Era o restaurante mais caro da cidade. O mesmo que meu namorado prometeu me levar na última vez que brigamos. Era o nosso jantar de reconciliação e estava perfeito. A luz era mais escura dando um ar sofisticado, havia apenas algumas pessoas presentes, a maioria casais. Apoiei meu cotovelo sobre a mesa e a cabeça na mão para admirar meu namorado, Lucas Toledo, um dos caras mais ricos da cidade, meu perfeito príncipe encantado. Ele era lindo com aqueles cabelos dourados, os olhos azuis que pareciam duas pedras preciosas e um corpo esculpido pelos deuses.
Eu era a mulher mais sortuda de Nova Nazaré. Como não seria? O cara mais rico da cidade me escolheu para ser a esposa dele quando existia um milhão de outras garotas com quem ele poderia se casar. Meu sonho de amor perfeito aconteceu.
Ele não tirava os olhos do celular, a todo o momento voltava a atenção, colocava o aparelho no paletó caro e então tirava de novo, como se estivesse esperando uma ligação ou mensagem importante. Inclinei um pouco mais para frente e com cuidado toquei sua mão.
- Está tudo bem? – perguntei suave.
Ele ergueu o olhar do celular para o meu rosto, tirou a sua mão da minha e guardou o aparelho antes de me encarar.
- Pensei que seria uma noite só nossa – ele comentou sério.
Meu coração se encolheu, recolhi o braço sem compreender por que ele estava bravo. Detestava deixá-lo chateado e reparei que nos últimos meses, Lucas estava ficando irritado com muita frequência.
- E é – abaixei as mãos para o meu colo -, o que eu fiz de errado?
- Você pintou as unhas de vermelho – ele olhou com desprezo -, sabe que eu não gosto.
Encolhi os dedos sentindo as unhas arranharem o tecido do meu vestido. Escolhi aquela cor para ficar diferente, para me sentir sexy e quem sabe ele me achar bonita. Contudo, o tiro saiu pela culatra. Lucas era muito conservador, ao extremo, e eu sabia. Não sei por que quis fazer algo diferente e estragar com nosso momento importante.
- Não foi por querer – me desculpei sem graça.
- Não faz mais isso. – Ele colocou o dedo em riste.
Eu me senti culpada. Não queria piorar a nossa relação que já não andava boa. Desde que decidimos marcar a data do casamento, era isso: brigas e discussões, e reparei que a maior parte do tempo eu estava errada porque queria inovar, fazer coisas diferentes. E o Lucas me puxava do mundo da ilusão e me trazia de volta para a realidade: casamento era casamento. Nada de extravagâncias ou exageros. Tudo tinha que ser bem discreto e para amigos íntimos. Um vestido clássico, padrinhos próximos. Nada de convidar minha família espalhafatosa, ele morreria de vergonha da
tia Eugênia porque ela falava alto e sempre tinha um palavrão no final da frase.
- Me perdoa – pedi desculpas e respirei fundo -, eu só quero que a gente fique bem.
Ele aquiesceu.
- Eu gosto de você como é, Helena, discreta, comedida.
Nada dessas aberrações. Não combina com você...
Como sempre, o Lucas tinha razão.
- E seu vestido está curto demais também. Prefiro quando usa calça e não mostra as pernas – ele avisou.
Também sabia disso, mas minha necessidade de inovar estragou tudo. Forcei um sorriso triste e ele notou.
- Mas não vamos nos preocupar com esses detalhes, vou te ajudar a ter a educação que precisa – ele me advertiu -, precisamos nos concentrar no nosso casamento, faltam apenas alguns meses.
A impressão que eu tinha era que ele estava fechando mais um de seus negócios importantes e não se casando apaixonado. Senti um aperto no peito por ser mal-agradecida. Todas as garotas da cidade queriam estar no meu lugar, ser a Senhora Toledo. Não era o sonho de toda mulher ter um homem lindo, inteligente e apaixonado ao seu lado? Além disso, ele era educado, quase não bebia e dificilmente falava alto. Nunca tinha visto o Lucas se meter em brigas, ao contrário, as pessoas respeitavam o nome de sua família e ficavam bem longe dele.
Minha mãe dizia que essa falta de romantismo era normal e que eu deveria me acostumar, com o tempo piorava. Ela e meu pai foram apaixonados no começo, mas depois esfriou e agora viviam como amigos. Depois de mais de trinta anos de casado, eles não tinham coragem para viver as próprias vidas e decidiram cuidar um do outro. Era tão desumano. E era geral, via as minhas tias e amigas casadas reclamarem da mesma coisa: com o tempo tudo esfria e fica uma merda. Não adiantava rezingar, o problema só mudava de endereço.
- Estou bastante ansiosa, minha tia Lolô vem dos Estados Unidos para o casamento – contei a ele.
- Quem é Lolô?
- Minha única tia paterna. Foi graças a ela que meu pai conseguiu comprar a loja de construção e daí veio tudo que temos.
– Sorri.
Tia Heloisa, ou tia Lolô, foi para os Estados Unidos no fim da década de oitenta com apenas dezoito anos e um passaporte falso. Na época que ainda se falsificava passaportes e não havia tecnologia suficiente para descobrir. Ela fez dinheiro trabalhando de faxineira e mandou uma parte para ajudar meu pai. Graças a ela, nós tínhamos três lojas de materiais de construção na região, meu pai construiu nossa casa, comprou um sítio, uma casa na praia. E ainda pôde devolver para a minha tia o que ela emprestou. Tínhamos uma vida maravilhosa e tranquila, financeiramente falando não éramos ricos como a família Toledo, mas a gente passava bem.
- Que bom! – Ele sorriu.
- Não é? – falei empolgada. - Essa semana vou fazer entrevista de emprego na fábrica de café.
Ele revirou os olhos.
- Já disse para parar com essa besteira de procurar emprego, Helena – ele falou com calma -, não quero que trabalhe depois do nosso casamento. Quero que cuide da casa, dos filhos que vamos ter. Provavelmente vou seguir o mesmo caminho do meu pai e ser vereador da cidade e depois prefeito. Quero você ao meu lado – e antes que eu argumentasse, ele ergueu a mão -, eu sei que você quer ter seu dinheiro e ser independente. Mas vou te dar uma mesada para você ter seus gastos pessoais, você vai ter seu carro com tanque cheio. Tenho certeza que isso é melhor que um emprego numa fábrica de café...
Não podia negar que a proposta era tentadora. Não via problema algum em ser sustentada por ele se estávamos formando uma família e ele precisava do meu apoio. Contudo, havia algo que me impedia de aceitar facilmente: o medo do que poderia ser cobrado de mim depois, toda vez que o dinheiro caísse na minha conta. O Lucas era o melhor namorado do mundo, mas minha prima Miranda era sustentada pelo marido e toda vez que ela reclamava de alguma coisa, ele jogava na cara dela que o dinheiro era dele e ela não tinha alternativa a não ser que acatar as decisões dele.
Não sei, as relações eram complicadas e o Lucas não era o marido da Miranda.
Afastei aqueles pensamentos ruins e sorri em agradecimento.
- Obrigada, meu amor. Você é tudo que uma mulher pode querer na vida – elogiei.
Ele sorriu satisfeito e fez sinal para o garçom que se aproximou.
- Traga o melhor vinho da casa – ele pediu.
- Lucas! – eu o repreendi. - Para que isso? Não tem necessidade!
- Eu quero – ele me cortou com seu sorriso charmoso -, quero que nossa noite seja perfeita!
Fiquei sem graça. Não gostava que ele pagasse tudo, mas acabei relaxando, afinal era a nossa noite. Ele sempre foi dispendioso, mas eu não poderia culpá-lo, vindo de uma família rica, era bastante normal. Lamentei por estarmos em um restaurante tão chique e a educação exigisse que eu ficasse sentada na minha cadeira. Eu queria me sentar no colo dele e lhe dar um beijo cinematográfico na boca. Ele merecia e eu também.
O garçom trouxe o vinho e nos serviu. Eu adorei o sabor e brindamos e ele começou a falar que naquele fim de semana iríamos a uma corrida de lancha no clube. Ele e uns amigos iam correr e ele queria que eu assistisse. Claro que eu iria, mesmo que as garotas que eram suas amigas me olhassem com desdém e debochassem de mim. Porém, o Lucas providenciou um biquíni novo e roupas adequadas para frequentar esses lugares mais caros. Como ele dizia:
- Cada lugar exige um tipo de roupa, você tem que saber se portar e tudo vai dar certo. Ninguém vai perceber suas origens...
Minhas origens? Às vezes, eu me sentia no século dezoito, a plebeia se casando com o nobre rapaz. E as ricas donzelas ofendidas por terem sido preteridas e desfazendo de mim. O mundo nunca mudava, era tudo sempre igual.
- Me pergunto o que teria acontecido se há três anos eu não tivesse batido meu carro no seu – comentei com um sorriso.
Foi assim que a gente se conheceu. Meu fusca perdeu os freios e bateu contra o importado que ele dirigia. Nem precisava dizer que ele foi um cavalheiro e assumiu tudo mesmo eu estando errada. Pegou o número do meu telefone e nunca mais nos separamos. Foi mágico e lindo. Geralmente acidentes de trânsito terminam em brigas, mas o meu culminaria em um casamento. Dava até para escrever um livro sobre isso.
- Sou um homem de sorte. – Ele piscou para mim e bebeu o restante do vinho em sua taça.
- Foi paixão à primeira vista, não foi? – perguntei feliz e me recordando de quando o vi sair do carro furioso com aqueles óculos escuros, parecendo um ator de cinema.
- Com certeza – ele concordou.
A porta do restaurante foi aberta e um grupo ruidoso entrou e se dirigiu para um canto. Não prestei atenção e nosso jantar foi servido.
- Detesto quando essas pessoas não sabem se comportar – Lucas comentou.
- O quê? – eu tive que erguer o rosto para encará-lo. Estava concentrada no meu jantar e morta de fome. Fiquei o dia todo sem
comer para caber naquele vestido.
- Esses caras que entraram e não conseguem falar baixo – ele reclamou e fitou por cima do ombro -, não olhe! – ele pediu. - Seja discreta, por favor...
Nunca diga a uma pessoa para não olhar. Isso atiça a curiosidade de uma forma devastadora. Respirei fundo e forcei um sorriso até que minha cabeça girou discretamente em direção à mesa ruidosa. Era um grupo de homens de terno e gravata, eles riam e conversavam como pessoas normais faziam. Com certeza um Happy Hour, mas o Lucas não gostou deles.
Porém, meus olhos passaram por um homem com ar insolente que olhava para a nossa mesa e engoli em seco quando nossos olhares se encontraram. Ele tinha a barba por fazer, olhos e cabelos escuros e era desconhecido. Mas quando ele notou que o vi, um sorriso insolente formou no canto esquerdo de seus lábios, o deixando charmoso. Olhei depressa para Lucas que os fitava com raiva.
- Será que eles não podem falar mais baixo? – ele perguntou com revolta e voltou a comer.
- É um lugar público, querido...
- Devíamos ter ido para outro restaurante – ele reclamou mal-humorado.
Os homens continuavam em sua conversa animada e algo me disse que se eu olhasse uma segunda vez em direção à mesa, aquele estranho ainda estaria me encarando.
- Você conhece aquele homem, Helena?
Oh, meu Deus! Eu disse a mim mesma. Lucas havia notado. E como sempre, meu namorado pensaria que era culpa minha o fato do homem estar me olhando.
- Quem?
- Um dos homens daquela mesa não tira os olhos daqui.
Quase não consegui respirar. Não queria olhar uma segunda vez para ele, mas se não o fizesse, Lucas poderia concluir besteira. E ele era muito ciumento e possessivo. Engoli em seco e meus olhos viraram na direção do daquele homem. Poderia ter olhado para qualquer outro, mas era impossível. Os olhos de águia estavam presos em mim de uma forma escandalosa e nada discreta. Eu admiti que jamais um homem me fitou daquela forma, tão sexy e poderoso.
Era uma pouca vergonha. Estreitei o olhar com raiva. Descarado! Um sorriso se formou nos lábios charmosos, como se ele soubesse exatamente o que eu estava pensando.
Voltei o olhar para Lucas e vesti minha melhor máscara de indiferença para dizer o óbvio.
- Não conheço ninguém daquela mesa.
Meu namorado não sorriu, apenas assentiu antes de continuar seu jantar me fitando como se eu tivesse algo a esconder.
Viajei o mundo todo. Eu conhecia cada ponto do planeta, e de todos os lugares, sempre amei minha terra natal, o Brasil. Por isso, há alguns anos fiquei por aqui, tratando dos negócios da minha família. Quando eu precisei ir a Nova Nazaré, onde eu tinha a fábrica, pensei que seria entediante. Mas me enganei. Além da hospitalidade agradável tão conhecida dos mineiros, eu ainda me deparei com aquela garota linda e irresistível.
Ela me chamou a atenção no instante em que entrei no restaurante. Como se eu tivesse levado um soco no estômago, como se um raio tivesse caído sobre a minha cabeça. Aqueles cabelos castanhos escuros que caíam como uma cascata de cachos por suas costas delgadas, o vestido dourado, as sandálias de salto alto envolta dos pés pequenos e lindos. Sempre tive fetiche com saltos e meu pau ficou em alerta. Quando ela sorriu para o homem à sua frente, senti inveja dele e isso raramente acontecia. Tinha tudo que o dinheiro pode comprar e posso até possuir sorrisos ao mostrar meu cartão de crédito black, mas nada se parecia com o sorriso daquela garota.
Eu a conhecia de algum lugar, talvez de outras vidas, mas tinha a sensação de já tê-la visto antes. Sentei com as pessoas que me acompanhavam. Todos trabalhavam na empresa e depois de um
dia de reuniões, chamei todos para um happy hour. Foi a melhor decisão da minha vida.
Sentei ao lado do meu amigo e advogado, Fernando Marota, ele olhou na mesma direção que eu e deu um sorriso malicioso.
- Já encontrou uma presa? – ele perguntou enquanto o garçom distribuía os cardápios.
Apenas sorri em resposta, olhando para ele rapidamente. E em seguida, voltei a focar minha atenção naquela princesa linda. A forma como ela movia aquelas mãos enquanto falava, imaginei as unhas vermelhas arranhando minhas costas enquanto eu me afundava em sua boceta quente, suas longas e lindas pernas ao redor dos meus quadris. Fui enlaçado de uma forma rápida e inesperada. Não estava naquela cidade com a intenção de me interessar por nenhuma mulher, eram apenas alguns dias de negócios e reuniões e eu voltaria para casa.
Contudo, aprendi desde muito cedo que um homem esperto tem que aprender a lidar com mudanças repentinas. A cidade sem graça adquiriu novas cores. Pedi um uísque duplo e vi que o acompanhante dela me encarava, ele notou que eu estava olhando para sua garota. Dele não. Minha. Foi dele. A arrogância em seu semblante e a raiva que demonstrou ao notar meu interesse foi um bálsamo ao concluir o quanto ele era inseguro. Outro teria demonstrado que ela o pertencia, mas o babaca apenas me fitou com desdém e raiva. Como se ninguém mais no mundo pudesse admirar a mulher que o acompanhava, ela devia estar numa redoma criada por ele. Idiota!
Ele disse algo para ela. Então, ela se virou procurando pelo que ele havia dito e nossos olhares se encontraram. Meu sangue ferveu de uma forma que fez a cobiça saltar dos meus olhos, deixei claro que estava olhando para ela e a queria. Sem qualquer pudor. A desconhecida ficou surpresa quando me notou, como se o fogo que ardia em mim acendesse uma chama dentro dela. Contudo, ela cortou a conexão e se voltou para o aparvalhado frouxo. Eles conversaram e ela olhou mais uma vez, foi a confirmação que eu precisava de que falavam sobre mim.
O garçom colocou a bebida na minha frente enquanto todos conversavam e riam agitados com aquele encontro. Minha atenção era para ela, linda, perfeita, deusa do desejo.
Então decidi provocar ainda mais. Adoro um bom desafio e meu sexto sentido me dizia que aquele valia a pena. Fiz sinal para que o garçom se aproximasse.
- Leve seu melhor champanhe para aquela mesa, diga a eles que é um presente meu – pedi. - E não aceite não como resposta, sirva como se sua vida dependesse disso!
- Sim, senhor – o rapaz anotou e se afastou guardando a nota de duzentos reais como gorjeta.
Fernando olhou para o casal e depois para mim.
- O que pensa que está fazendo? Vai arranjar briga quando mal chegamos? – me questionou.
- Briga? – debochei. - Aquele idiota não faria uma cena sequer por um milhão de reais.
- Você é louco! – Ele zombou, não acreditando na minha audácia.
- Sou determinado, é diferente.
E eu sei quando algo vale a pena. E aquela mulher valia cada segundo da minha atenção. Eles não combinavam, sequer sabia quem eram, mas tinha certeza que ela merecia algo melhor do que um imbecil que na noite anterior estava no hotel da cidade vizinha com outra garota. Como eu sabia? Não havia hotéis em Nova Nazaré, apenas uma pensão que estava lotada. Então, eu e o Fernando tivemos que nos hospedar em um hotel na cidade mais próxima. Lembro deles no saguão se beijando e a garota era tão loira e sofisticada que nada tinha a ver com a mulher que estava com ele agora. Ou era um conquistador barato ou um canalha da pior espécie. Se havia algo que eu detestava mais que jiló era uma pessoa sem escrúpulos que traía a confiança de alguém, fosse nos negócios ou na vida pessoal.
Eles receberam a bebida e o homem fez que não com as mãos, entretanto, um segundo garçom surgiu com as taças e serviram sem esperar resposta. O homem cerrou os punhos em cima da mesa e vi que ela ficou tensa, sem saber o que fazer para acalmá-lo. Senti que precisava fazer alguma coisa antes que ele jogasse a bebida no rosto dela que tentava acalmá-lo de alguma forma.
- Eu já volto – eu disse ao Fernando que apenas franziu o cenho sem entender nada.
- O que você vai fazer, cara? – Ele indagou incrédulo.
- Vou conhecer minha garota. – Pisquei para ele e me ergui.
Confiante e determinado caminhei para a mesa deles. O idiota rosnou algo para ela que olhou para trás e arregalou os olhos ao notar que eu me aproximava. Vi que ela apertou o garfo até os nós dos dedos ficarem brancos e contive o sorriso de satisfação. Eu gostava de ser perverso de vez em quando e saber que era fácil ter poder sobre a emoção das pessoas. Era inevitável o deleite que eu sentia, ainda mais quando a pessoa em questão era uma linda mulher desejável que merecia estar comigo sob os lençóis.
Parei diante da mesa e ela permaneceu de cabeça baixa, como se estivesse se sentindo culpada por ter causado aquele mal- estar com o estrupício. Eu estava indo longe demais, contudo, valia a pena, era irresistível. Ela era mais linda de perto, senti vontade de esticar a mão e tocar seus cabelos, saber se eram tão sedosos quanto pareciam ser, se teriam aquele perfume de shampoo feminino e descer meus lábios sobre eles até atingir o pescoço delicado.
- Boa noite – os cumprimentei com uma insolência que eu sabia ter.
O homem foi o primeiro a me observar, mas notei apenas pelo canto dos olhos. Minha atenção estava sobre ela, que tremia e nervosa ergueu o olhar para mim, relutante. Aqueles olhos verdes poderiam levar um homem à loucura. Minha mente altamente sexual a imaginou fazendo aquela mesma cena, só que ao invés de sentada em uma cadeira de um restaurante, ela estivesse de joelhos diante de mim e a boca linda envolvendo meu pau. Notei
que eu estava disposto a tudo para viver aquela cena. Qualquer coisa que ela pedisse, eu daria.
Um desejo forte pulsou em minhas veias quando nossos olhares se encontraram e tive que me controlar para não a puxar da mesa, colocá-la sobre o meu ombro e sumir dali, para bem longe do idiota.
- Preciso pedir desculpas – falei de forma insolente -, pensei que conhecia você – eu disse a ela.
Ela abriu a boca para falar, mas a voz não saiu.
- Fiz uma grande confusão – desculpei e estendi a mão para o babaca que usava um blazer bege -, eu sou Alessandro Annenberg – me apresentei.
Ele olhou para a minha mão estendida e se surpreendeu reconhecendo meu sobrenome. Pigarreou, estendeu a mão e a apertei com muita força antes de soltar.
- Eu a confundi com uma antiga amiga, sinto muito – falei com sarcasmo -, não foi minha intenção ofendê-los e observei que não gostou da forma como olhei para sua...
Esperei que ele completasse a frase.
- Noiva – ele respondeu -, sou Lucas Toledo, das indústrias Toledo – ele demarcou território querendo mostrar que também tinha dinheiro -, essa é minha noiva, Helena Timberg.
Helena, que nome maravilhoso, lindo, perfeito. Helena seria um nome fácil de dizer quando eu estivesse gozando dentro dela,
ou lambendo seu corpo. Leninha, Lena. Helena, sua gostosa. Soava bem.
- Conheço sua família – comentei -, estudei com seu primo, Olavo.
Ele assentiu mais à vontade.
- Olavo agora mora na Espanha – ele comentou.
- Eu sei, nós jantamos há uns seis meses em Barcelona, pergunte a ele – contei para surpresa dele e meu olhar novamente caiu sobre Helena. Minha musa que me impulsionava a agir como um homem possessivo disposto a tudo para conseguir o que queria: ela.
- Que coincidência... – Lucas comentou.
- De qualquer forma, sou obrigado a dizer que sua noiva é muito bonita, Lucas – elogiei -, a ponto de eu a confundir. Pensei que fosse uma amiga da Espanha.
O elogio foi proposital e compreendi como o cara estava por eu conhecer sua família e ser quem era, ter o poder que eu tinha, ele se sentiu intimidado para retrucar e me mandar cair fora. Ao contrário, percebi que se eu oferecesse um bom dinheiro, ele a venderia facilmente. Canalha!
- Você é um homem de sorte – completei olhando diretamente para ela que tinha os olhos presos sobre a mesa.
Podia sentir seu constrangimento, sua vontade de levantar e sair correndo dali. Mas ela foi bem treinada por ele para não fazer uma cena na frente de tantas pessoas em um restaurante chique.
Era óbvio que não pertenciam à mesma classe social e ele se aproveitava disso. Anos trabalhando com pessoas e no meio do mundo dos negócios aprendi a conhecer a forma como se portavam, como reagiam a alguma situação.