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O Apagão que Acendeu a Liberdade

O Apagão que Acendeu a Liberdade

Autor:: Xiao Liuzi
Gênero: Moderno
Era a noite mais escura da minha vida. No hospital, enquanto o médico confirmava a morte do meu pai, o meu corpo gemia a perda do meu filho. Lá fora, Lisboa mergulhava num apagão total. No meio do caos, liguei desesperadamente ao meu marido, João. A voz dele, irritada, quebrou o silêncio do corredor: "O que foi, Beatriz? Estou ocupado, não vês que a cidade inteira está um caos?" E então, ouvi-a: a voz suave e preocupada da Sofia, a ex-namorada dele, a consolar o seu gato assustado. Eu, a sangrar, com o pai a morrer, e ele estava a aquecer o gato da ex. Quando lhe disse que tínhamos perdido o bebé e que o meu pai partira, ele explodiu: "Perdeste o bebé? E o que é que eu podia fazer? A Sofia estava sozinha, o gato dela a morrer de frio!" Chamou-me egoísta, por ter reclamado a sua ausência. Egoísta? Eu que chamei a ambulância sozinha, eu que vi o meu pai cair, eu que esperei notícias ensanguentada. A família dele ecoou-o, a minha sogra acusou-me de ingratidão. Eu era a histérica, a ciumenta, a dramática. Como pude ter sido tão cega? Naquele momento, enquanto o telefone escorregava da minha mão, soube. Soube que era o fim. Levantei-me, com uma nova força a percorrer-me. "Vamos divorciar-nos, João."

Introdução

Era a noite mais escura da minha vida.

No hospital, enquanto o médico confirmava a morte do meu pai, o meu corpo gemia a perda do meu filho.

Lá fora, Lisboa mergulhava num apagão total.

No meio do caos, liguei desesperadamente ao meu marido, João.

A voz dele, irritada, quebrou o silêncio do corredor: "O que foi, Beatriz? Estou ocupado, não vês que a cidade inteira está um caos?"

E então, ouvi-a: a voz suave e preocupada da Sofia, a ex-namorada dele, a consolar o seu gato assustado.

Eu, a sangrar, com o pai a morrer, e ele estava a aquecer o gato da ex.

Quando lhe disse que tínhamos perdido o bebé e que o meu pai partira, ele explodiu: "Perdeste o bebé? E o que é que eu podia fazer? A Sofia estava sozinha, o gato dela a morrer de frio!"

Chamou-me egoísta, por ter reclamado a sua ausência.

Egoísta? Eu que chamei a ambulância sozinha, eu que vi o meu pai cair, eu que esperei notícias ensanguentada.

A família dele ecoou-o, a minha sogra acusou-me de ingratidão.

Eu era a histérica, a ciumenta, a dramática.

Como pude ter sido tão cega?

Naquele momento, enquanto o telefone escorregava da minha mão, soube.

Soube que era o fim.

Levantei-me, com uma nova força a percorrer-me.

"Vamos divorciar-nos, João."

Capítulo 1

O médico confirmou a morte do meu pai às três da manhã, ao mesmo tempo que o meu casamento chegava ao fim.

A cidade inteira estava mergulhada na escuridão, um apagão total que ninguém previa.

Na televisão da sala de espera, um jornalista de rosto sério falava sobre a crise. "O apagão em Lisboa já dura seis horas, causando o caos. Os serviços de emergência estão sobrecarregados. O Hospital de Santa Maria funciona com geradores de emergência, mas a situação é crítica."

Eu estava sentada num banco de plástico frio, o cheiro a desinfetante a entrar-me pelas narinas.

O meu corpo ainda doía por causa do aborto espontâneo.

Tentei ligar ao meu marido, João.

O telefone chamou, uma e outra vez, um som oco no corredor silencioso do hospital.

Finalmente, ele atendeu. A sua voz estava tensa, irritada.

"O que foi, Beatriz? Estou ocupado, não vês que a cidade inteira está um caos?"

Antes que eu pudesse responder, ouvi outra voz ao fundo, uma voz que eu conhecia demasiado bem.

Era a Sofia, a ex-namorada dele.

"João, querido, o Miau não para de tremer. Achas que ele vai ficar bem? Estou tão assustada."

A voz do João suavizou-se instantaneamente, tornando-se num sussurro reconfortante.

"Calma, Sofia. Eu estou aqui. O gerador que eu trouxe vai manter as luzes acesas e o aquecedor a funcionar. O Miau só está assustado com o escuro. Vai ficar tudo bem."

Eu agarrei o telefone com força.

"João," disse eu, a minha voz a tremer. "O meu pai... ele teve um ataque cardíaco. E eu... eu perdi o bebé."

Silêncio. Apenas por um segundo.

Depois, a raiva dele explodiu através do telefone.

"Perdeste o bebé? Como assim? E o que é que eu podia fazer? Voar até aí? A Sofia estava sozinha no escuro, o gato dela estava a morrer de frio! Eu tive de a ajudar, ela não tem mais ninguém!"

"Ela não tem mais ninguém? E eu? E o meu pai? Nós não somos nada para ti?"

"Não sejas dramática, Beatriz! Tu sabes como a Sofia é sensível. Além disso, o teu pai está num hospital, rodeado de médicos! O que é que eu ia fazer lá? Deixa de ser egoísta!"

Egoísta.

Eu, que tive de chamar uma ambulância sozinha enquanto sangrava.

Eu, que vi o meu pai cair no chão, com a mão no peito.

Eu, que esperei horas por notícias, sozinha neste corredor.

Eu era a egoísta.

"Vamos divorciar-nos, João."

A minha voz saiu mais firme do que eu esperava.

Ele riu, um som feio e cruel.

"Divórcio? Estás a brincar? Vais deitar fora o nosso casamento por causa de um apagão estúpido? Cresce, Beatriz. A vida real é dura. Para de fazer birra."

Ele desligou.

Tentei ligar de volta. O número estava bloqueado.

O telefone escorregou da minha mão e caiu no chão com um baque surdo.

Olhei para a porta da unidade de cuidados intensivos.

O meu pai estava lá dentro. Morto.

O nosso bebé tinha-se ido.

E o meu marido estava a consolar a ex-namorada porque o gato dela estava com frio.

O divórcio não era uma birra.

Era uma necessidade.

Capítulo 2

O meu pai tinha uma apólice de seguro de vida.

O beneficiário era a minha mãe, falecida há dez anos. Eu era a beneficiária secundária.

O advogado, um velho amigo da família, sentou-se à minha frente no seu escritório abafado, os seus olhos cheios de pena.

"Beatriz, o teu pai deixou tudo para ti. A casa, as poupanças... e este seguro."

Ele empurrou os papéis pela mesa. O valor era substancial. O suficiente para eu nunca mais ter de me preocupar com dinheiro.

O meu pai sempre cuidou de mim.

Mesmo depois de morrer.

Uma lágrima silenciosa escorregou pela minha cara. Eu limpei-a rapidamente.

Quando saí do escritório, o sol brilhava. A cidade tinha recuperado a energia, mas a minha vida continuava às escuras.

O meu telemóvel vibrou. Era a minha sogra, a Clara.

"Beatriz? Onde é que te meteste? O João está preocupadíssimo contigo!"

Preocupado? Ele bloqueou o meu número.

"Estou a tratar das coisas do funeral do meu pai," respondi, a minha voz vazia de emoção.

Houve uma pausa.

"Ah, sim. O funeral. Que triste. Mas ouve, tens de entender o João. A Sofia estava em pânico. Ele é um bom homem, tem um coração enorme. Ele ajuda toda a gente."

Toda a gente, exceto a sua própria família.

"Ele não me atendeu o telefone, Clara. Eu estava a perder o nosso filho."

"Oh, querida, eu sei que é difícil. Mas essas coisas acontecem. Talvez não fosse para ser. Agora tens de ser forte, pelo teu marido. Ele precisa do teu apoio. A Sofia está a passar por um momento muito mau, coitadinha."

Eu não conseguia acreditar no que estava a ouvir.

A minha perda, a morte do meu pai, tudo era secundário. A prioridade era o bem-estar da Sofia.

"Eu pedi o divórcio ao João," disse eu, cortando o seu discurso.

O silêncio do outro lado da linha foi pesado, carregado de desaprovação.

"Divórcio? Depois de tudo o que o meu filho fez por ti? Tu és uma ingrata, Beatriz. Ele deu-te uma vida boa, uma família. E tu deitas tudo fora por um capricho? Vais arrepender-te disto."

Ela desligou.

Claro que ia.

Arrepender-me de não o ter feito mais cedo.

Voltei para a casa dos meus pais, a casa que agora era minha. Estava silenciosa, cheia de fantasmas.

Sentei-me no sofá velho do meu pai e comecei a fazer uma lista.

A primeira coisa na lista: contratar o melhor advogado de divórcios de Lisboa.

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