Capítulo 1 - O Dia Em Que o Céu Caiu
Emma Anderson
O mundo não avisa quando vai ruir. Às vezes, ele só dobra na curva errada.
O grito veio antes do metal. Um grito de mulher, tão alto que parecia rasgar o próprio ar. Eu ainda sentia o volante tremendo nas minhas mãos quando a luz branca engoliu tudo. Depois... nada. Veio um silêncio que pesava mais que qualquer barulho.
Pisquei. O cheiro de gasolina queimava a garganta. O airbag me sufocava contra o banco. Ellie chorava atrás de mim, um choro pequeno, engasgado, que partia minha alma no meio.
- Ellie... princesa... calma... calma... - Minha voz saiu rouca, partida. Virei o pescoço devagar; sangue quente escorria da minha testa e pingava no volante.
- Papai? Nenhuma resposta. - Mamãe? - Chamei.
Mamãe estava caída contra a janela, o rosto virado para o lado errado. Papai... papai parecia dormir, mas o sono dele era pesado demais. Ellie gritava mais alto agora.
- Ellie... eu tô indo. - falei tentando acalmá-la.
Meus pais não acordaram, nem com o choro da minha irmã, nem mesmo com meus movimentos. Abri a porta com dificuldade, desci do banco com as pernas moles, desamarrei a cadeirinha com dedos que não pareciam meus. Puxei minha irmãzinha para o peito. Ela enterrou o rosto no meu pescoço, as mãozinhas agarrando minha blusa como se eu fosse a última coisa sólida do planeta.
- Tá tudo bem, meu amor... a Em tá aqui... a Em tá aqui... - Mentira. Nada estava bem. Mas era tudo que eu tinha para dar a ela.
Saí cambaleando do carro com Ellie nos braços. O asfalto queimava através das solas dos meus tênis. Minha visão escurecia nas bordas.
- Já volto, papai... já volto, mamãe... eu juro...
Uma voz fraca, quase um sopro, veio do outro carro, aquele que estava grudado no nosso como se tivessem se fundido.
- Por favor... meu filho...
Olhei. Uma mulher loira, presa entre o volante e o painel destruído, me encarava. O vestido claro agora era vermelho. Muito vermelho. Ela segurava a barriga com as duas mãos, como se tentasse manter a vida lá dentro. E no banco de trás, um menininho de uns três anos chorava, preso na cadeirinha, os cabelos loiros grudados no rosto.
Meu coração parou e depois disparou tão forte que doeu.
- Eu pego ele! Eu pego!
Coloquei Ellie no chão com cuidado. Uma mulher que eu nunca tinha visto na vida já corria na nossa direção.
- Me dá ela, me dá! - a desconhecida gritou, os olhos arregalados.
Entreguei minha irmã. Ellie se debateu, gritando meu nome.
- Eu já volto, princesinha, a Em já volta - eu disse para acalmar minha irmã.
Corri para o outro carro. O calor que vinha dali era insuportável. Puxei a porta traseira com as duas mãos; o metal queimou minhas palmas, mas a porta cedeu. Peguei o menino. Ele se agarrou a mim imediatamente, pernas e braços em volta do meu corpo como um macaquinho assustado.
- Tá tudo bem... tá tudo bem, pequeno...
Voltei para a porta da frente. A mulher esticou a mão trêmula e segurou meu pulso. Os olhos dela, verdes, estavam cheios de lágrimas e de uma calma que me aterrorizou.
- Qual... qual é o seu nome, anjo?
- Emma - minha voz falhou.
Ela sorriu. Um sorriso tão lindo e tão triste que eu nunca vou esquecer enquanto viver.
- Emma... - repetiu, como se estivesse guardando dentro do peito. - Obrigada... por salvar o meu Luca.
- A senhora vai ficar bem - menti, porque era o que as pessoas faziam nessas horas. - Eu vou tirar a senhora daí, eu prometo, eu...
Ela balançou a cabeça devagar. O sangue escorria mais rápido agora.
- Não, meu amor. Meu tempo acabou. - Ela olhou para Luca, que tremia nos meus braços. - Mas o dele não. Leva ele. Corre. Vive por ele. Ama por mim.
Lágrimas quentes queimaram meu rosto. Eram palavras difíceis de se ouvir vinda de alguém que estava partindo.
- Eu volto! Eu juro que volto pra buscar a senhora e meus pais...
- Emma - ela apertou minha mão com uma força que não parecia possível. - Escuta uma mãe que está morrendo: salva meu filho. É o único pedido que eu tenho no mundo.
Um homem gritou ao longe:
- ÓLEO VAZANDO! VAI EXPLODIR, CORRE!
Olhei para trás. Meu pai... meu pai tinha aberto os olhos. Só um segundo. Ele me viu. Moveu os lábios com sacrifício.
- Corre, filha. Corre, minha menina, e cuida da Ellie.
- Pai! - berrei de volta.
A mulher apertou minha mão uma última vez.
- Eu vou voltar, senhora... - minha voz saiu em um fio.
- Clara - ela me disse seu nome, as lágrimas agora escorrendo em enxurrada por seu rosto. - Vá, Emma. Vá e não olhe para trás. Faça desse dia o começo de uma história linda para vocês três.
- Nós três? - perguntei, confusa, e ela olhou para minha irmã, que me gritava atrás de mim no colo da estranha.
Ouvi o barulho das sirenes ao longe, a ajuda estava chegando. Luca se apertou mais ainda em mim. E foi aí que a primeira explosão veio.
- CORRE, EMMA!!! - meu pai gritou em prantos.
- Vai, querida - Clara me disse. - Salve a vida de vocês!!
Eu não conseguia falar. Só balancei a cabeça, engasgada. Ela soltou minha mão devagar, como quem entrega o bem mais precioso do universo.
Olhei para meu pai...
- Papai... - sussurrei.
- Seja feliz, minha princesa, o papai te ama.
Meu corpo quis ceder, a vontade de ir até ele me corroendo por dentro.
- VAI EXPLODIR!!!
Foi a última coisa que ouvi, e então eu... corri. Corri com Luca agarrado ao meu peito e Ellie gritando meu nome a poucos metros. Corri enquanto o chão tremia. Corri enquanto o ar ficava quente demais, pesado demais.
E então... O mundo explodiu atrás de mim.
Uma onda de calor me jogou para frente. Caí de joelhos no asfalto, protegendo Luca com o corpo. O estrondo foi tão forte que meus ouvidos sangraram. Quando levantei a cabeça, o céu estava laranja. E tudo que eu amava... Tinha virado fogo.
- Mamãe... Papai... - sussurrei e apaguei.
Acordei de repente, puxando o ar com força, como se ainda estivesse presa no meio da fumaça. Meu coração batia tão rápido que doía. Minhas mãos ainda tentavam segurar Luca e Ellie, mesmo que eles não estivessem ali.
Dois anos.
Dois anos e aquele maldito dia continuava preso dentro de mim como estilhaço. Eu podia jurar que ainda sentia o cheiro da gasolina, do fogo, do mundo caindo.
Fechei os olhos por um segundo, tentando lembrar onde eu estava. Meu quarto. A cama torta. A respiração quente ao meu lado.
Ellie.
Virei rápido demais e meu coração quase parou quando toquei a pele dela. Ardente. Queimando com a febre alta. A testa brilhando de suor. O corpinho inquieto, respirando curto.
Não. Não agora.
Senti meu estômago despencar. Hoje era o dia da entrevista. A única chance que eu tinha de, talvez, tirar a gente daquela espiral miserável. E eu não tinha dinheiro sobrando. Nem para o remédio. Nem para um médico. Nem para faltar.
Engoli o desespero, mas ele ficou preso na garganta, raspando.
"Ellie... pequena... aguenta um pouco, por favor", murmurei, afastando os fios grudados na testa dela.
Meu coração bateu torto. A mesma sensação de dois anos atrás, antes do mundo explodir. A diferença é que, dessa vez, eu não podia correr. Eu tinha que decidir. E o tempo, cruel como sempre, já não estava do meu lado.
Capítulo 2 - A Porta Que Se Abre
Emma Anderson
O metrô rangia e sacolejava como se quisesse me sacudir para fora do meu próprio corpo. Cada solavanco fazia a cabeça de Ellie balançar contra meu ombro, o calor febril dela atravessando minha jaqueta fina como uma acusação silenciosa. Eu passava os dedos na testa dela a cada poucas estações, contando os segundos entre os batimentos acelerados do meu coração e o ritmo metálico dos trilhos.
O termômetro digital que comprei na farmácia da esquina ontem à noite marcou 39,2 graus antes de sairmos. Agora, naquele trem lotado e abafado, eu tinha a nítida sensação de que a temperatura estava ainda mais alta.
Eu não tinha escolha. A entrevista era hoje.
A Knight Corporation era o único anúncio que não exigia currículo impecável, anos de experiência ou aquela "disponibilidade para viagens internacionais" que eu nunca teria. Faxineira noturna. Meia-noite às seis da manhã. Um salário mínimo que mal cobria os aluguéis atrasados, mas era real. Era dinheiro que podia comprar antibióticos, um termômetro novo, talvez até uma consulta particular se eu conseguisse juntar com as gorjetas da lanchonete.
Sem isso, amanhã a gente não comia. Sem isso, Ellie continuava ardendo em silêncio naquela cama de solteiro.
Desci na estação certa com ela nos braços, o peso pequeno e quente me ancorando ao chão frio da plataforma. O prédio da Knight se erguia à frente como um monstro de vidro e aço, refletindo o céu cinzento da cidade em suas janelas impecáveis. As luzes internas brilhavam mesmo de dia, como se o lugar nunca dormisse. Era um mundo que pertencia a outras pessoas. Pessoas que não precisavam escolher entre o remédio e a comida.
A recepção era imensa, mármore polido, sofás de couro que pareciam nunca ter sido usados e um balcão curvo com uma mulher sorridente atrás dele. O tipo de sorriso profissional, ensaiado, mas que ainda assim aquecia um pouco o frio que morava dentro de mim.
- Boa tarde - ela me cumprimentou, gentil.
- Boa tarde, sou Emma Anderson.
- Emma Anderson, para a entrevista da vaga de limpeza noturna?
- Sim... - Minha voz saiu baixa, quase engolida pelo eco do saguão monumental. - Desculpe... eu trouxe minha irmã. Ela está com febre alta. Não tinha ninguém para ficar com ela.
A recepcionista, que no crachá dizia "Sarah", olhou para Ellie com uma expressão suave. Minha irmã acordou devagar, os olhos vidrados pela febre, e se encolheu mais contra mim, fugindo da claridade.
- Não tem problema nenhum. Pode deixar ela aqui comigo. Eu fico de olho - Sarah disse, inclinando-se um pouco sobre o balcão. - Oi, docinho. Quer um copinho d'água gelada? E eu tenho uns lápis de cor e papel aqui, se quiser desenhar enquanto espera pela sua irmã.
Ellie assentiu devagar, sem energia nem para falar. Eu a sentei com cuidado numa das poltronas macias, cobrindo-a com meu casaco velho. Beijei a testa ardente dela, sentindo um nó na garganta.
- Ellie, fica aqui quietinha, tá bom? A Em entra ali, fala com a moça e já volta. Não sai do lugar, não mexe em nada. Promete pra mim?
- Prometo... - ela murmurou, a voz fraca como um fio de vento.
Sarah me deu um aceno encorajador, e logo uma mulher apareceu: Marina. Ela devia ter uns quarenta anos, óculos elegantes e uma voz calma que transmitia autoridade. Ela me conduziu por um corredor longo e silencioso. A sala de entrevista era pequena, iluminada pela luz natural que entrava por uma parede inteira de vidro. Marina sentou-se à minha frente e abriu uma pasta.
- Então, Emma... conte um pouco sobre você. Por que quer trabalhar aqui?
Eu respirei fundo, sentindo o aperto no peito, e a verdade vindo sem filtros.
- Porque eu preciso desesperadamente. Minha irmãzinha de seis anos está doente há dias. Febre alta que não abaixa. Eu não tenho dinheiro para remédio decente, muito menos para um médico particular. Se eu não conseguir esse emprego hoje, amanhã... amanhã pode ser tarde demais. Eu faço qualquer turno, qualquer coisa. Só preciso de uma chance.
Marina me observou por um longo segundo. Não havia julgamento nos olhos dela, só uma compreensão quieta e profunda.
- A vaga é exigente, Emma. Turno da noite, limpeza pesada, sozinha na maior parte do tempo. Você tem quem cuide da sua irmã durante essas horas?
- Eu... eu arranjo. Eu sempre arranjo - menti. Era o que eu precisava dizer para sobreviver.
Houve um silêncio, e depois um sorriso leve.
- A vaga é sua. Começa segunda-feira. Vamos subir ao RH para finalizar os documentos.
O alívio veio como uma onda física. Meus olhos arderam, mas segurei as lágrimas. Não ali. Não agora.
Voltamos à recepção. Ellie ainda estava na poltrona, rabiscando devagar num papel. Sarah sorriu para mim.
- Ela foi um anjinho. Nem se mexeu.
- Muito obrigada - respondi com um sorriso genuinamente grato, sentindo o primeiro peso do dia diminuir.
Subimos de elevador até o oitavo andar. O RH era mais formal, paredes brancas demais, cheiro de café forte e papel novo. A recepcionista dali era outra história: rosto fechado, voz cortante que parecia feita para afastar as pessoas.
- Crianças não ficam soltas nos corredores - ela avisou antes mesmo de eu abrir a boca.
Eu me abaixei na frente de Ellie, segurando as mãozinhas quentes dela entre as minhas.
- Princesa, senta aqui direitinho. Preciso que faça o mesmo que fez lá embaixo com a Sarah, ok? Não sai desse lugar. Não mexe em nada, não fala com ninguém. A Em entra ali na sala, assina uns papéis e volta em dez minutos, tá bom? Promete de novo?
Ela assentiu, os olhinhos vermelhos de febre e cansaço.
- Tá bom, Em...
Entrei. Assinei papéis. Respondi mais perguntas burocráticas. Meu coração batia tão alto que eu mal escutava as palavras da funcionária do RH. Eu só pensava na poltrona do lado de fora.
Saí em menos de quinze minutos. E o corredor estava vazio.
A poltrona estava vazia. Meu casaco velho estava jogado no chão. Nenhum sinal dela.
- Cadê minha irmã? - Minha voz saiu alta demais, ecoando pelas paredes brancas.
A recepcionista ergueu os olhos do monitor, visivelmente irritada.
- Eu não sou babá. Ela se levantou e saiu andando. Não vou sair correndo atrás de criança.
O pânico me atravessou como uma faca gelada. Corri pelo corredor, o sangue pulsando nas têmporas. Perguntei a uma mulher de uniforme que varria o chão.
- Vi uma criança indo para as escadas, mas não vi se ela desceu, ou subiu para o nono andar - ela me respondeu.
Escada. Subi correndo, degraus de dois em dois, o ar queimando nos pulmões como fogo. Cheguei ao nono andar. Havia uma confusão no corredor. Pessoas paradas, olhando para o elevador, vozes abafadas criando um ruído de fundo que me deixava tonta.
- Alguém viu uma criança pequena? Seis anos, cabelo castanho claro, moletom rosa? Por favor... Uma moça balançou a cabeça, com pena.
- Não vi nada, querida...
O elevador apitou. As portas foram se abrindo devagar, numa lentidão torturante. E lá estava ela.
Marina saiu segurando a mãozinha de Ellie. Minha irmã caminhava fraca, mas segura, os olhos inchados de choro.
- Ellie! - Falei, correndo até ela e caindo de joelhos no chão.
- Ela só foi ao banheiro - Marina explicou, com aquela voz suave que me ancorava. - Encontrei ela no corredor do sétimo andar, perdida e chorando. A faxineira disse que te viu vindo pelas escadas, então trouxe ela de volta para você.
Abracei Ellie com força, sentindo os ossinhos frágeis contra meu peito, o calor da febre misturado ao meu próprio tremor de alívio.
- Desculpa, pequena... me perdoa... eu nunca mais te deixo sozinha...
Ellie passou os bracinhos em volta do meu pescoço, soluçando baixo.
- Eu tava com medo, Em... achei que você tinha ido embora...
- Nunca. Eu nunca vou embora. Prometo.
Levantei devagar, segurando a mão dela com uma firmeza possessiva. Eu só queria sair daquele prédio.
- Vamos embora agora.
Dei um passo em direção ao elevador. Então, senti.
Dois bracinhos pequenos se enrolando nas minhas pernas por trás. Um corpinho se grudando em mim com uma força desesperada, como se nunca mais fosse soltar. Eu congelei. O ar parou nos pulmões.
Virei devagar, o coração batendo na garganta. Olhos verdes enormes, cheios de lágrimas. Cabelos loiros bagunçados. O mesmo rostinho redondo que eu arranquei das chamas há dois anos.
Luca.
Ele me olhava como se tivesse esperado por esse exato segundo a vida inteira. Uma lágrima solitária escorreu pelo rosto dele. Minha voz saiu em um sussurro rouco, quebrado, quase inaudível:
- Você...
Me abaixei para ficar na sua altura, e ele me abraçou com a mesma urgência daquele dia no asfalto. Estávamos ali, naquele abraço impossível, quando uma voz grave e furiosa surgiu do nada, cortando o ar.
- Quem é você? E de onde conhece meu filho?
Levantei o olhar. Ali estava um homem loiro, olhos azuis como uma tempestade, e a expressão de quem estava decidindo o que faria comigo. O corredor sumiu. O prédio inteiro sumiu. E por um segundo, o mundo parou de girar.
Capítulo 3 - Olhos Que Congelam
Emma Anderson
O abraço de Luca era quente, familiar, impossível.
Dois anos se dissolveram naquele instante. O cheiro de xampu infantil, o jeito como ele apertava meu pescoço como se eu fosse a sua única âncora em um oceano revolto... tudo era exatamente igual àquele dia em que o arranquei das chamas.
Mas o momento durou menos que um piscar de olhos. Uma voz cortou o ar como uma lâmina de aço:
- Quem é você? E de onde conhece meu filho?
Levantei os olhos devagar. O homem era alto, de ombros largos sob um terno cinza impecável que parecia caro demais para existir no mesmo planeta que eu. Cabelos loiros perfeitamente penteados, olhos azuis tão pálidos que pareciam feitos de gelo rachado.
Damien Knight. Eu não precisei de um crachá para saber quem ele era; eu o reconhecia das revistas que via na lanchonete, mas vê-lo de perto era diferente. Ele exalava um poder que sufocava. O nome dele estava gravado em cada placa e em cada porta de vidro deste lugar, mas o dono do nome era muito mais aterrorizante do que o logotipo da empresa.
Ele olhava para mim como se eu fosse uma praga, uma ameaça que precisava ser erradicada.
Luca continuava grudado em mim, os bracinhos firmes ao redor do meu pescoço. Ele não soltava. Não dizia nada. Apenas tremia levemente, o rosto enterrado no meu ombro, respirando rápido, num pânico silencioso de que eu desaparecesse de novo no meio da fumaça.
Damien deu um passo à frente. O corredor inteiro pareceu encolher sob sua presença.
- Responda. Quem é você?
Marina interveio rápido, a voz oscilando entre o profissionalismo e o nervosismo:
- Senhor Knight, esta é Emma Anderson. Ela veio para a entrevista da vaga de limpeza noturna. Já estávamos finalizando o processo no RH. Ela estava de saída agora.
Os olhos dele nem sequer desviaram para Marina. Continuavam cravados em mim, analisando a forma como o filho se recusava a me soltar.
Ao fundo, ouvi o sussurro de uma das funcionárias, um chiado de surpresa que cortou o silêncio do corredor: "Meu Deus, o menino nunca deixa ninguém chegar perto... ele não fala com ninguém desde o acidente".
Senti um arrepio na nuca. Olhei para o topo da cabeça loira de Luca, sem entender o peso daquele abraço, até que a voz de Damien Knight me trouxe de volta, carregada de uma desconfiança perigosa.
- Meu filho não permite que estranhos o toquem. Nunca - ele sentenciou, a voz baixa, mas vibrando de uma autoridade que exigia uma explicação impossível. - Então, eu vou perguntar mais uma vez: por que ele está se agarrando a você como se a conhecesse a vida inteira?
Luca ergueu o rosto devagar. Seus olhos verdes, inundados de lágrimas, encontraram os meus. Ele não falou. Ele nunca falava, pelo que eu lembrava das notícias que li nos meses seguintes ao acidente. Mas ele esticou uma mãozinha trêmula e tocou meu rosto, a ponta dos dedos confirmando que eu era carne e osso, não um fantasma.
Damien franziu a testa. Por um milésimo de segundo, a máscara de frieza dele vacilou, dando lugar a uma confusão sombria.
- Luca. Solte-a. Agora.
O menino balançou a cabeça em uma negação desesperada, os dedinhos cravando na minha blusa barata. Um som baixo escapou dele, um choramingo rouco que me partiu o coração.
- Eu disse para soltar - a voz de Damien veio como um trovão contido. Ele parou ao meu lado e, com uma firmeza inquestionável, arrancou o menino do meu colo. - Agora pegue a sua criança - ele sibilou, lançando um olhar de desprezo para Ellie. - Saia da minha empresa. E não ouse voltar.
O tom dele era de uma crueldade gelada. Senti meu coração errar a batida e a mãozinha da minha irmã apertar a minha com uma força de quem sente o perigo.
- Senhor Knight, por favor... - Marina tentou interceder. - Emma precisa desesperadamente do emprego. A irmã dela está doente, ela não tinha com quem deixar a menina. Foi um dia terrível para ela.
Damien olhou para Ellie, que se encolhia atrás das minhas pernas, os olhos arregalados de puro terror. Depois, o olhar azul voltou para mim, desprovido de qualquer rastro de empatia.
- Meu filho não interage com estranhos. Nunca - ele disse, a voz baixa, controlada, mas carregada de uma ameaça implícita. - Se você está usando a fragilidade dele para tentar algo nesta empresa, saiba que é um erro fatal. Saia. Agora. Antes que eu perca a minha paciência.
- Não é nada disso! - As palavras saltaram da minha boca. - Eu juro, eu nem sabia que ele...
Luca se debateu no colo do pai, um movimento brusco. Ele esticou os braços na minha direção, o corpinho se inclinando perigosamente para frente, lágrimas silenciosas lavando seu rosto. Ele não gritava, mas seus olhos imploravam por socorro.
Damien ignorou o sofrimento do filho. Virou o rosto do menino para longe de mim com a palma da mão, um gesto que era gentil na forma, mas absoluto na autoridade. Ele voltou a me encarar uma última vez.
- Não me faça chamar a segurança, senhorita Anderson.
Marina colocou a mão no meu braço, me puxando fisicamente para trás.
- Emma, vamos. Por favor, vamos embora.
Eu recuei um passo. Depois outro, sentindo o chão fugir sob meus pés. O pânico subia pela minha garganta como uma maré negra. Ellie agarrou minha perna, tremendo da cabeça aos pés.
- Eu... eu só queria o emprego... - sussurrei, mas minhas palavras foram engolidas pelo mármore do saguão.
Damien nem se deu ao trabalho de responder. Virou as costas com uma elegância gélida, levando Luca embora. O menino continuou esticando os bracinhos por cima do ombro do pai, os dedinhos abertos na minha direção, o rosto molhado de choro mudo. Foi o olhar mais desesperado que eu já recebi na vida.
Os seguranças se aproximaram, formando um muro de uniformes escuros ao meu redor. Um deles murmurou, quase com pena:
- Por favor, senhorita. Saia calmamente.
Peguei Ellie no colo. Ela estava leve demais, quente demais, como uma pequena brasa prestes a se apagar. Caminhei para o elevador com as pernas moles, Marina ao meu lado tentando dizer algo reconfortante que eu mal conseguia processar.
Entramos. As portas começaram a se fechar com um ruído metálico.
Meus olhos encontraram os de Damien uma última vez através da fresta que diminuía. Ele havia parado no corredor. O olhar dele era puro gelo, sem raiva aparente, apenas uma indiferença absoluta que me arrepiou até a alma. Como se eu fosse um inseto sob o seu sapato.
Mas então, os olhos de Luca encontraram os meus. Ele se debateu levemente, tentando alcançar o ar entre nós. Sem som. Apenas um adeus silencioso e devastador.
As portas se fecharam. O elevador desceu.
Lá fora, o ar cortante da rua me acertou como um tapa na cara. O céu continuava cinzento, o trânsito barulhento, a cidade indiferente à minha ruína. Eu me sentia minúscula. Humilhada. Derrotada.
Caminhei alguns metros, cada passo pesando uma tonelada com Ellie no colo. Minhas pernas falharam. Encontrei uma mureta baixa no jardim em frente ao prédio, um espaço de verde artificial cercado por árvores magras. Sentei Ellie ali com cuidado e tentei tirar a garrafinha d'água da bolsa, minhas mãos tremendo tanto que mal conseguia abrir o zíper.
- Toma um pouquinho, princesa... vai ajudar...
Ela tentou beber, mas os lábios mal se moviam. A pele da testa ardia sob meus dedos. O corpinho estava mole, pendendo sem resistência para o lado.
- Ellie?
Toquei seu rosto. Ela estava em chamas. Seus olhos se reviraram e fecharam devagar.
- Ellie!
O corpinho desabou para frente. Eu a segurei antes que ela atingisse o chão. O peso dela era nada, mas naquele momento, parecia o peso de todo o mundo.
- Não... não, por favor... acorda!
O pânico explodiu no meu peito como uma granada. Gritei por ajuda, mas a voz saiu rouca, quebrada, morrendo no barulho dos carros. As pessoas passavam apressadas, os olhos fixos em seus celulares, sem parar. O mundo girava em câmera lenta, perdendo a cor.
Ellie não se mexia.