Sofia, uma programadora de origem humilde, vivia um conto de fadas moderno.
Casou-se com Ricardo, o herdeiro milionário, o príncipe encantado.
Ele fez sacrifícios inacreditáveis, a história perfeita que a imprensa amava.
Mas essa perfeição desmoronou com uma descoberta chocante.
Ricardo, o marido devotado, tinha outra vida.
Uma família secreta com uma antiga amiga de infância e filhos gêmeos.
A traição doía, a humilhação era insuportável.
Ele reproduzia com a amante os mesmos gestos e memórias.
Até o local prometido para "o bebê deles" já era compartilhado.
Como podia o homem que parecia tão apaixonado ser capaz de tamanha duplicidade?
Será que o amor dele não era só dela? Era tudo uma farsa?
A humilhação de ser apenas uma cópia, uma versão duplicada.
Ela não era especial. Era apenas mais uma peça em seu jogo doentio.
Com a ajuda da melhor amiga, Sofia forjou sua própria morte.
Cortou o último laço com essa farsa de amor.
Queria fazê-lo pagar, fazê-lo sentir a dor da perda.
Mas Ricardo não a deixou ir.
Consumido pela culpa e obsessão, ele a procuraria incessantemente.
E um segredo do passado, envolvendo o misterioso tio dele, viria à tona.
Conseguiria Sofia ser verdadeiramente livre, ou as amarras do passado ainda a prenderiam?
Sofia olhou para Clara, os olhos fundos, a voz um fio.
"Preciso que me ajudes a morrer, Clara."
Clara, a sua melhor amiga, especialista em cibersegurança, quase cuspiu o café.
"Morrer? Sofia, estás louca? O que aconteceu?"
"Não morrer de verdade. Forjar a minha morte. Um acidente de iate, talvez."
A voz de Sofia era baixa, urgente. O desespero marcava cada sílaba.
"Preciso de desaparecer. Escapar do Ricardo."
Ricardo Oliveira. O marido perfeito, o príncipe encantado do Rio de Janeiro. Herdeiro de um império.
Clara franziu a testa.
"Escapar do Ricardo? Mas ele não te adora? O homem que largou tudo por ti?"
Sofia riu, um som seco, sem alegria.
"Adora. Até demais."
A imagem pública era essa. Sofia Almeida, a programadora de origem humilde, saída de uma favela, casada com o herdeiro milionário. Um conto de fadas moderno. A imprensa os amava.
Lembrou-se do início. Conheceram-se numa feira de tecnologia. Ela apresentava um projeto modesto, ele era um dos patrocinadores do evento. Ele pareceu genuinamente interessado no seu trabalho, não na sua história de superação que os jornais tanto explorariam depois.
Ele a cortejou com uma persistência que a assustou e encantou.
Ricardo fez coisas que nenhum homem rico faria.
Doou milhões para instituições de caridade em nome dela.
Construiu centros comunitários com o nome "Sofia" na comunidade onde ela cresceu.
Durante dois longos anos, trabalhou em empregos modestos, lado a lado com ela, só para provar que o seu amor não dependia do dinheiro. Um caixa de supermercado, um ajudante de pedreiro. A família dele, os poderosos Oliveira, quase o deserdaram. Ele enfrentou-os.
Até instalou um sistema de localização no telemóvel dela, e no dele.
"Para que possas sempre encontrar-me, meu amor," ele dissera, com um sorriso que parecia sincero. "E para eu saber que estás sempre segura."
Na altura, pareceu romântico. Protetor.
O conto de fadas começou a azedar devagar, depois de forma abrupta.
A descoberta foi como um soco no estômago, um que lhe tirou o ar.
Ricardo tinha outra vida. Uma família secreta.
Com Beatriz Costa, a sua amiga de infância. Uma mulher elegante, rica, do mesmo círculo social que ele.
Eles tinham filhos. Gémeos.
Sofia descobriu por acaso, um email esquecido aberto no computador dele. Uma troca de mensagens com um advogado sobre a pensão das crianças.
Confrontou-o, não diretamente. Teve uma crise de ansiedade tão forte que foi parar ao hospital. Ele correu para o seu lado, desesperado, os olhos cheios de uma preocupação que pareceu tão real.
"O que aconteceu, meu amor? Estás pálida, estás a tremer."
Ele cuidou dela com um carinho imenso. Segurou a sua mão, trouxe-lhe água, falou com os médicos com uma autoridade preocupada.
Naquele momento, no quarto de hospital, com o cheiro de desinfetante no ar, Sofia olhou para o rosto dele, para a angústia genuína nos seus olhos, e pensou: este amor que ele me dá, ele consegue duplicá-lo? Consegue senti-lo por duas mulheres ao mesmo tempo?
A ideia era repugnante.
Beatriz. O nome trouxe um gosto amargo à boca de Sofia.
No passado, antes de Ricardo a "punir" , Beatriz tinha sido um tormento.
Quando Sofia começou a namorar Ricardo, Beatriz apareceu como uma sombra. Humilhou-a em festas, com comentários velados sobre a sua origem, as suas roupas, a sua falta de "classe" .
Tentou sabotar os seus primeiros empregos como programadora, espalhando boatos, fazendo queixas anónimas.
Ricardo, ao descobrir, ficou furioso. Moveu mundos e fundos. Beatriz, que dependia financeiramente da sua própria família, viu-se subitamente arruinada. Contas congeladas, negócios do pai a falhar misteriosamente. Ricardo dissera que fora uma "lição" .
Agora, Sofia percebia que a "punição" talvez não tivesse sido por ela. Talvez fosse apenas Ricardo a controlar todas as peças do seu jogo.
Ainda assim, a traição doía. Doía fisicamente.
Sofia chorava à noite, em silêncio, para que Ricardo não ouvisse.
Como podia aquele homem, que parecia tão devotado, ser capaz de tamanha duplicidade?
Ela queria acreditar que havia um engano, uma explicação. Mas as provas eram sólidas.
Então, o inesperado. Uma gravidez.
Os médicos sempre disseram que seria difícil, quase impossível. Uma lesão na infância, uma queda feia enquanto fugia dos gritos e dos punhos do pai. O pai abusivo que marcara a sua infância e a relação distante com a mãe.
Ricardo ficou eufórico quando ela lhe contou.
"Um bebé! Meu amor, vamos ter um bebé! É um milagre!"
Ele rodopiou-a pela sala, os olhos a brilhar. Fez planos. O quarto do bebé, as viagens que fariam, a família que seriam.
Sofia lembrava-se, com uma pontada de ironia amarga, de como Ricardo a defendera dos próprios pais.
Os Oliveira mais velhos, inicialmente contra o casamento, usaram a sua "infertilidade" como mais um argumento.
"Ela não te pode dar um herdeiro, Ricardo. Pensa no futuro da família."
Ricardo batera o pé.
"Eu amo a Sofia. Com ou sem filhos. E se ela não pode ter filhos, é porque Deus não quis. Não é culpa dela."
Agora, grávida, sentia-se ainda mais prisioneira.
Um dia, Ricardo chegou a casa mais tarde do trabalho.
Ele abraçou-a por trás, enquanto ela cozinhava.
"Desculpa o atraso, meu amor. Reunião longa."
Sofia sentiu um cheiro estranho nele. Um perfume floral, doce, enjoativo. Não era o dela. E por baixo, um leve odor de talco, de produtos de bebé.
O estômago dela revirou.
"Estás bem?" ele perguntou, preocupado. "Estás pálida de novo. São os enjoos?"
Ela afastou-se, correndo para a casa de banho, mas não vomitou. Era repulsa. Pura e física repulsa.
Por um momento, considerou perdoá-lo. O amor que ele lhe demonstrava, os sacrifícios que fizera. Seria tudo mentira?
Ou seria ele capaz de amar as duas? A ideia era monstruosa.
Ela ainda o amava. Ou amava a imagem que ele construíra. Era difícil distinguir.
A confirmação final veio numa tarde chuvosa.
Ricardo recebeu uma mensagem no telemóvel. Olhou de relance, o rosto a fechar-se.
"Preciso de sair. Um problema urgente na empresa."
Ele beijou-a na testa, apressado.
Minutos depois, o telemóvel de Sofia apitou. Uma mensagem de um número desconhecido.
Uma foto. Ricardo, sorridente, segurando um bebé em cada braço. Ao lado dele, Beatriz Costa, a olhar para ele com adoração. A legenda: "A família feliz. Não achas?"
A raiva e a dor foram tão intensas que Sofia sentiu o chão a fugir-lhe dos pés.
Ali, sentada no sofá da sala luxuosa que nunca sentira como sua, Sofia soube.
Ricardo nunca lhe daria o divórcio. Ele era demasiado controlador, demasiado obcecado pela imagem de perfeição.
Ele a prenderia, a manipularia, a faria sofrer.
A única saída era desaparecer.
Morrer para o mundo dele.
Clara ouviu tudo em silêncio, o rosto a mudar de incredulidade para horror, e depois para uma raiva fria.
"Aquele desgraçado," ela sibilou. "Eu ajudo-te, Sofia. Vamos fazer esse filho da mãe pagar."
Sofia viajou para outro estado. Um lugar pequeno, discreto, onde ninguém a conheceria.
Clara arranjou tudo. Uma clínica pequena, um médico recomendado.
O procedimento seria feito sob um nome falso.
Ricardo não podia desconfiar. Ele ainda acreditava que ela estava radiante com a gravidez.
A tensão era constante, um nó no estômago que não se desfazia.
Na noite anterior ao procedimento, sentada no quarto de hotel barato, o telemóvel vibrou.
Outra mensagem de Beatriz.
Desta vez, um vídeo. Longo. Explícito.
Beatriz e Ricardo. Na cama deles. Na cama que Sofia partilhava com ele.
Risos, sussurros, gemidos.
Sofia assistiu a tudo, o rosto banhado em lágrimas silenciosas. Uma dor excruciante rasgava-a por dentro.
Mas, no meio daquela agonia, uma constatação ainda mais dolorosa: ela ainda o amava.
Amava o homem que a estava a destruir. Ou talvez amasse a memória do que ele tinha sido, ou do que ela pensara que ele era.
Com os dedos a tremer, ligou para Ricardo. Uma última vez. Uma tentativa desesperada.
"Ricardo?"
A voz dele soou distante, irritada.
"Sofia? O que foi? Estou ocupado."
"Podes voltar para casa? Agora?" A voz dela era um sussurro.
"Voltar? Estou numa reunião importante. Não posso sair."
Silêncio. Depois, ele disse, com frieza:
"Resolve o que tens a resolver. Falamos depois."
E desligou.
Pela primeira vez em todos aqueles anos, ele desligou o telemóvel na cara dela.
Aquele clique foi o som final da porta a fechar-se.
Sofia largou o telemóvel. As lágrimas secaram. Uma frieza instalou-se no seu peito.
Ela iria em frente com o aborto.
Clara ligou no dia seguinte.
"Está tudo pronto. O iate está 'alugado' . O percurso definido. A 'tempestade súbita' no radar meteorológico é cortesia de um amigo meu. Ninguém vai desconfiar."
Sofia passou a noite em claro, a chorar baixinho, abraçada ao travesseiro do hotel.
O seu bebé. O seu sonho roubado.
Ricardo voltou para casa dois dias depois, radiante.
Alheio à tempestade que se formava dentro de Sofia.
"Tenho uma surpresa para ti, meu amor!"
Ele mostrou-lhe fotografias. Uma ilha particular. Praias de areia branca, águas cristalinas.
"Para o nosso bebé. Um refúgio só nosso."
Sofia olhou para as fotos, o rosto uma máscara de indiferença.
"É linda," disse, a voz vazia.
Ela chorou incontrolavelmente naquela noite, nos braços dele.
Ele embalou-a, preocupado.
"O que se passa, meu anjo? São os hormônios da gravidez? Vais ver que passa."
Ele não fazia ideia. Não entendia que aquelas lágrimas eram de despedida.
Pelo filho que não teria. Pelo amor que morrera. Pela vida que estava prestes a abandonar.
Nos dias seguintes, Sofia inventou uma desculpa.
Queria encontrar amigos da universidade, antigos mentores. Uma espécie de "despedida" antes de uma suposta longa viagem de repouso que faria por causa da gravidez.
Ricardo, sempre o marido dedicado, insistiu em acompanhá-la.
"Quero conhecer as pessoas que foram importantes para ti, meu amor."
Nos encontros, ele era charmoso, generoso.
Elogiava Sofia, contava histórias engraçadas sobre o início do namoro deles.
Os amigos dela olhavam para ele com admiração. "Que sorte a tua, Sofia! Um homem assim!"
Sofia sorria, um sorriso que não lhe chegava aos olhos. Mantinha uma distância emocional, um véu de tristeza que Ricardo atribuía aos "caprichos da gravidez" .
Ela observava-o, como se fosse um estranho. Tentava memorizar os gestos, o tom de voz.
A fachada era perfeita. O casal ideal.
Numa dessas reuniões, um jantar informal na casa de uma antiga professora, a porta abriu-se de repente.
Beatriz Costa entrou, um sorriso triunfante nos lábios.
A atmosfera da sala mudou instantaneamente. O ar ficou pesado, carregado de uma tensão palpável.
Sofia sentiu o sangue gelar nas veias.