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O Alfa e a Criança da Lua

O Alfa e a Criança da Lua

Autor:: Ana E Souza
Gênero: Lobisomem
Quando a jovem Lyra, metade humana e metade Lycan, se perde em um território hostil, ela é salva pelo Alfa Zane. O que Zane não sabe é que Lyra é um lobo branco raro e, mais importante, sua companheira predestinada. Com 13 anos de diferença entre eles, Zane se vê em um dilema moral, dividido entre o desejo avassalador que ele sente e a ideia de que Lyra é muito jovem para ele. Agora, ele precisa lutar contra a própria natureza e o destino para proteger a única pessoa que seu lobo clama.

Capítulo 1 O Alfa Prematuro

POV Zane (17 anos)

O escritório da matilha cheirava a couro antigo, fumaça de lenha e responsabilidade. A sala era ampla, forrada por estantes que guardavam livros de estratégia, genealogias da Silver Claw e pergaminhos gastos que falavam de pactos com a própria deusa da Lua. Mas, para Zane, tudo aquilo parecia maior do que deveria. Maior do que ele gostaria de suportar.

Os mapas que cobriam a mesa eram testemunhas mudas da pressão que pesava sobre seus ombros. Desde que assumira o título de Alfa da Silver Claw, aos dezesseis anos, cada marca traçada no papel parecia ser um fardo gravado em sua carne.

Ainda era estranho pronunciar o título em pensamento. "Alfa". Quase soava como uma máscara, uma armadura emprestada de alguém que não era ele. O pai sempre dissera que ele seria grande, que herdaria não apenas a força, mas também a astúcia que corria no sangue dos Clayson. Só que Zane não esperava que a morte chegasse tão cedo, arrancando seus pais e o jogando na liderança da matilha antes que estivesse pronto.

Aos catorze, acompanhava o pai em reuniões, aprendia os protocolos, os códigos de conduta e as artimanhas da política entre Alfas. Mas nada o havia preparado para o silêncio cortante que vinha quando uma decisão final dependia apenas dele.

Naquele fim de tarde, desejava apenas um instante de normalidade. Gostaria de correr pela floresta com Tyler, seu melhor amigo, de rir das histórias exageradas do Gamma depois do treino, de simplesmente ser um jovem comum. Mas Alfa não tem esse luxo. Alfa não sonha: decide. Alfa não corre livre: carrega o peso de milhares de vidas.

E Zane sabia que impressionava. A altura de quase dois metros fazia dele uma muralha entre os guerreiros. O corpo musculoso era moldado pelo treino diário desde a infância. E os olhos azuis herdados da mãe refletiam uma frieza que ele, no fundo, não sentia - mas precisava exibir.

Para os anciões, ele era ao mesmo tempo promessa e ameaça.

Não era respeito o que via em seus olhares.

Era medo.

Medo de sua força.

Medo de sua juventude.

Medo de que fosse ainda maior do que o pai havia sido.

E talvez estivessem certos. Havia algo em seu sangue que queimava além da medida, algo que até mesmo Carson, o velho Beta, não sabia explicar. Uma energia que latejava sempre que a lua cheia surgia, um chamado selvagem que às vezes ele temia não conseguir controlar.

"Você nasceu para liderar, não para se esconder atrás deles."

A voz grave de Zander, seu lobo, ecoou em sua mente.

"Aceite o medo deles. É sinal de que sabem do que você é capaz."

Zane suspirou. - E se eu não quiser que me temam? - murmurou sozinho.

"Então vai aprender rápido que não há escolha. O respeito nasce do medo, e só depois vira lealdade."

Ele massageou as têmporas. A cada dia, a pressão do cargo parecia crescer, e a solidão era a pior parte.

Foi nesse momento que três batidas firmes ecoaram na porta.

Zane fechou os olhos, inspirando fundo. O cheiro de sândalo e ferro infiltrava-se pela fresta da madeira.

- Entre, Carson.

O Beta entrou. Quase tão imponente quanto o Alfa, com quase um metro e noventa, cabelos cor de areia já marcados de grisalho e olhos verdes que guardavam mais batalhas do que qualquer jovem poderia imaginar. Carson era o pai de Tyler, e, apesar da postura rígida, havia sempre algo paternal em sua presença.

- Alfa, temos um incidente na fronteira. - Sua voz carregava urgência.

Zane semicerrrou os olhos, exalando cansaço. - Renegados? O que fizeram dessa vez?

Carson balançou a cabeça, tenso. - Não são os Renegados. É outra coisa. Preciso que venha ver com os próprios olhos.

Se Carson hesitava, não era trivial.

A viagem até a fronteira foi rápida, mas cada passo no bosque fazia o peito de Zane pesar. O ar cheirava a gasolina, a ferro queimado e a sangue humano. Cheirava a tragédia.

Quando chegaram, o cenário parecia arrancado de um pesadelo.

Um carro destroçado jazia entre árvores partidas, fumaça ainda escapando do motor. O corpo de uma mulher humana estava estendido no chão, inerte, coberto de poeira e sangue. O cheiro doce e metálico da morte impregnava o ambiente.

Mas não foi nela que seus olhos se fixaram.

Ali, ao lado, um pequeno lobo branco se encolhia, tremendo.

O pelo cintilava como neve à luz da lua. Os olhos, de um violeta faiscante, eram selvagens e indomáveis. O cheiro que emanava era agridoce: medo infantil misturado a algo impossível de ignorar - mel e lavanda.

Um arrepio percorreu a espinha de Zane. Lobos brancos eram lenda. Eram raridade divina, dádivas da própria Deusa da Lua. A cada geração, quando um surgia, o destino da matilha mudava para sempre.

Ele lançou um olhar carregado a Carson. - É... um híbrido?

O Beta assentiu. - Sim, Alfa. Mas isso não é tudo. - Hesitou. - Quando a equipe Gamma a encontrou, a criança chamou pela mãe... e então se transformou.

Zane ficou imóvel. - Uma criança... transformou-se?

- Sim. Sem guia. Apenas o instinto. Desde então, está fora de controle. O instinto predatório tomou conta. Os guerreiros não ousam se aproximar.

Zane silenciou, a mente girando.

Nem Alfas conseguiam assumir a forma antes da puberdade. Nem guerreiros veteranos tinham tanto poder bruto.

E ali estava: uma criança completamente transformada.

"Ela é um sinal, Zane." A voz de Zander ecoou. "A Deusa colocou esse fardo em suas mãos. Não ignore."

Zane cerrou os punhos. - Carson... você me trouxe aqui para que eu imponha minha aura sobre ela?

- Sim, Alfa. Acreditamos que será menos perigoso que tentar contê-la à força.

A raiva cresceu em sua voz. - Você se esquece de que impor minha aura a alguém que não me jurou lealdade é uma tortura? Para que essa criança se submeta a mim, teria que me reconhecer como Alfa.

- O medo pode forçá-la a isso. - Carson mantinha o tom firme.

Zane ergueu o olhar para o pequeno lobo. Os olhos violeta faiscavam em desafio.

- Não é assim tão simples. Veja bem, Carson. Temos cinco Gammas de elite, um Beta e um Alfa diante dela. Guerreiros com cicatrizes e glória de batalhas. E ainda assim... ela não se curva.

O silêncio caiu pesado. Carson respirou fundo, cedendo. - Tem razão. Mas o que sugere?

Zane avançou alguns passos. Cada músculo do seu corpo gritava em alerta, mas ele manteve a calma. Ajoelhou-se no chão, diminuindo sua imponência, e falou baixo, como se conversasse com uma chama prestes a apagar:

- Eu sou Zane Clayson, Alfa da Silver Claw. Você está em meu território, pequena. Ninguém vai machucá-la.

Os olhos violeta se voltaram para o corpo da mulher caída. A dor refletida neles era tão pura que Zane sentiu o estômago revirar.

- É sua mãe, não é? - murmurou.

O pequeno corpo estremeceu. Um rosnado baixo escapou, os dentes ainda à mostra. O instinto dizia para atacar, mas a alma pedia socorro.

Zane estendeu a mão, não para impor autoridade, mas para oferecer calor. - Eu também perdi meus pais cedo. Sei como dói. Mas você não está sozinha. Respire... você é mais que o seu lobo.

Por um instante, os olhos violeta vacilaram. O rosnado diminuiu.

Então um estalo ecoou atrás. Um dos Gammas, nervoso, tropeçara em uma pedra.

O feitiço quebrou. O filhote de lobo branco virou-se num rompante, dentes à mostra.

- Saíam daqui! - rugiu Zane, sua aura explodindo como tempestade.

Os guerreiros recuaram imediatamente.

Zane voltou a olhar para a criança. - Só para mim. Olhe só para mim.

Os olhos dela tremeram, depois se fixaram nos dele.

Levou um tempo, um tempo tenso, mas ele finalmente conseguiu acalmar a criança. O corpo pequeno arfou, os músculos se retorceram, e, com um estalo seco dos ossos, a transformação se desfez.

Onde antes havia um lobo selvagem, agora jazia uma menina desmaiada.

Pequena. Frágil. Pele oliva, cabelos negros cacheados espalhados pelo chão, e traços tão inocentes que doíam.

Zane tirou a própria camisa e a envolveu, erguendo-a nos braços. O coração dele, que aprendera a ser de pedra desde cedo, doeu como nunca.

- Pequena tola corajosa... - sussurrou, apertando-a contra o peito.

Conectou-se mentalmente a Carson. "Tratem o corpo da mãe com honra. Nada ficará para trás. Ela merece respeito."

E caminhou de volta à matilha, com passos firmes.

A lua iluminava o caminho, fria e distante. Mas nos braços de Zane, o pequeno lobo branco dormia em paz.

E ele soube, no fundo da alma, que sua vida - e a de toda a Silver Claw - jamais seria a mesma.

Capítulo 2 A Noite da Fuga

POV Lyra (4 anos)

Lyra estava sentada no sofá da sala, as perninhas balançando sem alcançar o chão, os olhos vidrados na televisão. O desenho era seu favorito, e ela gargalhou quando Bob Esponja e Patrick fugiram correndo do Senhor Siri de Queijo. A risada era cristalina, inocente, mas logo se apagou quando sua mãe entrou no cômodo.

Mamãe estava estranha. Os olhos, sempre tão doces, estavam arregalados demais, como se vissem algo que Lyra não conseguia enxergar. O sorriso nos lábios não parecia de verdade; era como um desenho malfeito. As mãos dela tremiam quando seguravam a barra do vestido.

"Lynn... mamãe está bem?", pensou Lyra, chamando pela voz que vivia em sua mente.

Lynn sempre estava lá. Diferente das amigas da escola, Millie e Amber, que iam para casa quando escurecia, Lynn morava dentro dela. Falava baixinho, dava conselhos e às vezes dizia coisas que a faziam se sentir especial.

A primeira vez que contara sobre Lynn, mamãe ficara preocupada. Levou-a até um médico que cheirava a giz e álcool. Ele lhe deu remédios amargos que doíam na barriga e deixavam sua cabeça pesada. Depois disso, Lynn pediu com firmeza:

"Não conte mais sobre mim. Eles não vão entender. Quando chegar a hora, vou te explicar. Por enquanto, basta pensar em mim, e eu estarei aqui."

E ela obedecera.

- Ela está com medo... - sussurrou Lynn agora.

Lyra escorregou do sofá, correu até a mãe e agarrou sua mão.

- Mamãe, você está com medo?

O sorriso da mãe aumentou, mas os olhos continuaram tristes. Ela se agachou, ficando na altura da filha.

- Nós vamos fazer uma viagem, meu amor.

Lyra deu um pulo de alegria. Adorava viajar!

- Pra onde, mamãe?

- Para casa.

Lyra franziu a testa.

- Mas a gente já tá em casa... não tá?

A mãe a puxou para um abraço apertado, tão forte que quase doeu. O cheiro dela era de morangos, como sempre, mas havia algo diferente misturado: cheiro de lágrimas.

- Aqui não é mais nossa casa, querida.

- Mas eu gosto daqui... e tem a Millie e a Amber... - disse, a voz baixinha.

- Eu sei, meu amor. - A mãe acariciou seus cabelos negros. - Um dia, quando você for maior, vou te explicar melhor. Agora preciso que confie em mim. Pode fazer isso?

Lyra assentiu, mesmo sem entender.

A mãe a pegou no colo, apertando forte, e a levou até o carro. Sentou-a na cadeirinha, puxou o cinto até ouvir o clique.

- Fique quietinha, tá bem? A mamãe vai pegar as malas e já volta.

Lyra balançou a cabeça em concordância. Sempre obediente.

"Algo está errado", murmurou Lynn em sua mente. "Ela tem medo. Eu sinto."

Lyra mordeu o lábio. - Será que tem a ver com o homem de ontem?

A lembrança veio como um pesadelo. Estava quase dormindo quando ouvira mamãe gritar. Levantara pé por pé até o corredor. Um homem pálido estava parado na porta. O sorriso dele era torto, assustador. O cheiro que vinha dele era horrível, tão ruim que o estômago de Lyra embrulhou. Mamãe correu, colocando o corpo na frente dela.

- Volte pra cama, princesa. Eu já subo.

"Vamos, Lyra", sussurrou Lynn dentro dela.

E ela obedeceu, mesmo assustada. Pouco depois, mamãe entrou no quarto, beijou-lhe a testa com mãos geladas e a cobriu.

"O cheiro dele... lembra o cemitério do vovô e da vovó", disse Lynn.

"É mesmo... cheiro horrível", concordou Lyra.

Agora, enquanto mamãe guardava malas no porta-malas, Lyra abraçou o bichinho de pelúcia que levava sempre. Sentia que estavam fugindo, mas não sabia de quê.

O carro seguiu pela estrada escura. As luzes passavam rápidas, o balanço embalava Lyra para o sono. Olhou para a mãe várias vezes, mas o rosto dela estava rígido, como se tivesse esquecido como sorrir.

Queria perguntar de novo para onde iam, mas a voz não saiu. Um silêncio pesado preenchia o carro, quebrado apenas pelo ronco do motor.

O sono finalmente a envolveu, mas de repente, um estrondo rasgou a noite. O silêncio foi estilhaçado. Um clarão. Um barulho ensurdecedor. O carro rodou, os vidros explodiram. O mundo se desfez em dor e fumaça.

Lyra gritou, mas o grito se perdeu.

Quando abriu os olhos, o ar estava pesado, cheio de cheiro de ferro queimado. A cabeça latejava.

- Mamãe! - tossiu.

"Solte o cinto, Lyra", orientou Lynn, firme.

Os dedinhos lutaram contra o fecho até que ele cedeu. Ela tropeçou para fora da cadeirinha, as pernas bambas, lágrimas borrando a visão.

No chão, mamãe estava caída. Os cabelos cheios de vidro, o vestido sujo de sangue.

- Acorda, mamãe! - Lyra sacudiu o braço frio. - Acorda!

Nada.

"Ela se foi, Lyra", murmurou Lynn, triste.

- Não, não! Ela só tá dormindo! Ela ainda não virou estrelinha!

"Agora ela virou."

- Cala a boca, Lynn! - gritou. - Ela já já vai acordar!

Lyra se encolheu ao lado do corpo da mãe, abraçando-a como se pudesse aquecê-la de novo. O tempo escorria devagar, cada segundo mais pesado. O sono ameaçava puxá-la, mas o medo não deixava.

Então vieram vozes. Passos. Homens grandes surgiram da escuridão, os olhos brilhando de um jeito estranho.

O coração dela disparou. Se eles machucassem a mamãe? Não podiam!

"Lyra, cuidado", alertou Lynn.

O peito da menina apertou. Algo diferente começou a crescer dentro dela, quente e feroz. Como se o corpo fosse pequeno demais para tanta energia.

O ar ficou pesado. O mundo girou.

- Não cheguem perto! - tentou gritar, mas o que foi mais rosnado.

A dor não veio como a do machucado no joelho, mas como uma brincadeira ruim que a fazia queimar por dentro. Lyra sentiu uma coceirinha subir pelas costas, mas logo o corpo virou uma fogueira.

Ela ofegou, o estômago chacoalhou como um brinquedo quebrado, e o som de seus ossos se movendo era como o barulho de galhos secos. Ela queria gritar pela mamãe, mas a Lyra que pedia socorro estava sumindo.

Havia só a dor e a pressa de uma coisa nova querendo sair de dentro dela. A mente dela escorregou como areia que cai da mãozinha. Um escuro grande engoliu tudo, e a última coisa que Lyra lembrava era de seus braços e pernas se mexendo sem ela mandar, enquanto algo tomava o lugar dela

Capítulo 3 Um promessa silenciosa

POV Zane (17 anos)

A lua pairava sobre a floresta como uma lâmina de prata, fria e distante, iluminando o caminho tortuoso que levava de volta à matilha. A comitiva se movia silenciosa, sombras pesadas e alongadas serpenteando pela trilha de terra batida. O silêncio era profundo, quebrado apenas pelo estalar ocasional de galhos secos sob botas firmes.

Nos braços de Zane, a menina dormia. Ela era pequena demais, leve demais, frágil demais para a escuridão que a cercava. Ele sentia o calor irregular do seu corpo, uma brasa fraca em meio ao frio da noite. A cabeça dela repousava contra seu peito, os fios de cabelo emaranhados roçando sua pele.

Zane sentiu a raiva queimar no fundo do seu peito. Não era uma raiva explosiva, mas um calor persistente e subterrâneo que ameaçava consumir tudo. Raiva pelo que havia acontecido, pela injustiça de uma criança ser tirada de sua infância, de ser forçada a enfrentar a crueldade do mundo antes mesmo de conhecer a bondade.

Mas, misturada à raiva, havia uma determinação silenciosa, uma promessa que ele sentia germinar em sua alma, como uma semente em solo árido. Ele não permitiria que ela fosse transformada em troféu.

O cheiro dela era uma sinfonia estranha. A doçura de mel e a leveza de lavanda, um perfume infantil e inocente que contrastava violentamente com a mancha de ferro seco de sangue. Era a fragrância de algo puro manchado pela violência. Um cheiro que se gravou em sua memória, como uma tatuagem na alma.

Ao lado dele, Carson caminhava em silêncio. O Beta era sempre sólido, mas naquele dia seu peso era quase físico, cada pensamento dele lançado contra o peito de Zane como pedras de gelo. Seu cheiro carregava ferro, madeira e gelo, mas também uma preocupação que Zane podia sentir mesmo sem palavras.

Atrás deles, a comitiva avançava em um silêncio carregado, uma procissão quase ritualística. Os guerreiros, que testemunharam a metamorfose do lobo branco, moviam-se com uma reverência que beirava o temor, seus passos medidos e seus olhares fixos, mas discretos. Eles não carregavam apenas uma criança; transportavam um presságio palpável, um oráculo envolto em fragilidade. Zane sentia, mais do que ouvia, a expectativa opressiva que permeava o ar. Ele já conhecia a cantiga ancestral que ecoava nas mentes deles, a verdade inescapável que aterrorizava e fascinava:

O lobo branco. O presente da Deusa. A peça rara que poderia moldar - ou quebrar - o destino da Silver Claw.

- Alfa... - Carson começou, a voz hesitante, como se cada palavra tivesse que atravessar um muro de gelo.

Zane ergueu os olhos e o interrompeu:

- Não.

Carson engoliu, o ar pesado entre eles.

- Mas...

- Eu disse não. - A voz de Zane cortou a noite, firme como aço.

- Ela é apenas uma criança. Não vou permitir que seja transformada em troféu da matilha. Nem de ninguém.

O silêncio que se seguiu não era aceitação; era um momento de contenção, de palavras afiadas engolidas e guardadas para outro dia.

Quando as muralhas da matilha surgiram à frente, os guardas se entreolharam, o respeito evidente em cada gesto contido. Nenhum ousou fazer perguntas, mas os olhares seguiram Zane até a casa da matilha. Curiosidade, expectativa... e algo mais sombrio que ele preferia ignorar.

Sem hesitar, Zane seguiu direto para a ala médica, carregando a menina como se ela fosse a joia mais preciosa do mundo. Myra, a curandeira, apareceu, os olhos arregalados ao ver a cena.

- Alfa, o que...?

- Nada de perguntas. - A voz de Zane não admitia réplica. - Apenas cuide dela.

Myra assentiu, rápida, preparando uma cama limpa, lençóis brancos e água morna. Mas Zane não a entregou de imediato. Cuidou de cada detalhe: deitou a menina, ajeitou os lençóis, garantiu que sua cabeça repousasse suave no travesseiro.

O rosto dela estava marcado pela poeira e pelo sangue seco, mas dormia com a pureza de qualquer criança. Pele oliva, lábios carnudos entreabertos, cílios longos pousados sobre o rosto delicado - um anjo coberto de cicatrizes antes mesmo de começar a viver.

Zane se sentou ao lado da cama. O peso da responsabilidade o esmagava e, ao mesmo tempo, despertava algo que não conseguia nomear. Talvez fosse o olhar violeta que ainda ardia em sua memória, ou destino, como diriam os anciões. Ou apenas humanidade - aquela parte dele que, apesar do título de Alfa, ainda era só um rapaz tentando não falhar.

Zander, seu lobo, ressoou em sua mente, sua voz grave e penetrante:

- Ela é importante, Zane. Mais do que podemos imaginar.

Zane fechou os olhos, exausto. A promessa formou-se silenciosa, sólida, inquebrável:

- Não importa. Eu não vou permitir que a tratem como moeda de poder.

A noite avançou, silenciosa e densa, e enquanto a menina respirava suavemente, protegida de tudo, Zane soube que, ali, sob a lua distante, nascia uma promessa capaz de mudar para sempre o destino da Silver Claw.

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