O relógio na parede do fórum, de um branco encardido pelo tempo, marcava 11h47 quando o juiz bateu o martelo. Para o mundo, era apenas o fim de mais uma audiência de custódia em uma manhã de terça-feira. Para mim, foi o som da guilhotina. Não foi um estrondo de justiça; foi um clique seco, quase educado, o som de madeira polida encontrando madeira polida. Como se o magistrado estivesse apenas carimbando um formulário de imposto burocrático, e não arrancando o meu coração do peito para servi-lo em uma bandeja de prata ao homem que eu mais odiava.
- Guarda concedida ao pai - sentenciou o juiz com uma voz monótona, sem sequer desviar os olhos dos papéis à sua frente.
O ar sumiu dos meus pulmões. Tentei falar, mas minha garganta parecia cheia de vidro moído. Minha advogada, Dra. Heloísa, tocou meu braço. Foi um toque profissional, desprovido de calor, o tipo de gesto que se reserva para quem já perdeu muito antes de entrar no tribunal.
- Cabe recurso, Natalie. Mas precisamos de...
Ela não terminou a frase. Não precisava. A palavra ficou suspensa no ar pesado da sala, brilhando como um troféu de ouro guardado atrás de uma vitrine blindada: Dinheiro. Um valor alto. Um prazo curto de trinta dias. Uma esperança que eu não podia comprar nem se vendesse cada centavo do meu sangue.
Do outro lado da sala, Gustavo estava lá. Ele não comemorou. Um homem como ele, com o sobrenome dele e o saldo bancário dele, não precisava comemorar o óbvio. Ele apenas ajustou o punho do seu terno cinza sob medida e exibiu aquela expressão pesarosa, a máscara perfeita do "bom pai" que sofre por ter que afastar a filha de uma mãe "instável". O monstro que me destruiu nos últimos dois anos agora me oferecia um olhar de piedade que me dava náuseas.
Eu não olhava para ele. Eu me recusei a dar a ele o gosto de ver minhas lágrimas. Meus olhos estavam fixos na última fileira. Sophia, com apenas seis anos e o rosto pálido pela confusão, estava sentada ao lado de uma assistente social de rosto severo. As tranças no cabelo dela estavam tortas e frouxas - eu sabia que Gustavo não tinha paciência para os detalhes, que as mãos dele eram pesadas demais para o cabelo delicado da nossa filha.
- Mãe? - O chamado dela não foi um grito. Foi um sopro, um lembrete sussurrado que cortou o barulho dos papéis sendo recolhidos.
Tentei sorrir. Tentei passar toda a força que eu não tinha através de um único olhar. Mas antes que eu pudesse dar um passo em sua direção, antes que eu pudesse dizer que daria um jeito, a assistente social a puxou pela mão. Sophia olhou por cima do ombro uma última vez antes da porta dupla de madeira se fechar, me deixando sozinha no silêncio ensurdecedor da derrota.
Três semanas se passaram. Vinte e uma noites. Eu as contei em cada rachadura do teto da pensão onde eu morava. O colchão era fino o suficiente para eu sentir as molas contra minhas costelas, mas o que realmente doía era o silêncio do meu celular. O aplicativo de visitas era a minha única conexão com o mundo de Sophia, e a próxima data marcada brilhava na tela como uma sentença de morte: daqui a 47 dias.
Quarenta e sete dias sem sentir o cheiro de shampoo de maçã do cabelo dela. Quarenta e sete dias sem ouvir suas risadas.
Eu estava no caixa do supermercado de bairro, segurando uma pequena cesta com o básico para não morrer de fome, quando recebi a notificação do banco. O visor do celular brilhou com a crueldade dos números.
Saldo negativo: R$ - 312,47.
Eu ri. Não foi um riso de humor, mas aquele som seco e rouco de quem está tão quebrada que o absurdo finalmente começa a fazer sentido. A moça do caixa, uma jovem com o crachá que dizia "Tati", me olhou com uma mistura de pena e impaciência.
- Cartão recusado, moça. Deu erro de limite.
O bipe da máquina de cartões soou exatamente como o martelo do juiz. Clique seco. A humilhação tem um cheiro específico naquela cidade: cheiro de asfalto molhado e moedas suadas. Abri minha bolsa e comecei a catar cada centavo que restava no fundo, entre farelos de papel e chaves velhas.
- Eu vou levar só o leite e o pão - murmurei, sentindo as orelhas queimarem enquanto a fila atrás de mim começava a bufar.
Paguei com as moedas. Sete reais e doze centavos. Saí da loja segurando a sacola plástica como se fosse o último tesouro da terra. Dava para mais três dias de sobrevivência. Depois disso, eu não tinha ideia do que faria.
Caminhei em direção ao escritório de contabilidade onde eu trabalhava como arquivista. Ninguém lá sabia meu nome. Para os contadores de gravata colorida e as secretárias de salto alto, eu era apenas "a moça do arquivo", a sombra que organizava pastas de empresas milionárias enquanto não tinha dinheiro para o próprio ônibus.
O turno terminou às 20h, mas eu fiquei até as 21h, fingindo organizar papéis só para não ter que voltar para o vazio do meu quarto. Quando finalmente saí, a chuva fina começava a cair, transformando a iluminação dos postes em borrões amarelados.
Eu estava prestes a atravessar a rua quando um carro estacionou ao meu lado.
Não era um carro comum. Era uma nave de metal preto fosco, com vidros tão escuros que pareciam absorver a luz da rua. As rodas eram enormes e valiam mais do que meu aluguel de cinco anos. Eu parei, o coração saltando na garganta, e desviei o caminho, achando que o motorista tinha se enganado de endereço.
O vidro do passageiro desceu com um zumbido elétrico, quase imperceptível.
- Natalie Alves?
A voz era calma. Grave. O tipo de voz que não precisava gritar para ser obedecida, que carregava o peso de quem manda em milhares de pessoas antes do café da manhã.
Eu parei. Meus instintos de sobrevivência, moldados por anos vivendo no limite, gritaram para eu correr. Mas minhas pernas pareciam presas ao chão. O homem dentro do carro não era velho, talvez tivesse quarenta e poucos anos. Tinha o cabelo escuro, perfeitamente cortado, com fios grisalhos nas laterais que lhe davam uma aura de sabedoria perigosa. O rosto era anguloso, com uma mandíbula marcada que nunca parecia ter conhecido o riso.
Vestia um terno azul-marinho que gritava exclusividade e uma camisa branca aberta no colarinho. Ele parecia um anúncio de banco de investimentos de elite. Ou um assassino que matava com uma caneta de ouro.
- Quem quer saber? - respondi, tentando manter a voz firme apesar do tremor nas mãos.
Ele não se ofendeu. Não mudou a expressão. Apenas esticou o braço e abriu a porta do passageiro por dentro. O interior do carro exalava um cheiro inebriante de couro novo, sândalo e poder puro.
- Alguém que pode resolver todos os seus problemas, Natalie. E alguém que sabe que você tem nove dias para não perder sua filha para sempre.
O nome de Sophia ecoou na minha mente como um disparo. Como ele sabia? Como ele ousava pronunciar o nome da minha dor naquele tom tão clínico?
Eu deveria ter virado as costas. Deveria ter corrido para o metrô e desaparecido na multidão. Mas ele disse as palavras mágicas: "todos os seus problemas". E eu pensei na trança torta. Pensei no uniforme que eu não podia pagar. Pensei no juiz e no martelo.
Fechei os olhos por um segundo, pedi perdão ao meu orgulho e entrei no carro.
O silêncio lá dentro era absoluto, isolando o mundo exterior como se estivéssemos em uma cápsula no espaço. Ele não me olhou imediatamente. Ele manteve os olhos no horizonte enquanto o motorista arrancava com uma suavidade assustadora. Ele então estendeu um envelope de papel pardo, pesado e volumoso.
- O meu nome é Maximus - ele disse, e finalmente virou o rosto para mim. Seus olhos eram de um cinza gélido, desprovidos de qualquer empatia. - E a partir de amanhã, o seu nome será Tessa.
A fala dele ainda ecoava nos meus ouvidos quando o carro arrancou.
- A partir de amanhã, o seu nome será Tessa.
Eu fiquei paralisada. O envelope de papel pardo pesava no meu colo como uma bomba relógio.
- Espera - minha voz saiu estrangulada. - Você não pode simplesmente... dizer uma coisa dessas e ficar em silêncio.
Maximus não respondeu. Apenas virou o rosto para a janela, como se a paisagem noturna da cidade fosse mais interessante do que qualquer explicação.
- O que significa "meu nome será Tessa"? Quem é Tessa? O que aconteceu com ela? Por que eu? Como você me encontrou?
As perguntas escapavam como se alguém tivesse aberto uma torneira dentro da minha boca. Eu sabia que parecia desesperada. Eu estava desesperada.
Ele suspirou. Aquele som de quem já estava cansado de mim.
- Você não leu o contrato?
- Que contrato? Você não me mostrou contrato nenhum até agora! Você apareceu do nada, falou um monte de coisas assustadoras, e eu, por algum motivo idiota, entrei no seu carro. Isso não significa que eu concordei com nada!
Minhas mãos tremiam. Meu coração batia tão rápido que eu podia sentir o sangue pulsando nas têmporas.
Maximus virou o rosto lentamente. Me olhou. Não com maldade. Com avaliação. Como se eu fosse um animal desconhecido que ele estava decidindo se valia a pena domesticar.
- Você entrou no meu carro porque não tem nenhum centavo no banco, porque vai perder o direito de ver sua filha e porque acabou de receber uma mensagem do seu ex-marido ameaçando suspender suas visitas.
O ar sumiu dos meus pulmões.
- Como você sabe da mensagem?
- Eu sei tudo sobre você, Natalie. Desde o nome do seu primeiro namorado até a última vez que você comeu algo que não fosse pão com margarina.
Aquilo foi um tapa. Não físico. Pior.
Ele sabia que eu estava com fome. Ele sabia que eu estava quebrada. Ele sabia que eu era uma presa fácil.
E o pior: ele estava certo.
- Isso é assustador - eu sussurrei. - Você está me assustando.
- Bom. Era a intenção.
A honestidade cruel dele me desarmou. Eu esperava negação, desculpas, um "não foi bem assim". Mas não. Ele apenas admitiu.
- Eu preciso que você entenda a gravidade do que estou propondo - ele continuou, com uma paciência que parecia ensaiada. - Não é um emprego normal. Não é um favor entre amigos. É um contrato. Com regras. Com consequências.
- Que tipo de consequências?
- Leia o contrato. Depois conversamos.
- E se eu não quiser?
Ele me encarou. Os olhos cinza escuros não piscaram.
- Então eu peço para o motorista parar, você desce e volta para sua vida. O colchão na Rua Austina. As marmitas requentadas. O saldo negativo. E a mensagem do seu ex-marido sobre a suspensão das visitas.
A última frase foi um golpe baixo. Ele sabia o quanto aquelas visitas eram tudo que eu tinha da minha filha.
Eu odiava que ele soubesse.
O silêncio voltou. Dessa vez, não era só vazio. Era medo. Era dúvida. Era a voz na minha cabeça gritando "isso é loucura" enquanto outra voz, mais baixa, sussurrava "mas é a única chance".
- Quem é Tessa? - eu perguntei, mais calma. - Antes de eu decidir qualquer coisa, eu preciso saber.
Maximus demorou a responder. Tanto tempo que eu achei que ele não ia responder.
- Tessa era minha esposa.
- Era?
- Ela desapareceu há oito meses.
- Desapareceu como?
- Eu não sei.
- Você não sabe?
- Ela simplesmente... não estava mais lá. Um dia, acordei e ela tinha ido. Levou apenas uma mala. Deixou o resto. Roupas, joias, celular, documentos.
A voz dele não tremia. Mas tinha alguma coisa naquela fala que me fez acreditar que ele não estava mentindo.
- Você procurou?
- Contratei investigadores. Gastei dinheiro que você não pode imaginar.
- E não encontraram nada?
- Nada. Até que uma semana atrás, encontraram você.
Meu estômago embrulhou.
- Como assim "encontraram você"?
- Você se parece com ela. Fisicamente, quero dizer. Mesmo tom de pele, mesmo formato de rosto. Na primeira foto que me enviaram, achei que fosse ela.
Eu senti um arrepio percorrer minha espinha.
- Você está me dizendo que... me escolheu porque eu pareço com a sua esposa desaparecida?
- Isso mesmo.
- Isso é insano.
- É. Mas é o que eu tenho.
Ele disse aquilo como quem admite uma fraqueza. Um bilionário. Poderoso. Frio. Admitindo que estava desesperado.
- Por que você precisa de alguém no lugar dela? - insisti. - Por que não simplesmente... seguir em frente?
Maximus virou o rosto para a janela novamente. A cidade passava. Luzes. Gente. Vidas normais.
- Tessa está desaparecida, Natalie. Não morta. Enquanto ela não for encontrada, viva ou morta, eu não posso seguir em frente. Existem bens. Existe uma herança. Existem acordos de sócios que exigem um estado civil estável.
- Então é por dinheiro?
- É por controle.
A resposta foi tão fria que gelou o ar dentro do carro.
- Eu não posso declarar Tessa morta. Não posso pedir divórcio. Não posso fazer nada sem arriscar perder metade do que construí. Mas se eu tiver alguém ocupando o lugar dela... ninguém pergunta. Ninguém investiga. Ninguém me tira o que é meu.
- E Tessa? O que acontece com ela se um dia voltar?
Ele me encarou. A primeira fagulha de algo humano surgiu naqueles olhos.
- Se Tessa voltar, você pega seu dinheiro e vai embora. E eu resolvo com ela o que precisar ser resolvido.
- Depois de tudo... eu sou só um tapa-buraco.
- Você é uma solução. É diferente.
Eu ri. Não foi um riso de humor. Foi aquele riso amargo de quem acabou de entender o próprio lugar no mundo.
- E o que eu ganho com isso?
- Dinheiro. Bastante dinheiro. O suficiente para contratar o advogado que você quiser. O suficiente para pagar a melhor escola para sua filha. O suficiente para nunca mais depender de ninguém.
- Por quanto tempo?
- Até eu não precisar mais. Pode ser seis meses. Pode ser um ano.
- E se eu quiser sair antes?
- Você não vai querer.
- Por quê?
Ele se inclinou ligeiramente. Apenas o suficiente para eu sentir o peso da presença dele.
- Porque você vai ter a vida que sempre quis. E no final, vai ter sua filha de volta. É o que você quer, não é? Só isso?
Eu não respondi.
Porque ele estava certo.
O carro parou. Não em frente ao meu prédio. Em frente a um lugar que eu não conhecia.
- Onde estamos?
- No seu novo lar.
Olhei pela janela. Uma mansão. Muros altos. Jardins impecáveis. Câmeras em cada canto.
Parecia uma prisão dourada.
- Isso é... sua casa?
- Nossa casa. A partir de agora.
Eu não conseguia mexer as pernas.
- Eu não posso simplesmente... morar com um estranho.
- Pode. E vai. Ficará no quarto principal. Tudo já está preparado. Roupas, objetos pessoais, tudo o que você precisa.
- E se eu recusar? Agora? Neste exato momento?
Ele abriu a porta do carro. O ar noturno entrou, frio e cortante.
- Então o motorista te leva de volta. E você nunca mais me vê.
Eu olhei para a mansão. Para as câmeras. Para o homem de terno azul-marinho que parecia saído de um pesadelo de rico.
Pensei na Sophia.
Pensei na mensagem do meu ex-marido.
Pensei no saldo negativo de 312 reais.
- Eu quero ler o contrato antes de assinar qualquer coisa.
Maximus apontou para o envelope do meu lado no carro. Grande. Grosso. Papel de qualidade.
- São 47 páginas. Leia cada cláusula. Amanhã me devolve com sua resposta.
Eu peguei o envelope. Meus dedos tremiam tanto que quase deixei cair.
- Tem alguma cláusula que você queira me contar agora?
- Apenas uma. A mais importante.
Ele se inclinou. Seus olhos cinza encontraram os meus com uma intensidade que me prendeu no lugar.
- Você nunca pode perguntar o que aconteceu com Tessa.
- Por quê?
- Porque as duas mulheres que vieram antes de você perguntaram.
O ar sumiu dos meus pulmões.
- Duas mulheres?
- Uma está num hospital psiquiátrico. A outra... ninguém encontrou.
- Você está me ameaçando?
- Estou te avisando. Você não quer saber, Natalie. Acredite. Você só quer o dinheiro. E eu só preciso de alguém no lugar dela. É simples.
- Nada disso é simples.
Ele sorriu. Aquele sorriso triste. Cansado.
- Você ainda tem muito o que aprender.
Ele entrou na mansão. Não olhou para trás.
Eu fiquei parada no meio do jardim, com o envelope nas mãos, o coração disparado e uma única certeza na cabeça:
Eu tinha acabado de vender minha alma por um contrato de 47 páginas.
E ainda não sabia o preço.
Eu não sei quanto tempo fiquei parada no jardim.
O envelope pesava na minha mão como se fosse feito de chumbo. A mansão brilhava à minha frente, toda iluminada, cheia de janelas que pareciam olhos me vigiando.
Você pode ir embora, a voz na minha cabeça dizia. É só voltar para o carro. Pedir para o motorista te levar de volta. Esquecer que isso tudo aconteceu.
Mas eu não me mexia.
Porque "voltar" significava voltar para o colchão fino. Para as marmitas requentadas. Para o saldo negativo. Para os 47 dias até o próximo abraço de Sophia.
Para a mensagem do Gustavo: "Na próxima audiência, vou pedir a suspensão total das visitas."
- A senhora vai ficar aí parada a noite toda?
A voz veio de trás de mim. Quase pulei de susto.
Um segurança. Grande, de terno preto, com um fio no ouvido. Ele me olhava sem expressão, como se eu fosse um móvel fora do lugar.
- Eu só... - minha voz saiu falhando. - Eu só preciso de um minuto.
Ele não respondeu. Apenas ficou lá, parado, esperando.
Eu olhei para a mansão mais uma vez.
Respirei fundo.
Entrei.
O hall de entrada era maior que o meu apartamento inteiro.
Mármore branco no chão. Um lustre gigante pendurado no teto. Escadas que subiam para os dois lados, como naqueles filmes de época. Tudo limpo, organizado, frio.
Não tinha uma foto na parede. Não tinha um brinquedo jogado no canto. Não tinha vida.
- O quarto da Sra. Tessa fica no segundo andar, corredor à esquerda.
O segurança tinha aparecido ao meu lado sem fazer barulho. Um fantasma de terno preto.
- Eu não sou a Sra. Tessa ainda - eu respondi, mais para mim do que para ele.
Ele não disse nada. Apenas apontou para as escadas.
Subi.
Cada degrau rangia um pouco. O único som na casa inteira. Parecia que o lugar estava morto. Ou dormindo. Não dava para saber.
No segundo andar, um corredor imenso. Portas espaçadas, todas fechadas. Luzes amareladas que não deixavam nenhuma sombra escapar.
Parece um hospital, eu pensei. Um hospital de rico.
A porta do quarto estava entreaberta. Luz acesa.
Empurrei devagar.
O quarto era enorme.
Cama de dossel, branca, com lençóis de seda. Um closet aberto do lado esquerdo, cheio de roupas que não eram minhas. Uma penteadeira com frascos de perfume e pincéis de maquiagem perfeitamente alinhados.
Tudo arrumado. Tudo no lugar.
Tudo dela.
No centro da cama, um envelope igual ao que Maximus tinha me dado no carro. Mas esse já estava aberto.
Ao lado, uma caneta.
Eu me sentei na borda da cama. O colchão era tão macio que eu afundei. Tão diferente do meu colchão fino que doeu fisicamente.
Tirei o contrato do envelope.
47 páginas. Papel grosso, cheiro de tinta de impressora cara. Termos jurídicos em letras miúdas.
Comecei a ler.
"CONTRATO DE PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS ENTRE MAXIMUS [SOBRENOME OMITIDO] - DORAVANTE DENOMINADO 'CONTRATANTE' - E NATALIE ALVES - DORAVANTE DENOMINADA 'CONTRATADA'."
Pulei as primeiras páginas. Juridiquês. Nada que eu entendesse direito.
Cláusula 1: A CONTRATADA compromete-se a assumir publicamente a identidade de TESSA [SOBRENOME OMITIDO], esposa do CONTRATANTE, em todos os aspectos da vida social e doméstica.
Cláusula 2: A CONTRATADA deverá residir na residência principal do CONTRATANTE durante toda a vigência deste contrato.
Cláusula 3: A CONTRATADA receberá uma remuneração mensal de R$ [R$ 150.000,00], depositada em conta corrente aberta exclusivamente para este fim.
O valor me fez parar.
Não era um número. Era uma fortuna. Quinze vezes o que eu ganhava no escritório de contabilidade. Quinze vezes o que eu precisava para pagar um bom advogado.
Eu li de novo. Os números não mudaram.
Respirei fundo. Continuei.
Cláusula 7: A CONTRATADA deverá se submeter a treinamentos de voz, postura e comportamento ministrados por profissionais indicados pelo CONTRATANTE.
Cláusula 8: A CONTRATADA deverá acompanhar o CONTRATANTE em eventos públicos, jantares de negócios e compromissos sociais sempre que solicitada.
Cláusula 9: A CONTRATADA deverá manter a aparência física compatível com a SRA. TESSA, incluindo cabelo, maquiagem e vestuário, cabendo ao CONTRATANTE o pagamento de todas as despesas relacionadas.
Cada cláusula era uma corrente. Cada palavra me lembrava que eu não era eu. Eu era ela.
E então cheguei na página 12.
Cláusula 12: A CONTRATADA não poderá, sob hipótese alguma, investigar, questionar, buscar informações ou tentar localizar o paradeiro da SRA. TESSA [SOBRENOME OMITIDO]. Qualquer violação desta cláusula constituirá quebra grave do contrato, resultando na rescisão imediata e na obrigação da CONTRATADA de devolver 100% dos valores já recebidos.
Meu estômago embrulhou.
Devolver tudo.
Ficar sem nada.
Perder Sophia para sempre.
Abaixo da cláusula, escrito à mão com caneta preta estava:
"Nem todas as respostas valem o preço."
A letra era firme, elegante. Masculina.
Maximus tinha escrito aquilo.
Eu fechei o contrato. Meu coração batia tão rápido que eu podia sentir o pulsar nos meus dedos.
- Isso é loucura - eu sussurrei para o quarto vazio.
O quarto não respondeu.
Eu olhei para a penteadeira. Para os frascos de perfume. Para os pincéis de maquiagem perfeitamente alinhados. Isso era o que restava de Tessa. Uma vida resumida a objetos arrumados por empregadas.
O que aconteceu com ela?
Para onde ela foi?
Por que Maximus não queria que ninguém perguntasse?
As perguntas se acumulavam na minha cabeça como moscas em volta de uma ferida.
Você não pode perguntar.
A voz na minha cabeça não era minha. Era dele.
Você não quer saber, Natalie. Acredite.
Eu levantei da cama. Comecei a andar de um lado para o outro. Precisava pensar. Precisava de ar. Precisava de alguém para me dizer que isso era loucura e que eu não deveria fazer isso.
Mas não havia ninguém.
Era só eu. O contrato. E a foto de Sophia que eu tinha gravada na memória.
Uma hora depois, eu ainda estava no quarto.
Tinha lido o contrato inteiro. Cada cláusula. Cada parágrafo. Cada letra miúda.
Algumas coisas me incomodaram mais do que outras.
Cláusula 15: A CONTRATADA não poderá receber visitas não autorizadas pelo CONTRATANTE.
Cláusula 18: A CONTRATADA não poderá utilizar telefone celular ou dispositivos eletrônicos não fornecidos pelo CONTRATANTE.
Cláusula 22: A CONTRATADA não poderá deixar a residência principal sem acompanhamento de um segurança designado pelo CONTRATANTE.
Eu não era uma esposa falsa.
Eu era uma prisioneira.
Sentei na cama novamente. O peso daquilo tudo caiu sobre mim como um caminhão.
O que você está fazendo, Natalie?
Isso é loucura.
Você não conhece esse homem.
Você não sabe o que aconteceu com a esposa dele.
Você não sabe o que pode acontecer com você.
Mas aí eu pensei nela.
Sophia.
Seis anos. As tranças tortas. O uniforme que eu não comprei. A mochila nova que eu não escolhi.
A mensagem do Gustavo: "suspensão total das visitas"
Se eu perdesse as visitas, não teria mais 47 dias.
Não teria mais nada.
Eu seria uma estranha para minha própria filha.
Peguei a caneta.
Minha mão tremia.
O contrato estava aberto na última página. Uma linha pontilhada para assinar. Ao lado, o nome de Maximus já estava lá. Uma assinatura firme, elegante, que parecia ter sido feita sem hesitação.
Ele não duvidou.
Por que eu estava duvidando?
Porque você é humana, Natalie. Porque isso é uma loucura.
Mas é a única chance.
Eu encostei a caneta no papel.
Fechei os olhos.
Vi o rosto de Sophia.
A caneta deslizou.
Natalie Alves.
Assinei.
Passei o resto da noite acordada.
Não consegui dormir. A cama era macia demais, o travesseiro cheirava a lavanda, e o silêncio era tão absoluto que eu podia ouvir meu próprio coração.
Toda vez que fechava os olhos, via o rosto de Maximus. Os olhos cinza. A fala fria. O sorriso triste.
"Você não quer saber, Natalie."
"As duas mulheres que vieram antes de você perguntaram."
"Uma está num hospital psiquiátrico."
"A outra... ninguém encontrou."
Eu virei na cama. Olhei para o teto. O lustre de cristal brilhava fraco, refletindo a lua que entrava pela janela aberta.
O que você fez, Natalie?
O que você acabou de fazer?
O sol começou a nascer. A luz entrou pelos vidros, pintando tudo de laranja e rosa.
E então eu ouvi.
Passos no corredor.
Não eram apressados. Não eram pesados. Eram medidos. Controlados. O tipo de passo de quem sabe que é dono de cada centímetro daquele lugar.
A porta rangeu.
Maximus estava ali.
Camisa branca, mangas dobradas. Calça escura. Pés descalços. Pela primeira vez, ele não parecia um anúncio. Parecia um homem.
- Leu o contrato? - perguntou.
- Assinei.
Ele entrou no quarto. Pegou o contrato da mesa de cabeceira. Folheou até a última página. Viu minha assinatura.
- Sem perguntas?
- Sem perguntas.
Ele me encarou. Os olhos cinza pareciam estar procurando por algo. Uma mentira. Uma hesitação. Um sinal de que eu ia quebrar.
Eu não piscava.
- Tudo bem - ele disse, guardando o contrato no envelope. - Começamos hoje.
- Começamos o quê?
- O treinamento.
Ele se virou para sair.
- Maximus.
Ele parou. Não se virou.
- Eu ainda não sei quem é Tessa. De verdade.
- É melhor assim.
- E as outras duas mulheres? As que vieram antes de mim? Também estavam tentando ser a Tessa?
O silêncio se alongou.
- Você leu a cláusula 12, não leu?
- Li.
- Então não faça perguntas.
Ele saiu.
A porta fechou.
E eu fiquei sozinha no quarto da esposa desaparecida, com a aliança de ouro que alguém tinha deixado na mesa de cabeceira brilhando sob a luz da manhã.
A aliança de Tessa.
Eu não deveria ter tocado.
Mas toquei.
Ela era mais leve do que eu imaginava.
Assim como a minha consciência naquele momento.