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O CEO que eu odiava Amar

O CEO que eu odiava Amar

Autor:: Taize Dantas
Gênero: Bilionários
Danielle e Talita são amigas de infância e a única coisa capaz de afastar as duas foi o casamento de Talita com Miguel Pontes, o CEO mais cretino que Danielle já teve desprazer de conhecer. Então quando sua amiga decide pedir o divórcio, Danielle aceita ser sua advogada e defender os interesses, fazendo com que Miguel pague por tudo o que fez Talita sofrer. Danielle só não esperava que Miguel Pontes fosse o único a conseguir abalar as suas estruturas e ultrapassar todas as barreiras que ela colocou em torno do seu coração e o fato dele ser ex-marido de Talita não é o único obstáculo para aquela relação impossível. Será o amor capaz de passar por cima de intrigas e traições?

Capítulo 1 Justiça

Danielle

Olhei para o estado em que minha amiga se encontrava e senti a raiva me consumir. Aquilo era inadmissível e eu faria o que estivesse ao meu alcance para que a justiça fosse feita naquele caso. Eu mesma iria garantir aquilo.

- Como você conseguiu esse vídeo, Talita? - Perguntei em um tom de voz que exprimia tranquilidade, apesar de tudo.

- Enviaram para mim, de um número desconhecido. - Ela falou entre soluços. - E eu já tentei falar com a pessoa, mas está sempre desligado ou fora da área de cobertura da operadora.

Fiquei considerando as suas palavras e me perguntando quem poderia ter interesse naquela situação ao ponto de gravar um vídeo do marido da Talita a traindo e enviar o conteúdo para ela.

- Eu estou tão decepcionada com o Miguel, amiga. - Ela repetiu pela enésima vez, as lágrimas jorrando de seus olhos em uma proporção arrasadora. - Como ele pôde me trair dessa forma?

- Eu compreendo o seu desgosto, Talita. Mas isso não ficará assim, eu te garanto.

A Talita era minha amiga desde quando éramos crianças e estudamos na mesma escola, e mesmo sendo pessoas totalmente diferentes uma da outra, sempre mantivemos nossa amizade.

Pelo menos até a Talita casar com o homem mais importante do ramo de vestuário do país e nossas vidas terem tomado rumos totalmente distintos, algo que me deixou um pouco triste, pois sempre senti certa dificuldade em fazer novas amizades e o fato de ter perdido a minha melhor amiga, foi essa a sensação mesmo, a de perda, teve grande impacto na minha vida naquele momento.

Mesmo quando eu tinha saído do ensino médio diretamente para a universidade, pois havia conseguido obter nota suficiente para cursar Direito no Rio de Janeiro, e a Talita optou por seguir a carreira de modelo, uma vez que não desejava prosseguir com os estudos naquele momento de sua vida, ainda assim nós tínhamos conseguido manter contato constante e a amizade de sempre.

Mas depois de a Talita ter conhecido Miguel Pontes isso aconteceu e nós havíamos perdido totalmente o contato uma com a outra, algo que me surpreendeu bastante e só voltamos a nos encontrar novamente há apenas algumas semanas, quando a minha amiga me ligou, convidando-me para jantar com ela, pois andava se sentindo muito sozinha.

Estranhei bastante a sua ligação e ainda mais a sua fala, visto que até onde eu tinha conhecimento de sua vida, ela era casada e como a Talita sempre foi cheia de amigos, diferentemente de mim, que sempre a tive como a minha única e melhor amiga, uma vez que só existia ela mesmo, ela estar se sentindo sozinha me espantou grandemente.

Diante da total ausência de vida social e por não ter muitas oportunidades de sair com amigos, uma vez que estes não existiam, eu aceitei de imediato o seu convite.

Somente após o nosso encontro para jantar, foi que eu passei a ter conhecimento de tudo o que ela vinha enfrentando ao lado do marido e fiquei realmente chocada quando ela me contou sobre a sua relação com Miguel Pontes e que aquilo que todos viam nas redes sociais e nos sites especializados em gente rica e famosa era nada mais que apenas mídia mesmo.

A realidade era bem diferente de tudo aquilo e eu ficava cada vez mais abismada com as suas revelações, e ao saber que o seu marido a havia proibido de várias coisas, como por exemplo, trabalhar, como modelo ou qualquer outra coisa, exigindo que ela fiDanie sempre a sua espera no apartamento que cobertura em que moravam na Barra da Tijuca.

Outra proibição que me deixou ainda mais indignada é que ele também não aceitava que ela tivesse amizades, mas ele mesmo vivia saindo com amigos, principalmente com o seu melhor amigo que era advogado e quando perguntei quem seria, ela me contou que se tratava de Eduardo Dornelles e eu reconheci o nome de imediato, mas, até onde eu o conhecia, ele era um cara decente, mas enfim.

Às vezes, se era um excelente profissional e um indivíduo horrível, isso era um fato inegável.

Como se tudo o que ela me contou já não fosse o bastante para que ela tivesse pedido o divórcio há mais tempo, Talita disse ter suspeitas de que ele a estava traindo desde o início do casamento e, desde então, nós voltamos a amizade de antes.

Aquilo havia acontecido há mais ou menos duas semanas e quando, para minha consternação total, ela veio até o meu escritório aos prantos, após ter descoberto que ele realmente a estava traindo, pois havia recebido um vídeo que comprova a sua suspeita, fiquei realmente triste pela Talita.

Eu sabia o quanto ela era completamente apaixonada por seu marido, pois ela mesma havia me dito aquilo tanto no momento em que eles iniciaram a relação, e eu pude sentir por sua alegria naquele dia, que ela estava realmente muito feliz em casar com Miguel, assim também como ela repetiu diversas vezes em todas as vezes que nos encontramos nos últimos dias.

- O que você deseja fazer agora?

Eu precisava perguntar, mesmo desejando que ela exigisse o fim do casamento, eu não poderia interferir no que ela realmente desejava fazer, quando eu mesma já havia conversado sobre como aquela relação era abusiva e como ela não precisava se submeter aqueles absurdos que o marido a submetia.

- Eu quero o divorcio! Não fico mais nenhum dia sequer ao lado de um traidor covarde.

- É o que deve ser feito, Talita.

Analisei a situação, mas sempre tentando manter a distância profissional, aquilo não era completamente possível. A Talita era minha amiga e eu gostava muito dela e deduzi que ela iria requerer que eu fosse sua representante naquele processo.

Contudo, por mais que eu possuísse um laço de amizade tão grande com uma das partes, o meu trabalho dependia do quanto eu poderia aparentar neutralidade, principalmente em uma situação de conflito de interesses como os meus casos normalmente eram e eu tinha convicção que o processo de divórcio da Talita não seria diferente.

Quero que seja a minha advogada, Dani.

Não me surpreendi com o pedido e estava até mesmo me preparando para tal, pois pretendia que ela fizesse algumas exigências para compensar tudo o que Miguel Pontes a fez passar.

Desde que ela começou a falar, eu já entendi que desejava a minha ajuda profissional e nada mais justo que eu, sua melhor amiga, para defender os seus interesses nessa situação.

Eu tinha conseguido galgar alguns degraus na minha profissão e agora era considerada uma das melhores na minha área, algo que eu havia me esforçado muito para conseguir e já estava colhendo os frutos do reconhecimento ao meu trabalho.

Mas além de toda a dedicação que eu tinha à minha carreira, eu também era uma pessoa bastante sensata e sempre analisava muito bem os casos que eu iria defender. Jamais entraria em algo que eu mesma não acreditava. Meus princípios estavam acima de tudo.

- Eu preciso saber de todos os detalhes antes de poder aceitar o seu caso, Talita. Não quero que a nossa amizade afete o meu julgamento da situação. Mas caso eu não possa ser sua representante, indicarei alguém que seja tão bom quanto eu.

- Mas eu quero a minha amiga ao meu lado nesse momento, Dani! - A Talita choramingou, levantando e batendo o pé de uma forma muito infantil como só ela conseguia fazer.

- Eu estarei, com toda a certeza. Mas não necessariamente como sua advogada. - Falei de maneira honesta. - Vamos, se acalme e me conte tudo sobre a sua relação com Miguel Pontes. Eu também gostaria de saber se vocês têm algum tipo de pacto antenupcial.

Enquanto a Talita contava tudo sobre seu relacionamento, desde o início do seu namoro com o grande empresário Miguel Pontes até os dias atuais, o que não era muito tempo, uma vez que eles se conheceram há pouco mais de um ano, eu me perdia em pensamentos.

Sempre tive a capacidade de me concentrar no que uma pessoa falava e trazer outros fatos ao pensamento, a todo o momento alinhando informações, mas naquele instante, tudo o que passava por minha cabeça eram as imagens do belíssimo e cretino, homem com o qual a minha amiga havia se casado.

Eu havia tido o desprazer de conhecer o empresário riquíssimo e arrogante ao extremo, Miguel Pontes durante uma festa promovida pelo sócio majoritário do escritório para o qual eu trabalhava e assim que coloquei os olhos naquele homem, eu senti algo diferente, uma antipatia, eu diria.

Não gostei do Miguel Pontes e não disfarcei os meus sentimentos nem por um minuto e a todo o momento em que eu o olhava, a minha expressão deixava claro o que eu estava sentindo.

Alguns colegas de trabalho chegaram a questionar qual o problema e se eu estava chateada com algo que aconteceu na festa, mas eu apenas negava e voltava a olhar na direção daquele homem infame e lindo, eu não podia negar.

Mas ele não se deu conta da minha presença em momento algum e uma outra pessoa mais atenta poderia dizer que esse foi o motivo maior da minha hostilidade gratuita.

Enquanto isso, ele esteve todo o tempo cercado por várias mulheres, todas lindas e que pareciam muito dispostas a lhe agradar a cada instante e Miguel distribuía sorriso para todas e conseguia manter todas elas satisfeitas com a atenção que estavam recebendo do empresário bilionário.

Aquilo foi algo que me deixou enojada, pois ele parecia bastante satisfeito em ser o centro das atenções e, quando o vi sair acompanhado por duas delas, aquilo torceu o meu estômago completamente, visto que eles nem mesmo disfarçaram quais eram as intenções do “trisal” e cada uma foi agarrada a um dos braços dele.

Apesar daquele evento ter sido uma forma de fazer negócios, voltado totalmente para o lado empresarial, Miguel Pontes parecia estar em uma boate de quinta, se comportando como um espécie de deus, sorrindo e bebendo, sua atenção inteiramente naquelas mulheres que pareciam estar se oferecendo de forma tão descarada para ele, sem se importar com o fato de serem várias disputando a atenção daquele homem.

Quando a Talita me contou que o estava namorando, quase revelei as minhas impressões sobre ele, mas como ela estava notavelmente encantada pelo CEO da empresa Pontes e até mesmo havia se afastado de mim, desde então, nós não estávamos mais tão próximas e eu não me senti confortável para interferir em sua felicidade, como também não tinha certeza sobre como a minha impressão seria recebida por minha até então melhor amiga.

Eu também só o tinha visto uma única vez, durante o evento do escritório e decidi que aquele não era parâmetro suficiente para elaborar um perfil completo sobre determinada pessoa, apesar de que a amostra não tinha sido das melhores, ele poderia apenas estar aproveitando o seu status de solteiro.

De qualquer forma, quando poucas semanas depois, ela me contou que iria casar com ele, eu terminei por dizer a ela sobre a festa e a forma como ele parecia ser um mulherengo, mas a Talita não se importou com aquilo, apenas seguiu em frente com seus planos e em pouquíssimo tempo, ela já estava se casando com o Miguel Pontes.

Quando isto aconteceu, eu estava fazendo uma especialização na minha área, fora do país e não pude comparecer ao megaevento que foi realizado, mas tudo havia sido amplamente divulgado pela mídia e eu imaginei apenas que havia me enganado com o empresário, pois como diz o famoso ditado, as aparências enganam.

Agora, no entanto, ao ouvir tudo o que a Talita me contava, constatei que eu estava mais certa do que eu supunha e o cara era realmente um tremendo galinha, que não respeitava a sua esposa, assim como o fato de ser um homem casado não havia alterado em nada a sua vida “amorosa” livre e movimentada.

- Eu entendo que o amor faz as pessoas aceitarem várias coisas do outro. Mas acredito também que tudo tem limite, Talita. E você aguentou demais!

- Eu o amo, Dani. Muito. E ele sempre prometeu que aquela seria a última vez. E a última...

- Sei bem como é.

Apesar de nunca ter me casado, ou mesmo de ter tido qualquer relacionamento mais sério, eu já havia ouvido histórias o suficiente para entender o que ela dizia. As minhas clientes sempre tinham histórias semelhantes.

A minha própria mãe passou por tudo aquilo e, mesmo eu sendo apenas uma criança, sempre repetia para ela que aquilo não precisava acontecer. Que ela poderia sair daquele círculo vicioso. Não era porque o homem em questão era o meu pai, que eu iria ser de acordo com o que ele fazia.

Cresci com esse pensamento e hoje eu tentava ajudar as mulheres a saírem desses relacionamentos abusivos e as ajudava a dar a volta por cima. Se no processo elas ainda poderiam também ter ganhos financeiros, melhor ainda. Nós iríamos tirar até o último centavo desses canalhas.

- Eu vou representar você na sua ação de divorcio, amiga. E Miguel Pontes vai se arrepender de tudo o que ele fez para você , pode ter certeza disso.

- Fico tão feliz por ter você ao meu lado, Dani. Você sempre foi tão inteligente e esforçada. Tenho muito orgulho de você, sabia?

Talita se aproximou de mim e me abraçou apertado, as lágrimas já esquecidas e um belo sorriso em seu semblante. Era isso que eu buscava em minha profissão. Tirar a tristeza dos rostos das minhas clientes e trazer a esperança de justiça, pois elas mereciam mais que um homem para as enganar com falsas promessas de amor e fidelidade.

- Miguel Pontes nem vai saber o que o acertou. Ele vai pagar por todas as traições onde mais lhe dói, que é o seu bolso.

Nos afastamos e nos olhamos com a cumplicidade de amigas de infância e vi novamente ali diante de mim a menina que conheci antes, uma pessoa cheia de sonhos e expectativas de um futuro melhor.

Capítulo 2 Um Idiot@

Miguel

Olhei pela janela do meu escritório no bairro da Lagoa, no Rio de Janeiro, e a sensação que eu tinha era de ter sido feito totalmente de idiota e que o único culpado por aquilo era eu mesmo e aquilo me deixava bastante irritado.

Eu não havia sido completamente enganado por uma mulher, pois dizer aquilo seria uma grande hipocrisia da minha parte, quando todos, mas todos mesmo, não apenas a minha família e os amigos também, tentaram me avisar sobre quem ela era de verdade.

Além dessas pessoas mais próximas, até mesmo alguns funcionários e parceiros de negócios insistiam que eu deveria pensar melhor sobre a ideia de casamento e que eu poderia apenas continuar como já estávamos, em um relacionamento cômodo e em que poderíamos sair a qualquer momento, sem mais problemas ou dificuldades.

Mas eu, totalmente concentrado em fazer negócios e aproveitar a boceta sempre disposta e pronta para mim, não dei ouvidos àqueles que só estavam tentando ser leais a mim, ao contrário do que aconteceu com a minha ex-esposa.

Agora, eu me encontrava em uma situação desagrádavel e com um grande problema em mãos, uma vez que não pretendia aceitar de forma alguma, que a Talita ficasse com um centavo do meu dinheiro, fora o estritamente necessário e não era exatamente pelo dinheiro em si, e sim por que ela não merecia nem mesmo a minha simpatia, quanto mais sair daquele casamento arrancando de mim alguns milhões.

Mas ela estava dificultando o divórcio exatamente por isso, é claro, pois ela era cínica o suficiente para, mesmo depois de todos os absurdos que ela cometeu com todos que me cercavam, ainda exigir dinheiro como compensação pelo que ela passou ao meu lado.

Um completo absurdo!

Ela estava fazendo exigências ridículas para assinar o acordo de divórcio e aquilo estava sendo muito desgastante e me deixando verdadeiramente estressado, pois a Talita se tornou uma pessoa que eu queria bem longe de mim, mas que precisava tolerar a sua presença constante, não mais fisicamente, como quando nós ainda não havíamos entrado com a ação para o divórcio, mas em conversas de família e, principalmente com o meu advogado, uma vez que eu não pretendia ceder nenhum milímetro da minha posição sobre aquele assunto e ela parecia tão disposta a brigar quanto eu mesmo me sentia.

- Eu entendo a sua raiva, Miguel. – Eduardo Dornelles, meu advogado, que também era um grande amigo na vida pessoal, falou em seu tom sempre conciliatório. – Mas acredito que se você ceder em alguns pontos, todo o processo será feito de forma mais rápida.

Eduardo havia acabado de me comunicar que a Talita havia entrado com um pedido oficial de divórcio e exigido urgência, além de uma medida protetiva, pois ela alegou que se sentia ameaçada e que temia pela própria vida.

- Eu não vou concordar com nenhum dos pontos daquele acordo de divórcio ridículo que a Talita elaborou com essa advogada pedante e completamente maluca que ela conseguiu arrumar.

Meu amigo sorriu a menção da advogada e pela forma como ele fez isso, eu entendi que ele não concordava com as minhas colocações sobre a advogada e aquilo me irritou bastante.

Joguei a caneta que estava em minhas mãos para que batesse no amigo da onça que eu acreditava ser meu amigo, mas ele tinha bons reflexos, era inegável e se afastou a tempo de evitar que o objeto o acertasse, me fazendo suspirar com desagrado.

- Você não pode se referir a advogada da Talita dessa forma, Miguel.

- E qual o problema? Estou falando a realidade dos fatos. Ela é louca, se pensa que vou atender a exigência de sua cliente.

- Não conhece a profissional que Danielle Rocha é. Eu posso afirmar, com toda a convicção, que ela não é nenhum pouco boba ou “maluca", como você a denominou agora.

- Você se engana ao pensar dessa forma. Eu tenho ouvido falar sobre os feitos da excelentíssima Danielle Rocha nos tribunais, sempre exigindo compensações financeiras para os tormentos de suas clientes durante o casamento e não serei mais um caso de sucesso para ela. – Falei com desdém.

- Vejo realmente que está bem informado, Miguel. Mas, se a Danielle tem conseguido ganhar todos os casos em que coloca suas mãos, é por ser realmente muito boa no que faz e você não deve cantar vitória antes da sentença final.

Era bastante notável, pela pela forma como ele falava da tal advogada, que o Eduardo estava mesmo encantado com a mulher e eu não gostei nenhum pouco de ouvir o seu tom de admiração, uma vez que ela estava do lado oposto ao nosso e era, portanto, nossa inimiga agora.

Não me importava o fato de a advogada ser completamente linda e vibrante e se parecer com um furacão esfuziante ao passar, deixando todos caídos por ela, algo que eu pude constatar quando estive em um evento de negócios realizado há mais de um ano, por um parceiro de negócios e que, por coincidência do destino, era também sócio do escritório no qual a Danielle trabalhava.

Descobri aquilo ao me envolver em uma conversa animada com algumas amigas que também estavam presentes no evento, assim como minha prima Patrícia e sua esposa Samara.

Apesar de a conversa ter girado em torno dos feitos da advogada Danielle Rocha, eu não tinha sido derrubado por seu carisma e nem seria, com toda a certeza.

Estava acostumado a conviver com mulheres belíssimas e não seriam seus olhos da cor de mel derretido e sua boca carnuda e apetitosa, de lábios vermelhos brilhantes, que iriam conseguir fazer isso.

E estava bastante nítido que ela também não havia simpatizado comigo, pois me olhou com visível irritação durante todo o tempo em que estive no evento e, quando minha prima me pediu uma carona até a sua casa, e eu saí acompanhado pelas duas mulheres, a Patrícia e a Samara, pensei que seria fuzilado, apenas com o olhar que a Danielle me dirigiu.

- Ela está se achando a defensora das mulheres indefesas. Mas o que ela não sabe, pelo menos ainda não, é que a Talita não é nenhuma pobre coitada. Ela é uma víbora e armou para cima de mim e qualquer um que tenha convivido conosco pode confirmar isso.

Voltar a pensar na Talita não era uma boa ideia, tampouco. Eu ainda não tinha conseguido engolir o fato de que havia caído na lábia de uma oportunista igual a um grande otário. Aquilo era muito difícil de aceitar e eu me recusava a sair perdendo ainda mais naquela história.

- Acredito que você não pode criticá-la, tão pouco. Você mesmo caiu na personagem que a Talita mostra ao mundo, como pode criticar Danielle? .

- Não me lembre desse fato.

- Como se você conseguisse esquecer, concorda? - Meu até então advogado fez questão de salientar.

O Eduardo tinha razão e eu não revidei a sua perfeita colocação, no entanto.

Levei a mão até os meus cabelos, os assanhando, me sentindo desolado mais uma vez. A verdade é que eu estava inconformado, essa era a melhor palavra para definir como eu estava me sentindo no momento atual e aquilo só poderia mudar quando saísse a sentença do processo de divórcio, que me deixaria livre da Talita de uma vez por todas.

Claro que eu também precisava sair vitorioso, pois, caso contrário, eu teria a liberdade, mas não teria a satisfação de saber que ela não tirou nada de mim, além de tudo o que já havia tentando me prejudicar.

Lembrei de quando eu havia conhecido a Talita, quase dois anos atrás.

Ela estava trabalhando para uma campanha publicitária da Pontes, a qual estava sendo desenvolvida pelo setor de marketing da minha cadeia de lojas de departamentos e a linda modelo Talita Andrade conseguiu chamar a minha atenção de imediato com a sua beleza estonteante, o que eu não sabia ainda era que tudo aquilo não passava da superfície e por dentro ela era podre.

Nós começamos a sair juntos e apenas alguns dias depois, ela já estava praticamente instalada em meu apartamento, sem que eu nem mesmo a convidasse para tal.

O que acontece é que a Talita sempre alegava que ainda estava com sono e, como eu precisava sair para trabalhar, ela me tranquilizava dizendo que depois pegaria um táxi e iria para seu próprio apartamento.

Quando eu voltava do trabalho à noite, a Talita ainda estava lá e como ela sempre me recebia de um modo bem atrativo, com sexo, eu apenas aproveitava o fato de a ter a minha completa disposição.

Até que chegou um momento em que ela alegou que seu próprio apartamento estava passando por uma reforma e pediu para ficar apenas alguns dias comigo em minha cobertura na Barra e como era muito conveniente para mim, eu concordei sem dar muita atenção ao fato.

Sem que eu me desse conta do que realmente estava acontecendo, uma vez que eu estava em um momento de grande agitação dentro da empresa, devido a aposentadoria do meu pai e a minha consequente promoção a CEO da Pontes, a Talita estava realmente morando comigo e organizando os detalhes para o nosso casamento, mesmo sem que eu tivesse feito nenhum pedido a ela e, ainda assim, aquilo não soou como um sinal de alerta.

Eu deixei as coisas seguirem, afinal, estava tudo tão cômodo e tranquilo, a rotina era agradável e ela não fazia exigência alguma, mesmo que eu saísse todos os dias muito cedo e sempre chegasse bem depois do jantar, ela nunca reclamava das minhas ausências ou qualquer outra coisa.

A Talita que me fez de bobo era sempre bem humorada e fazia tudo para me agradar, algo que me seduziu facilmente e eu precisava admitir que fui eu que facilitei todo o processo para ser enganado por ela.

E então, eu pensei, “por que não?” Eu estava com trinta e dois anos e já estava na hora de formar uma família, como a minha mãe costumava repetir a todo o momento de maneira irritante.

Mas mesmo com a insistência em que eu deveria formar minha própria família, eu não poderia culpar a minha mãe tampouco, uma vez que Talita não foi em momento algum bem aceita por minha família e eles me alertaram que ela não era a pessoa que estava se mostrando ser para mim.

E mesmo com todos insistindo em tentar me mostrar a verdade sobre a minha então “noiva conveniente", eu não ouvi ninguém e fui em frente com aquela loucura. Aceitei que nosso casamento fosse marcado e liberei todos os recursos necessários aos gastos que ela quis fazer para tal.

A única coisa com a qual eu não pude concordar de forma alguma, foi com o seu desejo de um casamento na igreja Para o meu total alívio, eu não fui tão longe na burrice. Mas sobre as outras coisas, fui um completo idiota e agora estava sofrendo as consequências dos meus atos.

- Sobre a advogada da sua esposa, eu mesmo já a presenciei no tribunal algumas vezes e ela faz valer os honorários que cobra. Então, já te aviso que seria mais fácil para nós que você resolvesse ceder um pouco em sua determinação de não colaborar com o processo.

- Ex- esposa. Salientei, me sentindo irado por ter que passar por todo aquele trâmite. - Para quando será a audiência de conciliação?

- Amanhã, às nove.

- Vou precisar desmarcar um compromisso importantíssimo por causa daquela...

- Olha o linguajar, amigo. Você não pode deixar que as emoções o dominem, principalmente amanhã durante a audiência com o juiz.

- Você está certo, é claro. Preciso me controlar, ou amanhã posso falar algo que complique a minha situação nesse processo rídiculo. Seria tão mais simples se apenas assinarmos logo esse divórcio!

Levantei da minha confortável cadeira de CEO do grupo Pontes e fiquei andando por minha sala ricamente decorada em tons de ocre e bege, com as mãos em punho.

Aquela havia sido a sala do meu pai por anos, enquanto ele foi o homem por trás do Grupo Pontes, ou GA, como os funcionários costumavam chamar.

- Cuidado com suas ações, Miguel. – Eduardo alertou mais uma vez. – Por mais que a Talita tenha aprontado com você, foi você que a deixou entrar em sua vida.

- Preciso de um drinque. – Falei ao parar próximo a porta da sala. – Vamos ao clube? Tenho saudades do nosso lugar preferido.

Estava brincando na verdade, apenas na tentativa de descontrair um pouco o clima, uma vez que me sentia muito tenso e o clube Season Hot sempre foi um lugar que o Eduardo e eu frequentamos, mas que, desde que comecei a me relacionar com a Talita, me abstive de ir.

Aquela era só mais uma coisa que me privei, para me ver ainda ser taxado de traidor por aquela mulher fútil e mentirosa.

- Você acha uma boa ideia beber às vésperas da audiência?

- Não. Não é. - Concordei, após uma breve análise.

Olhei ao redor e novamente para a vista da janela, pensando em como eu pude me enganar tanto com uma pessoa.

- Podemos sair para jantar e alinhar algumas informações. – Ele sugeriu. – E eu vou permitir que tome um drinque. Um único drinque. O que acha?

- É melhor do que nada. Vamos!

Peguei a maleta com alguns documentos que havia deixado em cima da mesa e o Eduardo fez o mesmo com a sua pasta que estava na cadeira ao lado, e juntos fomos para o estacionamento no subsolo.

- Vamos ao restaurante que Antônio Garcia está inaugurando hoje. – Eduardo sugeriu, enquanto nós caminhávamos a passos largos pelos corredores da empresa. – O que você acha?

- Não estou no clima para inaugurações.

- Vamos, será interessante. – Insistiu. – Eu tenho dois convites.

- E por que não convidou uma de suas “amigas"? Eu não sou a melhor companhia hoje.

- Sou seu amigo, cara. E advogado. Preciso te preservar de problemas e você hoje parece um homem a procura exatamente disto. E caso você arrume mais confusão, eu também irei ganhar mais trabalho.

O Eduardo tinha um pouco de razão.

Eu realmente não estava no melhor humor para socializar com outras pessoas e talvez, caso fosse para o meu apartamento, acabaria por decidir sair e terminasse por arrumar ainda mais problemas.

Chegamos ao subsolo, onde cada um pegou seu respectivo veículo e seguimos para o endereço do restaurante que ele indicou, que para o meu agrado, ficava bem próximo ao prédio de escritórios da Pontes.

- Mesa para dois, por favor. – Eduardo orientou a Hostess.

- Venham comigo, senhores.

Nós a seguimos e assim que já estávamos instalados, os nossos cardápios em mãos, Eduardo logo comentou sobre a beleza da mulher.

- Eu não prestei atenção. – Falei ranzinza. – Na verdade, pretendo não perceber a beleza de mulher alguma por bastante tempo ainda.

- Seria ideal que isso acontecesse, mas eu realmente não acredito nessa possibilidade.

- Pois pode confiar em minha palavra. Estou de saco cheio de mulheres bonitas e que se mostram boas moças, quando na verdade tudo o que elas querem é o que guardamos em nossas contas bancárias.

Naquele momento o garçom chegou para anotar os nossos pedidos e somente após a saída dele, nós voltamos aquele assunto.

- Não seja tão cínico, Miguel. – Eduardo falou com um enorme sorriso, o qual ele manteve por todo o tempo em que estava fazendo o seu pedido. – Não é por que você teve uma experiência ruim, que todas serão desta mesma forma.

- E que experiência, meu amigo! -Ironizei.

Eduardo apenas sorriu em concordância e eu olhei em torno de nossa mesa, pelo espaço do restaurante, analisando a beleza discreta do ambiente e só então percebi que estava com todas as suas mesas preenchidas.

O lugar era bem espaçoso e era perceptível o bom gosto na decoração e lembrei que o Antonio Garcia era casado com um decoradora de interiores e estava bem explicado o quando o ambiente agradava aos olhos.

Algo me chamou a atenção naquele instante e olhei então com mais atenção para uma mesa bem próxima a nossa, sem conseguir acreditar realmente na coincidência que acabara de acontecer.

Constatei que a mulher sentada de maneira ereta, parecendo estar torcendo o nariz ao olhar em volta do ambiente, o que era no mínimo ridículo, tendo em vista que tudo estava bonito e elegante, não era nada mais, nada menos, que a tal advogada sugadora de fortunas, a Danielle Rocha.

- Algum problema, Miguel? Parece que algo está te desagradando. Não gostou do restaurante?

Antes que eu pudesse responder, um casal se aproximou de nossa mesa e o Eduardo se levantou de imediato para os cumprimentar, e eu tive que imitar o seu gesto, ao observar que se tratava do proprietário do restaurante e sua jovem esposa.

Depois que nós cumprimentamos o casal Marília e Antonio García, fiquei olhando na direção da mesa ao lado, tentando manter o maior grau de discrição possível.

- Espero que esteja gostando do nosso restaurante. - Antônio sondou de maneira efusiva.

- Acabamos de chegar, mas até o momento só elogios ao atendimento e também ao local. É tudo muito agradável. - Eduardo comentou com entusiasmo.

- Fico feliz em ouvir isso. E você, Pontes, o que achou até o momento? Sei que é conhecido no meio empresarial por sua sinceridade.

- Como disse o nosso amigo Eduardo, tudo muito agradável. - Respondi de maneira mais honesta possível, mas toda a minha atenção estava voltada para a belíssima mulher que era cúmplice da minha ex.

- Acredito que agradável não é exatamente a discrição que eu esperava do meu novo restaurante, mas imagino que depois que provarem dos nossos pratos, com certeza os adjetivos serão bem melhores.

Apesar das palavras, Antonio García sorria como se tivesse acabado de ouvir uma piada muito engraçada e acabou chamando a atenção de algumas das pessoas que estavam ao nosso redor, inclusive da advogada, que nos olhou de maneira atenta e acabou por me encarar sem pestanejar, provavelmente só agora percebendo que eu era um dos presentes naquele círculo.

Eu tampouco desviei o olhar e a encarei sem medo e nós dois ficamos assim por alguns momentos, até que o Eduardo me deu uma cotovelada discreta, trazendo a minha atenção de volta para a conversa.

- Tenho certeza de que tudo estará divinamente saboroso, não é mesmo, Miguel? - Eduardo falou de maneira extravagante.

- Claro. - Concordei, pois o Eduardo me olhava de uma maneira quase assassina e eu pensei que deveria parabenizar a decoração e a pessoa responsável por esta, mas estava muito entretido em olhar para Danielle.

- Fico feliz, então. Muito feliz. Não é mesmo, querida? - Antônio falou encarando a sua jovem esposa e recebendo dela apenas um balançar de cabeça como concordância.

Eles se despediram de nós e fiquei extremamente satisfeito por poder voltar a sentar em nossa mesa e ainda mais por poder então falar com o Eduardo sobre o que acabara de acontecer.

Capítulo 3 O Encontro

Danielle

Olhei para Miguel Pontes jantando com seu então melhor amigo, que também era seu advogado, me fez pensar no fato de que a audiência de conciliação para o acordo de divórcio da minha melhor amiga seria amanhã.

E enquanto ela estava em casa se sentindo infeliz por ter que encarar ao homem que ela amava e com que ela esperava construir uma família em um processo para o fim do casamento entre os dois, o seu ex-marido estava prestigiando a inauguração de um restaurante chique e conversando de maneira bastante tranquila com seus amigos ricos e poderosos.

Cheguei a bufar de raiva pelo absurdo da situação e o quanto aquilo era injusto, pois ele não parecia nenhum pouco incomodado de que estaria em sua audiência de divórcio no dia seguinte.

Apesar disso, não poderia dizer que estava de todo surpresa, pois eu não estava. Quando não se tinha nenhuma expectativa em alguém, como era o caso, não causava espanto quando as atitudes daquela pessoa eram insensíveis ou algo do tipo.

O fato é que Miguel Pontes havia se casado com a minha amiga e, menos de um ano depois, ele já a estava traindo com todas as mulheres com quem ele sentia vontade e não se deveria esperar nada de bom partindo de alguém desse tipo.

Estar ali jantando e confraternizando com os seus amigos só confirmava o quanto ele era um cafajeste da pior espécie e não seria um pedido de divórcio que o faria deixar de aproveitar as coisas boas da vida e isso era algo irrefutável.

- Algo a aborrece? - O homem à minha frente perguntou, me trazendo para o momento atual.

Eu estava agora jantando com o Carlos Brito, um dos sócios do escritório do qual eu trabalhava desde que terminei a minha especialização e que costumava me fazer convites para o acompanhar a todos os tipos de lugares, desde jantares a eventos de grande prestígio, algo que havia aceitado após muita insistência de sua parte e apenas para tentar me distrair um pouco dos pensamentos indesejáveis que estavam me atormentando nos últimos dias.

Carlos era um homem tranquilo, mas eu sempre o considerei muito calado e dificilmente nós conseguimos saber sobre o quê ele estava pensando e eu não gostava de lidar com pessoas difíceis de ler.

- É impressão sua, Carlos. - Neguei qualquer desconforto, pois não diria a ele o que estava se passando. - O ambiente é bastante agradável e o cardápio excelente. - Desconversei.

- Aquele não seria Miguel Pontes, marido daquela modelo com a qual você tem se encontrado bastante nos últimos dias? Como é mesmo o nome dela... ?

- Talita Andrade. - Respondi a contra-gosto. - Ex-marido, na verdade. Eles estão em processo de divorcio agora.

Eu não costumava comentar sobre os meus casos com ninguém, mas tinha certeza que o Carlos já sabia sobre aquela informação, uma vez que estava circulando em todos os sites de fofoca e até a assessoria de imprensa do Miguel Pontes também havia liberado uma nota confirmando a separação do casal.

Eu entendia, no entanto, que tudo o que o Carlos queria era apenas ter algum assunto para conversar, uma vez que eu havia me mantido todo o tempo em um silêncio resoluto, tendo em vista a falta de assunto entre nós, desde que chegamos ao restaurante.

A verdade é que eu me arrependi bastante por ter aceitado o convite dele para jantar, pois além de não termos nada em comum além da profissão, todos assuntos que ele tentou iniciar, era sobre temas que me desagradaram e em que nós discordamos muito.

Também não tinha funcionado de forma alguma para tirar os pensamentos inoportunos da minha cabeça, pois eles continuavam aqui, me atormentando e me fazendo sentir culpa apenas por os ter.

- Não estava sabendo. - Ele estava mentindo, era óbvio, e aquilo tornou a me desagradar, pois era totalmente desnecessário de sua parte, fingir que não sabia de algo assim.

- Sério? - Perguntei em tom de ironia.

- Você parece chateada. - Ele parece ter optado por outro caminho, mas insistiu em algo que eu já havia descartado. - Não gostou do restaurante? Ou tem outro motivo.

Senti vontade de falar a verdade, que eu não estava gostando era da companhia, mas aquilo não seria nada sábio, tendo em vista que trabalhávamos juntos e ele era um dos sócios do escritório. Além de ser totalmente desnecessário e ofensivo.

- Gostei sim. Só estou cansada. - Não neguei sobre ter outro motivo.

Tentei manter minha atenção no Carlos, mas algo como um imã me levava a estar olhando durante a maior parte do tempo para a mesa ao lado e percebi que o Miguel também estava olhando em minha direção, algo que me deixou bastante desconfortável.

Diferentemente da noite em que o vi pela primeira vez, agora ele parecia ter me notado e imaginei que devido eu estar representando a Talita no processo de divórcio, pois estava bastante nítido o seu aborrecimento dirigido especificamente a mim.

Ele me olhava com uma expressão de raiva e eu o motivo daquilo era que amanhã eu estaria representando a sua esposa em uma ação que visava arrancar alguns milhões de sua conta bancária.

- Devo concordar com você de que a semana está sendo bastante cansativa. - Carlos chamou a minha atenção de volta. - Nós poderíamos dispensar a sobremesa e ir para o meu apartamento. Conversar um pouco... trocar algumas ideias.

Olhei para o Carlos tentando conter uma risada de escárnio. Eu alegava estar cansada e ele vinha com aquele papo furado de ir até o seu apartamento? Como os homens poderiam ser tão sem noção dessa forma?

- Obrigada pelo convite, mas amanhã tenho uma audiência logo pela manhã e pretendo estar bem descansada. - Falei, mas queria mesmo era mandar ele pastar, aquele grande imbecil.

- Claro, você está certa. - Ele concordou rapidamente, acredito que na tentativa de me agradar. - Marcamos um outro dia, então.

- Quem sabe, não é mesmo?

Mal sabia ele que não existia nenhuma possibilidade de isso vir a acontecer novamente, eu não seria tão idiota assim e eu preferi então, não me comprometer com mais uma noite como aquela

Olhei novamente para o lado e uma mulher havia chegado à mesa do Miguel, algo que me deixou extremamente chateada. Claro que a minha raiva era devido a Talita e não por qualquer outro motivo.

A mulher parecia ter acabado de chegar ao restaurante e ter parado para falar com os dois homens, mas sua atenção estava concentrada apenas em um deles, o que me fazia ferver de raiva, pois mesmo estando em processo de divórcio, a audiência marcada para amanhã, ele ainda estava aproveitando bastante a situação.

- Cretino. - Resmunguei, sem conseguir me controlar.

- Ele não está retribuindo o interesse dela. - Carlos apontou.

Me espantei com a sua colocação e olhei de imediato para o Carlos, sentindo um ardor na face, pois pelo visto ele havia ouvido o que eu falei e entendido a quem eu estava me referindo, o que era ainda pior.

- Não importa se ele não está devorando-a com os olhos como ela está fazendo com ele. - Optei então por defender meu ponto, uma vez que já tinha passado a vergonha mesmo, irei em frente com o que eu acreditava. - A fama dele o precede.

- Não concordo. Mas, sem querer bater de frente com você, ele agora é um homem solteiro e, caso deseje, pode ficar com ela ou qualquer outra mulher.

- Ele ainda não é um homem solteiro.

Disse aquilo apenas para ser chata, visto que eu concordava totalmente com o Carlos. E aquilo tanto se aplicava ao Miguel, quanto a Talita e ela deveria começar aproveitar mais a sua vida e não ficar em casa se lamentando por alguém como o seu ex-marido.

Aquele jantar já tinha absorvido todo o meu estoque de gentilezas e ver o marido da Talita ali naquele restaurante não estava ajudando em nada.

- Com licença, Carlos. Volto logo.

Levantei da mesa e sai em direção ao banheiro feminino e Carlos me olhou com desaprovação, algo que não me importei nenhum pouco.

Eu estava me sentindo bastante inquieta há dias e aquilo tinha tido início desde que a Talita havia me mostrado aquele vídeo repugnante do Miguel, com uma loira também repugnante, em uma piscina mais repugnante ainda.

Caminhei apressadamente para o corredor pelo qual eu deveria seguir e entrei no banheiro, fechando a porta com um estalo firme, mas não a bati. Apenas empurrei mais forte que o necessário, pensei comigo mesma.

Parei em frente ao espelho, analisando meu reflexo com bastante atenção.

Eu me considerava uma mulher bonita, com meu um metro e setenta de altura, cabelos pretos e lisos em um corte moderno até os ombros, olhos redondos e castanhos como o mel e um rosto afilado, com nariz que parecia estar sempre empinado, mas que na verdade era mais natural do que qualquer pessoa poderia acreditar.

Eu era morena e gostava da minha aparência. Não tinha problemas de auto estima ou qualquer coisa do tipo. Eu sabia muito bem o que tinha de melhor e quando estava interessada em um homem, eu mesma tomava a iniciativa, se aquele fosse o caso.

Contudo, faz quase dois anos que eu não conseguia me interessar por ninguém e aquilo não tinha me preocupado nenhum pouco, até hoje.

Eu não desejei estar com nenhum homem durante todo esse tempo e agora percebi que estava sentindo falta de uma noite agradável ao lado de alguém que me despertasse daquele torpor que eu havia mergulhado, sem ao menos saber como aquilo tinha acontecido.

Mas Miguel Pontes estava conseguindo mexer comigo e ele seria o último homem com quem eu poderia ter uma “noite agradável”.

- Eu estou precisando de sexo, esta é a verdade. - Falei para o meu reflexo e caí em uma gargalhada. - Já estou até falando sozinha, então, o meu estado é grave. A que ponto eu cheguei.

Balancei a cabeça em descrédito de mim mesma, por estar falando sozinha enquanto estava parada em frente a um espelho do banheiro de um restaurante e quando qualquer pessoa poderia chegar e me presenciar fazer aquilo e acreditar que eu tinha algum tipo de distúrbio psicológico.

Levei a mão à boca para conter a risada e entrei em um dos reservados, pois além de falar sozinha, o assunto era ainda mais constrangedor.

Após fazer o que precisava, saí logo em seguida do banheiro e quando me virava para fechar a porta atrás de mim, acabei esbarrando em alguém que parecia ter vindo ao meu encontro.

Estava prestes a pedir desculpas para a pessoa, quando percebi que se tratava de Miguel Pontes e senti um estranho arrepio de excitação em meu corpo, algo que me fez ficar ainda mais chateada comigo mesma. Aquilo estava passando do limite, já.

- Você! - Falamos os dois em uníssono.

Nos olhamos como dois adversários em um ringue e eu estava prestes a sair sem dar-lhe o prazer de ouvir qualquer coisa vinda de mim, quando senti sua mão tocar em meu braço.

- Você pode soltar o meu braço?

Meu tom foi rude, descontando em Miguel toda a minha frustração. Nada mais justo, pois ele era o principal culpado por ela.

- Qual o seu problema? - Ele perguntou sem atender ao meu comando. - Quero apenas conversar com você.

- Estou mandando você tirar suas mãos de cima de mim, agora. - Repeti entredentes.

- O que eu fiz para você me olhar com tanta raiva? - Ele questionou, enquanto soltava o meu braço lentamente e com visível descontentamento. - Nós nem ao menos nos conhecemos!

- Fale por você, senhor Pontes. - Eu disse e virei as costas para ele, voltando a caminhar sem me importar em esclarecer.

- Eu quero apenas entender! - Ele falou abrindo os braços em um gesto de impotência.

Voltei para a mesa onde o Carlos já me aguardava de pé e juntos caminhamos para fora do elegante restaurante.

- Percebi que o Pontes foi na mesma direção que você e estava prestes a ir a sua procura. Imaginei que ele pretendia te abordar.

- Ele tentou. Mas não dei atenção.

- Espero que ele não se torne inconveniente. - Ele falou enquanto andávamos em direção aos nossos respectivos carros. - Mas caso aconteça, pode contar comigo. Ele não pode usar de intimidação para ter seus interesses atendidos.

Olhei admirada para o Carlos, pois pela primeira vez naquela noite, ele falou algo realmente correto, e ao que parecia, ele não era tão bobo como cheguei a imaginar.

- Eu agradeço por sua oferta, Carlos. É muito gentil de sua parte.

- Gostaria de poder oferecer mais que isso. Porém, sei reconhecer quando tudo o que posso conseguir é uma boa amizade.

Sorri pela sua honestidade e por ele ter finalmente entendido que nós dois não combinamos realmente. No fim das contas, ele não era tão ruim assim.

Mas não pensei no Carlos por mais nenhum minuto depois que recebi as chaves do meu carro das mãos do manobrista do restaurante e nem durante todo o percurso até o meu apartamento. Eram outros olhos e um sorriso bem mais sacana que não saia da minha mente e que estava começando a afetar os meus hormônios.

Não queria reconhecer, nem para mim mesma, que aquele homem arrogante e safado tinha me afetado desde que o vi pela primeira vez, mas a verdade estava muito clara e mentir para si proprio era algo muito idiota para se fazer.

E mesmo com o tempo estando bem agradável naquela noite, eu fui direto para o banheiro, tomar uma ducha fria e tentar não pensar no homem moreno e alto, com uma covinha no queixo que me fazia suspirar, mesmo contra a minha vontade.

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