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O Acidente Que Não Foi

O Acidente Que Não Foi

Autor:: Isabella
Gênero: Romance
Quando saí do escritório do advogado, com os papéis do divórcio em mãos, esperava um dia de recomeço. Mas o meu telemóvel tocou com uma voz fraca da minha mãe, Clara, que mal conseguiu sussurrar "hospital... São Lucas" antes da chamada cair. Corri para lá, apenas para a encontrar nos cuidados intensivos, em coma induzido por um traumatismo craniano. O meu padrasto Diogo, estranhamente calmo, alegou um "acidente". Mas a sua frieza e as suas justificações vazias me perturbaram profundamente. Ele parecia quase satisfeito. Algo estava errado. A minha mãe não era desastrada. O que realmente aconteceu naquele apartamento? E porque Diogo agia como se a sua esposa estivesse apenas a ser um "empecilho"? Eu tinha passado o dia a fechar um capítulo, mas este, este eu teria de reabrir. E lutar pela verdade.

Introdução

Quando saí do escritório do advogado, com os papéis do divórcio em mãos, esperava um dia de recomeço.

Mas o meu telemóvel tocou com uma voz fraca da minha mãe, Clara, que mal conseguiu sussurrar "hospital... São Lucas" antes da chamada cair.

Corri para lá, apenas para a encontrar nos cuidados intensivos, em coma induzido por um traumatismo craniano.

O meu padrasto Diogo, estranhamente calmo, alegou um "acidente". Mas a sua frieza e as suas justificações vazias me perturbaram profundamente. Ele parecia quase satisfeito.

Algo estava errado. A minha mãe não era desastrada.

O que realmente aconteceu naquele apartamento? E porque Diogo agia como se a sua esposa estivesse apenas a ser um "empecilho"?

Eu tinha passado o dia a fechar um capítulo, mas este, este eu teria de reabrir. E lutar pela verdade.

Capítulo 1

Quando saí do escritório do advogado, o sol do meio-dia queimava. O ar condicionado do carro parecia fraco, incapaz de afastar o calor sufocante.

Na minha mão, o acordo de divórcio parecia pesado. Assinado. Finalizado.

No banco do passageiro, o meu telemóvel vibrou. Era um número desconhecido. Ignorei.

Voltou a vibrar. E de novo.

À terceira vez, atendi, irritada.

"Mãe?"

A voz do outro lado era fraca, quase um sussurro.

"Filho, sou eu."

O meu coração parou por um segundo. Era a minha mãe, Clara. Mas a voz dela... estava errada.

"Onde estás? O que aconteceu?"

"Hospital... São Lucas... despacha-te, Leo."

A chamada caiu.

Pisei no acelerador. O carro cantou pneus enquanto eu virava bruscamente, ignorando os semáforos. Hospital São Lucas. O que raio aconteceu?

Eu tinha acabado de me divorciar de Sofia. A minha mãe sabia que hoje era o dia. Ela devia estar em casa, à minha espera.

Quando cheguei ao hospital, corri para a receção.

"Clara Gomes, por favor. Acabou de dar entrada."

A enfermeira olhou para o ecrã. "Quarto 302, cuidados intensivos."

Cuidados intensivos. A palavra ecoou na minha cabeça.

Corri pelas escadas, empurrando pessoas. No terceiro andar, vi-o. Diogo, o meu padrasto, parado à porta do quarto 302.

Ele olhou para mim, os seus olhos frios como sempre.

"O que é que lhe fizeste?" perguntei, a minha voz a tremer de raiva.

Ele encolheu os ombros. "Ela caiu. Um acidente."

"Um acidente? Ela ligou-me. A voz dela... ela mal conseguia falar."

"Ela está velha, Leo. As pessoas velhas caem."

Tentei passar por ele, mas ele bloqueou-me o caminho com o braço.

"Os médicos estão com ela. Não podes entrar."

Nesse momento, o meu telemóvel tocou de novo. Era Sofia.

A minha ex-mulher.

Hesitei, depois atendi.

"Leo? O teu padrasto ligou-me. Disse que a tua mãe está no hospital. Está tudo bem?"

A voz dela era suave, preocupada. Uma preocupação que eu não ouvia há meses.

"Não, Sofia. Não está nada bem."

Ao fundo da chamada dela, ouvi uma voz familiar.

"Querida, está tudo bem? O Leo está a criar problemas?"

Era a mãe dela, a minha ex-sogra, Helena.

Diogo sorriu, um sorriso que não chegou aos olhos. "Vês? Até a tua ex-mulher é mais sensata que tu. Foi um acidente. A tua mãe é desastrada."

"Desastrada? Ou tu a empurraste?" gritei, a minha voz a atrair olhares de enfermeiras que passavam.

A porta do quarto 302 abriu-se. Um médico saiu, o rosto sério.

"Família de Clara Gomes?"

"Eu sou o filho dela," disse eu, dando um passo à frente.

Diogo também se aproximou. "Eu sou o marido."

O médico olhou para a sua prancheta. "A vossa mãe... a vossa esposa... sofreu uma queda grave. Traumatismo craniano. Está em coma induzido. As próximas 48 horas são críticas."

Coma. A palavra atingiu-me como um soco no estômago.

O meu mundo desabou.

Diogo pôs a mão no meu ombro. "Vês, filho? Um trágico acidente."

Tirei a mão dele de mim com força.

"Fica longe de mim. Fica longe dela."

Ele riu-se, um som baixo e sinistro.

"Eu sou o marido dela, Leo. Legalmente, eu tomo as decisões. Talvez devesses ir para casa. Descansar. Deixa os adultos tratar disto."

Olhei para ele, para o seu sorriso presunçoso, e soube, com uma certeza gelada, que aquilo não tinha sido um acidente.

Capítulo 2

Sentei-me na cadeira desconfortável do corredor do hospital. O cheiro a antissético enchia-me as narinas.

Diogo tinha ido "buscar um café". Uma desculpa para me deixar sozinho com os meus pensamentos.

Peguei no telemóvel. Pesquisei "advogado criminalista Porto". Apareceram dezenas de nomes. Liguei ao primeiro da lista.

"Dr. Alves, escritório de advocacia."

"Preciso de ajuda. A minha mãe está no hospital. Acho que o meu padrasto a magoou."

Expliquei a situação rapidamente. A queda, o comportamento de Diogo, o historial dele.

"Precisa de provas, Sr. Gomes. Suspeitas não são suficientes num tribunal."

"Eu sei. Mas o que posso fazer?"

"Fale com os vizinhos. Veja se alguém ouviu alguma coisa. Verifique se há câmaras de segurança na rua. E, mais importante, não confronte o seu padrasto. Aja normalmente."

Desliguei, a cabeça a latejar. Agir normalmente. Como?

Levantei-me e caminhei até à janela no fim do corredor. A cidade estendia-se lá em baixo, indiferente ao meu tormento.

O meu telemóvel vibrou. Sofia.

"Leo, como está ela?"

"Na mesma. Em coma."

"Meu Deus. Eu... eu sinto muito. Precisas de alguma coisa? Posso levar-te comida? Um café?"

"Não, obrigado."

Houve um silêncio.

"Leo, eu sei que hoje foi... complicado. Mas a tua mãe... eu sempre gostei muito dela."

"Eu sei."

"O Diogo está aí?"

"Sim."

"Tem cuidado, por favor."

Ela desligou. A preocupação dela era genuína. Uma parte de mim sentiu falta daquilo. Da nossa vida antes de tudo se desmoronar.

Diogo voltou, segurando dois copos de plástico. Estendeu-me um.

"Bebe. Pareces um fantasma."

Recusei com um aceno de cabeça.

Ele sentou-se ao meu lado, sorvendo o seu café ruidosamente.

"Sabes, a tua mãe andava muito deprimida ultimamente. A falar do teu divórcio. Talvez ela simplesmente não estivesse a prestar atenção onde punha os pés."

"A minha mãe é forte. Ela não se deixaria abater por isso."

"Toda a gente tem um limite, Leo. Tu devias saber isso melhor que ninguém."

As palavras dele eram veneno, destinadas a ferir.

Uma enfermeira aproximou-se. "Sr. Gomes, o seu padrasto?"

"Sim?" disse Diogo.

"A sua esposa está a ter uma reação. O médico precisa de falar consigo. Urgente."

Diogo levantou-se de um salto, a sua máscara de calma a rachar por um instante. Ele seguiu a enfermeira apressadamente.

Fiquei sozinho de novo. O meu coração batia descontroladamente. Uma reação? Boa ou má?

Aproveitei a oportunidade. Corri para a receção do piso.

"Por favor, preciso de acesso aos registos de entrada da minha mãe. Clara Gomes. Quero saber o que o paramédico que a trouxe relatou."

A rececionista olhou para mim com hesitação. "Não tenho a certeza se posso dar-lhe essa informação."

"Por favor. É a minha mãe. O meu padrasto está a agir de forma estranha. Eu preciso de saber a verdade."

Talvez tenha sido o desespero na minha voz. Ela suspirou e virou-se para o computador.

"Diz aqui... chamada de emergência feita pelo marido. Relatou queda acidental das escadas. A paciente foi encontrada inconsciente no fundo da escadaria."

Escadaria.

Mas a minha mãe e o Diogo viviam num apartamento térreo.

Não havia escadas.

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