Zeynep Baysal respirou fundo, os pés lhe doíam dentro dos sapatos pretos e amaldiçoava-se por ter seguido a ideia da irmã. Ainda podia ouvi-la murmurando em seu ouvido.
"Você precisa estar linda! Sabe quantas mulheres queriam tocar em Emir Ozkurt? Ele é um astro! Meu sonho seria ser o par romântico dele, e agora as suas mãos o tocarão!
- Ele é um esnobe... Algumas maquiadoras já me disseram que ele não dá sequer bom dia.
- Ah, minha linda Zeynep, dê você bom dia a ele.
- Tuğba, não me amole. Por favor."
Os pensamentos da moça foram interrompidos pela chegada dele. Emir Ozkurt entrou na sala de maquiagem como um rei, o que lhe era peculiar; olhou com desdém a moça, que era muito bonita, mas visivelmente pobre e provavelmente sem classe, no entanto, ela sustentava o seu olhar.
Emir olhou para si mesmo, e ela o mediu com os olhos azuis. Ele era bastante alto, e mesmo assim sabia que seu andar era bonito de se ver. Então caminhou, brincando com aquela pobre moça.
A encarou com os olhos azuis levemente franzidos, sentou-se na cadeira e continuou a encarar.
- Senhorita, sei que não deve estar acostumada a ver um homem do meu nível, e entendo sua admiração, mas devo lhe lembrar que está aqui para trabalhar.
- Ainda bem que me lembrou, senhor Ozkurt - Zeynep tentou sorrir, não podia perder a oportunidade.
- Então faça seu trabalho. Hoje, além do lançamento da novela, tenho uma premiação.
Zeynep analisou a pele de Emir, e o segredo era aplicar a menor quantidade de produto possível. Ele era realmente bonito, precisava apenas de alguns detalhes, como tirar o brilho e dar uma corada, já que ele era muito branco. Pegou dois corretivos e um pó translúcido em sua extensa paleta e, segura de si, começou a limpar a pele do astro; passou água micelar para tirar o excesso de oleosidade, seguida de água termal.
O corretivo foi passado nas olheiras, provavelmente ele não havia dormido, e finalizou com um pó bronzeador para dar um pouco de cor. Ele abriu os olhos e Zeynep engoliu em seco.
- Está pronto, senhor Ozkurt.
- Eu nunca te vi aqui, não vai me dizer que deixaram uma novata me arrumar!
- Não senhor, Ozkurt, sou uma excelente maquiadora. Sou nova aqui, mas já sou conhecida no ramo.
Emir olhou a moça; era deveras bonita, os cabelos negros presos em um coque estilo samurai e os olhos azuis maquiados com kajal. Parecia ter um corpo bem feito, pelo que podia notar através do avental.
- Qual o seu nome?
- Baysal, Zeynep Hazan Baysal.
- Hazan significa outono, é um belo nome. Mas Zeynep é mais forte.
- Obrigada, senhor Emir Ozkurt.
- Hoje à noite, se não tiver compromisso, passe em meu quarto - Emir segurou a mão dela de forma mais íntima, o que a fez puxá-la imediatamente.
- Você não pode me tocar! O que acha que eu sou? - disse indignada.
- Uma garota que tem potencial para ser mais do que maquiadora... Se souber ser boazinha, é claro.
Sem pensar duas vezes, Zeynep pegou um estilete que estava sobre a mesinha e desferiu um golpe contra a bochecha esquerda de Emir.
- Você está maluca? - o jovem soltou chispas de fúria dos olhos azuis.
- Acha que eu sou uma dessas mulheres que passam a noite com você para serem manchete em notícias de fofocas?
- Claro que não! Elas cobram cem dólares a hora e você não valeria um quarto disso - Emir levantou-se e Zeynep bufou antes de sair da sala. Mal deu dois passos e Emir a puxou de volta - Quem você pensa que é para me ignorar e sair desse jeito? Eu sou Emir Ozkurt! - Zeynep revirou os olhos.
- Senhor Ozkurt, então aproveite que seu nome compra mulheres de cem dólares e pague uma...
- Se eu quiser você será minha uma noite inteira. E será seu sangue a manchar meu lençol, se é que você tem algo que ainda manche alguma coisa.
- Senhor Ozkurt - Emir olhou para trás e viu Murat, os olhos dele foram de Emir para Zeynep e pararam nos olhos do amigo.
- Murat, eu...
- Quem é sua amiga da vez? Já lhe disse que não deveria trazer essas mulheres para o estúdio.
- Epa! Essas mulheres não! Primeiro, eu não sou amiga dele; segundo, eu trabalho aqui. E terceiro, eu não andaria com esse tipo nem que ele fosse o último homem da face da Terra!
- Não precisa mentir para mim, não julgo ninguém.
Zeynep saiu bufando enquanto Emir caía na gargalhada.
- Agora falando sério, Emir... Não traz seus casos para o estúdio, isso queima seu filme com a produtora, por melhor ator que você seja.
- Ela não é meu caso, ela é uma louca que não sabe o significado de hierarquia.
- Conheço as suas loucas, volta e meia tenho que me livrar de uma delas.
- Essa é diferente, ela...
- Todas são... - disse com desdém - Agora preste atenção! Hoje é o lançamento de "Amor roubado" e você é o protagonista. Por favor, não me apareça com uma mulher dessas hoje, o protagonista é um lorde baseado em Mr. Darcy. E é essa imagem que você tem que vender.
- Mr. Darcy - Emir revirou os olhos enquanto respirava pesadamente - Quantos episódios mesmo?
- Cinquenta e três. Ah, não começa.
- Mais de um ano fingindo ser um príncipe? Estampando revistas adolescentes? Não é isso que eu quero, não quero ser só o bonitinho, eu quero dirigir! Mostrar o que eu sei.
- Não está na sua hora. Você ainda será um grande diretor, mas hoje você é Alihan Imhotep, o senhor Darcy do Oriente.
- Que seja.
- Quem machucou o seu rosto?
- Foi a... Fui eu, me cortei sem querer.
O pensamento de Emir Ozkurt buscou a senhorita Baysal.
Zeynep estava na porta do Canal 8 e jurava que seria demitida, mas a reclamação não veio. Ao contrário, lhe foi passado o endereço do evento para o lançamento da novela, onde ela deveria chegar antes do elenco.
Foi para casa pensando no senhor Ozkurt. Ele era, sem dúvida, muito arrogante; usava o fato de ser famoso como munição para tratar as mulheres feito lixo.
Não saberia dizer o que as pessoas enxergavam nele; um completo babaca que se achava o ultimo oásis dos desertos.
Zeynep não suportava homens daquele tipo.
Pegou o ônibus e foi para casa, os pés ainda doíam dentro dos sapatos.
Chegou ao bairro e, ao entrar em casa, viu que estava sozinha. Tomou um banho rápido e se jogou na cama. Ligou a televisão do quarto e a primeira coisa que apareceu foi Emir Ozkurt em um programa de fofocas.
- As mulheres querem saber como você se machucou...
- Bem - ele piscou os olhos algumas vezes e sorriu para a apresentadora - Minha gata me arranhou, ela é muito arisca.
Zeynep riu diante daquilo.
- Qual o nome dessa gata tão selvagem...
- Outono.
Zeynep derrubou o controle remoto no chão no exato instante em que a mãe entrava com a irmã.
- Emir - Tuğba gritou para a televisão - Olha, mamãe como ele é lindo.
- Não adianta olhar para homens como Emir e se encontrar às escondidas com pobretões... Yasin só te dará isso aqui - Fazilet tirou os pepinos da sacola enquanto olhava com desprezo a casa.
- Não há mal nenhum em namorar Yasin, mamãe - Zeynep intrometeu-se.
- Não ouça sua irmã, olhe para ela... Emir Ozkurt nunca a olharia, então está conformada com esses tipos do bairro.
- Eu consegui o convite para Tuğba.
- Ótimo. Vá Tuğba, peça para Bilnaz fazer o seu cabelo, corra. Com sorte, Emir Ozkurt vai te notar.
Zeynep pensou em falar para a mãe quem era o senhor Ozkurt e desistiu, apenas observou a irmã que saía de casa.
Tuğba desceu para a casa de Bilnaz, não sem antes mandar um recado pela irmã de Yasin sobre a festa no Canal 8.
Mal sabia que aquilo mudaria a história.
Por volta das sete horas da noite, Tuğba e Zeynep estavam prontas; pegaram um carro de aluguel e, enquanto Tuğba se dirigiu à entrada principal, a mais velha entrou pelo setor dos empregados.
Depois de todo o elenco pronto, ela teve permissão para ir à festa.
O coquetel era animado e fino, inconscientemente procurou Emir Ozkurt e o encontrou em um canto, flertando com Yasemin Hanım, a sua parceira de cena, e fotógrafos tiravam fotos deles; Zeynep foi para o bar e pediu uma dose de champanhe.
Enquanto o barman a servia, observou vários drinques e um deles chamou sua atenção, pois unhas negras e longas soltaram nele um comprimido, que efervesceu rapidamente.
Os olhos dela permaneceram no copo, no intento de avisar ao dono que haviam colocado algo na bebida, e, qual não foi sua surpresa quando viu Emir pegá-lo e levá-lo aos lábios.
Zeynep correu até ele, que parou de beber e olhou o corpo dela marcado no vestido.
- Aqui não fica bem me procurar, vá até meu quarto.
- Não seja tolo...
- Menina, o que é? Quer um autógrafo? Agora não! - ele aumentou o tom de voz e todos olharam para ela, que desistiu.
- Que se dane! - Zeynep saiu do salão e foi para o lado de fora.
Ficou algum tempo observando as estrelas, ouviu aplausos e burburinhos, até que se levantou para ligar para Tuğba. Foi quando viu o senhor Ozkurt parado perto da saída; ele levou alguns minutos para sair do lugar, e quando o fez, estava visivelmente trôpego. O astro ia em direção ao carro e notou que estava visivelmente bêbado.
Como aquilo aconteceu em tão pouco tempo?
A jovem correu para impedir o ator de pegar a direção, mas não conseguiu.
Em menos de cinco minutos, Zeynep ouviu o som de pneus cantando, antes de uma batida.
Ela correu, assim como os outros.
Mas foram os gritos de Tuğba que a abalaram... Empurrou a multidão, desesperada, para se deparar com Tuğba segurando Yasin em seu colo. Emir Ozkurt atropelara o seu cunhado.
Emir sentiu-se mal assim que sentou ao volante; pensou que era uma leve tontura, os olhos fecharam e a inconsciência que lhe tomou o corpo fez com que o pé pisasse no acelerador, que respondeu prontamente. O rapaz só abriu os olhos quando sentiu que tinha batido em algo e piscou diversas vezes, agradecido por ser apenas uma impressão.
Até que viu a morena batendo na porta do carro; ela era muito bonita, mas nem isso o fez abrir os olhos.
Só recobrou um pouco da consciência quando Murat o agitou. Viu sirenes piscando com tons multicores e tentou avisar ao amigo que o erguia que não havia necessidade de uma ambulância, pois ele estava bem, apesar de que a cabeça latejava e era difícil permanecer em pé.
- Olha o que você fez, seu monstro - uma jovem muito bonita, de imensos olhos azuis o agredia.
Quando olhou para o chão, Emir notou um jovem caído. O desespero apoderou-se dele, afinal ele era um ótimo motorista e tomava todo o cuidado para não cometer nenhuma falha nos raros momentos em que dirigia.
Ele tinha bebido apenas dois goles daquela bebida, e não entendia como ficara bêbado tão rápido.
Emir tentava explicar o que aconteceu, mas Murat andava de um lado para o outro e era difícil acompanhar o amigo.
Os paramédicos colocavam o rapaz na maca, Murat o instigava, a jovem gritava e ele fixou o olhar nela, que abraçava a si mesma. Como era mesmo o nome dela? Outono. Ele gostava do outono. Deu dois passos em direção a ela e a escuridão o engoliu.
Zeynep estava em choque com o que tinha acontecido; Yasin tinha que ser levado às pressas para a emergência, e Tuğba, gritando sem parar ao seu lado, não ajudava em nada.
Um sentimento de culpa se abateu sobre ela. Se tivesse insistido um pouco mais com o "astro", seu cunhado não teria se machucado.
Ela sabia que Emir Ozkurt tinha sido drogado, viu o momento em que a mulher colocou a droga no seu copo. Ela detestava aquele homem, mas não era injusta e não sabia o que fazer. Procurou Emir e o viu caído no chão; correu até ele e nesse momento Murat notou que o amigo estava caído e entrou na frente da jovem, impedindo que ela chegasse até ele.
Todos foram levados para o mesmo hospital, e o destino agiria novamente.
Quando Emir recobrou os sentidos, estava em uma cama de hospital; Murat, parado ao seu lado, conversava com o médico.
Emir recobrou os sentidos, sua cabeça estava zonza ainda, mas o mal-estar já havia passado. Nesse momento lembrou-se do que acontecera, e, com certa dificuldade, perguntou ao amigo sobre o jovem que tinha sido atropelado; Murat comunicou-lhe que o rapaz estava bem e fora de perigo.
- Agora, para evitar o que vem a seguir... Veja bem, é para que você não tenha que lidar com outro tipo de problema. E dessa vez um problema bem sério....
- Evitar?
- Sim, Emir, você permanecerá internado por tempo indeterminado para não sair daqui e ir direto para a delegacia. O dia já amanheceu, eles não pensariam em nenhum motivo para que você ficasse solto. Vou atrás de um advogado conseguir um habeas-corpus e...
- Murat, eu estou bem. Hoje à tarde tenho um encontro com o produtor daquele filme de Hollywood, e eu não posso simplesmente ficar internado.
- Então reze, isso é bom. Vai aprender a não beber antes de dirigir.
- Murat, eu só toquei os lábios naquele copo; primeiro, porque era um champanhe de péssima qualidade, e depois porque eu... - freou o pensamento, ele largara a bebida e tinha ido atrás da maquiadora, pois ela parecia mais suscetível a ele.
- Então reze por um milagre! A família do rapaz vai te acusar, e você precisa de uma testemunha que prove que não bebeu ou que sua bebida tinha sido batizada.
Pela cara do amigo, Emir Ozkurt percebeu que tinha se metido em uma confusão que não seria tão fácil de resolver.
O que ele não imaginava era que Zeynep estava na porta, pensando em lhe dizer poucas e boas, e acabou por ouvir tudo.
A jovem sabia que ele dizia a verdade, tinha sido drogado e não estava bêbado. Que a droga tinha sido colocada na sua bebida. Mesmo detestando esse homem, ela não iria deixá-lo pagar por algo que fora apenas um acidente.
Saiu sem ser vista e foi até a delegacia, onde entrou com passos firmes e foi direto ao atendente.
- Bom dia! Sou Zeynep Baysal e estou aqui para testemunhar a favor do senhor Emir. Eu sou a pessoa que viu o momento em que uma mulher colocou algo em sua bebida e vi o acidente. Posso afirmar que ele não atropelou ninguém de propósito.
***
Quando Murat recebeu a notícia de que havia uma testemunha e que Emir poderia responder em liberdade por causa dela, entrou no quarto e viu o grande ator com um humor que deixou Murat assustado.
- Bom dia, chefe! Sua noite deve ter sido boa, já que acordou com ótimo humor - disse com ironia.
- Bom dia, meu querido amigo. Sim, estou com um ótimo humor, depois de passar esse tempo todo tendo que me fingir de morto.
- Tenho uma boa notícia, você terá alta daqui a pouco e iremos para casa. A sua bela maquiadora testemunhou a seu favor, ela viu tudo. Acredita que o rapaz acidentado é cunhado da moça? Que mundo pequeno...
- Ela está aqui?
- Não. Hoje à tarde você segue firme com a entrevista com o produtor....
- Zeynep...
- O que você disse, Emir?
- Eu disse vamos para casa, mas no caminho quero passar em um pet shop, preciso comprar dois gatos.
- Gatos? Para quê?
- Saia, eu preciso me trocar.
Emir estava muito bem-humorado, não havia apenas saído de uma enrascada como poderia seguir com os planos da tarde.
Desceram por uma saída privativa e foram direto ao pet shop, onde pediu um casal de gatos.
A moça trouxe uma gata mesclada em preto e branco e um gato de uma tonalidade quase dourada.
- Quero uma coleira que se divida, existe?
- Que se divida? Como assim?
- Um coração que se parta em dois, tem? - Murat ergueu a sobrancelha e Emir ignorou.
- Eu tenho a coleira, mas esse coração o senhor encontra na joalheria e...
- Obrigado. Murat, pague a moça. E coloque os gatos em caixas de transporte diferentes.
Emir saiu correndo e foi à joalheria, a atendente mostrou uma peça do jeito que ele desejava; em uma das partes mandou gravar Outono e na outra Spring.
Só então foram para a cobertura de Ozkurt, que deixou Murat com os gatos e subiu para o segundo andar do duplex, afim de tomar um banho demorado.
Precisava tirar o cheiro de éter do corpo, aquele odor enjoativo e característico de hospital; separou uma roupa pouco usada e desceu fechando o relógio.
Murat tomava café e arregalou os olhos para o amigo, que estava vestido de uma maneira diferente do habitual.
- Desculpe a minha indiscrição, mas esse presente é para o seu novo caso? -perguntou enquanto Emir abria uma das caixas de transporte e tirava uma foto do gato alojado ali, mas levava o outro.
Emir deu uma risada cheia de intenções, pegou um pedaço de pão, tomou um gole do suco de laranja e se despediu do amigo.
Desceu pelo elevador e se dirigiu até a garagem, onde estava sua Mercedes reserva; detestava aquele carro, mas não havia outra maneira, com o carro no conserto, tinha que seguir com aquele. Digitou um endereço no GPS e foi dirigindo pelas ruas de Istambul.
Quase uma hora depois, chegou ao seu destino.
O bairro em que Zeynep morava ficava em um dos lados mais pobres da cidade.
Emir desceu do carro, estava usando um boné preto e óculos escuros, em um visual esporte para tentar passar despercebido pelas pessoas.
Andou um pouco e achou a casa da garota, era pintada de amarelo e um pouco velha; ele bateu e segundos depois a porta se abriu.
Quando Zeynep apareceu, usava jeans, uma blusa branca amarrada na cintura e um lenço enfeitando seus cabelos longos; estava muito despojada, e, mesmo assim, parou por um instante e ficou apreciando a beleza daquela mulher.
Ele tirou os óculos e ambos ficaram alguns minutos perdidos nos olhos um do outro.
- Obrigado senhorita, eu...
- Não fiz nada além do que eu deveria, não me agradeça. Ontem eu queria te falar que alguém colocou algo na sua bebida.
- Me desculpe; mas, me diga, ficou com saudade?
- Saudade? Desculpa, eu não entendi.
- De mim - Emir se aproximou, mais consciente da beleza da jovem e menos impactado pelo que ela lhe causava.
- Senhor Ozkurt, eu não tenho um único motivo para notar a sua presença, quanto mais a ausência.
- Touché. Eu te trouxe um presente.
- Senhor Emir, eu não quero nada seu, eu fiz por que... - as palavras morreram quando Emir tirou Outono da caixa de transporte. O olhar dela ganhou um novo brilho.
- Esta é Outono, quero que fique com ela, Zeynep.
- Ela é linda, ai meu Deus - Zeynep abraçou a gata e Emir se aproximou um pouco mais.
- Este é Spring, que significa primavera. Ele é meu, e veja, as coleiras se completam - Emir mostrou a foto que tirara há pouco. Zeynep olhou a coleira da gata que segurava.
- Senhor Ozkurt, eu...
- Emir, me chame de Emir - ele deu mais um passo enquanto olhava fixamente a boca da jovem, que correspondeu. O rapaz chegou a inclinar-se para ela e só não a beijou porque Murat chegou.
- Emir, você esqueceu a ração - o senhor Ozkurt olhou para ela, o momento havia passado.
- Deixe a ração aí. Adeus, Zeynep. Minhas recomendações. Até breve... - se despediu visivelmente confuso.
Ele saiu pisando duro, sem olhar para trás.
Zeynep estava nervosa, depois de quase ter sido pega beijando aquele cara.
- Garota estúpida, caindo no charme daquele Casanova. Ele te diz meia dúzia de palavras bonitas e você já se derrete toda - disse a si mesma, fechando a porta.
Envergonhada com o que tinha acontecido, esqueceu completamente da Outono, que estava de volta à caixa. Deu um sorriso, e pegou a gatinha no colo; ela era tão fofinha, como ele adivinhou que seu sonho de menina era um animal daqueles?
A jovem não conseguia acreditar que o mesmo homem arrogante do primeiro encontro era o mesmo que esteve ali alguns minutos atrás.
Ficou pensando se ele não teria um irmão gêmeo, e era ele quem estivera ali.
Perdida em seu mundo onde haviam apenas outono e primavera, não notou o momento em que sua mãe e irmã chegaram em casa.
- Irmãzinha, de quem é esse gatinho lindo?
Zeynep, assustada, não soube o que falar e inventou a primeira coisa que veio à cabeça.
- Zehra ganhou de um pretendente; bem, vocês sabem como ela é alérgica, não poderia ficar com o gatinho. E acabou dando para mim, assim ela pode visitar.
Fazilet olhou desconfiada e não acreditou muito naquele papo, mas preferiu se calar.
Apenas lembrou-se do carro caro que estivera no bairro. Havia algo ali.
Já Emir tentava explicar o que estava acontecendo entre ele e a maquiadora.
- Murat, eu...
- Apenas tome cuidado e não magoe a moça. Vamos ao que nos interessa.
Murat passou as informações do jantar que Emir teria com um produtor americano, o horário e o local, que seria no restaurante do hotel da família dele.
Essa era a primeira oferta internacional, e Murat estava apostando todas as suas fichas no estrelato do amigo.
Emir se despediu de Murat, dizendo que iria para casa descansar um pouco até o horário do jantar. No caminho foi lembrando daquele quase beijo. Como um quase mexera tanto com ele?
Não conseguia tirar essa garota da mente! Desejava ter sentido aqueles lábios, e sabia que ela não era indiferente a ele, como poderia ser? Não sabia se aquilo era atração, tesão reprimido ou se ele tinha uma dívida de gratidão por ela tê-lo ajudado a se livrar da prisão. Mas Zeynep era linda, e o jeans marcava seu corpo de uma maneira perfeita.
Pensou no que ela fazia naquele momento, pegou Spring no colo e o gato ronronou.
- A primavera é mais fácil que o outono, meu amigo.
***
Zeynep se sentia estranha, lembrando do quase beijo no astro. Perdida em pensamentos, com Outono em seu colo, se assustou quando o celular tocou.
Era Ayşen avisando que precisariam dela naquela noite. A gravação seria em um hotel, e a amiga informou que a van da produção iria buscá-la às seis horas da tarde.
A jovem tinha algumas horas até lá, e passou a organizar seu material para o trabalho.
Pontualmente, a van chegou para pegar Zeynep, que por muito tempo só lembraria daquilo.
***
Emir descia para o restaurante do hotel, mas uma jovem atendente explicou que o produtor o esperava em um dos quartos.
Ele subiu com a chave-cartão e, ao abrir o quarto foi dominado pela escuridão. Quando abriu os olhos, levou alguns minutos para entender onde estava. Havia uma mulher dormindo em seu peito, ele a tirou delicadamente e notou que era Zeynep.
Deslizou a mão por sobre si mesmo e notou que estava apenas de cueca. Não teve coragem de tocá-la, e a chamou até que abrisse os olhos. Quando a jovem despertou, estava tão ou mais assustada que ele.
- O que você fez comigo? - Zeynep gritou.
- Acordei ao seu lado, mas você já devia estar prevendo isso, não é? Se eu soubesse que você era esse tipo...
- Nunca! Seu canalha, você me desonrou! Eu não acredito que você me trouxe para cá inconsciente, eu...
- Te desonrei? Cadê sua honra? - Emir levantou-se e mostrou o lençol limpo - A não ser que, como eu imaginava, não havia mais nada em você que manchasse um lençol.
Zeynep se sentiu aliviada, provavelmente aquilo dizia mais a respeito de Emir do que dela mesmo.
Não duvidava daquele flagrante ter sido armado para prejudicarem o rapaz, afinal de contas, alguém tentou drogá-lo com a bebida.
Mais tranquila, passou a procurar sua roupa entre os lençóis na cama.
- Você ouviu o que eu falei?
- Eu só quero ir para casa, eu não estou nem aí para o que você pensa de mim.
- Penso que você é um rosto bonito, um corpo sexy e uma mente astuciosa... Se me queria na sua cama, não precisava ser desacordado, aliás, eu posso te mostrar agora.
- Não estou interessada - não encontrou suas roupas, olhou o paletó dele sobre uma cadeira e o pegou.
Vestiu uma camisola, que estava jogada no chão; para sua sorte, a peça passava facilmente por um vestido longo.
- O que você faz com minha roupa? - Emir parou a alguns centímetros dela; ele podia sentir sua respiração e sustentou o seu olhar.
- Algo que nunca farei com você: esquentando meu corpo.
- Sua boca merece um beijo.
- E seu rosto merece um tapa, mas infelizmente não tenho tempo.
Zeynep foi até a porta e saiu.
A morena olhou para os lados e caminhou até o elevador, olhou para os pés descalços e balançou a cabeça, afinal, não tinha nem mesmo como pegar um ônibus. Ligou para Zehra, que veio buscá-la quase imediatamente.
- Amiga, mas vocês...?
- Não, eu nunca me deitaria com um homem que não amo.
- Zeynep... Estamos falando de Emir Ozkurt, o homem mais lindo e gostoso da Turquia!
- Zehra, ele é um porre! Ele se sente e pensa que é melhor que eu...
- A mãe de Yasin disse que ele está bancando todo o tratamento dele, que deixou um empregado aos serviços dela.
- Ele... Zehra! Já ia esquecendo, você me deu uma gata que ganhou de um pretendente...
- Eu sou alérgica a gatos, Zeynep, e não há pretendentes...
- Eu sei, mas falei para a mamãe que foi você quem me deu uma gata que eu ganhei.
- Está bem, mas quem te deu essa gata?
- Emir.
- Vocês estão juntos ou não?
- Claro que não.
- Quando você tiver coragem, me conte tudo.
***
Emir passou a noite em claro, aquela mulher lhe levava a extremos. Olhava a madrugada dando passagem para a manhã em Istambul, e bebeu mais uma xícara de café. Murat não atendia seus telefonemas e aquilo o estressava.
Lembrava dela dormindo em seus braços e sentiu um calor a percorrer o corpo, como se fosse uma corrente elétrica capaz de aquecer cada centímetro dele.
***
Zeynep não dormiu, ainda sentia o corpo entorpecido pela raiva da noite anterior; por sorte a mãe não estava em casa quando chegou e a irmã se encontrava no hospital com Yasin.
Outono enroscou-se entre suas pernas, o que a fez sorrir.
***
Emir chegou ao escritório de Murat; notou as pessoas cochichando por onde ele passava e estufou o peito, ser protagonista de uma série de uma grande produtora lhe trazia aquilo: atenção.
Abriu a porta da sala de Murat e o viu furioso.
- Como você larga o grande Stephen Lions e vai para a cama com uma maquiadora?
Emir ficou surpreso com aquilo, não esperava que ela fosse atrás de mídia.
- Murat, ela me drogou, e...
- Ah! Te drogaram antes de você dirigir e agora, antes de dormir com ela... Sei...
- Murat, me ouça...
Emir tentou explicar-se, mas o amigo não acreditou em absolutamente nada do que ele tinha falado. Murat atendeu o celular, e logo estava discutindo com alguém.
E quando o amigo citou o nome do portal Crazy, percebeu que algo muito grave tinha acontecido.
Crazy era um blogueiro que ninguém sabia ao certo se era homem ou mulher. Entre outros projetos, o objetivo maior do portal era falar mal de sua carreira, e de tudo que era relacionado a Emir.
Assim que Murat desligou o celular, mostrou a notícia no site de Crazy.
Emir Ozkurt, o famoso ator da Turquia, é pego saindo de hotel com maquiadora que depôs a seu favor.
Olá, cordeiros! O grande superstar Emir foi flagrado saindo de um hotel logo depois da misteriosa mulher que o acompanhava. E, é claro, nosso portal teve acesso em primeira mão à sua identidade. A mulher, que saiu vestindo o paletó do astro máximo, Tchan, Tchan, Tchan, Tchan... Não era ninguém mais, ninguém menos, que Zeynep Baysal, a maquiadora que serviu de testemunha no acidente em que o ator, drogado, atropelou um pobre rapaz.
Vejam isso, cordeiros, parece que nosso ator promíscuo andou pagando pela boa ação da moça com favores que não devem ser ditos neste blog, que preza pela moral e bons costumes do nosso país.
Vamos acompanhar esse caso, e veremos no que vai resultar esse escândalo.
Bye bye, carreira internacional do nosso amado superstar. Não fique triste, pequeno Ozkurt, você ainda será superstar em Istambul, pelo menos por enquanto.
Um beijo do Crazy.
Emir andou de um lado para o outro, os olhos azuis injetados de raiva; ainda não conseguia absorver a notícia.
- Como aquele cretino do Crazy sabia que a mulher misteriosa era Zeynep?
- Por que você não pensa com a cabeça de cima?
O jovem ator estava furioso; tentava lembrar do que tinha acontecido na noite anterior, mas não vinha nenhuma lembrança em sua mente.
Ele recordou-se de ter recebido o cartão para entrar no quarto, onde o produtor o esperava para uma reunião. Depois daquilo, não conseguia se lembrar de mais nada.
- Murat, eu juro para você que não toquei nessa garota, eu já te expliquei que não sei como fomos parar na mesma cama... Isso só pode ser uma armação dela, que notou que não tinha chance comigo e armou tudo isso apenas para complicar minha vida.
- Emir, por favor amigo, não minta para mim. Eu te conheço faz muitos anos e já sei das suas preferências por jovens como Zeynep. Te avisei que sua carreira está entrando numa ótima fase, disse para não aprontar nada e o que você faz? Dorme com a testemunha do acidente onde você quase matou um jovem!
- Eu não tenho nada com essa garota, me escute.
- O que vamos fazer, hein?? Com que cara eu vou chegar no produtor da série? Vou dizer para ele que vocês se apaixonaram, que estão perdidamente apaixonados? Talvez eu deva anunciar um casamento?
- Nunca, Murat. Eu não tenho nem quero ter algo com essa moça.
***
Zeynep bufou assim que chegou em casa. Passou o dia sem celular, não fazia ideia do que acontecera com o aparelho; estava exausta, pois Yasemin exigiu que ela a acompanhasse em uma externa no interior, e passara o dia praticamente isolada.
O freelance na série de maior sucesso do país estava tomando muito do seu tempo.
Assim que entrou em casa, ouviu gritos vindos da cozinha.
- Outra vez Tuğba e mamãe estão discutindo? Qual seria o concurso perdido dessa vez, Outono? - pegou a gata no colo, que lhe escapou rapidamente.
Assim que entrou na cozinha, foi recebida pela mãe com um tapa no rosto, e por um triz não caiu no chão.
- O que aconteceu, mamãe? Acabei de chegar de um dia exaustivo no trabalho e sou recebida assim?
- Cansada de estar nas camas de homens? Foi para isso que eu te criei?
- Mamãe, eu...
- Você é uma imoral - Fazilet pegou o celular de Tuğba na mão e mostrou a notícia estampada - Viu isso? A minha filha envolvida em um escândalo com esse homem! Meu Deus, que vergonha! Como vou andar pelas ruas do bairro depois disso tudo? E não minta, eu vi o paletó dele nas suas coisas. Eu vi! Oh, meu Deus, minha filha está desonrada... Istambul inteira acha que sou mãe de uma mulher fácil, Allah! Allah!
Aquilo não poderia estar acontecendo! Zeynep ficou em choque ao se ver como manchete de um dos blogs de fofocas mais famosos da Turquia. Que vergonha e humilhação, ser exposta como mais uma das conquistas do todo-poderoso Emir Ozkurt.
A decepção no olhar da mãe e o olhar de raiva da irmã cortaram seu coração em mil pedaços.
- Mamãe, eu posso explicar para a senhora, isso não é nada do que está pensando. Eu fui para o trabalho, lembra? Mas não sei como fui parar no mesmo quarto desse cara, não aconteceu nada entre nós dois. Eu saí escondida de lá e não sei como conseguiram me fotografar. Isso só pode ser uma armadilha.
Fazilet olhava para a filha com expressão de desgosto... Todos no bairro teriam mais motivos para rir e fazer piada das filhas dela, como se ela não fosse uma boa mãe.
Zeynep permaneceu sentada na cozinha, ouvindo o choro da mãe, que não parava de falar como sua vida estava acabada.
A filha sendo apontada como amante de um ator famoso, como se fosse uma dessas mulheres da vida que dormem com homens ricos por interesse.
Fazilet olhou para Zeynep, e, sem dizer uma palavra, foi para o seu quarto.
A jovem ficou ali parada com o celular da irmã entre os dedos, chorando e lendo os comentários nojentos de pessoas que a apontavam como uma mulher da vida, que se aproveitou do sucesso e da fama dele para ter uma carreira.
A noite anterior continuava em branco em sua cabeça. Ela lembrava-se apenas da van, ninguém mandou um veículo para buscá-la. Não havia o que fazer...
Zeynep, por um instante, pensou que Emir tinha armado aquilo para se vingar do fora que lhe dera, mas ele não poderia ser tão baixo a ponto de destruir a honra de uma garota apenas por ego. Ou seria?