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O Alfa que Me Reivindicou

O Alfa que Me Reivindicou

Autor:: Lya.Florr
Gênero: Lobisomem
Em um mundo onde humanos e metamorfos coexistem sob regras silenciosas e perigos constantes, Gabriela aprendeu da pior forma que sobreviver nem sempre significa viver. Sozinha, sem família e sem proteção, ela aceita o que pode ser sua única saída: trabalhar como babá para um misterioso garoto... que não é exatamente humano. O que parecia apenas um emprego se transforma em algo muito mais arriscado quando ela descobre que a criança é filho de um Alpha, um lobo poderoso, temido... e completamente instável. Ethan Black Wolf não é apenas cruel por reputação. Marcado pela perda da sua Luna e consumido pela culpa, ele se tornou um predador frio, vivendo entre negócios sombrios e instintos cada vez mais difíceis de controlar. Mas quando seu filho começa a adoecer sem explicação, ele é forçado a permitir a presença de uma humana em seu território. Gabriela. O que nenhum dos dois esperava era a forma como seus mundos começariam a se entrelaçar, não apenas pelo perigo, mas por uma atração intensa, primitiva e impossível de ignorar. Entre marcas proibidas, desejos que queimam sob a pele e um vínculo que desafia todas as regras, Gabriela se vê presa em um jogo onde fugir pode ser impossível... e resistir, ainda mais. Porque quando um Alpha decide reivindicar o que acredita ser seu... Não existe escapatória.

Capítulo 1 A procura de um emprego

Gabriela

Às vezes fico refletindo sobre a vida, sobre os inúmeros traumas que sofri, e sobre os medos que carrego comigo como se fossem parte da minha própria pele.

Eles não vão embora, nunca vão.

Nada disso vai me ajudar a crescer, nada disso vai me colocar onde eu queria estar, mas ainda assim meu cérebro e meu coração insistem em me sabotar, em me puxar para trás, em me manter presa em um lugar onde eu já não deveria estar há muito tempo. E o pior... não acontece só quando estou acordada. Acontece quando durmo também...Principalmente quando durmo.

Eu sonho com aquele dia como se tivesse acontecido ontem. Não importa quantos anos passem, não importa quantas vezes eu tente seguir em frente, meu corpo sempre encontra uma forma de me levar de volta.

Ainda consigo sentir o cheiro de sangue seco grudado em meus braços, um cheiro metálico, pesado, que parece impregnar até mesmo minha respiração. Às vezes, a lembrança é tão forte que sinto como se ele estivesse ali de verdade, como se bastasse olhar para minha pele para vê-lo novamente.

E a mordida...ás vezes ela arde.

Arde como se estivesse em chamas, como se nunca tivesse cicatrizado de verdade.

É sempre o mesmo sonho, sempre a mesma sensação.

Sempre a mesma dor, e nada muda.

Nada nunca muda.

Lembro-me como se fosse ontem, quando eu e meus pais estávamos na estrada, e já passava da meia-noite. Aquele tipo de horário silencioso, onde o mundo parece mais vazio, mais vulnerável, como se qualquer coisa pudesse acontecer a qualquer momento.

Nunca viajamos à noite.

Meu pai não enxergava bem no escuro, e minha mãe era uma péssima copiloto. Era quase uma regra não escrita: estrada só durante o dia. Luz, movimento e segurança.

Mas naquele dia... tudo saiu do controle.

Saímos mais tarde do que devíamos da casa dos meus avós, e isso já me deixava inquieta. Eu não sabia explicar o porquê, mas havia uma sensação estranha no ar, como se algo estivesse fora do lugar.

Como se não devêssemos estar ali.

Meu pai estava dirigindo, atento, mas cansado. Minha mãe estava no banco do passageiro, conversando, tentando manter ele desperto. E eu... eu estava no banco de trás, observando tudo, participando da conversa, rindo de coisas pequenas, coisas simples.

Era uma noite comum, éramos uma família comum..

E isso... isso foi o mais cruel de tudo.

Todos estávamos com cinto de segurança. Todos estávamos alertas. Tudo estava sob controle... até que deixou de estar.

Alguma coisa atravessou na nossa frente. Foi rápido demais, praticamente um borrão, uma sombra.

Meu pai freou bruscamente, o som dos pneus arrastando no asfalto ecoando dentro do carro. Minha mãe gritou o nome dele, desesperada, pedindo para ele parar o carro.

Meu pai tentou, eu sei que ele tentou, mas infelizmente não foi o suficiente. Batemos em alguma coisa, algo muito rígido e forte demais.

O impacto foi violento, e o mundo inteiro girou, literalmente.

Nosso carro capotou inúmeras vezes, e tudo que eu conseguia sentir era o corpo sendo jogado de um lado para o outro, o barulho do metal sendo esmagado, vidro quebrando, o grito da minha mãe se perdendo no caos.

E então... silêncio. Um silêncio pesado, estranho e irreal.

Lembro-me de acordar com o rosto sangrando, o gosto metálico na boca, a visão turva. Havia uma ardência gigantesca na minha perna, como se algo estivesse rasgando por dentro. Mas o mais estranho...

Eu estava fora do carro. Deitada de bruços no asfalto, a alguns metros de distância do carro.

Eu não fazia a mínima ideia de como tinha ido parar ali. Não me recordo de ter saído do carro, de ter sido arremessada para fora, porque estava de cinto.

Meu corpo inteiro doía, uma dor profunda, esmagadora, que parecia me prender ao chão.

E então eu vi...

O carro estava em chamas, o fogo consumia tudo, e cada segundo parecia mais intenso e destrutivo.

Meus pais ainda estavam lá dentro.

Tentei me mexer, uma, duas vezes, várias vezes, mas não consegui. Meu corpo estava completamente imovel.

Era como se eu estivesse presa dentro de mim mesma, completamente letárgica.

Enquanto meus olhos... meus olhos eram obrigados a assistir.

Meu coração acelerava a cada instante, batendo tão forte que eu achava que ia explodir dentro do meu peito. Por um momento, pensei que já estava morta.

Pensei que aquilo era algum tipo de transição. Que minha alma estava presa ao corpo por alguns instantes, apenas para ver aquilo antes de ir embora.

Mas eu estava errada, porque tudo que já está ruim... sempre pode piorar.

Ouvi um som estranho e pesado, como se alguma coisa gigante estivesse se movendo na escuridão. Um animal, grande, muito grande...

O som da respiração dele era profundo, irregular, quase... animalesco demais.

E aquilo me deixou ainda mais consciente e ainda mais aterrorizada.

Quando senti que ele se aproximava do meu corpo imóvel, ainda de bruços, uma nova onda de dor tomou conta de mim.

Mais forte e mais intensa.

Um ardor queimando no meu braço.

Era insuportável, era como se estivesse sendo marcada a ferro.

Eu não podia vê-lo naquela posição.

Mas quando ele se moveu, quando contornou meu corpo e se enfiou na minha frente...

Eu vi. Eu vi o que estava ali.

E nunca mais esqueci.

Era enorme... era um lobo!

Não um lobo comum, e sim um lobo gigante, muito maior do que meus olhos podiam alcançar. Não era algo que você veria em uma floresta qualquer.

Meu corpo inteiro reagiu, mesmo sem conseguir se mover.

A dor aumentou e o medo cresceu.

Um grito preso na minha garganta, tentando sair, mas sem força suficiente para se libertar.

Eu sabia que existiam shifters, todo mundo sabia.

Eles estavam entre nós. Faziam parte do mundo. Alguns até eram famosos.

Mas saber... era muito diferente de ver... Muito diferente de estar ali, frente a frente com um deles.

Aquele lobo tinha um pelo tão preto que parecia se misturar com a própria escuridão da noite. Era como se ele não refletisse luz, como se absorvesse tudo ao redor.

A única coisa que o iluminava era o fogo.

O fogo que consumia o carro. O fogo que consumia meus pais. O fogo que refletia nos olhos dele. Olhos cor âmbar.

Fixos em mim, profundos e intensos.. Como se ele estivesse me vendo... além do corpo.

Meus olhos começaram a pesar e a visão escurecendo aos poucos.

E a última coisa que vi antes de apagar completamente...

Foram aqueles olhos me encarando.

Gravando-se em mim, para sempre.

(...)

O dia amanheceu nublado, como sempre.

O céu cinza parecia refletir exatamente o que eu sentia por dentro: pesado, sem brilho, sem promessa de melhora.

Mas isso não me impediria de sair, não me impediria de tentar.

Porque, no fim das contas, eu não tinha escolha.

Se eu não lutar pela minha própria sobrevivência ninguém vai.

Depois do acidente, me vi completamente sozinha, sem apoio e sem direção.

Fui lançada à minha própria sorte, e para piorar eu nunca fui sortuda.

Fui morar com meus avós maternos, tentando encontrar algum tipo de estabilidade. Mas aquilo também não durou.

Eles faleceram. E então... veio o abrigo.

Cheio de crianças menores que eu. Cheio de histórias difíceis. Cheio de olhares vazios. Eu me criei ali. Entre paredes que nunca foram realmente minhas.

Entre pessoas que vinham e iam. Passei de casa em casa. Famílias que tentavam. Famílias que desistiam.

Porque ninguém quer carregar alguém quebrado.Ninguém quer alguém problemático.

E eu era exatamente isso, um verdadeiro problema.

Na última casa, eu já estava quase atingindo a maioridade.

E foi aí que tudo terminou. Sem despedidas. Sem promessas. Apenas... fim. Fui lançada novamente à sorte.

Consegui um emprego e voltei para a casa que meus pais haviam deixado para mim.

Ou o que restava dela. As coisas até que iam bem dentro do possível.

Até que os pesadelos voltaram.

E com eles veio a insônia. O medo de dormir. O medo de fechar os olhos.

Porque eu sabia o que me esperava do outro lado. O carro em chamas, o cheiro de sangue.

E aqueles olhos âmbar, sempre eles.. sempre me observando.

Às vezes tenho a sensação de que estou sendo observada. Mesmo acordada e mesmo durante o dia. Como se algo... ou alguém... nunca tivesse realmente ido embora.

Talvez seja só coisa da minha cabeça, talvez seja paranoia.

Talvez.

_ Droga, que dor de cabeça... _ resmunguei para mim mesma após entregar mais um currículo.

O dia tinha sido longo e cansativo. Terrivelmente Frustrante.

Passei horas andando, entrando e saindo de lugares, tentando parecer confiante, tentando parecer suficiente. Mas no fundo...eu sabia. Sabia que não era o bastante.

Depois de entregar a última folha de papel, me dei por vencida, pelo menos por hoje.

Voltei para casa com passos arrastados, sentindo o peso do dia nos ombros.

No meio do caminho, decidi comprar um jornal. Um hábito antigo e quase esquecido.

Lembrei do meu pai. Ele costumava procurar emprego assim. Lendo linha por linha. Com paciência. Com esperança. Sei que isso é quase pré-histórico hoje em dia. Mas não custa nada tentar.

Assim que cheguei em casa, me joguei no sofá. O corpo afundando no estofado gasto.

Respirei fundo tentando recuperar um pouco de energia.

E então comecei a ler. Haviam poucas propostas, e a maioria eram impossíveis para mim. Pediam formação, experiência, coisas que eu não tinha.

Coisas que nunca tive a chance de ter. Até que uma chamou minha atenção.

Fez com que eu me sentasse de imediato.

_ Vaga para babá... isso é interessante.

Meu coração bateu um pouco mais forte. Porque, querendo ou não...aquilo era algo que eu sabia fazer. Eu tinha experiência... muita experiência.

Peguei meu celular e anotei o número com cuidado.

Como se aquilo pudesse desaparecer a qualquer momento.

E logo em seguida... enviei uma mensagem.

_ Vamos ver no que isso vai dar. _ Murmurei.

Capítulo 2 A entrevista

Gabriela

Conforme os dias iam passando, as coisas só pioravam. No começo tentei manter a calma, pensando que era apenas uma fase ruim, mas depois de tantas tentativas frustradas comecei a acreditar que havia algo muito errado comigo... ou com o meu currículo. Aquela parecia ser a única explicação lógica para o fato de ninguém sequer me dar uma chance.

Liguei para inúmeros números telefônicos, mandei mensagens, pedi indicações, entreguei currículo pessoalmente em diversos lugares, sempre tentando manter um sorriso no rosto e alguma esperança no peito. Mas nada vinha. Nenhuma resposta positiva, nenhum retorno, nenhum sinal de que eu estava perto de conseguir alguma coisa.

O tempo passava, e junto com ele, o pouco dinheiro que ainda me restava.

A situação começou a ficar desesperadora de verdade quando fiz as contas e percebi que não teria como me manter por muito mais tempo. Foi aí que um pensamento pesado começou a rondar minha mente: vender a casa.

Era o único bem que me restava. A única coisa que ainda me ligava diretamente aos meus pais. Só de cogitar aquilo, meu peito apertava, mas ao mesmo tempo... o que mais eu poderia fazer?

Foi no meio desse caos que algo inesperado aconteceu.

Meu celular tocou.

E, pela primeira vez em dias, senti algo diferente... uma pequena faísca de esperança. Meu coração acelerou, e por um instante, tive a sensação de que talvez, só talvez, aquela fosse a oportunidade que eu tanto precisava.

Atendi e conversei.

E conforme a ligação avançava, o gosto de vitória começou a surgir, tímido, mas presente. Até que a realidade bateu novamente quando percebi um detalhe importante: eu teria que ir até o local de trabalho.

E eu não tinha dinheiro para isso.

Respirei fundo e fui honesta com a mulher do outro lado da linha. Expliquei minha situação, disse que não tinha condições financeiras nem para me deslocar até entrevistas simples, quem dirá para uma viagem mais longa.

Por alguns segundos, achei que aquilo seria o fim da conversa. Mas não foi.

Para minha surpresa, ela pediu meu número de conta bancária e, pouco tempo depois, fez um depósito generoso, suficiente para cobrir minha passagem e ainda sobrar um pouco.

Fiquei sem reação.

Aquilo era estranho... mas ao mesmo tempo, era exatamente o tipo de oportunidade que eu não podia recusar.

A cidade era distante, localizada em uma área mais florestal, e tudo indicava que havia muitos shifters por lá. Só esse detalhe já seria suficiente para me deixar desconfortável em qualquer outra situação, mas naquele momento... eu não tinha o direito de escolher.

Eu precisava do dinheiro.

Precisava daquele emprego.

E foi assim que me vi, poucas horas depois, com uma mochila nas costas contendo duas mudas de roupa, meus documentos, uma pasta com meu currículo e um pequeno lanche improvisado para a viagem.

Era tudo o que eu tinha, e sem dúvidas teria que ser suficiente.

O percurso levava cerca de três horas, talvez mais dependendo do trânsito e do horário. Só de pensar nisso, meu estômago já se revirava, mas eu engoli o medo e segui em frente. Não havia espaço para hesitação.

Saquei o dinheiro, comprei a passagem e entrei no ônibus tentando ignorar a sensação ruim que crescia dentro de mim.

Assim que me sentei, minhas mãos ficaram frias. Meu corpo estava tenso, como se já esperasse algo ruim acontecer. Respirei fundo e fechei os olhos, tentando me acalmar, tentando me convencer de que era apenas nervosismo.

Mas minha mente... não colaborou.

Como em um passe de mágica, fui puxada de volta para aquele dia.

O acidente..o fogo...o lobo.

Meu coração disparou, e mesmo dormindo, meu corpo reagia como se estivesse vivendo tudo novamente. O medo me envolveu completamente, deixando tudo pesado, sufocante, quase impossível de suportar.

Quando o ônibus deu um solavanco, acordei de repente, com o corpo rígido e o coração acelerado.

Demorei alguns segundos para entender onde estava.

Passei a mão na testa e senti o suor frio escorrendo. Respirei fundo algumas vezes, tentando me recompor enquanto olhava pela janela. O cenário já era diferente, mais fechado, com árvores densas ocupando grande parte da paisagem.

Eu estava chegando.

Peguei a garrafa de água e bebi alguns goles, tentando afastar o mal-estar. Meu corpo ainda estava estranho, mas pelo menos eu estava acordada.

Assim que o ônibus parou e desci, fui recebida por uma rodoviária enorme. O movimento era intenso, pessoas indo e vindo, vozes misturadas, sons de malas sendo arrastadas pelo chão. Aquilo me deixou um pouco perdida no início.

Lembrei da mensagem que havia recebido: um carro estaria me esperando.

Olhei ao redor, mas não vi nada de imediato.

_ Moça, licença, por acaso sabe me dizer onde fica a área de espera? _ perguntei para uma atendente próxima.

Ela apenas apontou na direção indicada, sem dizer uma palavra.

Agradeci mesmo assim e segui até o local, sentando em um dos bancos disponíveis enquanto tentava organizar meus pensamentos.

Pouco depois, meu celular vibrou.

"Seu motorista chegou!"

Levantei na mesma hora, olhando em volta novamente. Demorei alguns minutos até finalmente encontrar o carro com a placa indicada.

Caminhei até ele com certa cautela.

_ Bom dia, senhorita Gabriela. Meu nome é Cris, e vou acompanhá-la até a mansão Black Wolf.

_ Bom dia, Cris. _ respondi, observando-o com atenção.

Ele era um senhor de idade avançada, cabelos grisalhos e postura tranquila. Confesso que, à primeira vista, fiquei surpresa por ele ainda trabalhar como motorista, mas assim que entramos no carro, percebi que havia julgado rápido demais.

A direção dele era firme, segura e ágil.

O carro avançava pelas estradas enquanto o cenário ao redor mudava gradualmente. A cidade foi ficando para trás, dando lugar a uma estrada mais isolada, cercada por árvores altas e densas.

Quanto mais avançávamos, mais inquieta eu ficava.

A floresta parecia... viva.

E aquilo despertava algo dentro de mim.

Algo antigo, algo que eu não queria sentir.

As lembranças começaram a surgir novamente, e precisei desviar o olhar da janela para não me perder nelas.

Quando o carro finalmente diminuiu a velocidade e parou, ergui o olhar.

E então vi a mansão. Era enorme..

Com portões gigantes e o símbolo de um lobo negro entalhado no metal. O mesmo símbolo estava presente na porta de entrada e até mesmo no chafariz no centro do pátio, onde uma escultura de um lobo dominava o espaço.

Meu corpo reagiu na mesma hora. Um arrepio percorreu minha espinha. Porque, sem esforço algum, minha mente fez a ligação.

O lobo do símbolo... e o lobo do meu passado.

_ Droga... _ murmurei, sentindo o suor escorrer pelas minhas costas.

_ A senhora está bem? _ perguntou Cris ao abrir a porta para que eu descesse.

_ S-Sim, só um pouco nervosa. _ respondi, tentando parecer mais firme do que realmente estava.

_ Fique tranquila, senhorita, não há ninguém da família presente. Apenas a governanta que fará sua entrevista e o pequeno Vic.

_ Vic? É o garotinho que vou cuidar? _ perguntei enquanto ajustava a mochila nas costas.

_ Isso mesmo. _ ele confirmou. _ A senhora está usando algum perfume?

_ Não, nada que contenha cheiro forte.

Eu sabia o quanto o olfato dos shifters era sensível. Qualquer detalhe poderia arruinar minha chance, então estava tomando cuidado com tudo.

Cris assentiu e pediu que eu o seguisse.

Subi as escadas da entrada da mansão com passos mais lentos do que gostaria, tentando controlar a ansiedade. As portas se abriram, e assim que entrei, fui recebida por um ambiente luxuoso, muito diferente de qualquer lugar onde já estive.

A decoração era impecável, elegante, com móveis sofisticados, quadros pintados a óleo e um carpete macio que fazia meus passos parecerem silenciosos demais.

Aquilo tudo me deixava deslocada.

Pequena.

Segui Cris pelos corredores até que ele parou diante de uma porta.

_ É aqui. _ disse ele.

Assenti, agradeci e, antes que pudesse desistir, empurrei a porta e entrei.

A sala era ampla, organizada como um escritório.

_ Olá, Gabriela. _ disse uma mulher com os cabelos presos em um coque alto, vestindo um uniforme preto impecável. Ela se levantou e caminhou até mim.

_ Olá, senhora Valéria, é um prazer conhecê-la. _ respondi, estendendo a mão.

O aperto foi firme.

E foi o suficiente para eu perceber.

Assim que olhei nos olhos dela, soube.

Ela não era totalmente humana.

Os olhos castanhos carregavam pontos amarelados quase imperceptíveis, mas presentes. Havia algo em sua expressão, em sua postura... algo selvagem.

Mesmo coberta dos pés à cabeça, era evidente que ela era forte.

Muito mais do que parecia.

_ Fique à vontade, venha. _ ela disse, me guiando até a cadeira.

Sentei, tentando esconder o desconforto.

Agora era o momento.

A entrevista.

E, sendo completamente honesta comigo mesma...

Eu não tinha certeza se estava preparada para aquilo.

Capítulo 3 O pequeno alpha

Gabriela

Eu não sabia se tremia, se gaguejava, se saía correndo ou se mantinha um sorriso falso no rosto. A presença da mulher parecia crescer dentro da sala, ocupando cada espaço, cada canto, e isso me fazia sentir absurdamente pequena perto dela. Não era apenas o tamanho ou a postura, era algo mais profundo, algo instintivo que me deixava em alerta.

_ Sinto que está nervosa, mas posso te garantir que não há motivos para isso. _ Disse ela sorrindo, como se já estivesse acostumada a esse tipo de reação.

_ Desculpe, onde eu moro não há tantos shifters, acho que estou desacostumada, e honestamente, apreensiva. _ Fui sincera, porque não havia como esconder. Meu rosto provavelmente já entregava tudo que eu estava sentindo.

_ Tudo bem, entendo perfeitamente. Muitas vezes a minha espécie é difícil de lidar, e mesmo sem querer acabamos intimidando os humanos. _ Disse ela, coçando a cabeça de forma quase... sem jeito.

Aquilo me surpreendeu um pouco. Aos poucos, a imagem de alguém perigoso começou a se desfazer, dando lugar a uma mulher que parecia mais acessível do que eu esperava.

_ Então o contratante é um alfa? _ Perguntei, sentindo um arrepio subir pela minha nuca só de falar.

_ Sim, o senhor Black Wolf é o herdeiro da família, e após a morte da sua luna ele acabou optando por não ter babás, disse que criaria o pequeno sozinho, pelo menos até agora.

Aquilo fez sentido, pelo menos dentro do que eu já tinha ouvido falar. Alfas não eram conhecidos por serem flexíveis.

_ E o que o motivou então? Pergunto isso pois dificilmente os alfas mudam de ideia. _ Comentei, lembrando de tudo que já escutei ao longo dos anos. Sempre diziam que eles eram teimosos, territoriais e praticamente impossíveis de convencer quando colocavam algo na cabeça.

_ Não sabemos, ele apenas decidiu. Porém, é difícil achar bons profissionais hoje em dia, mas só de ver você já simpatizei! _ Disse ela abrindo um sorriso largo.

Aquilo me pegou desprevenida. Eu esperava uma entrevista rígida, perguntas difíceis, algum tipo de teste... mas não aquilo. A conversa estava fluindo de um jeito estranho, quase como se ela já tivesse tomado uma decisão.

Valéria começou a falar mais sobre a família Black Wolf, explicando que por muitos anos eles foram temidos por conta do temperamento forte, mas que as coisas haviam mudado bastante nas últimas décadas. Comentou também que, caso eu aceitasse o trabalho, provavelmente ouviria muitas histórias e fofocas, mas que a maioria não correspondia mais à realidade.

O contratante era um alfa, e o filho dele ainda não tinha um cheiro definido, o que era comum para filhotes tão novos, mas havia grandes chances de que também fosse um alfa no futuro. Segundo ela, era raro nascer um ômega em uma linhagem tão forte.

Enquanto ela falava, eu tentava absorver tudo. Não era só um emprego comum, era um ambiente completamente diferente de tudo que eu conhecia.

Ela também comentou sobre os funcionários da casa, dizendo que havia muitos shifters ali, principalmente lobos e ursos, mas também alguns humanos. Aquilo me deixou um pouco mais tranquila, embora não o suficiente para apagar o nervosismo.

_ Bem, o salário é realmente muito bom, e você comentou sobre um alojamento, certo? _ Perguntei, já sentindo uma pontinha de esperança crescer dentro de mim.

O nervosismo começou a dar lugar à empolgação, mesmo que ainda misturada com receio. Aquela oportunidade podia realmente mudar minha situação.

A conversa continuou fluindo com mais leveza, e em pouco tempo já estávamos falando de outras coisas, quase como se eu já fizesse parte daquele ambiente.

_ Se quiser, pode começar hoje mesmo! _ Disse Valéria, claramente animada.

_ Bom, seria uma honra, mas preciso pegar mais alguns pertences na minha casa para passar a semana. E também, gostaria de conhecer o pequeno.

_ Ah, é claro! _ Ela se levantou rapidamente, com um entusiasmo contagiante.

Começamos a caminhar pelos corredores, e Valéria falava sem parar. Era curioso como ela parecia completamente diferente de quando entrei na sala. Mais leve, mais espontânea, até arrancando algumas risadas sinceras de mim.

Subimos uma escadaria longa, e senti um leve desconforto nas pernas, mas ela parecia não sentir esforço nenhum. Era impressionante como os metamorfos eram fisicamente superiores. Mais resistentes, mais fortes, com uma recuperação que nenhum humano conseguiria alcançar. Sem contar a altura, principalmente dos machos, que facilmente passavam dos dois metros.

Paramos em frente a uma porta grande, com detalhes em ouro e um pequeno lobo entalhado, obviamente preto. Aquilo me fez engolir seco sem nem perceber.

Valéria abriu a porta com cuidado, e assim que olhei para dentro, minha atenção foi completamente capturada pela criança.

O espaço parecia uma mistura de brinquedoteca com quarto, cheio de objetos coloridos e organizados. No meio disso tudo, estava ele.

O menino aparentava ter dois ou três anos, mas havia algo que me dizia que ele era mais novo do que parecia.

_ Este é o Victor, ou como nós o chamamos, Vic. _ Disse Valéria.

Me aproximei devagar e me sentei ao lado dele no tapete. Ele estava concentrado em um brinquedo, completamente alheio à minha presença por alguns segundos.

Observei seus cabelos escuros, quase negros, e a forma como suas pequenas mãos se moviam com agilidade.

_ E quantos anos Victor tem? _ Perguntei, ainda olhando para ele.

No momento em que minha voz saiu, ele parou o que estava fazendo e levantou o olhar na minha direção.

E então nossos olhos se encontraram.

Foi instantâneo.

Algo estranho aconteceu.

O tempo pareceu desacelerar, e tudo ao redor perdeu importância. Eu ainda podia ouvir Valéria falando ao fundo, mas suas palavras já não faziam sentido.

Era como se eu estivesse presa naquele momento.

No olhar dele.

Meu corpo reagiu de uma forma que eu não consegui entender. Não era medo, não era nervosismo... era outra coisa.

Vic se levantou e abriu os braços para mim.

E, sem pensar, eu o puxei para perto.

Assim que o segurei contra o meu corpo, senti algo mudar dentro de mim. Meu coração, que antes estava acelerado, começou a se acalmar de forma gradual.

Ele encostou o rosto no meu pescoço e esfregou o narizinho ali, provavelmente reconhecendo meu cheiro, e aquilo, por algum motivo, me deixou completamente tranquila.

Depois disso, ele soltou um bocejo longo.

Vic simplesmente se acomodou no meu colo, pegou a chupeta e, aos poucos, seus olhos foram ficando pesados.

O contato visual se desfez naturalmente.

E então... ele dormiu.

_ Ele é tão fofo! _ murmurei, ainda segurando o pequeno corpo quente contra mim. _ Quantos anos ele tem mesmo?

Levantei o olhar para Valéria esperando uma resposta simples, mas o que encontrei foi completamente diferente.

A expressão dela havia mudado.

O sorriso tinha sumido.

No lugar, havia um olhar apreensivo.

Ela coçou a cabeça novamente, e dessa vez percebi algo mais claro: seus olhos estavam em um tom alaranjado mais intenso.

_ Ele tem um... um ano. Completou na semana passada. _ Disse, mordendo o lábio.

Franzi levemente a testa.

_ O que foi? Parece preocupada... _ Perguntei antes mesmo de pensar.

Ela soltou um suspiro longo.

Em silêncio, apontou para um berço grande ao lado.

Levantei com cuidado e coloquei Vic ali, ajeitando-o sem dificuldade. Ele nem sequer se mexeu, continuando a dormir tranquilamente.

Assim que saímos do quarto, senti falta imediata do calor dele. Aquilo me pegou de surpresa. Eu mal tinha passado alguns minutos com ele, e ainda assim... parecia que algo havia se conectado.

_ Estou chocada, Gabriela! _ Valéria segurou meus ombros, com os olhos arregalados.

Pelo menos agora estavam menos intensos.

_ Po-Por quê?

_ Vic não gosta de ninguém. Ele morde todas as pessoas que se aproximam, até mesmo o Alfa. Ele é um filhote bem difícil!

_ Nossa, e você me avisa isso agora? _ reclamei, enquanto ela começava a rir. _ É sério, ele poderia ter mordido meu pescoço ou algo pior!

Ela riu ainda mais, claramente se divertindo com a situação.

_ Se fosse para morder, ele teria feito isso assim que você entrou.

_ Por isso me deixou ir na frente? _ perguntei, indignada.

_ Óbvio. Todo filhote tem presas afiadas! Mas enfim... parabéns! _ Ela parou no corredor e estendeu a mão.

Olhei para ela por um segundo antes de reagir.

_ Você está oficialmente contratada!

_ Oh... _ apertei sua mão, ainda meio surpresa.

Ela parecia muito mais animada do que eu.

_ Então você volta hoje, pega o que precisa, e eu preparo seu quarto. Vou avisar o senhor Black que o pequeno Vic aprovou você.

Ela se virou e começou a andar novamente, ainda empolgada.

Eu apenas segui, tentando processar tudo aquilo.

Assim que cheguei ao carro, Cris me observou dos pés à cabeça e abriu um sorriso satisfeito.

_ Está inteira, menina!

_ Sim... acho que o pequeno não quis um pedaço meu. _ respondi, rindo, ainda meio nervosa.

Mas, no fundo... algo dentro de mim dizia que aquela história estava apenas começando.

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