Era a noite mais escura da minha vida.
No hospital, enquanto o médico confirmava a morte do meu pai, o meu corpo gemia a perda do meu filho.
Lá fora, Lisboa mergulhava num apagão total.
No meio do caos, liguei desesperadamente ao meu marido, João.
A voz dele, irritada, quebrou o silêncio do corredor: "O que foi, Beatriz? Estou ocupado, não vês que a cidade inteira está um caos?"
E então, ouvi-a: a voz suave e preocupada da Sofia, a ex-namorada dele, a consolar o seu gato assustado.
Eu, a sangrar, com o pai a morrer, e ele estava a aquecer o gato da ex.
Quando lhe disse que tínhamos perdido o bebé e que o meu pai partira, ele explodiu: "Perdeste o bebé? E o que é que eu podia fazer? A Sofia estava sozinha, o gato dela a morrer de frio!"
Chamou-me egoísta, por ter reclamado a sua ausência.
Egoísta? Eu que chamei a ambulância sozinha, eu que vi o meu pai cair, eu que esperei notícias ensanguentada.
A família dele ecoou-o, a minha sogra acusou-me de ingratidão.
Eu era a histérica, a ciumenta, a dramática.
Como pude ter sido tão cega?
Naquele momento, enquanto o telefone escorregava da minha mão, soube.
Soube que era o fim.
Levantei-me, com uma nova força a percorrer-me.
"Vamos divorciar-nos, João."
O médico confirmou a morte do meu pai às três da manhã, ao mesmo tempo que o meu casamento chegava ao fim.
A cidade inteira estava mergulhada na escuridão, um apagão total que ninguém previa.
Na televisão da sala de espera, um jornalista de rosto sério falava sobre a crise. "O apagão em Lisboa já dura seis horas, causando o caos. Os serviços de emergência estão sobrecarregados. O Hospital de Santa Maria funciona com geradores de emergência, mas a situação é crítica."
Eu estava sentada num banco de plástico frio, o cheiro a desinfetante a entrar-me pelas narinas.
O meu corpo ainda doía por causa do aborto espontâneo.
Tentei ligar ao meu marido, João.
O telefone chamou, uma e outra vez, um som oco no corredor silencioso do hospital.
Finalmente, ele atendeu. A sua voz estava tensa, irritada.
"O que foi, Beatriz? Estou ocupado, não vês que a cidade inteira está um caos?"
Antes que eu pudesse responder, ouvi outra voz ao fundo, uma voz que eu conhecia demasiado bem.
Era a Sofia, a ex-namorada dele.
"João, querido, o Miau não para de tremer. Achas que ele vai ficar bem? Estou tão assustada."
A voz do João suavizou-se instantaneamente, tornando-se num sussurro reconfortante.
"Calma, Sofia. Eu estou aqui. O gerador que eu trouxe vai manter as luzes acesas e o aquecedor a funcionar. O Miau só está assustado com o escuro. Vai ficar tudo bem."
Eu agarrei o telefone com força.
"João," disse eu, a minha voz a tremer. "O meu pai... ele teve um ataque cardíaco. E eu... eu perdi o bebé."
Silêncio. Apenas por um segundo.
Depois, a raiva dele explodiu através do telefone.
"Perdeste o bebé? Como assim? E o que é que eu podia fazer? Voar até aí? A Sofia estava sozinha no escuro, o gato dela estava a morrer de frio! Eu tive de a ajudar, ela não tem mais ninguém!"
"Ela não tem mais ninguém? E eu? E o meu pai? Nós não somos nada para ti?"
"Não sejas dramática, Beatriz! Tu sabes como a Sofia é sensível. Além disso, o teu pai está num hospital, rodeado de médicos! O que é que eu ia fazer lá? Deixa de ser egoísta!"
Egoísta.
Eu, que tive de chamar uma ambulância sozinha enquanto sangrava.
Eu, que vi o meu pai cair no chão, com a mão no peito.
Eu, que esperei horas por notícias, sozinha neste corredor.
Eu era a egoísta.
"Vamos divorciar-nos, João."
A minha voz saiu mais firme do que eu esperava.
Ele riu, um som feio e cruel.
"Divórcio? Estás a brincar? Vais deitar fora o nosso casamento por causa de um apagão estúpido? Cresce, Beatriz. A vida real é dura. Para de fazer birra."
Ele desligou.
Tentei ligar de volta. O número estava bloqueado.
O telefone escorregou da minha mão e caiu no chão com um baque surdo.
Olhei para a porta da unidade de cuidados intensivos.
O meu pai estava lá dentro. Morto.
O nosso bebé tinha-se ido.
E o meu marido estava a consolar a ex-namorada porque o gato dela estava com frio.
O divórcio não era uma birra.
Era uma necessidade.
O meu pai tinha uma apólice de seguro de vida.
O beneficiário era a minha mãe, falecida há dez anos. Eu era a beneficiária secundária.
O advogado, um velho amigo da família, sentou-se à minha frente no seu escritório abafado, os seus olhos cheios de pena.
"Beatriz, o teu pai deixou tudo para ti. A casa, as poupanças... e este seguro."
Ele empurrou os papéis pela mesa. O valor era substancial. O suficiente para eu nunca mais ter de me preocupar com dinheiro.
O meu pai sempre cuidou de mim.
Mesmo depois de morrer.
Uma lágrima silenciosa escorregou pela minha cara. Eu limpei-a rapidamente.
Quando saí do escritório, o sol brilhava. A cidade tinha recuperado a energia, mas a minha vida continuava às escuras.
O meu telemóvel vibrou. Era a minha sogra, a Clara.
"Beatriz? Onde é que te meteste? O João está preocupadíssimo contigo!"
Preocupado? Ele bloqueou o meu número.
"Estou a tratar das coisas do funeral do meu pai," respondi, a minha voz vazia de emoção.
Houve uma pausa.
"Ah, sim. O funeral. Que triste. Mas ouve, tens de entender o João. A Sofia estava em pânico. Ele é um bom homem, tem um coração enorme. Ele ajuda toda a gente."
Toda a gente, exceto a sua própria família.
"Ele não me atendeu o telefone, Clara. Eu estava a perder o nosso filho."
"Oh, querida, eu sei que é difícil. Mas essas coisas acontecem. Talvez não fosse para ser. Agora tens de ser forte, pelo teu marido. Ele precisa do teu apoio. A Sofia está a passar por um momento muito mau, coitadinha."
Eu não conseguia acreditar no que estava a ouvir.
A minha perda, a morte do meu pai, tudo era secundário. A prioridade era o bem-estar da Sofia.
"Eu pedi o divórcio ao João," disse eu, cortando o seu discurso.
O silêncio do outro lado da linha foi pesado, carregado de desaprovação.
"Divórcio? Depois de tudo o que o meu filho fez por ti? Tu és uma ingrata, Beatriz. Ele deu-te uma vida boa, uma família. E tu deitas tudo fora por um capricho? Vais arrepender-te disto."
Ela desligou.
Claro que ia.
Arrepender-me de não o ter feito mais cedo.
Voltei para a casa dos meus pais, a casa que agora era minha. Estava silenciosa, cheia de fantasmas.
Sentei-me no sofá velho do meu pai e comecei a fazer uma lista.
A primeira coisa na lista: contratar o melhor advogado de divórcios de Lisboa.