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Não Era Amor, Era Fuso Horário

Não Era Amor, Era Fuso Horário

Autor:: schaanafockink
Gênero: Moderno
Um romance sobre recomeços improváveis, vínculos improváveis - e a coragem de se deixar ser vista. Sofia Prado tinha um plano. E, como quase todo plano, ele foi por água abaixo quando seu namorado terminou tudo dois dias antes da viagem que fariam juntos. Com o coração quebrado e um bilhete só de ida para a Cidade do Cabo, ela embarca sozinha - sem saber que estava prestes a se perder (e se encontrar) do outro lado do mundo. Na Casa 43, um sobrado peculiar com uma escada que leva ao telhado e uma golden retriever chamada Beyoncé, Sofia conhece Sky, uma professora de yoga que coleciona frases na parede, e Leo, um engenheiro introspectivo que esconde mais histórias do que parece. Entre cafés servidos com caos, bilhetes deixados em varandas, e silêncios compartilhados que dizem tudo, Sofia começa a reconstruir a si mesma - página por página, dia após dia. Com humor afiado, emoção genuína e um toque irresistível de fofura, "Não Era Amor, Era Fuso Horário" é uma história sobre aceitar o que ficou, soltar o que partiu e aprender que às vezes o amor chega disfarçado de rotina - e que estar em casa não é um lugar, mas um estado de alma.

Capítulo 1 Fuso, Fúria e um Tapete Amarelo

A África do Sul tinha sete horas a mais que Madri. Mas, pra mim, parecia sete socos no estômago - um pra cada hora de fuso que meu corpo não conseguia ignorar. E não era só o corpo, era o resto todo: o orgulho, o estômago que não aceitava mais nem suco de maçã de avião, e o coração que ainda estava tentando entender como alguém termina um namoro com um emoji de coração partido.

O portão da casa era azul desbotado e carregava o número 43 em azulejos portugueses que pareciam meio fora do lugar. Achei isso irônico. Eu tinha atravessado um continente inteiro, deixado minha vida inteira em caixas no armário da minha irmã, e o primeiro sinal de vida da nova fase era um número em cerâmica pintada que parecia saído do bairro de Lavapiés.

Suspirei, com a mochila pendendo do ombro e a mala arrastando na calçada.

"Você merece mais do que alguém que tem dúvidas", ele disse.

Dois dias antes do voo. Dois.

E o mais humilhante é que eu quase pedi pra ele reconsiderar.

Toquei a campainha. Uma vez. Depois outra.

O som era meio rouco, como se o sino tivesse rinite. Ninguém respondeu.

Maravilha. Começamos bem.

Revirei o celular pra checar a mensagem da dona da casa - Sky, nome de estrela ou de marca de internet - e confirmei que eu tinha avisado do horário. Ela disse: "Tranquilo! Estaremos por aqui."

Toquei de novo. E de novo.

Foi então que a porta se abriu com um baque e uma explosão de cor. A mulher que apareceu usava um moletom velho com estampa de abacates surfando e o cabelo num coque desgrenhado que mais parecia um ninho de pássaro rebelde.

- Você deve ser a espanhola abandonada! - ela disse com um sorriso largo. - Bem-vinda à Casa 43!

Não tive tempo de responder. Ela me puxou pra dentro com um abraço meio colado de protetor solar, desodorante cítrico e alguma outra coisa que eu não consegui identificar de cara - talvez maconha? Talvez alegria pura?

- Sou a Sky, como o céu - disse, soltando meu braço. - Mas não sou tão volátil quanto pareço, prometo.

A entrada da casa parecia uma colagem mal recortada de Pinterest: plantas penduradas, tapete amarelo queimado de sol, um sofá de veludo verde com almofadas que definitivamente já viveram dias melhores. Tinha cheiro de café velho misturado com maresia, e por algum motivo isso não me irritou.

- Deixa a mala aí, depois você leva pro quarto. A Beyoncé tá cochilando no corredor, tenta não pisar nela.

Achei que fosse brincadeira. Até ver a cadela. Uma Golden retriever bege, enorme, dormindo com as patas abertas e a língua pra fora como se a vida fosse um eterno sábado de manhã.

- Ela é meio dona da casa, tá? - Sky avisou, já indo na frente. - Às vezes mais do que o Leo.

Leo. O outro morador.

Ela me levou até a cozinha, e a primeira coisa que vi foi ele: sentado num banquinho alto, de camiseta cinza e fones de ouvido enormes, digitando alguma coisa no laptop com uma concentração digna de cirurgia cardíaca.

- Leo, essa é a Sofia. - Sky apontou pra mim como se eu fosse uma pizza recém-entregue. - Ela foi abandonada, voou sozinha, sobreviveu à Qatar Airways e agora tá oficialmente entre nós.

Ele tirou um dos fones, me olhou rápido e acenou com a cabeça. Não sorriu. Mas também não pareceu grosseiro - só... ausente. Tipo gente que vive mais no mundo interno do que no externo.

- Oi - disse ele, e voltou pro computador como se nada tivesse acontecido.

- Ele é assim mesmo - sussurrou Sky, me servindo um copo de água gelada. - A gente ama, mas é tipo como adotar um gato arisco: um dia ele deixa você fazer carinho, no outro morde seu dedo.

Sentei na bancada com a água nas mãos e tudo pareceu desacelerar. Aquele era o lugar onde eu ia morar pelos próximos meses.

Com uma surfista hiperativa, um engenheiro emocionalmente indisponível e uma cachorra chamada Beyoncé.

E o mais estranho de tudo? Era como se tudo isso fizesse algum sentido.

- Eu nem sei o que tô fazendo aqui - murmurei.

Sky me encarou por dois segundos e disse:

- Ninguém sabe. Essa é a mágica.

Silêncio. Até que Beyoncé apareceu, farejou meu tornozelo, soltou um bocejo barulhento e deitou a cabeça no meu pé.

Meu peito apertou. Mas foi diferente dessa vez. Não era dor. Era um tipo de alívio quieto. Tipo quando a turbulência passa e o avião volta a ficar estável.

- Seu quarto é o do andar de cima, o que pega mais sol de manhã - Sky avisou. - Espero que você goste de luz.

- Eu costumava gostar. Em Madri. - Pausei. - Ainda tô descobrindo quem eu sou fora de Madri.

Ela me olhou com carinho. Depois sorriu.

- Bem-vinda ao clube dos que ainda estão descobrindo.

Enquanto subia com a mala escada acima, senti um cansaço que não era só do voo. Era um cansaço de tentar demais, por tempo demais.

O quarto era simples: cama, uma estante com livros desorganizados, um varalzinho com luzes pisca-pisca e uma janela enorme que mostrava o céu azul-pálido da Cidade do Cabo.

Larguei a mala. Me deitei sem tirar os sapatos.

E pela primeira vez em muitos dias, dormi.

Acordei com uma luz branca estourando pelas frestas da janela, invadindo o quarto com uma força quase agressiva. Por um segundo, achei que ainda estivesse em casa, no quartinho dos fundos da minha irmã - mas ali não havia cheiro de café com canela nem o som dos passos da minha mãe indo e vindo pelo corredor.

Ali só havia o sol da África do Sul e um silêncio que, curiosamente, não doía.

Levantei devagar. O quarto tinha cara de espaço vivido por outras vidas. Alguém já tinha colado adesivos na borda do espelho, deixado marcas de caneca na escrivaninha, pendurado um papel com "be kind to your mess" bem no centro da parede.

Pensei em tirar tudo, recomeçar do zero. Mas depois achei que talvez fosse melhor assim: chegar no mundo dos outros e, por um tempo, não saber exatamente onde termina o deles e começa o meu.

Desci ainda de meias. A escada de madeira fazia um rangido leve que me lembrava a casa da minha avó em Toledo. A cozinha estava vazia. Só o barulho do ventilador de teto e, no chão, a Beyoncé de novo - dessa vez, com um par de tênis na boca.

- Isso não é seu - disse em voz baixa, tentando resgatar o calçado com delicadeza.

Ela olhou pra mim, mastigou mais uma vez e soltou como se entendesse perfeitamente que eu era novata ali. Uma nova cidade me esperava lá fora.

Mas, antes de tudo, eu precisava de um café. E, talvez, de um pedaço de mim que ainda não tivesse sido engolido pelo que ficou pra trás.

Capítulo 2 A Casa Acorda (Com Ou Sem Você)

O cheiro veio antes de tudo: café passado na hora, alguma coisa doce no forno, e um leve toque de água do mar no ar. Por um instante, pensei que tivesse morrido e ido para o paraíso - até a porta da geladeira bater e me lembrar que estava muito viva e com olheiras nível continental.

- Booom dia, princesa perdida no tempo! - disse uma voz empolgada demais para o horário.

Sky estava na cozinha, de pé descalço, short de surf, camiseta furadinha e um coque bagunçado no topo da cabeça. Uma tatuagem em forma de onda no braço esquerdo parecia se mover com ela.

- Que horas são? - resmunguei, ainda com a cara amassada.

- Quase oito! Hora perfeita pra ver a luz bater no mar como se o universo tivesse feito isso só pra você.

Eu pisquei devagar.

- Preciso de café primeiro.

Ela riu e me entregou uma caneca laranja com a palavra "YES." estampada em letras garrafais. Tomei um gole e quase suspirei. Céus, aquilo era bom.

- Você dorme bem com fuso? Ou prefere virar zumbi durante os primeiros dias?

- Depende do quão emocionalmente abalada estou, - respondi sem pensar, depois dei um sorriso torto. - Mas obrigada por perguntar.

Sky sentou-se no balcão da cozinha com a naturalidade de quem nasceu para viver em casas com cheiro de pão quente e plantas penduradas nas janelas.

- Ok, emocionalmente abalada. Quer um pão de banana? Fiz ontem à noite. É quase um ritual de boas-vindas aqui na Casa 43.

- A casa tem número e nome?

- Claro! Você acha que uma casa que abriga três almas perdidas e uma golden chamada Beyoncé ia ser só "a casa"? Aqui a gente dá nome pra tudo. Inclusive pra fase da vida. E você, Sofia? Já nomeou a sua?

Mordi o pão de banana - absurdamente bom, úmido e com gosto de acolhimento.

- Ainda tô tentando entender em que planeta eu tô, Sky. Dar nome à fase parece um pouco além da minha capacidade no momento.

Ela não pareceu ofendida. Pelo contrário. Abriu um sorriso imenso, com os olhos iluminados de quem já viu muitos começos bagunçados virarem histórias lindas.

- Tá tudo bem. A gente começa devagar. Hoje, por exemplo, a gente só vai ao mercado da esquina. Prometo não te jogar num mar gelado... ainda.

Antes que eu respondesse, Beyoncé entrou correndo na cozinha com o focinho coberto de espuma - de sabão, aparentemente.

- Não... - Sky levantou num pulo. - Você invadiu o banheiro de novo? Beyoncé, você não é uma sereia, garota! Vem cá!

A golden retriever correu até mim e deitou nos meus pés, como se soubesse que precisava conquistar meu coração de forma definitiva. Missão cumprida.

- Ela sempre toma banho sozinha? - perguntei, acariciando as orelhas macias da cadela.

- Não, ela invade os banhos dos outros. É uma arte. Leo nunca mais foi o mesmo depois do dia em que ela abriu a porta enquanto ele estava cantando Bon Jovi.

- O Leo... ele costuma interagir mais, ou é assim mesmo? - perguntei, lembrando do silêncio gelado do dia anterior.

- A criatura misteriosa do andar de cima, é assim. Engenheiro naval. Antissocial profissional. Mas um coração bom, quando resolve tirar a cara da tela do computador.

- E vocês dois se conhecem há muito tempo?

Sky deu de ombros, pegando uma banana da fruteira.

- Uns três anos. A gente dividia um flat minúsculo aqui em Muizenberg mesmo, depois viemos parar aqui. A casa estava pra alugar, era colorida demais pra ignorar. E aqui estamos. A vida vai jogando a gente onde precisa, né?

Olhei em volta: os azulejos coloridos da cozinha, as plantas com nomes escritos em etiquetas ("Esther" era uma jiboia, "Roberta" uma hortelã). Tudo naquela casa parecia sorrir, mesmo que meio torto.

- Você trabalha com o quê, Sky?

- Dou aula de surf, quando as marés deixam. E sou professora de yoga também. Também ajudo numa ONG que cuida de jovens em situação de vulnerabilidade. E você, o que fazia antes do ex-babaca decidir mudar seus planos?

Sorri, ainda com um restinho de mágoa entre os dentes.

- Publicitária. Em Madri. Trabalhava numa agência criativa. Cuidava de clientes grandes. Mas... sei lá. Me sentia pequena demais lá dentro.

- Bem-vinda ao clube dos que resolveram se encontrar longe de casa. - Sky levantou a caneca. - Brindemos ao caos.

Eu brindei de leve. Porque, no fundo, eu sabia que o caos já era íntimo meu fazia tempo.

O mercado da esquina ficava numa ruazinha com lojinhas de artesanato, café com mesas na calçada e um vendedor de flores que me sorriu com todos os dentes do mundo. Sky parecia conhecer metade da vizinhança.

- Essa é Sofia, minha nova roomie maravilhosa! - ela dizia, puxando conversa com a senhora da padaria, o dono da quitanda, a menina da banca de revistas.

Sorrir tanto em uma manhã parecia um esporte olímpico, e eu estava fora de forma.

- Você sempre foi assim? - perguntei quando saímos com as sacolas cheias de frutas e pão.

- Assim como?

- Brilhando tanto que parece que o sol tem ciúmes.

Ela gargalhou alto, jogando a cabeça pra trás.

- Meu Deus, eu amei isso. Posso colocar na bio do Instagram?

Dei risada também, pela primeira vez em muitos dias.

- Sério, você não tem dias ruins?

- Claro que tenho. Mas prefiro não deixar eles dirigirem a minha vida. Eles podem sentar no banco de trás, no máximo.

Sky era um furacão ensolarado. E eu ainda era só uma poeira tentando se reorganizar.

Mas, por algum motivo, estar ali com ela, no meio de uma rua colorida da Cidade do Cabo, fez com que meu peito doesse menos. Como se a vida, mesmo ainda bagunçada, tivesse voltado a respirar.

Quando chegamos na Casa 43, Leo estava na sala, com um notebook no colo e fones enormes cobrindo as orelhas. Um gato preto dormia ao lado dele - não sabíamos de onde vinha o gato, mas ele aparecia todos os dias às dez da manhã e ia embora às cinco. Beyoncé ignorava solenemente sua presença.

- Bom dia Leo - falei baixo demais.

- Quer ver uma mágica? - Sky pegou uma fatia do pão de banana e acenou. - Leo! Tem mais disso aqui!

Leo tirou um dos fones e olhou em nossa direção. Um aceno mínimo, um "obrigado" murmurando, e ele já estava de volta pro mundo dos cálculos e números que só ele entendia.

- Oi, Sofia - ele disse, sem levantar os olhos. - Bem-vinda de novo.

- Obrigada.

E era isso. Sem perguntas, sem julgamentos. Só uma recepção simples, como se eu já fizesse parte de algo.

Naquela noite, sentada na varanda com uma taça de vinho branco que Sky dividiu comigo, olhei para o céu da África e tentei lembrar como era viver sem dor no peito. Não doía tanto ali. Talvez o fuso estivesse embaralhando minha percepção... ou talvez fosse mesmo essa casa.

A Casa 43 tinha cheiro de pão quente, risadas altas e uma golden retriever que parecia entender a alma da gente.

Era só o começo. Mas, por algum motivo, me parecia um começo certo.

Capítulo 3 Sol, Yoga e Primeiros Passos

O sol da Cidade do Cabo acordou Sofia antes mesmo do despertador. Luz dourada invadia o quarto por entre a cortina leve, tocando seu rosto como um lembrete gentil de que ela estava, de fato, do outro lado do mundo.

Pela primeira vez em dias, ela acordou sem a pressa de checar o celular. Nada de e-mails. Nada de lembretes do antigo emprego em Madri. Nada do Tomás. O ar da manhã trazia um cheiro de sal, madeira e liberdade.

Ainda sonolenta, Sofia se espreguiçou, e a primeira coisa que ouviu foi um latido animado do lado de fora da porta. Em seguida, um leve arranhado. Sorriu.

- Tô indo, Beyoncé - murmurou, calçando o chinelo.

Abriu a porta e, como um foguete dourado, a golden retriever atravessou o quarto, rodopiando até jogar o corpo no chão, de barriga pra cima.

- Entendi. Carinho primeiro, café depois - disse, agachando-se para fazer cafuné.

A casa ainda estava silenciosa, mas ao descer as escadas, Sofia ouviu uma música suave vindo dos fundos. Passou pela cozinha, onde a chaleira já estava no fogão e uma tigela com frutas cortadas dava boas-vindas sobre a mesa.

Seguiu o som até o quintal e encontrou Sky de cócoras sobre um tapete de yoga. De olhos fechados, ela mantinha uma mão sobre o coração e outra sobre o ventre, respirando profundamente. Sofia ficou ali por um instante, observando. O cabelo de Sky estava preso em um coque alto e bagunçado, e a expressão em seu rosto era de paz absoluta.

Quando Sky abriu os olhos, sorriu como se já soubesse que ela estava ali.

- Bom dia, española! Dormiu bem?

- Como uma pedra. Essa casa é silenciosa, tirando a empolgação da Beyoncé, claro - respondeu, sentando em um dos degraus da varanda.

Sky puxou o elástico do cabelo e deixou os fios caírem pelos ombros.

- Ela leva o cargo de recepcionista muito a sério.

- Acho que você também acordou com o sol, hein?

- Sempre. Gosto de fazer minha prática cedo, antes das aulas. Hoje tenho uma turma na praia. Quer ir?

Sofia piscou.

- Na praia? Tipo... areia mesmo?

- Uhum. Pé na areia, brisa no rosto, saudável e meio cafona - brincou Sky. - Você pode só assistir, se quiser.

Sofia sorriu. Não sabia se queria ver gente se contorcendo em poses impossíveis, mas a ideia de caminhar até a praia, ver o mar, talvez tomar um café diferente... soava bem.

- Por que não? Melhor do que ficar me perguntando o que eu tô fazendo aqui.

Sky deu um joinha, recolheu o tapete e se despediu para tomar banho.

Sofia voltou à cozinha e encontrou uma caneca com seu nome escrito em caneta permanente.

- Já me marcaram? Isso que é eficiência - disse em voz alta.

Preparou um café forte e serviu-se de frutas. Sentou-se à mesa e olhou ao redor. A cozinha tinha azulejos coloridos, imãs de lugares exóticos na geladeira, e uma lousa com recados que iam de "comprar rápis para a Beyoncé" a "não esquecer de ser gentil".

Enquanto comia, ouviu passos descendo a escada. Leo apareceu com uma camiseta cinza amassada e olhos ainda meio fechados.

- Bom dia - disse ele, direto ao armário.

- Já é... metade da manhã, tecnicamente.

Ele grunhiu algo parecido com um "hmm" e passou por ela com uma caneca.

- Você sempre é assim animado de manhã? - perguntou Sofia.

- Só quando tem gente nova fazendo perguntas.

Ela riu, pegando mais um pedaço de mamão.

- Não vou me ofender. Sou da publicidade, já ouvi coisa pior.

Leo a encarou por um segundo, depois abriu um sorriso discreto.

- Publicitária? Achei que fosse artista ou algo do tipo. Tem cara de quem fala com plantas.

- Eu falo com plantas. E com cachorros. E comigo mesma.

- Confirmado, então.

Os dois riram, e pela primeira vez, Sofia teve a sensação de que talvez ele não fosse tão antissocial assim. Só demorava a descongelar.

Sky surgiu, agora vestida com uma calça larga, top esportivo e um turbante colorido, segurando um tapete de yoga debaixo do braço.

- Partiu praia? Você vem, Sofi?

- Tô dentro!

Leo balbuciou um "boa sorte" antes de sair pela porta dos fundos.

Minutos depois, Sofia e Sky caminhavam por ruas arborizadas em direção ao mar. As casas tinham muros baixos, flores nas janelas, e a vista da Table Mountain ao fundo parecia uma pintura.

- Esse bairro parece tirado de um filme indie - comentou Sofia.

- Bem-vinda ao Muizenberg. Aqui a gente vive devagar, mas com estilo.

- E você, sempre morou aqui?

- Quase. Cresci em Durban, mas vim pra cá estudar. Me apaixonei pela calmaria e fiquei. E depois de encontrar a Casa 43 não quis mais ir embora.

- Isso é bem... esotérico.

Sky riu.

- Talvez seja. Mas tem coisas que a gente não escolhe racionalmente, sabe? Tipo... aceitar um convite pra morar numa casa onde mora um engenheiro que mal fala, uma surfista e yoga freak e uma cadela chamada Beyoncé.

Sofia sorriu.

- No meu caso, eu diria que fui expulsa do plano original e caí de paraquedas aqui.

Sky a olhou de soslaio.

- E talvez esse paraquedas tenha te salvado.

Sofia não respondeu. Mas pela primeira vez desde que embarcara naquele avião, considerou que talvez tivesse mesmo algo a descobrir ali. Algo dela mesma, que tinha ficado pelo caminho.

E com o mar se abrindo à frente, azul e largo como uma promessa, ela deu o primeiro passo nessa nova vida.

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