente, mas o resultado foi o mesmo.
Pressionando os dedos nas têmporas, um gesto habitual de frustração, ele decidiu ligar.
Uma voz fria e automatizada atendeu: "O número para o qual você ligou não está disponível no momento."
Uma onda de aborrecimento, mais intensa e potente do que o normal, o atingiu. Amelia nunca fazia isso. Ela sempre estava disponível, sempre esperando, sempre perdoando.
Concluindo que ela estava fazendo birra, uma birra maior do que o normal, mas ainda assim uma birra, ele decidiu deixá-la esfriar a cabeça, e ela acabaria cedendo, como sempre fazia.
Nove minutos depois, um Maybach preto parou em frente a Amelia, e seus pneus soltaram um leve e arrogante chiado.
A porta traseira se abriu, revelando uma perna longa dentro de uma impecável calça sob medida, e então Garrett Thornton saiu do carro.
Ele era mais alto do que ela se lembrava no baile, com cabelos escuros e olhos tempestuosos, irradiando uma aura de poder cru e indomável.
De início, ele não olhou para ela, mas para a placa acima da porta: Cartório de Registro Civil. Um sorriso lento e predatório surgiu nos seus lábios. Só então seus olhos pousaram nela.
Seu olhar era extremamente invasivo, a analisando dos pés à cabeça como se estivesse avaliando uma aquisição em potencial.
Se sentindo exposta e julgada, Amelia recuou instintivamente meio passo.
Nesse momento, o canto da boca de Garrett se ergueu e ele estendeu a mão para ela, perguntando com uma voz baixa e possessiva:
"Trouxe seus documentos, futura senhora Thornton?"
Amelia olhou para a mão estendida de Garrett, que era grande e tinha dedos longos e fortes. Para ela, essa mão parecia capaz de construir um império ou destruí-lo com a mesma facilidade, e representava um futuro que ela não conseguia imaginar.
Nesse momento, uma imagem de Kayson, com a mão repousando suavemente sobre o tornozelo enfaixado de Kamila, lhe veio à mente.
Ao se lembrar disso, sua espinha se endireitou e a hesitação desapareceu, dando lugar a uma determinação fria e firme.
Quando ela colocou sua mão trêmula sobre a dele, sentiu sua palma quente e seca, enquanto o aperto firme dele envolvia seus dedos, não como um toque reconfortante, mas como uma declaração de posse.
Um sorriso triunfante surgiu nos lábios de Garrett. Ele apertou a mão dela com mais força, a impedindo de se afastar, e a levou de volta para a entrada do Cartório de Registro Civil.
A senhora Sullivan estava arrumando sua mesa quando viu Amelia retornar, desta vez acompanhada de um homem alto e incrivelmente bonito. Ao vê-los, a funcionária ficou boquiaberta.
Garrett lançou um sorriso tão encantador para a senhora Sullivan que poderia derreter geleiras. "Senhora, estamos com pressa."
Sob a influência de Garrett, todo o processo se tornou um borrão, com a papelada sendo preenchida rapidamente.
Quando chegou a hora da foto, o rosto de Amelia era uma máscara rígida e antinatural. Garrett se inclinou e sussurrou com seu hálito quente no ouvido dela.
"Sorria, Amelia. De agora em diante, você é a vencedora", ele murmurou. Sua voz baixa e profunda pareceu percorrer todo o corpo dela.
Ao ouvi-lo, sua respiração se sufocou na garganta. Ela o encarou, deparando-se com seus olhos azuis profundos e, pela primeira vez, viu algo além da zombaria de sempre. Era um vislumbre de... algo mais.
Quando a câmera disparou, capturando o momento do casamento, um sorriso genuíno e inesperado surgiu nos lábios dela.
Ao receber a certidão de casamento carimbada, tudo ainda parecia surreal para ela.
Amelia Frye agora era Amelia Thornton.
Assim que saíram, Garrett soltou a mão dela. Em seguida, enfiou a mão no bolso do paletó, tirou um molho de chaves e um elegante cartão preto, e os colocou na mão dela.
Amelia olhou para os itens na sua mão: uma chave de apartamento com um design sofisticado e um Cartão Centurion da American Express.
"O que é isso?", ela perguntou com a voz rouca.
"A chave de uma cobertura no Upper East Side, que agora é sua nova casa. O cartão não tem senha nem limite. Fique à vontade para usá-lo", disse Garrett num tom casual, como se estivesse entregando um folheto.
Ele fez uma pausa, enquanto seus olhos brilhavam. "Considere isso como uma mesada por ser a senhora Thornton."
O peso da chave e do cartão começou a queimar a mão dela. "Isso não fazia parte do nosso acordo."
"Mas faz agora. Minha esposa não pode parecer pobre. Principalmente na frente de Kayson Edwards", disse Garrett num tom indiferente, sem dar margem para discussões.
Ao ouvir o nome de Kayson, tudo se encaixou para ela. Ela percebeu que isso não era apenas um casamento por conveniência, mas um ato de guerra, e ela era sua arma mais nova e estratégica.
Ele abriu a porta do Maybach para ela e disse: "Entre. Vou te levar para buscar suas coisas."
Amelia se sentou no assento de couro macio, enquanto o cheiro de menta e couro caro a envolvia, lembrando-a de que esse era o aroma de um mundo ao qual ela não pertencia.
Após entrar no carro, ela deu o endereço do apartamento que alugava.
O carro saiu suavemente da calçada. Após um breve silêncio, Garrett falou, a encarando pelo retrovisor.
"Você mora em um imóvel dos Carlisle?"
Amelia congelou. O endereço que ela havia informado era de um prédio de propriedade da sua mãe, Kristen Carlisle, onde ela era apenas uma inquilina como qualquer outra.
Ela respondeu em um tom frio e incisivo: "Meu sobrenome é Frye."
Garrett a observava pelo retrovisor, notando o brilho de ressentimento nos olhos dela. Então, um murmúrio suave e perspicaz escapou dos seus lábios, um som que não era nem uma risada, nem um suspiro.
Sem continuar com o assunto, ele pegou seu celular, abriu seu perfil na rede social e tirou uma foto da certidão de casamento. Ele a enquadrou cuidadosamente, mostrando apenas o selo oficial, a data e a palavra "Casados", mas escondendo seus nomes. Em seguida, digitou uma única palavra na legenda: "Casados." Por fim, ele a publicou.