Prólogo
Ethan Cooper
A sala de reuniões parecia sufocante, mas não era só por causa do ar-condicionado exagerado. Era o tipo de silêncio que pesa, sabe? Aquele que te faz pensar que qualquer movimento em falso pode custar caro.
Eu estava lá, sentado na ponta da mesa de mogno polido, com todos aqueles acionistas me olhando como se eu fosse o messias... ou o próximo bode expiatório. Ninguém dizia nada, mas dava para sentir. O cheiro da tensão estava no ar, como se cada um estivesse só esperando eu vacilar.
"Um Cooper nunca demonstra fraqueza."
A voz do meu pai ecoava na minha cabeça, como sempre. Ele podia estar morto, mas ainda era capaz de me atormentar.
Passei a mão pelo nó da gravata, só para garantir que estava no lugar. Era um gesto automático, quase um escudo. Eu precisava parecer inabalável. O problema é que, por dentro, a tempestade já estava armada.
As portas se abriram, e pronto. O ar pareceu ficar ainda mais pesado.
Ele entrou.
Lucas Hart.
Meu meio-irmão.
O fantasma que o velho Cooper sempre tentou enterrar, mas que agora caminhava vivo e sorridente, com aquele ar de "eu pertenço a esse lugar". Ele não precisava dizer nada. Só o simples fato de estar ali já era uma provocação.
- Senhores - ele começou, a voz firme, confiante demais para quem sempre viveu às sombras. - Está na hora de reconhecer o meu lugar legítimo na Cooper Enterprises.
Os olhares se cruzaram em volta da mesa, alguns com surpresa, outros com aquela dúvida maldita que eu mais temia. Lucas tinha esse dom: aparecer feito uma bomba-relógio e plantar discórdia com um simples sorriso.
Mantive a postura, mas por dentro minha raiva queimava.
- Você não tem direito a nada - falei, a voz fria, cortante. - Meu pai nunca te reconheceu.
Ele riu. Um riso baixo, debochado, como quem já tem a vitória na mão.
- Talvez não em vida. Mas a verdade sempre aparece, maninho. E, acredite, eu não tenho pressa.
Quis socar aquele sorriso da cara dele. Mas não. Eu não podia. Não ali, não diante de todos. O jogo era de xadrez, não de socos.
E foi nesse clima que meu tio Curt, sentado alguns lugares atrás, se levantou.
-Você Lucas, a menos que tenha alguma coisa muito importante a falar e não só palavras ao vento se retire por favor!
Por um segundo, achei que ele fosse colocar Lucas para fora da sala, esmagar aquela tentativa ridícula de golpe. Mas não. O ardiloso do meu meio-irmão saiu e o olhar de tio Curt veio direto para mim.
- Ethan, precisamos conversar. - Ele não falou para a sala inteira. Foi para mim. Só para mim. Baixo, firme, num tom que não deixava espaço para "não". - Agora.
Ele fez um sinal discreto para os outros continuarem com os relatórios e me puxou para fora, pelo corredor comprido que levava aos escritórios privados. O som abafado das vozes da reunião ficou para trás, mas a sensação de que eu estava prestes a ser atingido por um raio só aumentava.
Fechamos a porta da sala dele, e foi como se o mundo lá fora tivesse sumido.
- Vai direto ao ponto, tio. - Cruzei os braços, já cansado de rodeios. - O que você quer?
Ele se apoiou na mesa, respirou fundo e me encarou daquele jeito sério que só ele tinha. - Lucas está ganhando terreno. E se você não se adiantar, vai perder tudo.
- Eu sei disso. - Minha voz saiu mais áspera do que eu pretendia. - Mas eu vou achar uma forma de manter o império.
- Já existe uma forma. - Ele estreitou os olhos, como se a resposta fosse óbvia. - Está no testamento do seu pai.
Aquilo me fez gelar. Eu odiava quando traziam o velho para a conversa, como se ele ainda tivesse o poder de manipular minha vida mesmo morto.
- Não começa, tio. - Levei a mão à nuca, tentando aliviar a tensão. - Você sabe que aquele testamento foi uma piada de mau gosto.
Ele não recuou.
- Não é piada, Ethan. É lei. E está claro: você só assume o controle definitivo da Cooper Enterprises se for casado.
Eu ri. Um riso seco, sem humor.
- Casamento? É sério isso? O mundo desmoronando, Lucas tramando pelas costas, e você vem me dizer que a solução mágica é colocar uma aliança no dedo?
- Não é mágica - ele rebateu, firme. - É estratégia. Os investidores querem estabilidade. Querem acreditar que você é um homem de família, alguém confiável, que inspira segurança. Isso vale mais do que qualquer discurso seu em sala de reunião.
Fiquei em silêncio por um instante, tentando digerir. Casar. Essa palavra soava como prisão. Eu poderia lidar com números, dívidas, concorrência desleal, mas casamento? Isso estava em outro nível.
- Eu não vou me casar com qualquer uma só para agradar um bando de acionistas - respondi, a voz mais baixa, mas carregada de veneno. - Não sou um boneco obedecendo um testamento.
Meu tio se aproximou, apontando o dedo para mim.
- Então prepare-se para entregar tudo o que seu pai construiu de bandeja para Lucas.
Fechei os olhos por um instante, sentindo o peso da escolha se instalar sobre meus ombros. Era sufocante.
- Você já tem alguém em mente, não é? - perguntei, sem paciência para adivinhações.
Curt soltou um meio sorriso, satisfeito.
- Clarisse Moore. Jovem, educada, de boa família. A neta da senhora Abigail. Perfeita para esse papel.
Rolei os olhos, bufando.
- Já estive com Clarisse. E acredite, ela é perfeita para muitas coisas... mas não para ser minha esposa.
Ele me encarou, desapontado.
- Ethan, você precisa parar de agir como se isso fosse opcional.
- Eu vou resolver - garanti, mesmo sem ter ideia de como. - Mas não do jeito que você quer.
Curt suspirou, jogando-se na poltrona.
- Só não demore. Cada dia perdido é uma vitória a mais para Lucas.
Saí da sala dele com a cabeça latejando. O corredor parecia mais longo do que nunca, e a sombra de Lucas ainda queimava na minha mente.
Casar. Eu com 30 anos ainda não pensava em casar, não agora. Era isso. A última cartada do velho Cooper para me manter sob as rédeas, mesmo do além.
Eu podia enfrentar uma guerra de acionistas. Podia lidar com meu irmão bastardo tentando roubar meu lugar.
Mas casamento?
Isso... isso era outro tipo de batalha.
E a pergunta que não saía da minha mente enquanto voltava para a sala de reuniões era:
Quem, diabos, seria a mulher capaz de salvar não só a Cooper Enterprises... mas também a minha sanidade?
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Capítulo 1
Sophia Mariani
O vento frio da tarde atravessava minha jaqueta fina, penetrando até os ossos, enquanto eu segurava a pequena mão de Rosie. Ela saltitava animada de azulejo em azulejo pela calçada, como se o mundo fosse um grande jogo, cantando uma musiquinha inventada que rimava pouco, mas me fazia sorrir.
- Um, dois, três, piso só nos quadradinhos! - ela cantava, rindo sozinha quando errava o ritmo.
Olhei para ela e tentei gravar cada detalhe: o cabelo castanho-claro preso em duas tranças tortas, as bochechas coradas pelo vento frio de Denver, o casaco rosa já gasto nos cotovelos. Rosie tinha apenas seis anos, mas parecia carregar a luz que mantinha o meu mundo de pé.
O nosso prédio logo apareceu à frente. Um edifício antigo, de tijolos pálidos e paredes descascadas, no subúrbio. O corredor de entrada tinha sempre um cheiro persistente de mofo, misturado ao odor de comida dos vizinhos e cigarro velho. Não era bonito, muito menos acolhedor. Mas era o que eu conseguia pagar com o salário da floricultura. E, de alguma forma, com Rosie ao meu lado, tentava acreditar que era um lar.
Não foi sempre assim.
Havia uma época que não precisávamos morar nessas condições. Nossos pais morreram em um acidente de acarro a três anos atras e desde então perdemos tudo. Nossa casa, nosso conforto e principalmente nosso api e nossa mãe.
Ela parou de repente, abaixando-se para arrancar algumas margaridas que teimavam em nascer tortas nas rachaduras da calçada. Juntou um pequeno ramalhete improvisado e ergueu como se fosse um tesouro.
- Olha, Sophia! Vou colocar na jarra da mamãe. Vai ficar bonito!
Meu coração se apertou. Sorri, mesmo sentindo o nó na garganta.
- Vai sim, meu anjo. A mamãe ia adorar.
Rosie acreditava que, colocando flores no apartamento, mantinha mamãe por perto. Eu não tinha coragem de desfazer essa fantasia.
Estávamos prestes a subir as escadas quando um homem de terno cinza surgiu no saguão, interceptando nosso caminho. Ele carregava uma pasta de couro e tinha aquele olhar sério, burocrático, que imediatamente fez meu coração disparar.
- Senhorita Mariani? - a voz firme cortou o ar.
- Sim... - respondi, ainda desconfiada.
- Sou oficial de justiça. Preciso falar com você.
O homem com um terno azul marinho e olhar cansado nos parou antes de subirmos.
Meu estômago se revirou. Segurei a mão de Rosie com mais força e forcei um sorriso para ela.
- Rosie, querida, por que você não sobe primeiro? Vá abrir a porta e escolha uma historinha pra gente ler daqui a pouco.
Ela me olhou desconfiada, franzindo a testa.
- Mas, Sophia...
- Vai, meu amor. - Acariciei sua bochecha. - Prometo que não demoro.
Com relutância, ela subiu os degraus correndo, as trancinhas balançando. Esperei até que seus passos sumissem antes de encarar o homem.
- O que aconteceu? - perguntei, já temendo a resposta.
Ele abriu a pasta, retirando alguns papéis.
- Recebemos uma denúncia sobre suas condições de moradia. O apartamento não é considerado adequado para uma criança.
Senti meu peito comprimir.
- O quê? Mas eu trabalho o dia inteiro, faço tudo por ela. Não é justo...
Ele não pareceu se abalar.
- A senhora está prestes a perder a guarda de sua irmã se não providenciar outro endereço. O prazo é de trinta dias.
- Trinta dias? - Minha voz saiu num sussurro quebrado.
- Caso contrário, a tutela será transferida para parentes mais estáveis ou, na ausência deles, para um abrigo da prefeitura.
Minha respiração falhou. A palavra "abrigo" ecoou como uma sentença de morte. Rosie em um lugar frio, longe de mim. Não. Não podia acontecer.
Assenti sem forças. O oficial fechou a pasta com um estalo seco e se afastou, deixando-me sozinha naquele corredor úmido.
Subi as escadas devagar, cada passo pesado como chumbo. A lembrança do acidente que mudou nossas vidas veio com força: eu tinha dezoito anos quando recebi a ligação. Nossos pais haviam saído para uma viagem curta de carro. Nunca voltaram.
De um dia para o outro, precisei ser irmã e mãe. Precisei assinar papéis, provar que podia cuidar de Rosie, enquanto ainda chorava escondida no travesseiro. Três anos se passaram desde então. Três anos tentando segurar o mundo nas costas.
Quando empurrei a porta do nosso apartamento, encontrei Rosie sentada no tapete da sala, de pernas cruzadas, um livro de capa gasta no colo. As paredes amareladas, descascadas em alguns cantos, denunciavam a idade do lugar. O sofá era velho, herdado de uma vizinha, e a mesa de centro tinha marcas de copos que nunca saíam. Havia uma pequena prateleira onde eu mantinha vasos de flores sempre frescas, minha tentativa de trazer vida àquele espaço cinzento.
Rosie ergueu o rosto e sorriu com aquela inocência que me desmontava.
- Você demorou, Soph. Já escolhi a história!
Engoli o choro que ameaçava transbordar e me ajoelhei diante dela. Passei a mão pelos cabelos finos e a puxei para um abraço apertado.
- Qual você escolheu? - perguntei, forçando leveza na voz.
- O da princesa que não queria casar com o príncipe bobo. - Ela riu. - Porque ela queria plantar flores em vez de ficar presa no castelo.
Sorri com ironia.
- Essa princesa parece alguém que eu conheço.
Rosie inclinou a cabeça.
- Parece você?
- Talvez. - Beijei sua testa. - Mas se eu fosse princesa, adivinha quem seria minha rainha?
- Eu! - ela gritou, batendo palmas.
- Exatamente.
Rimos juntas. Momentos assim me faziam esquecer, por alguns segundos, do peso que carregava.
Fui até a cozinha minúscula - um espaço estreito com azulejos rachados e um fogão que fazia barulhos estranhos - e preparei leite quente com chocolate em duas canecas descascadas. Rosie se aninhou no sofá com a manta colorida que tricotei no inverno passado.
- Sophia? - ela chamou, segurando o livro aberto. - Quando a mamãe e o papai estavam vivos, você também lia histórias com eles?
A pergunta me pegou de surpresa. Engoli em seco.
- Sim, meu amor. - Respondi, sentando ao lado dela. - O papai lia em voz alta e sempre mudava a voz dos personagens. A mamãe ria e dizia que ele parecia um ator.
Os olhinhos dela brilharam.
- Então agora você faz igual.
Assenti, sorrindo com lágrimas contidas.
- Vou fazer igual.
E comecei a ler, imitando vozes engraçadas, arrancando gargalhadas dela. A cada riso, a cada olhar cheio de confiança, eu reforçava dentro de mim a promessa silenciosa: não importa o que acontecesse, eu nunca deixaria que a tirassem de mim.
- Eu sei, meu anjo... - minha voz falhou, mas forcei um tom leve. - E vai ser a melhor história do mundo, porque é você quem escolheu.
Ela riu baixinho, sem imaginar que, por trás do meu sorriso, havia uma tempestade de medo. Segurei-a ainda mais forte, prometendo silenciosamente que não importava o que acontecesse - eu nunca deixaria que a tirassem de mim.
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Capítulo 2
Sophia Mariani
O aroma de rosas e lírios preenchia o ar da pequena floricultura, como se tentasse me anestesiar contra a ansiedade que latejava dentro do meu peito. Passei a manhã inteira em silêncio, podando hastes e organizando arranjos sem realmente enxergá-los. Minha mente não saía do ultimato que o oficial de justiça havia deixado: trinta dias.
Alice, minha colega de balcão e confidente de plantão, percebeu meu estado desde a primeira hora. Ela tinha o tipo de olhar que atravessava qualquer fachada.
- Está escrito na sua testa que alguma coisa aconteceu, Soph. - Ela largou a fita que enrolava num buquê de tulipas e cruzou os braços. - Vai me dizer ou vou ter que arrancar à força?
Suspirei, deixando as tesouras de poda de lado.
- Eu não queria falar disso aqui... mas não aguento mais guardar só para mim.
Alice se aproximou, apoiando o quadril no balcão, pronta para ouvir.
- Ontem... - engoli seco, sentindo a garganta queimar. - O oficial de justiça apareceu. Disseram que o nosso apartamento não serve para uma criança. Se eu não mudar de endereço em trinta dias, vão tirar a Rosie de mim.
Os olhos de Alice se arregalaram, a mão dela indo instintivamente para cobrir a boca.
- Meu Deus, Soph... isso é um absurdo! Você faz tudo por aquela menina, todo mundo sabe disso.
Balancei a cabeça, tentando conter as lágrimas.
- Mas fazer tudo não é o suficiente. Eu não tenho como pagar um aluguel melhor, não sozinha.
Alice me puxou para um abraço apertado, cheirando a lavanda e terra molhada.
- Você não vai perder a Rosie. Vamos encontrar um jeito. Eu prometo.
A esperança parecia tão distante que doía acreditar, mesmo assim deixei aquele abraço me aquecer.
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À tarde, enquanto o sol começava a atravessar as vidraças da loja, o senhor Osvaldo surgiu do escritório. Apesar da idade avançada, ele sempre tinha o semblante sereno, com o avental de jardineiro impecavelmente limpo. Mas, naquele dia, havia preocupação em seus olhos.
- Sophia, preciso de um favor. - Sua voz grave, mas gentil, chamou minha atenção. - Elizabeth não conseguiu sair da cama hoje. As costas dela pioraram.
Dona Elizabeth é a esposa do senhor Osvaldo.
- Pobre dona Elizabeth... - murmurei, preocupada.
- Pois é. - Ele coçou a barba grisalha. - Ela sempre leva a remessa de flores da semana para o Cooper Grand Hotel. Mas, como não tem condições de ir, queria pedir que você acompanhasse meu filho Joseph.
Meu coração deu um pequeno salto. O nome Cooper sempre me causava um arrepio incômodo, mesmo sem que eu entendesse o motivo exato. Respirei fundo e forcei um sorriso profissional.
- Claro, senhor Osvaldo. Eu vou.
Ele assentiu, satisfeito.
- Obrigado, menina. Você tem mãos delicadas, vai saber representar bem a nossa floricultura.
Poucos minutos depois, Joseph apareceu no balcão carregando as caixas com folhagens frescas. Diferente do pai, ele era quieto, sempre meio distraído, mas competente no trabalho.
- Então... vamos? - ele perguntou, ajeitando os óculos no rosto.
Olhei rapidamente para Alice, que me deu um sorrisinho cúmplice e uma "boa sorte" silencioso.
Peguei minha bolsa, respirei fundo outra vez e segui Joseph até a caminhonete carregada de flores.
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