A tela do meu celular iluminou o quarto escuro do hotel, mostrando um alerta vermelho de tempestade.
O hotel ficava numa área baixa e precisávamos sair.
Liguei para o meu marido, Pedro, pela décima vez, mas ele só atendeu na décima primeira, com a voz cheia de irritação.
Ele bufou quando eu implorei para ele vir nos buscar na tempestade.
"Ana, para de ser tão dramática! É só um pouco de chuva", disse ele.
Então ouvi a voz da Clara, a filha da nossa vizinha, choramingando sobre o cachorrinho doente.
Imediatamente, o tom do Pedro mudou para suavidade e preocupação.
"Não te preocupes, Clara. Eu levo-te já. O Floco vai ficar bem."
Quando eu disse que a tempestade era séria e que a Sofia, minha irmã, estava aqui, precisávamos dele, ele explodiu.
"Ana, para de ser tão egoísta! A Clara está sozinha! Um cão é uma emergência! Tu e a Sofia podem chamar um táxi. Eu tenho de ir agora."
Ele desligou na minha cara.
O hotel estava a inundar, a água já nos chegava aos tornozelos no corredor, mas nenhuma aplicação de transporte aceitava corridas.
Liguei novamente, mas ele me bloqueou.
Desesperada, tentei acordar a Sofia, que dormia profundamente.
Conseguimos descer as escadas, que pareciam uma cascata, com outros hóspedes em pânico.
No lobby, a água já nos chegava à cintura, com destroços flutuantes.
As portas de vidro da frente estavam estilhaçadas e a rua era um rio furioso, arrastando pessoas.
Estávamos presas, sem saída.
Então minha sogra ligou, a voz fria e acusadora.
Perguntou o que eu fiz para irritar o Pedro, que ele estava furioso e que eu o estava a incomodar com coisas sem importância enquanto ele ajudava a pobre da Clara.
Eu disse que estávamos presas num hotel inundado, a água a subir.
"Não sejas tão dramática! O Pedro disse que era só uma chuvinha!"
Ela retrucou e desligou.
A água aos nossos pés já nos batia no peito.
Eu não conseguia entender.
Como um marido podia abandonar a esposa e a irmã em face de um perigo de vida ou morte?
Como uma mãe podia defender seu filho por priorizar um cachorro moribundo em vez de duas vidas humanas?
Por que eles me acusavam de egoísmo quando a vida da Sofia e a minha estavam por um fio?
Em meio ao caos, meu telefone tocou novamente.
Era o Pedro.
Meu coração deu um salto de esperança, talvez ele tivesse voltado a si.
Mas do outro lado da linha, antes mesmo de eu falar, ele disse que o Floco estava estável e já estava a caminho de casa.
A tempestade estava a acalmar, e eu deveria ligar para a emergência sozinha.
Desligou novamente.
O som do silêncio que se seguiu foi mais alto que a tempestade, e a Sofia olhou para mim, os olhos arregalados, a esperança morrendo.
Eu sabia.
Sabia que precisava nos tirar dali, e que seria sozinha.
Mas como?
E o que aconteceria quando eu saísse dessa provação?
A tela do meu celular iluminou o quarto escuro do hotel, mostrando a previsão do tempo.
Alerta vermelho de tempestade, o mais alto.
Liguei para o meu marido, Pedro, pela décima vez.
A chamada não foi atendida.
Ao meu lado, minha irmã mais nova, Sofia, dormia profundamente, ressonando baixinho. Ela tinha vindo à cidade para um exame importante e eu reservei o melhor hotel para ela, para garantir que descansasse bem.
Mas agora, a tempestade estava a chegar e o nosso hotel ficava numa área baixa, propensa a inundações.
Precisávamos de sair.
Finalmente, na décima primeira tentativa, Pedro atendeu. Sua voz estava cheia de irritação.
"O que foi, Ana? Estou ocupado!"
"Pedro, tens de vir buscar-nos. Há um alerta vermelho de tempestade, este lugar vai inundar. A Sofia está a dormir, não a consigo acordar."
"O quê? Uma tempestade?" ele bufou, "É só um pouco de chuva. Não sejas tão dramática."
Antes que eu pudesse responder, ouvi outra voz ao fundo, uma voz que eu conhecia muito bem. Era a Clara, a filha da nossa vizinha.
"Pedro, o meu cachorrinho, o Floco, está com febre! Ele não para de tremer. Podes levar-me ao veterinário? Estou com tanto medo."
A voz dela era fraca e lamentosa.
Pedro respondeu imediatamente, o seu tom mudando de irritado para suave e preocupado.
"Claro, Clara. Não te preocupes, eu levo-te já. O Floco vai ficar bem."
O meu coração gelou.
"Pedro," eu disse, a minha voz a tremer ligeiramente, "a tua irmã está aqui. A tempestade é séria. Precisas de nos vir buscar primeiro."
"Ana, para de ser tão egoísta!" ele gritou ao telefone. "A Clara está sozinha e o cão dela está doente! É uma emergência! A Sofia é crescida, e tu também. Podem chamar um táxi. Eu tenho de ir agora."
Ele desligou.
Na minha cara.
Olhei para o telefone em silêncio. Chamar um táxi? Com o alerta vermelho, nenhuma aplicação de transporte estava a aceitar corridas. Todas as estradas em breve estariam bloqueadas.
Ele sabia disso. Ele simplesmente não se importava.
Um cão era mais importante que a sua própria irmã.
As lágrimas brotaram nos meus olhos, mas eu forcei-as a recuar. Não era hora para chorar.
Tentei ligar novamente, mas a chamada foi direta para o correio de voz. Ele tinha desligado o telemóvel ou bloqueado o meu número.
Respirei fundo, o pânico a apertar o meu peito. Olhei para a Sofia, a dormir pacificamente, alheia ao perigo iminente.
Eu tinha de nos tirar daqui.
Sozinha.
A água já estava a entrar por baixo da porta do quarto de hotel.
Começou como uma pequena poça, mas rapidamente se espalhou pelo tapete.
O barulho da chuva lá fora era ensurdecedor, como se o céu estivesse a desabar sobre nós.
Agarrei nos ombros da Sofia e abanei-a com força.
"Sofia! Acorda! Temos de sair daqui agora!"
Ela resmungou e virou-se, puxando o cobertor sobre a cabeça.
"Deixa-me dormir, Ana."
"Não há tempo! O hotel está a inundar!" gritei, a minha voz quase perdida no som da tempestade.
Finalmente, os olhos dela abriram-se, confusos. Quando viu a água a subir no chão, o sono desapareceu do seu rosto. O pânico tomou o seu lugar.
"O que está a acontecer? Onde está o Pedro?"
"Ele não vem," disse eu, com a voz firme, escondendo a minha própria dor e medo. "Temos de sair sozinhas."
Rapidamente, vestimos os sapatos, a água fria a encharcar as nossas meias. Peguei nas nossas carteiras e telemóveis, metendo-os nos bolsos. Não havia tempo para malas.
Quando abri a porta do quarto, a água do corredor entrou com força, chegando já aos nossos tornozelos.
As luzes de emergência piscavam, lançando sombras estranhas nas paredes.
O alarme de incêndio soava incessantemente, um ruído agudo que se misturava com o trovão.
"Vamos para as escadas!" gritei por cima do barulho.
Agarrámo-nos uma à outra e avançámos pela água escura e lamacenta. O elevador estava obviamente fora de questão.
A escada de emergência estava apinhada de outros hóspedes em pânico, todos a tentar escapar. A água descia em cascata pelos degraus, tornando-os escorregadios e perigosos.
Cada passo era um risco.
A Sofia escorregou e quase caiu, mas eu agarrei-a a tempo. O rosto dela estava pálido de medo.
"Eu não consigo, Ana," ela choramingou.
"Consegues sim," eu disse, a minha voz mais corajosa do que me sentia. "Estamos quase lá. Continua a andar."
Finalmente, chegámos ao rés-do-chão. O lobby estava submerso. A água chegava-nos à cintura, cheia de destroços flutuantes – cadeiras, plantas, bagagens.
As portas de vidro da frente tinham sido estilhaçadas pela pressão da água.
Lá fora, a rua era um rio furioso. Carros estavam submersos, e a corrente era forte.
Um homem tentou atravessar e foi imediatamente arrastado.
Ficámos paralisadas, o horror a gelar-nos os ossos. Estávamos presas.
O meu telemóvel vibrou no meu bolso.
Era um número desconhecido.
Atendi, esperando que fosse ajuda.
"Ana?" A voz era da minha sogra, a mãe do Pedro. O seu tom era frio e acusador.
"O que é que fizeste para irritar o Pedro? Ele está furioso. Disse que o estás a incomodar com coisas sem importância enquanto ele está a ajudar a pobre da Clara."
Fiquei sem palavras.
"Estamos presas num hotel inundado," consegui dizer, a minha voz a falhar. "A água está a subir."
"Oh, por favor," ela retorquiu. "Não sejas tão dramática. O Pedro disse que era só uma chuvinha. Estás a tentar fazê-lo sentir-se culpado por ajudar uma vizinha necessitada? Que tipo de esposa és tu?"