O primeiro tiro entrou pelo ombro dela e a lançou dois passos para
frente, contra o muro do beco. O segundo raspou sua coxa quando ela já
corria.
Não caiu porque sabia que, se caísse, a matariam. Isso, e porque o
corpo de oito meses e meio que carregava dentro exigiu que se movesse
antes de pensar.
Valéria apertou a mochila contra a barriga e virou a esquina, no
bairro em que se escondia havia seis dias e conhecia pouco, mas os
passos dos dois homens vinham duas esquinas atrás e era correr ou
morrer.
O sangue do ombro descia quente pelas costas. O da coxa era menos, uma
carícia de bala. Era estagiária de medicina, já tinha ano e meio em
hospitais públicos vendo gente entrar baleada, e sabia que o do ombro
não era mortal - um tiro assim, àquela distância, tinha sido
proposital, só para detê-la. Não para matá-la.
Margarita a queria viva, e só para ficar com o neto.
Que ela pare de fugir. Depois eles cuidam disso. Que pareça um
acidente.
A frase se repetia em sua cabeça havia seis dias; naquela mesma noite
havia enfiado quatro coisas numa mochila, saído pela porta de serviço
escondendo a barriga enorme e se perdido nos ônibus da madrugada. Três
pensões, duas mudanças de cabelo, uma identidade falsa que lhe custou
o dinheiro que restava. E mesmo assim a encontraram.
Virou outra esquina. Uma contração a dobrou ao meio e tirou o ar dela.
Encostou-se numa parede de tijolo, cerrou os dentes e esperou. A
contração durou cinquenta segundos.
Não. Agora não.
Mas o corpo, quando levou dois tiros e o susto de uma perseguição,
decide que o bebê tem que sair já, e ninguém pode evitar isso.
Valéria mordeu a língua para não gritar e continuou andando.
---Filha. Venha.
Valéria ergueu a cabeça.
Uma senhora baixinha, de cabelo branco preso num coque e um avental
manchado de óleo, fazia um sinal breve com a mão desde uma porta
entreaberta. Sem susto, sem espanto, como se passasse a tarde inteira
esperando que algo assim acontecesse.
Valéria hesitou. A contração seguinte chegou e não deu para pensar
mais. Cruzou a porta.
---Ao fundo. Último quarto. Tem um colchão.
---Senhora, atiraram em mim.
---Já vi. Mexa as pernas, menina.
O quarto tinha um colchão no chão, uma mesinha com um Cristo de madeira
e uma lâmpada pendurada no teto. A senhora entrou atrás dela e lhe
passou uma toalha limpa.
---Tire a roupa de baixo.
---Primeiro o ombro. A bala pode infeccionar.
---Você é médica?
---Estagiária.
---Então sabe que, se eu parar para tirar a bala agora, o bebê morre.
É isso que você quer?
Valéria não discutiu. Sabia disso. Uma estagiária com ano e meio de
plantões na emergência sabe quais são as prioridades.
Tirou a calça com as mãos desajeitadas de sangue, deitou-se e dobrou
os joelhos. A senhora levantou sua saia e enfiou dois dedos para medir
a dilatação.
---Oito centímetros. Falta pouco.
---Eu sei.
---Já pariu antes?
---Não, mas já estive em muitos partos.
---Então não preciso explicar nada.
Uma nova contração. Valéria agarrou o lençol com a mão sã e apertou tão
forte que os nós dos dedos ficaram brancos. O grito subiu pela
garganta e ela o esmagou entre os dentes.
---Solte o grito ---disse a senhora---. Aqui dentro ninguém ouve você.
---Ouvem sim. Estão vindo atrás de mim.
A senhora ficou parada dois segundos. Caminhou até a janela, olhou por
uma fresta e voltou.
---Quantos?
---Dois. Podem ser mais.
---O que eles querem?
---O menino. Depois me matam.
---Quem é tão desalmado?
---Minha sogra.
A senhora assentiu como quem já ouviu aquilo muitas vezes. Como se em
quarenta anos recebendo crianças já tivesse recebido mais de uma moça
de fora do bairro fugindo da própria família.
---Eu sou dona Carmen. Eu ajudo você. Você aguenta. Depois a gente
decide.
---Se eles vierem, não abra.
---Não abro para ninguém esta noite. Empurre.
Valéria empurrou.
O bebê nasceu às onze e vinte e três. Dona Carmen o recebeu nas duas
mãos, soprou em seu rosto e deu um tapinha suave. O bebê chorou com
aquela força limpa dos que chegam ao mundo bravos com a viagem.
---Homem. Está forte.
Cortou o cordão com uma tesoura esterilizada no fogo, envolveu-o numa
toalha e o colocou sobre o peito dela. Valéria olhou para ele, passou
um dedo pelo lábio minúsculo e, pela primeira vez em dias, sentiu algo
que não era medo.
E então a barriga se contraiu de novo.
---Dona Carmen.
---Eu sei. Senti quando enfiei os dedos. Não te contei para não
assustar.
---Outro?
---Outro. Os ultrassons são máquinas. O corpo é o corpo. Empurre.
Dona Carmen tirou o primeiro do peito dela, deixou-o sobre um cobertor
a um metro do colchão e voltou a enfiar as mãos.
---Filha, esse aí vem sentado.
Valéria fechou os olhos; seu filho tinha escolhido o pior momento para
vir sentado, ela no chão de uma vila, com uma senhora de mãos limpas,
mas sem instrumentos - podia ser sua morte, precisava de um centro
cirúrgico ou de um ginecologista experiente.
---Dona, se eu morrer não importa, tire meu filho vivo.
---Já virei bebê assim por dentro vinte e duas vezes em quarenta anos.
Vinte e dois vivos. Empurre.
Dona Carmen enfiou a mão até o pulso. Valéria gritou. Dessa vez o
grito saiu animalesco, e a senhora nem sequer olhou para ela porque
tinha os dois braços enfiados até os cotovelos em sangue tentando
virar um bebê que havia decidido nascer de lado.
---Vem, menino. Vira. Vira para sua mãe.
Passaram-se três minutos. Valéria perdeu a noção do tempo. Via manchas
negras nas bordas dos olhos. O tiro no ombro drenara mais sangue do
que ela podia repor. Por dentro subia a voz calma de sua professora de
obstetrícia: em hemorragia pós-parto a mãe tem vinte minutos antes do
choque.
---Dona, vou perdê-lo.
---Empurre.
Valéria empurrou com o que lhe restava. Empurrou pensando em Mateo
entubado, no rosto de Margarita ao telefone pedindo que a matassem,
nos dois filhos morrendo com ela naquela noite. E isso ela não ia
permitir.
O segundo bebê nasceu às onze e quarenta e um. Nasceu roxo. Não
chorou.
Dona Carmen o segurou com uma mão embaixo do pescoço e a outra embaixo
da bundinha. Soprou em seu rosto. Esfregou o peito dele com o polegar.
Passou um dedo limpo pela boca para tirar o muco. O bebê continuava
roxo.
Valéria se ergueu sobre os cotovelos apesar do tiro. A estagiária
venceu por um segundo a mãe apavorada.
---Boca no nariz. Sopros curtos. A cada três segundos. E bata nas
costas dele.
Dona Carmen colocou a boca sobre o nariz do bebê e soprou. Uma vez.
Duas. Na quarta, o bebê tossiu. E respirou. E abriu os olhos enormes,
escuros, e olhou para o teto com a calma que não perderia pelo resto
da vida.
---Outro homem ---disse dona Carmen, com a voz quebrada pela primeira
vez naquela noite---. E este chegou por conta própria.
Cortou o cordão, limpou-o, envolveu-o em outra toalha e o deixou ao
lado do primeiro. Dois bebês idênticos sobre um cobertor, no chão de
uma vila num bairro onde a polícia não entrava.
---Aguente. Vou tirar a bala.
Foi até a cozinha e voltou com uma faca pequena que passou pelo fogo,
uma pinça velha, uma garrafa de mescal e um pano limpo. Derramou o
mescal sobre o ferimento do ombro. Valéria mordeu o dorso da mão e,
pela dor, pela perda de sangue e pelo esgotamento do parto, perdeu a
consciência. A senhora se agachou ao lado do colchão e pegou um dos
bebês. Carregou-o com a suavidade de quem já carregou milhares, mas
pensou que aquela jovem inconsciente não conseguiria escapar viva
daquela gente que a procurava com dois recém-nascidos, e uma ideia
absurda cruzou sua cabeça.
Três batidas na porta. Depois mais duas, fortes.
Dona Carmen acomodou o bebê sobre o colchão vazio, colocou por cima a
toalha manchada de sangue do parto, espalhou um pouco mais de sangue
fresco ao redor com um pano e caminhou até a entrada. Antes de abrir,
respirou fundo duas vezes e ajeitou o rosto de mulher cansada que
usava havia quarenta anos.
Abriu.
Margarita Solís estava no umbral com um casaco preto e três homens
atrás dela. Sem maquiagem, sem joias, sem nada do luxo com que
costumava circular pela cidade. Só o rosto cansado e os olhos frios.
---Dona. Procuro uma moça jovem, grávida, ferida. Levou dois tiros e
entrou neste bairro há duas horas.
---Uma moça assim chegou à minha porta há duas horas. Mas já não posso
mais ajudá-la.
---O quê?
---Morreu há quarenta minutos.
Margarita estreitou os olhos. Dona Carmen se afastou e a deixou entrar
com dois dos homens atrás; o terceiro ficou na porta. Guiou-a até o
último quarto.
Sobre o colchão havia um bebê, dormindo, envolto na toalha, com a
mancha grande de sangue ao redor. Margarita ficou parada na porta e
olhou tudo: o colchão, o sangue, a pinça com a bala ainda sobre o
pratinho, a faca do fogo, a garrafa de mescal vazia.
Valéria estava morta, ou foi o que ela pensou ao ver o corpo sem
sinais; caminhou devagar, passou um dedo pela bochecha do bebê, que
abriu os olhos por um instante, olhou fixo para ela e voltou a
fechá-los. Margarita ficou imóvel. Algo se moveu em seu rosto que ela
mesma não entendeu.
---É homem.
---Sim.
Margarita ficou olhando o bebê por um longo tempo. E então, sem que
ninguém dissesse nada, o rosto dela se acomodou, pegou o neto e
caminhou até a saída, mas antes de ir tirou um maço de notas e o
colocou na mão da senhora.
---Que ninguém saiba que o menino nasceu aqui. Que ninguém saiba que
essa mãe existiu. Se eu ouvir um boato, volto e enterro a senhora no
quintal. Entendeu?
---Sim, senhora.
Capítulo 2
O herdeiro dos Solís
Margarita Solís cruzou a entrada da clínica privada com o bebê
envolto num cobertor de algodão e o coração a mil. O doutor Robledo a
esperava no corredor, ainda com o jaleco do plantão noturno.
---Senhora. Chegou.
---O centro cirúrgico está pronto?
---Pronto. O coração já está aqui. Compatibilidade perfeita. Seu
filho entra em trinta minutos.
---Tempo de procedimento?
---Seis horas, se tudo correr bem.
---Que corra bem.
---Senhora.
---Diga.
---Estamos há oito meses esperando. E aparece justo esta noite. Depois
da noite que a senhora teve. É um milagre.
Margarita o olhou com os olhos secos. Apertou o bebê contra o peito.
---Milagre ou não, doutor, eu quero meu filho vivo.
Vinte minutos depois, Mateo Solís entrou no centro cirúrgico sobre uma
maca. Oito meses sem abrir os olhos, só o respirador subindo e descendo
o peito dele como uma maré que não acaba.
O que ninguém sabia, nem mesmo os médicos que iam abrir seu esterno,
era que, dentro daquela cabeça adormecida, algo ainda funcionava.
E naquela noite, pela última vez antes de um coração novo mudar sua
vida, ele sonhou.
Era uma tarde de agosto.
Descia ao saguão do Hospital Geral depois de uma reunião com o
diretor da ala de cardiologia, onde a fundação da família acabara de
aprovar a doação anual. Sentiu um puxão diferente no peito. Mais
fundo, mais frio. Conseguiu chegar ao piso de mármore antes que as
pernas falhassem.
As pessoas gritaram. E então ela apareceu.
Uma moça miúda, de cabelo escuro, com jaleco branco de estagiária e
um estetoscópio pendurado no pescoço. Ajoelhou-se ao lado do corpo,
verificou o pulso, abriu sua camisa e começou as compressões com uma
calma que ninguém ao redor tinha. Trinta para dois. Trinta para dois.
Trinta para dois.
Em dois minutos, o coração de Mateo voltou a bater.
No dia seguinte, no quarto particular, ele perguntou por ela. Quando
ela entrou no quarto com o jaleco branco, os dois se olharam por um
segundo longo demais. Ela colocou dois dedos em seu pulso e ele
segurou sua mão antes que a tirasse. Segurou-a assim por meio minuto,
com os olhos fechados, como quem retém um milagre.
---Obrigado.
---Não me agradeça.
---Como você se chama?
---Valéria.
---O nome combina com você.
Ela riu baixinho. Uma risada curta, nervosa, que ele lembraria depois
em sonhos, quando tudo desmoronasse.
Durante três meses, encontraram-se às escondidas. Em cafés pequenos,
no apartamento que ele tinha, em consultórios emprestados depois que
ela saía do plantão. Ela contou a ele como sua avó morreu cuidando
sozinha de uma menina, como pagava a faculdade de medicina com
plantões noturnos numa farmácia, como uma mulher se levanta do chão
quando não tem ninguém para levantá-la.
Quando Margarita descobriu, já era tarde; Mateo deixou claro que a
amava e que não a deixariam por ser pobre - se ela se opusesse, ele
iria embora com ela. Mas passaram-se seis meses e, numa tarde de
novembro, almoçando com Valéria num restaurante do centro, Mateo
desabou. O coração aguentara mais do que qualquer médico teria
previsto, mas já não dava mais. Ou recebia um transplante em semanas,
ou ficaria ali.
Mateo não soube de nada disso. Nem do coma, nem da lista de espera,
nem dos meses que passavam lá fora enquanto ele dormia.
E muito menos soube o que aconteceu na sala de espera do hospital,
duas horas depois de ser arrancado dos braços de Valéria.
Uma enfermeira a viu pálida. Mediu sua pressão. Obrigou-a a deitar
numa maca. Colheram seu sangue. Quarenta minutos depois, a médica
entrou com o resultado.
---Senhorita Cruz, a senhorita sabia que está grávida?
Mateo nunca soube disso. Já estava dormindo, sonhando com ela sobre
seu peito. Já estava dormindo quando Margarita entrou por acaso no
quarto onde davam a notícia a Valéria, e ouviu a palavra antes de
qualquer um.
---Doutor, batimento recuperado. Fechar.
---Fechando.
Às nove e vinte da manhã, o doutor Robledo saiu do centro cirúrgico
com o jaleco encharcado de suor. Margarita o esperava no corredor com
o bebê ainda nos braços.
---Correu bem, senhora. O coração está batendo sozinho. Se nos
próximos sete dias não houver rejeição, seu filho acorda.
---Quanto tempo?
---Uma semana. Vamos baixando a sedação aos poucos.
---Obrigada, doutor.
---Senhora.
---Diga.
---É a mulher mais afortunada que já conheci. Parece que o universo
responde à senhora.
Margarita o olhou. E sorriu pela primeira vez em oito meses.
---O universo não me responde, doutor. Eu o organizo a meu favor.
• • •
Cinco dias depois, em seu escritório em Las Lomas, Margarita Solís
estava sentada ao lado do moisés onde o bebê dormia. Sobre a
escrivaninha, uma pasta. Dentro, um único papel.
Um comprovante de transferência bancária, datado de dois meses atrás,
por uma cifra de sete dígitos. O destinatário: uma conta numerada em
nome de Valéria Cruz, aberta numa agência do centro.
Margarita mandara abri-la um mês antes. Com uma identidade roubada,
uma assinatura falsificada e um contato no banco que lhe devia
favores. A conta recebera o depósito, permanecera aberta três horas e
se esvaziara numa transferência internacional para um destino
impossível de rastrear.
Para qualquer olhar, era a prova perfeita de que Valéria Cruz cobrara
para entregar a criança.
Margarita fechou a pasta. Olhou para o bebê dormindo no moisés. Passou
um dedo pela bochecha dele.
---Meu menino. Você nunca vai saber como chegou a esta casa. E meu
filho, quando acordar, vai acreditar no que eu disser a ele. E o que
eu vou dizer é que sua mãe te vendeu por dinheiro.
O bebê abriu os olhos por um segundo. Olhou fixo para ela. Não
chorou. Mas algo naquele olhar quieto, escuro, sereno demais para um
recém-nascido, fez Margarita abaixar a mão por um instante.
Como se o bebê soubesse. Como se já estivesse, sem entender uma
palavra, arquivando tudo.
Margarita se endireitou. Recompôs o sorriso.
---Lucas. Você vai se chamar Lucas. Como o santo dos médicos. Para
que, de algum jeito, tudo isso faça sentido.
O bebê fechou os olhos de novo.
Dois dias depois, o doutor Robledo entrou no escritório com o rosto
tranquilo pela primeira vez em muitos meses.
---Senhora. Seu filho está acordando.
Margarita se levantou devagar. Pegou o bebê do moisés. Pegou a pasta
da escrivaninha e, enquanto avançava pelos corredores brancos da
clínica, no outro extremo do país, uma mulher jovem sem memória olhava
pela janela de um ônibus de segunda classe as placas da fronteira e
passava um dedo distraído na bochecha de um menino do qual havia
esquecido o rosto do pai, e as próprias lembranças.
Capítulo 3
Camila
Camila ia no banco do fundo do ônibus, colada na janela, com Diego
adormecido no peito. O tiro no ombro ardia. O da coxa latejava com o
movimento. Encostou a testa no vidro. Lá fora, a estrada era uma linha
negra que se repetia. Dentro, em sua cabeça, as últimas horas se
misturavam.
Havia acordado dois dias antes sobre um colchão. Com a dor no ombro e
a boca seca, abriu os olhos procurando um teto que reconhecesse.
Encontrou uma lâmpada velha, uma mesinha com um Cristo de madeira e
uma mulher enrugada sentada ao lado do colchão.
---Você acordou, filha.
A senhora aproximou um copo d'água.
---Beba. Devagar.
---Onde estou?
---Na minha casa. Peguei você na rua. Tinha dois tiros. Pariu bem
aqui.
---Não entendo, não lembro de estar grávida.
Virou a cabeça. Sobre o cobertor, envolto numa toalha limpa, dormia
um bebê. Cabelo preto colado no crânio, os punhos fechados.
---É meu?
---É seu. Você pariu há dois dias.
Olhou para ele por um bom tempo. Não sentiu o que pensou que ia
sentir. Só um peso no peito.
---Como ele se chama?
---Você não chegou a batizar. Desmaiou antes.
---E o pai?
A senhora balançou a cabeça.
---Não sei. Você chegou sozinha. Não mencionou ninguém.
Valéria buscou dentro de si. Um rosto, um nome, uma voz. Não veio
nada. Só manchas. Uma sala de espera de hospital. Um cheiro de
desinfetante. Uma mulher falando em outro quarto. Depois, névoa.
---Como eu me chamo?
A senhora ficou imóvel.
---Valéria. Você me disse Valéria antes de desmaiar.
---Valéria.
Repetiu na boca como quem experimenta uma palavra estrangeira. Não
soou como ela.
---O que aconteceu comigo?
---Você chegou correndo. Me disse que sua sogra queria te matar e
tirar o menino de você. Eu te levei para dentro e você começou a
parir. Tirei a bala com uma faca do fogo. Você desmaiou de dor.
---Não lembro de ter sogra.
---Você não lembra de nada, filha. A cabeça às vezes se fecha quando
vê coisas muito feias. É a forma que ela tem de te proteger.
Valéria voltou a olhar para o bebê. Passou um dedo pela bochecha dele.
O menino se mexeu no sono. Algo subiu pela garganta dela. Um nome, sem
motivo.
---Diego. Ele se chama Diego.
---Bonito nome.
A senhora contou o resto, devagar. Que a mulher tinha ido procurá-la
naquela mesma noite. Que ela conseguira fazê-la acreditar que Valéria
tinha morrido no parto. Que a mulher fora embora com essa ideia e não
voltaria.
---E onde ela acha que está meu corpo?
---Vem. Você precisa ver uma coisa.
Ajudou-a a se levantar. Custou. A cada passo, o tiro na coxa descia
até o pé. Saíram para o quintal de terra.
Num canto, junto a um limoeiro, havia um montinho de terra
recém-revolvida. Uma cruz de madeira. E sobre a cruz, escrito com
marcador preto numa tábua, um nome.
Valéria Cruz. Que descanse em paz.
Camila levou a mão livre à boca.
---É para os vizinhos. E para os homens que ela possa mandar
confirmar. Se alguém vier perguntar, eu digo que você está enterrada
ali. E se alguém quiser abrir, que abra. Tem um cachorro morto lá
dentro.
Valéria olhou para ela. Não soube se ria ou vomitava.
---Por que a senhora está fazendo tudo isso?
---Porque os anos ensinam a gente a saber quando uma mulher não
merece morrer.
Voltaram para dentro. A senhora lhe entregou uma sacola de pano.
Dentro havia um maço grosso de notas, um título de eleitor, uma
certidão de nascimento e uma passagem de ônibus. Valéria tirou o
documento. A foto era de outra mulher, parecida, mas não igual. O
nome embaixo dizia Camila Ríos. Vinte e três anos. Mazatlán.
---Minha sobrinha. Morreu há três anos num acidente. Ninguém procura
por ela. Tem sua idade. De agora em diante, você é ela.
---Camila Ríos.
---Repita para si mesma todos os dias até virar seu nome verdadeiro.
E esqueça o outro. Três quarteirões pelo beco até a avenida. O ônibus
sai às seis para Tijuana. De lá você atravessa. Quando estiver do
outro lado, não volte.
---Por quê?
---Porque nem toda verdade serve. Às vezes o que você não sabe é o
que te salva.
Não entendeu o que ela quis dizer com aquilo. Mas assentiu.
Repetiu o nome baixinho.
---Camila Ríos.
E continuou repetindo até o ônibus sair da cidade.
• • •
Oito anos depois.
Nova York. A doutora Camila Ríos fechou o último prontuário do dia e
desligou o computador do consultório.
Usava o cabelo curto, na altura do queixo. Castanho-claro, com uma
mecha que caía sobre o olho esquerdo cada vez que se inclinava sobre
um paciente. Os olhos verdes eram lentes de contato que colocava
todos os dias. A cicatriz do ombro, sempre coberta com manga comprida.
Seu crachá dizia Dra. Camila Ríos. Cardiologia pediátrica. Chefe da
unidade de cardiopatias congênitas do Mount Sinai.
Ninguém naquele andar sabia nada dela antes de oito anos atrás.
Ninguém sabia que tinha chegado à fronteira com um bebê de três dias,
dois tiros fechados na marra e uma certidão de nascimento alheia.
Ninguém sabia que trabalhara seis anos na limpeza noturna de
hospitais para pagar o diploma e a especialização.
Nem ela mesma sabia. Essa parte lhe fora contada pelos arquivos, pelos
recibos, pelos diplomas. Mas por dentro, na cabeça, só havia Camila
Ríos. A Valéria de antes continuava enterrada num quintal de Tepito
que ela já não conseguia localizar num mapa.
Pegou a bolsa, vestiu o casaco e saiu para o corredor.
Diego a esperava na sala de espera, com a mochila entre os pés e um
livro de problemas nas mãos. Oito anos. Cabelo preto, olhos escuros,
máscara sobre o nariz - sempre a usava, desde os dois anos. A
cardiopatia congênita o deixava propenso a contrair vírus.
Ergueu o rosto quando a viu.
---Pronta, mãe.
---Pronta.
Pegou a mão dele. No dia seguinte começava a olimpíada internacional
de matemática. Diego competia pelos Estados Unidos na categoria
sub-dez. No ano passado tinha ficado em segundo lugar. Neste ano ia
ganhar.
---Está nervoso?
---Não.
---Tem certeza?
---Mãe. É matemática.
Camila riu. Aquele menino falava como um adulto desde os quatro anos.
Programava desde os seis. Às vezes olhava para ela com uma calma
estranha, como se soubesse coisas que ela não tinha contado.
---Vamos para o hotel, precisamos fazer o check-in cedo.
No saguão do hotel onde se hospedavam os competidores e suas
famílias, Mateo Solís acabava de registrar o quarto 1402. Levava o
paletó dobrado no braço e a mão de Lucas apertada na outra.
---Pai. Vamos comer?
---Vamos. Depois você vai dormir.
Lucas tinha oito anos. Cabelo preto, olhos escuros, máscara colocada.
A cardiopatia com que nascera nunca o largara de vez. Mateo carregava
aquela culpa silenciosa de ter passado a fragilidade que os dois
tiveram.
---Vou ganhar.
---Eu sei.
---E quando eu ganhar, você me leva ao museu dos dinossauros?
---Eu levo.
Caminharam até o elevador.
Mateo não a viu chegar.
Uma mulher atravessou o saguão andando rápido, com um menino pela
mão. Ia olhando o celular. Ele ia lendo um cartaz do torneio.
Esbarraram na altura do ombro.
---Desculpe.
---Perdão.
As duas vozes saíram ao mesmo tempo. Os dois ergueram o rosto ao
mesmo tempo.
Mateo ficou parado. A mulher também.
Foi um segundo. Talvez dois. Ela tinha o cabelo curto castanho, os
olhos verdes, o rosto de alguém que ele não conhecia. Mas algo no
peito, embaixo da cicatriz antiga, deu um golpe curto. Como se o
coração novo, o que já levava oito anos aprendendo a bater sob seu
esterno, tivesse reconhecido algo que ele não reconheceu.
Camila ficou olhando para ele. O homem era alto, terno cinza, barba
de um dia. Nunca o tinha visto na vida. Mas subiu à sua boca um gosto
estranho. Como quando um nome fica na ponta da língua.
---Desculpe ---repetiu ele.
---Não foi nada.
Mateo baixou o olhar. Viu o menino que ia com ela. Máscara. Cabelo
preto. Olhos escuros. Algo puxou de novo em seu peito.
Lucas, do outro lado, olhou para o menino. O menino olhou para ele.
Nenhum dos dois disse nada.
Mateo ajeitou o paletó e puxou de leve a mão de Lucas.
---Vamos, filho.
Camila apertou a mão de Diego e seguiu até o elevador.
Nenhum dos quatro olhou para trás.
Mas os dois adultos, cada um por si, chegaram ao elevador com a
sensação incômoda de ter esquecido algo importante. Algo que tinha
ficado parado no meio do saguão, esperando para ser recolhido.
E os dois meninos, cada um com seu próprio pai, subiram em silêncio
pensando um no outro.