No dia do meu aniversário de vinte e cinco anos, descobri que meu namorado de sete anos e minha melhor amiga estavam tendo um caso.
Eles me deram colares iguais - um mar e uma montanha - o mesmo conjunto que eu tinha escolhido para ele como símbolo do nosso amor. Foi a confissão silenciosa deles, a confirmação da traição que eu acabara de testemunhar.
Mais tarde naquela noite, minha melhor amiga foi atacada. Corri para o lado dela, apenas para ser recebida pela fúria do meu namorado. Ele me acusou de ser egoísta e de ter me atrasado, depois terminou comigo, me deixando sozinha e sangrando na neve depois que cuspi sangue por causa do meu câncer de pulmão terminal.
Ele não viu o sangue. Ele não sabia que eu estava morrendo. Ele apenas me viu como um inconveniente.
Meu mundo desmoronou. Eu estava escondendo minha doença para poupá-los da dor, apenas para descobrir que eles estavam construindo a felicidade deles sobre o meu sofrimento silencioso.
Recebi a ligação dele do hospital, não por preocupação comigo, mas porque ele tinha acabado de descobrir a verdade sobre o meu câncer. Ele chegou tarde demais.
Eu já estava em um avião para Curitiba, tendo enviado minha mensagem final: "Eu amo vocês dois. Sempre. Encontrem a felicidade de vocês. Eu vou ficar bem." Este foi meu último presente para eles - a liberdade deles, comprada com a minha vida.
Capítulo 1
Alícia Lacerda (Ponto de Vista)
A chuva batia contra a janela, um tamborilar implacável contra meu peito já dolorido. Tracei a condensação com um dedo trêmulo, cada respiração um esforço superficial e doloroso. Eu sabia que era meu câncer de pulmão, me consumindo, mas esta noite, o pavor gelado não tinha nada a ver com meu corpo falhando. Era sobre algo muito mais insidioso, algo que parecia uma traição à minha própria alma.
Eu os vi pela porta da cozinha, suas sombras dançando na parede, entrelaçadas e impossivelmente próximas. Caio, meu namorado de sete anos, e Camila, minha melhor amiga, minha irmã. A risada deles, suave e íntima, atravessou a tempestade lá fora e se alojou na minha garganta. Fechei os olhos com força, uma onda de náusea me invadindo, mas a imagem já estava gravada em minha mente. A mão de Caio, tão familiar, roçando a bochecha de Camila. Meu estômago se contraiu.
Meu aniversário de vinte e cinco anos. Um marco que eu não tinha certeza se alcançaria. E este era o meu presente.
Observei enquanto Camila se inclinava, sussurrando algo no ouvido de Caio. Ele sorriu, um sorriso genuíno e desprotegido que eu não via direcionado a mim há meses. Então, ela se afastou um pouco, e um brilho de metal captou a luz fraca da sala de estar. Era um colar. Uma corrente de prata delicada, com um pequeno pingente de onda perfeitamente esculpido. Meu coração despencou. Eu conhecia aquele colar.
Era metade do conjunto "mar e montanha" que eu havia escolhido para Caio semanas atrás. Ele me disse que adorou, o conceito de duas metades completando um todo, representando nosso vínculo duradouro. Nosso vínculo.
Lembrei-me do dia em que o comprei. Foi em uma pequena joalheria de bairro, escondida em uma rua lateral em Pinheiros. Passei horas me angustiando com o presente perfeito para nosso aniversário de sete anos - um presente que se tornou meu presente de aniversário, pois ele disse que nosso amor era eterno, transcendendo datas. Ele beijou minha testa então, seus olhos cheios de um calor que agora parecia uma memória distante. Ele prometeu que guardaria a metade da montanha, sempre perto do coração, assim como eu guardaria o mar. Ele disse que era nosso símbolo. Uma promessa silenciosa entre nós, nosso futuro entrelaçado.
Mas agora, o mar estava no pescoço de Camila. E a montanha? Eu sabia onde estaria.
Meu peito se apertou, uma dor aguda e lancinante que não era apenas o câncer. Era mais fria, mais profunda. Uma traição que cortava cada camada da minha paz cuidadosamente construída. Como eles puderam? Como ela pôde? Camila, que tinha sido minha rocha desde que éramos crianças em um orfanato, que jurou me proteger de tudo. Ela era minha defensora mais feroz, minha única família.
Uma leve vibração veio do meu bolso. Era o lembrete para o meu próximo tratamento de câncer, um toque suave do meu celular para enfrentar minha outra batalha, mais física. A ironia era um gosto amargo na minha boca. Eu estava morrendo, silenciosamente, e eles estavam se apaixonando, tão silenciosamente quanto.
Esperei no corredor escuro, encostada na parede fria, tentando regular minha respiração. Cada minuto parecia uma hora, cada segundo uma tortura lenta. Suas vozes sussurradas, o toque suave ocasional que eu vislumbrava, tornavam o ar denso com uma verdade não dita. Meu coração batia forte, um pássaro frenético preso em uma gaiola, ameaçando explodir através das minhas costelas.
Finalmente, a voz de Caio, um pouco mais alta desta vez. "Ela vai descer a qualquer minuto."
Camila riu, um som que costumava me trazer conforto, agora como vidro quebrado. "Não quer estragar a surpresa, quer?"
Uma surpresa, de fato.
Ouvi o farfalhar de roupas, o som de ajustes cuidadosos. Eles estavam se preparando, colocando suas máscaras. Minha vez de colocar a minha. Respirei fundo e trêmula, reprimindo a tosse que ameaçava me trair. Estampei um sorriso no rosto, uma coisa frágil e quebradiça que parecia estranha em meus lábios.
Entrei na luz, minha voz, surpreendentemente firme, cortando o silêncio fabricado. "Oi, pessoal. Qual é todo esse segredo?"
A cabeça de Camila se ergueu de repente, seus olhos arregalados, um lampejo de algo - culpa? medo? - cruzando seu rosto antes que ela o substituísse por um sorriso brilhante, quase frenético. Ela correu em minha direção, envolvendo-me em um abraço que pareceu rígido e artificial.
"Alícia! Feliz aniversário, querida! Estávamos apenas preparando tudo." Sua voz estava um pouco alta demais, um pouco entusiasmada demais. Ela se afastou, as mãos ainda segurando meus ombros, o olhar perscrutando meu rosto. "Você parece um pouco pálida. Está se sentindo bem?"
A preocupação em seus olhos parecia uma ferida nova. Era o mesmo olhar que ela me dera inúmeras vezes ao longo dos anos, uma preocupação genuína que sempre nascera de um lugar de lealdade feroz. Agora, estava manchado.
"Só um pouco cansada", murmurei, forçando meu sorriso a se alargar. Evitei o olhar de Caio. Eu não queria ver a confirmação ali. "Foi um dia longo."
Caio, que estava um passo atrás, hesitante, finalmente se adiantou. Ele estendeu a mão, depois parou, a mão pairando sem jeito antes de cair ao lado do corpo. Ele pigarreou. "É, você deveria se sentar. Nós temos... presentes."
Suas palavras, geralmente tão quentes e reconfortantes, pareciam frias e distantes. Lembrei-me de um tempo, não muito tempo atrás, em que ele teria me envolvido imediatamente em seus braços, sua preocupação tangível, seu toque um bálsamo. Agora, havia um abismo entre nós, largo e aterrorizante.
Os olhos de Camila saltaram de Caio para mim, depois para o chão. Um pequeno músculo se contraiu em sua mandíbula. Ela estava tentando agir normalmente, mas a tensão era um fio desencapado na sala.
Caio manteve distância, uma barreira sutil, mas inegável. Ele parecia encolher, os ombros curvados, o olhar evitando o meu. Era uma manifestação física do espaço emocional que ele já havia criado para si mesmo.
"Estou bem", menti, minha voz mais fina do que eu pretendia. Tentei injetar um pouco de leveza, fingir que tudo estava bem. "Vamos abrir! Mal posso esperar para ver a travessura que vocês dois aprontaram."
Travessura. A palavra tinha gosto de cinzas. Eu gostaria de poder acreditar que era apenas uma travessura. Eu gostaria de poder fechar os olhos e fazer o mundo desaparecer, fazer o câncer desaparecer, fazer a traição deles desaparecer. Mas o relógio estava correndo, não apenas para a minha vida, mas para esta frágil fachada.
"A Camila tem uma surpresa para você primeiro", disse Caio, sua voz monótona. Ele apontou vagamente para a sala de estar.
O rosto de Camila se iluminou, uma alegria forçada e teatral. "Ah, você vai adorar! É algo que eu queria fazer com você há séculos, uma pequena aventura só para nós." Seus olhos brilharam, um lampejo da antiga Camila, aquela que planejava esquemas grandiosos e bobos para levantar meu ânimo.
Caio interrompeu, um toque de algo afiado em sua voz. "Não se esqueça, eu também pensei muito nisso. É um esforço conjunto." Ele encontrou o olhar de Camila. Seus olhares se cruzaram por um segundo fugaz, uma conversa silenciosa passando entre eles, um segredo compartilhado.
Eu os observei, uma dor surda se espalhando pelo meu peito. Eles eram uma unidade. Uma equipe. E eu era a estranha, a forasteira em minha própria vida. Seus sorrisos fáceis, suas brincadeiras confortáveis, era como uma dança particular para a qual eu não fui convidada. Era o tipo de conexão que Caio e eu costumávamos ter, o tipo que Camila e eu sempre compartilhamos. Agora, pertencia a eles.
"Ok, ok, vocês dois", eu disse, forçando uma risada que soou oca até para meus próprios ouvidos. "Mostrem o caminho. Estou pronta para o que quer que vocês tenham." Apertei o batente da porta, meus nós dos dedos brancos. Minhas pernas pareciam de chumbo. Cada passo era um esforço. Eu só queria que esta noite acabasse. Eu só queria escapar, correr e me esconder da verdade que estava me sufocando.
Quando me virei para segui-los, um reflexo fugaz na janela escura chamou minha atenção. Caio alcançou a mão de Camila, seus dedos se entrelaçando com os dela. Ela não se afastou. Sua cabeça repousou por um momento em seu ombro, um gesto pequeno e íntimo que dizia muito. O pingente de onda em seu pescoço brilhou.
Minha respiração falhou. Eles estavam juntos. Verdadeiramente, profundamente, nauseantemente juntos. Não era apenas um ato físico que eu tinha visto. Era uma conexão emocional, um vínculo forjado em segredos e toques suaves. Meu coração se contraiu, um nó frio e duro no meu peito. Não havia mais espaço para mim em seu mundo entrelaçado. Eu já tinha partido.
Alícia Lacerda (Ponto de Vista)
"Vamos, sua lerda!", chamei, minha voz falsamente alegre, tentando quebrar a tensão espessa que parecia pairar no ar como uma mortalha. Observei Camila enquanto ela andava um pouco rápido demais, um pouco descuidada demais, em direção à sala de estar.
Ela tropeçou. Não um tropeço gracioso, mas um solavanco de corpo inteiro que a fez cair de cara no chão. Um estalo seco ecoou no apartamento silencioso. Meu estômago revirou.
"Camila!", gritei, correndo para frente.
Ela havia caído bem ao lado da mesinha onde estava meu bolo de aniversário, suas velas ainda apagadas. O impacto fez a caixa do bolo voar e, com um baque nauseante, meu lindo e cuidadosamente escolhido bolo "sinfonia do oceano" – uma delicada confeitaria de glacê azul e branco, adornada com minúsculas conchas de açúcar – aterrissou de cabeça para baixo no tapete felpudo.
Meu bolo de aniversário. Despedaçado. Assim como todo o resto.
Ajoelhei-me ao lado dela, minhas mãos se estendendo, mas Caio foi mais rápido. Ele já estava lá, seus braços ao redor de Camila, seu rosto marcado por uma preocupação imediata e crua.
"Você está bem? Se machucou?" Sua voz estava carregada de uma ternura que enviou uma nova onda de dor através de mim. Ele nem sequer olhou para o bolo arruinado. Todo o seu foco estava nela.
Minha mão estendida parou, pairando inutilmente no ar. Ele não me viu. Ele não sentiu minha preocupação. Eu era um fantasma na minha própria sala de estar. Minha mão lentamente caiu de volta ao meu lado, sentindo-se de repente pesada, inútil.
O rosto de Camila estava pálido, mas foi o lampejo de culpa em seus olhos quando ela encontrou meu olhar que realmente me atingiu. Seus lábios se pressionaram em uma linha fina, um pedido de desculpas silencioso, talvez. Ou talvez, uma afirmação de onde suas lealdades agora estavam. O silêncio momentâneo que se seguiu foi ensurdecedor, sufocante.
Caio, ainda a embalando, finalmente olhou para mim. Sua expressão endureceu, uma estranha mistura de acusação e defensiva. "Alícia, por que você não estava prestando atenção? Você deveria ter dito a ela para ter cuidado!"
Minha respiração falhou. Minhas próprias pernas, bambas de fadiga e da dor sempre presente, mal me sustentavam. Ele estava me culpando? Pela falta de jeito dela? Senti um nó frio se formar em meu estômago. Era nisso que eu havia me tornado para ele? Um inconveniente? Um fardo? A casca frágil de uma pessoa, facilmente descartada, facilmente culpada.
Olhei para o bolo, uma bagunça triste e açucarada no chão. As intrincadas conchas de açúcar, tão amorosamente trabalhadas, estavam esmagadas, sua beleza delicada destruída. Era uma metáfora perfeita para a minha vida, para o meu relacionamento, para nós. Quebrado sem conserto.
Minha mente disparou, saltando do presente doloroso para o futuro aterrorizante. Eu estava morrendo. E tudo o que eu queria era deixar este mundo com um pingo de paz, sem o engano deles pairando pesado no ar. Eles mereciam felicidade, mesmo que fosse um com o outro. Mesmo que isso partisse meu coração. Eu não seria uma mártir, mas também não seria uma vilã.
Forcei um sorriso frágil, afastando a ardência das lágrimas. "Está tudo bem, Caio. Acidentes acontecem." Minha voz soou perturbadoramente calma, até para mim mesma. "Camila, deixe-me ver se você se arranhou em algum lugar."
Caio ainda a segurava, mas ele se moveu um pouco, permitindo-me olhar mais de perto. Peguei gentilmente a mão de Camila, examinando sua palma. Já, um pequeno corte estava começando a sangrar.
"Oh, querida, você está sangrando", eu disse, minha voz suavizando apesar do caos em meu coração. "Vamos limpar isso."
Camila puxou a mão, seus olhos arregalados e brilhantes. "Alícia, me desculpe. O bolo... seu aniversário..." Sua voz sumiu, embargada pela emoção.
"Não seja boba", eu disse, forçando um tom leve. "É só um bolo. Sério, não é nada. Só estou feliz que você não se machucou gravemente." Apertei seu braço, tentando transmitir um calor que eu não sentia. "Honestamente, estou feliz por ter vocês dois aqui. Esse é o verdadeiro presente." As palavras pareciam pesadas, cheias de significado não dito. E estou feliz que vocês estejam felizes, mesmo que não seja comigo.
Caio, nos observando, pigarreou. "Vou pegar umas toalhas de papel para o bolo. E um kit de primeiros socorros para a Camila." Ele se moveu rapidamente, quase ansioso para escapar da atmosfera sufocante.
"Não se preocupe com o bolo", chamei atrás dele, minha voz monótona. "Apenas se concentre na Camila. Eu posso limpar isso mais tarde." Eu não preciso de um bolo. Eu não preciso de mais nada agora.
Eu desejava que eles fossem felizes, de verdade. Mesmo que meu coração estivesse se partindo em um milhão de pedaços, mesmo que meu tempo estivesse se esgotando. Eu só queria que eles ficassem bem, mesmo que isso significasse meu próprio sofrimento silencioso.
Levei Camila ao banheiro, minha mão em suas costas. Sua pele parecia fria através da camisa. Acendi a luz, o brilho fluorescente forte revelando o tremor em suas mãos.
"Deixa eu pegar um antisséptico para você", eu disse, alcançando o armário de remédios.
Camila sentou-se na beirada da banheira, os ombros caídos. "Alícia, eu... eu me sinto péssima. Por tudo." Sua voz era quase um sussurro.
Parei, minha mão pairando sobre um frasco de água oxigenada. "Péssima com o quê, querida? Foi um acidente. Pedimos um bolo novo amanhã. Ou melhor ainda, vamos fazer um, como nos velhos tempos." Forcei entusiasmo em minha voz.
Ela balançou a cabeça, lágrimas brotando em seus olhos. "Não só pelo bolo. Por tudo. Eu só... eu não sei o que dizer."
Virei-me, dando-lhe um sorriso gentil e reconfortante. "Você não precisa dizer nada. Somos melhores amigas, lembra? Sempre. Você sempre será minha irmã." As palavras ficaram presas na minha garganta. Eu as dizia com cada fibra do meu ser. Ela era minha família. Mais que família. Foi ela quem me ensinou o que o amor realmente significava, muito antes de Caio aparecer. Foi ela quem me fez sentir digna dele.
Camila apenas me encarou, seu olhar nublado por lágrimas não derramadas, seus lábios tremendo. Ela não disse nada, apenas me observou com uma intensidade que falava de mil coisas não ditas.
Caio voltou, um rolo de papel toalha e um pequeno kit de primeiros socorros nas mãos. Ele olhou para nós, seus olhos examinando Camila, depois a mim. Ele pigarreou novamente. "A área do bolo está limpa. Comprei um novo para você, Alícia. É um simples de baunilha, mas pelo menos está inteiro." Ele gesticulou vagamente em direção à cozinha.
Um bolo novo. Um simples de baunilha. Meu coração se torceu. A sinfonia do oceano se foi, substituída por algo simples, comum. Assim como minha vida havia se tornado.
Voltamos para a sala de estar, a memória do bolo arruinado rapidamente varrida, física e emocionalmente. Caio colocou a pequena caixa de bolo branca na mesa de centro. O ar ainda estava denso com palavras não ditas, mas agora, uma fina camada de celebração forçada o cobria.
"Feliz aniversário, Alícia!", disse Camila, colocando os braços ao meu redor, puxando-me para um abraço apertado. Ela beijou minha bochecha, seus lábios frios. "Faça um pedido."
Fechei os olhos, o calor familiar de seu abraço um estranho conforto. Desejo a eles felicidade. Desejo a eles uma vida juntos, livre de culpa, livre do fardo de mim. E desejo um fim pacífico.
Quando abri os olhos, Camila ainda estava sorrindo, um pouco brilhante demais. Ela me puxou em direção à mesa de centro. "Ok, primeiro os presentes!", ela chilreou. Ela pegou uma pequena caixa elegantemente embrulhada, colocando-a em minhas mãos. "Este é meu!"
Peguei a caixa, meus dedos roçando o papel frio. Olhei para Caio, que estava um pouco afastado, o olhar fixo em Camila. Ele a observava, não a mim, seus olhos cheios de uma intensidade que fez meu peito apertar. Meu coração doía, uma batida familiar e surda. Ele a vê. Apenas ela. A percepção me atingiu novamente, fresca e afiada.
"Abra o meu primeiro!", disse Caio, dando um passo à frente, um tom competitivo em sua voz. Ele pegou outra caixa, quase idêntica em tamanho e embrulho à de Camila. "Não, o meu! Passei séculos escolhendo!"
Camila o empurrou de brincadeira. "De jeito nenhum! As damas primeiro! Além disso, o meu é melhor!"
Eles discutiram, uma troca leve e provocadora que enviou uma nova onda de náusea através de mim. Era tão fácil para eles, essa dinâmica lúdica, essa conexão natural. Era tudo o que Caio e eu costumávamos ser. Tudo o que Camila e eu costumávamos ser.
"Tudo bem, tudo bem, vocês dois", eu disse, minha voz cansada. "Vamos abrir os dois ao mesmo tempo, assim não há favoritismo." Segurei as duas caixas, forçando um sorriso que parecia que ia rachar meu rosto.
Rasguei o intrincado papel de embrulho de ambos, meus dedos um pouco desajeitados. Duas pequenas caixas de veludo estavam aninhadas dentro. Abri a de Camila primeiro. Dentro, em uma cama de cetim branco, havia uma delicada corrente de prata. Preso a ela, um pequeno e intrincado pingente: uma onda do oceano perfeitamente esculpida, sua crista brilhando com pequenos diamantes quase imperceptíveis.
Minha respiração ficou presa. Minha mão tremeu quando a alcancei.
Então abri a caixa de Caio. A mesma corrente de prata delicada. E nela, um pingente em forma de uma majestosa cordilheira, seus picos polvilhados com os mesmos pequenos e brilhantes diamantes.
A sala ficou em silêncio. Minhas mãos, segurando os dois pingentes, congelaram. Os olhos de Caio estavam arregalados, fixos nas joias combinando. O rosto de Camila perdeu a cor, sua mandíbula frouxa. O ar crepitou com uma verdade tão alta que gritava.
Alícia Lacerda (Ponto de Vista)
Os dois pingentes repousavam em minhas mãos trêmulas, testemunhas silenciosas de uma traição que parecia um soco no estômago. A onda de prata de Camila, a montanha de prata de Caio. Idênticos em estilo, design, até os minúsculos e brilhantes diamantes. Não eram apenas presentes; eram metades de um todo, projetadas para se entrelaçar, para pertencerem uma à outra. Mar e montanha, para sempre conectados. Era o mesmo design que eu havia escolhido para Caio semanas atrás, um símbolo do nosso amor duradouro. Agora, era inegavelmente deles.
O rosto de Camila era uma máscara de pânico, seus olhos saltando dos colares para Caio, depois para mim, suplicantes. Seus lábios se moveram, mas nenhum som saiu.
Senti uma calma fria descer sobre mim, um desapego estranho e aterrorizante. Minha voz, quando saiu, estava surpreendentemente firme, um pouco brilhante demais. "Meu Deus! Que coincidência! Vocês dois têm um gosto tão parecido!" Forcei uma risada, um som frágil e agudo que não alcançou meus olhos. "São absolutamente lindos. E com um tema tão perfeito juntos!"
Peguei cuidadosamente o pingente de onda de sua caixa e o prendi em volta do meu pescoço. Então, com um floreio exagerado, peguei o pingente de montanha e, apesar do nó sufocante na minha garganta, o coloquei por cima da onda. Dois símbolos, agora repousando em meu peito, um peso pesado contra meu coração falho.
"Viram?", chilreei, minha voz ainda perturbadoramente alegre. "Ficam perfeitos juntos! É como se vocês dois soubessem exatamente o que eu queria. Muito obrigada a ambos." Até mandei um beijo para eles, uma tentativa desesperada e patética de manter a ilusão de felicidade.
Peguei meu celular, forçando-me a sorrir para uma selfie, os dois colares brilhando na minha clavícula. "Ok, todo mundo sorrindo! Foto de aniversário!" O flash disparou, nos cegando momentaneamente, capturando um momento de alegria forçada que era tudo menos isso.
O ar na sala permaneceu denso, pesado, apesar de minhas tentativas desesperadas de aliviá-lo. A tensão era uma coisa palpável, um cobertor sufocante. A mandíbula de Caio estava cerrada, um músculo trabalhando furiosamente. Seus olhos estavam escuros, cheios de uma mistura de culpa e algo mais que eu não conseguia decifrar - medo, talvez, do que eu sabia, ou do que eu faria.
Camila, sempre rápida no raciocínio, embora claramente perturbada, pigarreou. "Bem, sabe, grandes mentes pensam igual! Eu estava dizendo ao Caio o quanto você amava o oceano, e ele deve ter... pegado o tema também." Sua explicação era frágil, transparente, mas ela se agarrou a ela como a uma tábua de salvação.
Caio apenas assentiu, o olhar fixo na mesa, não oferecendo mais explicações, nem mais mentiras. Seu silêncio era um grito. Ele a deixou carregar o peso do engano deles sozinha. Meu coração doeu, não apenas pela traição, mas pela fraqueza que vi nele.
Minha mente girava, um turbilhão de dor e confusão. Estava confirmado. Inegável. Eles não estavam apenas emocionalmente envolvidos; estavam entrelaçados, suas vidas, seus presentes, seus segredos. E eu, sem saber, me tornei o fio que os unia. A percepção foi uma pedra fria e dura no meu estômago.
"Bem, isso pede um brinde, não é?", declarei, minha voz ainda anormalmente brilhante. Peguei uma garrafa de espumante do cooler, minhas mãos tremendo apenas um pouco. "Aos vinte e cinco! E à... amizade." A última palavra foi um eco amargo.
Servi três taças, as bolhas borbulhando alegremente, um contraste gritante com o desespero borbulhando dentro de mim. Bebi profundamente, deixando a queimação aguda do álcool cortar a dor crua em meu peito. Eu queria não sentir nada. Eu queria afogar a traição, o câncer, a realidade estilhaçante da minha vida, em um mar de esquecimento feliz.
Camila, talvez tentando acompanhar meu ritmo ou escapar de sua própria culpa, bebeu com a mesma avidez. Logo, sua energia normalmente ardente começou a diminuir, substituída por uma fala ligeiramente arrastada e pálpebras pesadas. Ela foi a primeira a sucumbir. Sua cabeça pendeu para o lado, então ela desabou nas almofadas do sofá, um murmúrio suave e incoerente escapando de seus lábios.
"...Caio... sempre soube... que você seria bom para ela... para mim..." Suas palavras se perderam, perdidas nas profundezas de seu sono bêbado.
Meu coração se apertou. Eu queria perguntar a ela o que ela queria dizer. Bom para quem? O que ela sabia? Mas minha garganta estava apertada, sufocada por lágrimas não derramadas. Eu não conseguia falar. Eu não conseguia me mover.
Caio, com uma facilidade praticada que fez meu estômago revirar, levantou Camila gentilmente. Ele a pegou sem esforço, a cabeça dela repousando em seu ombro, o braço dela frouxamente pendurado em seu pescoço. Era um abraço familiar e íntimo. Um que ele uma vez reservara para mim.
"Vou levá-la para o quarto de hóspedes", ele murmurou, sua voz suave, quase terna, enquanto olhava para Camila. Ele não encontrou meu olhar. "Ela está apagada."
Eu apenas assenti, meus olhos fixos em suas formas se afastando. Ele a carregou com cuidado, como se ela fosse feita de vidro frágil, seus passos leves e determinados. A porta se fechou com um clique, deixando-me sozinha na sala de estar silenciosa, as taças de espumante ainda brilhando na mesa, o bolo arruinado uma memória distante e esquecida.
Eles pertenciam um ao outro. Estava claro agora. A maneira como ele a segurava, a maneira como ela dizia o nome dele mesmo dormindo. A conexão deles era inegável, uma força silenciosa me empurrando para fora de sua órbita. Eu era a relíquia, a substituta, aquela que simplesmente havia ficado tempo demais. E eu não podia lutar contra isso. Eu estava muito cansada. Muito doente. Muito quebrada.
Caminhei até a mesa de centro, pegando uma fatia do bolo de baunilha simples que Caio havia trazido. Tinha um gosto sem graça, sem inspiração, como tudo em minha vida havia se tornado. Dei uma mordida, depois a coloquei de lado, a doçura se transformando em cinzas na minha boca. Meu apetite, já diminuído pelo câncer, havia desaparecido completamente.
Retirei-me para o meu quarto, fechando a porta suavemente atrás de mim. Eu não estava fazendo as malas para deixar Caio. Eu estava fazendo as malas para um tipo diferente de jornada. Uma para a qual eu vinha me preparando, em segredo, por meses. Abri meu armário, puxando uma pequena bolsa de lona.
Enquanto começava a limpar alguns dos meus pertences antigos, minha mão roçou um compartimento escondido no fundo da gaveta da minha mesa de cabeceira. Dentro, cuidadosamente guardados, havia objetos em miniatura, símbolos de nossas memórias compartilhadas: uma pequena concha de nossa primeira viagem à praia, um telescópio em miniatura da noite em que assistimos a uma chuva de meteoros, uma flor prensada do jardim que começamos juntos. Dezenas deles, cada um um pedaço tangível de nossos sete anos.
Sorri, um sorriso genuíno e agridoce. Tivemos tantas memórias lindas, tantos sonhos compartilhados. Meu coração doeu pela pureza daquele amor, pela inocência daqueles dias. Tracei o contorno de um pequeno pássaro de madeira, um presente de Caio em nosso primeiro aniversário. Ele mesmo o havia esculpido.
Meus dedos roçaram uma linha tênue, quase invisível, nas costas do pássaro. Uma pequena escrita gravada. Meu coração martelou contra minhas costelas. Eu o virei. E então eu vi.
Não era uma falha na madeira. Era escrita. Palavras minúsculas e meticulosamente esculpidas.
Camila riu hoje. Aquela risada profunda e rouca que ilumina a sala. Alícia estava quieta, como sempre. Às vezes me pergunto o que ela está pensando.
Minha respiração falhou. Mais. Havia mais. Peguei outro item, um farol em miniatura. Palavras nas costas:
Camila me contou sobre seu sonho de abrir um orfanato. Sua paixão é incrível. Sinto uma atração por sua força, seu fogo. Alícia sempre parece tão frágil, tão delicada. Quero proteger as duas, mas de maneiras diferentes.
Minhas mãos tremiam incontrolavelmente agora. Abri outro, e depois outro. Cada um, um pequeno diário de suas afeições mutáveis. Suas queixas sobre minha natureza quieta, sua admiração pela vivacidade de Camila, sua crescente preocupação por ela, sua proteção. Seu amor.
Camila chorou hoje, falando sobre seu passado. Meu coração doeu por ela. Eu queria apenas abraçá-la, dizer a ela que tudo ficaria bem. Alícia estava dormindo. Ela sempre parece estar dormindo ultimamente.
As datas eram escalonadas, abrangendo meses, até anos. Seus sentimentos por ela não haviam florescido da noite para o dia. Eles haviam crescido, lentamente, insidiosamente, bem debaixo do meu nariz, enquanto eu estava tão focada em lutar minha própria guerra silenciosa. Cada pequena escultura, uma confissão de infidelidade emocional, um cinzel lascando meu coração.
A mais recente, esculpida há apenas alguns dias, nas costas de um pico de montanha em miniatura. A outra metade de seu presente.
Eu sei que preciso ser honesto. Não é justo com a Alícia. Eu a amo, de verdade, mas... algo mudou. Acho que estou apaixonado pela Camila. E ela... acho que ela pode sentir o mesmo. Preciso contar para a Alícia. Logo.
As palavras se borraram diante dos meus olhos. Lágrimas escorreram pelo meu rosto, quentes e ardentes. Ele ia me contar. Ele ia terminar comigo. Mas não tinha. Ainda não. Ele estava apenas esperando o momento certo. Esperando para arrancar meu coração, pedaço por pedaço doloroso.
Uma tosse súbita e violenta me atravessou, sacudindo meu corpo, me dobrando ao meio. Meus pulmões queimaram, um gosto metálico e forte enchendo minha boca. Quando o espasmo finalmente diminuiu, olhei para minha mão. Estava salpicada de sangue. Vermelho vivo, gritante contra minha pele pálida.
Limpei freneticamente, tentando esconder a evidência, tentando me recompor. Mas era tarde demais. Minha visão embaçou.
De repente, a porta se abriu com um rangido. Caio estava lá, silhuetado contra a luz fraca do corredor. "Alícia? Você está dormindo?" Sua voz era hesitante, carregada de uma estranha mistura de preocupação e algo mais... culpa?