- Espero que entenda, Vivian - disse o homem loiro na frente dela, com uma cara falsamente preocupada. Ela odiava aquilo. Condescendência era algo que Vivian Charlotte Astley odiava.
- Há algo que eu possa fazer para mudar sua mente, Lorde Barless? - ela perguntou, tentando manter o rosto impassível.
Ele balançou a cabeça de um lado para o outro e franziu os lábios.
- Não. Eu só... eu a amo e não posso me casar com você. - Ele olhou para baixo por um momento, antes de olhar novamente nos olhos de Vivian. - Sinto muito.
Ele se levantou e saiu, sem cortesia.
Vivian continuou sentada na cadeira dentro da sala, onde seu agora ex-noivo havia acabado de romper o futuro noivado, prestes a ser oficialmente anunciado.
"Como vou contar aos meus pais?" ela pensou nervosamente.
Vivian estava apaixonada por Uriel Barless havia muitos anos. Desde que ela conseguia se lembrar de ter olhado para um garoto, aquele garoto era definitivamente Uriel. Quando seus pais a informaram que ela se casaria com o homem dos seus sonhos, em um casamento convencional, ela ficou absolutamente extasiada.
O sonho não durou muito. Quatro meses, para ser exato. Agora, Vivian conseguia entender por que ele estava tão ansioso para visitar a Mansão Astley. Ele estava lá para ver Cecil Gilling, a prima venenosa dela.
Uriel nunca demonstrou interesse por Vivian, e ela sabia disso, mas acreditava que ele seria pelo menos um pouco mais cavalheiro. Por que terminar com ela naquele dia? Não era apenas o dia do Grande Baile em comemoração ao Aniversário do Rei, mas também o aniversário dela própria.
- O que diabos está acontecendo? - sua mãe, Lady Aleena, perguntou, entrando na sala e olhando para sua filha pálida. - Como isso aconteceu? - Ela estava, definitivamente, mais do que infeliz com a notícia. Mas é claro, Vivian tinha apenas uma tarefa para ela: casar bem. E a garota falhou.
Depois de ouvir repreensões intermináveis por algo que não era culpa dela, Vivian nem teve a oportunidade de chorar, pois precisava estar pronta para a celebração do Rei.
- Vamos torcer para que você encontre outro marido logo! - Disse sua mãe dentro da carruagem, e Vivian nem estava prestando atenção. Ela olhou pela janela, tentando conter as lágrimas. Aquele não era o aniversário que ela pensava que teria.
Normalmente, ela era muito educada e seria uma ótima companhia, mas não naquele dia, não - ela estava mais do que triste.
Depois de conversar com algumas pessoas, ela encontrou uma brecha e foi para os jardins, onde se sentou em um banco e se deixou chorar até não poder mais. Ela nunca tinha chorado na frente dos outros, ela odiava parecer que estava se vitimizando. Ela odiava olhares de pena. E as pessoas olharam para ela daquele jeito, durante toda aquela noite. Todo mundo sabia que ela tinha sido abandonada pelo Marquês, antes mesmo do compromisso ser dado como certo.
- É realmente uma pena - uma voz profunda ecoou atrás dela, e quando Vivian virou a cabeça, e a primeira coisa que viu foi um lenço com as iniciais B.H. bordadas em linhas douradas. Ela podia admirar um bom trabalho de bordado, muito melhor do que fazer um.
Levantando o olhar, ela viu um par de olhos castanhos profundos olhando diretamente para ela. O homem era tão bonito e charmoso que ela não conseguia desviar os olhos - ou mesmo pronunciar uma palavra, para falar a verdade. A noite estava um pouco abafada, mas, incrivelmente, uma rajada de brisa passou, como se para adicionar um efeito mais estupendo ao homem, movendo sedutoramente os fios mais longos de seu cabelo escuro.
- A senhorita não está inclinada a falar comigo? - ele perguntou com curiosidade em sua voz, sorrindo, e ela podia ver que ele estava se divertindo.
Vivian franziu a testa.
- Você está... zombando de mim, senhor? - ela perguntou, franzindo os lábios. Naquele dia, parecia que tudo o que acontecia Vivian odiava. Ser objeto de zombaria e desprezo pelos outros definitivamente não estava na lista das coisas favoritas dela.
- Eu? De jeito nenhum, minha senhora! Eu nunca faria isso! - ele disse, com um sorriso de escárnio, e deu um passo na direção dela. - Por favor, estou aqui apenas para lhe oferecer meu apoio.
- Seu apoio? - ela perguntou, estreitando os olhos. Vivian não era de confiar em estranhos, especialmente em homens com sorrisos como aquele. Não que ela realmente tivesse alguma experiência, mas era algo que a mãe dela sempre a advertiu contra.
- Sim. A senhorita estava chorando. De todo o coração, eu diria. E, claro, eu não poderia fingir que não vi. Posso saber a causa do seu sofrimento?
Vivian lambeu os lábios e fungou. Ela não percebeu, mas o homem tinha visto aquele breve movimento dela, e sua atenção agora estava direcionada para sua boca.
- Eu só... - ela disse e parou. Ele era um estranho. Ela não podia simplesmente choramingar sobre suas tristezas para um estranho! Ela nem deveria estar falando com ele, ali, sozinha! Vivian se levantou do banco, pronta para voltar ao salão de baile.
"Tão inconveniente!" ela pensou.
- Por favor... Eu sou um bom ouvinte. E... você não me conhece. Eu não sou daqui, o que significa que não estarei por aqui por muito tempo. Você não terá que se preocupar comigo olhando para você no futuro e a julgando, se é isso que você teme, ou espalhando o que quer que esteja te incomodando.
Fazia sentido, mas ainda assim...
- Senhor, me desculpe por atrapalhar sua noite. - Ela se curvou. - Eu preciso ir embora.
- Por favor... não me faça voltar para aquele salão de baile - ele disse, e ela levantou os olhos para ele. - Eu falo sério. Por favor. A senhorita fica, eu fico... Todos ganham!
Vivian mordeu os lábios e se sentou no banco. Ele se aproximou e sentou-se ao lado dela. Ela ignorou o fato de que isso era mais do que inapropriado.
- Ah... bem... - ela começou. - Meu noivo terminou nosso noivado. Eu o amava muito. E é meu aniversário. - Ela estava olhando para as próprias mãos, que estavam apoiadas em seu colo.
Ele ofereceu o lenço a ela novamente e, dessa vez, ela o aceitou.
- Case-se com outra pessoa - ele disse sem rodeios, e ela teve que olhar para ele com espanto.
- As coisas não são assim, meu senhor.
Ele sorriu.
- Por que não? Você é, com todo o respeito, uma mulher bonita. Jovem. Posso ver que tem uma boa linhagem. Por que não é assim?
Vivian corou. Receber um elogio sobre sua aparência de um homem como ele... Mas então, ele provavelmente estava apenas sendo gentil. Vivian suspirou.
- Eu não posso escolher um marido. Uma mulher não pede a mão de um homem. Essas são as regras.
- Então, torne-se desejável para esses homens.
- Meu senhor, isso não é algo para dizer a uma dama! - Vivian teve que se controlar para não bater o pé no chão.
- Não estou dizendo para que a senhorita se ofereça como um prato de carne suculenta. Apenas... Se faça ser vista, deixe os outros homens saberem que a senhorita está aberta a propostas.
- Hum... Aposto que eles já sabem disso. Só não ligam.
O rosto do desconhecido pareceu ficar pensativo.
- Entendo... Talvez um pouco de competição seja o que esteja faltando...- Ele estreitou os olhos. - Poderíamos fazer um acordo.
- Um a-acordo? - ela perguntou. - Que tipo de acordo?
- Caso de ajuda mútua. Como eu ajudaria? Ficarei aqui por algumas semanas, e estou procurando uma distração. Essa distração poderia ser ajudar uma pobre alma. - Vivian revirou os olhos internamente. Então, os olhos dele brilharam. - Vou fingir que estou cortejando a senhorita. Tenho uma boa posição, senhorita. Os outros homens a verão como alguém de valor, afinal, se eu estou disposto a casar, significa que eles têm uma joia preciosa ao alcance.
- Mas... isso não seria inconveniente? Quero dizer, digamos que eu aceite a sua "ajuda". E depois?
- Quando a senhorita encontrar o homem do seu gosto, que lhe proponha, eu me retirarei. Claro, com a senhorita tomando a iniciativa, perante os outros, de me rejeitar.
Vivian franziu o cenho.
- O senhor mencionou que tem uma posição boa. Qual seria? Desculpe se pareço indelicada.
Eles se encararam brevemente e ele ergueu as sobrancelhas, sorrindo.
- Estou atordoado porque a senhorita realmente não sabe. Pelas minhas roupas... não consegue dizer?
Na verdade, Vivian não olhou para o corpo dele, pois seu rosto era encantador demais. Quando o fez, não precisou se afastar muito dos ombros dele, já que ali havia o símbolo da linhagem dele, uma estrela com duas espadas. Ele era da realeza.
Vivian sentiu o ar sendo tirado dela.
- De onde o senhor é? - ela perguntou. Todos os membros da realeza do Império usavam aquele símbolo, como forma de serem identificados facilmente, mesmo que estivessem fora de seus reinos.
Ele riu, divertido.
- A senhorita é realmente formidável! Espero mesmo que aceite o acordo. - Ele se levantou e então se curvou para ela. - Eu sou Brian Hakoon Baskerville, Príncipe Herdeiro de Weatus. À sua disposição, senhorita.
Príncipe Herdeiro. De Weatus. Vivian congelou no lugar. Ele não era apenas um nobre ou filho de algum Rei, ele era... O sobrinho do próprio Imperador!
- Sua Alteza Real! - ela disse e se levantou para se curvar ao homem bonito, mas ele segurou seu braço, em um movimento muito ousado. Vivian arregalou os olhos com seu toque caloroso.
Brian e ela se encararam. Ele a soltou.
- Sinto muito. Eu não deveria ter.. .- ele disse.
- Não, é... Eu sou quem deveria estar pedindo perdão, por não reconhecê-lo, Sua Alteza Real.
- Não faça isso - ele pediu, e quando ela olhou para ele novamente, ele estava mais sério. - Não me trate diferente. Estávamos tendo uma conversa muito agradável aqui.
- Eu...- Ela parou, e então assentiu. - Certo.
- Você não está esquecendo de nada? - Enquanto ela franzia a testa, ele voltou a sorrir. - Seu nome e sua resposta.
- Ah! - Ela sorriu sem jeito. - Meu nome é Vivian Charlotte Astley.
- E sua resposta?
- Primeiro, diga-me, senhor: o que o senhor ganha com isso?
- Como eu disse, entretenimento - ele disse, mas como ela continuou olhando para ele, ele decidiu dizer a verdade. - Tudo bem. Meus pais não param de falar sobre eu me casar. Eu não quero. Então, enquanto tivermos esse acordo, estou a salvo de suas reclamações e tentativas de achar uma noiva que eu, francamente, não acho ideal.
- Hmmm... - os sentimentos de Vivian estavam confusos, afinal, desde a hora que acordou e recebeu a visita de Uriel, não teve um momento de paz. E agora, parecia que ela mesma conseguiria "cumprir com o papel dela na sociedade" e se ver livre das chateações diárias da mãe.
- Então, o que a senhorita me diz?
Sentada na sala, tomando chá, Vivian estava perdida em pensamentos sobre a noite anterior. O príncipe herdeiro apareceu para ela como um cavaleiro de armadura brilhante, em um momento de desespero. Mas então, ele provavelmente estava brincando, apenas tentando fazê-la sorrir e se sentir menos desamparada.
Depois que conversaram, Vivian entrou no salão de baile novamente e muitas pessoas estavam olhando para ela. Ela não precisou de muito para entender o porquê: Uriel e Cecil estavam dançando, seus olhos brilhando um para o outro.
"Nosso acordo vai dar certo, minha senhora", disse o príncipe herdeiro e Vivian engoliu as lágrimas com força. Ela não iria chorar novamente pelo Marquês! Bem, pelo menos, não durante a festa.
Enquanto ela se lembrava de tudo isso, uma empregada se aproximou dela, fazendo uma reverência. - Minha senhora, o Príncipe Herdeiro, Brian Baskerville, está aqui para vê-la.
Vivian franziu a testa e colocou sua xícara de chá na mesa de centro.
- Sinto muito, Betsy. Você poderia...
- O Príncipe Herdeiro? - Lady Aleena perguntou, seus olhos quase saltando para fora das órbitas, tamanho era o seu espanto. Ela olhou para sua filha e logo se levantou, segurando o pulso de Vivian e puxando a garota para cima. - O que você está fazendo boquiaberta como um peixe fora d'água? Vá se vestir!
- Estou vestida, mãe! - Vivian choramingou, sentindo seu pulso doer. - Meu pulso...
Lady Aleena o soltou, pois poderia ficar vermelho e dar ao Príncipe uma ideia errada.
- Quero dizer, bem vestida! Você não pode receber O Príncipe Herdeiro usando essa... - Ela olhou para o traje de Vivian com desprezo - coisa! Vá colocar um vestido melhor!
- Mas é dia... Estou em casa. Eu não deveria parecer mais natural? - ela perguntou, sorrindo.
Lady Aleena levantou uma sobrancelha para sua filha e revirou os olhos.
- Nenhum homem quer ver uma mulher "ao natural" do jeito que você pensa, garota. Agora, fique quieta! Faça o que lhe é mandado! - Ela endireitou seu vestido. - Vou fazer sala para ele.
Vivian exalou o ar em seus pulmões e foi para seu quarto, enquanto sua mãe descia as escadas.
"Oh, meu Deus... ele realmente veio!" ela pensou, espantada.
Uma última olhada para si mesma no espelho: o vestido verde combinava perfeitamente com seus olhos. Ela respirou fundo e foi encontrar sua mãe e o tal príncipe. Por algum motivo, ela estava nervosa para revê-lo.
Na porta, ela deu uma espiada no interior da sala de estar e sua mãe estava virada para a porta. Enquanto isso, o príncipe - cujas costas ela só conseguia ver parte - estava sentado em frente à mais velha.
- Minha querida! - Lady Aleena disse, com um sorriso brilhante, de orelha a orelha. O príncipe começou a se virar para olhar para Vivian, lentamente.
Ele se levantou do sofá e fez uma reverência. Quando levantou a cabeça, seus olhos encontraram os dela. Aqueles olhos castanhos intensos fizeram o coração dela quase parar. Agora, à luz do dia, ela podia ver que ele era muito mais bonito do que o que ela se lembrava da noite anterior.
- Lady Vivian Astley - ele disse e sorriu para ela. - Obrigado por me receber.
- É uma honra, Vossa Alteza Real - ela respondeu educadamente com uma reverência, e foi se sentar ao lado da mãe.
- Vossa Alteza Real estava me dizendo que falou brevemente com você ontem à noite. Mas você estava cansada demais para dançar - Lady Aleena disse, e Vivian sabia que, entre as linhas, ela estava perguntando o que diabos havia de errado com ela. E por qual motivo notícias sobre aquilo não chegaram aos ouvidos da Lady mãe.
- De fato! Eu estava muito cansada. Aqueles sapatos definitivamente não foram a melhor escolha - Vivian disse com um tom claramente de brincadeira, e Lady Aleena franziu os lábios, mas o príncipe riu.
- Eu posso entender. Eu tenho uma irmã, como você bem sabe, e ela reclama constantemente sobre a "questão dos padrões de beleza", como ela chama.
Vivian sorriu para ele e, quando sua mãe se virou para a empregada, ele piscou para ela. Vivian corou e olhou para baixo, envergonhada.
- Minha querida, enquanto os refrescos estão chegando, por que você não mostra ao príncipe herdeiro nossos jardins?
- Com prazer, mãe. - Vivian respondeu e se virou para o homem bonito na frente dela. - Vossa Alteza Real gostaria de me acompanhar para um passeio?
- Definitivamente. - ele respondeu e se levantou, levantando a mão para Vivian.
Uma vez do lado de fora, eles caminharam por alguns minutos sem uma palavra ser trocada. Vivian estava olhando ao redor, para as flores e, curiosamente, ela estava se sentindo bastante inclinada a prestar mais atenção às pequenas plantas coloridas.
- Por que você pareceu tão surpresa com a minha presença, Lady Vivian? - ele finalmente perguntou, quebrando o silêncio.
- Oh... Bem, para ser franca com Vossa Alteza Real, eu pensei que o senhor não estava falando sério, ontem à noite. Pela manhã, eu me lembrei dos eventos e... Você Alteza Real sabe... Por que um Príncipe Herdeiro ajudaria a filha de um Visconde que tinha acabado de ser rejeitada por um Marquês?
- Eu já lhe contei meus motivos. E... já que você está nessa situação, isso me faz cortejá-la ainda mais crível. Por que eu cortejaria a senhorita? Porque a senhorita é mais do que, em suas próprias palavras, "a filha de um Visconde rejeitada por um Marquês", Minha Senhora.
Vivian ponderou por um momento e, de fato, suas palavras fizeram sentido. A razão pela qual um Príncipe Herdeiro, acima de todas as pessoas, olharia para ela, era porque ela era preciosa aos seus olhos. E, claro, os homens em geral queriam o que era valioso. A atenção do Príncipe Herdeiro deu a Vivian essa recomendação sobre si mesma.
- Eu posso ver seu ponto, Vossa Alteza Real - ela disse pensativamente, assentindo. - E eu concordo.
- Estou feliz que a senhorita concorde. O que significa... nosso acordo está certo? - Vivian não sabia dizer se o tom do homem era de diversão ou não, mas ela não iria recuar.
- Sim.
Logo, uma empregada caminhou até eles, e eles passaram as próximas horas na sala de estar, ouvindo os elogios de Lady Aleena a Vivian - aqueles que ela nunca daria à filha quando eram apenas elas duas.
Enquanto Vivian estava envergonhada pelas palavras de sua mãe, Brian parecia estar gostando.
- Por favor, meu amor, toque piano para nós - Lady Aleena pediu, e Vivian fez beicinho. Brian notou o quão desconfortável ela estava, e decidiu intervir.
- Eu adoraria ouvi-la tocar, senhorita, mas preciso ir agora. Vamos deixar para amanhã, então.
Quando ele se foi, Lady Aleena segurou Vivian pelos ombros.
- Por que você não mencionou que conheceu o príncipe herdeiro de Weatus? - ela perguntou, sorrindo como uma idiota.
- Acho que estava sofrendo demais com o Marquês...
- Quem se importa com o Marquês? - Lady Aleena acenou com a mão dramaticamente.
"Até ontem, a senhora estava tendo um ataque por causa da revogação do nosso compromisso", Vivian zombou internamente. - Bem, eu me importei.
Sua mãe fez um movimento de desprezo com a mão.
- Pss, não! Ele é o passado. O Príncipe Herdeiro é o presente e o futuro. Concentre-se nele. Confie em mim, ele é muito mais digno de suas lágrimas do que aquele Uriel Barless.
Mais tarde, naquele mesmo dia, flores chegaram à Residência dos Astley. E não eram do Príncipe Herdeiro, mas de um Conde. E também, uma caixa de chocolates chiques e refinados, de outro Visconde.
Lady Aleena ficou muito satisfeita com tudo isso. Lorde Heinrich, seu marido e pai de Vivian, o Visconde de Ehre, parabenizaram sua filha durante o jantar.
No dia seguinte, o príncipe herdeiro visitou, e logo as notícias realmente se espalharam pela cidade. E convites para bailes estavam mais do que chovendo na Residência Astley.
No quarto dia, Vivian acordou com dois homens esperando para vê-la. Ela nunca gostou de bajulação, mas achava engraçado.
Brian chegou e não ficou tão satisfeito em ver aqueles homens lá. Ele os conhecia e não gostava de nenhum.
- Você deveria ter mais cuidado, senhorita - ele disse num tom irritadiço, quase entredentes, quando os dois homens se foram.
- Cuidado com o quê?
- Com quem a visita. Esses homens não são uma boa companhia.
- Oh... Obrigada por me avisar. - Ela estava quase rindo, porque por um momento pensou que ele estava... com ciúmes? Brian segurou a mão dela, fazendo com que Vivian prestasse atenção a ele. Ela sentiu borboletas no estômago, porque Brian estava tocando na mão dela, e o calor que ele emanava percorreu pelo corpo dela.
- Eu falo sério - a voz dele era dura, mas também lenta de um jeito que arrepiou Vivian.
Eles se encararam pelo que pareceu uma eternidade, até que o som de saltos altos batendo no chão trouxe ambos à realidade.
No dia seguinte, nada de visitas, já que o Baile da Condessa Victoria aconteceria. Vivian tinha que estar perfeita, segundo sua mãe.
Enquanto isso, Brian acordou tarde e foi tomar seu café da manhã na sacada. Uma batida na porta o fez se virar, e, antes que ele pudesse responder, a porta se abriu.
- Quem é...? Ah, primo! - ele disse alegremente, sentando-se na cadeira.
- Bom dia, Brian! - Tadeas, o Rei de Raderia, sorriu para o homem mais jovem.
- Por favor, a que devo a honra de tê-lo em meus aposentos? - Brian perguntou, brincalhão.
- Pare com as piadas. É ela? - ele perguntou, sorrindo.
- Ela... quem? - Brian perguntou em um tom confuso, sabendo muito bem que seu primo estava falando sobre Vivian.
- Não banque o ignorante aqui, Brian! Vamos lá... Eu vi Lady Vivian Astley. Ela é linda. Mas ouvi dizer que ela foi rejeitada pelo Marquês de Stolz, Uriel Barless.
- De fato, ela foi. E...?
- Você está interessado em uma mulher que um Marquês rejeitou? - Tadeas perguntou, recostando-se na cadeira. - Por quê?
- Você mesmo respondeu: ela é linda - Brian respondeu simplesmente. - Mas não só isso. Ela é inteligente. Culta. Você sabe o quanto eu odeio cabeças vazias. Ela tem um bom temperamento.
- Não foi isso que ouvi sobre ela.
- Ah, é mesmo? Por favor, compartilhe comigo, então.
Tadeas olhou ao redor como se não estivessem sozinhos e sorriu.
- Ouvi dizer que ela tem uma boca bem esperta, sabe? Às vezes, ela não segura a língua e fala mais do que deveria. - Tadeas estava falando quase num sussurro, como se fosse uma super fofoca.
Brian estreitou os olhos.
- Você quer dizer que quando alguém é desrespeitoso com ela ou diz algo absurdo, ela não fica em silêncio?
- É mais ou menos isso.
- Então, ela é perfeita! - Brian disse alegremente e sorriu. - Obrigado por acrescentar mais pontos positivos sobre ela.
- Brian...- Tadeas estava mais sério agora. - Sério... isso é real? Não quero desencorajá-lo, é só que... Seus pais a aceitariam?
- Claro que aceitariam. Sua moralidade está, sem dúvida, acima de qualquer crítica. Ninguém pode levantar um dedo para falar mal da conduta dela na sociedade. Ela é incrivelmente linda, saudável, filha de um nobre e, acima de tudo, é a mulher que escolhi.
Brian Baskerville contava quase trinta voltas ao redor do sol e ainda estava solteiro. Ele era o futuro herdeiro do Império e, ainda assim, nenhum casamento à vista, o que era enervante e preocupante. Seus pais estavam praticamente implorando para que ele se casasse com qualquer moça que achasse adequado e que eles logo tivesse um filho.
- Ok... Então, devo parabenizá-lo! - Tadeas disse e deu um tapinha firme no braço de Brian.
Quando o Rei se foi, Brian sorriu. Se ao menos soubesse que não haveria casamento nenhum à caminho... Brian pretendia manter sua vida de solteiro, cheia de mulheres, e não acorrentado a uma só. Uma mulher. Pelo resto de sua vida. Isso o assustava mais, até porque sabia que, no dia em que se casasse, amando ou não sua esposa, manteria a monogamia e a fidelidade.
- Mas ela é bonita. Isso eu não posso negar. - Ele disse em voz baixa, lembrando-se dos olhos verdes brilhantes que ela tinha, capazes de fazê-lo esquecer onde estava se olhasse intensamente para ela. Todos os seus traços eram perfeitos, mesmo quando ela estava chorando, como quando a conheceu. Os olhos dela brilhavam ainda mais, deixando o verde diferente, de um jeito maravilhoso. "Mas não tanto, quanto quando ela sorri!"
Na verdade, ele a viu no salão de baile com uma expressão estranha e isso despertou seu interesse. Ela não estava, como as outras jovens, tentando chamar sua atenção ou de qualquer outro homem. Ele a seguiu com os olhos e quando ela desapareceu pelas portas dos jardins, ele esperou um pouco antes de ir atrás dela, imaginando se ela estava, talvez, encontrando um amante. Não seria nenhuma surpresa, mas bastante decepcionante.
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O baile da Condessa era um dos mais esperados do ano, e Cecil estava bem infeliz. Quando Vivian chegasse, todos olhariam para ela. Isso era normal, claro, ela estava deslumbrante. O problema era que agora que Cecil seria a noiva oficial de Uriel Barless, o Marquês de Stolz, ela deveria ser a estrela! Mas não, Vivian tinha que colocar as mãos no Príncipe Herdeiro!
"Droga!", ela pensou. Ela poderia ter esperado um pouco mais e tentado algo com o próximo Imperador! Mas não, agora ela estava presa a um Marquês! Claro, Uriel não era feio ou pobre. Pelo contrário, sua família era mais rica que o Duque de Haus, e sua aparência era admirável. O problema era que, perto do Príncipe Herdeiro, ele empalidecia em comparação.
- Minha querida, eu estava procurando por você! - Uriel disse em um tom amoroso, sorrindo docemente para ela.
- Oh, desculpe. Eu só preciso de um pouco de ar, meu amor - ela respondeu em seu tom doce e cadente.
Uriel amava uma mulher que coordenasse todos os seus desejos. Que sempre concordasse com ele e, se por algum motivo isso não pudesse ser alcançado, ela seria mais do que gentil e bem-humorada. Essa não era Vivian, que tinha forte determinação. Mas Cecil... ela era um cordeirinho!
- Você precisa de alguma coisa? - ele perguntou, e ela balançou a cabeça, apontando para dentro e voltando para o salão de baile.
Vivian estava dançando com Brian, e Uriel viu. Ele sempre pensou que ela era a mulher mais bonita que ele já tinha visto e pelo menos isso era um consolo para o casamento arranjado anteriormente com ela. A visão dela dançando com outro homem, não qualquer homem, mas um que todas as mulheres queriam, com uma boa figura e posição, um com quem ela parecia feliz de estar, deixou seu coração inquieto por algum motivo.
Cecil percebeu isso e franziu os lábios, antes de fingir que pisou errado e torceu o tornozelo.
Por alguns momentos, ela recebeu a atenção das pessoas ao redor, mas não tanto quanto queria e, assim que viram que ela estava bem, viraram as costas para ela e voltaram para a festa, ou melhor, para admirar o novo casal brilhante.
Vivian nem percebeu quem eram as outras pessoas na festa. O Príncipe Herdeiro era muito mais interessante. Ele sabia tanto! Ele tinha viajado muito e ela estava impressionada com todas as histórias que ele estava contando a ela.
- Você gostaria de beber alguma coisa, senhorita? - ele perguntou a ela com um sorriso, e Vivian assentiu.
Ele a deixou perto da pista de dança com Lady Aleena e foi atrás de algo para refrescar sua parceira.
Cecil viu isso como uma grande oportunidade de tentar falar com ele, pois Uriel foi chamado por seu pai para discutir alguns "assuntos importantes" com outros senhores.
- Ah, Vossa Alteza Real! - Cecil disse contente, sorrindo para ele. Brian sabia quem ela era e, embora não estivesse em um relacionamento real com Vivian, não gostou muito daquela mulher falando com ele. Ele odiava pessoas como ela, que fingiam um temperamento mais elevado não apenas para ganho pessoal, mas também para prejudicar outra pessoa.
- Sim? - ele perguntou, não muito educadamente e mostrando que estava um tanto irritado.
- Eu... sinto muito incomodá-lo, Vossa Alteza Real, mas... machuquei meu tornozelo e meu noivo teve que cuidar de alguns negócios. Posso ver que o senhor tem duas xícaras de bebidas. Você se importaria em me ajudar? Estou com muita sede.
Isso não foi apenas inconveniente, mas também rude e inapropriado. Ela estava claramente tentando flertar com ele, sorrindo, falando em um tom baixo e piscando os cílios.
Brian sorriu para ela.