Eu estava no centro do palco da minha própria exposição de arte, cercada pela elite da Alcateia, que me olhava com nada além de pena.
Meu marido, o Alfa Supremo, estava desaparecido.
Então, alguém apontou para a TV. Lá estava Dante, ao vivo no noticiário, protegendo outra mulher - uma Beta de pernas longas chamada Isabella - da chuva com o próprio corpo.
Enquanto eu estava ali, sozinha, tratada como um defeito porque não conseguia me transformar, ele bancava o cavalheiro perfeito para a amante.
Naquela noite, entrei em seu escritório com uma pilha de papéis chatos sobre a logística da galeria.
Escondido no fundo da página quatro, havia um Vínculo de Repúdio - uma lei arcaica que declarava uma companheira como propriedade indesejada.
Dante nem leu. Estava ocupado demais rindo com Isabella para perceber que estava legalmente abrindo mão de sua esposa.
Peguei a pasta, fiz uma mala e desapareci na noite, levando comigo o segredo de seu herdeiro ainda não nascido.
Quando ele finalmente me encontrou nos Alpes Suíços durante uma nevasca, esperava uma esposa submissa, pronta para voltar.
Em vez disso, encontrou uma mulher que o olhou nos olhos e disse: "Você não é necessário aqui."
Pensei que estava livre, até que um ano depois, o sangue da nossa filha começou a queimá-la viva por dentro.
Sua poderosa linhagem de Alfa estava em guerra com seu corpo, e minha magia não era suficiente para salvá-la.
Trêmula, disquei o número que jurei nunca mais ligar.
"Dante", solucei. "É a Luna. Ela está morrendo."
O homem que um dia me tratou como um recurso atravessou montanhas para nos salvar.
Mas desta vez, o Alfa Supremo não veio para conquistar.
Ele veio para se ajoelhar.
Capítulo 1
Ponto de Vista: Helena
A galeria fedia. Claro, na superfície, era o cheiro de champanhe caro e Chanel Nº 5, mas por baixo? Fedia a cachorro molhado e condescendência.
Eu estava parada bem no centro da "Galeria Lua de Sangue", apertando as mãos para conter o tremor. A elite da Alcateia circulava como tubarões de smoking, balançando suas taças. Eles olhavam para minhas pinturas a óleo - representações violentas e caóticas da história dos lobos - e depois olhavam para mim.
Aquele olhar. Aquele olhar sufocante de "coitadinha", reservado para um defeito. Uma Ômega que não conseguia se transformar.
"Belos quadros, Helena", disse uma mulher Gama, passando por mim sem diminuir o passo. Ela não se importava com a arte. Só queria ser vista sendo gentil com o caso de caridade do Alfa.
Chequei meu celular. Tela preta. Nada.
*Dante. O curador está começando. Onde você está?*
Enviei o pensamento pelo Elo Mental. Normalmente, um vínculo de companheiros parece um fio de alta tensão - um zumbido de eletricidade. Hoje à noite? Silêncio total. Ele havia erguido o muro mental. De novo.
Dentro de mim, minha loba arranhava minhas costelas, desesperada por ele. Eu a ignorei.
"Ei, olhem a TV", alguém murmurou perto da mesa de camarões.
Eu me virei. A tela plana na parede transmitia a "Cúpula da Aliança das Alcateias" no centro da cidade. A chuva açoitava as ruas de São Paulo na tela. A câmera deu um zoom em um SUV preto.
Dante.
Meu Deus, como ele era lindo. Mesmo em pixels, ele era letal. Ombros largos esticando um terno feito sob medida, mandíbula cerrada como granito. O tipo de homem que poderia silenciar uma sala apenas por entrar nela.
Então, a porta do passageiro se abriu.
Isabella. A filha do Alfa vizinho. Uma Beta. Pernas longas, ambiciosa e usando um vestido que custava mais do que toda a minha exposição. Ela tropeçou nos saltos. A mão de Dante disparou, segurando sua cintura. Ele a puxou para perto, protegendo-a da chuva com o próprio corpo. Ela riu, encostando-se em seu peito.
Ele não a soltou.
A legenda passava abaixo deles: *Alfa Supremo Sovrano e o Par Perfeito?*
A galeria ficou em silêncio. Eu podia sentir o calor de cem olhares queimando minhas costas. Meu cheiro - normalmente baunilha e jasmim - azedou. Cheirava a açúcar queimado e vergonha.
Meu celular vibrou. Finalmente.
Dante: *Assuntos da Alcateia se estenderam. Vá para casa.*
Era só isso. Sem "Desculpe". Sem "Boa sorte". Apenas uma ordem.
Fiquei olhando para a tela até os pixels se tornarem um borrão. Por quatro anos, engoli as desculpas. Ser o Alfa Supremo de um império de negócios em São Paulo exigia sacrifícios. Como eu era a companheira "quebrada", aquela que não podia se transformar, eu tinha que ser a compreensiva.
Mas ele não estava sacrificando nada. Eu estava.
"Ele não vem, passarinho."
Eu me encolhi. Juliano, o artista Renegado que contratei para as molduras, estava encostado na saída de emergência. Ele cheirava a sálvia e terra - um disfarce para sua falta de cheiro de alcateia.
"Juliano", limpei o olho rapidamente. "Você não pode estar aqui."
"Nem você deveria", disse Juliano, com a voz baixa. "Ele está te devorando viva, Helena. Você não é uma parceira para ele. Você é um calmante. Ele vem até você para acalmar o lobo dele depois de uma briga, e depois vai embora. Você é um recurso."
Eu queria gritar com ele. Queria usar minha voz de Luna. Mas eu não tinha uma voz de Luna. Eu era apenas o bichinho de estimação do Alfa.
Minha loba ficou imóvel.
*Recurso.*
Na tela, a mão de Dante ainda estava na base das costas de Isabella enquanto ele a guiava para dentro.
Algo no meu peito não se quebrou. Apenas... se desligou.
"Juliano", eu disse, minha voz se firmando. "Aquele advogado que você mencionou. O que cuida de saídas 'complicadas'?"
Juliano ergueu uma sobrancelha. "O cara do Vínculo de Repúdio? Isso é lei arcaica, Helena. Declara uma companheira como propriedade indesejada. Nenhum Alfa assina isso voluntariamente."
"Dante não lê o que eu dou a ele", eu disse, a percepção fria e afiada. "Ele acha que sou estúpida demais para entender contratos. Ele acha que eu só pinto dentro das linhas."
Virei as costas para a TV. Virei as costas para a sala cheia de pena.
"Me dê o número. Vou demitir ele."
*
Ponto de Vista: Helena
O último andar da Torre Sovrano cheirava a dinheiro e ozônio.
Também cheirava a *ela*. O perfume enjoativo e artificial de Isabella pairava no ar, misturando-se com o cheiro profundo de floresta de Dante.
Eu estava parada diante de sua mesa, segurando uma pasta azul. Meu coração martelava um buraco nas minhas costelas, mas mantive meu rosto inexpressivo.
"Seja rápida, Helena." Dante não levantou os olhos do laptop. "Tenho uma reunião em cinco minutos."
Isabella estava empoleirada na beirada da mesa dele. Literalmente sentada na mesa dele. Ela sorriu com desdém, girando uma caneta.
"Perdida, querida?" ela ronronou. "A cozinha fica três andares para baixo."
Minha loba rosnou, mas eu a contive. Seja a coisinha fraca que eles pensam que você é.
"Preciso de uma assinatura, Alfa", eu disse, mantendo a formalidade.
Dante finalmente olhou para cima, a irritação brilhando em seus olhos cinzentos. "Para quê? Outro cheque de caridade?"
"Logística da galeria", menti suavemente. "Estamos movendo a coleção para um depósito. A transportadora precisa da isenção de responsabilidade do proprietário. Como a galeria é tecnicamente um ativo da Alcateia, apenas o Supremo pode assinar."
Deslizei a pasta sobre a mesa.
Eu havia enterrado o *Vínculo de Repúdio* bem fundo. Estava na página quatro, entre uma isenção de seguro padrão e um manifesto de carga. O cabeçalho dizia simplesmente: *Liquidação de Ativos e Transferência de Direitos*.
Tecnicamente preciso. Eu era o ativo.
Dante suspirou, esfregando as têmporas. "O Beta não pode resolver isso?"
"Exige o Supremo", eu disse.
"Apenas assine, Dante", Isabella gemeu, checando seu relógio Cartier. "A reunião da fusão começa em dois minutos. Pare de perder tempo com trivialidades domésticas."
Dante pegou uma caneta-tinteiro. Ele virou a primeira página.
Meus pulmões pararam de funcionar. Se ele lesse uma linha do terceiro parágrafo, eu estava acabada. Traição. Cela no porão.
Ele olhou para o texto denso.
*Vamos lá*, implorei em silêncio. *Seja o cretino arrogante que eu sei que você é.*
"Você e suas pinturas", Dante murmurou. Ele não leu. Ele só queria que eu fosse embora.
Ele rabiscou sua assinatura na linha inferior: *Dante Sovrano, Alfa Supremo.*
No momento em que a tinta secou, eu senti. Um *estalo* agudo e metálico no meu peito. Como uma algema se partindo.
Dante franziu a testa, largando a caneta. Ele esfregou o peito, fazendo uma careta.
"O que foi isso?"
"O quê?" Isabella se inclinou, a mão em seu ombro.
"Nada", Dante balançou a cabeça. "Só uma pontada. Estresse."
Arranquei a pasta antes que ele pudesse pensar duas vezes. Minhas mãos tremiam, mas as escondi atrás das costas.
Eu consegui. Eu segurava minha vida em uma pasta azul.
"Obrigada, Alfa."
"Vá para casa, Helena", ele acenou com a mão, já se virando de volta para Isabella. "Vou ficar no apartamento da cidade hoje à noite."
"Eu sei", eu disse.
*Você nunca mais vai precisar me dizer isso.*
Eu saí. As pesadas portas de vidro assobiaram ao se fechar atrás de mim. Ele tinha sua fusão. Ele tinha sua Beta.
Mas ele tinha acabado de legalmente abrir mão de sua esposa.
*
Ponto de Vista: Helena
A mansão Sovrano não era um lar. Era um mausoléu com móveis melhores.
Agi rápido, enfiando dinheiro e a identidade falsa de Juliano em uma mochila. Sem roupas. Sem joias. Apenas equipamento de sobrevivência.
Meu celular apitou.
*De: Santuário Pico de Prata, Suíça.*
*Assunto: Inscrição Aprovada.*
Suíça. Território neutro. O único lugar que a Lei da Alcateia não podia me tocar.
Estendi a mão para pegar um suéter, e o quarto girou.
Uma onda de náusea me atingiu com tanta força que tive que me segurar na cabeceira da cama. E o cheiro - meus sentidos de repente foram para o nível máximo. Eu podia sentir o cheiro da poeira nos dutos de ventilação. Podia ouvir o batimento cardíaco de um esquilo no jardim.
*Não. Agora não.*
O cio. Mês passado. Dante tinha chegado em casa elétrico de uma disputa de fronteira. Não tinha sido amor; tinha sido biologia.
Corri para o banheiro, rasgando uma caixa de testes "Tira de Prata".
Três minutos. Uma eternidade.
Olhei para baixo. A tira não estava apenas azul. Estava brilhando em um carmesim violento e pulsante.
*Positivo. Linhagem de Alto Alfa detectada.*
Levei a mão à boca.
Grávida.
Um pânico gelado me invadiu. Se Dante soubesse...
Ele não veria uma criança. Ele veria um herdeiro. Ele pegaria o bebê, o criaria à maneira "Lua de Sangue" - frio, implacável, um soldado primeiro e uma pessoa depois. E eu? Eu seria a incubadora trancada no berçário.
"Não", sussurrei. "Não o meu bebê."
Percebi por que ele ainda não tinha sentido o cheiro. A náusea o mascarava. Mas logo, eu cheiraria a leite e vida nova.
Mastiguei um punhado de "Amora Fantasma" do estoque de Juliano. Tinha gosto de terra e cinzas, mas matava o cheiro.
Minha mão pairou sobre minha barriga lisa. Havia uma pulsação ali. Forte. Forte demais para algumas semanas.
Minha loba ergueu a cabeça. Ela não choramingou. Ela rosnou.
*Corra*, ela ordenou. *Agora.*
Fechei o zíper da mochila. Eu queria deixar uma carta. Queria gritar com ele. Mas a raiva era um luxo que eu não podia me permitir.
Eu tinha que ser um fantasma.
"Aguenta firme, pequeno", sussurrei para minha barriga. "Estamos indo para um lugar onde as ordens não chegam."
*