Sinto o suor escorrendo pelo meu rosto, trilhando um caminho da minha testa até o meu queixo. O esforço que faço para me concentrar é extremo demais, meu corpo quase não aguenta. Minhas mãos se torcem tentando conjurar o feitiço.
Escuto minha mãe suspirar atrás de mim e isso me desestabiliza o suficiente para o feitiço todo se desfazer na nossa frente. Abaixo a cabeça com tristeza, odiava ter aulas de feitiços!
- Morgana - minha mãe me chama com a voz pesada demais. - É um simples feitiço de crescimento, que está acontecendo?!
- Eu não sei, mamãe. Desculpa - minha voz sai em um murmuro.
Minha mãe toca em minhas costas e eu me seguro para não tremer em resposta.
- Fale para fora, filha - ela me adverte e levante meu rosto me obrigando a encara-la. - Uma mulher tem sempre que se impor, não importa como, onde ou com quem. Entendeu?
- Sim, mamãe - concordo. Tento mante meus olhos firmes aos seu olhar de líder.
- Agora vá e chame a sua irmã - ela ordena e solta o meu queixo. Suspiro aliviada e me apresso para sair da sala de estudos.
No corredor extenso da nossa casa minha irmã mais velha, Monique aguarda ansiosa para entrar.
- Como é que foi? - Monique pergunta preocupada, eu simplesmente dou de ombros. - Você só precisa praticar um pouco mais.
- Acho que nunca vou ser boa nisso - digo com insegurança.
- Não se preocupe, é tudo questão de tempo - ela me encoraja antes de entrar na sala.
- Assim eu espero - murmuro para mim mesma.
Os primeiros raios do sol entram no meu quarto através da brecha da cortina vermelha pesada. Estou acordada, porém desejando poder ficar um pouco mais na cama. Estamos no outono e a temperatura já está fria o suficiente para que o calor das cobertas seja confortável demais para querer sair.
Me encolho um pouco mais debaixo das cobertas e fico encarando a parede de pedra do meu quarto, observo as anotações que fiz do grimório, os símbolos que rodeiam toda a nossa casa para proteção. Sempre que encaro essa parede do meu quarto eu fico esperando que os símbolos e as anotações simplesmente ganhem vida e venham até mim, como se eles pudessem me falar o que eu tenho feito de errado.
É uma espera inútil e totalmente vergonhosa, sei disso. Entretanto, falta poucos menos de dois meses para eu fazer dezessete anos, meu tempo como aluna de nível secundário está acabando. Se eu não evoluir o suficiente o meu controle nos feitiços, provavelmente serei desertada da minha família e de casa.
Suspiro alto com os pensamentos ansioso que avassalam a minha mente. Viro para o outro lado da cama, querendo ignorar a minha frustração com a parede que não me ajuda. Escuto algo bater na minha janela, é sutil e quase não faz barulho. Giro minha cabeça para encarar a janela, mais uma vez escuto o barulho e parece ser o som de algo bicando ela.
Me levanto em um salto da cama, os meus dedos dos pés encostam no tapete felpudo de pele de lobo no chão e isso não me faz reagir com tremor ao frio que invade a minha roupa de pijama. Caminho até a janela e puxo um lado da cortina um pouco para ver o que está causando esse pequeno barulho.
Meus olhos encontram o causador de tal pequeno inconveniente. É o Lucien com cascalhos nas mãos. Quando me vê na janela, seu rosto forma um sorriso e eu faço o mesmo. Ele inclina a cabeça para que eu saia, eu reviro os olhos com a sua travessura. Me afasto da janela e busco por roupas mais quentes antes de encontra-lo do lado de fora de casa. Opto por simplesmente coloca um casaco de lã por cima do pijama e retiro a calça do conjunto e visto uma calça de tecido grosso e pesado, calço minhas botas.
Antes de sair verifico meu rosto no espelho que está pendurado na porta. Meu cabelo ruivo acobreado escuro está com ondas e meu rosto está avermelhado por causa do frio da manhã.
- Vai ter que servir, afinal é apenas o Lucien - declaro para mim mesma.
Abro a porta com cautela, mamãe não gosta muito do Lucien. Diz que minha amizade com um aprendiz de combate não me faz bem. Acredito que ela preferia na verdade um aprendiz de combate de nome renomado e Lucien não carrega tal nome.
Caminho na ponta dos pés pelo corredor de casa, passo pelas portas dos quartos de mamãe e de minhas irmãs. O corredor sempre parece maior quando quero fugir sem ser percebida, como se fosse magia. Meus dedos dos pés tentam manter total equilíbrio enquanto coloco todo o meu peso, que não é muito, em cima deles.
Desço as escadas pulando alguns degraus. O chão de madeira da sala range quando piso nele e com o silêncio gigante da casa dorminhoca, isso faz parecer um grito e eu me encolho quando o ouço. Paro por um instante só para ter certeza que ninguém mais ouviu, principalmente mamãe.
Ando apressada para a saída do fundo da casa, onde sei que Lucien está me esperando. Atravesso a sala e a cozinha, entro no corredor da dispensa e finalmente saio. O vento do outono me abraça e me causa rápidos arrepios e meu cabelo voa para trás, o ar puro do campo também me cumprimenta e é um cheiro maravilhoso. Meus pés mesmo dentro das botas sente o chão macio da grama.
O nossos quintal é protegido por uma barreira de árvores altas e grandes, algumas frutíferas. Meus olhos deslumbram os cabelos escuros do Lucien atrás de uma delas, ele está de costas para mim e eu me apresso para encontra-lo. Quando chego perto dele, consigo sentir o seu cheiro único, é uma mistura de aço com suor, não sei como é possível aços terem cheiros, mas sempre que sinto o cheiro de Lucien, é esse o cheiro que me remete a ele. Consigo ver mais de perto que ele está com os cabelos bagunçados e à pela um pouco suja de carvão, principalmente na testa e pescoço.
- Não me diga que está fugindo da sua aula na ferraria, Lucien - eu sussurro perto do seu ouvido com humor. Ele se vira e ri para mim, suas mãos também estão com fuligem.
- Passei a madrugada inteira tentando forjar minha adaga - ele responde orgulhoso. - Logo mais eu vou estar subindo de nível, Mor.
- Pelo menos um de nós dois vai subir de nível - digo frustrada.
Nós dois começamos a caminhar para mais longe de casa, passando pelas árvores. Lucien é mais alto do que eu e também mais velho, um ano e meio mais velho. Somos amigos desde de sempre praticamente, íamos para a escola de assuntos mundanos pelo mesmo caminho e foi assim que viramos amigos.
Lucien me encara com seus olhos azuis cintilantes e franze o cenho.
- Ainda com problemas com os feitiços? - ele pergunta e se aproxima um pouco mais enquanto caminhamos. O calor dele me conforta e fico tentada a segurar sua mão na minha.
- Eu devo ter nascido com dislexia para magia - respondo tentando amenizar minha própria frustração sobre o assunto. - É como se os símbolos e as palavras não fizessem sentido na minha cabeça.
Ele ri e encosta o ombro no meu, me empurrando de leve. Nós dois vamos subindo um morro até chegarmos em uma campina alta, a gente se sente e fico encarando a paisagem das casas junto com a natureza envolta.
Vivemos em um lugar praticamente escondido e isolado. Afinal, magia já não é bem vista a milhares de anos, o mundo lá fora nos massacrou mais de uma vez e agora deixamos que ele pense que não existem mais pessoas com magia nas veias.
- Mor, você vai conseguir - Lucien me incentiva. - Você só fica pensando demais por causa da sua mãe. É muita pressão.
Eu me deito na grama e suspiro alto. O céu começa a ganhar mais claridade com o avanço do sol e a temperatura até parece melhor, entretanto a grama está úmida por causa do sereno ainda.
- Ser a filha da minha mãe não é fácil - respondo com um gemido descontente.
- Imagino. Ser filha da sua mãe e ela ainda ser a Jacqueline Consangrius, a matriarca de umas das maiores casas de feiticeiros, não é pouca coisa. Não consigo imaginar a pressão que isso coloca em você.
- Você já imaginou como seria a nossa vida longe daqui? - pergunto ao Lucien. Ele está deitado ao meu lado. O sol já iluminou praticamente o nossa terra inteira, logo mais preciso voltar para casa e ele também.
- O tempo inteiro - ele suspira ao falar. - Gostaria de conhecer outros lugares, navegar pelos mares. Imagino se todas as cidades são iguais, se os outros reinos são como o nosso.
- Eu queria poder conhecer o mundo humano - confesso. Lucien se vira para mim e fica deitado de lado, sua mão apoia a cabeça levantada e ele me encara.
Eu imito sua pose e lhe observo. Lucien tem os cabelos castanhos, o rosto é acentuado no queixo e maxilar, o seu nariz é estreito. Ele está tentando deixar a barba crescer porém ele não tem tanta puberdade assim ainda, seu corpo não é esguio igual o meu, a puberdade também não está me favorecendo até agora. Por ser um feiticeiro guerreiro, seu corpo já ganha forma para combate, seus músculos ainda joviais estão se formando. Os seus lábios são carnudos e ele tem um belo sorriso.
- Por que você gostaria de ir até lá? Eles provavelmente lhe matariam - Lucien responde agitado.
- Eu não sei, apenas porque aqui é sempre a mesma coisa - argumento um pouco pessimista. - Queria entender como eles podem viver sem magia.
- Provavelmente eles morrem de tédio - ele contra-ataca com humor.
- Como se você não ficasse com tédio também, mesmo tendo magia - brinco.
- Isso é algo totalmente diferente, a minha magia só me serve em tempos de combate. Sem isso, eu sou apenas...
- Mundano sem graça - lhe provoco.
- Hahaha muito engraçado, diz a garota que também não consegue mexer com magia direito - ele retruca e cutuca minhas costelas me fazendo rir e me contorcer na grama com as cocegas.
Lucien continua a me cutucar, me causando gargalhadas. Eu tento empurra-lo para longe, porém acabamos por rolar um pouco o morro até a gente parar na metade da inclinação. Ele fica por cima de mim, seu corpo pesado pressiona o meu contra a grama, eu ainda estou rindo quando sinto seu rosto próximo ao meu. Ele também está rindo e aos poucos a risada vai diminuindo, sinto a respiração dele contra o meu rosto, o seu cheiro agora se misturou com a da grama ainda úmida.
O tempo pareceu pausar por alguns segundos, meu coração palpita rápido em meu peito e eu fico corada mais ainda ao perceber o quanto estamos próximos.
- Eu preciso ir pra casa - digo baixinho, meus olhos percorrem os lábios do Lucien que estão entreabertos.
Ele se levanta em um pulo, eu fico deitada mais alguns segundos encarando o mesmo ponto de antes, porém sem o Lucien no ponto de visão. Meu coração palpita cada vez mais rápido e eu consigo sentir meu sangue ir todo para as minhas bochechas. Lucien estende a mão e eu a seguro para levantar.
- Não podemos deixar a sua mãe lhe esperando, não é? - ele brinca. O momento de segundos atrás se desmancha e voltamos ao normal.
- Ela pode acabar me transformando em um relógio e você em um sapo - respondo rindo. - A gente se vê depois, Lucien.
- Até mais, Mor - ele se despende e me dê um rápido beijo na bochecha.
Um ato costumeiro entre nós, mas que me causa algo diferente dessa vez. Acabo por abrir um sorriso curto quando termino de sentir o toque dos lábios dele em minha pele. Ele se afasta correndo pela colina, eu o observo enquanto vou devagar.
Meus passos são arrastado mesmo sabendo que eu deveria me apressar para chegar em casa. Sei que mamãe provavelmente já levantou e deve estar bufando pelas ventas sobre os treinamentos de hoje.
Vivemos em uma cidade consideravelmente pequena, pelo menos ao meu ver. Nossa família, os Consangrius, somos um dos pilares da comunidade, por isso acho tudo tão sem graça. A maior parte do meu tempo estou estudando feitiços ou então aprendendo etiqueta e diplomacia. Mamãe quer que todas as suas filhas sejam poderosas e respeitadas, pelo bem da família.
Somo uma das cinco famílias milenárias fundadoras. Foram essas cinco famílias que lutaram a muito tempo atrás contra a perseguição dos mundanos contra nós feiticeiros. Após a guerra que quase devastou praticamente todos os feiticeiros, foram as famílias milenárias que criaram um novo lugar para nós, longe do mundo humanos. E assim foi criados o Reino das Casas, cada família governa o nosso mundo mágico e todo ano há uma confraternização onde os lideres decidem o que fazer sobre o nosso povo.
Entre nós ainda ocorre conflitos políticos e intrigas. Alguns querem voltar para o mundo humano, outros acreditam em mil e uma profecias que nunca parecem de fato perto de serem compridas. E há a minha família, os Consangrius comandado por minha mãe.
Meu pai, bem... eu não sei muito o que houve com ele, mamãe não fala muito e minhas irmãs mais velhas também não. Tenho poucas lembranças dele para sentir sequer falta dele. Não me pergunto se ele está morto ou vivo porque dentro de casa agimos como se na realidade nunca existiu um pai aqui, minha mãe teve todas nós sozinha, milagrosamente.
Talvez por isso mamãe é tão severa conosco. Ela busca garantir que todas nós nunca tenhamos que ficar à mercê da vontade de um homem, que a verdadeira magia vem de nós, das verdadeiras carregadoras de vida. "Nós damos vida e isso é a magia mais poderosa de todas, nós somos a origem dos feitiços, não eles." ela diz em nossas lições.
Escuto o barulho de movimentação na cozinha. Todas já estão de pé. Respiro fundo e limpo as botas nos degraus de fora antes de entrar no corredor da dispensa e virar para dentro da cozinha.
Olho ao redor e todas estão ao redor da mesa já aproveitando o café da manhã. Mamãe, Jasmine a primogênita, Monique e Hera, nossa governanta e melhor amiga de mamãe, praticamente criou todas nós junto com mamãe.
- Querida, por onde você andou? - mamãe pergunta animada e isso me surpreende.
- Apenas quis fazer uma caminhada e meditar na natureza antes do café - minto enquanto começo a preparar um prato.
Nossa mesa cumprida é farta. Há pãezinhos com queijo, pãezinhos doces e outros com recheios de carne, o cheiro de chá, café e suco se misturam, junto com as frutas frescas e outros condimentos na mesa. Eu pego um pedaço ou fatia de cada coisa e uma xícara de chá. Acabo me sentando ao lado da Jasmine que está concentrada demais em um artigo sobre as fronteiras dos reinados.
- Muito bem, filha - mamãe me encoraja. - Talvez um retiro antes do seu aniversário seja uma opção. Você precisa se conectar mais com o seus poderes.
- Sim, mamãe - concordo antes de enfiar uma fatia de presunto na boca.