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O CEO rabugento e a filha da empregada

O CEO rabugento e a filha da empregada

Autor:: Viih Felix
Gênero: Romance
Charles Sterling tem 38 anos, um império bilionário nas mãos e um coração feito de gelo. CEO poderoso, arrogante e conhecido pelo temperamento impossível, ele vive recluso em sua mansão, onde tudo e todos existem apenas para servi-lo. Emoções não fazem parte do jogo. Controle é a única regra. Ivy Parker aprendeu cedo a sobreviver longe daquele mundo. Formada em gastronomia, talentosa e dona de um dom capaz de despertar desejos, ela construiu sua vida longe da família Sterling. Até receber a ligação que muda tudo: sua mãe, empregada da mansão há anos, está doente e precisa de ajuda. Ivy volta como chefe de cozinha, e passa dias invisível para o dono da casa. Mas algo começa a sair do controle de Charles. Os pratos são diferentes. Intensos. Viciantes. Cada refeição desperta sensações que ele não sente há anos, fome, curiosidade e um desejo perigoso de ir além do prato. Intrigado, Charles exige conhecer quem está por trás daquela cozinha. O primeiro encontro é eletrizante. Olhares que se chocam, palavras afiadas e uma tensão que não pede permissão para existir. Ele é poder, frieza e domínio. Ela é fogo, provocação e tentação. A diferença social torna tudo proibido. O desejo torna tudo inevitável. Porque, quando o prazer começa na boca, o corpo inteiro passa a querer mais. E o CEO rabugento está prestes a descobrir que há sabores impossíveis de controlar.

Capítulo 1 Charles

Charles Narrando

Eu fiquei órfão cedo demais para acreditar em finais felizes.

Não lembro do calor de um colo por muito tempo, nem de histórias contadas antes de dormir. O que lembro é do silêncio. Do vazio. Da sensação constante de que o mundo não estava nem aí para mim. Meus pais morreram quando eu ainda aprendia a diferenciar dor física de emocional e, desde então, descobri que a segunda dói muito mais e dura muito mais tempo.

Fui criado por tutores pagos para cumprir horário, não por afeto. Pessoas que sorriam porque eram obrigadas, não porque se importavam comigo. Aprendi cedo que amor é uma moeda instável e que dependência emocional é o caminho mais curto para a ruína.

O ódio pelo mundo não nasceu de um grande trauma isolado. Ele foi sendo construído, dia após dia, em pequenos abandonos. Em promessas não cumpridas. Em olhares vazios. Em portas fechadas.

Enquanto outras crianças choravam por brinquedos, eu aprendia a ler contratos. Enquanto adolescentes sonhavam com romances, eu aprendia a blindar sentimentos. Não foi escolha. Foi sobrevivência.

Família, não sei o que é isso. Natal, ação de graça. Festa de aniversário. Essa realidade nunca me alcançou. Sei a data do meu aniversário, mas não comemoro. Apenas conto mais um ano e acrescento a minha idade, na empresa comemoram. Só que sem mim, eu não participo, não tem o que comemorar nisso.

Hoje, aos trinta e oito anos, sou o homem que todos temem e admiram à distância. Dono das maiores marcas americanas, CEO de um império construído com inteligência, frieza e uma ambição que não conhece limites. Meu nome abre portas, cala reuniões e faz homens poderosos engolirem seco.

Poder é previsível. Pessoas, não.

Minha vida é regada a luxo. Mansões espalhadas pelo mundo. Garagens cheias de carros que poucos podem comprar. Vinhos raros, obras de arte, silêncio absoluto. E ainda assim, solidão. Uma solidão escolhida. Controlada. Segura.

Não me queixo. A solidão nunca me traiu.

- Senhor Sterling, deseja revisar os relatórios antes da reunião de amanhã?

- Não. Já sei exatamente o que vai estar ali - respondo, sem tirar os olhos do tablet.

- Como preferir, senhor.

Eles sempre dizem isso. Como preferir, senhor. Porque ninguém ousa contrariar Charles Sterling. Ninguém ousa ficar perto demais. E é exatamente assim que deve ser.

Sobre amor, bom, eu tentei. Uma única vez.

Era jovem. Estava na faculdade. Ainda acreditava, mesmo que secretamente, que poderia existir algo além de números, metas e poder. O nome dela era Raven. E sim, o nome combinava perfeitamente com ela.

Linda. Elegante. Fria na medida certa para parecer inalcançável. Raven tinha aquele tipo de beleza que fazia qualquer ambiente se curvar à sua presença. Cabelos escuros, postura impecável, um sorriso que nunca chegava aos olhos.

Eu me apaixonei como um idiota.

Lembro de esperar horas por ela em cafés caros demais para estudantes. Lembro de mudar minha agenda inteira só para coincidir com a dela. Lembro de oferecer tudo o que eu tinha, atenção, tempo, devoção. Coisas que hoje considero imperdoáveis.

Ela me esnobou como se eu fosse lixo descartável.

- Você acha mesmo que eu perderia meu tempo com alguém como você, Charles? - disse ela, certa noite, ajustando o casaco caro que eu não podia pagar.

- Alguém como eu? - perguntei, ainda tentando entender.

Ela riu. Não um riso bonito. Um riso cruel.

- Ambicioso demais, intenso demais, e ainda assim, insuficiente. Você não é o tipo de homem que eu apresentaria em um jantar importante.

Ali, algo morreu dentro de mim.

A humilhação não foi pública, mas foi profunda. E definitiva. Aquela foi a única vez que me rastejei por uma mulher. A última vez que permiti que alguém tivesse poder emocional sobre mim.

Depois de Raven, eu mudei.

Não foi imediato. Foi gradual. Como uma armadura sendo forjada peça por peça. Passei a usar mulheres como elas sempre me viram: objetos de prazer. Nada além disso. Sem promessas. Sem envolvimento. Sem nomes que precisassem ser lembrados pela manhã.

- Você não fica? - perguntavam algumas, ainda nuas, ainda esperançosas.

- Não - eu respondia, enquanto fechava os botões da camisa.

Simples assim.

Nunca menti. Nunca prometi. Nunca dei espaço para confusão. Eu dou prazer. Elas dão silêncio. Um acordo justo.

Hoje, vivo em um pedestal inalcançável. Não por arrogância, embora muitos confundam, mas por necessidade. Lá de cima, enxergo tudo com clareza. Emoções borram a visão. Apego enfraquece decisões.

Minha mansão é meu refúgio. Um lugar onde regras são seguidas, onde o controle é absoluto. Funcionários eficientes. Rotina impecável. Nada sai do eixo sem minha permissão.

Ainda assim, ultimamente, algo tem me incomodado.

Não sei quando começou. Talvez tenha sido sutil demais para perceber de imediato. Os jantares. O aroma. O gosto. Há anos como a mesma coisa sem prestar atenção. Alimentar-se sempre foi apenas uma necessidade fisiológica.

Até não ser mais.

Os pratos mudaram. A textura. A intensidade. Havia algo provocante. Algo que despertava sentidos que eu acreditava completamente adormecidos. Fome, não apenas no estômago.

Curiosidade.

- Quem está cozinhando agora? - perguntei certo dia, interrompendo o jantar.

O mordomo hesitou. Isso me irritou.

- Responda.

- A nova chefe de cozinha, senhor. Ela assumiu recentemente.

- Nome.

- Ivy Parker, filha da Sra. Ella.

O nome não me disse nada. Mas o desconforto permaneceu.

Não gosto de surpresas. Não gosto de coisas fora do meu controle. E definitivamente não gosto da ideia de alguém mexendo comigo sem sequer se apresentar.

- Quero conhecê-la.

- O senhor deseja, agora?

- Eu não costumo repetir ordens.

Silêncio. Passos apressados. A casa inteira parecia conter a respiração. Seja quem for essa mulher, ela está prestes a entrar no meu território.

E ninguém entra no mundo de Charles Sterling sem pagar um preço.

Não acredito em amor. Não acredito em redenção. Não acredito em finais felizes.

Mas acredito em desejo. Em domínio. Em jogos perigosos.

E, pela primeira vez em muitos anos, sinto que algo está prestes a sair do controle.

E eu odeio perder o controle.

Capítulo 2 Ivy

Ivy Narrando

Meu nome é Ivy Parker, tenho vinte e seis anos e sou formada em gastronomia.

Mas antes de qualquer diploma, título ou reconhecimento, eu sou uma sobrevivente.

Trabalho desde os quinze anos de idade. Não porque quis ser precoce, mas porque precisei. Sempre soube que, se quisesse ser alguém na vida, ninguém faria isso por mim. A realidade nunca foi gentil, então aprendi cedo a ser mais dura do que ela.

A culinária entrou na minha vida antes mesmo de eu entender o que era futuro. Com doze anos, eu já cozinhava em casa. Não por hobby, não por diversão, por necessidade. Minha mãe trabalhava fora o dia inteiro e eu ficava responsável pela casa, pela comida e pela minha irmã mais nova, Irina.

Lembro perfeitamente do cheiro de alho refogando enquanto eu fazia o dever de casa na mesa da cozinha. Da panela de feijão borbulhando enquanto eu ajudava Irina com as tarefas da escola. Eu era criança, mas nunca tive o luxo de agir como uma.

Minha mãe sempre fez o possível. Sempre. Trabalhou duro a vida inteira, nunca reclamou, nunca se fez de vítima. Talvez por isso eu tenha aprendido a não esperar nada de ninguém.

Irina e eu somos completamente diferentes.

Ela sempre gostou de coisas caras, mesmo sem saber o valor real delas. Sempre sonhou com uma vida de luxo, mas nunca quis lutar por isso. Enquanto eu trabalhava, estudava e chegava em casa exausta, Irina se preocupava com roupas de marca, festas e aparências.

Hoje, ela é casada com um CEO.

Um homem que não a ama.

Um homem que só está com ela pela beleza e pela imagem de bom feitor que ela ajuda a sustentar. E o pior? Ela permite que ele minta por aí dizendo que sustenta nossa família.

- Ivy, deixa pra lá - ela já me disse uma vez. - Isso não muda nada na sua vida.

Muda sim.

- Porque eu me sustento. Minha mãe trabalha até hoje. E ninguém nunca nos deu nada de graça.

Eu e Irina já brigamos muito por causa disso. Discussões feias. Palavras duras. Silêncios longos. Mas cada uma seguiu seu caminho, mesmo que eu não concorde com as escolhas dela.

Eu escolhi lutar.

Me formei em gastronomia com muito esforço. Trabalhando de dia, estudando à noite, dormindo pouco e sonhando muito. Cada prato que eu criava era uma forma de provar, primeiro pra mim mesma, que eu era capaz.

Quando terminei a faculdade, tomei a decisão mais difícil da minha vida: ir embora.

Me mudei para outra cidade, a cem quilômetros da minha cidade natal. Precisava de distância. De espaço. De um lugar onde eu não fosse apenas a filha da empregada, a irmã da bonita, a menina esforçada.

Queria ser só Ivy.

Minha mãe sempre vem me visitar nas folgas dela. Sempre com um sorriso cansado e os olhos cheios de orgulho. Eu nunca mais voltei pra lá. Não por mágoa. Mas porque minha mãe gosta de vir pra cá.

- Aqui você parece feliz, filha - ela disse, sentada à minha mesa.

E eu sou.

Eu amo recebê-la com a mesa farta. Cozinhar pra ela é minha forma de agradecer por tudo. Cada prato tem uma história. Cada tempero carrega amor.

Mas minha vida não foi feita só de conquistas.

Eu já fui noiva.

Trabalhei em um restaurante quatro estrelas Michelin. Era uma filial, mas o peso do nome era enorme. Foi lá que conheci meu ex-chefe. O gerente da unidade. Um homem carismático, seguro, admirado por todos.

Nos apaixonamos.

Ou pelo menos foi o que eu achei.

Nosso relacionamento avançou rápido demais. Namoro virou noivado. Noivado virou mudança. E, quando percebi, estava morando com um homem que eu já não reconhecia.

Ele mudou.

Ficou ciumento. Controlador. Agressivo.

- Você está demorando demais na cozinha - ele dizia.

- Eu trabalho na cozinha. - eu respondia, tentando manter a calma.

- Não preciso que fique se exibindo pra cliente nenhum.

No começo, eu tentei entender. Relevar. Ajustar. Depois, veio o medo. As discussões aumentaram. O tom de voz subiu. Os olhares ficaram duros.

Até que eu cansei.

Terminei o noivado.

E ele não aceitou.

Fui perseguida. Observada. Segui com medo por meses. Até que criei coragem e acionei a polícia. Quando ele percebeu que aquilo poderia ficar feio pro lado dele, recuou.

Eu pedi demissão.

Não porque estava errada. Mas porque precisava me proteger.

E, ironicamente, foi a melhor decisão que tomei.

Logo consegui trabalho em outro restaurante, tão renomado quanto o anterior. Recomecei do zero. Sem olhar pra trás. Sem carregar culpas que não eram minhas.

Hoje, sigo minha vida plena e feliz.

Sou realizada fazendo o que escolhi. Tenho meu apartamento. Financiado, sim. Mas meu. Tenho meu carro. Financiado também. Mas conquistado com o meu suor.

Tudo o que eu tenho foi construído por mim.

E isso importa.

Muito.

Eu não devo nada a ninguém. Não preciso me apoiar em homem nenhum pra existir. Não preciso de luxo emprestado, nem de sobrenome famoso pra validar quem eu sou.

O telefone tocou no meio da tarde, bem na hora em que eu finalizava um prato que exigia atenção absoluta. O nome da minha mãe piscou na tela e, antes mesmo de atender, um aperto estranho se formou no meu peito.

- Mãe? Aconteceu alguma coisa?

- Fui ao médico hoje, filha - a voz dela saiu baixa, cansada. - Não é nada simples, eu tô doente e vou precisar fazer uns exames investigativos.

O mundo pareceu desacelerar. Encostei no balcão da cozinha, respirando fundo para não perder o controle.

- Doente como? Por que não me ligou antes?

- Eu não queria te preocupar.

Naquele instante, eu já sabia o que precisava fazer. No mesmo dia, chamei meu gerente para conversar. Expliquei tudo, sem rodeios: minha mãe estava doente e precisava de mim. Ele foi compreensivo, pediu detalhes, desejou melhoras e me concedeu afastamento imediato. Saí do restaurante com o coração apertado, mas com a certeza de que estava fazendo a coisa certa.

Arrumei uma mala às pressas e dirigi de volta para minha cidade natal. Cem quilômetros pareceram eternos. A cada pensamento, a raiva crescia dentro de mim.

Quando cheguei, descobri o que me tirou do sério de vez: minha mãe estava trabalhando. Na mansão de Charles Sterling. Doente.

Sem pensar duas vezes, entrei no carro e fui direto para lá.

Assim que estacionei, vi minha mãe saindo pela porta dos fundos. Magra, abatida, mas ainda tentando manter a postura. Ela me viu e abriu os braços antes mesmo que eu dissesse qualquer coisa. O abraço veio forte, apertado, desesperado.

- Você não devia estar aqui - eu disse, com a voz embargada. - A senhora vai se tratar. Acabou.

Ela me olhou com aquele sorriso teimoso que eu conhecia tão bem.

- Eu não posso deixar o sr. Charles sozinho, filha.

Foi aí que eu entendi: aquela batalha estava só começando.

Capítulo 3 Ivy

Ivy Narrando

Quando o horário de trabalho da minha mãe finalmente terminou, eu a levei para casa. Dirigi devagar, observando cada rua conhecida, cada esquina que fazia parte da minha infância. Nada parecia ter mudado. E, ao mesmo tempo, tudo parecia menor do que na minha memória.

Assim que abri a porta, fui recebida pelo mesmo cheiro acolhedor de sempre. Uma mistura de chá de canela, sabão em pó e lembranças boas. A casa estava exatamente do jeito que eu lembrava. Simples, organizada, viva. Meu coração apertou no peito.

Meu quarto continuava intacto. A cama no mesmo lugar, a cômoda antiga encostada na parede, as cortinas claras que deixavam a luz entrar suave no fim da tarde. Era como se eu nunca tivesse ido embora. Coloquei minha mala em um canto, perto da cama, e respirei fundo. Aquela casa ainda era meu porto seguro.

- A senhora tem visto a Irina? - perguntei, enquanto deixava a bolsa sobre a cadeira.

Minha mãe sorriu daquele jeito resignado que só ela sabia fazer.

- Pelas capas de revista.

Balancei a cabeça negativamente, sem surpresa alguma. Irina sempre preferiu aparecer para o mundo do que estar presente de verdade.

- Vai tomar um banho quente - pedi, tentando manter o tom firme. - Eu preparo o jantar.

- Faz um caldo pra mim? - ela pediu, com a voz mansa. - Tô com vontade.

Sorri automaticamente.

- Claro que faço.

Fui direto para a cozinha. Cortei os legumes com calma, temperei o frango do jeito que ela gostava, deixando o aroma se espalhar pela casa. Enquanto o caldo cozinhava lentamente, fui tomar um banho rápido. Precisava lavar o corpo e também a cabeça.

Quando voltei, minha mãe já tinha arrumado a mesa. Dois pratos simples, talheres alinhados, um cuidado que me fez engolir em seco. Sentamos juntas e jantamos conversando sobre coisas leves. Nada de doenças, médicos ou preocupações. Falamos do tempo, de receitas antigas, de lembranças soltas que arrancaram risadas sinceras.

Depois, tirei a mesa, coloquei toda a louça na máquina e voltei para a sala. Peguei a mão da minha mãe e a conduzi até o sofá. Sentei ao lado dela, segurando seus dedos com força.

- Mãe, a senhora precisa parar - falei, olhando diretamente para ela. - Precisa se cuidar, fazer os exames, começar o tratamento. Não tem necessidade nenhuma da senhora continuar trabalhando. Eu já falei isso tantas vezes.

Ela suspirou, mas me deixou continuar.

- A senhora tem dinheiro guardado, tá pertinho de se aposentar. E, se precisar de qualquer coisa, tem a mim. Pode alugar essa casa, vender, vir morar comigo. Por favor, se cuida.

Ela me encarou em silêncio por alguns segundos, depois sorriu com ternura.

- O senhor Charles não pode ficar sozinho.

Revirei os olhos imediatamente.

- Mãe, a senhora não pode trabalhar doente - respondi, já irritada. - Aquele homem tem um exército de pessoas babando pra servir a ele.

Ela deu uma risadinha curta.

- Ele não gosta de bajuladores.

Naquele momento, minha mente gritou com todas as forças: detesto Charles Sterling. E eu nem o conhecia ainda.

Respirei fundo, tentando pensar com lógica, não com raiva. Então, a ideia surgiu quase como um desafio pessoal.

- Então é o seguinte - falei, me endireitando no sofá. - Eu fico no seu lugar por enquanto. Enquanto a senhora vai ao médico, faz os exames, começa o tratamento, eu assumo. Vou cozinhar pro senhor mimado que não pode ficar sozinho.

Ela me olhou surpresa, depois abriu um sorriso aliviado.

- Sendo assim, eu aceito.

Assenti, mesmo sentindo um frio estranho no estômago. Aquilo não era apenas ajudar minha mãe. Era entrar em um mundo que eu não conhecia, lidar com um homem que eu já odiava sem motivo pessoal.

Mais tarde, fui me deitar. Apaguei a luz, encarando o teto conhecido do meu quarto de infância. Amanhã, eu começarei meu mais novo desafio. E, por alguma razão que eu ainda não entendia, tinha a sensação de que nada seria simples a partir dali.

Acordei cedo, antes mesmo do despertador tocar. A casa ainda estava silenciosa quando fui para a cozinha preparar o café da manhã da minha mãe. Fiz tudo com calma, do jeito que ela gostava: café passado na hora, pão aquecido, um pouco de manteiga e frutas cortadas. Tomei o meu café com ela, conversamos pouco, mais com olhares do que com palavras. Antes de sair, deixei tudo arrumado, a pia limpa, a mesa em ordem.

Saí ainda estava escuro. O céu começava a clarear quando estacionei em frente à mansão. Parecia maior do que ontem. Imponente, fria, silenciosa. Respirei fundo e entrei direto pela porta de serviço. Fui para a cozinha sem perder tempo. Demorei um pouco para encontrar tudo, afinal não conhecia aquele espaço enorme, mas nada que me tirasse o foco. Preparei um café da manhã prático, organizado e funcional, exatamente como minha mãe me explicou.

Enquanto organizava a bancada, ouvi passos e me virei. O mordomo havia chegado. Ele parou no meio do caminho, claramente surpreso ao me ver.

- Posso ajudar? - perguntou, confuso.

- Sou Ivy Parker - me apresentei. - Filha da Ella Parker. Minha mãe precisa se tratar e eu vou assumir o lugar dela por um tempo.

O semblante dele suavizou imediatamente.

- Ah, então você é a Ivy - disse com um sorriso gentil. - Sua mãe fala muito de você. Tem um orgulho enorme.

Sorri, sentindo o peito aquecer.

- Quem arruma a mesa? Sou eu? - perguntei, já me organizando.

- Não - respondeu. - Seu trabalho é apenas na cozinha.

Assenti. Pouco depois, duas mulheres entraram e começaram a recolher tudo o que eu havia preparado, levando para a sala de refeições principal. Aproveitei para deixar a mesa da cozinha organizada também, com pães, frutas, café e tudo o que havia feito, para que os empregados pudessem comer.

Os elogios vieram quase imediatamente. Comentários baixos, sorrisos discretos, agradecimentos sinceros. Aquilo me deixou estranhamente satisfeita.

- E o almoço? - perguntei ao mordomo mais tarde.

- Apenas para os funcionários. O senhor Sterling só volta à noite.

Preparei o almoço com a mesma dedicação. Nada simples demais, nada exagerado. Arroz soltinho, legumes salteados, carne bem temperada. Almocei com eles e, depois, fui para o quarto de descanso. Liguei para minha mãe.

- Já marquei os exames pra amanhã - ela disse.

Respirei aliviada.

No fim da tarde, voltei para a cozinha. Agora era diferente. O jantar não era para muitos. Era para um homem só. E, mesmo sem conhecê-lo, eu sabia que precisava ser impecável.

Comecei pela entrada: uma sopa cremosa de abóbora com gengibre, finalizada com um fio de azeite trufado e sementes crocantes por cima. Algo leve, mas marcante.

O prato principal foi pensado com cuidado. Preparei um medalhão de filé mignon ao ponto perfeito, acompanhado de um purê de batata com parmesão e alho assado. Para equilibrar, legumes grelhados, coloridos e bem temperados, trazendo frescor ao prato.

Para a sobremesa, escolhi algo clássico, porém refinado: uma panna cotta de baunilha com calda de frutas vermelhas. Doce na medida certa, suave, elegante.

Quando terminei, olhei para o relógio e senti um misto de ansiedade e satisfação. Eu havia feito tudo do meu jeito. E, gostando ou não, Charles Sterling vai provar.

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