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O Amor Que a Morte Não Apagou

O Amor Que a Morte Não Apagou

Autor:: Mylove
Gênero: Romance
Eu segurava o relatório médico, cada palavra um prego no meu caixão. Um tumor cerebral terminal. Três meses, na melhor das hipóteses. Nesse mesmo dia, o jornal anunciava o noivado de Leonel Contreras com Sofia. Ele, o meu ex-namorado. O meu meio-irmão. O homem que eu amava mais que a própria vida. Amassei o papel. Se a morte se aproximava, eu não a passaria num hospital. Iria lutar para ter de volta o que era meu. Eu sabia que ele me desprezava, que me via como uma manipuladora, a filha da mulher que destruiu a sua família. O ódio nos seus olhos era um espelho do meu próprio desespero. Mas a verdade era que eu estava a morrer. E ele, o único que eu queria ao meu lado, escolheu humilhar-me, rejeitar-me, e expor a minha intimidade para o país inteiro. Um dia, ele atendeu o telefone e ouviu a marcha nupcial. Eu estava a morrer, esfaqueada num armazém escuro, e ele estava no altar. Mas o destino tinha outros planos. O monitor cardíaco na igreja parou, e a minha morte revelou uma trama de mentiras e traições. Anos mais tarde, numa nova cidade, com um novo nome, senti um inexplicável regresso a casa ao entrar numa sala de reuniões. E à cabeceira da mesa, estava ele, com os mesmos olhos.

Introdução

Eu segurava o relatório médico, cada palavra um prego no meu caixão.

Um tumor cerebral terminal. Três meses, na melhor das hipóteses.

Nesse mesmo dia, o jornal anunciava o noivado de Leonel Contreras com Sofia.

Ele, o meu ex-namorado. O meu meio-irmão. O homem que eu amava mais que a própria vida.

Amassei o papel. Se a morte se aproximava, eu não a passaria num hospital.

Iria lutar para ter de volta o que era meu.

Eu sabia que ele me desprezava, que me via como uma manipuladora, a filha da mulher que destruiu a sua família.

O ódio nos seus olhos era um espelho do meu próprio desespero.

Mas a verdade era que eu estava a morrer.

E ele, o único que eu queria ao meu lado, escolheu humilhar-me, rejeitar-me, e expor a minha intimidade para o país inteiro.

Um dia, ele atendeu o telefone e ouviu a marcha nupcial. Eu estava a morrer, esfaqueada num armazém escuro, e ele estava no altar.

Mas o destino tinha outros planos.

O monitor cardíaco na igreja parou, e a minha morte revelou uma trama de mentiras e traições.

Anos mais tarde, numa nova cidade, com um novo nome, senti um inexplicável regresso a casa ao entrar numa sala de reuniões.

E à cabeceira da mesa, estava ele, com os mesmos olhos.

Capítulo 1

O relatório médico na minha mão parecia pesar uma tonelada, cada palavra um prego no meu caixão. Tumor cerebral, estágio terminal. O médico disse que eu tinha, na melhor das hipóteses, três meses de vida.

No mesmo dia, os jornais de Lisboa estampavam o rosto dele na primeira página. Leonel Contreras, o arquiteto prodígio, regressava a Portugal depois de anos no Brasil para celebrar o seu noivado com Sofia, uma curadora de arte do Porto.

O meu ex-namorado. O meu meio-irmão. O homem que eu amava mais do que a própria vida.

Saí do consultório, amassei o relatório e atirei-o para o lixo mais próximo. Se só me restavam três meses, não os ia passar numa cama de hospital. Ia usá-los para ter de volta o que era meu.

Sabia exatamente onde o encontrar. A clínica de repouso em Cascais, onde a mãe dele estava internada há anos.

Quando cheguei, ele estava de pé no jardim, de costas para mim, a falar ao telemóvel. A sua silhueta alta e imponente era a mesma que assombrava os meus sonhos.

"Sofia, já te disse, estou a tratar de um assunto. Ligo-te mais tarde."

Ele desligou e virou-se, o seu rosto endurecendo no momento em que me viu. Aquele rosto que eu conhecia tão bem, agora era uma máscara de frieza.

"Juliette."

A forma como ele disse o meu nome, sem qualquer emoção, fez o meu peito doer.

"Olá, irmão."

Usei a palavra de propósito, para o provocar. Vi um brilho de irritação nos seus olhos escuros.

"O que estás a fazer aqui?"

"Vim visitar a tia Clara," menti, referindo-me à mãe dele. "Soube que ela não tem andado bem."

"Não tens o direito de lhe chamar tia," ele cuspiu as palavras. "E como é que soubeste? Apaguei o teu número há muito tempo. Pensei ter deixado claro que não queria mais nenhum contacto."

A sua crueldade era direta, sem rodeios. Doeu, mas eu não demonstrei.

"Tenho as minhas fontes, Leonel."

Ignorei a sua raiva e caminhei em direção à entrada da clínica. Ele não me impediu, mas seguiu-me, os seus passos pesados ecoando atrás de mim.

A mãe dele, Clara, estava sentada numa cadeira de rodas junto à janela, a olhar para o nada. O seu olhar estava vazio. O caso da minha mãe com o pai dele tinha-a destruído, deixando-a neste estado vegetativo.

Ajoelhei-me ao lado dela e peguei na sua mão fria.

"Olá, tia Clara. Sou eu, a Juliette. Vim ver-te."

Ela não reagiu. Comecei a falar-lhe baixinho, a contar-lhe sobre os meus dias, sobre os azulejos que pintava, qualquer coisa para preencher o silêncio. Fazia isto sempre que podia, mesmo depois de Leonel ter partido para o Brasil. Era a minha penitência.

De repente, senti uma mão forte no meu braço, puxando-me para cima. Era Leonel. A sua cara estava a centímetros da minha, os seus olhos a arder de fúria.

"Eu não te quero perto dela. Fica longe da minha mãe."

A sua voz era um rosnado baixo e perigoso.

"Porque é que voltaste, Leonel? Para te casares?" perguntei, a minha voz a tremer ligeiramente.

"Isso não te diz respeito."

"Claro que diz," insisti, encontrando o seu olhar. "Eu não vim aqui pela tua mãe. Eu vim aqui por ti. Eu queria ver-te."

A minha confissão pareceu apanhá-lo de surpresa. Ele afrouxou o aperto no meu braço. Por um momento, vi algo no seu olhar, uma fissura na sua máscara de gelo.

Ele tirou um maço de cigarros do bolso e acendeu um. O fumo envolveu-nos. Por puro reflexo, um hábito antigo, estendi a mão e tirei-lhe o cigarro dos lábios.

"Sabes que eu não gosto que fumes."

Ele olhou para a minha mão, para o cigarro, e depois para mim. A sua expressão era indecifrável.

"Algumas coisas nunca mudam, não é, Juliette?"

Ele pegou no cigarro de volta e deu uma longa passa, antes de o apagar no cinzeiro. Depois, virou-me as costas e foi-se embora, deixando-me sozinha com a sua mãe e o eco das suas palavras.

Naquela noite, fui para o Bairro Alto. Precisava de barulho, de música, de gente. Precisava de esquecer a dor que me consumia. O Fado que saía das tascas parecia contar a minha própria história de amor e perda.

Entrei num bar apinhado, o cheiro a álcool e suor no ar. Pedi uma ginjinha e virei-a de um só trago. O licor doce e forte queimou-me a garganta.

"Juliette, meu amor."

Virei-me e vi-o. Tiago. Um estudante de Belas-Artes que eu tinha ajudado. Um erro de julgamento. Ele parecia-se tanto com um Leonel mais novo, mais inocente. Era por isso que o tinha ajudado, para tentar preencher o vazio que Leonel deixara. Mas Tiago tinha-se tornado um problema, viciado em apostas online, sempre a pedir mais dinheiro.

"O que queres, Tiago?"

"Só um pouco mais, Juliette. Estou quase a ganhar o grande prémio. Depois pago-te tudo de volta, prometo."

A sua voz era melosa, mas os seus olhos eram gananciosos. Ele era um parasita. E eu estava cansada de ser a sua hospedeira.

"Acabou, Tiago. Não há mais dinheiro."

Peguei na minha bebida e, num movimento deliberado, derramei-a sobre a cabeça dele. O líquido escuro escorreu-lhe pelo cabelo e pela cara. O bar ficou em silêncio. Todos olhavam para nós.

"Fica longe de mim," disse eu, a minha voz fria como o gelo.

Tirei uma nota de cinquenta euros da carteira e atirei-a para a poça de bebida aos pés dele.

"Para a lavandaria."

Ouvi os murmúrios à minha volta. "É a Juliette Dixon, a artista. Dizem que ela é louca por homens que se parecem com o meio-irmão dela." "Coitado do rapaz, ela só o está a usar."

Eu não me importava. Deixei que pensassem o que quisessem. A minha reputação já estava manchada.

Saí do bar e senti o ar frio da noite no meu rosto. Olhei para cima, para as varandas dos prédios antigos. E então, vi-o.

Leonel.

Ele estava numa varanda do outro lado da rua, a olhar diretamente para mim. Tinha uma mulher ao seu lado, loira e elegante. Sofia. A noiva dele. Ele disse algo ao ouvido dela, e ambos riram. A sua expressão era de puro desprezo enquanto olhava para a cena que eu tinha acabado de protagonizar. Ele tinha visto tudo. E tinha confirmado a pior opinião sobre mim.

Perfeito. Era exatamente disto que eu precisava.

Capítulo 2

Atravessei a rua, ignorando os carros que buzinavam. Entrei no prédio e subi as escadas a correr, o meu coração a bater descontroladamente. Encontrei o apartamento. A porta estava entreaberta.

Empurrei-a e entrei. A sala estava cheia de gente, uma festa privada. Leonel estava no centro, a rir com um grupo de amigos. Sofia estava agarrada ao braço dele.

"Saiam todos," disse eu, a minha voz soando mais alta e firme do que eu esperava.

As conversas pararam. Todos se viraram para me olhar.

"Juliette, o que pensas que estás a fazer?" Leonel perguntou, a sua voz perigosamente calma.

"Eu disse para saírem," repeti, olhando para cada uma das pessoas na sala. "A festa acabou."

As pessoas começaram a sair, desconfortáveis. Sofia lançou-me um olhar venenoso antes de ser arrastada para fora por uma amiga. Em breve, estávamos apenas eu e Leonel na sala.

"Ficaste louca?" ele sibilou.

"Talvez," respondi, aproximando-me dele. Tirei o meu telemóvel do bolso e abri um vídeo. Era antigo, de há muitos anos. Nós os dois, na cama, jovens e apaixonados. A imagem era explícita.

"Lembras-te disto, Leonel?"

Ele olhou para o ecrã, o seu rosto uma máscara impenetrável.

"O que queres?"

"Quero dois meses. Os últimos dois meses antes do teu casamento. Quero que os passes comigo."

Ele riu, um som oco e sem alegria. "Estás a chantagear-me?"

"Chama-lhe o que quiseres. Dois meses. É tudo o que peço. Depois, desapareço da tua vida para sempre."

Ele olhou para mim por um longo momento, os seus olhos a perscrutarem o meu rosto. Eu esperava que ele explodisse, que me insultasse, que me mandasse embora. Em vez disso, ele deu de ombros.

"Está bem. Dois meses."

A sua aceitação apanhou-me de surpresa. Mas o desdém na sua voz era claro. Para ele, isto era apenas um jogo irritante. Para mim, era a minha vida.

Ele levou-me para casa no seu carro de luxo. O silêncio era pesado. Estendi a mão e toquei-lhe na coxa. Ele não se moveu.

"Ainda me desejas, Leonel?" sussurrei, a minha mão a subir lentamente.

"Tu és insaciável, não és, Juliette? Sempre a precisar da atenção de alguém," ele disse, a sua voz a pingar desprezo.

A sua mão agarrou a minha, impedindo o meu avanço. E nesse momento, uma dor aguda atravessou a minha cabeça. Fechei os olhos com força, tentando não gemer. O tumor. Ele estava a lembrar-me da sua presença.

"O que se passa?" ele perguntou, notando a minha reação.

"Nada," menti, afastando a minha mão. "Só uma dor de cabeça."

Ele não pareceu acreditar, mas não insistiu. Olhou para mim com desconfiança, como se eu estivesse a encenar mais um dos meus dramas.

"És sempre tão cheia de truques."

A sua frieza era como um murro no estômago. Eu não podia dizer-lhe a verdade. Ele não acreditaria. E mesmo que acreditasse, eu não queria a sua pena. Eu queria o seu amor.

O meu telemóvel tocou. Era a minha mãe, Helena.

"Juliette, querida! O Leonel está contigo? O pai dele quer dar um jantar de família para celebrar o regresso dele. Amanhã à noite. Não te atrevas a faltar!"

A voz dela era artificialmente doce. A minha mãe. Sempre mais preocupada com as aparências do que com a própria filha.

"Está bem, mãe. Nós vamos."

Desliguei. Leonel olhou para mim.

"Jantar de família? A sério?"

"Temos de manter as aparências, não é, irmão?"

O jantar foi tão tenso como eu esperava. A minha mãe e o pai de Leonel tentavam desesperadamente projetar uma imagem de família feliz e unida. Leonel ignorava-os a maior parte do tempo, respondendo com monossílabos.

A minha mãe colocou um prato de camarões à minha frente. "Come, querida. Estão deliciosos."

Eu sou alérgica a marisco. Uma alergia grave. Antes que eu pudesse dizer alguma coisa, a mão de Leonel disparou e tirou o prato da minha frente.

"Ela é alérgica," disse ele, a sua voz ríspida.

A minha mãe pareceu surpreendida. "Oh. Esqueci-me."

Claro que se esqueceu. Ela nunca se lembrava de nada que me dissesse respeito. Mas ele. Ele lembrava-se. Um pequeno detalhe, mas para mim, significava o mundo. Uma pequena fenda na sua armadura de gelo.

"Juliette, tenho um ótimo partido para te apresentar," disse a minha mãe, mudando de assunto. "O filho do Dr. Almeida. Um rapaz tão bom. Já chega desta tua reputação de festeira. Precisas de assentar."

Olhei para Leonel. Ele estava a olhar para o seu telemóvel, a sorrir para uma mensagem. Provavelmente de Sofia. A dor voltou, aguda e lancinante.

"Está bem, mãe," disse eu, a minha voz vazia. "Marca o encontro."

Qualquer coisa para não pensar nele, para não sentir esta dor.

Depois do jantar, Leonel levou-me para casa. A tensão no carro era palpável. Ele parou em frente ao meu prédio, mas não desligou o motor.

"Então, vais mesmo sair com o filho do médico?" ele perguntou, a sua voz com um tom estranho.

"Porque te importas?" retorqui. "Não és tu que te vais casar?"

Ele não respondeu. Apenas me olhou, e a tensão entre nós tornou-se quase insuportável.

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