Entreguei minha carta de demissão ao meu marido, Carlos Eduardo, encerrando sete anos sendo o gênio secreto por trás de seu império de joias.
Eu achava que estava apenas deixando um traidor, mas então descobri a verdade aterrorizante.
Minha meia-irmã, Helena, não tinha apenas roubado ele de mim; ela havia adulterado minha medicação, causando deliberadamente cada um dos meus abortos anteriores.
Quando tentei escapar, o pesadelo realmente começou.
Helena matou seu próprio poodle e me incriminou.
Para "me ensinar uma lição", Carlos me trancou em um armário escuro como breu por horas, ignorando minha claustrofobia severa.
Ele me arrastou para fora, forçou meu corpo grávido a se ajoelhar e bateu minha cabeça contra o chão de mármore até eu sangrar.
Então, ele me fez cavar a cova do cachorro com minhas próprias mãos enquanto minha mãe assistia e zombava.
Deitada na terra, quebrada e sangrando, percebi que eles achavam que estavam destruindo o herdeiro de Carlos.
Eles estavam errados.
Disquei o número do magnata bilionário que esperava nas sombras.
- Gabriel - sussurrei através dos lábios rachados. - O bebê é seu. Venha nos buscar.
Capítulo 1
A carta de demissão parecia pesar uma tonelada na minha mão, a manifestação física do fim.
Meus dedos tremiam levemente enquanto eu a colocava sobre a mesa de mogno polido, suas bordas brancas contrastando fortemente com a madeira escura.
Sete anos.
Sete anos da minha vida, comprimidos em uma única folha de papel.
- Alice, você está falando sério? - Sandra, minha colega e a única pessoa que se importava em perguntar, levantou os olhos da tela, a testa franzida de preocupação. - Você está grávida de oito meses. É um momento terrível para pedir demissão.
Não encontrei seus olhos.
Uma risada amarga ficou presa na minha garganta, um som seco e áspero que parecia estranho até para mim.
Se ela soubesse. Se alguém soubesse.
Minha mente repassou os últimos sete anos, um filme de mentiras cuidadosamente construídas e sonhos despedaçados.
Carlos Eduardo Bittencourt, CEO do Grupo Bittencourt, meu marido. Ele era charmoso, ambicioso, tudo o que eu achava que queria.
Derramei minha alma em sua empresa, desenhando as joias que mantinham seu império de pé, sempre nas sombras, sempre como "Aurora", o gênio anônimo.
Eu acreditava nele, em nós. Acreditava no futuro que estávamos construindo, mesmo através da dor das perdas repetidas.
Os abortos.
Cada um, uma pequena morte, um pedaço do meu coração arrancado.
Carlos me segurava durante eles, seus olhos cheios de uma simpatia fabricada que agora parecia uma piada cruel.
Ele me dizia que não era minha culpa, que tentaríamos de novo, suas palavras um bálsamo que acalmava as bordas vivas do meu luto, mesmo enquanto meu corpo falhava repetidamente.
Ele era tão convincente, tão perfeitamente desolado.
Eu me culpava, culpava meu corpo frágil, minha incapacidade de carregar uma criança. Os médicos não tinham respostas, apenas piedade.
Então, a verdade me atingiu com a força de um golpe físico.
Helena, minha meia-irmã, no escritório de Carlos, nos braços dele.
Seus sussurros passaram pela porta entreaberta, palavras venenosas que pintavam um quadro muito mais sinistro do que qualquer caso extraconjugal.
Helena, recontando alegremente como havia "consertado" minha medicação de fertilidade, garantindo que eu nunca produzisse um herdeiro Bittencourt.
Meus abortos não foram naturais. Foram atos deliberados e calculados de crueldade.
Meus filhos, mortos por causa dela.
A raiva que me inundou foi um fogo frio e ardente. Não apenas pela traição de Carlos, mas pelo ato monstruoso que Helena havia cometido.
Eles planejaram me tirar tudo, me deixar estéril e sozinha, e depois me descartar.
Mas eles não contavam com uma coisa: este bebê.
Esta criança, forte com oito meses, ainda segura dentro de mim. Eles não tocariam neste aqui.
Um plano se solidificou em minha mente, nítido e claro.
Eu não estava apenas indo embora. Eu ia desmantelar o mundo cuidadosamente construído deles, pedaço por pedaço agonizante.
Eu assistiria eles queimarem.
A voz de Sandra me alcançou novamente, me puxando de volta ao presente.
- Alice? Você está bem? Você está pálida.
Forcei um sorriso quebradiço.
- Estou bem, Sandra. De verdade.
Eu não a arrastaria para isso. Essa luta era minha.
Com nova determinação, levantei-me da minha mesa. Os papéis do divórcio já estavam redigidos, guardados em segurança.
Era hora do primeiro passo.
Marchei em direção ao escritório privado de Carlos, a carta de demissão apertada em minha mão, uma declaração de guerra.
Ao me aproximar, ouvi vozes abafadas lá dentro. A risada melosa de Helena, seguida pelo estrondo mais profundo da voz de Carlos.
Parei, minha mão pairando sobre a maçaneta.
O cheiro do perfume enjoativo de Helena, um cheiro que eu aprendera a desprezar, flutuava pela fresta. Meu estômago revirou.
Era agora.
Empurrei a porta, meu olhar endurecendo ao entrar na sala.
Carlos e Helena estavam próximos, de costas para mim, a mão de Helena descansando intimamente no braço de Carlos.
Eles se separaram rapidamente, Helena exibindo um sorriso triunfante. Carlos, sempre o manipulador suave, pigarreou, seus olhos indo para o papel em minha mão.
- Alice - ele começou, a voz surpreendentemente calma. - O que a traz aqui?
Estendi a carta de demissão, minha mão firme apesar do tremor profundo dentro de mim.
- Estou indo embora, Carlos.
Ele pegou o papel, seu olhar escaneando-o rapidamente antes que um sorriso preguiçoso tocasse seus lábios.
- Indo embora? Não é do seu feitio ser tão impulsiva.
Ele amassou a carta sem pensar duas vezes.
- Temos o projeto do Grupo Vênus. Você sabe o quão importante é. Preciso que você passe tudo para a Helena.
Meus olhos se estreitaram.
O projeto Vênus. A joia da coroa do Grupo Bittencourt, dependente dos meus designs, do meu estilo único como "Aurora".
Helena, a charlatã, já havia roubado meus cadernos de desenho. Agora ela queria minha obra-prima.
- Você realmente acha que ela consegue lidar com isso? - Minha voz saiu mais fria do que eu pretendia, carregada de um escárnio que eu não me preocupava mais em esconder. - Esse projeto requer um toque muito específico. Uma assinatura.
Carlos riu, passando um braço pela cintura de Helena.
- Claro que ela consegue. Helena é a Aurora, todos sabem disso agora. E além disso - seus olhos endureceram -, você não tem sido você mesma ultimamente. Sempre distraída, sempre cansada. Helena é fresca, inovadora.
Ele apertou Helena, que se vangloriou sob seu toque.
- Ela está carregando meu filho, Alice. Ela precisa estar focada em garantir nosso futuro, não se estressando com designs.
Uma dor aguda atravessou meu peito, mas eu a empurrei para baixo.
Ele ousava falar de um futuro com ela, depois do que tinham feito?
- Tudo bem - eu disse, minha voz plana. - Considere feito. Vou enviar os designs.
Minha concordância fria pareceu surpreendê-lo.
- Ótimo - disse ele, com uma pitada de suspeita nos olhos, mas rapidamente mascarada. - Vá para casa e descanse. Vamos finalizar tudo antes do leilão beneficente amanhã à noite.
Ele estava ansioso, ansioso demais para se livrar de mim, para garantir a falsa reivindicação de Helena.
Virei-me para sair, uma resolução gélida se instalando fundo em meus ossos.
Ele queria os designs? Ele os teria.
Mas ele pagaria um preço muito maior do que qualquer colaboração.
O cheiro estéril de desinfetante pairava pesado no ar, um contraste gritante com o perfume enjoativo que ainda persistia em minha mente.
Eu estava em uma cama de hospital, os lençóis brancos um conforto frio contra meu corpo machucado.
Meu corpo doía, uma sinfonia de dor da noite anterior, mas era a dor surda na minha alma que realmente me aleijava.
Meu celular, milagrosamente intacto, vibrou na mesa de cabeceira. Peguei-o, meus dedos desajeitados.
Um número desconhecido. Quase ignorei, mas algo me compeliu a atender.
- Alô? - Minha voz estava rouca, mal um sussurro.
- Alice? É você?
Uma voz profunda e familiar. Gabriel. Gabriel Ferraz. Meu amigo de infância. O bilionário da tecnologia que eu não via há anos.
- Gabriel? - Minha mente girou. Por que ele estava ligando agora?
- Alice, eu sei que isso vai parecer loucura, mas... é sobre o seu bebê. - A voz dele estava urgente, tensa.
Minha mão voou para minha barriga, um instinto protetor.
- O que tem meu bebê? - Um pavor frio se infiltrou em meus ossos. Carlos tinha feito mais alguma coisa?
- Esse bebê... é meu, Alice.
As palavras dele me atingiram como um soco, roubando o ar dos meus pulmões.
- Oito meses atrás, naquela noite no baile de caridade... você estava tão chateada, tão bêbada. Você pensou que eu fosse o Carlos. Eu... eu não deveria, mas não consegui me conter.
Meu mundo inclinou.
Meu bebê? Bebê do Carlos? Não. Do Gabriel?
As memórias daquela noite eram um borrão de champanhe e lágrimas, uma tentativa desesperada de anestesiar a dor de outro aborto.
Lembrei-me de ser consolada, abraçada, uma sensação fugaz de calor contra o vazio frio. Mas eu tinha tanta certeza de que era o Carlos.
- Não - sussurrei, balançando a cabeça, embora ninguém pudesse ver. - Isso é impossível. É do Carlos.
- Eu sei que é difícil de acreditar - disse ele, a voz suavizando -, mas eu tenho provas. Testes de DNA. Tenho monitorado você, Alice. Sei de tudo o que eles fizeram você passar. Sei sobre os abortos, sobre a Helena, sobre o Carlos. Eu só... eu queria esperar até que você estivesse segura para te contar. Eu não suportava a ideia de eles machucarem nosso filho.
Um soluço sufocado escapou dos meus lábios.
Nosso filho.
Não do Carlos. Não uma criança que seria manchada pela crueldade deles.
Uma centelha de esperança, frágil mas insistente, acendeu dentro de mim.
Este bebê, esta vida preciosa que eu lutei tanto para proteger, era verdadeiramente minha. E do Gabriel.
- Eu ia... eu ia interromper a gravidez - admiti, as palavras com gosto de cinzas. - Eu não suportava que fosse do Carlos. Não depois de tudo.
Pensei em todas as perdas, todas as lágrimas. Este era o único que eu tinha carregado até aqui. O único que parecia real, vital, vivo.
- Não faça isso - Gabriel implorou, a voz falhando de emoção. - Por favor, Alice. Não. Vamos para a Europa, para longe de tudo isso. Eu vou proteger você, vocês dois. Apenas me diga que você vai ficar bem. Me diga que vai deixá-lo.
Uma profunda sensação de alívio me lavou, lágrimas quentes escorrendo pelo meu rosto.
Meu bebê estava seguro. Meu bebê era amado, verdadeiramente amado, por alguém que se importava.
- Sim - engasguei. - Sim, Gabriel. Eu vou deixá-lo. E vou fazê-los pagar por tudo.
A ligação terminou, me deixando em um silêncio atordoado.
Mas desta vez, não era o silêncio do desespero, mas de uma resolução feroz e inabalável.
Eu tinha um motivo para lutar, um novo futuro para construir.
E um novo aliado. Gabriel. E meu bebê.
A mansão, outrora meu santuário, agora parecia um mausoléu de promessas quebradas.
Ao empurrar a pesada porta de carvalho, o cheiro enjoativo do perfume de Helena, misturado com o cheiro almiscarado de sexo, agrediu meus sentidos.
Meu estômago revirou, uma onda de náusea me invadindo, não relacionada à minha gravidez. Era o fedor da traição.
Arrastei minha mala pelos corredores silenciosos, cada passo um ato de desafio.
Meu quarto, nosso quarto, estava um desastre.
Roupas espalhadas, lingerie cara emaranhada com tecidos baratos e vulgares. Os lençóis de seda na cama estavam amarrotados, manchados, um testamento de sua ocupação recente.
Meu espaço pessoal, contaminado. Meu sangue gelou, uma fúria familiar substituindo a náusea.
Então eu vi.
Meu álbum de casamento, rasgado em pedaços, fotos de Carlos e eu sorrindo, rindo, espalhadas como confete.
Meu vaso antigo favorito, um presente da minha avó, estilhaçado no chão.
Meu coração doeu, não pelos objetos em si, mas pelas memórias que representavam. Eles estavam profanando meu passado, cuspindo no pouco de bom que restava.
Um rosnado baixo soou do canto do quarto.
O poodle mimado de Helena, um terror latidor chamado Princesa, montava guarda sobre uma pilha do que parecia ser pano rasgado.
Meu olhar se aguçou, focando no amuleto de jade, o último elo tangível com meu pai biológico, a única coisa que eu realmente estimava.
Estava em pedaços, esmagado, seu verde delicado estilhaçado além do reparo.
Princesa, o instrumento da malícia de Helena, abanava o rabo inocentemente.
Um grito gutural rasgou minha garganta.
Meu amuleto. A memória do meu pai. Destruída.
Aquele foi o insulto final. Uma névoa vermelha desceu.
Avancei, um grito primal escapando de mim. Empurrei Helena, que acabara de sair do banheiro, rindo, alheia à minha presença até que fosse tarde demais.
Ela tropeçou, caindo com um guincho.
Carlos irrompeu no quarto, os olhos ardendo de fúria.
- Que diabos há de errado com você, Alice?! - ele rugiu, correndo para o lado de Helena.
Ele nem olhou para mim, para os pedaços estilhaçados da minha vida espalhados pelo quarto.
- Ela destruiu! - gritei, apontando para o poodle, depois para Helena, lágrimas de raiva impotente escorrendo pelo meu rosto. - Meu amuleto! Do meu pai! Ela destruiu deliberadamente!
Helena, fingindo fragilidade, agarrou-se a Carlos.
- Ela está louca, Carlos! Ela me atacou! E olha o que o cachorro dela fez com a Princesa! - Ela apontou dramaticamente para o poodle ainda vivo, depois para um arranhão fresco em seu braço. - Ela tentou machucar meu bebê!
O rosto de Carlos escureceu.
- Sua vadia! - ele rosnou, a voz mais fria do que eu já tinha ouvido.
Ele agarrou meu braço, seu aperto machucando, e me arrastou em direção ao closet.
- Você quer agir como um animal? Ótimo. Você pode passar um tempo no escuro, pensando no que fez. Talvez isso esfrie esse seu temperamento.
O pânico me dominou.
O closet. Escuro. Fechado. Minha respiração falhou.
- Não, Carlos! Por favor! Você sabe da minha claustrofobia! No escuro não! Por favor!
Minha voz era um apelo desesperado, falhando com terror genuíno.
Ele pausou, um lampejo de algo ilegível em seus olhos, então sumiu, substituído por uma resolução gélida.
- Bom - disse ele, a voz desprovida de calor. - Talvez isso te conserte.
Ele me empurrou para dentro, a porta batendo com um baque retumbante.
A escuridão me envolveu, um cobertor sufocante. O ar imediatamente ficou espesso, pesado, pressionando contra mim.
Meu coração martelava contra minhas costelas, um pássaro frenético preso em uma gaiola.
Arranhei a porta, mas estava trancada.
Desabei no chão, ofegante, tremendo, o terror familiar de estar presa me dominando.
Horas depois, a porta rangeu abrindo, luz cegante inundando o pequeno espaço. Meus olhos, acostumados à escuridão opressiva, arderam.
Carlos estava lá, o rosto uma máscara de indiferença fria. Helena, parecendo presunçosa, estava ao lado dele.
- Levante-se - ele comandou, a voz plana. - O cachorro da Helena... a Princesa... não resistiu. Você vai cavar a cova dela.
Minha cabeça disparou para cima.
Princesa? Morta? Mas ela estava viva.
Uma premonição fria e inquietante rastejou em minha mente.
Helena. Ela não teria... teria?
- E você vai pedir desculpas à Helena - acrescentou Carlos, seus olhos me desafiando a desobedecer.
Olhei para Helena, sua expressão triunfante, uma pitada de algo cruel dançando em seus olhos.
Ela tinha matado o próprio cachorro, não tinha? Para me incriminar. Para me punir ainda mais.
A pura depravação disso fez meu estômago revirar.
- Eu não vou - eu disse, minha voz mal um sussurro, mas firme. - Não vou pedir desculpas por algo que não fiz.