Eu sou a vilã, essa é a única verdade que importa.
No dia do meu casamento, diante de todos, anunciei que nunca amei João Pedro e que estava farta de bancar a noiva perfeita.
Enquanto o caos se instalava, meus cúmplices finalizavam a venda de seus segredos comerciais para Lucas, seu maior rival.
Horas depois, com as malas de dinheiro no banco de trás do carro, eu estava pronta para sumir.
João Pedro me encontrou na chuva, ajoelhado, implorando.
"Duda, por favor, não faz isso", ele suplicou, a voz quebrada.
Ele mencionou nosso filho.
Eu peguei o ultrassom granulado e joguei em seu rosto, a imagem caindo em uma poça d' água.
"Já fiz o aborto", eu disse, minha voz um gelo cortante. "Não existe mais filho nenhum. Agora, não me incomode mais."
A expressão em seu rosto se quebrou em mil pedaços, uma dor tão crua que por um segundo quase me atingiu.
Quase.
Eu subi o vidro, pisei no acelerador e não olhei para trás.
Cinco anos se passaram, vivendo uma vida de luxo e vazia de sentimentos.
Perfeita.
Até que uma voz metálica e sem emoção soou diretamente dentro da minha cabeça, tão alta que me fez engasgar com a água salgada.
"Hospedeira, o relacionamento dos protagonistas está em crise."
"Por favor, resolva a crise em um mês", a voz continuou, implacável. "Caso contrário, você será eliminada imediatamente."
Gelei. O sistema. A maldita entidade que me forçou a ser a vilã em primeiro lugar estava de volta.
Eu teria que voltar e fazer João Pedro e Sofia se apaixonarem de novo.
Eu, a mulher que o destruiu, teria que ser a cupido.
Eu sou a vilã de um livro, essa é a única verdade que importa.
No dia do meu casamento, a igreja estava lotada, as flores brancas exalavam um perfume doce e enjoativo, e João Pedro me esperava no altar, com um sorriso tão puro que chegava a ser estúpido.
E eu o destruí.
Na frente de todos, eu anunciei que o casamento estava cancelado, que eu nunca o amei, e que estava farta de bancar a noiva perfeita.
Enquanto o caos se instalava, meus cúmplices já finalizavam a venda dos segredos comerciais da empresa dele para Lucas, seu maior rival.
Horas depois, com as malas de dinheiro no banco de trás do carro, eu estava pronta para sumir.
João Pedro, o homem que nunca perdia a calma, me encontrou.
Ele bateu na janela do meu carro, o rosto pálido, a chuva molhando seu terno caro.
Quando eu finalmente baixei o vidro, ele se ajoelhou na calçada molhada, seus olhos vermelhos e desesperados fixos nos meus.
"Duda, por favor, não faz isso", ele implorou, a voz quebrada. "O que eu fiz de errado? A gente pode consertar, seja o que for. Pelo nosso filho... por favor."
O ar ficou pesado.
Eu peguei o envelope da minha bolsa, retirei a imagem granulada do ultrassom e a joguei em seu rosto.
O papel fino e úmido colou em sua bochecha por um instante antes de cair na poça d'água.
"Já fiz o aborto", eu disse, minha voz um gelo cortante. "Não existe mais filho nenhum. Agora, não me incomode mais."
A expressão em seu rosto se quebrou em mil pedaços, uma dor tão crua que por um segundo quase me atingiu.
Quase.
Eu subi o vidro, pisei no acelerador e não olhei para trás.
Cinco anos se passaram.
A água cristalina de uma ilha particular na Tailândia era morna e convidativa, eu flutuava de costas, o sol beijando minha pele, enquanto um homem com um tanquinho impecável me esperava na areia com duas taças de champanhe.
A vida era boa, cheia de luxo e vazia de sentimentos.
Perfeita.
Foi quando uma voz metálica e sem emoção soou diretamente dentro da minha cabeça, tão alta que me fez engasgar com a água salgada.
"Hospedeira, o relacionamento dos protagonistas está em crise."
Eu me sentei na água, olhando ao redor, procurando a origem do som. O homem na praia me olhou confuso.
"Por favor, resolva a crise em um mês", a voz continuou, implacável. "Caso contrário, você será eliminada imediatamente."
Gelei. O sistema. A maldita entidade que me forçou a ser a vilã em primeiro lugar estava de volta.
Eu ri, um som amargo que se perdeu no barulho das ondas.
"O que é isso agora?", perguntei para o nada. "Virei bucha de canhão? Eu já fiz meu papel de vilã, o livro não acabou?"
"O enredo secundário se desviou. A afeição do protagonista masculino pela protagonista feminina caiu para níveis críticos. Sua intervenção é necessária para reacender o romance deles."
Então era isso. Eu tinha que voltar e fazer João Pedro e Sofia, a heroína boazinha, se apaixonarem de novo. Eu tinha que ser a vilã malvada para que a mocinha pudesse brilhar ao "salvar" o herói de mim.
Mais tarde, em um jato particular de volta ao Brasil, a realidade me atingiu como uma tonelada de tijolos.
Eu teria que ver João Pedro de novo.
Pensei no homem de joelhos na chuva, no seu rosto devastado.
Toda a água que eu via do céu naquele voo parecia a burrice que eu tive na cabeça anos atrás, a ilusão de que eu poderia realmente escapar.
O palco do meu retorno foi um leilão de caridade da alta sociedade de São Paulo.
Eu desci do carro, usando um vestido vermelho que era praticamente um pecado, e senti os olhares se virando para mim. Sussurros começaram a se espalhar como fogo em palha seca.
Maria Eduarda, a mulher que destruiu João Pedro, estava de volta.
E então eu o vi.
Ele estava do outro lado do salão, conversando com um grupo de empresários.
Não era mais o rapaz gentil de sorriso fácil que eu conhecia, o homem à minha frente era alto, imponente, vestindo um terno preto que parecia moldado em seu corpo.
Seu rosto era mais anguloso, a expressão fria e controlada, e havia uma intensidade em seus olhos escuros que fez meu estômago revirar.
Ele não tinha me visto ainda.
Mas eu sabia, com uma certeza que gelava meus ossos, que o inferno estava prestes a recomeçar.
E desta vez, eu era a isca.
Observei João Pedro por um longo momento, ele ria de algo que um dos homens disse, um riso baixo e controlado, que não alcançava seus olhos.
Ao seu lado, delicada e impecável em um vestido branco, estava Sofia. A protagonista. Ela o olhava com uma adoração que me causou náuseas.
Parte de mim, uma parte pequena e estúpida, esperava encontrar um homem quebrado. Mas ele não parecia quebrado, parecia... mais forte. Forjado no fogo que eu mesma acendi.
Senti uma pontada de decepção, que logo afoguei em um gole do uísque que o garçom me ofereceu.
Melhor assim, torna tudo mais fácil.
"Pronta para o show?"
A voz de Lucas soou ao meu lado, ele passou o braço pela minha cintura, seu sorriso o mesmo de sempre, charmoso e predatório.
"Sempre", respondi, ajeitando meu vestido.
Juntos, caminhamos diretamente para o centro do furacão.
Nossa aproximação foi como uma onda de choque silenciosa, as conversas ao redor diminuíram, os olhares se tornaram mais ousados.
"João Pedro, há quanto tempo", Lucas disse, a voz cheia de uma falsa cordialidade.
João Pedro se virou lentamente, seu olhar passou por Lucas e pousou em mim, frio e vazio, como se eu fosse uma completa estranha.
Nenhuma surpresa, nenhuma raiva, apenas um nada absoluto.
Foi a reação de Sofia que entregou o drama.
Ela ofegou, a mão voando para a boca, e o copo de champanhe que segurava escorregou de seus dedos, se espatifando no chão com um barulho estridente que atraiu a atenção de todo o salão.
"Você!", ela sussurrou, os olhos arregalados de pânico e ódio, fixos em mim.
O silêncio se tornou pesado, todos os olhos estavam em nós quatro.
Um sorriso lento se formou em meus lábios, eu me recordei do roteiro original, a vilã sempre volta para atormentar a mocinha. Eu só não esperava que fosse tão literal.
"Que desastrada", comentei, a voz suave.
Usei um vestido vermelho justo, que descia até o chão, mas com uma fenda lateral que subia perigosamente pela minha coxa, meus cabelos estavam soltos, caindo em ondas escuras pelos ombros.
"Duda?", Lucas me apresentou como se fosse a coisa mais natural do mundo. "Minha nova diretora de aquisições internacionais."
A informação caiu como uma bomba, agora eu não era apenas a ex-noiva fugitiva, eu era a mulher no braço do maior inimigo de João Pedro, trabalhando ativamente contra ele.
A rivalidade entre as empresas de João Pedro e Lucas era lendária na cidade, uma briga que vinha de gerações, cinco anos atrás, os segredos que eu vendi quase levaram a empresa de João Pedro à falência, enquanto a de Lucas decolou.
Foi uma traição em todos os níveis: pessoal e profissional.
João Pedro finalmente moveu os olhos para mim de novo, mas apenas por um segundo, antes de se virar para Sofia.
"Você está bem, meu amor?", ele perguntou, a voz suave, ignorando completamente a minha presença e a de Lucas.
Ele se abaixou para ajudá-la, protegendo-a dos cacos de vidro, sua indiferença era uma ofensa muito maior do que qualquer grito ou acusação.
Ele não se importava.
E isso, por algum motivo doentio, me irritou profundamente.
Mais tarde, encontrei Sofia sozinha perto dos banheiros, retocando a maquiagem com as mãos trêmulas.
Era a minha chance.
Entrei no banheiro feminino e fechei a porta atrás de mim com um clique suave, o som a fez pular de susto.
Ela se virou, o batom vermelho borrado em seus lábios.
"O que você quer?", ela perguntou, tentando soar corajosa.
Eu caminhei lentamente em sua direção, um sorriso zombeteiro no rosto.
"Vim terminar o que comecei", eu disse, minha voz baixa e cheia de ameaça. "Vim buscar o que é meu."
Parei bem na sua frente, a diferença de altura entre nós era evidente.
"Ele é meu", eu sussurrei, inclinando-me para perto de seu ouvido. "Sempre foi."