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O Canto da Sereia e o Coração do Lycan

O Canto da Sereia e o Coração do Lycan

Autor:: Anya Curves
Gênero: Lobisomem
"Você quer quê eu faça o quê?" eu indago incrédula. Ele abre um sorriso de canto e seus olhos lupinos lançam sobre mim um olhar lascivo. "Se apaixone por mim e eu te liberto, peixinho" ele repete a condição como se fosse uma melodia suave. Nego com a cabeça sem acreditar que é esse o desejo que ele me fez. "É impossível. Nós sereias não nos apaixonamos por terras-firmes como você. É impossível." Respondo com nervosismo na voz. "Deseje outra coisa." Ele cruza os braços na frente do corpo e sua expressão sugere humor. "Se apaixone por mim ou então trabalhe para mim. Cante em meu bar todas as músicas já criadas por nós, como você nos chamou? Terra-firmes? E quando você cantar a última música criada, eu lhe entrego sua cauda de sereia de volta." Todos na costa sul conhecem o alfa Romeu, o lycan sedutor, poderoso e amaldiçoado. Um segredo vive nas sombras de seus olhos azulados. Todos... menos Vanessa. Ela é uma sereia de 118 anos, recém-fugitiva de um casamento arranjado com um tritão dominador. Trocar o oceano pelo mundo humano parecia liberdade, até que ela perdeu sua cauda. E Romeu a encontrou. Agora, Vanessa está presa. Não por correntes, mas por um acordo. Sem a cauda, sem poder, e cercada por alcateias famintas pelo que ela representa: uma criatura mágica, rara e cobiçada. Com Romeu ditando as regras do jogo, Vanessa terá que escolher: entregar o coração... ou a voz. Mas nenhuma sereia ama um predador. Certo?

Capítulo 1 Cap.1

Vanessa Pov

Precisa ser agora, enquanto todos estão dormindo. Não posso me casar com aquele sanguinário e selvagem tritão Maik, não importa o que a minha família fale. Minha liberdade e meu coração pertencem a mim.

Nado por entre as fendas de nossa casa, tentando emitir o mínimo de som possível com a minha cauda. Meus pais e minhas irmãs estão dormindo em seus devidos quartos e gostaria de poder me despedir deles, porém sei que iriam me aprisionar só para terem certeza de que a aliança entre os dois reinos será feita.

Assim que saio de casa, sinto um aperto em meu coração. Continuo nadando sem ter coragem de olhar para trás. O único lugar em que estarei a salvo desse casamento é na superfície, onde os terras-firmes vivem.

Se o que a minha bisavó contou for real, eu tenho como me tornar humana como eles e assim, nenhum tritão ou sereia poderá me localizar. Com isso em mente, eu continuo nadando, subindo e indo cada vez mais perto da costa, em direção ao que sempre me foi proibido.

Assim que chego na superfície, vejo a praia não muito longe. O sol está nascendo e a neblina está espessa. Olho para a costa e vejo estruturas que eles chamam de casa.

Não sei tanto sobre a cultura dos terras-firmes. Papai e mamãe dizem que são cruéis e sanguinários, sempre à procura de territórios e brigam por qualquer coisa. Não é tão diferente de nós aquáticos na minha visão. Já tivemos tantas guerras pelo domínio vasto do oceano, por recursos mágicos que a deusa da água nos dá.

Nado mais perto da praia, averiguando se não há terras-firmes por perto. Preciso me transformar e esconder a minha cauda em um local impossível de ser encontrada por eles. Se a minha cauda for descoberta, o terras-firmes que a encontrar irá me prender a ele e serei obrigada a realizar seus desejos. Não poderei voltar a ser sereia até que ele me devolva ou que eu a encontre. Em todas as histórias de sereias que escolheram se transformar em terras-firmes e tiveram suas caudas descobertas e escondidas, nunca voltaram para o oceano. Todas morreram escravas dos seus carcereiros.

Só de lembrar dessas histórias que minha bisavó contava, sinto minhas escamas ficarem eriçadas. Mesmo que isso aconteça, prefiro arriscar ser prisioneira de um terra-firme do que me casar por interesses políticos.

Encontro uma área cheia de rochedos que é difícil de ter acesso se não for pelo mar, noto uma gruta escondida por entre as rochas. O melhor local para esconder minha cauda. Nado até a gruta e começo o ritual que minha bisavó me ensinou escondido.

"Espero que funcione..." digo apreensiva.

Mentalizo o encantamento que me foi ensinado. Sinto então algo mudar ao meu redor.

A água ao meu redor começa a cintilar com um brilho etéreo, me deixando impressionada. Começo a sentir um formigamento na ponta da minha cauda, algo que nunca senti antes. Minhas escamas que sempre foram em tons de azuis agora estão escurecendo e começam a se desprenderem de mim uma a uma. Mas isso não é suave, é dolorido e cada vez que o mar entra na gruta, uma dor nova me atinge, me fazendo gritar de dor.

Onde uma vez houve uma linda cauda de sereia, nadadeiras ágeis e lindas, começa a surgir pernas nuas de terras-firmes, algo grotesco ao meu entendimento. Algo mais importante muda, além da minha cauda. O meu equilíbrio. Sempre me senti parte da água, flutuando, boiando, nadando com facilidade. Agora me sinto sendo puxada para baixo, sendo obrigada a me esforçar ainda mais para me manter para cima na superfície.

O mais assustador não é essa transformação esquisita e muito dolorosa. É o vazio que sinto. Minha conexão primal com o mar está vazia, eu não sinto o que sempre senti ao ser sereia e isso me causa medo.

De repente, emergindo da água, a minha cauda agora em um formato diferente, como uma pele. Um manto azulado, pulsante e brilhoso. Pego a minha cauda e sinto a vibração da água e também da minha conexão com o oceano. Minha cauda é hipnotizante, me sinto compelida a coloca-la e voltar a ser sereia.

Resisto a essa tentação e apenas dobro a cauda como se fosse uma alga salgada e a enfio por entre as rochas que há na gruta.

"Ei, você está bem?" uma voz surge atrás de mim, me assustando.

Giro meu corpo não tão rápido quanto eu gostaria e sinto meu coração acelerar. É um terra-firme. Um macho pelo o que lembro das histórias.

O macho está com os cabelos molhados e penteados para trás, seus olhos azuis são parecidos com os corais que temos em casa, vibrantes e lindos.

"Você está ferida? Precisa de ajuda?" o macho pergunta, nadando para mais perto de mim.

Por instinto nado para trás. Ele nota a minha reação e para no meio do nado.

"Não vou machuca-la, eu ouvi gritos e pensei que alguém tivesse se machucado," ele explica.

Então noto seu olhar descer do meu rosto para o meu corpo. Seu olhar de corais azuis ganham uma expressão diferente.

"Caralho, você está nua!" ele declara surpreso.

Olho para baixo e percebo que não ganhei apenas pernas, mas também uma nova anatomia. Meu corpo de sereia possuía escamas e guelras nas laterais do meu torso. Agora tenho essas duas coisas volumosas na frente.

"Estou perdida," digo finalmente.

O macho me olha surpreso e solta um som pela boca que não consigo entender, mas acho engraçado.

"Posso te ajudar a sair da gruta e conseguir algumas roupas para você," ele responde sério.

Concordo com a cabeça e permito que ele me guie para fora da gruta. Me controlo para não olhar para trás, para não mostrar a localização da minha cauda.

Nado atrás do macho com dificuldade, essas pernas são fracas e fico com falta de ar muito rápido e o gosto do oceano é ruim em minha boca. Ser uma terra-firme é horrível!

Assim que chegamos na praia, me deito na areia quase sem folego. O macho encara o meu corpo com uma expressão que já vi nos machos tritões. Esse meu novo corpo deve ser muito desejável e isso me apavora. Logo coloco minhas mãos na frente do meu corpo, tampando o que tem causado curiosidade nele.

O macho caminha mais na areia e quando volta para perto de mim, ele estende algo branco. Olho para aquilo confusa.

"Para você vestir! Está limpa," ele diz com cautela.

Ah, roupas. Ele havia me dito que me daria roupas. Pego a roupa que ele me ofereceu e tento vesti-la, mas há tantos buracos que fico um pouco perdida.

"Aqui, deixa eu te ajudar," o macho diz e pega a peça de roupa de volta. Ele passa a peça por minha cabeça e depois pelos meus braços. "Pronto, essa camisa é minha favorita, então não perca ela," ele diz e uma risada escapa dos seus lábios.

"Está bem, não vou."

Ele solta outra risada e percebo que acho o som interessante.

O macho possuiu o corpo interessante, seus ombros são largos e definidos. Percebo que ele usa roupa na parte de baixo do seu corpo, a parte de cima é interessante de olhar porque ele tem uma gravura em seu pescoço que desce até o seu ombro esquerdo. Agora que seus cabelos estão bagunçados, noto que são claros, dourados como raios de sol. Ele é um macho bonito.

Capítulo 2 Cap. 2

Vanessa Pov

O macho me encara e observo ele respirar fundo na minha direção. Ele arqueia a sobrancelha e cruza os braços na frente do corpo.

"O teu cheiro é diferente, tão diferente," o macho declara e me encara. "O que você é?" Ele questiona curioso e seus olhos se estreitam na minha direção.

Sinto o meu coração gelar com a pergunta. Nós sereias nos mantivemos longe da superfície por milhares de anos, ao ponto de que os terras-firmes não consigam mais reconhecer nossos cheiros.

Ele se aproxima de mim e eu fico parada no lugar, tensa e tentando encontrar uma resposta.

"Com certeza, você não é uma loba igual a mim," o macho declara pensativo e continua cheirando o ar, procurando identificar. "Feiticeira igual à minha ex-companheira, com certeza não é. Humana?"

"Isso!" respondo apressada. "Eu sou uma humana!"

Era esse o nome que eles davam para os terra-firmes, humanos. Lobisomens e feiticeiros também existiam, mas não sabia que estavam expostos assim.

Mais uma vez, ele me encara, desconfiado.

"E qual seria o nome da humana?" O macho pergunta com humor.

Jogo o peso do meu corpo de uma perna para outra, pensando se devo contar o meu verdadeiro nome para ele. O macho tem sido gentil comigo até agora, tem me ajudado. Minha família está do outro lado do continente, de baixo do oceano. Não há necessidade de mentir meu nome aqui, certo?

"Vanessa," digo com um sussurro, com medo de que meu nome chegue até a minha família e ela me encontre.

"Prazer, Vanessa. Sou Romeu Duskbane," ele declara e estende a mão para mim. Olho para o seu gesto sem entender o que significa aquilo.

Romeu deixa o braço cair ao lado do corpo e volta a rir na minha direção.

"Obrigada pela a ajuda, acho que agora eu posso ir..." digo por fim. Preciso ficar o mais longe possível da praia agora.

Não sei para onde devo ir ou o que fazer. Será que as coisas aqui são iguais no oceano?

Preciso encontrar um lugar para eu ficar, é isso.

Começo a andar para longe do macho que me ajudou. Entretanto, ele intercepta o meu caminho, me fazendo trombar com ele sem querer.

"Opa, desculpa," ele diz e solta uma risada. "Você disse que estava perdida, certo?"

"Disse?" indago confusa.

"Sim, na caverna," Romeu confirma, franzindo o cenho. "Você sabe para onde deve ir?"

Nego com a cabeça e Romeu abre um sorriso que me causa curiosidade.

"Então vem comigo, sei o lugar perfeito para você," ele declara animado.

Olho para ele com desconfiança. Por que ele está me ajudando tanto? Será que as histórias sobre os terras-firmes eram exageros da minha bisavó? Se bem que ele é lobisomem, minha bisa nunca me contou histórias ruins de lobisomens. Assim como nós sereias, feiticeiros e lobisomens viviam em perigo por causa dos humanos.

Se ele está disposto a me ajuda, achando que sou humana, significa que eles agora vivem em paz. De qualquer maneira, preciso de ajuda.

"Então?" Romeu indaga, me trazendo de volta para o presente e não para meus devaneios.

Concordou com a cabeça, não tenho outra alternativa.

Romeu me conduz pela praia vazia, o sol já ilumina no céu, mas a brisa ainda faz meu corpo estremecer de frio. Olho uma última vez para o oceano, para o meu antigo lar, meu coração se aperta com a decisão que tomei.

Não posso me casar com Maik, é melhor assim.

Meus pés descalços sente a aspereza do chão e isso me incomoda. A areia da praia é melhor.

"Você é de onde?" Romeu questiona curioso. Seu olhar pousa em mim de uma maneira que me faz me sentir exposta.

Tento pensar em uma resposta. Em uma mentira convincente.

"De longe," respondo e mordo meu lábio. Eu podia ter dado uma resposta mais elaborada. Que burrice.

Romeu sorri de canto, como se a minha resposta estivesse sido divertida.

"Imagino que longe o suficiente para tentar fugir de lá?" ele indaga.

Arregalo meus olhos com a sua dedução. Todos os lobisomens são astutos assim ou eu sou péssima em esconder as coisas?

"Eu não estou fugindo, é só que..." eu gaguejo minha resposta.

"Não se preocupe. Aqui na cidade Miravento, você pode recomeçar e fugir de qualquer coisa," Romeu responde com tranquilidade.

Olho ao redor, a cidade está despertando. Alguns terras-firmes saem de suas moradias e caminham pelas ruas e entram em coisas pequenas que se movem. Como era que a minha bisavó chamava mesmo?

"Desculpa, mas o que é isso aqui?" eu pergunto para Romeu.

Meu dedo aponta na direção de uma fêmea que se enfia dentro de algo que se move instantes depois. Romeu arqueia a sobrancelha e me encara confuso.

"Um carro?" ele responde incerto, como se estivesse na dúvida se eu estava mesmo apontando para aquilo.

"Ah sim, carro!" digo entusiasmada. Era esse o nome! "É um veículo, não é?"

"Sim..." Romeu responde devagar. "Não existem carros ou motos da onde você vem?"

Usamos animais, como golfinhos, raias ou tubarões para navegar mais longe. Minha família prefere usar correntezas magicas para viajar, mas não são todos do oceano que possuem poderes mágicos para isso.

"Não. A gente usa outro tipo de veículos," respondo de forma neutra.

"Agora entendo porque você quis fugir de casa," Romeu dispara e solta uma risada.

Fico com o corpo tenso ao ouvir suas palavras. Como ele pode saber tanto assim? Olho para ele chocada e tento encontrar uma maneira de descobrir o que ele quer comigo.

"Bem, chegamos..." Romeu declara e para de repente.

Olho para o local a minha frente e fico curiosa. Que lugar é esse? Inclino minha cabeça para o lado e tento decifrar os sinais vermelhos que estão em cima do local.

"É o meu bar, se chama Erethar igual minha alcateia." Romeu anuncia com orgulho.

Ele coloca a mão nas minhas costas e eu dou um pulo para frente, assustada.

"Perdão, não quis te assustar!" Romeu diz rapidamente e levanta as mãos. "Apenas queria te conduzir para dentro."

Antes que eu pudesse dizer algo, uma fêmea sai de dentro do bar. Ela está segurando dois sacos pretos pesados e quase esbarra comigo. Seus cabelos loiros curtos, estão bagunçados para todos os lados e ela é quase da minha altura. Tem mais carne do que eu no corpo, percebo que sou muito magricela e provavelmente não iria conseguir carregar esses sacos pretos que ela carrega com tanta facilidade.

"Opa, desculpa!" ela diz animada e quando vê a presença de Romeu para no lugar. "Ei, oi chefe!"

"Por que você está colocando o lixo para fora, Violet?" Romeu indaga sério e logo retira os sacos cheios da mão da fêmea. "Isso é função do ômega ou de qualquer homem dentro do bar. Cadê o Rael?"

Observo ele coloca os sacos em frente a uma grande lata onde há outros sacos pesados.

"Conversando com os fornecedores de bebidas e o ômega, nem sei." Violet responde e dá de ombros. Ela se vira para mim e inclina a cabeça para o lado. "E quem é você?"

"Essa é a Vanessa, ela está perdida e fugindo." Ele declara com humor e solta uma piscadela em minha direção. "Preciso que você cuide dela para mim por algumas horinhas," Romeu explica.

Olho impressionada para sua atitude e me sinto acanhada com os comandos diretos que ele dá para a fêmea. Violet não parece se importar e logo abre um sorriso amigável. Seus olhos castanhos claros são doceis e eu me sinto contente em olhar para eles.

"Oh, pobrezinha... vêm, vamos te arrumar algo melhor para vestir e comer alguma coisa," Violet declara com uma voz meiga e suave. Ela se aproxima de mim e passa o braço pelos meus ombros.

"Ela não gosta disso," Romeu diz no exato momento em que me encolho ao sentir o toque dela em mim.

Violet logo se afasta e eu olho para Romeu, ele me lança um sorriso e eu aceno agradecida.

"Tudo bem, desculpa. Vem, é por aqui," Violet diz com a voz mais dócil ainda e me conduz para dentro do bar.

"Você não vem?" questiono em direção ao Romeu.

Ele nega com a cabeça e abre um sorriso.

"Não, tenho outras coisas que preciso fazer. Mas venho te ver, prometo. Violet vai cuidar bem de você, pode confiar," ele responde.

Eu acredito em suas palavras e acabo entrando no bar Erethar com Violet.

Capítulo 3 Cap. 3

Vanessa Pov

É a primeira vez que vejo meu reflexo depois que me transformei em uma terras-firmes. Pisco surpresa com a minha aparência. Será que sou considerada bonita para os padrões dos terras-firmes? Tenho cabelos pretos com degrade para um azul-escuro, me fazendo recordar da minha cauda. Meus olhos são escuros e grandes. Gosto do tom da minha pele, não é clara igual à Violet, mas não sei nomear o tom.

"Violet, como é o tom da minha pele?" pergunto curiosamente enquanto me encaro no espelho que há atrás do que eles chamam de bar.

A moça me olha confusa e me analisa de cima para baixo.

"Você tem uma pele divina, parda, bronzeada que muitas mulheres pagam fortunas para conseguir." Violet responde com um sorriso no rosto. "Mas precisamos te ajeitar. Essa camisa do chefe é quase uma camisola em você."

Abro um sorriso com o seu elogio. Minha pele é divina, gosto dessa descrição. Gosto da Violet. Ela me leva para os fundos do bar, ouço uma voz masculina vindo de uma das portas fechadas e me sinto apreensiva. Até que chegamos dentro de um cômodo com sofás, roupas e espelhos.

"Aqui é o camarim, é pequeno, mas tem tudo o que você vai precisar," Violet comenta feliz.

Depois de vários minutos, Violet me ajeita do jeitinho que ela quer. Me olho novamente no espelho e o meu novo visual é bem agradável. Meus cabelos estão presos em um rabo de cavalo para baixo. Violet me colocou em calças e uma camisa mais do meu tamanho.

"Vem, vou preparar algo para você comer. O que você gosta?" Violet questiona enquanto voltamos para frente.

"Qualquer coisa," respondo com um murmúrio.

Não faço a mínima ideia do que essa gente come aqui na terra.

"Quem é essa?" Uma voz masculina pergunta atrás de mim.

Giro o meu corpo assustado e me deparo com um homem de pele escura, alto, musculoso igual a Romeu. Seu olhar é de desconfiança e ameaçador.

"Vanessa. Romeu trouxe para cá e pediu para que eu cuidasse dela." Violet responde de forma seca. "Vai para lá, você está assustando a coitada, Rael!"

Rael abre um sorriso e suaviza mais o rosto na minha direção. Ele estende a mão, igual a Romeu fez horas atrás comigo na praia.

"Ela não gosta de toque," Violet explica e eu abro um sorriso constrangido. "Não precisa ter medo do Rael não, querida. Ele parece um urso pardo feroz, mas é mais um ursinho de pelúcia com dreads," Violet declara com uma risada.

"Não é assim que você deve falar de mim, sou o beta dessa alcateia!" Rael responde contrariado e se senta perto de mim.

"Eu nem sequer sou uma loba, essa posição não tem peso nenhum para mim," Violet retruca.

Observo ela pegar várias coisas e eu tenho vontade de perguntar o que são cada uma delas, porém, me mantenho em silencio. Percebi que todas as perguntas que já fiz, soam esquisitas para eles.

"Você sabe falar, menina?" Rael pergunta com a voz grossa e vibrante.

"S-sim..." gaguejo a resposta, assustada.

"Você tem um cheiro diferente... o que você é?" Rael questiona curioso e desconfiado.

Violet lança um olhar severo para Rael.

"Deixa a menina quieta!" Violet adverte Rael. Ela coloca um prato na minha frente com todas as coisas que eu a vi pegando. "Aqui está, querida, bom apetite."

Olho a comida e ela parece apetitosa, é quando meu estomago faz um barulho esquisito e me vejo dando uma mordida sem me importar com o que é.

***

Passo o dia inteiro dentro do bar, como se fosse parte da mobília, imóvel, apenas observando. Me encaixo em uma cadeira no canto, meio escondida pela penumbra e pelas garrafas alinhadas na prateleira atrás do balcão. Meus olhos seguem cada movimento de Violet e Rael, que parecem viver dentro de uma dança improvisada, ritmada pelos afazeres do bar. Eles arrumam coisas, organizam objetos que não entendo, limpam superfícies com uma energia constante. Eles falam entre si com uma familiaridade que me soa quase mágica. Há risos, provocações e olhares de cumplicidade que trocam como se fossem palavras secretas.

Às vezes, fazem perguntas que me atingem como farpas, pequenas e afiadas. Perguntas sobre coisas simples para eles, mas que, para mim, são secretas. E eu, em troca, lanço minhas próprias dúvidas, carregadas de inocência e estranhamento. Perguntas que os fazem franzir o cenho, coçar a cabeça e olhar um para o outro como se tentassem entender como é possível alguém não saber o que é um "tomada", ou "wi-fi".

Mas, estranhamente, esse ciclo de confusão mútua me conforta. Aprendo muito. Essas descobertas distraem minha mente dos meus próprios monstros internos. E por algumas horas, só algumas, consigo esquecer do peso no meu peito.

Do nada, sinto um puxão em meu centro, uma fisgada invisível e profunda. Não é uma dor qualquer - é um rasgo, um afastamento, como se uma parte de mim estivesse sendo sugada por mãos invisíveis e frias. Como se estivessem escavando dentro de mim, mexendo onde não deveriam. A sensação é tão visceral que chego a apoiar a mão sobre o peito, tentando, em vão, segurar o que quer que esteja sendo levado. Meus dedos apertam o tecido da roupa, como se isso fosse suficiente para segurar minha essência no lugar.

É quase igual à dor que senti quando me separei da minha cauda. Não... pior. Porque agora, eu nem sei exatamente o que está sendo separado de mim.

Enquanto isso, Violet e Rael continuam, alheios ao meu incomodo interno. Eles se provocam quase o tempo inteiro, com frases rápidas e olhares intensos. Um joga uma toalha no outro, ela revira os olhos, ele responde com uma careta debochada. Existe uma leveza na forma como eles se tratam que me intriga.

Para alguém como eu, que cresceu ouvindo que criaturas da superfície são caçadores e destruidores, ver um lobisomem e uma humana se cutucando com sorrisos é quase surreal.

Talvez os tempos tenham mudado. Talvez os monstros tenham virado lendas.

Outros integrantes da alcateia de Romeu entram e saem do bar ao longo do dia. Alguns me olham curiosos, com sobrancelhas arqueadas e narizes farejando o ar como se tentassem identificar meu cheiro, minha origem. Mas Violet e Rael logo tratam de espantá-los com palavras firmes ou olhares cortantes.

"Quando o Romeu volta?" pergunto baixinho.

Rael olha para o relógio e dá de ombros.

"Talvez mais tarde. Não se preocupe. Aqui me ajude com isso..." Rael responde e me chama com a mão para perto do palco.

Eu obedeço, meio hesitante. Ele me entrega alguns fios e observo ele ir desenrolando cada um e colocando perto das caixas de som.

"Você vai cantar hoje, Violet?" Rael pergunta e eu olho para Violet.

A jovem moça nega com a cabeça enquanto coloca os guardanapos nas mesas.

"Não, hoje eu fico na escala das mesas."

Rael então se vira para mim com aquele brilho brincalhão nos olhos.

"E você, Vanessa? Sabe cantar?"

A pergunta me pega desprevenida. Nós sereias somos conhecidas por eles como criaturas traiçoeiras que atraiam marinheiros para o fundo do mar com o nosso canto. Bem, não é uma mentira, mas isso é algo que outro reino fazia, não o meu.

"Acho que sim..." respondo acanhada.

"Cante para nós alguma coisa!" Violet se anima, e seus olhos brilham como estrelas recém-acesas.

Antes que eu possa recusar, Rael já me estende um microfone, como se ele tivesse certeza de que eu aceitaria. Me sinto acanhada e insegura. Será que meu canto de sereia terá algum efeito fora do mar?

Seguro o microfone com as duas mãos e começo a apenas cantarolar algumas notas, sem dizer qualquer palavra. Uma melodia que surge sozinha, antiga, que parece brotar do meu ventre e escorrer pela minha garganta como água morna. Minha voz fica mais suave e meu corpo mesmo começa a relaxar. Fecho meus olhos e o que invade a minha mente é as ondas se quebrando na costa, o cheiro de maresia e a lembrança da minha família. Me perco na melodia e nas memórias do oceano.

"Uau, é verdade então..." Romeu declara de repente.

Eu abro meus olhos surpresa com a interrupção. Romeu está diferente agora, assim como eu, ele mudou de roupa. Veste uma camisa azul clara de botões, uma calça escura e seus cabelos estão penteados para trás. Seu olhar está fixado em mim e seus lábios carnudos estão curvados em um meio sorriso.

"O que, alfa?" Rael indaga confuso.

Romeu aponta para mim e um sorriso malicioso surge em seus lábios.

"Ela é um peixinho muito especial, não é mesmo, Vanessa?" Romeu declara e meu corpo gela no lugar.

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