Acordei num hospital, o cheiro a desinfetante a sufocar-me.
A minha cabeça latejava e a perna esquerda, partida, gritava de dor.
A minha mãe estava lá, pálida, mas Pedro, o meu marido, não.
"Onde está o Pedro?", perguntei, a voz fraca.
A resposta dela destruiu o meu mundo: Pedro estava a "cuidar" da Cláudia, a minha meia-irmã, que teve um "ataque de pânico" por causa do meu acidente.
Liguei-lhe, só para ouvir a voz irritada do meu marido a chamar-me egoísta e a desligar.
Tentei entrar em casa, mas a fechadura fora mudada.
Pedro tinha-me trancado para fora da NOSSA vida.
Depois, descobri o teste de gravidez positivo na mesa de cabeceira dele.
Um teste de gravidez positivo. Da Cláudia.
Eles tinham-me substituído. Na nossa casa. Na nossa cama. Tinham concebido um filho enquanto eu lutava pela vida no hospital.
Como pude ser tão cega?
A dor do corpo era nada comparada à traição.
Mas quando a ex-namorada do meu padrasto me contou que o Tiago tinha um padrão – engravidar as irmãs das parceiras – percebi que isto não era um mero "acidente" .
Era um jogo cruel e manipulador.
Não ia permitir que destruíssem mais ninguém.
Com a minha mãe ao meu lado, decidi lutar.
Eu ia desmascará-los e recuperar a minha vida.
Quando acordei, a primeira coisa que vi foi o teto branco do hospital.
O cheiro de desinfetante era forte.
Meu corpo estava fraco, e a minha cabeça doía como se tivesse sido atropelada por um camião.
Tentei mexer-me, mas uma dor aguda na minha perna esquerda fez-me parar.
Estava engessada.
A minha mãe estava sentada numa cadeira ao lado da cama, com o rosto pálido e os olhos vermelhos e inchados.
Ela viu que eu estava acordada e agarrou a minha mão.
"Lia, finalmente acordaste."
A sua voz estava rouca.
"Mãe, o que aconteceu? Onde está o Pedro?"
Pedro era o meu marido.
A expressão da minha mãe ficou ainda pior. Ela hesitou antes de falar.
"O Pedro... ele está a cuidar da Cláudia."
Cláudia. A minha meia-irmã.
A filha do meu padrasto, que veio morar connosco há um ano.
Uma sensação fria espalhou-se pelo meu peito.
"A cuidar da Cláudia? Mas eu tive um acidente de carro. Eu liguei-lhe. Eu disse-lhe que a minha perna estava partida."
"Ele disse que a Cláudia teve um ataque de pânico por causa do acidente e que precisava dele."
A minha mãe disse as palavras devagar, como se cada uma delas lhe custasse.
Um ataque de pânico.
Eu estava num acidente de carro, com uma perna partida e uma concussão, e o meu marido foi cuidar da minha meia-irmã por causa de um ataque de pânico.
Agarrei no meu telemóvel, que estava na mesa de cabeceira.
O ecrã estava rachado, mas ainda funcionava.
Liguei ao Pedro.
Demorou muito tempo a atender. Quando finalmente o fez, a sua voz estava cheia de irritação.
"O que foi, Lia? Não vês que estou ocupado?"
Ao fundo, ouvi a voz chorosa da Cláudia.
"Pedro, a minha cabeça dói tanto. Estou com tanto medo."
O meu coração gelou.
"Pedro, eu estou no hospital. Tive um acidente."
A minha voz tremia, mas eu tentei mantê-la firme.
"Eu sei. A tua mãe disse-me. Mas a Cláudia precisa de mim agora. Ela está muito traumatizada. Não sejas egoísta."
Egoísta?
Eu era a egoísta?
"Pedro, nós somos casados. Eu sou a tua esposa."
"E a Cláudia é a minha irmã! Ela não tem mais ninguém! Tu tens a tua mãe, não tens? Para de fazer drama."
Ele desligou o telefone.
Na minha cara.
Olhei para o ecrã do telemóvel, incrédula.
Tentei ligar de novo, mas a chamada foi direta para o correio de voz.
Ele tinha-me bloqueado.
Uma risada amarga escapou dos meus lábios.
A minha mãe olhou para mim, com os olhos cheios de lágrimas.
"Lia, querida..."
"Está tudo bem, mãe. Eu entendi."
Entendi tudo perfeitamente.
O meu casamento tinha acabado.
O meu padrasto, o Tiago, chegou pouco depois.
Ele não olhou para mim. Foi direto para a minha mãe.
"Como é que a Cláudia está? O Pedro está com ela?"
A minha mãe assentiu, sem dizer uma palavra.
O Tiago suspirou, parecendo aliviado.
"Ainda bem. Ela fica tão assustada. É bom que o Pedro esteja lá para a acalmar."
Depois, finalmente, ele virou-se para mim.
A sua expressão era fria, acusadora.
"Lia, o que é que tu fizeste? O Pedro disse que tu estavas a conduzir de forma imprudente. Quase te mataste."
Eu olhei para ele, chocada.
"Eu não estava a conduzir de forma imprudente. Um carro atravessou um sinal vermelho e bateu em mim."
"É o que tu dizes. A Cláudia está traumatizada por tua causa. Devias ter mais cuidado."
Ele não perguntou como eu estava.
Não perguntou sobre a minha perna partida.
Ele só se importava com a filha dele.
E com o facto de o meu marido estar a consolar a filha dele em vez de estar comigo.
"A Cláudia tem sorte em ter o Pedro", disse o Tiago, mais para si mesmo do que para mim. "Ele é um bom rapaz. Cuida dela como um verdadeiro irmão."
Um nó formou-se na minha garganta.
Eles não eram irmãos.
Eles não tinham qualquer laço de sangue.
O Pedro era o meu marido.
Mas naquela família, eu parecia ser a única que se lembrava disso.
A minha mãe finalmente falou.
"Tiago, a Lia é a tua enteada. Ela está magoada. Podes mostrar um pouco de preocupação?"
O Tiago bufou.
"Preocupação? Ela é adulta. E causou problemas a todos. A Cláudia está a sofrer por causa dela. O Pedro teve de largar tudo para cuidar dela. E tu? Estás aqui em vez de estares em casa a apoiar a tua enteada."
Ele olhou para a minha mãe com desdém.
"Às vezes pergunto-me porque é que me casei contigo."
Aquelas palavras atingiram a minha mãe com força.
Ela encolheu-se, o rosto a contorcer-se de dor.
Eu não aguentei mais.
"Sai daqui."
A minha voz saiu baixa, mas firme.
O Tiago olhou para mim, surpreendido.
"O quê que disseste?"
"Eu disse para saíres daqui. Agora."
Ele riu-se. Uma risada feia e desagradável.
"Esta é a tua gratidão? Depois de tudo o que eu fiz por ti e pela tua mãe?"
"Não fizeste nada por mim. E estás a magoar a minha mãe. Sai."
Ele olhou para a minha mãe, à espera que ela me repreendesse.
Mas a minha mãe ficou em silêncio, a olhar para o chão.
O Tiago abanou a cabeça, com nojo.
"Vocês as duas merecem-se uma à outra."
Ele virou-se e saiu do quarto, batendo a porta com força.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
A minha mãe começou a chorar baixinho.
Eu estendi a minha mão e segurei a dela.
"Mãe, vamos acabar com isto."
Ela olhou para mim, com os olhos cheios de lágrimas.
"O quê?"
"O divórcio. Tu e o Tiago. Eu e o Pedro. Vamos acabar com isto."
Era a única solução.
A única forma de escaparmos daquela família tóxica.