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O Bebê do Advogado

O Bebê do Advogado

Autor:: Lili Marques
Gênero: Romance
Helen e Fernando tinham um casamento perfeito e a notícia da gravidez só intensificou esse amor. Mas o castelo perfeito deles começa a desmoronar quando descobrem que o filho tem síndrome de Down. Fernando não quer mais o bebê e pede a ela que faça uma escolha, só não esperava que Helen fosse pedir o divórcio. Quando se vê diante da ideia de perder a mulher de sua vida ele vai precisar fazer uma escolha, superar seus preconceitos, ou perder a pessoa que mais ama.

Capítulo 1 Prólogo

- Você sabe que eu te amo, não sabe? - a voz de Fernando soava triste e pesarosa.

Estávamos sentados no sofá em nossa sala, havia dias que não tínhamos uma conversa decente.

- Claro que sei. E eu te amo do mesmo jeito. - aproveitei o momento de abertura daquela casca esquisita que se tinha criado entre nós nos últimos dias e o abracei, me aconchegando nele, sentindo a falta que fazia não ter o seu toque e calor sempre que eu quisesse.

Desde que tínhamos assumido nosso relacionamento nunca ficamos sem nos falar desse jeito, nem mesmo deixamos qualquer que fosse o problema ficar entre nós. Sempre procurávamos conversar depois de uma briga e acertar tudo.

Esse tinha sido o maior período desde que começamos a namorar que ficávamos sem nos falar e me doía ainda mais não saber o porque, o que tinha dado nele para se distanciar de mim daquela forma?

- Então você vai me entender, vai compreender o meu pedido. - o peito dele se expandiu com a respiração profunda, seus olhos estavam sérios e pareciam cansados. - Depois de pensar muito eu cheguei a conclusão de que o melhor a fazermos é um aborto, eu já procurei uma clínica e achei o lugar perfeito, vou estar do seu lado o tempo todo e depois se ainda quiser um filho podemos tentar de novo, talvez inseminação ou até adoção, não me importo de verdade.

Eu fiquei em choque por alguns minutos, desacreditando do que ele tinha acabado de dizer, só podia ser uma pegadinha de muito mau gosto, mas que ele se redimiria no minuto seguinte.

Mas a risada não veio, a frase que espantaria meu choque nunca apareceu. Fernando continuou ali me olhando sério em expectativa.

- Você está falando sério? - o questionei sentindo todo meu corpo se retesar quando processou cada palavra que ele disse. Fernando acenou afirmando o que eu temia. - Perdeu a cabeça? Eu não vou tirar meu filho, não vou fazer merda de aborto nenhum...

Sai dali me afastando dele e envolvendo as mãos na barriga, mesmo que mal desse para se notar, de forma protetora. Ele continuou sentado no sofá, sua expressão tentava me passar uma calma e confiança de que tudo daria certo, e com certeza se o assunto fosse qualquer outro eu teria confiado, como confiei tantas vezes antes, mas dessa vez não ia funcionar.

- É o melhor para todos você não vê? Uma criança assim requer cuidados especiais, é tudo bem mais complicado e... há tantas complicações Helen, tanta coisa pode acontecer com uma criança assim. - eu balançava a cabeça freneticamente negando todas as babaquices que ele estava dizendo. - É isso o que você quer? Trazer uma criança ao mundo para sofrer e para nos fazer sofrer? Tem ideia de com quantos problemas ele pode nascer? Pode nem mesmo chegar a viver por muitos anos!

Meus olhos estavam cheio de lágrimas a essa altura. Eu não podia acreditar que o homem doce e apaixonante, que sempre tinha tentado me mostrar o lado divertido e positivo da coisa, agora estava falando assim de seu próprio filho.

Mas não me permiti chorar, ele não merecia ver minhas lágrimas, se ele achava que podia me fazer desistir do bem mais precioso que eu havia ganhado ele estava muito enganado.

- Para o inferno você e suas ideias de merda!

- Eu não vou Helen... não vou conseguir ficar aqui e passar por tudo o que acabei de te falar. - Fernando respirou fundo e passou as mãos no cabelo de forma impaciente, estava claro o quanto aquilo o machucava, mas porque ele continuava a dizer? - Como te disse no começo da conversa, eu te amo de uma forma que você não pode imaginar, mas isso? - ele apontou com a mão em direção a minha barriga. - Isso eu não posso fazer com você! Não vou ficar aqui e assistir você se arrastar para esse sofrimento. Sou eu ou o bebê.

Uma risada histérica me escapou quando ouvi o ultimato. Aquilo não era real, Fernando não estava fazendo isso comigo. Ele achava mesmo que aquilo seria uma escolha? Fernando tinha realmente perdido o maldito juízo!

- Você pode pegar todas as suas coisas e ir se foder, vá para o mesmo lugar onde colocou a merda do seu juízo perfeito e o nosso casamento! - gritei deixando claro que não toleraria aquela loucura, não ia ouvir mais nada do que ele dissesse.

Fernando recuou assustado com minha reação, eu entendia já que ele nunca tinha me visto transtornada assim, não era do meu feitio falar palavrões ou gritar, não gostava de discussões já tinha tido o suficiente no meu primeiro casamento. Essa com certeza era a primeira vez que eu falava daquele jeito com ele, mas também era a primeira vez que ele agia como louco de pedra.

- Helen... - ele estendeu a mão encarando meu rosto e parecia querer dar um passo em minha direção, os olhos conturbados e cheios de lágrimas não derramadas me deram a certeza de que aquilo doía nele.

Como não doeria, ele tinha se apegado ao filho, depois de meses tentando engravidar finalmente conseguíamos, Fernando só falava no nosso bebê, na nossa vida juntos, fazia planos para o futuro da criança, e a notícia foi um baque que o fez se fechar em um casulo me deixando para fora, agora eu sei que foi por culpa dos pensamentos negativos, ele se encheu de coisas ruins e agora estava colocando elas para fora da pior forma. Eu nem conseguia imaginar que tipo de coisas estavam se passando na cabeça dele nesse momento, quantas coisas leu ou quais informações erradas ele engoliu durante esses dias.

O homem na minha frente sofria com sua decisão, mas seu orgulho o segurou de dar mais um passo e acabar com a nossa distância. Ao invés disso ele se virou e se trancou no nosso quarto.

Parte de mim queria acreditar que ele tinha ido para lá a fim de guardar suas coisas e sumir, mas eu sabia que era porque suas opções se resumiam ao nosso quarto ou o quarto do bebê e ver as coisas do nosso filho era a última coisa que ele queria.

Capítulo 2 I - Helen

Sempre soube que na vida havia momentos únicos responsáveis por grandes mudanças no cenário geral, aquela virada de mesa, a girada do mundo e de repente tudo o que você planejou, toda sua vida que parecia perfeita desmorona bem diante de seus olhos e você não tem poder de fazer nada, tinha noção de que estava passando por um desses momentos nos últimos meses.

Agora mesmo, por exemplo, pegar um ônibus sozinha para São Fernando, carregando uma mala na mão e meu bebê na barriga, não era o que eu esperava estar fazendo a essa altura da vida, mas era minha única opção no momento, na verdade não a única, mas a melhor.

Eu sabia que precisava de apoio nesse momento, não aguentava mais ficar trancada dentro de casa, sufocando um pouco a cada dia com as palavras engasgadas dentro de mim. Por isso no momento em que Emily me ligou insistindo que eu fosse para São Fernando, "que eu fosse para casa", eu sabia que tinha que aceitar.

Desde que Fernando tinha decidido me abandonar eu havia passado um tempo remoendo sobre minhas escolhas.

Tinha sido um acordo entre nós dois enquanto tentávamos engravidar que eu deixaria o escritório para me dedicar ao nosso filho, eu tinha escolhido e ele me apoiou na escolha.

Havia desejado isso por anos e já tinha me privado por muito tempo focando na minha carreira, mas agora que acreditava finalmente ter achado o homem que seria um pai perfeito eu sentia que era a hora de largar o trabalho e focar naquela nova vidinha.

Então quando o primeiro ultrassom foi feita confirmando a gravidez eu dei entrada na papelada de desligamento do escritório e me dediquei a buscar mais sobre meu próximo desafio.

Mas as surpresas chegaram nos tirando do eixo, meu obstetra pediu exames mais específicos conforme os meses avançavam, eu não era mais tão novinha assim, já estava no auge dos meus trinta e sete então a preocupação com a gravidez era explicada. Minha saúde estava perfeita, mas depois de um ultrassom ele pediu por um exame de translucência nucal, o médico me assegurou que eram só cuidados extras, a verdade é que ele não queria nos alertar antes de ter total certeza.

Então depois de três semanas em completa agonia com o resultado nosso médico nos contou que tinham detectado a trissomia do cromossomo 21, em outras palavras nosso bebê tinha Síndrome de Down.

Nosso garotão era mais do que especial, ao contrário do resto da população que tem 46 cromossomos em cada uma das células, nosso filho teria 47. Ocorre um entre cada 700 nascimentos, eu tinha pesquisado, e estava acontecendo com a gente. As coisas seriam diferentes, ele ia precisar de um pouco mais de atenção e cuidado, mas nós podíamos fazer isso, era nosso filho e para mim cada momento seria mágico, por mais difícil que pudesse ser.

Eu não ia negar que entrei em pânico, me fazendo mil e um questionamentos sobre o porquê daquilo, o porquê de estar acontecendo conosco, quais dificuldades teríamos de enfrentar. Mas eu aceitei que era algo que precisaríamos trabalhar em grupo, nós éramos os pais e um time, tudo daria certo.

Só não esperava que Fernando fosse reagir totalmente o oposto, o homem tinha se fechado por dias, falava só o básico e passava a maior parte do tempo enfiado no notebook. Esperava até que achasse que eu estava dormindo para então se deitar e saía bem cedo, antes que eu acordasse. Por vários dias era como se eu fosse uma estranha dentro da minha própria casa, como se não existisse mais ninguém com ele no lugar. Então ele finalmente soltou a bomba.

E foi essa a última vez que eu o vi, ele sumiu por duas semanas e há um dia recebi uma mensagem onde ele avisava que estava indo para a casa do pai em São Fernando e que esperava minha decisão.

Bem se não tinha ficado claro para ele na outra noite eu não ia desenhar. Eu entendia sua preocupação com o futuro do nosso filho, eu me sentia do mesmo jeito. Mas isso não era desculpa para eu não o querer mais!

Fernando tinha perdido todo o juízo e eu não conseguia compreender o motivo de querer tomar uma decisão tão insana.

Não demorou para que Emily ligasse me chamando para ir e eu aceitei. Em toda minha fragilidade eu não conseguia mais me manter sozinha, essas semanas que ele apenas me ignorou e as outras duas sumido do mapa, eu estava acabada emocionalmente, lutando para me manter forte por meu filho, mas me sentia perdida, sem um rumo, um porto seguro, alguém com quem eu pudesse contar.

Estar grávida não era doença, eu jamais trataria desse jeito, mas é o momento mais poderoso e vulnerável ao mesmo tempo na minha vida. Ter que lidar com seu corpo mudando, os hormônios descontrolados, a ideia de ter uma vida por quem você é responsável dali por diante, agora junte isso ao fato de saber que seu filho tem T21 e você vai ter que adaptar tudo o que planejou para uma criança que precisará desde que nascer de um fisioterapeuta, uma fono e mais um monte de ajuda.

Eu estava sim perdida, vulnerável e, apesar de toda a vergonha que sentia em admitir, sozinha.

- Helen! - o grito de Emily chamou a atenção de todos no lugar antes mesmo que ela corresse em minha direção sem se importar com nada a sua volta.

E aqui estava, minha cunhadinha, que sempre pareceu ter uma sombra cobrindo seus olhos, agora radiante. Não sei se era o ar puro da cidade, o sol ou algo a mais. Minhas apostas eram que havia algo a mais por trás daquele sorriso!

Era vergonhoso, eu sei, mas meus soluços saíram sem que eu conseguisse controlar. Ver um rosto conhecido e amigável em tanto tempo me trouxe um alívio que eu não imaginei sentir. Seu abraço me trouxe conforto ajudando a barreira a estourar de vez, eu estava em segurança, podia chorar em seu ombro que ela me ajudaria a não desmontar.

Emily me manteve apertada em seu abraço até que eu me sentisse pronta para me afastar e encarar seu rosto.

- Oh meu Deus, você está linda. - sua voz era doce e verdadeira, ela encarou meu rosto e notei em seus olhos que minha aparência não era muito boa. - E esse bebezão está crescendo tão rápido.

Minha barriga estava grande, bem maior do que quando ela havia deixado São Paulo, o vestido que eu usava evidenciava ainda mais a forma arredonda. Eu a toquei como reflexo e as mãos de Emily se juntaram as minhas em uma carícia aconchegante.

Mais uma vez lá se iam as lágrimas derramadas, fazia um bom tempo que apenas eu tocava e conversava com meu bebê. Por sorte eu podia culpar os hormônios por ter virado uma cachoeira ambulante.

- Você que está linda, parece tão mais cheia de vida do que quando saiu de São Paulo. - toquei seu rosto com o mesmo carinho que ela me dava. - Me diga isso é coisa de São Fernando ou têm alguma pessoa responsável?

Emily apenas gargalhou como se tivesse sido pega no flagra e segurou meu braço, não antes de pegar a única mala que eu havia trazido, nos arrastando para fora da estação.

Ouvi suas histórias já no carro a caminho de casa, ao que parecia tudo o que a cidade tinha de pequena tinha de agitada, a vida de Emily esteve uma loucura nos últimos meses. Ela me contou do reencontro com o ex, de quem eu nunca tinha ouvido falar, também me confidenciou sobre a amiga que estava tentando superar os problemas e processar o ex-marido por violência doméstica e me deixou a par do progresso que Miguel estava fazendo.

Parte de mim me fazia sentir mal de arrastá-los para o meu problema, especialmente agora que tinham outras pessoas morando na casa.

- Papai está eufórico com a ideia de ter vocês dois em casa. Ele não vê a hora de ver sua barriga. - Emily disse no momento certo, parecendo sentir minha hesitação.

Estávamos já perto da casa e eu encarei o céu azul e o clima quente, apesar da brisa das árvores. Era por isso que eu amava sempre que vinhamos passar as férias aqui, a cidade parecia ter saído de um filme, cidade pequena, pessoas amáveis, a natureza em todo o lugar. Era perfeita.

- Aí seu pai, estou com tanta saudade dele. Da sua mãe também, não faz ideia do quanto.

Ana, a mãe deles, havia partido há um tempo e isso ainda doía, eu a tinha conhecido desde que Fernando e eu firmamos o namoro e podia dizer que não havia conhecido mulher mais forte e doce, uma figura materna que seria de tanta ajuda nesse momento de dificuldade.

Ana sempre me tratou como uma filha, em nenhum momento vi a crítica em seus olhos por eu ter me envolvido com seu filho. Segundo ela não havia dúvidas que tínhamos sido feitos um para o outro.

Eu costumava ter essa certeza, mas a essa altura do campeonato eu não sabia mais.

A caminhonete parou na entrada da casa e eu não tinha nem me livrado do cinto quando Miguel surgiu na varanda. Ele desceu os degraus já com os braços abertos e o sorriso ainda mais largo, antes de qualquer coisa ele me envolveu em um abraço apertado que dizia tanto. Eu ainda era amada.

- Minha filha que saudades. - ele sussurrou contra meus cabelos antes de beijá-los e se afastar para me analisar. - E esse garotão aqui. - falou já se curvando para tocar minha barriga proeminente. - Seu avô está aqui, louco para ver você chegar para bagunçar a casa.

Eu sorri diante de suas palavras, era como um bálsamo sobre mim, sentia um peso saindo das minhas costas. Passar esses dias sozinha tinha me deixado realmente balançada, havia sido semanas estranhas depois de tantos anos de estabilidade.

- Miguel, não imagina o quanto eu senti sua falta. - confidenciei a verdade, eles não faziam ideia do quanto. - Como as coisas estão por aqui?

- Oh minha querida, vamos conversar lá dentro, vamos tirar você desse calor e alimentar esse bebê lindo. - o homem vestido com avental e um pano de prato na mão segurou minha mão já me puxando para andar quando senti alguma lágrima teimosa escorrer por minha bochecha.

Tinha tentado ser forte e não me derramar de novo como fiz quando vi Emy, não queria parecer uma bagunça completa, mas aqui estava eu chorando novamente.

Miguel não hesitou ao passar o braço em meus ombros e beijar novamente meus cabelos me consolando antes de me levar para dentro.

A casa era a mesma, sempre com a mesma pintura amarela nas paredes, as cortinas escuras e pesadas, apesar do sofá ser novo todo o resto continuava igual.

Emily me apresentou a Sara e Fábio, que ficou muito interessado com a ideia de que dentro da minha barriga havia outro menino crescendo, as perguntas vieram em enxurradas assim que respondi a primeira, parecia que ele nunca pararia de questionar as coisas.

Sara era maravilhosa, muito fácil de se gostar como todos da cidade. Eu me lembrava vagamente dela em algumas fotos de formatura de Fernando, mas ela estava diferente, os cabelos menores e algumas rugas aqui e ali e um olhar um tanto cansado. Isso me dizia que a vida não tinha sido agradável com ela, também pudera depois de tudo o que Emy havia me contado no caminho pra cá.

E por pensar em Fernando me lembrei de procurá-lo, eu esperava que ele estivesse aqui para olhar nos meus olhos e questionar o que eu estava fazendo aqui, mas pelo jeito ele havia preferido fugir já que não o encontrei em lugar nenhum.

- Eu vou até a Bete hoje de tarde, você deve estar cansada então qualquer coisa me liga que eu corro pra cá. - Emily me contou depois de me ajudar a me acomodar no seu antigo quarto.

Era ruim ocupar seu espaço e incomodar assim, mas Sara e o filho estavam no quarto de hóspedes e Fernando em seu velho quarto, então não tinha muita opção.

- Não mesmo, eu vou com você, vou adorar ver as meninas.

- Tem certeza? Você é bem-vinda se quiser!

- Claro que quero! Preciso ver gente, já fiquei dias de mais isolada. - aquilo não era uma mentira, mas sim uma meia verdade.

Por mais cansada que estivesse não queria ficar em casa sozinha e correr o risco de dar de cara com Fernando por aí, queria evitar ao máximo um embate e se estivéssemos sozinhos era isso o que iria acontecer.

- Perfeito, então descanse e eu te chamo mais tarde. - Emily deu um afago rápido em minha barriga, como se não pudesse se conter, e saiu com um sorriso largo nos lábios.

Era bom estar aqui novamente.

Capítulo 3 II - Fernando

Eu sai cedo da casa do meu pai sabendo que hoje seria o dia que Helen ia chegar, não ia demorar para Emily acordar e ir encontrá-la na rodoviária e eu precisava manter distância dela.

Esse tinha sido o motivo real de eu ter saído de São Paulo, peguei minhas férias atrasadas e decidi usar vindo para o mais longe dela, sabendo que se ficasse perto de Helen não responderia por mim, não ia suportar ficar tão perto dela e não a tocar, não querer cuidar dela e isso me faria ceder aos desejos dela como sempre fiz, então quando percebesse estaria apoiando a ideia de ter aquela criança.

- O que está fazendo aqui tão cedo? - Vitor questionou ao me ver no bar da cidade pela manhã.

- Você está de serviço? Porque não estou vendo nenhuma farda. - ele sorriu se jogando na banqueta ao meu lado. - Também não sabia que a polícia tinha virado fiscal de bar.

- E não virei, só estou surpreso de vê-lo aqui advogado.

Vitor era da idade da minha irmã, e como a maioria das pessoas em São Fernando ele não tinha saído da cidade depois do ensino médio, só preferiu seguir a carreira do pai na policia local.

- Eu também não estou aqui a trabalho, então cale a boca e beba comigo. - falei batendo no balcão e pedindo mais uma cerveja.

Não tinha ido até ali com a intenção de beber, mas agora que tinha alguém do meu lado eu ia fazer apenas para manter as aparências, porque a última coisa que precisava era que descobrissem que eu estava fugindo da minha mulher.

Mas eu havia me esquecido de como as pessoas daquela cidade eram falantes e intrometidas, ninguém ali sabia cuidar da própria vida, então eu fiquei surpreso quando a primeira coisa que ele perguntou foi sobre Helen.

- E então onde está sua bela mulher? Seu pai me disse que estão esperando o primeiro filho. - Vitor tagarelou depois de um gole de cerveja.

- Ela está chegando. - murmurei ignorando a parte daquela conversa que eu queria evitar. - Hoje ela chega na cidade.

- Ai que ótimo, podemos sair todos juntos. - falou entusiasmado, mas não, não podíamos mesmo. - Cara eu nem consigo imaginar como deve ser bom a sensação de ser pai.

De repente eu estava arrependido de ter aberto a boca e dito qualquer coisa, talvez tivesse sido melhor se eu ficasse trancado dentro do carro, provavelmente era a única forma de garantir que eu estaria sozinho.

- Vai deixar a cerveja esfriar se ficar falando tanto. - resmunguei torcendo para que ele parasse por ali, mas já sabendo que seria impossível.

- Não me importo com isso, faz tempo que não te vejo e é bom colocar o papo em dia. Me conta ai como andam as coisas lá em São Paulo?

- Uma loucura como sempre, muito diferente disso aqui que parece ter parado no tempo. - fui rápido em responder dessa vez antes que voltasse aos assuntos sobre Helen e o bebê. - Mas isso é bom, toda essa quietude e tranquilidade é uma coisa boa.

- É sim, mas não se engane, São Fernando tem suas agitações, a última foi David finalmente sendo acusado pela mulher. - ele contou como se fosse a notícia do século, mas levou só um segundo para se lembrar de um detalhe importante. - E que você já deve saber já que é o advogado dela.

- Sim, já estou sabendo disso. E do clube, da Bete grávida do Carlos, do meu pai arrumando confusão enquanto estava bêbado. Sei de tudo o que acontece aqui, as fofocas correm rápido.

- Então já sabe que Emily se mudou pra cá e que ela e Marcos estão juntos de novo. - trinquei meus dentes ouvindo aquilo. - Cara, é muito bom ver eles juntos de novo, já que mesmo com todos esses anos longe eles continuavam se amando.

Eu não só sabia como tinha dado um jeito de fazer os dois caírem na real, depois de Emily ter perdido o bebê vindo atrás dele nesse fim de mundo eu achei que ela tinha aprendido uma lição e que ficaria longe do bastardo que a abandonou.

Mas não demorou muitos dias aqui para que os dois tivessem feito as pazes e embarcado em um novo romance. Só que foi fácil trazer minha irmã de volta a realidade, já que ela tinha escondido de Marcos o que aconteceu anos atrás, foi só contar ao bastardo para ele sair correndo a deixando para trás.

Marcos achou que seria fácil me julgar por não querer esse filho, me dizendo como um homem de verdade deveria agir, quando ele tinha sido o babaca que fez minha irmã sofrer por anos, quando foram as atitudes infantis dele que a fizeram perder o filho perfeito deles.

- Sim, já sei de tudo. Vai ser difícil me surpreender.

Meu celular tocou com uma mensagem do meu pai avisando que Helen tinha chegado, não consegui evitar que meu coração disparasse no peito, com a agitação só em pensar em ficar cara a cara com ela.

Fazia duas semanas que eu não a via, duas semanas desde a nossa briga e que me levou a sair de casa. Eu nunca tinha ficado tanto tempo assim sem vê-la desde que nos casamos, na verdade desde o começo do nosso namoro.

Mas bastava pensar que ela estaria com uma barriga maior, carregando aquela criança, para que eu me lembrasse o motivo de eu estar aqui e sem ela. Helen queria o divórcio, tinha decidido ficar com nosso filho, eu perdi essa batalha contra ela pois ela jamais desistiria do bebê.

- Ei, porque não foi buscar sua mulher na rodoviária? Ela está grávida Fernando e você aqui bebendo no bar? - a voz de Vitor e todo o julgamento em sua voz fizeram meu sangue ferver.

Tudo o que eu tinha escutado desde que expressei minha decisão foram criticas e mais criticas, todo mundo parecia ter uma opinião sobre como eu deveria agir, mas nenhum deles estava no meu maldito lugar.

- Porque não cuida da sua vida porra? - me levantei gritando e já saindo de lá, ou não responderia por mim e acabaria socando a cara do policial.

Entrei no carro e fiquei lá, não sei ao certo quanto tempo fiquei trancado pensando e repensando sobre nós dois. Helen tinha mexido comigo desde o primeiro dia que nos vimos, aquele jeito durão dela só a deixavam mais sexy e eu não quis saber de mais nada que não fosse estar aos pés dela.

Liguei o carro decidido a vê-la, não conseguia ficar longe dela sabendo que estavamos tão perto, eu precisava colocar meus olhos sobre ela mais uma vez.

Nunca pensei que estaríamos naquela situação agora, eu a venerava e só queria o melhor pra ela, como ela não conseguia ver isso?

- Onde ela está? - cheguei em casa desesperado já questionando minha irmã.

Emily me olhou com aquele olhar de reprovação, quase como se eu tivesse cometido o pior dos crimes, mas eu só era culpado de amar de mais a minha esposa.

- No meu quarto, mas ela está dormindo. - não me importei com mais nada, corri para o andar de cima indo direto para o quarto de Emily. - Não vá incomodá-la! - ela gritou quando eu já tinha alcançado o segundo andar.

Abri a porta devagar não querendo acordá-la e paralisei ao vê-la dormindo profundamente, Helen parecia mais magra do que a duas semanas e isso partia meu coração, saber que ela não estava comendo direito e que não tinha ninguém para cuidar dela acabava comigo. Não era pra ser assim, não foi como planejamos aquela gravidez.

Estava fazendo um calor terrível na cidade e eu me lembrei de como ela estava calorenta desde o começo da gravidez, então decidi abrir as janelas e deixar um pouco de ar fresco entrar, mas mantive as cortinas fechadas não querendo acordá-la.

Me virei para minha linda mulher e me ajoelhei ao lado da cama, sem conseguir me conter minha mão voou até seu rosto, acariciando a pele macia, antes de afastar os fios de cabelo que caiam.

Como eu queria que ela me entendesse, que visse as coisas pelo meu ponto de vista, não estaríamos os dois sofrendo com a separação agora. Mas eu precisava ser forte, não podia ceder e ver Helen se arrastar pra uma vida cheia de cuidados e tristezas, já tinha sido o bastante ver meu pai se sacrificar para cuidar da minha mãe doente, por isso eu não podia deixar que ela trouxesse uma vida ao mundo para ter que viver nesse inferno!

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