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O Boato Que Não a Quebrou

O Boato Que Não a Quebrou

Autor:: Vivienne
Gênero: Moderno
Estava a apresentar o projeto dos meus sonhos na Quinta dos Magalhães. A minha voz firme falava sobre a paixão e a história dos azulejos do século XVIII. De repente, Tiago Sá Pereira, o melhor amigo de Duarte de Magalhães, cortou-me com uma pergunta venenosa: "Técnicas precisas? Ou a sua melhor técnica é encontrar um 'padrinho' rico?" Um boato malicioso da universidade foi atirado para a reunião mais importante da minha carreira. A humilhação foi pública e crua. Fui despida de toda a credibilidade e removida do projeto, substituída pela invejosa Inês. Depois, o meu chefe, Senhor Bastos, tentou vender-me a um cliente predador num bar, uma armadilha repugnante. Vomitei num beco, a minha dignidade desfeita. Porque é que esta mentira antiga me perseguia com tanta força? Porque é que Duarte de Magalhães, que me humilhou anos antes, assistia a tudo sem mover um músculo? Eu era uma profissional talentosa, não a oportunista que pintavam. A injustiça queimava-me a alma. Sem escolha, e com o predador a aproximar-se, entrei no Bentley escuro de Duarte. Qual seria o preço para a minha "salvação" desta vez? E como escaparia eu deste inferno, sem perder a minha alma?

Introdução

Estava a apresentar o projeto dos meus sonhos na Quinta dos Magalhães.

A minha voz firme falava sobre a paixão e a história dos azulejos do século XVIII.

De repente, Tiago Sá Pereira, o melhor amigo de Duarte de Magalhães, cortou-me com uma pergunta venenosa:

"Técnicas precisas? Ou a sua melhor técnica é encontrar um 'padrinho' rico?"

Um boato malicioso da universidade foi atirado para a reunião mais importante da minha carreira.

A humilhação foi pública e crua.

Fui despida de toda a credibilidade e removida do projeto, substituída pela invejosa Inês.

Depois, o meu chefe, Senhor Bastos, tentou vender-me a um cliente predador num bar, uma armadilha repugnante.

Vomitei num beco, a minha dignidade desfeita.

Porque é que esta mentira antiga me perseguia com tanta força?

Porque é que Duarte de Magalhães, que me humilhou anos antes, assistia a tudo sem mover um músculo?

Eu era uma profissional talentosa, não a oportunista que pintavam.

A injustiça queimava-me a alma.

Sem escolha, e com o predador a aproximar-se, entrei no Bentley escuro de Duarte.

Qual seria o preço para a minha "salvação" desta vez?

E como escaparia eu deste inferno, sem perder a minha alma?

Capítulo 1

A sala de reuniões da Quinta dos Magalhães era fria, o ar condicionado soprava um vento gelado que me arrepiava a pele.

Eu estava a apresentar a minha proposta de restauro dos painéis de azulejos do século XVIII, o meu trabalho de sonho.

"A minha abordagem foca-se na preservação da pátina original, utilizando materiais reversíveis e técnicas historicamente precisas," expliquei, apontando para as projeções na parede.

A minha voz estava firme, confiante. Esta era a minha área, a minha paixão.

De repente, uma voz arrastada e cheia de desdém cortou o ar.

"Técnicas historicamente precisas? Ou será que a sua técnica mais apurada é encontrar um 'padrinho' rico para financiar os seus projetos?"

Era Tiago Sá Pereira, o melhor amigo de Duarte de Magalhães. Um playboy conhecido em Lisboa, com um sorriso cruel nos lábios.

O silêncio na sala tornou-se pesado. Os meus colegas olharam para o chão, o meu chefe, o Senhor Bastos, engoliu em seco.

O meu passado, um boato malicioso da universidade, tinha acabado de ser atirado para o meio da reunião mais importante da minha carreira.

Senti o sangue fugir-me do rosto, mas mantive a postura.

"Peço desculpa, Senhor Sá Pereira, mas não percebo a relevância do seu comentário para a integridade dos azulejos do século XVIII."

Ele riu-se, um som desagradável.

"Oh, por favor, Leonor. Toda a gente na Belas-Artes sabia da 'musa' e do seu mecenas. Não admira que tenha conseguido este projeto. Algumas pessoas têm talento, outras têm... outros talentos."

A humilhação era pública, crua. Fui despida de toda a minha credibilidade profissional em segundos.

Fui removida do projeto ali mesmo, sem mais discussões. O Senhor Bastos, ansioso por agradar, gaguejou que a minha colega Inês, que me olhava com um triunfo mal disfarçado, assumiria a liderança.

Levantei-me, a cadeira arrastou-se ruidosamente no chão de madeira. Olhei diretamente para o homem que esteve em silêncio o tempo todo, no topo da mesa.

Duarte de Magalhães.

O herdeiro do império Magalhães. O nosso cliente. E o homem que, quatro anos antes, me tinha esmagado com uma única frase.

Ele observava-me, o seu rosto uma máscara fria e polida. Não era o mesmo rapaz da universidade. Este era um homem, poderoso, implacável.

Um flashback rápido e doloroso invadiu-me a mente. A biblioteca da faculdade, a chuva lá fora. Ele a aproximar-se. "Quanto custa uma hora da tua atenção, Leonor? Ou o teu 'padrinho' paga-te o suficiente para não precisares de mais ninguém?"

Aquelas palavras ainda ardiam.

Agora, ele assistia à minha humilhação sem mover um músculo, os seus olhos escuros e indecifráveis. Ele permitiu que acontecesse.

"Com a vossa licença," disse eu, a minha voz a tremer apenas ligeiramente.

Inês, a minha antiga colega, a fonte original daquele boato, sorriu abertamente quando passei por ela.

"Não te preocupes, Leonor. Eu tomo conta de tudo," disse ela, a sua voz a pingar falsa simpatia.

Agarrei na minha mala e saí da sala, de cabeça erguida, sem olhar para trás.

Enquanto caminhava pelo longo corredor da quinta, ouvi os passos de Duarte atrás de mim. Ele não disse nada, apenas observou-me sair.

Lá fora, uma chuva fina começara a cair, molhando as ruas de paralelepípedos. O meu carro, um modelo antigo que falhava frequentemente, não pegou.

A frustração e a humilhação misturaram-se, formando um nó na minha garganta. Bati no volante, uma única vez, com força.

Respirei fundo. Dignidade, Leonor. Sempre.

De repente, um som atrás de mim. Duarte estava ali, de pé, na chuva, a segurar um guarda-chuva preto. Ele tinha acabado de atirar um isqueiro de prata caro para o lixo, depois de acender um cigarro. A sua expressão era fria, distante.

"Problemas?" a sua voz era grave, sem emoção.

Enquanto eu tentava ligar o carro novamente, vi uma mulher sem-abrigo encolhida debaixo de uma arcada. Sem pensar, saí do carro, agarrei na sanduíche que tinha guardado para o almoço e entreguei-lha.

A mulher olhou para mim, os seus olhos cansados a expressarem uma gratidão silenciosa.

Voltei para o meu carro, para o meu pequeno canto sujo e húmido do mundo. Era aqui que eu pertencia, longe do brilho e da crueldade do mundo dele.

Duarte observou a cena toda, o cigarro a meio caminho dos seus lábios, uma expressão estranha a passar pelo seu rosto por uma fração de segundo.

Finalmente, o meu carro pegou.

Passei pelo seu Bentley preto, o vidro fumado a esconder o seu rosto. Ele não era apenas rico, ele era de outro universo. Um universo que me tinha mastigado e cuspido, duas vezes.

Capítulo 2

No dia seguinte, o escritório era um campo minado de olhares e sussurros. A notícia da minha humilhação na Quinta dos Magalhães tinha-se espalhado como fogo.

Sentei-me à minha secretária, ignorando os olhares de pena e os sorrisos maliciosos. Abri os meus esboços, tentando focar-me no trabalho.

A porta do meu pequeno cubículo abriu-se de repente. Era Tiago Sá Pereira.

"Então, a pequena órfã do fado ainda se atreve a aparecer?" disse ele, encostando-se ao batente da porta com um ar arrogante.

"O que queres, Tiago?" perguntei, sem levantar os olhos dos meus desenhos.

"Só vim ver como estava a minha 'afilhada' preferida. Ouvi dizer que foste posta no teu lugar. Já não era sem tempo."

Levantei a cabeça e olhei-o nos olhos.

"Se vieste aqui para te regozijares, podes poupar o teu fôlego. Tenho trabalho para fazer."

Ele riu-se. "Trabalho? Pensei que o teu trabalho era outro. Diz-me, como conseguiste entrar nesta empresa? Foi o velho Valente que te arranjou o lugar?"

"Porque é que te importas tanto?" perguntei, a minha voz fria como gelo. "Porque é que me odeias tanto?"

Ele aproximou-se, o seu rosto perigosamente perto do meu.

"Não é ódio, querida. É prazer. Adoro ver-te a rastejar. E um aviso: fica longe do Duarte. Ele não é para o teu bico."

Bufei. "Não te preocupes. Não tenho qualquer interesse no teu amigo precioso. Para mim, ele pode ir para o inferno."

O sorriso de Tiago vacilou.

"A Inês disse-me que andavas a gabar-te de que o Duarte ainda era obcecado por ti desde a faculdade. Que patética."

A menção a Inês fez-me perder o sorriso. A traição dela ainda doía.

"Sai do meu escritório," disse eu, a minha voz baixa e ameaçadora.

"Ou o quê? Vais chamar o teu padrinho?" ele provocou. "Um conselho, Leonor. Desaparece de Lisboa. Volta para o buraco de onde vieste. Ninguém te quer aqui."

"Sinto nojo de ti," cuspi as palavras.

Ele apenas sorriu e saiu, deixando-me a tremer de raiva.

Momentos depois, Inês entrou, com uma pilha de pastas nos braços e uma postura de vitoriosa.

"Leonor, querida," disse ela, com a sua voz falsamente doce. "O Senhor Bastos pediu para te entregar isto."

Ela pousou as pastas na minha secretária. Eram os ficheiros de um projeto menor, um trabalho de restauro de baixo orçamento num subúrbio esquecido. Uma humilhação profissional.

"O projeto da Quinta dos Magalhães é muito complexo. O Senhor Bastos achou que seria melhor para ti teres algo mais... simples," explicou ela.

"Claro," respondi, sem emoção.

"A propósito," continuou ela, "o Senhor de Magalhães mencionou o teu nome. Parecia... preocupado. O que se passa entre vocês?"

"Nada que te interesse," cortei-a.

Ela deu de ombros, um sorriso satisfeito no rosto, e saiu.

Olhei para as pastas. Eu precisava do dinheiro. O meu pai, Afonso, o grande fadista caído em desgraça, tinha deixado uma montanha de dívidas. Eu não tinha escolha.

Tive de aceitar o projeto.

Mais tarde nesse dia, o Senhor Bastos chamou-me ao seu escritório. Disse-me que tinha uma reunião com um novo cliente importante e que queria que eu o acompanhasse.

"É uma grande oportunidade, Leonor," disse ele.

A "reunião" foi num bar de luxo no Chiado. Em vez de chá e plantas de arquitetura, havia garrafas de whisky e charutos. Uma armadilha.

O cliente, um homem mais velho chamado Senhor Faria, olhou para mim de cima a baixo, um brilho oleoso nos seus olhos.

"Então esta é a famosa restauradora," disse ele. "O Senhor Bastos disse-me que é muito... talentosa."

Ele serviu-me um copo de whisky.

"Beba, menina. Vamos celebrar o nosso novo projeto."

"Eu não bebo, obrigada," recusei educadamente.

"Não seja tímida. Uma mulher com a sua... reputação... não deve ser tão recatada," ele insistiu, a sua mão a pousar perigosamente perto da minha.

Discretamente, liguei o gravador do meu telemóvel no bolso.

Ele continuou a falar, as suas intenções a tornarem-se cada vez mais claras. Ele não queria o meu talento de restauradora. Ele queria outra coisa.

"Sabe, Leonor," disse ele, "uma mulher bonita como você, com um pai problemático... a vida pode ser muito difícil. Mas eu posso torná-la muito, muito fácil."

"Tenho de ir à casa de banho," disse eu, levantando-me abruptamente.

"Não demore," disse ele com um piscar de olho.

Saí do bar, o meu coração a bater descontroladamente. O Senhor Bastos tinha-me vendido. A minha própria empresa tinha-me atirado aos lobos.

Ao sair para a rua, ofegante, vi-o. O Bentley preto de Duarte de Magalhães, parado do outro lado da rua, como um predador silencioso à espera na escuridão.

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