Eu estava relaxando em casa, esperando Patrícia chegar do trabalho, quando decidi dar uma olhada no vídeo que ela acabou de postar. Era só uma visão do novo escritório dela, lá no arranha-céu no Centro. "Um novo começo!", dizia a legenda.
Mas aí o áudio... ouvi a voz de um homem, brincando: "Com um escritório desses, você nem precisa mais daquele seu namorado, né?". E a risada da Patrícia, antes de responder, com uma frieza que eu nunca tinha escutado: "Não. Eu ganho milhões por ano; ele é só um cachorro que eu sustento".
O telefone quase caiu da minha mão. "Um cachorro que eu sustento." As palavras ficaram ecoando na minha cabeça, uma martelada no peito, de novo e de novo.
Cinco anos. Cinco anos em que larguei tudo pela carreira dela: a empresa da minha família, briguei com meu pai, mudei de cidade. Eu era o porto seguro, o 'faz-tudo' em casa, para que ela pudesse brilhar.
E agora eu entendi. Não era um parceiro. Era um animal de estimação.
A amargura subiu, sufocante. Caminhei em transe até o quarto, peguei a caixinha de veludo. O anel de noivado de diamante rosa que eu planejava dar a ela em dez dias, zombando de mim. Sem pensar duas vezes, joguei-o pela janela, observando o brilho desaparecer na escuridão.
Nenhum arrependimento. Apenas um vazio gelado.
Peguei o celular e liguei para meu pai: "Pai, aceito o casamento arranjado. Demita a Patrícia da empresa".
Depois, para a organizadora do casamento. "A noiva", eu disse, com voz firme. "A noiva precisa ser trocada. Sim, é outra pessoa."
Ela ficou em choque, mas eu desliguei. Sentei no escuro, esperando. A contagem regressiva para a humilhação dela tinha começado.
Eu estava navegando nas redes sociais, esperando Patrícia chegar em casa, quando vi o vídeo que ela tinha acabado de postar. Era um clipe curto, mostrando a vista do novo escritório dela, um arranha-céu no centro da cidade. A legenda dizia: "Um novo começo!".
Eu sorri, feliz pelo sucesso dela. Cliquei para assistir. A câmera passeava lentamente pela janela, exibindo a paisagem urbana. Mas ela esqueceu de silenciar o áudio.
Uma voz masculina, que eu não reconheci, soou clara e um pouco brincalhona no fundo.
"Com um escritório desses, você nem precisa mais daquele seu namorado para te ajudar, não é? Mas você ainda usaria as mãos para ajudá-lo com as coisas dele?"
Houve uma pausa, seguida pela risada de Patrícia, uma risada que eu conhecia bem, mas que agora soava diferente, cheia de desprezo.
"Não", ela respondeu, com a voz nítida e cruel. "Eu ganho milhões por ano, ele é só um cachorro que eu sustento."
O telefone quase escorregou da minha mão. O sangue pareceu sumir do meu rosto, e um frio intenso tomou conta de mim. Eu rebobinei o vídeo. Ouvi de novo. E de novo. "Um cachorro que eu sustento." As palavras ecoavam na minha cabeça, cada uma delas um golpe surdo no meu peito.
Por cinco anos, eu tinha feito de tudo por ela. Abandonei a empresa da minha família, briguei com meu pai e me mudei para esta cidade para apoiá-la em sua carreira. Eu cozinhava, limpava, cuidava de todas as tarefas domésticas para que ela pudesse se concentrar no trabalho. Eu era o seu porto seguro, ou pelo menos era o que eu pensava.
Agora, eu entendia. Para ela, eu não era um parceiro. Eu era um animal de estimação.
A amargura subiu pela minha garganta, densa e sufocante. Levantei-me do sofá, caminhei até o nosso quarto em um transe. Abri a gaveta da minha mesa de cabeceira e peguei a pequena caixa de veludo. Dentro, o anel de noivado de diamante rosa que eu havia comprado com meses de economia brilhava, zombando de mim. Era o anel que eu planejava dar a ela em nosso casamento, em dez dias.
Sem hesitar, caminhei até a janela, abri e joguei a caixa na escuridão da noite. Observei-a desaparecer, um ponto minúsculo caindo na vastidão lá fora. Não senti arrependimento, apenas um vazio gelado.
Peguei meu celular novamente. A primeira mensagem foi para o meu pai.
"Pai, aceito o casamento arranjado. Demita Patrícia da empresa."
A resposta dele foi quase imediata. "Ótimo. Finalmente."
Em seguida, disquei o número da empresa de eventos que organizava o nosso casamento.
"Olá, aqui é Pedro. Preciso fazer uma alteração no casamento agendado para daqui a dez dias."
A voz do outro lado era profissional. "Claro, Sr. Pedro. Qual seria a alteração?"
"A noiva", eu disse, com a voz firme. "A noiva precisa ser trocada. Sim, é outra pessoa."
Houve um silêncio chocado do outro lado da linha, mas eu não me importei. Desliguei o telefone e me sentei na escuridão, esperando.
Uma hora depois, a porta se abriu. Patrícia entrou, cantarolando uma melodia qualquer. Ela usava um roupão de banho e seus cabelos estavam úmidos. Ela não me viu sentado no escuro e acendeu a luz.
"Ah, você está aí, meu amor", ela disse, sorrindo. "Estava tão cansada, tomei um banho rápido no spa perto do escritório. Vem, me ajuda a secar o cabelo?"
Era o nosso ritual. Todas as noites, eu secava o cabelo dela. Ela dizia que minhas mãos eram melhores que as de qualquer cabeleireiro. Agora, a simples visão do secador na penteadeira me causava náuseas.
"Faça você mesma", eu disse, sem me mover.
Ela parou, o sorriso congelando em seu rosto. "O que deu em você? Está de mau humor?"
"Estou cansado", respondi, a voz vazia de qualquer emoção.
Ela me encarou por um momento, desconfiada, mas depois deu de ombros. "Tudo bem, seu chato. Mas amanhã você não escapa."
Ela pegou o secador e começou a secar o próprio cabelo, reclamando do barulho. Eu a observei, cada movimento, cada palavra, agora tingidos pela verdade que eu havia descoberto. Ela era uma estranha para mim.
Quando ela finalmente terminou e foi para a cama, eu esperei ela dormir. O som de sua respiração tranquila enchia o silêncio do quarto, um som que antes me trazia paz e agora me enchia de repulsa.
Fui para a sala e liguei para minha mãe.
"Mãe?" minha voz falhou pela primeira vez naquela noite.
"Pedro? Filho, o que aconteceu? Por que sua voz está assim?"
"Eu terminei com a Patrícia", disse eu, e as palavras, ditas em voz alta, tornaram tudo real. "Eu... eu estava errado sobre ela. O tempo todo."
Eu contei a ela sobre o vídeo, sobre as palavras dela. Pude ouvir meu pai pegar o telefone no fundo. Senti uma onda de vergonha, lembrando de como eu havia lutado com eles, de como eu havia dito que eles não entendiam o nosso amor.
"Nós entendemos, filho", disse minha mãe, a voz suave e cheia de alívio. "Nós sempre soubemos. O importante é que você voltou para casa. Nós estamos aqui por você."
Naquela noite, pela primeira vez em cinco anos, eu não me senti como um cachorro. Eu me senti como um filho que finalmente estava voltando para casa.
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Na manhã seguinte, acordei antes de Patrícia. A cama ao meu lado parecia um campo minado. Saí do quarto sem fazer barulho e fui para a cozinha preparar um café. O sol da manhã entrava pela janela, mas o apartamento parecia escuro e opressivo.
Meu celular tocou. Era Patrícia, ligando do quarto. Eu atendi.
"Meu amor, por que você não me acordou?", a voz dela era manhosa, o tom que ela sempre usava para conseguir o que queria. "Eu estou com saudades. Você estava tão estranho ontem à noite."
"Tive que acordar cedo para resolver umas coisas", respondi, olhando para a xícara de café preto em minhas mãos.
"Que coisas? Mais importantes do que eu?", ela insistiu, com uma pitada de irritação na voz. "Você nem me deu um beijo de bom dia."
"Estou ocupado, Patrícia. A gente se fala mais tarde."
"Pedro, não...", ela começou a dizer, mas eu desliguei.
Encostei na bancada da cozinha e respirei fundo. Cada palavra dela era uma agulha, não de dor, mas de irritação. A manipulação era tão óbvia agora. Como eu pude ser tão cego?
Meu pai me ligou logo em seguida.
"Filho, a demissão dela já foi processada. O departamento de RH vai comunicá-la hoje. Ela não terá mais acesso a nenhum recurso da empresa."
"Obrigado, pai."
"E sobre o casamento... sua mãe já falou com a família de Sofia. Eles estão felizes. Sofia também está."
Sofia. O nome dela trouxe uma sensação estranha, uma mistura de culpa e um calor há muito esquecido. Sofia era minha amiga de infância, a garota com quem eu cresci. Nossas famílias sempre quiseram nos ver juntos. Eu a magoei quando escolhi Patrícia.
"Eu sei que você ainda está processando tudo, Pedro", disse meu pai. "Mas Sofia é uma boa moça. Ela vai te fazer feliz."
"Eu sei, pai", respondi, e pela primeira vez, eu realmente acreditei nisso.
Mais tarde, naquele dia, eu estava em uma cafeteria perto do meu antigo apartamento, esperando por um corretor de imóveis para entregar as chaves, quando Patrícia apareceu. Ela estava pálida e segurava a barriga com uma das mãos.
"Pedro, eu não estou me sentindo bem", ela disse, com a voz fraca. "Acho que foi algo que eu comi. Minha chefe me liberou mais cedo."
Por um instante, um resquício do antigo Pedro, o cuidador, sentiu um pingo de preocupação. Foi um reflexo, um hábito de cinco anos difícil de quebrar.
"Você deveria ir a um médico", eu disse, a voz mais neutra que consegui.
"Você não vem comigo? Eu preciso de você", ela disse, tentando pegar minha mão.
Eu recuei. "Eu tenho um compromisso. Não posso."
A decepção em seu rosto era evidente, mas antes que ela pudesse argumentar, um jovem alto e charmoso se aproximou da nossa mesa. Eu o reconheci dos eventos da empresa. Era Tiago, o assistente dela.
"Patrícia, eu trouxe o remédio que você pediu", ele disse, a voz cheia de uma preocupação íntima. Ele colocou uma sacola de farmácia na mesa e, sem sequer olhar para mim, colocou a mão no ombro dela. "Você está melhor? Fiquei preocupado."
"Um pouco", ela respondeu, inclinando-se sutilmente em direção a ele. "Obrigada por vir, Tiago. Você é um anjo."
Tiago sorriu para ela, um sorriso que era mais do que profissional. Ele agia como se fosse o homem dela, o protetor. Ele me ignorou completamente, como se eu fosse um móvel na cafeteria.
Naquele momento, qualquer resquício de dúvida que eu pudesse ter se dissipou. A cena na minha frente era a confirmação final. O jeito que ela olhava para ele, o jeito que ele a tocava. Não era uma relação de chefe e assistente.
Ele a ajudou a se levantar, o braço firmemente em volta da cintura dela.
"Vou te levar para casa para você descansar", ele disse.
Patrícia finalmente se virou para mim, como se lembrasse da minha existência. "Pedro, eu... eu vou com o Tiago. A gente se vê em casa à noite."
Eu apenas assenti, observando-os sair juntos. Ele a ajudou a entrar em seu carro, fechando a porta para ela com um cuidado que eu reconhecia. O cuidado que eu costumava ter.
Olhei para a sacola de remédios que eles esqueceram na mesa. Um analgésico forte e um antiácido. Nada que justificasse o drama que ela havia feito. Era tudo um teatro. Um teatro no qual eu não era mais o ator principal, nem mesmo um espectador. Eu era apenas o cenário descartado.
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