A minha mãe estava a morrer no hospital, e o que é que o meu noivo, Tiago, e o meu pai, Lucas, estavam a fazer?
Cuidavam do gato doente da irmã do Tiago, a Sofia.
Vinte e três chamadas não atendidas. Eles não se importavam.
Quando atendi a chamada, ouvi a voz irritada do Tiago: "O Miau está a vomitar, a Sofia está em pânico, não tenho tempo para as tuas crises!"
Depois, a voz do meu pai, Lucas, surgiu, surpreendentemente calma, a consolar a Sofia: "Não te preocupes, Sofia. O Tiago e eu vamos cuidar de tudo. Ele vai ficar bem."
Foi então que proferi as palavras que mudaram tudo: "A mãe morreu."
Houve um silêncio, seguido da voz incrédula do Tiago.
"O pai está aí contigo," interrompi-o, com a voz vazia. "Ele está a ajudar a cuidar do gato."
"Nós acabámos," disse eu, as palavras finais de um noivado de cinco anos.
Dias depois, o meu pai ligou para o telemóvel da minha mãe. O nome "Meu Amor Lucas" brilhava no ecrã.
Atendi e pus em alta-voz. A sua voz enfurecida encheu o quarto vazio onde o corpo da minha mãe jazia.
"Helena? O que se passa com a tua filha? Ela não tem respeito nenhum? Será que ela não percebe que a Sofia está a passar por um momento difícil?"
Ele nem sequer perguntou pela minha mãe. Nem uma única vez.
O amor deles era condicional, e nós falhámos. Eles escolheram o gato.
Mas quando encontrei os diários da minha mãe, cheios de dor e segredos sobre o dinheiro deles, a minha vingança começou.
Eu ia garantir que a memória dela fosse honrada, mesmo que isso significasse destruir os homens que a desapontaram.
E tirá-los-ei tudo.
Naquela noite, a chuva caía sem parar, batendo com força nas janelas do hospital.
O meu pai, Lucas, tinha acabado de sair do quarto para fumar, deixando-me sozinha com o corpo frio da minha mãe.
O médico tinha acabado de declarar a hora da morte dela.
Eu estava sentada numa cadeira de plástico duro, com o corpo dormente, a olhar para o rosto pálido da minha mãe.
O meu noivo, Tiago, não estava aqui.
O meu telefone mostrava vinte e três chamadas não atendidas para ele.
Eu sabia onde ele estava.
Ele estava com a irmã dele, a Sofia, a cuidar do gato dela que estava doente.
"O Miau está com febre, não posso deixá-lo sozinho," foi a última coisa que ele me disse antes de desligar o telefone na minha cara, há três horas.
A minha mãe estava a morrer e o gato da irmã dele tinha febre.
A escolha dele foi clara.
Com as mãos a tremer, disquei o número dele mais uma vez.
Desta vez, ele atendeu, mas a sua voz estava cheia de irritação.
"O que foi agora, Joana? Já não te disse que estou ocupado? O Miau está a vomitar, a Sofia está em pânico, não tenho tempo para as tuas crises!"
Antes que eu pudesse responder, ouvi a voz chorosa da Sofia ao fundo.
"Tiago, o Miau não quer comer... Estou com tanto medo. Obrigada por estares aqui, és o melhor irmão do mundo."
Depois, a voz do meu pai, Lucas, soou, surpreendentemente calma e reconfortante.
"Não te preocupes, Sofia. O Tiago e eu vamos cuidar de tudo. Ele vai ficar bem."
O meu pai.
Ele também estava lá.
Ele deixou a minha mãe morrer sozinha no hospital para poder consolar a Sofia por causa de um gato doente.
Um riso seco e amargo escapou dos meus lábios.
"Tiago," disse eu, com a voz rouca e vazia. "A mãe morreu."
Houve um silêncio do outro lado da linha, que durou apenas um segundo.
"O quê? Como assim? O médico não disse que ela estava a estabilizar?"
"Ela teve uma paragem cardíaca. O médico tentou reanimá-la. Não resultou."
"Merda," ele murmurou. "Olha, eu... eu vou já para aí. Diz ao teu pai para..."
"O pai está aí contigo," interrompi-o, com a voz desprovida de qualquer emoção. "Ele está a ajudar a cuidar do gato."
O silêncio que se seguiu foi mais pesado. Consegui imaginá-lo a olhar para o meu pai, a culpa a surgir nos seus olhos.
"Joana, eu sei que isto parece mal..."
"Nós acabámos," disse eu, as palavras a saírem com uma finalidade fria. "Não há casamento. Não há nada."
"Não sejas ridícula!" A voz dele subiu de tom, cheia de raiva. "A tua mãe acabou de morrer, estás em choque! Não podes tomar uma decisão destas agora! Estás a ser egoísta!"
Egoísta?
Eu era a egoísta?
A minha mãe, a mulher que o tratou como um filho durante cinco anos, morreu sozinha enquanto ele segurava a pata de um gato.
"O nosso noivado está acabado, Tiago. Quando fores buscar as tuas coisas a minha casa, por favor, certifica-te de que eu não estou lá."
Desliguei antes que ele pudesse responder.
Imediatamente, bloqueei o número dele.
Depois, bloqueei o número do meu pai.
O meu mundo tinha-se reduzido àquele quarto de hospital estéril e ao silêncio ensurdecedor deixado pela ausência da minha mãe.
O gato da Sofia estava doente.
A minha mãe estava a morrer.
Para o Tiago e para o meu pai, a escolha foi fácil.
O amor deles era condicional, e eu e a minha mãe tínhamos falhado claramente as condições.
Eles escolheram o gato.
Enquanto eu estava ali sentada, a olhar para o nada, o telefone da minha mãe, que estava na mesa de cabeceira, começou a vibrar.
Era o meu pai a ligar.
O nome "Meu Amor Lucas" brilhava no ecrã.
Um impulso doentio apoderou-se de mim. Atendi a chamada e coloquei-a em alta-voz.
A voz zangada e confusa do meu pai encheu o quarto silencioso.
"Helena? O que se passa com a tua filha? Ela acabou de ligar ao Tiago a dizer asneiras e desligou! Ela não tem respeito nenhum? O que é que lhe andaste a ensinar? Será que ela não percebe que a Sofia está a passar por um momento difícil?"
A voz dele ecoou no quarto, passando pelo corpo sem vida da mulher a quem ele chamava "Meu Amor".
Ele nem sequer perguntou por ela.
Nem uma única vez.
Não respondi ao meu pai.
Apenas deixei o telefone em alta-voz, permitindo que o silêncio do quarto de hospital lhe respondesse.
Consegui ouvi-lo a respirar pesadamente do outro lado, a sua impaciência a crescer.
"Helena, estás a ouvir-me? Diz alguma coisa, caramba! A Joana está a agir como uma criança mimada, e tu não fazes nada!"
A voz dele era um ruído distante, sem sentido.
Olhei para o rosto sereno da minha mãe.
Pela primeira vez em anos, ela parecia em paz, livre da dor constante e da necessidade de agradar a um homem que nunca a valorizou verdadeiramente.
"Ela não pode responder-te, pai," disse eu finalmente, com a voz monótona.
Houve uma pausa.
"Joana? Porque é que estás com o telefone da tua mãe? Passa-lho!"
"Não posso."
"Porque não? O que se passa aí?" A irritação dele estava a transformar-se em alarme.
"A mãe morreu há vinte minutos."
O silêncio que se seguiu foi total.
Consegui ouvir um som abafado, como se algo tivesse caído. Talvez o telefone dele.
Depois, a voz da Sofia, trémula e assustada.
"Lucas? O que foi? Estás tão pálido."
Ninguém respondeu.
Apenas o som de respiração ofegante.
"Pai?" perguntei, uma faísca de curiosidade cruel a acender-se dentro de mim. "Estás aí?"
A chamada foi desligada abruptamente.
Senti um vazio estranho. Não era tristeza, nem raiva. Era apenas... nada.
Como se a parte de mim que se importava com ele tivesse morrido juntamente com a minha mãe.
O meu pai não me ligou de volta.
O Tiago não apareceu.
Fiquei sentada ao lado da minha mãe durante mais uma hora, até que as enfermeiras entraram para preparar o corpo dela para a morgue.
Elas foram gentis, falando em sussurros suaves, oferecendo-me um copo de água que eu recusei.
Quando saí do hospital, o ar da noite estava frio e húmido. A chuva tinha parado.
Caminhei para casa.
Não era longe, apenas vinte minutos a pé.
O apartamento que eu partilhava com o Tiago parecia estranho, como se pertencesse a outra pessoa.
As fotos dele e minhas nas paredes pareciam zombar de mim.
Fui diretamente para o nosso quarto e peguei num grande saco de lixo preto.
Comecei a esvaziar o lado dele do armário.
As camisas dele, as calças, os sapatos.
Tudo o que lhe pertencia foi para o saco.
Depois, a mesa de cabeceira dele.
Os livros, o carregador do telefone, uma caixa de preservativos.
Por último, a casa de banho.
A sua escova de dentes, a sua espuma de barbear, o seu perfume.
Enchi três sacos de lixo grandes com os vestígios da vida dele na minha casa.
Arrastei-os para a porta da frente e deixei-os no corredor, do lado de fora.
Depois, enviei-lhe uma mensagem de um número desconhecido, usando uma aplicação online.
"As tuas coisas estão à porta. A chave está debaixo do tapete. Não entres."
Fechei a porta e tranquei-a.
Pela primeira vez em muitas horas, senti algo.
Alívio.