O Hotel Saunders era o amor da vida de Anny Saunders. O prédio histórico dominou a esquina da Rush com a East Chicago Avenue, real e belo, uma obra de arte viva.
O hotel de seus pais já foi o Bell Terrace, lar de celebridades como Audrey Hepburn, Sammy Davis Jr., e mais recentemente, Lady Gaga e o falecido Robin Williams. A estrutura original pereceu no Grande Incêndio de Chicago de 1871, apenas para ser ressuscitada maior, melhor e mais bonita.
Havia uma lição de vida lá. Com um latte na mão, Anny respirou no ar no saguão, que tinha uma mistura de baunilha e canela. Um cheiro fraco, mas que lembra a famosa sobremesa inventada na cozinha do hotel: o snickerdoodle.
Enquanto andava, ela viu Arnold na recepção, que estava verificando um hóspede no hotel, ela pegou um dos biscoitos frescos de um prato e piscou para ele. O homem mais velho de pele escura deu-lhe um grande sorriso e piscou de volta para ela. Tendo praticamente crescido aqui, o HS era um segundo lar para ela. Arnold começou como porteiro e trabalha aqui desde que ela se
entendia por gente. Ele era tão bom quanto a família. Ela jogou a bolsa no escritório e terminou de comer o biscoito, depois saiu segurando o café enquanto ela caminhava pelos corredores, verificando se não havia bandejas fora das portas que precisavam ser coletadas. No final do corredor, no primeiro andar, ela viu um homem do lado de fora de um dos quartos.
- Com licença. - ela chamou, mas teve que chamar novamente para ser ouvida por causa do som alto de furadeira. Quando ela parou ao lado dele, ele fez uma pausa na perfuração e olhou para ela.
Ele usava um cinto de ferramentas e uniforme da marinha, e a maçaneta da porta estava sentada no chão a seus pés, junto com uma pequena pilha de serragem.
- O que você pensa que está fazendo? - ela perguntou, curvando-se para pegar a maçaneta de metal. Seus pais haviam eliminado as "chaves reais" no momento em que assumiram o controle, instalando os populares de cartões-chave
usados agora nos hotéis, mas as maçanetas antigas ainda permaneciam.
- Estou instalando a entrada de impressão digital. - do seu bolso, o homem uniformizado tirou um pequeno bloco de prata com uma abertura preta e voltou a perfurar a porta.
- Não não não. Pode parar com isso agora! - ela colocou a maçaneta de volta no chão e espanou a mão na saia. - Nós não estamos fazendo nenhuma entrada de impressão digital. - ela falou dando um sorriso tentando manter a paciência. - Você precisa verificar novamente sua ordem de serviço.
Ele a olhou confuso.
- Senhora? - ele estava olhando para Anny, mas sua voz foi elevada como se estivesse falando com outra pessoa.
A mãe de Anny, Jolie, apareceu por trás da porta do quarto do hotel, com as sobrancelhas erguidas. Os seus cabelos que eram do mesmo tom de loiro mel que os de Anny, mas agora eram mais loiros para esconder o cinza.
- Oh, Anny querida! - sua mãe sorriu, mas sua expressão parecia um pouco cabisbaixa.
- Você pode me dar um minuto com minha filha, Gary? - e como se ela fosse a mãe de Gary, Jolie pegou uma nota de cinco dólares do bolso e a pressionou na palma da mão. - Vá ao restaurante aqui do hotel e peça para Sharon te fazer um
macchiato de caramelo. Eu garanto que você não vai se arrepender.
Gary franziu a testa para Jolie, mas pegou o dinheiro. Anny balançou a cabeça enquanto ele se afastava.
- Querida. - Jolie deu a Anny um sorriso de boca fechada, isso significava que havia más notícias. Anny lembroy que foi assim também, quando seu gato, Sherwood, foi atropelado por um carro e Jolie teve que dar a noticia para ela. - Entre minha filha e sente-se por favor. - ela abriu a porta e Anny entrou no quarto de hóspedes.
O quarto tinha edredons brancos e carpintaria moldada, televisões de tela plana modernas e obras de arte. Tons de vermelho, dourado e laranja intenso adicionaram à riqueza da paleta e foram feitos para mostrar que um incêndio pode ter derrubado o edifício original, mas não conseguiu mantê-lo caído.
Jolie apontou para uma cadeira que tinha ao lado da mesa, mas Anny se recusou a sentar.
- Mãe, dá pra me falar o que está acontecendo?
Jolie deu um suspiro profundo, mas depois de ver o rosto apreensivo da sua filha, ela resolveu falar.
- Filha, várias mudanças foram encomendadas para o Saunders, a fim de modernizá-lo. A entrada de impressões digitais é apenas uma delas. Além disso, os elevadores também serão substituídos.
- Por quê?
Anny imaginou as portas dos elevadores decoradas com uma Fênix, o pássaro místico que surgiu das cinzas de seu antecessor, estampado nelas em tom dourado.
Se havia um coração batendo no Saunders, era esse símbolo. Quando ela ouviu as palavras de sua mãe, seu estômago revirou. Mas em vez de responder, sua mãe continuou.
- Depois, haverá a troca do carpete. O design da tapeçaria não se encaixa no novo esquema. E provavelmente os medalhões de moldagem e teto serão todos substituídos. - ela suspirou de novo. - É uma nova era minha filha.
- Mãe, quando você começou a tirar o dia para beber? - Anny perguntou, apenas brincando.
Sua mãe riu, mas foi um sorriso rápido e desapareceu quase instantaneamente e ela tocou o braço de Anny gentilmente.
- Querida. Nós íamos contar, mas queríamos ter certeza de que realmente não havia volta atrás. Eu não esperava que o serralheiro iria chegar hoje. - ela falou desviando o olhar de Anny para a porta.
A paciência de Anny diminuiu.
- Você e o papai iam me contar o que?
- Seu pai e eu vendemos o Saunders para Alexander Thompson seis meses atrás. Na época, ele não tinha planos de fazer nenhuma alteração, mas agora que está se aposentando, o hotel ficou para o filho mais velho dele. Evidentemente, Reese tinha ideias diferentes para o Saunders.
Depois de falar, a atitude normalmente expontânea de Jolie ficou sombria.
Anny conhecia muito bem os Thompsons. O Thompson Hotel era o maior hotel corporativo da cidade, o segundo maior do país. Alexander (mais conhecido como "Big Thompson") e seus filhos o dirigiram, eles eram celebridades locais. Ela também leu sobre a aposentadoria de Big Thompson e a provável ascensão de Reese ao posto de CEO.
Mas nada disso importava. Havia apenas um fato recém-descoberto pairando em seu cérebro.
- Mãe, você vendeu o Saunders?
Quando sua mãe assentiu, ela percebeu que precisava daquela cadeira que sua mãe tinha puxado para ela se sentar. Ela sentou, atordoada pela avalanche de informações, exceto por um nome: Reese Thompson.
- Por que você não me contou mãe? - Anny se levantou de novo. Ela não conseguia ficar sentada. Ela não podia ficar parada enquanto tudo isso acontecia ao seu redor. Correção: isso aconteceu. ― Por que você não falou comigo primeiro?
- Você sabe que nós nunca iríamos te incluir em nossas dificuldades financeiras Anny. - sua mãe falou tentando se justificar de alguma forma para ela.
- Dificuldades financeiras mãe?
- Falência não era uma opção pra nós minha filha. - disse a mãe. ― Além disso, a venda nos deu o melhor dos dois mundos. Sem responsabilidade financeira e mantemos nossos empregos.
- Com Reese Thompson como seu chefe! - sua mente girou depois que ela disse isso em voz alta. Eles teriam que responder àquele arrogante, idiota... - Não mãe. - Anny balançou a cabeça enquanto passava pela mãe. - Isto é um erro.
Ela pensava que tinha que haver uma maneira de desfazer isso.
- Anny! - sua mãe a chamou enquanto Anny se curvava e pegava a maçaneta descartada do chão. Ela andou a passos largos pelo saguão, despejando o restante do café com leite na cesta de lixo da recepção e depois saiu como um furacão para fora do hotel.
Por sorte, ou azar, a garoa leve se transformou em chuva constante no segundo em que ela começou a andar pela faixa de pedestres. Irritada do jeito que estava, ela apostou que o vapor subia de seu corpo onde as gotas de chuva a atingiam.
- Aquele idiota estúpido! Se ele pensa que vai ficar por isso mesmo ele está muito enganado! - ela disse enquanto empurrava uma pequena multidão de pessoas correndo pela faixa de pedestres.
No pensamento dela, ela só se perguntava quem em sã consciência reconstruiria o Saunders? Entrada de impressão digital? Este não era um filme de James Bond! Ela viu que algumas pessoas a olhavam de lado, mas era difícil dizer se eram porque ela estava murmurando para si mesma como uma pessoa sem-teto maluca ou porque ela estava carregando uma maçaneta sem porta. Podiam
ser as duas coisas, mas ela não se importava.
Seus pais haviam vendido o Saunders para a maior e mais ostensiva cadeia de hotéis do mundo. E isso tudo sem contar a própria filha, que também era a gerente do hotel! Quão perto da falência eles estavam? Anny não poderia ter ajudado? Ela nunca saberia agora que eles esconderam tudo isso dela.
- Como eles puderam fazer isso comigo?
Anny fazia parte daquele hotel tanto quanto eles. Sua mãe agiu como se vendê-lo não passasse de um inconveniente qualquer.
- Foco Anny. Você está chateada com Thompson.
Uma coisa é certa, Big Thompson pode ter feito um favor a seus pais em comprar o hotel, mas agora que ele estava prestes a "se acalmar", parecia que Reese havia decidido flexionar seus músculos corporativos.
- Merda! - ela não queria acreditar que ela fez isso.
Ela acabou afogando seus sapatos Louboutin em uma poça profunda perto do meio-fio e sem querer prendeu o salto. Ela não era uma pessoa que gostava de ostentar, mas seus sapatos eram uma indulgência. Depois de conseguir tirar seu sapato de lá, ela sacudiu a água da chuva o melhor que pôde e subiu a Rush Street até a Superior, com os olhos postos no Thompson Hotel.
Hotel que tinha setenta andares de vidro espelhado e tão invasivos quanto uma visita ao ginecologista. Dada a escolha entre essa monstruosidade e os Saunders, com seus biscoitos quentes e design aconchegante, ela não podia acreditar que alguém colocaria os pés nos clínicos, Thompson Hotels, caiados de branco, e muito menos que alguém conseguiria dormir lá.
No topo do hotel espelhado, Reese Thompson cuidava de tudo aquilo como um senhor do mal, a mãos de ferro. O filho mais velho de Thompson não era da realeza, mas de acordo com a mídia social e a atenção do jornal, ele com certeza pensava que era.
No meio do caminho da Superior Avenue, ela cruzou os seus braços, tentando se esquentar enquanto estremecia contra o vento que se intensificava. Ela realmente deveria ter pegado o casaco ao sair, mas não houve muitas decisões em seu processo. Ela chegou até aqui, com punhos cerrados e vapor saindo de suas orelhas, sua ira a manteve aquecida durante a caminhada relativamente curta.
Ela sabia bem que em Chicago, o clima quente não aparecia até o verão.
Finalmente, ela ficou frente a frente com a gigantesca entrada do prédio de setenta andares. O Thompson não era apenas o principal hotel para os visitantes ricos (e possivelmente incultos, considerando que eles ficavam aqui), mas também era onde Reese dormia, em sua própria suíte no último andar, em vez de sua imensa mansão em Lake Shore Drive. Ela não ficaria surpresa se ele dormisse em sua mesa, aconchegando o celular em uma mão e um maço de dinheiro na outra.
Bilionários estúpidos.
Quando ela entrou, ela respirou fundo algumas vezes e tentou sacudir um pouco o frio tirando um pouco da água dos seus cabelos. Pelo menos lá dentro não havia vento e, apesar do frio calmante dos móveis, tapetes e iluminação moderna, estava quente. Mas apenas em temperatura. O Thompson representava tudo o que ela odiava nos hotéis modernos. E ela deve saber, porque trabalhou diligentemente com os pais para manter a integridade do hotel boutique desde que começou a administrá-lo. Seu hotel era um lugar de rica história, beleza e paixão.
Este lugar era apenas uma torre de vidro, feita para que o escalão mais baixo da cidade pudesse ver, mas nunca tocar.
Este lugar era perfeito para pessoas como Reese Thompson.
Ela atravessou o saguão, cheia de empresários de todas as cores, formas e tamanhos. Flashes de ternos - preto, cinza, branco - passaram em um borrão monocromático, como se o Thompson Hotel tivesse um código de vestimenta e cada hóspede tivesse recebido o memorando. Anny, em sua camisa de seda cor de ameixa, saia lápis cinza escuro e salto nude, não se destacava... exceto pelo
fato de ela estar parecendo com um rato afogado por causa da chuva.
Alguns olhares mal-humorados e sobrancelhas arregaladas foram sua recompensa por sair correndo para a tempestade. Bem, para ela tanto faz.
Ela viu o elevador que levava ao escritório de Thompson, e correu pegando a porta quando uma mulher mais velha estava apertando o botão. A mulher de cabelos grisalhos e ondulados arregalou os olhos em alarme, com um cachorro minúsculo aconchegado em seus braços, mas fingiu que não era com ela. Anny passou a mão pela saia e pelos cabelos, passou as mãos abaixo dos olhos, limpando a maquiagem borrada, para garantir que não fosse ao escritório de Reese com olhos de panda.
- Bom dia. - ela falou cumprimentando a senhora.
A mulher mais velha franziu a testa. Aqui estava o outro problema com o Thompson. Seus convidados eram tão esnobes quanto o prédio. Atitude reflete liderança.
As portas se abriram apenas uma vez, para levar a mulher e seu cachorro ao quadragésimo segundo andar, e então Anny seguiu até o último andar sem interrupção. Ela usou o tempo para se endireitar nas portas embaçadas e reflexivas de ouro. Não foram necessárias chaves ou códigos de segurança para chegar ao topo do edifício. Reese Thompson provavelmente estava convencido demais para acreditar que alguém se atreveria a subir aqui sem hora marcada.
Ela ouviu que a secretária dele era mais como um pitbull que guardava seu escritório.
As portas do elevador deslizaram para o lado para revelar uma mulher de preto, sua expressão sombria era mais adequada para uma funerária do que para um hotel.
- Olá posso te ajudar? - a mulher perguntou, suas palavras medidas, breves e nem um pouco amigáveis.
- Você não pode. - disse Anny, satisfeita por a chuva não ter abafado completamente sua raiva. - Eu preciso falar com o Sr. Thompson.
- Você tem um horá...
-Não. - ela supôs que poderia até ter marcado uma hora, realmente poderia ter ligado antes, mas não fazia sentido roubar Reese Thompson de todo o efeito de sua fúria cara a cara.
O telefone tocou e a mulher desviou o olhar azedo de Anny. Ela esperou que a outra mulher atendesse uma ligação, falasse o mais humanamente possível e depois colocar o aparelho de novo no gancho. A mulher cruzou as mãos, esperando Anny falar.
Mesmo com as narinas dilatadas pela raiva, Anny forçou um sorriso. Só havia um caminho além dessa recepcionista. Ela disse com pouco de segurança, um pouco sendo o máximo que ela podia acessar no momento.
- Anny Saunders para ver Reese Thompson.
- Srta. Saunders - disse a mulher, seu tom de voz superior, os olhos indo para a maçaneta na mão de Anny. - Eu presumo que você está aqui em relação às mudanças no hotel.
- Você entendeu. - disse Anny, mal aproveitando sua raiva. Como é que todo mundo estava tão calmo em relação a desmontar um marco da cidade?
- Sente-se por favor. - O pitbull de Thompson apontou uma mão bem cuidada para um grupo de cadeiras brancas e aconchegantes, franzindo a testa e a boca de nojo ao ver o estado de Anny. - Talvez eu possa pegar uma toalha para você primeiro.
- Eu não vou ficar sentada. - ela não iria permitir ser posta em seu lugar pela subordinada de Reese. Então suas orações foram atendidas quando o conjunto de portas de madeira reluzentes atrás da mesa da secretária se separou como o Mar Vermelho.
Bingo.
Anny apressou seus passos enquanto a mulher na mesa latia.
- Com licença!
Anny a ignorou. Ela não demoraria mais um segundo... ou assim ela pensou.
Ela parou quando uma mulher em um vestido vermelho muito apertado, um decote abundante, os saltos ainda mais altos e potencialmente mais caros que os Louboutins de Anny, saiu do escritório e piscou devagar com aquela maquiagem pesada. Então ela deu a volta ao redor de Anny, passou pelo pitbull e deixou para trás uma pluma de perfume.
- Interessante. - Anny pensou.
O último encontro de Reese? Uma acompanhante? Se Anny acreditava nos tabloides locais, provavelmente seria as duas coisas. Pagar por encontros certamente não estava acima do orçamento dele.
Antes que as portas do escritório se fechassem, ela entrou no escritório de Reese.
- Srta. Saunders! - veio um latido atrás dela, mas Reese, que estava de frente para as janelas e olhando para o centro da cidade, disse três palavras que instantaneamente silenciaram sua secretária.
- Deixe ela entrar, Bobbie.
Anny sorriu de volta para a mulher de rosto azedo e olhos de carvão quando as portas do escritório de Reese se fecharam.
- Eu presumo que você seja Anny. - Reese ainda não tinha se virado.
Sua postura era reta, paletó e calça impecavelmente ajustados ao seu corpo musculoso e perfeitamente proporcional. Tubarão ou não, o homem sabia usar um terno. Ela viu as fotos dele no Trib, bem como na Luxury Stays, a principal revista de negócios da indústria hoteleira e, como qualquer outra mulher em Chicago, ela não perdeu as fofocas sobre ele online. Assim como nas suas fotos mais profissionais, suas mãos estavam afundadas nos bolsos da calça e seu cabelo ondulado e escuro era estilizado e perfeito.