Antes
Milena
- Olá, papai! - cumprimentei Otávio sorrindo, numa tentativa de dar um ar mais agradável à mesa. Falhei miseravelmente, como sempre. - Milagre o senhor vir almoçar em casa com a gente! - Minha última frase foi o suficiente para papai apertar os lábios e bufar, sua expressão não negava a raiva, a revolta, mas nada era mais assustador do que o olhar que ele disparou na minha direção antes de dizer:
- Milagre? Você tem mesmo a coragem de chamar isso de milagre? É uma tragédia! - exclamou alto enquanto Cassilda servia os pratos.
- Eu sinto muito, papai... Eu só queria que isso passasse... É horrível lidar com esse clima pesado...
- Milena - mamãe me interrompeu. - Seu pai foi afastado do cargo que ele lutou a vida inteira para conseguir, além disso, ele também pode ser preso a qualquer momento. Você tem noção do caos que estamos vivendo?
- Eu tenho, mamãe. Mas eu também tenho fé que a verdade vai aparecer. Cedo ou tarde ela sempre aparece!
- Por que você não fecha a boca, garota? Não existe verdade! Não existe nada! - Papai esbravejou alto, seus gritos ecoaram por toda sala. Otávio logo ficou de pé e deu de ombros depois de acrescentar: - Perdi o apetite.
- Você, hein garota? Como pode ser tão ingênua, nem parece ser nossa filha? - Marina revirou os olhos, balançando a cabeça em negação.
- Mas mãe, vocês estão agindo de uma maneira que parece que papai realmente é culpado, que ele é como um desses corruptos que esconde dinheiro na cueca! - Naquele segundo o mundo congelou e, naquela brecha, os olhos dela disseram tudo o que eu me negava a entender.
- Com licença. Eu também perdi o apetite. - Ela também deu as costas e se retirou.
A ausência da minha mãe ali deixou um vácuo que foi muito além de uma cadeira. Meu coração parecia ter se rachado ao meio. Otávio Augusto Junqueira sempre foi minha inspiração, minha maior referência. Eu sonhava em ser uma advogada premiada e quem sabe um dia me tornar uma juíza tão respeitada como ele foi até há alguns meses. Logo meu pai que sempre falou tanto de valores éticos e morais se tornando um corrupto? Envolvido num dos maiores escândalos políticos do Rio de Janeiro... Não era possível. Parecia um pesadelo. A sensação de estar perdida e de talvez não estar andando na trilha certa me afligia. Era horrível ser vista como a filha de um juiz corrupto, pior que isso era ter que aguentar os fanáticos me atacando nas redes sociais por causa de uma bolsa, uma pulseira... Eles diziam que eu estava andando no luxo com o dinheiro pago pelos impostos da sociedade.
Infelizmente eles estavam certos.
Eu precisava aceitar. Eu tinha que engolir tudo a seco porque o meu pai estava errado e não era mais um exemplo a ser seguido, eu tinha que lidar com isso.
- Milena, não chora minha filha... - Cassilda passava do outro lado da sala quando viu as lágrimas despencarem dos meus olhos. - Isso vai passar, tenho certeza de que logo irão provar a inocência do seu pai...
- Meu pai não é inocente, Cassilda - disse secando as maçãs do rosto enquanto me punha de pé. Coincidentemente também perdi o apetite. - Eu vou para o colégio, você poderia chamar o José para mim, por favor.
- Infelizmente o José não trabalha mais aqui.
- Impossível! Papai jamais iria demiti-lo.
- Na verdade, foi ele que pediu demissão... Nós estamos há quase três meses recebendo o salário em fatias, nesse mês então até hoje não recebi um tostão. José não conseguiu segurar a barra, mas não se preocupe Mile, você e sua família podem contar sempre comigo.
- Por Deus, Cassilda! Você não pode continuar assim, ninguém trabalha sem receber!
- Mas todos passam por momentos de dificuldade. Eu compreendo a situação de vocês. Sempre me trataram tão bem, seria injusto abandoná-los logo nesse momento. - Respirei fundo tentando aceitar aquela situação, foi quando meus olhos se encontraram com os de mamãe que caminhava a passos marcados na minha direção.
Mamãe sempre foi uma mulher linda, exuberava elegância e muito bom gosto, a idade nunca afetou sua aparência. Ela tirou a carteira da bolsa cara que carregava no braço direito e me deu uma nota de cem dizendo:
- Como você já deve estar sabendo, tivemos que demitir o José, o jeito agora é andar de táxi. Toma, isso deve dar para você ir e voltar do colégio. - Minhas bochechas coraram de vergonha. Como mamãe tinha a audácia de me dar dinheiro na frente da funcionária que ela havia atrasado os salários? A falta de senso era além do inacreditável. Eu, sem ter muito o que fazer aceitei a nota e a entreguei no mesmo instante para Cassilda que era quem realmente deveria ter recebido aquele dinheiro.
Não esperei mamãe começar a falar para deixar a sala e, subir para o meu quarto onde terminei de me arrumar para ir para o colégio. Peguei minha mochila e saí correndo dali.
Na portaria pedir instruções ao porteiro de como pegar um ônibus para chegar ao meu destino.
Não devia ser tão difícil, o colégio era a 15 minutos da minha casa.
O ônibus que o porteiro havia indicado não demorou para passar. Entrei, paguei o motorista e quando passei pela catraca tive a infeliz surpresa de não encontrar nenhum lugar disponível e, tudo bem, afinal de contas, milhões de brasileiros que não tinham um pai corrupto passavam por isso todos os dias.
Minha parada estava próxima quando um menino alto, robusto, com a pele num tom chocolate entrou no ônibus deixando seu cheiro exalar por ele. Ele estava usando um Malbec, eu sabia porque mamãe sempre me disse que a gente tinha que reconhecer o "pedigree" dos homens através do cheiro. Esse era um dos cheiros que eu deveria evitar. Era um cheiro barato, de um homem que segundo ela não tinha condições de me dar a vida que eu "merecia", o que curiosamente me intrigou, principalmente depois que ele abriu um sorriso perfeito, sem nenhuma pretensão.
Não consegui tirar os olhos dele, por mais que ele não tivesse notado minha presença em meio aquele monte de passageiros aglomerados um no outro.
O menino do sorriso perfeito carregava alguma coisa no braço e, assim que ele passou pela catraca chamou a atenção de todos e começou a fazer um lindo discurso:
- Boa tarde, família! Trabalhador, estudante, ou só aquele que veio para dar um rolé mesmo! Hoje eu tô aqui com uma parada muito especial e olha, nem foi porque minha mãe que fez - ele abriu um sorriso de canto -, mas, esses brownies são coisa de outro planeta. A Dona Cleide caprichou mesmo, assim como tudo que ela faz. Pra quem não sabe família, eu vivo sozinho com a minha mãe e essa aqui é forma da gente conquistar o pão de cada dia. Ela faz os doces e eu trago para adocicar o dia de vocês, aliviar um pouco o estresse da rotina do trabalho, daquele marido bagunceiro que vocês tem em casa ou daquela mulher que reclama até quando você vai bater uma bola com os amigos. É isso aqui! Não vai resolver sua vida, é claro, mas vai adoçar seu dia! Adocica meu amor, adocica! - ele começou a cantarolar o trecho de uma música muito conhecida ganhando sorrisos e gargalhadas de quem estava à volta.
Juro que fiquei impressionada, nunca vi tanta simpatia e espontaneidade vindo de uma pessoa. Ainda mais ele que tinha a vida tão simples, que aparentemente se sustentava vendendo aqueles brownies que carregava consigo. Ele exalava energia boa, tinha um sorriso fácil e pessoas de sorrisos fáceis conquistava a todos da mesma maneira. E foi assim que os brownies acabaram num estalar de dedos, aliás, havia restado um e aquele com certeza seria meu.
Queria saber se o doce era tão bom quanto a propaganda.
- Hei! - Dei um grito que abafou todo ônibus, mas que foi o suficiente para que pela primeira vez nossos olhares se encontrassem e, quando isso aconteceu, senti meu peito congelar, meu coração acelerou e meu sangue parecia estar literalmente correndo em minhas veias. Ele se aproximou desviando dos outros passageiros e quando chegou mais perto estremeci com seu cheiro, sua presença, seu sorriso despretensioso e o jeito de olhar misterioso.
- Boa tarde, princesa! Está aqui o brownie que vai deixar seu dia mais alegre e doce!
No momento em que ele me entregou o doce, nossas mãos esbarraram uma na outra, o que foi o suficiente para que os calafrios começassem a correr por todo o meu corpo.
- Obrigada! - Pela primeira vez senti vergonha de ficar diante de alguém, a presença dele me deixava sem ar, sem chão. Rapidamente desviei meus olhos do seu e perguntei: - Quanto é?
- Quatro e cinquenta. - Estava tremendo quando entreguei uma nota de 5 reais para ele e também quando me dei conta de que já estava muito à frente de onde deveria ter decido. Ainda bem que justamente naquele momento o ônibus havia parado e obviamente eu aproveitei aquela brecha para sair correndo dali antes que morresse de falta de fôlego ou acabasse sofrendo um AVC por excesso de batimentos cardíacos.
Caramba, que droga era essa que eu estava sentindo?
[...]
André
- Filho, agora você vai estudar num colégio particular, não tem nada que ficar se importando em vender brownies por aí, pode deixar que eu me viro.
- Ah, não inventa dona Cleide, a senhora pode até ser uma doceira pica das galáxias, mas nem de longe é uma vendedora como eu. Pode deixar que essa parte eu cuido. - Pisquei para mamãe já com a mochila nas costas e a bolsa com os brownies em meu braço.
- André, eu não quero que isso te prejudique. Você precisa estudar muito se quiser realizar seus sonhos...
- Realizar meus sonhos não inclui deixar a senhora para trás, dona Cleide. E olha, o que mais tem por aí é neguim que trabalha e estuda, a senhora está enganada se pensa que isso é coisa de outro mundo. - Acariciei o rosto cansado de mamãe e apertei o lenço frouxo em sua cabeça. Dei-lhe um beijo na testa e disse: - Um dia tudo isso vai mudar, a senhora vai ter vida de rainha. Vamos sair desse barraco e morar num desses apartamentos luxuosos com vista para o mar lá na barra.
Dona Cleide apenas sorriu, dava para ver no fundo de seus olhos que ela não desacreditava em nenhuma de minhas palavras, pelo contrário, mamãe sempre foi quem me colocou para frente, a única pessoa que estava ali comigo torcendo para que eu realizasse cada um dos meus sonhos.
Hoje era o início de um deles, consegui uma bolsa de estudos para fazer o ensino médio em um dos colégios mais conceituados do Rio. Estudei muito para isso, meu peito faltava explodir de felicidade, era uma conquista. Mamãe estava orgulhosa, meus vizinhos da comunidade me olhavam admirados, eu sempre fui diferente de muito dos seus filhos que apesar da mesma idade que a minha, infelizmente acabaram se perdendo no mundo do crime, alguns partiram precocemente e ficaram como grande exemplo do que eu nunca gostaria de ser na vida.
Desci a escadaria estreita, passei por becos e vielas até chegar no meu ponto. A meta para hoje era zerar todos os brownies antes de chegar no colégio. Desde que mamãe começou a trabalhar por conta própria fiz questão de ajudá-la em cada passo, é claro, eu estava longe de fazer bolos e doces como ela, mas felizmente conseguia vender como ninguém. Acho que isso foi um dom que Deus me deu. Eu e mamãe éramos uma dupla infalível. Um dia iríamos colher o fruto de todo nosso trabalho duro.
Depois de muito oferecer os brownies de um ônibus para o outro minha bolsa já estava quase vazia, eu tinha quase certeza de que na próxima parada iria conseguir vender tudo. Entrei no veículo fazendo o que sempre fazia nos outros, muita propaganda, sorrisos, elogios e frases de motivação para levantar o ânimo dos passageiros, afinal de contas a maioria ali era trabalhador como eu. Me surpreendi quando ouvi um grito de uma garota lá de trás, havia tantas pessoas na frente que levei um tempo para levar o último brownie que restara a ela, mas quando cheguei me surpreendi. Foi como entrar em órbita numa constelação incandescente onde ela era a estrela principal, irradiando beleza e doçura por trás daquele par de olhos azuis intensos e ao mesmo tempo tímido. A brisa que vinha da janela fazia seus fios castanhos e brilhantes flutuarem ao redor do rosto delicado, traçado delicadamente em cada detalhe. Não precisava pensar muito para saber que aquela era a garota mais linda que já havia visto na vida. Eu entrava em dezenas de ônibus todos os dias e nunca havia me deparado com uma criatura tão linda, ela parecia um anjo perdido ali.
Ela levou o último brownie sem sequer esperar pelo troco, mas, antes disso ela roubou alguma coisa que havia dentro de mim, porque depois daquilo meu coração não conseguiu voltar a bater no mesmo ritmo. Seus olhos, seu sorriso tímido e sua doçura inundaram meus pensamentos como um tsunami. Fiquei baqueado, com as mãos frias. Era difícil lidar com isso, mas parecia até que eu já a conhecia de algum lugar, ou talvez de outra vida.
[...]
Desci do ônibus e parei numa lanchonete onde uma amiga da minha mãe trabalhava, lá pedi para que ela guardasse a bolsa que vendia doces e aproveitei para dar uma moral no visual, afinal de contas era o meu primeiro dia naquele colégio que apesar de muito bem falado era completamente diferente dos que estava acostumado a frequentar.
Foi impossível não sentir um frio na barriga quando coloquei meus pés em frente ao colégio imenso. A decoração dele era tão bonita que me deixava assustado, nada de pichações, bicicletas largadas, homens que não estudavam no portão. Era como se eu estivesse prestes a entrar numa realidade paralela. Inclusive foi essa a sensação que tive quando coloquei os pés na minha sala. Eu era o único negro ali, na hora me lembrei do seriado Todo mundo odeia o Chris e ri internamente, porque sabia que isso com certeza teria consequências. Na minha turma muitos me fitavam com curiosidade enquanto outros com indiferença, mas até aí tudo bem.
Aquilo era tudo novo para mim, até a maneira com que os professores se apresentavam era diferente. Os notebooks da Apple na mesa de cada um me chamavam de pobre em mais de dez línguas. Ignorei tudo isso e foquei no conteúdo que os professores que passaram por ali apresentaram. Quando me dei conta, a aula já havia acabado. A tarde passou como um sopro, acredito que seja por causa da minha ansiedade.
Passava pelos corredores, curioso, ainda encantado com os armários, a organização. Coisa que nunca presenciei na minha antiga escola. Outra novidade ali era que a galera era muito bonita, os uniformes idênticos não eram o suficiente para que todos parecessem iguais. Principalmente eu, o único ponto negro. Me destacava contra minha própria vontade, de todos os lados roubava olhares e cochichos. Estava distraído, tentando me adaptar com as diferenças o mais rápido que podia quando alguém puxou a minha mochila fazendo meu corpo cair bruscamente para trás. Apesar do impulso, firmei minhas pernas conseguindo me equilibrar a tempo de evitar uma queda vergonhosa em frente para a turminha de playboyzinhos da minha idade aparentemente, em nenhum momento eles disfarçaram o sorriso sarcástico, muito menos a satisfação de me ver ali como se fosse um palhaço para debocharem e caírem na gargalhada. O problema é que eu nunca tive vocação para bobo da corte e rapidamente a fúria começou a varrer meu corpo que queimava em revolta e um grande desejo de dar o troco.
- Quem foi o filho da puta que me puxou? - perguntei com o olhar duro, estreitado, fuzilando a direção deles.
- Qual é a tua palhaço? Quem você pensa que é pra falar assim com a gente, seu neguinho de merda? - Um cara branco com os cabelos e olhos claros deu dois passos à minha frente, cheio de coragem. Meu pulso tremia, contendo a vontade insana de acertar um soco no meio daquele nariz arrebitado.
- Repete o que você disse - pedi pausadamente, com meus olhos devorando-o de cima para baixo, sem mover um único dedo. Percebi que ele e os amiguinhos ficaram visivelmente intimidados, mas não recuaram.
- O que você quer que eu repita?
- Não se faça de bobo - disse entredentes quando mais alunos se aproximaram formando uma rodinha ao nosso redor. Estava concentrado no otário à minha frente, mas foi impossível não perceber e me abalar com a presença daquela menina do ônibus que surgiu entre aquelas pessoas como uma miragem. Seu olhar agora estava mais escuro, e pareciam me chamar para algum lugar, por alguns segundos me perdi neles e esqueci do mundo e do caos à minha volta, mas voltei em mim assim que um dos babacas que acompanhavam o carinha à minha frente repetiu o que ele disse lá de trás.
- Neguinho de merda! Era isso que você queria ouvir? Então eu disse! Não era nem para você estar aqui! - Não esperei mais nenhum segundo para avançar naquele idiota que rapidamente foi cercado por outros amigos. Eu estava sozinho, em total desvantagem, mas nem por um segundo tive medo, pelo contrário, a raiva daqueles caras me enchiam de coragem e de uma vontade imensa de colocar um por um em seu devido lugar.
Estava muito perto de fazer isso, mas fui impedido por outros dois garotos que acompanhavam a discussão do outro lado. De repente, para minha surpresa a menina dos olhos encantadores se aproximou dizendo:
- Você é bolsista, não é? Não faça isso. Ano passado provocaram um aluno bolsista e ele perdeu a bolsa. Ignore, eles não passam de um bando de idiotas!
- Ouça a Milena, ela tem razão. Não sou bolsista, mas faço o possível pra ficar sempre longe desses caras, eles são um saco, se acham os manda chuva do colégio. - Um garoto branco usando óculos de grau e cabelos comportados também estava focado em me deixar mais calmo e evitar que eu fizesse uma besteira.
Respirei fundo, dando ouvido para eles e ignorando aquela turminha de idiotas que não pararam com as provocações. O garoto moreno de óculos tocou meu ombro me guiando para algum lugar, a menina também nos acompanhou para o corredor ao lado que estava menos movimentado. Me escorei num dos armários sentindo a raiva borbulhar dentro do meu corpo.
- Desculpa, foi tudo tão louco que esqueci de me apresentar. Prazer, me chamo Eduardo, sou da mesma turma que você, mas aposto que nem percebeu.
- Realmente não notei, estava nervoso por ser meu primeiro dia aqui no colégio. Mas o prazer é todo meu Eduardo.
- Pode me chamar de Dudu se quiser.
- Ok, Dudu. Meu nome é André, não tenho apelido.
Ele sorriu.
- Bom, ninguém perguntou, mas já me apresentando eu sou a Milena e inclusive vi você mais cedo no ônibus. O brownie estava uma delícia, nunca provei nada parecido. - Ela abriu um sorriso lindo. Antes de erguer a mão para me cumprimentar, jogou o franjão para trás, o suficiente para que meu coração errasse algumas batidas.
- Eu reconheci você - disse perdido na boca pequena, rosada, assim como as maçãs perfeitamente desenhadas do rostinho de boneca que ela possuía. - Você é linda... - As palavras saíram involuntariamente, fazendo as bochechas de Milena corarem e os olhos do Dudu arregalarem. Quando me dei conta do que fiz mudei de assunto rapidamente. - É... Acho que estou te devendo 50 centavos.
Milena me interrompeu:
- Imagina, não precisa.
- Milena - Dudu interrompeu -, meu pai já está lá fora, se você quiser uma carona vai ter que ser agora.
- Ótimo - afirmou como se estivesse despertando de um sonho.
- E você André, onde mora?
- Na penha.
- Uau! Bem longe.
- Relaxa, eu vou de ônibus, até porque tenho algumas coisas para fazer.
- Tudo bem, amanhã a gente se vê.
- Tchau, André! - Milena acenou enquanto se adiantava junto com Dudu.
- Tchau. - Acenei para eles também, mas meu foco era somente em Milena, linda, doce e justa. Fazia tempo que uma mina não mexia tanto comigo, o pior era saber que eu mal a conhecia e que ela pertencia a um mundo que era o total oposto do meu.
Seria melhor eu desencanar logo disso.
Dois
André
Comemorar. Só tinha motivos para isso, principalmente depois de inaugurar a 200° franquia da "Tia Cleide". Depois de tantos anos plantando, finalmente estávamos colhendo os frutos. Passei por tantas dificuldades vendendo brownies na rua e nos transportes públicos e, como se isso não fosse o suficiente, ainda tive que lidar com diversos imprevistos quando mamãe abriu a primeira lojinha de bolos da Tia Cleide que, por muito tempo nos rendeu mais dívidas que lucro. Ela mesma insistiu que aquilo não valeria a pena e que seria melhor nós voltarmos à estaca zero onde trabalhávamos menos e faturávamos mais. Mas, eu nunca desacreditei dos nossos sonhos, em momento algum duvidei do quão grandioso seria nosso futuro. É óbvio que chegar onde estava agora não era algo que imaginei um dia, porém, desistir era uma palavra que no meu dicionário sempre foi sinônimo de desconhecido.
A 200° franquia da Tia Cleide foi inaugurada em São Paulo. Já contávamos com pelo menos uma loja em cada estado do Brasil, mas os lugares onde predominávamos eram RJ e SP. Estávamos apenas no início de um projeto de expansão do negócio, que em breve se repetiria no mercado norte-americano.
- Cheers! - Dudu ergueu a taça de champanhe com um grande sorriso estampado no rosto. - 200 lojas, milhares de funcionários, dezenas de franquias vendidas todos os anos e milhões e milhões de reais girando na nossa conta. O que mais poderíamos querer?
Olhei para o meu sócio e sorri com sarcasmo com a maneira que ele sempre parecia aquele mesmo menino cheio de ideias da época do colégio. Tudo para ele ainda tinha um ar de primeira vez. Eu também gostaria de ser assim, mas não dava, a vida sempre foi dura comigo, por isso era necessário que eu também pegasse firme e fosse sério na maioria das vezes se não quisesse ser derrubado. Levei a taça até a boca quando o barulho da campainha roubou a atenção dos meus olhos.
- São elas. Deixa comigo, André, faço questão de abrir. - Dudu caminhou rapidamente na direção da porta do luxuoso apartamento onde nos hospedamos com o intuito de ficarmos mais à vontade depois de participar da inauguração de hoje. Apreciei mais do líquido saboroso da minha taça quando ele abriu a porta revelando duas lindas mulheres, exuberantes. Uma morena, alta, com longas pernas definidas, olhar marcante e lábios pintados de um vermelho marsala. A outra loira que também não deixava nada a desejar, magra, com o corpo acentuado e cheio de curvas, o cabelo dourado caindo esvoaçante sob os ombros enquanto os doces olhos verdes pareciam um chamariz me convidando para possuí-la. - Entrem, sejam bem-vindas. - Dudu não disfarçou o olhar malicioso enquanto devorava com os olhos cada parte de seus corpos. - Fiquem à vontade.
- Para tirarem a roupa inclusive. - Não costumava fazer média com mulheres, ainda mais quando estava ciente do que queriam e porque vieram. Ela e a amiga foram ao evento interessadas em fazer o famoso networking e aparentemente estavam dispostas a tudo por isso. Dudu disse que já vinha conversando com a loira há algum tempo, por esse motivo foi tão simples desenrolar esse encontro. Ainda bem, porque normalmente eu tinha preguiça e acabava desistindo da maioria das mulheres que se passavam por difíceis; e como era de se esperar bastava um único gelo para que elas ficassem "fáceis" no dia seguinte. Assim era a vida, é claro, quando estava disposto a gastar meu tempo, normalmente eu tinha preferência por acompanhantes de luxo que não tinham frescuras e nem faziam modéstia. Bastava passar o cartão ou mandar um pix, para que elas fizessem tudo que eu quisesse na cama ou fora dela.
Dudu engoliu em seco quando fiz meu comentário. Já a morena passou a me fitar profundamente, com o interesse latente nos olhos castanhos. Tentando amenizar o impacto das minhas palavras, meu amigo passou o braço ao redor da cintura da loira e a guiou até o sofá onde estava confortavelmente sentado provando o delicioso champanhe.
- Desculpe-me pela inconveniência, foi só uma brincadeira.
- Imagina - a morena respondeu enquanto sentava na poltrona de frente para mim, cruzando as pernas sensualmente. Consegui ver um pedaço da calcinha preta, com a renda semi-transparente. Não fiz questão de disfarçar, apenas tomei mais um gole do champanhe passando os olhos da sua boca até suas pernas.
- Também devo pedir desculpas por não ter me apresentado ainda. Prazer, André Matos.
As mulheres fizeram questão de se apresentarem em seguida, logo começamos a conversar e a beber de maneira descontraída. Eu saí do meu lugar e sentei ao lado da morena que modéstia parte estava tão envolvida quanto eu, por isso não demorei para tomar sua boca, morder e me lambuzar com os lábios carnudos enquanto minhas mãos mergulhavam pelos fios sedosos através da sua nuca. Ela ofegou soltando um gemido baixinho. Descolei nossos lábios, mantendo minha face a milímetros da dela, foi quando notei os pelos de seus braços e pernas arrepiados e os mamilos intumescidos marcando o vestido colado. Meu pau latejou dentro da calça, eu mordi o lábio para controlar o tesão que se alastrava pelo meu corpo enquanto sentia-o ficando enrijecido, implorando por prazer. Mas já era tarde, meu corpo inteiro já havia entrado em êxtase à procura de uma forma de aliviar aquele tesão latente, ali não perdi mais tempo. Desci as alças do vestido dela revelando os seios grandes e siliconados com os bicos amarronzados e logo comecei a me lambuzar com cada um deles. Sugando, mordiscando, fazendo-a delirar, principalmente, quando passei a mão entre suas pernas, coloquei sua calcinha para o lado e toquei o clitóris em movimentos circulares, lentamente, até ele inchar contra o meu dedo.
- André... Me fode... - Alucinada ela disse em meio aos gemidos.
- Calma vadia, pra que pressa? - sussurrei no pé da sua orelha num tom provocante. - Temos a noite toda. - Deslizei meus dedos por sua vulva e só parei na entrada do seu canal, onde estoquei um dedo, depois mais outro.
Ela gemeu alto, mordendo o lábio excitada enquanto se contorcia na minha mão. Do outro lado, Dudu já estava mais adiantado. Sentado de maneira relaxada e com as pernas abertas, ele apreciava as habilidades que a loira tinha com a língua. Quando nossos olhares se encontraram ele já sabia o que fazer. Então meu amigo afastou a cabeça da loira, ficou de pé e apontou para mim. Rapidamente ela parou na minha frente, ficou de joelhos e começou a abrir meu zíper assistindo eu e sua amiga nos beijando deliciosamente. Quando ela deslizou minha cueca para baixo, meu pau pulou para fora, enorme, grosso, duro como uma estaca. Ela e a amiga pareciam estar admiradas com o que via, por isso não esperou mais para acariciá-lo com a língua, mãos, e depois devorá-lo por inteiro com a boca quente e macia. Dudu veio por trás da gostosa que me chupava cheia de desejo, levantou seu vestido, abriu um preservativo e depois começou a fodê-la forte, batendo na sua bunda, tratando-a como a verdadeira puta que ela era.
- Caralho... - Levantei a cabeça da loira, afastando-a de mim e envolvi meu pau com a camisinha que havia acabado de abrir. Com as mãos firmes segurei a cintura da morena e trouxe-a para meu colo, onde rapidamente ela se encaixou e começou a rebolar no meu membro, instigando a luxúria que crescia abruptamente por cada pedaço de mim. Apertei aquela bunda gostosa, belisquei, bati, fazendo-a sentar com vontade, guiando-a no meu ritmo enquanto gemidos desvairados tomavam conta de toda a sala. Beijei cada um de seus mamilos que me apontavam como uma seta, a morena ficou enlouquecida, arfando e gemendo descontroladamente.
- Eu vou gozar... - Belisquei seu mamilo com os dentes apertando sua cintura, fazendo-a rebolar mais e foi aí que ela caiu exausta em meus braços, ensandecida, explodindo num orgasmo visceral. Vagarosamente tirei-a de cima de mim, apreciando o líquido viscoso que ela havia deixado escorrer sob a camisinha.
Aquilo foi só o começo, eu me sentia como um leão, um animal perigosamente selvagem quando fazia uma mulher gozar, ainda mais rápido daquela maneira como foi com ela.
Me livrei da camisinha.
Dudu estava se acabando atrás da loira que se contorcia sofregamente, uivando de tesão e lascívia. Eu caminhei na direção dela e quando cheguei mais perto fiquei de joelhos e dei meu pau rígido para ela que não demorou muito para matar sua sede, se lambuzando e saboreando-o novamente. Segurei seu cabelo enroscando seus fios entre meus dedos e comecei a estocar sua boca mais fundo, sentindo sua garganta, comendo-a firme como se fosse uma boceta.
A morena voltou a se aproximar depois de se recuperar do orgasmo intenso. Ela ficou de joelhos ao lado de Dudu e lhe roubou um beijo lento enquanto ele fodia sua colega. Aos poucos meu amigo foi deixando a loira para ficar de carícias e amassos com a morena. Ele deitou-se sobre o chão e ela foi para cima dele, cheia de fogo, rebolando, dando tudo de si e mais um pouco. De longe avistei o bumbum bronzeado, empinado, o cuzinho apertado piscando enquanto ela requebrava no pau do meu amigo. Ali não resisti, desejei-a por inteira, queria experimentar do seu ânus que parecia estar me fazendo um convite. Tirei meu pau da boca da loira e fui até eles, passando minhas pernas sobre as de Dudu, ficando de joelhos e me encaixando por trás da morena já extasiada de luxúria.
Abri sua bunda. Lentamente pincelei meu pau úmido no seu meio, em seguida penetrei um dedo, estocando-a vagarosamente, fazendo-a se empinar desejando mais daquilo.
Abri uma camisinha, envolvi meu membro e arfando de desejo me enterrei todo nela, com ânsia, a lascívia latente me consumindo, ao mesmo tempo, que ela me esmagava com sua carne quente, apertada.
Mordi o lábio tentando controlar aquele tesão desvairado que parecia me sugar, espalmei cada uma de suas nádegas, no mesmo ritmo que a estocava. Ela grunhiu, desesperada, alucinada com um pau em cada uma das suas entradas. A amiga dela, que até então estava apenas assistindo a cena de camarote e se masturbando, entrou para a brincadeira abrindo as pernas e agachando sobre a cabeça de Dudu, deixando a língua dele lambuzar e mergulhar na bocetinha rosinha, depilada.
Entrei em êxtase, cedendo a luxúria, comendo o ânus da morena num ritmo insano, fazendo-a gemer e uivar como uma loba no cio. Logo uma onda de prazer invadiu minhas estranhas fazendo pequenos espasmos se alastrarem pelo meu corpo, até eu explodir num orgasmo avassalador.
Fiquei inebriado, ansiando, desejando mais e mais e, tendo a certeza de que a noite excitante só estava começando.
Depois da morena, fodi a loira em cada um de seus orifícios, a fiz tremer e cambalear antes dos orgasmos. Elas dividiram a essência viscosa do meu último orgasmo e quando chegamos à exaustão a noite já estava no seu fim, dando espaço para um novo dia.
Tivemos uma breve e deliciosa despedida pela manhã, eu estava insaciável esses dias.
- Você nem pegou meu telefone... - Depois de trocarmos beijinhos a morena falou, quando já estávamos ao lado da porta.
- Aposto que o Eduardo já fez isso.
- Não, ele só tem o da minha amiga.
- Mas isso é ótimo. Ele é praticamente meu intermediador, quando estiver a fim mando entrar em contato com você.
- Mas é que... Eu queria seu número para a gente ficar conversando...
- Normalmente não tenho tempo. - Já estava perdendo a paciência, eu definitivamente não tinha o dom para enrolar mulheres. - Mas quando surgir uma brecha...
Ela me cortou:
- Mas você mora no Rio e eu em São Paulo.
- Escuta garota, quando eu estiver a fim de te comer outra vez, mando um jatinho te buscar aqui ou em qualquer lugar do mundo. Mas sobre ontem à noite: foi só uma foda. Gostosa pra caralho, mas só uma foda. - Abri a porta dando espaço para que ela saísse e fosse de encontro a amiga que estava no corredor esperando-a. Ela assentiu, um pouco decepcionada, mas sabia que não valeria a pena insistir. - Bom dia! - despedi-me, sendo educado.
Tranquei a porta e quando me dei conta Dudu já estava rindo deitado desleixadamente sobre o sofá.
- Você sempre faz isso. Esse deve ser um dos motivos de até hoje estar encalhado.
- Melhor do que estar casado e aqui na orgia, traindo sua esposa e sua família. - Sentei ao lado do meu amigo que rapidamente ficou sem graça.
Nunca fui favorável a nenhum tipo de traição. Sempre acreditei que quem trai uma vez vai trair sempre, independentemente da situação, independentemente se for namorado, esposo ou amigo.
Sempre estive em alerta com quem quer que fosse.
Sempre confiando apenas em mim mesmo, foi assim que cheguei até aqui.
E talvez esse também fosse um dos motivos de eu ter escolhido ficar sozinho.
Três
Milena
A ansiedade não me deixava ficar parada. De minuto em minuto checava minhas malas e as de João Paulo para ter a certeza de que não estava esquecendo nada. Toda vez que viajava para o Brasil sentia um frio na barriga, mas dessa vez parecia uma nevasca. Isso porque ao invés de fazer uma das raras visitinhas de 4 em 4 anos, eu iria para ficar. Estava decidida a não pôr mais os meus pés aqui. Nada contra a Itália, Roma, onde fui muito bem acolhida, mas eu já não aguentava mais. Fui além de todos os meus limites para conseguir dividir o mesmo teto com ele por mais de 12 anos.
Olhei para o espelho e foi impossível não deixar as lágrimas caírem quando enxerguei meus olhos azuis contrastando com as olheiras arroxeadas e meu lábio cortado, novamente.
Não demorou para que lembranças fortes de ontem à noite, mescladas com as do ano passado e de todo esse tempo que estive aqui me assombrassem. Meu Deus. O que eu fiz para merecer isso? Sempre fui uma excelente esposa, abdiquei da minha vida para cuidar dele e do nosso filho. Estou há 14 anos praticamente exilada nessa casa, evitando fazer um passeio no shopping ou até mesmo compras no mercado para não levantar desconfianças e consequentemente despertar seu ciúmes possessivo e violento.
O que eu fiz de errado?
Por que estava fraquejando?
Por que estava desistindo de lutar pela minha família e o meu casamento?
- Mãe? - Meu coração errou uma batida quando avistei João Paulo no reflexo de espelho. Meu filho entrou na suíte com aquele olhar penoso que me deixava afligida e disse: - Você não está pensando em desistir, não é mesmo? Eu não aguento mais ver o Vicente te agredindo. Está mais que claro que ele nunca gostou de você. Nem de mim!
- Filho, não diga isso. Vicente é o seu pai, é claro que ele gosta de você. Ele te ama...
- Não é o que parece!
- Escuta. - Firmei-o pelos ombros e olhando diretamente em seus olhos comecei a falar numa tentativa de aplacar a dor e a raiva que ele vinha alimentando pelo homem que o criou. - O seu pai trabalha muito, ele passa o dia inteiro fora de casa, se estressando para nos dar essa vida boa...
- Eu não me importo! Minha amiga do game mora numa favela e é muito mais feliz que eu. A família dela não tem nenhum luxo, mas os pais dela são felizes. Isso porque o pai dela não fica espancando a própria mãe e dizendo que ela é um lixo de filha! Mamãe, passa logo a maquiagem para esconder esses machucados, o voo sai em menos de duas horas. Não podemos nos atrasar, não podemos continuar aqui!
Engoli o bolo em minha garganta e abri um sorriso para meu filho.
- Esse desejo todo de ir para o Brasil é para ficar perto dessa menina? João Paulo, você é muito novo para fazer essas loucuras de amor. Fora que você nunca viu ela pessoalmente.
- Já vi, sim, falo com ela por chamada de vídeo toda noite, mas, não é sobre isso mãe. Por que você se conforma de ser tratada como um saco de pancadas pelo Vicente? Daqui a pouco ele chega estressado do trabalho como sempre, você fala qualquer coisa e leva um tapa na cara! Eu não me conformo. Eu não aceito! Se você não se arrumar, eu vou fugir e deixar você aqui sozinha com esse covarde. Porque para mim ele não é um pai, é um covarde!
Mordi o lábio desviando o olhar do meu filho, pensando no quanto me tornei uma mulher fraca, sem coragem o suficiente para tomar uma atitude que mesmo vista por todos os ângulos era certa. Sair de casa com o meu filho e viajar para outro país sem nenhum aviso prévio, reencontrar a minha família, encarar uma nova vida.
Recomeçar.
Tudo parecia difícil demais.
- Aquele dia você disse que se ele ousasse tocar a mão em você outra vez, nós iríamos voltar para o Brasil. Você prometeu pra mim, mamãe. Por favor, não volte atrás. Ele nunca vai parar de nos humilhar desse jeito, é assim desde que me entendo por gente... - Apesar de ser sério e estar o tempo todo se esforçando para não demonstrar fraqueza, João Paulo não conseguiu segurar as lágrimas, aqueles olhinhos negros e brilhantes mexia com meu coração. Meu filho era a coisa mais valiosa que eu tinha, faria tudo por ele, por nós dois. E ele tinha razão, eu não merecia ser tratada como um saco de pancadas assim como ele não merecia crescer no meio dessa situação.
Se antes eu ainda tinha dúvidas, agora acabou.
Minhas malas estavam prontas. Ia esconder essas marcas horríveis. Ir embora com meu filho e esquecer que um dia fui usada e humilhada durante todos esses anos.
Talvez eu conseguisse começar uma nova vida, ou até mesmo tentar corrigir os erros do passado...
- Você tem razão, meu amor. Cheque suas malas enquanto me arrumo, já, já eu fico pronta.
João Paulo secou as lágrimas e finalmente abriu um sorriso.
- Não se preocupe, mãe, eu sei que vai ser difícil, mas vai dar tudo certo. Eu sei que vai dar, a gente merece viver em paz. - João Paulo me envolveu num abraço apertado, cheio de carinho.
Meu filho estava radiante, fazia tempo que não o via tão alegre. Nem parecia que ele estava deixando o colégio, os amigos, toda uma vida que foi construída aqui. Mas aí lembrei que ele era adolescente, estava na idade das descoberta, dos primeiros amores e decepções, estava com o coração cheio de coragem para se arriscar por seus sonhos. Eu também já tive aquela idade, sabia muito bem o que ele estava sentindo. Mas, infelizmente, já havia passado dessa fase. Aprendi que com um tempo a coragem vai se diluindo com as perdas, fracassos e, o receio vai ocupando seu espaço. Isso é o que muitos adultos chamam de juízo, mas para mim é só medo de quebrar a cara outra vez.
Finalmente estava pronta, assim como as malas e o meu filho. O Uber já estava à nossa espera. Respirei fundo tentando trazer de volta a coragem que um dia tive. Estava certa de que teria que encarar uma nova vida e não seria fácil, mas continuar com essa não dava mais para mim.
- Então, mãe, vamos?
- Vamos.
Confiante abracei meu filho e juntos seguimos. Por algum motivo um sentimento de esperança preencheu meu coração, eu não deveria pensar nisso, mas seria impossível viver no Brasil e não colocar um ponto final naquela história. Independentemente do que acontecesse, eu estava ansiosa.