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O Arrependimento do Alfa: Perder Sua Verdadeira Companheira

O Arrependimento do Alfa: Perder Sua Verdadeira Companheira

Autor: PageProfit Studio
Gênero: Lobisomem
Por anos, eu pertenci a ele. Não como companheira. Não como seu amor. Eu era apenas a mulher da sua cama. Sua Gama. Sua sombra na calada da noite. O Alfa Calhoun fez questão de isolar o meu mundo: nenhum homem podia me tocar, nenhum lobo ousava me olhar. Eu era sua propriedade, seu segredo mais obscuro. E eu aguentei tudo - suas mãos brutas, sua obsessão doentia, seus beijos que queimavam como fogo e prendiam como correntes. Eu aguentei porque, no fundo, achei que ele fosse meu. Até que ela voltou. A companheira destinada dele. O verdadeiro amor da vida dele. Num piscar de olhos, eu virei fumaça. Fui descartada, silenciada e largada para sangrar na sombra de um amor que nunca me pertenceu. Mas ser reivindicada por um homem como Calhoun significava que ele jamais me deixaria ir de verdade. "Tente fugir de mim, Elodie", ele rosnou contra a minha garganta, cravando os dedos na minha cintura. "Vou cruzar fronteiras, despedaçar alcateias e destruir qualquer lobo que cruzar o meu caminho... até ter você rastejando de volta para mim. Você é minha, nem que a própria Deusa da Lua tente te tirar de mim." Ele não sabia que, naquela época, eu já tinha um pé fora da porta. E quando finalmente deixei a alcateia dele.levei comigo mais do que um coração quebrado.
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Capítulo 1 Um

Ponto de Vista de Elodie

Meu coração se partiu em um milhão de pedaços enquanto eu encarava o papel nas mãos.

Ele assinou minha demissão hoje, e nem piscou.

Nove anos ao lado dele, amando-o, e no final eu não significava nada.

"Quer que eu avise a ele?" A voz da diretora de RH me tirou do transe. Congelei.

Mordi o interior da boca com tanta força que o gosto metálico do sangue invadiu minha língua. Mas aquela dor era nada comparada à que rasgava meu peito, como se alguém tivesse cravado facas em mim.

Apertei mais os papéis de demissão. Não conseguia mais olhar para a tela do laptop, não com as lágrimas prestes a cair. Virei o rosto, puxando o ar num suspiro trêmulo enquanto piscava com força. Minha visão já estava embaçada.

Deus.

Doía mais do que eu imaginava.

"Não precisa. Ele já assinou. É hora de eu ir embora."

Ouvi a diretora de RH suspirar. O olhar dela estava suave, cheio de preocupação, enquanto se inclinava um pouco mais perto da chamada de vídeo.

"O Alfa Calhoun nem percebeu o que estava assinando. Assinou sem nem ler. Você foi o braço direito dele por anos. Ele depende de você para absolutamente tudo. Ele valoriza você, Elodie. Esse não é um cargo qualquer para substituir. Você não é descartável."

Meus lábios se curvaram em um sorriso amargo.

Valorizada? Eu?

Tive que morder o lábio com mais força para não rir. Ou gritar.

Que piada.

Se ele realmente me valorizasse, não teria vindo correndo? Não teria, pelo menos, me ligado? Mandado uma mensagem?

Assenti devagar, engolindo em seco.

"Desculpa," sussurrei. "Eu pensei muito sobre isso. Dei tudo o que podia. Mesmo tendo sido a Gama dele todos esses anos. sei que o Calhoun vai encontrar outra pessoa. Ele sempre encontra."

Pisquei, sentindo os olhos arderem.

"Eu só. preciso voltar para a minha alcateia. Recebi notícia de que meus pais não estão bem. Quero ficar com eles enquanto ainda posso. Vou ficar mais um mês para cuidar da transição. Mas depois disso."

Engoli em seco.

"Vou embora. Obrigada por tudo."

O rosto da diretora de RH caiu.

E isso, mais do que qualquer outra coisa, me destruiu. Nem ela sabia o que dizer.

A tela ficou preta. E então desabei em lágrimas.

Enterrei o rosto nas mãos, puxando um ar tão afiado que doeu na garganta. Depois me levantei, limpei as bochechas com as costas da mão e caminhei até o canto do quarto, onde estavam minhas caixas.

A vila estava em silêncio.

Quatro anos inteiros nesse santuário à beira do penhasco - o pequeno exílio luxuoso que Calhoun preparou para mim. Ele disse que era meu. Mas nunca pareceu um lar.

Minhas mãos se moveram sozinhas quando comecei a arrumar minhas coisas.

Eu não tinha muito. Só algumas roupas. Uns livros. Uma caneca que ele tinha deixado no balcão e nunca pediu de volta.

Essa eu deixei.

As coisas que não importavam. As coisas que ele nunca perceberia que sumiram. Talvez, quando finalmente voltasse aqui, jogaria tudo fora.

No momento em que fechei a última caixa, eu simplesmente. fiquei ali. respirando.

Mas meu coração. meu coração apertou tão forte que precisei segurar na beira da mesa para não cair no chão.

As lágrimas vieram de novo.

Mas, dessa vez, eu não lutei contra elas.

Deixei que caíssem.

Porque ninguém estava olhando.

Porque, pela primeira vez, eu podia desabar em paz.

Nem percebi o quanto estava apertando a caixa até ela cair no chão e espalhar o pouco que eu ainda tinha.

Memórias de nove anos inteiros. invadiram minha mente sem aviso.

Deus, eu era só uma Gama na época. Um nada. Uma garota com a autoestima destruída e mãos que tremiam sempre que alguém de posto mais alto olhava na minha direção.

Mesmo assim, passei no exame de bolsa e entrei na academia de elite administrada pela Alcateia Nightbourne.

Era para eu ter sentido orgulho.

Em vez disso, só quis desaparecer no instante em que cheguei.

Os corredores eram todos de vidro e prata. Os alunos pareciam realeza. E eu. mal conseguia levantar a cabeça sem encontrar desprezo nos olhos deles. Como se eu tivesse rastejado para fora de um esgoto. Como se eu não pertencesse àquele lugar.

Lembro claramente do primeiro dia. Eu devia assistir à aula de História Política Avançada na sala B2, mas já estava dando meia-volta. Não ia entrar. Não com eles. Ia cabular. Me esconder nos jardins dos fundos. Talvez chorar.

Foi quando trombei com Mila Damaris.

Ela olhou para mim como se eu não fosse sujeira. Perguntou qual era minha aula e, antes que eu conseguisse balbuciar uma frase inteira, já estava me arrastando para lá com ela.

E, assim, do nada. virei parte do mundo dela.

Eu não sabia naquela época.

Deus, se eu soubesse. talvez tivesse fugido daquele lugar. Porque se eu soubesse o que amar alguém daquele mundo faria comigo. se eu soubesse que terminaria assim. talvez eu tivesse dito não.

Mas não fiz isso.

Fui atrás dela para onde quer que quisesse me levar. Aos poucos, Mila se tornou minha melhor amiga. Ela me apresentava para todo mundo como se eu fosse alguém. Até para a família dela.

E foi naquela noite que conheci Calhoun. O irmão mais velho dela. O herdeiro da Alcateia Nightbourne.

Deus, eu lembro da primeira vez que vi ele.

Ele mal olhou para mim.

Mas juro que algo em mim mudou. Minha loba enlouqueceu, se agitando, me puxando na direção dele.

Achei que talvez - só talvez - ele fosse meu companheiro.

Mas o que eu podia fazer com isso? Eu era uma Gama.

Ele tinha nascido Alfa.

Então enterrei tudo. Fundo. Tão fundo que queimava.

Depois nos formamos. Mila foi embora - disse que ia para a Itália expandir os negócios da família e continuar os estudos. Pediu para eu ir com ela.

Eu recusei e fiquei. Não porque eu tivesse algo que me prendesse aqui.

Mas porque Calhoun ainda estava aqui.

E eu fui burra o suficiente para querer ficar perto dele.

Então me candidatei. Peguei o trabalho de Gama dele. Assistente dele.

E ele aceitou, mesmo mantendo uma distância calculada. Isso já devia ter sido o bastante.

Mas aí veio aquela noite. O gala anual da Alcateia.

Todo mundo estava lá. E eu notei Calhoun parado perto do arco, olhar vidrado, os dedos pressionando as têmporas.

Havia algo errado.

Eu senti pelo cheiro. Algo no aroma dele - fora do normal.

Aí ele cambaleou. Só um pouco. Mas eu vi.

E porque eu sou uma idiota, fui atrás dele pelo salão. Entrei no corredor escuro.

Eu devia ter voltado.

Eu estava pegando o celular quando ouvi o rosnado de dor dele. E então. ele se virou.

Os olhos dele estavam brilhando em âmbar.

O lobo dele estava tentando romper.

"Calhoun - espera - só segura um pouco - vou chamar alguém-"

Mas eu não consegui fazer a ligação. De repente ele estava na minha frente, respirando pesado, a mão batendo na parede ao lado da minha cabeça. E então. ele me beijou.

Não. Não foi um beijo.

Ele me devorou.

E eu. eu deixei.

Eu devia ter afastado ele. Mas, em vez disso, fechei os olhos e deixei meu coração idiota acreditar, por um único segundo, que ele me queria.

Então veio a manhã seguinte.

Eu não devia ter acordado.

Não naquela cama. Não naquele quarto.

Por um segundo, o mundo estava quieto - pela primeira vez em muito tempo. Até meus olhos se abrirem.

Calhoun estava ali, sentado na cadeira perto da janela. Uma perna cruzada, os braços largados, como se tivesse passado a noite inteira me observando dormir. Seus olhos, vazios, estavam fixos em mim. Não havia nem um traço de emoção no rosto dele.

Meu estômago se revirou.

E então eu percebi. Eu estava nua.

Deus. foi a minha primeira vez. Eu dei minha primeira vez pra ele. A dor apertava cada parte do meu corpo - não só o incômodo físico, mas outra coisa. Algo que gritava que eu tinha cometido um erro tão grande que talvez nunca fosse conseguir superar.

Tentei me sentar. Até respirar parecia um castigo.

Calhoun não se mexeu. Só recostou, os olhos ainda travados em mim, como se estivesse olhando para algo insignificante.

Então ele falou, frio. "Eu sei que você gosta de mim. Eu soube no momento em que Mila trouxe você pra casa da família."

Eu congelei. Minha boca se entreabriu, mas nada saiu.

"Não precisa fingir. Eu sei." Ele se inclinou pra frente. "Mas não cria expectativa. Eu nunca ia gostar de alguém como você. O que aconteceu ontem à noite foi um erro. e deve continuar assim."

As palavras me atingiram como um tapa, mas o rosto dele nem mexeu. Nenhum sinal de culpa.

Eu era um erro?

Eu devia ter dito alguma coisa. Gritado. Dado um tapa nele. Mas minha voz tinha sumido. Meu coração. afundou.

Então ele se levantou. Como se nada tivesse acontecido.

Foi até a cômoda, pegou alguma coisa. Um cartão preto. Jogou na cama como se fosse lixo.

"A Mila me falou de você", ele murmurou, ainda sem me olhar. "Família passando aperto. Sangue de Gama. Tentando fazer alguma coisa da sua vida."

Ele se virou para sair, e então acrescentou, sem vacilar:

"Aí tem dinheiro suficiente pra você se ajeitar. Pode me agradecer depois."

Naquele momento, as lágrimas começaram a arder, minha garganta apertando com uma humilhação que eu nem sabia como engolir.

Mas ele não parou. Olhou direto nos meus olhos e disse:

"Não faz essa cara. Eu tô apaixonado. Eu tenho uma companheira. Vamos só fingir que isso nunca aconteceu."

Ele foi cruel. Nem tentou esconder. E eu odiava ter me permitido sonhar. Nem que fosse só por uma noite.

Porque, de repente, ouvi de novo a voz da Mila na minha cabeça.

"Ele é obcecado pela Carmela Reyes. Sabe, a garota da Alcateia vizinha que vive traindo ele? Ele nunca vai parar de correr atrás dela."

E ela estava certa.

Ele nunca deixaria de correr atrás de alguém que só o machucava. E eu. eu era apenas a tola que achou que talvez pudesse ser algo diferente.

As lágrimas escorreram antes que eu pudesse segurar. Ele nem olhou para trás ao caminhar até a porta.

"Espera!" arfei, arrastando o lençol comigo, tropeçando ao sair da cama. Eu tremia. Não me importava se parecia patética.

"Não quero o seu dinheiro." Minha voz falhou. "Só quero uma chance de provar que talvez eu tenha sido feita pra você."

Ele parou.

Depois se virou, revirou os olhos e saiu.

E aquilo foi o começo do meu inferno.

Daquele dia em diante, não passávamos de estranhos durante o dia e, à noite. eu virava a assistente dele. O brinquedo sexual dele. Nada além disso.

Me esforcei tanto. Comprei presentes, coisinhas que imaginei que fariam ele sorrir. Ele nunca abriu. Encontrei tudo no lixo.

Mas nada me preparou para o aniversário dele. Naquela noite, sentei no chão do meu quarto, agarrando uma caixinha idiota de abotoaduras que nunca cheguei a entregar - enquanto ele postava uma foto nas redes. Ele e Carmela Reyes. Beijando-se.

Foi aí que entendi: eu nunca seria suficiente. E nunca iria superar isso.

O passado recuou. Peguei minha caixa e caminhei até a porta. Mas, no momento em que a abri, engasguei.

Calhoun estava ali, encostado preguiçosamente no batente.

A voz dele soou casual. Como se eu não estivesse morrendo por dentro.

"Pra onde você vai?"

Meu peito apertou. "Encontrei um apartamento novo. Tô me mudando."

Ele fez um som baixo. "Eu levo você."

Falei rápido, apertando a caixa contra o peito. "Não é tão longe assim."

O maxilar dele travou. "Não tô perguntando."

Eu não discuti.

Andamos até o Porsche dele em silêncio. Mas no momento em que entrei, havia algo errado.

O carro estava impregnado de perfume floral. Enfeites cor-de-rosa colocados com cuidado no painel e no banco.

Ele percebeu o jeito que eu olhei para aquilo e revirou os olhos.

"Carmela queria uma mudança. Tive que dar pra ela."

Meu coração rachou.

Era o mesmo carro onde ele já havia sussurrado coisas que eu, estupidamente, acreditei. Onde ele havia me tocado. E agora. era dela. Tudo era dela.

A caixa escorregou das minhas mãos e caiu no chão. O vidro estilhaçou.

Me apressei pra juntar os pedaços, mas um deles cortou fundo a minha palma. O sangue brotou na hora.

"M-merda", rosnou Calhoun, estendendo a mão na minha direção.

Mas antes que seus dedos me tocassem, o celular dele vibrou.

Ele parou. Depois atendeu.

"Cal, amor, cortei minha mão", choramingou Carmela do outro lado da linha. "Está sangrando. Volta pra casa, por favor."

Eu congelei.

Calhoun suspirou e me olhou. "Vou chamar meu Beta pra vir te buscar. Fica parada aí."

E então ele se foi.

Fiquei ali. Sangrando. No chão. Com cacos de vidro enfiados na pele.

Meu peito se apertou com força.

"Você vai conseguir o que quer, Calhoun. Eu nunca mais vou te amar."

Capítulo 2 Dois

Ponto de Vista de Elodie

Era só mais uma segunda-feira. Mas parecia o dia do meu próprio funeral.

E, como todos os dias, eu arrastava o que restava de mim até aquele maldito prédio - só para ver ele. Para olhar o homem que me destruiu aos poucos e que nem imaginava o quanto eu ainda sangrava por ele.

Meu Deus, como eu odiava segundas-feiras.

Mas, mais que tudo, eu me odiava.

Por ainda ter esperança. Por acordar todos os dias achando que talvez hoje ele me visse. talvez hoje ele me amasse de volta.

Garota idiota.

Vesti o casaco, passei um pouco de protetor labial para não parecer tão morta por dentro e entrei no escritório como um fantasma dentro da própria pele. Ninguém percebia. Eu sempre chegava na hora. Sempre impecável. Sempre cumprindo meu papel de Gama perfeita. Até minha loba estava cansada de mim, gemendo dia após dia.

Reuniões. Registros da alcateia. Briefings de investimento. Memorandos da diretoria. Agendamentos. Eu cuidava de tudo. Garantia que o império que Calhoun tentava construir não desmoronasse por dentro. Eu era as mãos por trás do trono.

Mas ele nunca via isso. Nunca viu.

Passei a manhã inteira ocupada, enterrando a dor em reuniões e sorrisos vazios. Fiz o briefing dos guerreiros. Revisei os contratos que chegaram dos setores de comércio. Arquivei a correspondência mais recente da Alcateia Nightbourne - mais uma vez endereçada apenas a ele. Tudo tinha que estar perfeito. Tudo tinha que estar no lugar.

Só quando olhei para o relógio, meu coração falhou uma batida.

Droga. A reunião dele.

Começaria em cinco minutos. Claro que eu tinha que ir lembrá-lo. Claro que eu tinha que entrar no escritório dele de novo e fingir que não passei o fim de semana inteiro chorando no travesseiro enquanto ele provavelmente passou o dele enrolado com Carmela Reyes.

Respirei fundo. Uma vez. Duas. Peguei alguns arquivos só para dar algo às minhas mãos - qualquer coisa para impedir que tremessem - e comecei a caminhar pelo corredor.

Meu peito apertava a cada passo, como se meu coração já soubesse o que eu ainda não sabia.

E então eu ouvi.

Risadas.

Agudas. Femininas. Altas.

Meu corpo parou.

Aquela voz. Eu reconheceria em qualquer lugar.

Carmela Reyes.

Engoli em seco. Meus ombros caíram. Parecia que minha alma inteira queria desaparecer entre as lajotas do chão. Mas eu tinha que entrar. Tinha que fazer meu trabalho.

Então abri a porta.

E juro que o sangue sumiu do meu rosto no segundo em que entrei.

Ela estava lá. Sentada na mesa dele como se tudo aquilo já fosse dela.

O cabelo ruivo caía sobre o ombro nu enquanto ela dava pedaços de maçã para ele - maçã, a única fruta que Calhoun sempre disse que odiava - enquanto uma das mãos dele trabalhava no laptop e a outra descansava na cintura dela, como se pertencesse àquele lugar.

Eu não conseguia respirar.

Calhoun. o Calhoun que eu conhecia. O que odiava contato físico. O que uma vez se recusou a beber no mesmo copo que eu usei quando estava com febre. O que nunca deixava que eu me sentasse muito perto, como se minha presença incomodasse o ar ao redor dele - agora tinha ela sentada na mesa. Alimentando-o. Tocando-o como se não fosse nada.

Quem era esse homem?

Ele finalmente ergueu os olhos para mim. A voz saiu irritada.

Ponto de Vista de Elodie

Era só mais uma segunda-feira. Mas parecia o dia do meu próprio funeral.

E hoje, como todos os dias, eu arrastava os ossos do que restava de mim para dentro daquele maldito prédio - só para olhar para ele. Para olhar o homem que me destruiu pedaço por pedaço e que ainda não fazia ideia de quanto eu sangrava por ele.

Meu Deus, como eu odiava segundas-feiras.

Mas, mais do que tudo. eu me odiava.

Por ainda ter esperança. Por ainda acordar todo dia pensando talvez hoje ele me veja. talvez hoje ele me ame de volta.

Garota idiota, idiota.

Vesti meu casaco, passei um pouco de protetor labial para não parecer meio morta e entrei no escritório como um fantasma dentro da própria pele. Mas ninguém percebia. Eu sempre chegava na hora. Sempre impecável. Sempre cumprindo minhas obrigações como uma Gama perfeita. Até minha loba estava cansada de mim, choramingando dia após dia.

Reuniões. Registros da alcateia. Briefings de investimento. Memorandos da diretoria. Agendamentos. Eu cuidava de tudo. Eu garantia que o império que Calhoun tentava construir não desmoronasse por dentro. Eu era as mãos por trás do trono.

Mas ele não via isso. Nunca viu.

Me mantive ocupada a manhã inteira, enterrando minha dor em reuniões consecutivas e sorrisos vazios. Fiz o briefing dos guerreiros. Conferi duas vezes os contratos que chegavam dos setores de comércio. Arquivei a correspondência mais recente da Alcateia Nightbourne - mais uma vez endereçada só a ele. Tudo tinha que estar perfeito. Tudo tinha que estar no lugar.

Só quando olhei para o relógio meu coração falhou uma batida.

Droga. A reunião dele.

Ela começaria em cinco minutos. Claro que eu tinha que ir lembrá-lo. Claro que eu tinha que entrar no escritório dele de novo e fingir que não passei o fim de semana inteiro chorando no travesseiro enquanto ele provavelmente passou o dele enrolado com Carmela Reyes.

Respirei fundo. Uma vez. Depois outra. Peguei alguns arquivos só para dar algo para minhas mãos fazerem - qualquer coisa para impedir que tremessem - e comecei a caminhar pelo corredor.

Meu peito apertava quanto mais eu me aproximava, como se meu coração já soubesse o que eu ainda não sabia.

E então eu ouvi.

Risadas.

Agudas. Femininas. Altas.

Meu corpo parou.

Aquela voz. Eu reconheceria em qualquer lugar.

Carmela Reyes.

Engoli seco. Meus ombros caíram. Minha alma inteira parecia querer encolher, desaparecer entre as lajotas do chão. Mas eu tinha que entrar. Eu tinha que fazer meu trabalho.

Então abri a porta.

E juro, o sangue sumiu do meu rosto no segundo em que entrei.

Ela estava lá. Sentada na maldita mesa dele como se tudo aquilo fosse dela.

O cabelo ruivo caindo sobre o ombro nu enquanto ela dava pedaços de maçã para ele - maçã, a única fruta que Calhoun sempre disse que odiava - enquanto a mão dele trabalhava sem esforço no laptop e a outra estava largada na cintura dela como se pertencesse àquele lugar.

Eu não conseguia respirar.

Calhoun. o Calhoun que eu conhecia. O que odiava contato físico. O que uma vez se recusou a beber no mesmo copo que eu usei quando estava com febre. O que nunca deixava que eu me sentasse muito perto, que agia como se minha simples presença incomodasse o ar ao redor dele - tinha ela sentada na mesa dele. Alimentando-o como uma criança. Tocando-o como se não fosse nada.

Quem era esse homem?

Ele finalmente ergueu os olhos para mim. A voz dele saiu irritada.

"O quê? O que você quer? Por que está aí parada como se tivesse visto um fantasma?"

Eu queria jogar os arquivos na cara dele. Queria gritar e chorar. Mas tudo o que consegui fazer foi ficar ali.

Congelada. Humilhada. De coração partido. De novo.

Forcei minha voz a sair, mal passando de um sussurro. "Você tem uma reunião. Em cinco minutos, Alfa."

Carmela começou a tossir violentamente de repente. Meu corpo enrijeceu. Não sei o que deu em mim - talvez instinto, talvez preocupação - mas dei meio passo à frente antes de me segurar. Antes de lembrar quem eu era para eles.

Ninguém.

Mas Calhoun.

A reação dele quase me destruiu.

Os olhos dele se arregalaram em alarme. Pânico de verdade tomou o rosto dele como eu nunca tinha visto antes. Ele imediatamente pegou a caneca de cerâmica sobre a mesa - aquela que não deixava ninguém tocar, a mesma em que tentei servir chá uma vez e ele recusou - e a levou com cuidado aos lábios dela.

"Aqui, meu amor. Bebe devagar", disse ele, a voz calma mas apressada. Esfregou as costas dela enquanto ela tomava um gole, murmurando algo que eu não consegui ouvir. A mão dele não saía do corpo dela - carícias leves nas costas, círculos suaves atrás da nuca. As sobrancelhas franzidas, a boca apertada de preocupação.

E doeu. Deus, doeu tanto.

Aquela era a versão mais suave dele que eu já tinha visto.

E isso nem era o pior.

Carmela virou o rosto, ergueu o queixo para ele como se fosse dona dele - e talvez fosse - e encostou um beijo possessivo em seus lábios. A mão dela subiu e envolveu a nuca dele, enroscando-se no cabelo dele como se agora fosse ela quem estivesse confortando-o.

E então sorriu. Um sorriso suave, satisfeito.

"Você é um amor, Cal", ela murmurou. "Faria qualquer coisa para ver bem, não faria?"

Prendi a respiração. Minhas unhas cravaram nas pastas que eu segurava. Precisei de toda a minha força para não desabar ali mesmo.

Os lábios de Calhoun se curvaram num pequeno sorriso.

Era a primeira vez que eu via calor no rosto dele daquele jeito. E era como se tivesse sido esculpido para ela. Só para ela.

Os olhos dele buscaram os dela e, com uma risadinha baixa, disse:

"Claro. Qualquer coisa por você."

Qualquer coisa por você.

Não por mim.

Nunca por mim.

Minhas mãos tremiam.

Meu celular vibrou no bolso do casaco. A vibração me puxou de volta para a realidade. Olhei para a tela. Era um lembrete da agenda: Conselho dos Alfas, aguardando há vinte minutos.

Limpei a garganta suavemente e baixei o olhar para esconder a queimação atrás dos olhos.

"Alfa Calhoun", falei, "alguns dos Alfas da Alcateia ainda estão esperando sua resposta. A maioria. não está de bom humor."

Mal consegui erguer os olhos, mas ergui. Só um pouco. O suficiente para ver Carmela revirar os olhos dramaticamente e soltar um som de nojo.

"Aff. Cal", ela zombou, apontando diretamente para mim. "Eu juro, detesto essa sua Gama. Ela não sabe a hora de calar a boca?"

Fiquei rígida.

Então o olhar dele me encontrou.

Foi como levar um soco daqueles olhos escuros que, um dia, eu sonhei que pudessem se suavizar para mim.

"Diga a eles que estou chegando", Calhoun disparou, sem nem me olhar de verdade. "Minha futura Luna quase engasgou. Ela precisa de cuidados. Agora."

Meus lábios se entreabriram para dizer algo - para oferecer adiar a reunião, ou talvez sugerir que outra pessoa levasse o recado - mas no segundo em que puxei o ar para falar, ele me cortou.

"Carmela vem antes de qualquer reunião da Alcateia", ele disse, num tom afiado. Como se fosse um lembrete. Como se eu tivesse esquecido meu lugar.

Meu coração se apertou tão dolorosamente que precisei cerrar os punhos para evitar que minha voz tremesse.

"Sim, Alfa", sussurrei, digitando rápido a mensagem na plataforma dos Alfas para remarcar a sessão. Eu estava prestes a me virar quando Carmela soltou outro gemidinho, passando os dedos pelo cabelo como se estivesse estressada.

"Sabe", ela disse num tom suave e calculado, "eu ouvi dizer que a Elodie faz o melhor caldo do escritório. Eu gostaria de provar. Vou ficar aqui descansando. E se eu gostar... talvez eu deixe que ela me sirva de novo."

Os pulmões travaram.

Por favor, não. Qualquer coisa, menos isso.

Então Calhoun falou: "Você ouviu. Vai fazer o caldo. E fica com ela até eu voltar."

Foi isso. Sem segunda opção. Sem consideração. Sem sequer olhar para mim.

Forcei um sorriso - Deus, doeu até mexer os lábios - e assenti.

"Sim, Alfa."

E então me virei. Meus pés pesavam. Meu peito ardia. Meus olhos queimavam. Mas eu saí. Eu fiz o caldo. Levou só três minutos.

Três minutos para me convencer a respirar.

Três minutos para me recompor.

Quando voltei, segurando a bandeja com cuidado, a primeira coisa que vi fez meu estômago se revirar.

Carmela estava perto demais de Calhoun, arrumando a gravata dele com as duas mãos. A cabeça dele levemente inclinada, permitindo o toque. Ele nem percebeu que eu tinha voltado.

Abaixei o corpo ao entrar, passando por eles em silêncio. Quando me virei para entregar a tigela a ela, Calhoun passou por mim e saiu - assim, simplesmente.

Levei o caldo até ela e o coloquei com cuidado na mesinha.

Ela mal olhou para mim. Só pegou a colher, tomou um gole.

E então, seu rosto se contorceu em nojo.

"O que diabos é isso?!" ela rosnou, antes de soltar um grito. Eu mal tive tempo de dar um passo para trás antes que ela arremessasse o caldo quente direto em mim.

O líquido espirrou no meu peito e na minha camisa, o calor escaldante queimando minha pele enquanto um grito escapou de mim.

"Ahh!" arfei, cambaleando, tentando não deixar a bandeja cair.

Mas ela não parou por aí.

A próxima coisa que vi foi a caneca do Calhoun voando na minha direção. Eu não consegui desviar a tempo. O impacto explodiu na minha bochecha, e uma dor lancinante tomou conta do meu rosto. Cacos de vidro cortaram minha pele. O sangue escorreu quente.

Eu me apoiei na parede, ofegante, a visão turva.

Carmela se levantou. Seus olhos brilhavam em um âmbar perigoso.

"O caldo está frio, Gama", ela cuspiu. "O que você estava tentando fazer? Me envenenar?"

Eu não conseguia falar. Só tremia, respirando com dificuldade, enquanto a vergonha queimava mais quente que o caldo nas minhas roupas.

A porta se abriu de repente.

Calhoun entrou apressado, seguido por alguns funcionários que pararam ao ver a cena.

Mas Carmela foi mais rápida.

Ela se virou para ele com lágrimas já escorrendo pelo rosto - como se tivesse ensaiado esse momento. Correu para os braços dele, enterrando o rosto no peito dele enquanto choramingava.

"Ela tentou me envenenar", gemeu dramaticamente. "Juro, Cal. só porque eu reclamei com ela antes, por ter nos interrompido. Ela fez alguma coisa no caldo, eu sei. Não estou me sentindo bem."

Fiquei ali, tremendo, sangrando, esperando - só esperando - que ele me perguntasse o que havia acontecido.

Mas ele não perguntou.

Ele beijou a cabeça dela. Sussurrou algo no ouvido dela que eu não consegui ouvir.

Depois se virou para alguém atrás de mim. Nem olhou para mim.

"Esvaziem a mesa dela", disse, frio. "O salário dela será reduzido em setenta por cento. E garantam que ela aprenda a fazer um caldo melhor. Ela vai fazer um pedido de desculpas público para a Carmela até amanhã."

Então passou um braço pela cintura de Carmela e saiu com ela.

Nenhuma pergunta.

Nenhuma defesa.

Nenhum olhar na minha direção.

Assim, como se nada, eu deixei de existir.

Meu coração. se despedaçou em fragmentos que ninguém jamais se importaria em recolher.

Capítulo 3 Três

Ponto de Vista de Elodie

Meu corpo parecia estar se rasgando por dentro. O que mais doeu, porém, não foi a queimadura - foi o som dos passos de Calhoun se afastando, carregando Carmela nos braços sem nem olhar para trás.

Assim, de repente. Ele se foi.

Mordi o lábio com tanta força que senti o gosto de sangue, mas nem isso impediu o soluço que escapou da minha garganta. Os funcionários ao redor cochichavam, me olhando com pena. Eu odiava aqueles olhares. Eles me lembravam do quanto eu havia caído, do quanto fui estúpida todos esses anos. Minha garganta ardia, e as lágrimas vieram antes que eu pudesse conter.

Limpei o rosto com a manga, arfando, e cambaleei até a parede onde estavam a vassoura e o esfregão. Minhas mãos tremiam tanto que mal conseguia segurar os cabos. 'Faça alguma coisa. Só se mexe.' Se eu limpasse, talvez eu não desabasse ali mesmo.

Me forcei a andar, abaixei com o esfregão em uma mão e a vassoura na outra, esfregando o chão com a visão embaçada. Meu corpo inteiro tremia, e a tontura era tão forte que parecia que o chão se movia. Eu não sentia mais as pernas. Mal conseguia respirar.

"Elodie, para-" uma voz gentil me alcançou.

Uma colega passou o braço por mim enquanto outra pegava a vassoura.

"Deixa a gente te ajudar", uma delas disse baixinho, a voz tremendo de culpa. Ela se ajoelhou, afastou o esfregão.

"Isso é injusto", murmurou outra. "Eu passei aqui antes e vi ela carregando aquele caldo. Estava fumegando. Se não estivesse quente, não teria queimado a pele dela assim."

Meu corpo ficou tenso, meu peito arfando, mas continuei me movendo.

Outra voz entrou, mais irritada. "A Carmela é encrenqueira. Mesmo que não estivesse quente, por que ela jogaria aquilo assim? Aquilo não foi acidente. Aquilo foi. quase uma tentativa de assassinato! Ela podia ter desfigurado o rosto da Elodie pra sempre ou quebrado o nariz dela."

Estremeci. Meu estômago virou.

Outro suspiro veio logo em seguida. "O Alfa Calhoun já não pensa por si mesmo. É um fantoche. A Carmela que manda aqui. E a gente sabe que, se pisar no calo dela, paga caro. Coitada da Elodie. é sempre nela que ela descarrega."

"Obrigada", murmurei.

Uma delas me deu um sorriso triste e assentiu. "Vem. Vamos te tirar daqui."

Elas me guiaram pelos olhares, pelos sussurros, pelos restos do meu orgulho. Mas assim que passei pela porta, as lembranças vieram.

Lembrei do dia da reunião com a alcateia vizinha. Eles tentaram me culpar, me humilhar na frente de todo mundo. Minhas mãos tremiam, minha voz falhava. Antes que eu desmoronasse, Calhoun bateu a mão na mesa, os olhos em chamas.

"Toca no nome dela de novo e eu encerro esse acordo", ele rosnou, a voz como trovão. "Se quer culpar alguém, culpa a mim. Quer guerra? Então continue me provocando."

A sala inteira ficou em silêncio. Até o Alfa rival empalideceu. E Calhoun. ele virou o rosto para mim. Não disse nada, mas sua presença era como uma armadura.

Naquele dia, ele me protegeu. E eu, idiota, achei que aquilo significava algo. Que talvez ele estivesse começando a se importar.

Agora, mal conseguia respirar com a dor de perceber o quanto eu estava errada.

Ele só estava protegendo o que era dele. Nunca foi por mim.

O que mais doeu não foi a Carmela cuspir aquela mentira com sua língua venenosa. Foi o Calhoun nem piscar antes de acreditar nela. Nenhuma pergunta. Nenhum sinal de dúvida. Ele simplesmente olhou através de mim e me julgou como se eu já fosse culpada.

Eu não merecia nem um pouco de confiança? Nem que fosse metade do que ele dava tão facilmente para a Carmela?

Quando minha colega me ajudou a sair do prédio, eu já não era mais do que um casco vazio. Mal percebi quando atravessamos as portas. Ela chamou um Uber, pagou a corrida e me ajudou a entrar no carro.

"Cuide bem de você, Elodie", sussurrou, a voz pesada de pena.

Assenti fracamente, a garganta crua demais para formar palavras, e entrei no banco de trás.

Quando cheguei ao meu apartamento, larguei a bolsa no chão e fui direto para o chuveiro. A água batia na pele, mas não aliviava nada. Só ardia nas queimaduras e nos hematomas.

Quando saí, tremia de frio. Não me importei com o cabelo pingando nem com a cama que ia molhar. Só queria me enfiar debaixo dos lençóis e desaparecer.

Foi quando o celular tocou.

Meu coração caiu quando vi o nome na tela.

Calhoun.

Por um segundo, meus dedos pairaram sobre o botão de atender, desesperada para ouvir a voz dele. Mas a ligação caiu antes que eu pudesse decidir.

Em seguida, veio uma mensagem:

"Traga ibuprofeno e leite quente com mel. Seja rápida."

A decepção foi tão forte que quase me deu ânsia. Mesmo assim, como a idiota que eu me tornei, vesti outra roupa, prendi o cabelo e saí do apartamento.

Quando cheguei à cobertura dele, uma náusea forte me atingiu assim que entrei.

Tudo estava diferente.

O interior frio e preto que antes refletia o estilo dele - sua escuridão - tinha desaparecido. O pequeno bonsai que eu tinha plantado com o avô dele . sumiu. No lugar, havia um girassol, suas pétalas amarelas brilhantes zombando de mim. Carmela. Claro.

Fiquei paralisada na entrada, os olhos ardendo enquanto absorvia o resto. Bolsas e sapatos caros espalhados por todos os cantos, perfumes femininos sobre as mesas de vidro, cores suaves cobrindo o que antes era dele.

Meu coração despencou tão violentamente.

O som da fechadura girando me arrancou do transe. Calhoun apareceu. Ele nem se deu ao trabalho de me cumprimentar. Sem dizer nada, arrancou a sacola da minha mão e revirou seu conteúdo. Só quando confirmou que tudo estava ali é que finalmente ergueu o olhar para o meu rosto.

"Merda", murmurou, a testa se franzindo. "Seus machucados estão péssimos. Você já cuidou deles?"

Engoli seco. Lentamente, balancei a cabeça.

Ele soltou o ar, esfregando a nuca. "Elodie. a Carmela está com aquelas mudanças de humor dela, como sempre. Não foi porque ela queria te machucar, tá? Ela só teve um dia ruim. Cuide desses ferimentos. Se precisar de uns dias de folga, eu assino."

Um sorriso amargo puxou meus lábios. "Não será necessário, Alfa Calhoun. No fim do mês-"

"Me escuta", ele me cortou, a voz afiada. "Eu só estou preocupado porque você precisa estar forte. Você vai organizar a festa de boas-vindas da Carmela, e eu quero tudo perfeito."

As palavras dele ficaram presas na minha garganta. Quase engasguei com elas. Meus lábios se entreabriram, mas nenhum som saiu. Minhas pernas fraquejaram, e eu dei um passo para trás, precisando de ar.

Ele percebeu. Seus olhos se estreitaram, como se fosse falar de novo, mas então um gemido suave, claramente forçado, cortou o silêncio.

"Cal."

Carmela estava encostada na porta do quarto, o olhar fixo em mim. No instante em que Calhoun se virou para ela, toda a frieza em seu rosto desapareceu. A expressão se suavizou, tornando-se quase terna.

"Ela trouxe as coisas?" perguntou Carmela, a voz frágil. "Estou sentindo dor no corpo todo, Cal. Eu só. eu quero carinho. E uma massagem."

Meu estômago se contraiu.

O rosto dele amoleceu na mesma hora. Ele assentiu, a voz baixando de tom.

"Não force os pés. Vai deitar na cama. Vou pedir para as criadas esquentarem o leite e já já eu vou lá. Tá bom?"

"Tá bom", ela sussurrou, sorrindo com doçura.

Fiquei ali, em silêncio, assistindo à cena. Meu peito ardia como se algo estivesse sendo rasgado por dentro. Ver como ele mudava completamente por causa dela - enquanto eu só recebia indiferença - doía mais do que eu queria admitir.

Lembrei da noite em que quase quebrei um dente de tanto apertar a mandíbula. Dos dias em que tropeçava na frente dele e ele mal olhava. E quando desmaiei de exaustão e fui parar na emergência. ele só assinou meu pedido de afastamento. Nem uma visita. Nem uma ligação.

Mas bastava Carmela soltar um choramingo para que ele se derretesse inteiro.

Quando ele saiu com ela, senti a garganta fechar. Uma única lágrima escapou antes que eu pudesse segurar. Virei as costas e fui embora, as pernas carregando meu corpo como se não fossem mais minhas.

Uma dor amarga subiu pelo peito. Quando finalmente saí do corredor, ergui o rosto para o céu.

E só uma lágrima caiu.

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