Samuel é um homem de sucesso no auge dos seus 40 anos, um belo empresário que, por onde passa, não deixa de ser notado. Como diz aquele ditado, há pessoas que tudo que tocam vira ouro, e com ele não é diferente. Seus projetos sempre foram muito bem recebidos no mercado. Com uma rede de roupas de grife, ele leva seus desenhos e projetos já prontos para os melhores estilistas do país.
Ele é casado com a única mulher que foi capaz de despertar o amor naquele homem. Apesar de se envolver com muitas mulheres, nenhuma delas foi capaz de ir além da cama com ele.
Cecília e Samuel se conheceram na faculdade, ficaram algumas vezes, se formaram e cada um seguiu seu caminho. Acontece que Samuel nunca esqueceu o beijo dela. Procurou notícias por amigos em comum, mas nunca soube do seu paradeiro. Até que, numa bela tarde, reencontra-a em uma das suas lojas, provando alguns vestidos. Desde então, aqueles olhos verdes se cruzaram com os dela, e estão juntos há 5 anos. Ela tem uma linda menina, fruto do primeiro relacionamento de Cecília.
Seu antigo namorado a abandonou ao descobrir da gravidez, mas Samuel não se importou. Ele cuida da pequena menina como se fosse sua e proibiu qualquer pessoa que conviva próximo a eles de comentar que ela não é sua filha biológica.
Cecília descobriu sua segunda gravidez quando a pequena Samantha completou 5 anos. Agora, no começo do ano, está prestes a dar à luz seu sonhado menino.
Sua amada esposa está no quarto terminando de se arrumar. Hoje eles iam jantar para comemorar o sonhado nascimento do seu filho homem. Ele sempre quis ter filhos e, por ser seu primeiro filho, ele quer que seja um menino. Mas sabemos que não é a nossa vontade, e sim a vontade de Deus.
O jantar foi tranquilo até que Cecília sente um pequeno desconforto.
- Amor, não se desespere, mas... - ela fala, apertando as suas mãos.
- Meu Deus! Meu filho vai nascer! - ele fala com certo desespero. Num movimento rápido, ele se coloca de pé, pega sua esposa no colo, chamando a atenção de todos ao redor. - Calma, amor, estou aqui com você - diz, apertando-a contra seu peito. Logo, coloca-a no carro e acelera.
- Eu sei, por favor, dirija devagar. Não queremos que nosso menino nasça no meio do trânsito, não é? - fala, contraindo-se no banco, tentando controlar sua respiração.
Samuel passa a mão na barriga, sentindo como está dura. Apesar de ter acompanhado cada passo da primeira gravidez de Cecília, ele está nervoso e, ao mesmo tempo, numa felicidade que não cabe em seu peito, por seu menino que está para nascer.
O que eles não sabem é que a ultrassonografia deu erro, e naquela clínica, após horas tentando um parto normal, tiveram que correr para fazer uma cesárea. A gravidez sempre foi muito tranquila, Cecília sempre cuidou de sua alimentação, fez exercícios físicos e tomou todas as vitaminas que a médica passou. Mas mesmo assim, o parto foi complicado, e para não afetar a saúde dela, tiveram que retirar seu útero logo após o nascimento.
Apesar de todo o susto, Cecília estava bem. O médico faz todos os procedimentos com agilidade.
- Parabéns, mamãe. Sua filha nasceu muito saudável - diz o médico que estava de plantão, entregando a pequena para Cecília.
- Filha? - ela fala com dificuldades. O médico coloca a pequena em seu peito. - Eu não estava esperando um menino? - questiona Cecília, entre lágrimas.
Nesse instante, a médica que acompanhou a gestação de Cecília entra.
- Como pode isso doutora? - Fala Samuel um pouco distante, não conseguindo disfarçar o desapontamento em ser uma menina.
- Sinto muito, esses erros são raros de acontecer, mas acontecem...
- Claro, com médicos incompetentes deve acontecer muito! - ele diz com sarcasmo.
Sua voz estava em um tom mais elevado. O médico interrompe a explicação de sua companheira de profissão, percebendo o nervosismo dela. Retirando-o do quarto, a enfermeira pega a bebê e vai fazer os primeiros exames e dar o primeiro banho.
Algum tempo depois, Cecília já estava sem os efeitos da anestesia. Conseguiu se sentar com dificuldades. Samuel entra em silêncio, sem conseguir encarar os olhos da mulher que ama. Logo entra a enfermeira, trazendo a pequena e entregando-a para Cecília.
- Meu amor, como você é linda. Sua irmãzinha vai adorar te conhecer! - diz Cecília emocionada.
- Como será o nome dessa princesa? - pergunta a enfermeira.
Os olhos de Cecília se encontram com os de Samuel, que desvia no mesmo instante.
- Olívia, ela vai se chamar Olívia - diz Cecília, depositando um leve beijo em sua testa.
Ao perceber que ele demonstrou tanto descontentamento por ser uma menina, ela aperta com delicadeza a pequena nos seus braços.
- Saiba que você não é obrigado a ficar aqui! Pode ir embora, tem pessoas suficientes para me ajudar! - ela fala, visivelmente decepcionada com Samuel.
- Desculpa. - Diz ele, olhando para o chão, virando a fechadura da porta e saindo.
Cecília, naquele momento, chora, sentindo que todos esses anos não significaram nada para ele.
Samuel sai da clínica bravo consigo mesmo, socando o volante. Ele volta para casa, entra no quarto que prepararam por tantos meses pensando em seu filho Davi, que agora ele não sabe como amar essa doce menina.
A noite foi longa para ele; sua cabeça parecia que não desligava os pensamentos, sem dormir e frustrado com a reação que teve. Pegando o celular, com uma decisão tomada, ele fez algumas ligações.
A noite caiu novamente. Cecília receberia alta amanhã. Samuel tomou um banho, fez sua higiene pessoal e saiu para a clínica. Ele veio ficar com ela, ajudou-a no banho, a vestir sua roupa, penteou seu cabelo, deixando-o como ela sempre gostou. Fez tudo em silêncio. Quando sua esposa dormiu, Samuel chegou perto do berço onde estava Olívia e, com os dedos trêmulos, acariciou seu pequeno rosto.
- Oi, pequena. Desculpa te decepcionar, mas eu sou seu pai. - Falou baixinho, sentindo algo estranho no peito ao olhar nos grandes olhos verdes, assim como os dele.
A pequena ameaçou chorar, ele a pegou no colo, todo sem jeito, com medo de machucar, colocou-a em seu peito e começou a cantar baixinho para ninguém escutar. Poucos minutos encolhida em seus braços, ela dormiu tranquilamente, como se soubesse exatamente o que estava acontecendo com aquele coração.
- Durma bem, filha. - Ele falou, dando um pequeno beijo nela e a colocando no berço novamente. Deu uma última olhada para sua amada esposa, beijou seus lábios quase sem tocá-los e saiu do quarto.
Na manhã seguinte, Cecília recebeu alta. Esses dois dias ela não trocou sequer uma única palavra com ele, sem conseguir disfarçar o quanto sua reação a machucou. Nem sabe ela o quanto ele estava arrependido. Quando ela caía no sono, ele pegava a pequena e demonstrava todo aquele sentimento que surgiu em seu peito, pelas lágrimas derramadas.
Todo o caminho foi um silêncio insuportável. Samuel queria pedir perdão, mas ele conhece a mulher que tem; esse não era o momento deles conversarem.
Chegando na grande casa, eles entram. Samuel acompanha em passos curtos, andando lado a lado com ela. Cecília entra no quarto que era para ser do seu filho Davi e se emociona com o que vê.
- Meu Deus! Que lindo, amor... - Ela fala entre as lágrimas, emocionada por estar além do que ela pensou que poderia deixar.
- Me perdoa, sei que não sou merecedor do seu perdão. Lhe fiz se sentir mal no momento em que mais precisava de tranquilidade e apoio. - Ele encara os seus olhos, pegando Olívia nos seus braços. - Eu errei e me arrependi amargamente no momento em que fechei aquela porta, mas sabia que não poderia voltar atrás, não após ter te deixado sozinha. Se quiser me xingar, gritar, quebrar a minha cara como muitas vezes disse que faria se eu lhe machucasse, estou aqui e recebo cada tapa, pois sei que mereço.
Samuel se ajoelha, sentindo medo de perder a mulher que ama. Cecília, mesmo com a dor que estava sentindo da operação, tenta abaixar, mas não consegue, soltando um pequeno gemido de dor. Ele levanta no mesmo instante, coloca a pequena no seu lindo berço e pega com maior cuidado a sua esposa no colo.
- Te amo. Você me deu o melhor presente de todo o mundo. Não tem ideia do quanto serei grato a você por ele! Eu prometo, amor, que vou proteger nossas filhas de todo o perigo e, se um dia precisar dar minha vida a elas, assim farei.
Cecília encosta a cabeça no seu peito. Ela queria gritar tudo que ensaiou quando viu ele sair, mas se calou. Respirando aliviada, sorriu, pois aquele homem que a conquistou por sua bondade e honestidade estavam diante dos seus olhos, arrependido como nunca havia visto.
Daquele dia em diante, não havia mais tristezas no olhar de Cecília. Sua vida parecia ser um conto de fadas. A cada semana que passava, a felicidade reinava na casa daquele casal.
Samuel era completamente apaixonado pela família. Com a fortuna garantida, ele afastou-se dos negócios e dedicou-se a ver o crescimento de sua amada filha. Cada aprendizado das meninas era motivo de comemoração, principalmente da caçula. Os primeiros passos de Olívia foram uma festa entre eles. A primeira palavra balbuciada fez aquele homem com a postura toda poderosa desmoronar. Sua primeira palavra foi "papai". A primeira foto em cima do cavalo, a linha na agulha que a pequena tentou colocar, pois ela via seu pai criando vestidos feitos por suas mãos e começou a se interessar.
Dia após dia, Olívia ocupava um espaço na vida dele que ninguém mais poderia ocupar.
Hoje era o aniversário de 7 anos da pequena Olívia, e não poderia faltar uma grande festa para comemorar.
Seu vestido da Bella foi feito pelas mãos de Samuel. Noites sem dormir, criando cada detalhe como ela pediu. Naquele dia, ele era a Fera mais linda aos olhos de Olívia.
A festa, como todas as outras, foi um sucesso. Presentes e mais presentes da alta sociedade, mas para a pequena de olhos verdes, não importava todo aquele dinheiro ou o brilho que ali estava. A única coisa mais bela eram os sorrisos tirados de seu pai.
A ligação entre os dois era absolutamente assustadora aos olhos de Cecília. Samuel nunca fez diferença entre Samantha e Olívia. Ele amava suas meninas igualmente. Tudo era feito como elas queriam, mas Olívia era seu espelho. Determinada, uma menina forte, tão pequena e já fazia planos com seu pai. A pequena sempre disse que Samuel era o amor de sua vida e não queria viver num mundo em que ele não existisse.
Já era tarde, a pequena, com o seu novo corte de cabelo chanel, deita nos braços do seu pai.
- Hoje foi tão lindo, papai. - Olívia fala encarando os olhos do seu pai. - Mais lindo foi ter o senhor comigo. Papai, você me ama?
- Está vendo o tamanho do céu? - Pergunta Samuel, olhando para a noite estrelada.
- Sim... - Responde, seguindo os olhos do seu pai.
- Consegue imaginar o tamanho dele?
- Não, papai, é muito grande...
- Então, minha filha, esse é o tamanho do meu amor por você. Não consegue ver o seu tamanho, mas sabemos que ele é imenso.
- Você viu os meus presentes? Ganhei um montão. - Fala a pequena com um sorriso, na inocência de crianças que ainda não têm noção daquelas palavras. - Papai, no meu aniversário de 15 anos, qual será o meu presente?
- 15 anos, minha filha? Ainda tem muito tempo para esse dia chegar. - Responde, dando um beijinho no nariz da sua amada filha.
- É nada, o senhor mesmo disse que o tempo passa muito rápido, e logo vai estar fazendo meu vestido de noiva.
- Vestido de noiva? - Samuel diz sorrindo, cruzando os braços.
- Vamos dormir, papai? Está frio aqui, e não quero te ver doente. - Olívia diz se encolhendo nos braços do seu pai, mudando de assunto, normal para uma criança de 7 anos.
- Vamos, princesa. - Responde ele, pegando-a no colo.
Samuel a leva, como todas as noites, para o quarto, conta uma história para dormir. Hoje foi a vez da Branca de Neve. Com o decorrer da história, Olívia dorme sorrindo, ao imaginar ela na casa dos 7 anões e Samuel vestido de príncipe para lhe salvar.
- Te amo, meu eterno amor!
Samuel sai e vai para o quarto de Samantha, olhando sua linda menina dormir. Ele senta ao lado da cama e beija o topo de sua cabeça.
- Oi! Pai, já vai dormir? - Fala ela, abrindo os olhos ao sentir o carinho de seu pai.
- Oi! Meu amor, não queria te acordar, só vim trazer o seu presente.
- O que é? - Ela fala, sentando-se, empolgada por ver o tamanho da caixa.
- Acredito que vai gostar, se não gostar, podemos comprar outro.
Ela abre apressadamente e vê o que ela mais queria: um patinete motorizado.
- Ah! Eu adorei, obrigada pai, eu te amo muito. - Diz Samantha, pulando nos seus braços e dando um longo abraço. - Obrigada!
- Que bom que gostou, só tome cuidado, pois não saberia viver com o peso de algo lhe acontecer. Agora volte a dormir, amanhã temos o dia inteiro para aproveitar um ao outro.
- Te amo pai, boa noite! - Ela sorri, recebendo um leve beijo na testa. Ele se levanta e vai ao encontro de sua amada.
Os anos foram passando, Samuel abriu mais algumas lojas em vários países, sempre pensando no futuro das meninas. E como a pequena Olívia falou, ela já estava quase completando seus sonhados 15 anos. Aquele amor que parecia ser grande entre eles aumentou. Olívia era a menina dos olhos de Samuel, ele vivia em torno de fazê-la feliz.
Com a faculdade, Samantha ganhou um apartamento mais perto do centro. Ela sempre foi uma garota estudiosa e muito amada pelos pais. Samuel teve um pequeno surto quando, aos 18 anos, ela apresentou seu primeiro namorado. Ele sempre foi muito protetor e, ao confirmar que sua pequena Samy cresceu, foi difícil para aceitar.
Mas o surto mesmo foi quando Olívia, faltando menos de dois meses para seu aniversário, disse que ia se casar com o seu melhor amigo Zaian.
- Não é agora, papai. Quero estudar e me formar em veterinária. - diz ela entre sorrisos, tentando amenizar o sofrimento do pai.
- Você e sua irmã querem me matar, só pode. - Samuel fala com as mãos na cabeça, realmente nervoso por ver que sua menininha cresceu.
Olívia sempre fala essas coisas, pois gosta de provocar seu pai, e desde que Samantha chamou o namorado para morar com ela, Samuel vem multiplicando a atenção que tem por Olívia. As palavras do seu pai a fizeram tremer, seu maior medo é perder Samuel. A ligação entre os dois é algo surreal, como se a felicidade de um dependesse do outro.
- Nunca mais diga isso, o senhor sempre será o homem da minha vida. - Olívia o abraça com o coração disparado. - Minha vida não teria sentido sem você e a mamãe.
Samuel aperta sua amada filha nos braços, olhando nos olhos dela, percebe que ela estava chorando.
- Ei, amor, estou brincando. Você sempre será minha criança, mas saiba que te ensinei a ser forte, pois eu quero te ver voar. Só me prometa que nunca deixará ninguém te machucar. Você é a joia mais preciosa da minha vida, e jamais quero ver esses olhinhos cheios de lágrimas novamente.
- Eu prometo, se me prometer desenhar meu vestido. - ela fala sorrindo.
- Você não tem jeito, né? Quando tiver idade para se casar, eu prometo, filha. - Samuel ri da cara de frustração dela. Ao olhar atentamente para seu rosto, ele percebe que algo está errado com sua menina. - Filha, você está bem?
- Estou sim, papai. Só um pouquinho cansada essa semana. Vou subir para descansar.
- Ei, eu te amo muito, viu! - Samuel diz ao vê-la saindo.
- Eu... - Olívia encontra os olhos do seu pai e tenta falar pela primeira vez em anos: "Eu também te amo."
Mas sua voz falha e as suas forças vão deixando-a quando Samuel vê Olívia cambaleando. Ele corre para segurá-la antes que caia no chão.
- Filha, amor, acorda por favor - Samuel se desespera vendo Olívia desmaiar em seus braços.
- O que houve? - entra Cecília em desespero ouvindo o grito de Samuel. - Filha...
De imediato, eles correm para a clínica. Samantha, que foi avisada no caminho, já estava esperando sua família, angustiada, pois sua irmãzinha nunca sequer pegou um resfriado. Como ela poderia ter desmaiado?
Samuel e Samantha ficaram todos os dias lá, sem sair um segundo do lado de Olívia. Cecília, sem conseguir lidar com aquela falta de informações, decidiu trabalhar. Esse era seu único refúgio, para que ninguém a veja sofrer.
Os médicos e enfermeiros correm contra o tempo, até que, depois de uma semana entre exames e medicamentos, eles finalmente descobrem o que ela tem.
Numa sexta-feira, à noite chuvosa, não havia o brilho das estrelas. Estavam todos parados na frente da janela, olhando para o céu e pedindo que não seja nada grave.
Naquela sala gelada de espera, foi-lhes dada a pior notícia que um pai e uma mãe poderiam receber.
- Sinto muito, Samuel. Descobrimos que a menina Olívia tem uma doença grave no coração, e se ela não fizer um transplante, iremos perdê-la. - O médico da família fala com lágrimas nos olhos, pois sabia o tamanho da dor que lhes trouxeram nesse momento. Ele a viu crescer em cada etapa do seu desenvolvimento e sabia o tamanho da dor que isso ia causar para seu amigo.
Samuel mal conseguia respirar. Abraçou Cecília e Samantha, tentando buscar forças de algum lugar, mas não as encontrou. O que ele estava sentindo em seu peito ninguém poderia tirar.
Samuel entra no quarto depois de muito tempo chorando.
Olivia estava deitada, um tanto preocupada, pois fazia algum tempo que seu pai não vinha vê-la, e sentir a presença do seu pai transmitia calma.
Samuel vê sua menina ali, deitada numa cama fria, ligada a vários aparelhos. Ele senta na poltrona e Olivia vira a cabeça para que seus olhos encontrem os dele.
- Pai, que bom que voltou. Estou com tanto medo. - Olivia tenta falar pausadamente. Sua respiração está cada vez mais lenta.
- Meu amor, não tenha medo. Estou aqui com você, só para você. - Mesmo querendo demonstrar força, as lágrimas que ele tanto segurou para não derramar na sua frente foram em vão. Elas caíam uma atrás da outra. Ele aperta a mão da sua menina, levando-a para um leve beijo, e treme ao sentir o quanto está gelada. - Está com frio, minha vida?
- Não sei, papai. Eu já não sinto mais nada.
Nesse momento, Samuel chorou feito uma criança, abraçado em sua filha. Cecília tenta de todo jeito acalmar o seu marido, mas é inútil. Ele está morrendo por dentro, vendo sua filha partir.
- Papai, os médicos já disseram que eu vou morrer. Por isso que está chorando. - Sua voz doce e delicada sai como um sussurro, quase inaudível, mas foi suficiente para que o mundo de Samuel desabasse.
- Não, não, meu amor. Você não vai morrer. Deus, que é tão grande, não permitiria que eu perca o que eu mais tenho amado nesse mundo. - Fala com a voz embargada pelo choro.
- Quando a gente morre, vai para algum lugar, papai? Pode ver lá de cima a sua família? Sabe se um dia eles podem voltar?
Samuel estava destruído. Sua vontade era pegar sua menina dali e sair para bem longe, procurar alguém que pudesse a salvar, mas nesse momento a única coisa que ele podia fazer era responder suas dúvidas, mesmo que cada palavra estivesse o matando a cada segundo.
- Bom filha, na verdade, ninguém nunca voltou de lá e contou algo sobre isso, porém, saiba que se eu morrer, nunca, em hipótese alguma, te deixarei só. Te prometo que onde eu estiver, buscarei uma maneira de me comunicar com você. Mas se não for possível, filha, utilizarei o vento para te ver! Para beijar esse lindo rosto, olhar nesses lindos olhos e sentir o abraço mais gostoso desse mundo. - Um sorriso fraco sai dos lábios de Olívia.
- O vento... e como você faria, papai?
- Não tenho a menor ideia, minha filha. Só sei que se algum dia eu morrer, sentirá que estou com você quando o suave vento roçar o teu rosto, ou uma brisa fresca beijar a tua face. Serei eu dizendo que estou ali por você. Tenha a certeza de que nem mesmo a morte me afastará de você, porque você foi o presente mais lindo que alguém já me deu nessa minha vida.
- Pa... pai... - Nesse momento, os aparelhos apitam e os médicos entram correndo, pois ela tinha acabado de ter uma parada cardíaca.
- Por favor, Samuel, me espere lá fora. - Manoel, o médico da família, fala tentando soltar a mão dele, que segurava firmemente a de Olívia.
- Não, eu preciso falar com você, é urgente. - Samuel diz vendo que o coração dela voltou a bater.
O médico leva ele para o seu consultório, deixando Cecília e Samantha com Olívia, que depois do susto dormiu um pouco.
- Quais as chances dela conseguir um doador? - Ele fala sem olhar para o Manoel.
- Amigo, sinto muito, mas... - Seu amigo médico já não tinha esperanças, era questão de dias, horas ou até minutos para que o coração da Olivia parasse de bater.
- Você me promete que, se esse doador chegar, ela ficará bem e terá uma vida normal?
- Sim.
Nesse momento, Samuel levanta, olha nos olhos do seu amigo e sai. Manoel tenta de todos os modos impedir que ele vá, mas sem sucesso. Ele para quando vê Samuel entrando no quarto e só agora ele respira aliviado, pois estava pensando que ele poderia tentar tirar a vida de alguém para fazer o transplante...
- Meu amor, de todas as minhas orações atendidas, vocês foram as que eu mais agradeci - ele fala segurando na mão da Cecilia e sua filha Samantha. - Obrigado, amor, obrigado por ter me dado a chance de te amar, de me dar meu primeiro amor, que foi você, filha, e saiba que eu te amo mais que tudo nesse mundo. - Cecília e Samantha abraçam ele chorando. - Eu amo vocês! Se puderem, fiquem aqui um pouquinho, vou em casa trocar de roupa e já volto.
- Descansa um pouco, amor, tenta comer algo. Faz 15 dias que você não sai desse hospital - fala a sua amada esposa, dando-lhe um beijo carinhoso. Ele retribui, olha nos olhos dela como se quisesse deixar gravado na sua mente.
Minutos depois, ele se aproxima de Olivia, olhando seus pequenos lábios que tanto sorriam, já quase sem cor, seu lindo rosto que antes vivia corado por suas bochechas rosadas, agora esbranquiçado.
- Ah, minha princesa! Como você é linda. Nada desse mundo vai te tirar aqui do meu coração. - Samuel se abaixa, sente o doce perfume da sua menina, dá um beijo em sua testa e sai sem olhar para trás.
No carro, ele se debruça sobre o volante e chora.
- Meu Deus, um coração, onde conseguir um coração? Onde, meu Deus?
- Em desespero, ele dirige até sua casa.
Toma um banho, pega o celular e faz algumas ligações, resolve algumas coisas que não poderia deixar para depois. Longas três horas de angústia para aquele homem que nunca temeu nada, agora se vê chorando em cada canto daquela casa. Entrando no carro, ele toma uma decisão...
Nesse mesmo mês, Olívia fará seus tão sonhados 15 anos. E foi numa sexta-feira à tarde quando a notícia de que conseguiram um doador foi dada para Cecília.
- Graças a Deus... Samantha e Cecília se abraçam felizes, porque sua amada filha ficará bem...
Olivia foi operada e tudo saiu bem. Ela permaneceu no hospital por 15 dias. Cecília vivia chorando pelos cantos, ela não entendia o porquê. Nesses 15 dias, nenhuma vez seu amado pai foi visitá-la, fazendo Olívia se fechar um pouco. Cada vez que a porta do quarto era aberta, seus olhos procuravam por ele. Visitas e mais visitas, mas nenhuma era quem ela realmente queria abraçar.
Olhando as fotos dela e de seu pai pela tela do celular, ela acaba chorando de saudade. Encosta a cabeça no travesseiro e finge estar dormindo.
Olívia estava ansiosa para ir embora e, naquele mesmo dia, os médicos deram alta para ela.
No caminho de volta, ela não parava de falar sobre seu pai, tentando buscar uma explicação do porquê ele não a visitou.
Enfim, chegaram em casa. Olívia, com sua ansiedade, saiu do carro correndo, sem se importar com os pontos que ainda estavam doendo. Hoje era seu aniversário e a alegria que estava sentindo, em estar bem e poder comemorar mais um aniversário com seu pai, não tinha dinheiro nenhum que pagasse.
- Pai, onde você está, papai? - Olívia gritava sem parar, desesperada por não encontra-lo.
Entrou no escritório, na cozinha, procurou na varanda onde os dois passavam horas conversando, até que sua mãe sai do quarto, com os olhos molhados de lágrimas, já não aguentando segurar a dor que ela vinha carregando.
- Minha filha, essa é uma carta que o seu pai deixou para você e me pediu para entregar hoje, que é o seu aniversário.
Olívia fica imóvel por alguns minutos, um sentimento estranho surge em seu peito. Pegando a carta, ela fecha a mão e sai correndo para procurar por toda a casa. Até que, com lágrimas nos olhos, ela percebe que ele não está ali. Ela senta na cama e resolve ler o papel que ainda está em suas mãos, mas o que está escrito ali a faz desejar a morte.
"Oi meu eterno amor!
No momento em que ler a minha carta, já terá completado os seus sonhados 15 anos, e um coração forte batendo no seu peito.
Bom, essa foi a promessa que o seu tio Manoel e os médicos que lhe operaram me fizeram.
Você não pode imaginar nem remotamente quanto lamento não estar ao seu lado, poder te abraçar e dizer o quanto orgulhoso e grato sou por Deus ter me dado você de presente.
Preciso explicar a ausência desses dias, sei que passou tantas coisas na sua linda cabecinha, mas saiba que se eu pudesse, nunca deixaria você sozinha. Quando soube que morreria, decidi te dar a resposta da pergunta que me fez quando tinha apenas 7 aninhos, a qual não pude responder naquele momento.
Decidi te dar o presente mais bonito, o qual ninguém jamais faria por minha filha. Te dou de presente a minha vida inteira, sem nenhuma condição, para que faça com ela o que quiser. Só lhe peço, filha, viva! E saiba que te amo com todo o meu coração!"
Com aquele pequeno pedaço de papel em mãos, ela chorou o dia todo e toda noite, até ser vencida pelo cansaço.
Na manhã seguinte, ela acorda com os olhos inchados de tanto chorar, com uma dor enorme no peito. Mas não era dor física, era a dor de ter perdido seu herói, seu melhor amigo, aquele que, mesmo com o mundo desmoronando, se estivesse ao seu lado, tudo ficaria bem.
Limpando os olhos, que já estavam molhados pelas lágrimas, ela entra no banheiro do seu quarto, toma um longo banho, veste sua melhor roupa, a mesma que foi desenhada por Samuel, e caminha em direção ao cemitério. Entre passos lentos, ela senta ao lado do túmulo do seu pai e chora, chora tanto como ninguém poderia chorar. Em meio às lágrimas e soluços, ela abraça o mármore gelado e sussurra:
- Oi, pai. Agora posso compreender o quanto me amava. Saiba que eu também te amava, apesar de nunca ter te dito. Pai, agora consigo ver a importância de dizer "eu te amo". Eu te amo, eu te amo, meu pai! Quero te pedir perdão por ter ficado em silêncio em cada abraço seu, por não ter enxergado que sempre fui a menina dos seus olhos. Tantas vezes me calei, mas você sabe que não era por maldade. Acredito que me acomodei ouvindo todos os dias o seu "eu te amo". E hoje, o que me resta é só a saudade. Saudade de ser acordada com um beijo de bom dia, saudade de ser amparada cada vez que caía, saudade de deitar na rede e ouvir suas histórias, saudade de deitar na cama antes de dormir e ouvir o seu "eu te amo, minha filha".
Nesse instante, as copas das árvores balançavam suavemente, fazendo cair algumas folhas. O vento soprava suavemente, tocando a face de Olivia, ela olhou para o céu, tentou enxugar as lágrimas do seu rosto, mas se levantou, deu um sorriso e sentiu como se fosse o beijo do seu pai.
- Obrigada, pai, por nunca ter quebrado a sua promessa. Hoje, sinto você vivo aqui no meu peito, pois carrego comigo o melhor presente que eu poderia ter ganhado: o seu coração. Te amo por toda a minha vida, e saiba que sempre vou honrar o seu sacrifício e cumprir a minha promessa de ser feliz. Obrigada, meu pai, pelo lindo vestido desenhado, mas hoje ele já não vai fazer diferença, pois a única coisa que eu queria era ter você ao meu lado.