Numa noite de verão no Cais de Gaia, Sofia Almeida, herdeira de uma família vinícola nobre, preparava-se para o seu noivado. Um futuro promissor aguardava-nos.
De repente, Tiago, meu noivo, fitou-me com desprezo, acusando-me de arrogância. Perante todos, rompeu o nosso compromisso, os seus olhos fixos em Catarina Santos, a filha da nossa antiga governanta. Um 'acidente' dramático de Catarina roubou toda a cena e simpatia.
A humilhação foi excruciante. Tiago ignorou-me, socorrendo Catarina, e meu próprio irmão, Miguel, o meu protetor, exigiu que eu pedisse desculpas. Miguel permitiu que Catarina invadisse a nossa casa, manipulou-o para me privar da herança da minha mãe e roubou os meus designs. Quando o confrontei, ele, meu irmão, bateu-me.
A dor da traição, tão profunda e inesperada por aqueles que amava, transformou-se num vazio gélido. Como puderam cegamente defender uma manipuladora e destruir a minha honra, a minha vida? O meu próprio sangue tornou-se cúmplice da minha aniquilação.
No aniversário da morte da nossa mãe, Miguel trocou-me por Catarina, que exibiu o meu colar de família. Ali, a antiga Sofia Almeida morreu. Incendiei a nossa casa, falsifiquei a minha morte, e renasci como Aurora. Pensaram que me destruíram? Mal sabiam que a fénix Aurora não lhes devia nada, nem sequer o meu ódio. A minha vingança seria a minha nova vida.
O bar no Cais de Gaia estava cheio, o som das conversas e da música misturava-se com o ar quente de verão. Do outro lado do rio, as luzes do Porto cintilavam. Era para ser a nossa noite. A celebração do nosso noivado não oficial.
Mas Tiago Carvalho, o homem com quem cresci e a quem estava prometida, olhava para mim com um desprezo que eu nunca tinha visto.
"Não aguento mais isto, Sofia," disse ele, a sua voz alta o suficiente para que as mesas mais próximas se calassem.
"Não aguento mais a tua arrogância de menina rica."
O seu rosto estava vermelho, os seus punhos cerrados sobre a mesa. Os nossos amigos, os herdeiros das outras grandes famílias do vinho do Porto, olhavam, chocados.
Senti o meu rosto a queimar, mas mantive a minha postura. Anos de treino para ser a esposa perfeita de um Almeida não me deixavam desmoronar em público.
"Do que estás a falar, Tiago?" perguntei, a minha voz perigosamente calma.
Ele riu, um som feio e amargo.
"Estou a falar disto. De ti. A achares que o mundo te deve tudo porque nasceste com o nome Almeida."
Ele levantou-se de repente, a sua cadeira raspou ruidosamente no chão de madeira. O seu olhar desviou-se para um canto do bar.
Segui o seu olhar e vi-a.
Catarina Santos.
Ela estava lá, vestida com o uniforme de empregada de mesa do bar, um tabuleiro na mão, os seus olhos grandes e castanhos fixos em nós com uma expressão de medo e preocupação. Uma expressão que eu viria a saber que era completamente falsa.
Ela era filha da nossa antiga governanta, uma rapariga que a minha família tinha ajudado com uma bolsa de estudos.
"Deixa-a em paz, Sofia," disse Tiago, a sua voz agora cheia de uma proteção feroz. "Ela não tem culpa dos teus caprichos."
Eu nem sequer tinha olhado para ela com maldade. Apenas com confusão.
"Eu não disse nada," respondi, a minha calma a começar a falhar.
"Não precisas," ele cuspiu. "O teu olhar diz tudo. Achas que ela não é boa o suficiente para estar no mesmo sítio que tu."
Catarina deixou cair o tabuleiro de propósito. Copos partiram-se, o som agudo cortou o murmúrio do bar. Ela soltou um pequeno grito, como um animal assustado.
Imediatamente, Tiago correu para o lado dela, ignorando-me completamente.
"Estás bem? Ela magoou-te?" ele perguntou, a sua voz suave e cheia de preocupação. Ele ajudou-a a levantar-se, segurando as suas mãos, verificando se tinha algum corte.
A humilhação era um veneno a espalhar-se pelas minhas veias. Ele estava a acusar-me de a atacar, na frente de toda a gente.
Miguel, o meu irmão mais velho, que estava sentado connosco, levantou-se. Eu esperava que ele me defendesse. Ele sempre me defendeu.
Em vez disso, ele caminhou até Catarina.
"Catarina, estás bem? A Sofia não queria..."
"Eu sei," ela sussurrou, a sua voz a tremer. "A culpa é minha. Eu não devia estar aqui. Eu só... preciso do trabalho."
Ela olhou para mim, lágrimas a brilhar nos seus olhos. Era uma performance digna de um prémio. E eles os dois, Tiago e Miguel, caíram nela como tolos.
"É claro que não é culpa tua," disse Miguel, lançando-me um olhar de desaprovação. "Sofia, pede desculpa."
Eu olhei para o meu irmão, incrédula. "Pedir desculpa? Pelo quê? Por respirar?"
Tiago virou-se para mim, o seu rosto uma máscara de fúria. Ele agarrou num copo de vinho da nossa mesa, o nosso vinho, o vinho Almeida, e atirou-o contra a parede atrás de mim.
O vinho tinto escuro escorreu pela parede como sangue.
"Pára de ser uma cabra mimada!" ele gritou. "Acabou, Sofia. O nosso compromisso, o que quer que isto fosse, acabou. Eu não me vou casar contigo. Nunca."
O silêncio no bar era total. Só se ouvia o som dos soluços suaves de Catarina.
Tiago agarrou a mão de Catarina. "Vem, vou tirar-te daqui. Longe dela."
Ele passou por mim, puxando-a. Quando passou, parou e olhou para mim.
"Fica longe dela. Se a tocares, se sequer olhares para ela outra vez, juro que te arrependerás."
Miguel não disse nada. Apenas observou-os a sair, o seu olhar dividido entre a preocupação por Catarina e a desilusão em mim.
Fiquei ali, de pé, no meio do bar, com o vinho a escorrer pela parede atrás de mim e os olhos de todos postos em mim.
Não chorei. Não gritei.
Apenas senti algo a quebrar dentro de mim. Algo que nunca mais seria consertado.
Levantei o queixo, olhei para os nossos amigos que ainda estavam sentados, e disse com uma voz fria e clara: "Parece que a festa acabou."
Virei-me e saí, sem olhar para trás. A humilhação era uma capa pesada sobre os meus ombros, mas a minha espinha estava direita. Eles não me veriam cair. Não ali.
Cheguei a casa, o palacete da minha família no Porto, e a primeira coisa que fiz foi ir ao atelier da minha mãe. Era o meu santuário, o lugar onde ela me ensinou a amar a arte da filigrana. As suas ferramentas ainda estavam lá, a sua presença uma memória reconfortante.
Mas esta noite, o conforto não veio. Apenas a raiva fria.
Liguei a televisão, e as notícias financeiras falavam da iminente fusão entre as vinícolas Almeida e Carvalho. Uma fusão que dependia do nosso casamento.
Ri-me. Que piada cruel.
O meu telemóvel tocou. Era Tiago. Atendi, esperando um pedido de desculpas, por mais improvável que fosse.
"O meu pai está furioso," disse ele, sem qualquer preâmbulo. "Ele quer saber que raio se passou."
"Diz-lhe que o seu filho finalmente mostrou quem realmente é," respondi, a minha voz sem emoção.
"Não sejas ridícula, Sofia. Isto é sobre negócios. As nossas famílias contavam com isto."
"As nossas famílias," repeti. "E nós? O que é que nós éramos, Tiago? Um contrato?"
Houve uma pausa. Depois, ouvi a voz de Catarina ao fundo, suave e preocupada. "Tiago, não discutas. Não vale a pena."
O meu sangue gelou. Ela estava com ele. Claro que estava.
"Ela está aí contigo?" perguntei, embora já soubesse a resposta.
"Sim, está," ele disse, desafiador. "Eu levei-a para casa. Ela estava abalada. Ao contrário de ti, ela tem sentimentos."
"Sentimentos," repeti, a palavra a saber a cinzas na minha boca. "E o que é que tu sentes por ela, Tiago?"
Silêncio. Um silêncio que dizia tudo.
"Acabou, Sofia," disse ele finalmente, a sua voz mais suave agora, quase triste. "Eu amo-a. Lamento."
"Não lamentas nada," disse eu. "Tu querias magoar-me. E conseguiste. Parabéns."
Desliguei antes que ele pudesse responder.
Pouco depois, Miguel entrou no atelier. O seu rosto estava sombrio.
"O que é que fizeste, Sofia?" perguntou ele, a sua voz cansada.
"Eu? O que é que eu fiz?" A minha voz subiu uma oitava. "Tu estavas lá! Tu viste o que ele fez!"
"Eu vi-te a humilhar uma rapariga pobre que não fez nada de mal," ele retorquiu. "Catarina está a chorar sem parar. Tiago teve de a levar para o hospital, ela teve um ataque de pânico."
Um ataque de pânico. Claro. Ela era uma atriz talentosa.
"Ela está a mentir, Miguel. Ela está a manipular-vos a todos."
"Porquê? Porque é que ela faria isso?" ele exigiu. "Porque ela é pobre e tu és rica? Porque ela tem de trabalhar para viver e tu tens tudo na mão? És tão cega pelo teu privilégio que não consegues ver o sofrimento de outra pessoa?"
As suas palavras eram como bofetadas. Do meu próprio irmão. O meu protetor.
"Tu prometeste à mãe," sussurrei, a minha voz a quebrar. "No seu leito de morte. Tu prometeste que me protegerias sempre."
"E estou a proteger," ele disse, o seu rosto a endurecer. "Estou a proteger uma rapariga inocente da tua crueldade. A mãe ficaria com vergonha de ti."
Essa foi a facada final. A menção da nossa mãe, usada como uma arma contra mim.
Senti as lágrimas a quererem vir, mas engoli-as. Não na frente dele.
"Sai," disse eu, a minha voz baixa e trémula. "Sai do atelier da minha mãe."
Ele olhou para mim por um longo momento, o seu olhar frio e desapontado. Depois, virou-se e saiu, fechando a porta atrás de si.
Fiquei sozinha, rodeada pelas memórias da minha mãe, mas sentindo-me mais abandonada do que nunca. A traição não vinha apenas de Tiago. Vinha do meu próprio sangue. E essa doía muito mais.