Kelly Ferraço
É triste acordar de um lindo sonho e vê que tudo se tornou um terrível e irrevogável pesadelo. Ao abrir os meus olhos me encontrei dentro de um hospital e o Lipe não estava lá comigo. Vi o meu pai debruçado em uma janela, com o olhar perdido, encarando as ruas do lado de fora e a minha mãe, estava sentada em um pequeno sofá, com a cabeça apoiada em uma de suas mãos e um jornal na outra. Talvez nem estivesse lendo as notícias de fato. Eu conhecia bem aquele rosto cansado e sofrido. Ela estava sofrendo por algo... por mim talvez? Mas, o que realmente aconteceu? Então o meu pai se mexeu, voltando ao nosso mundo real e os seus olhos cansados e cheios de olheiras me encontram. Adonis sorriu para mim.
- Filha? - Ele disse caminhando com pressa na minha direção e me abraçou ainda deitada no leito de hospital e só então me dei conta dos fios em meu corpo e dos sons das máquinas ao meu lado.
- Meu amor você acordou! - Minha mãe falou com um tom emocionado na voz. Respirei fundo e isso causou uma dor pesada em meu abdômen, me fazendo soltar um gemido dolorido em seguida.
- O que aconteceu? - perguntei atordoada, cansada de ficar no escuro. Senti a minha garganta seca e isso me causou uma sequência de tosses - Onde está o Lipe? - Meus pais se olharam e eu entendi que havia algo errado.
- Querida, você sofreu um acidente de carro muito grave. - Agnes, começou a falar. As palavras de minha mãe, me trouxe uma cena de horrores a memória. O Adam nos perseguindo em uma corrida louca no trânsito. Era de madrugada e as ruas estavam calmas e desertas, mas algo aconteceu e eu nem tive tempo de perceber o que foi.
- E o Lipe, ele está bem? - insisti na minha pergunta. Observei o meu pai respirar profundamente e se preparar para dizer-me algo.
- Eu sinto muito, filha! - sussurrou com pesar. A dor que eu senti por dentro, parecia me partir ao meio e era bem maior do que a que o meu corpo desferiu quando me encolhi na cama, me entregando ao choro.
- Não - gemi dolorosamente. - Por favor pai, me diz que ele está bem. - Em resposta recebi o seu abraço, mas esse não me confortava, não tirava essa dor que estava me matando por dentro. O choro durou alguns longos minutos e eu só parei quando a realidade me bateu na cara, com uma violência espantosa.
"A culpa foi minha!"
Constatar isso, me fez afastar dos braços carinhosos dos meus pais e da suas tentativas patéticas de me consolar. Eu não merecia aquele consolo.
- Kell, o que está nos pedindo? Nós não podemos...
- Por favor pai, eu preciso ficar sozinha - insisti.
- Querida, eu não seria o seu pai se te deixasse sozinha em um momento como este.
- Mais que merda, pai! - bradei irritada e eu nem sabia o porquê. Eles não mereciam esse comportamento de mim, mas eu não conseguia evitar. _ Eu quero ficar sozinha, podem por favor sair do meu quarto, por favor? - Adonis e Agnes apenas me olhavam, sem saber o que fazer. - Saiam agora! SAI DO MEU QUARTO! - gritei tão alto, que cheguei a ver o medo estampado em seus olhos. Eu sei, fui dura demais com eles, na verdade estou sendo uma megera. Mas me entendam, eu não sou mais eu. Uma parte de mim ficou lá, naquele maldito acidente e se foi junto com ele. O meu melhor se foi. O meu sorriso também e comigo só restou uma única coisa, a culpa. Eu o matei, foi tudo culpa minha.
Os dias seguintes foram os piores da minha vida. Eu não pude ir ao seu velório, não pude me despedir. Adam me tirou esse direito. Ele me tirou tudo. Deus como odeio esse homem! Eu só queria ter a certeza de que está ardendo nas profundezas do inferno. Recebi a visita dos pais do Lipe alguns dias depois de acordar do coma de quinze dias. Não foi fácil olhá-los nos olhos, não depois do que eu fiz ao filho deles. Queria não tê-lo conhecido, mas o conheci. Queria não tê-lo amado, mas eu o amo. Se não tivéssemos juntos, o Lipe ainda estaria vivo e talvez eu sim, estaria morta em seu lugar. Acordar todas as manhãs e encarar essa nova e dolorosa realidade é o meu martírio. Contra a minha vontade decidi seguir em frente, mas nem tudo é aceito em minha nova vida. Decidi que serei dele como havia lhe prometido, que o amarei até o fim da minha vida e que serei a chef que ele sonhou que eu seria.
(...)
Meu telefone toca insistente em cima da mesa da cozinha do pequeno apartamento que aluguei, me despertando dos meus pensamentos. Decidi que seria pequeno e aconchegante, já que não precisava de tanto espaço só para mim. Pego o celular, largando a xícara de chocolate quente que fiz, e sequer toquei, e abro um enorme sorriso quando vejo que é minha amiga Maah. Ela é tudo o que me restou de uma vida passada. Apesar de ter me ajudado na fuga daquela noite especial e de ter colaborado com a melhor e única noite feliz da minha vida, eu não a culpo por nada. a final, ela só quis o meu bem.
- Bom diaaaaa, flor do diaaaaa! - Ela cantarola com toda a sua animação que realmente não me alcança, mas que de alguma forma me fez sorrir. - Como foi a sua primeira noite em Paris?
- Péssima, diga-se passagem! Um vizinho barulhento se mudou pra cá, então você pode imaginar como foi a minha noite com móveis arrastando de um lado para o outro e um som irritante tocando algum tipo de música francesa - ralho mal humorada e vou até uma das janelas do apartamento, onde tenho a melhor visão de Paris.
- E como ele é? - Deu para sentir um toque de malícia em sua voz e isso me faz revirar os olhos.
- Não faço a menor ideia, Maah! Não ando bisbilhotando os meus vizinhos. Só sei de uma coisa, se ele for barulhento assim sempre, vai ter uma vizinha muito chata pegando no pé dele. - Ela riu, na verdade ela gargalhou.
- E a faculdade? - indaga. Solto um suspiro baixo.
- Fui lá ontem e dei uma olhadinha. Até que é bem legal, acho que vou gostar.
- Hum, sei! Viu algum gatinho perdido por lá? Me disseram que os franceses são bem avantajados... lá em baixo - disse e soltou outra risada alta. Revirei os olhos outra vez. Desde que tudo aconteceu a cinco anos atrás, Maah assumiu a missão que querer me fazer transar com alguém, não importa quem seja. Ela diz que o importante é gozar e ser feliz.
- Não reparei - respondo com toda a sinceridade. Ela bufa bem alto para ter certeza de que ouvi.
- Kelly Ferraço, se você não der essa buceta a terra vai comer, querida! Você já sabe o meu lema, "o importante é gozar e ser feliz!" - retruca e eu repito o seu bordão junto com ela. - Você está em Paris e eu te desejo do fundo do meu coração, que você esbarre fortemente em algum macho alfa e que esse te leve para cama e te mostre o caminho da felicidade. - Agora sou eu quem bufa.
- Eu preciso desligar, sua maluca, tenho faculdade em duas horas e não quero me atrasar no meu primeiro dia de aula, não fica bem para minha imagem na visão dos professores. Como vai o Afonso? - Mudo propositalmente de assunto.
- Hum, tarado e gostoso como sempre! - cantarola de uma forma arrastada e preguiçosa. Provavelmente ainda está cama, depois de transar uma noite inteira com seu marido.
Ah sim! Marina se cansou do desprezo de seus pais quando fez seus dezenove aninhos e fugiu de casa com o seu professor de direito, Afonso Castellini. O cara é pelo menos seis anos mais velho que ela, embora não aparente tal idade. É claro que os pais dela não gostaram da novidade e foram buscá-la no apartamento do homem, e foi ai que ela rasgou o verbo com eles e conquistou a sua liberdade. E hoje, eles são de longe as pessoinhas mais felizes que eu conheço no mundo, depois dos meus pais é claro, e dos meus tios, Oliver e Petrus. Com a Cris não foi muito diferente. Agora ela está nos Estados Unidos fazendo faculdade de medicina e noiva do Call. Esses dois não se desgrudam desde que começaram a namorar no colegial. E parece que se tornou uma lei entre essas duas; elas precisam me ligar, ou fazer chamadas de vídeos dia sim e dia não. É cansativo, mas confesso que se não fosse por elas, ou a minha família eu não teria chegado até aqui.
- Vocês não têm jeito! - resmungo achando graça do seu comentário.
- Claro que temos! É um jeito safado, dengoso e gostoso, mas temos jeito sim. - Sorrio.
- Maah, eu realmente preciso ir, querida. Beijos para o Afonso!
- Tá, me diz onde que eu dou. Na boca, na bunda ou no p...?
- Na bochecha fica melhor! - A corto de uma forma divertida.
- Hum, estraga prazeres! - retruca me fazendo rir e encerro a ligação em seguida. Os próximos minutos são bem corridos. Preciso me arrumar para o meu primeiro dia na faculdade de gastronomia e não quero me atrasar, portanto, o banho foi bem rápido e quando terminei, pus uma roupa simples e peguei o meu material. Isso sim fez-me sentir liberta de verdade, me fez sentir um pouco da alegria que sentia outrora. Respirei fundo, pus os óculos escuros e larguei os materiais no banco do passageiro. Sorri quando liguei o carro e segui para o meu mais novo amor... meu curso preferido.
NOTAS DO AUTOR:
Começando mais um livro dessa saga maravilhosaaaaaa!
O Chef 3 é o último livro da trilogia e contará para vocês a história de Kelly Ferraço, a nossa Kell.
Antes de dá continuidade, quero esclarecer aos leitores sobre a morte do nosso príncipe lindo, o Felipe. Espero que compreenda que foi necessário, porém, não se preocupem, a nossa menina não ficará sozinha nesse mundão de Deus. Ela irá conhecer o belíssimo professor francês em Paris e ele, claro, se empenhará para conquistar esse coraçãozinho dolorido. Portanto, convido vocês leitores a mergulhar nesse romance francês, cheio de tropeços e de boas risadas, que mais uma vez promete conquistar os corações de vocês. Prontos para o próximo capítulo? Então vem comigo!
Adrien Lamartine
Ser um nerd tem o seu lado bom. Você termina os estudos mais cedo do que se possa imaginar, a ciência e o conhecimento estão sempre em suas mãos e as pessoas te veem com uma idealização de um bom negócio. Eu cresci no meio de uma família onde todos os seus integrantes se tornaram empresários da contabilidade ou administradores de um bom negócio. Confesso que estava indo pelo mesmo caminho, até completar os meus dezoito anos. Eu era o orgulho do meu avô paterno e do meu pai também, claro. A coisa desandou quando conheci a Margaritta, uma espanhola porreta, que me mostrou que a degustação dos alimentos pode ser uma arte. Eu agora tinha dois motivos para sair daquele caminho sério demais e que me trancaria em uma sala cheia de papéis e sem graça pelo resto da minha vida. A Margaritta era uma delas e a outra? Eu sou um cara desajeitado demais. Sério, sou atrapalhado, tropeço em tudo e por mais que eu acredite que estou seguro, acabo por derrubar tudo a minha volta. Acredite, não é de propósito. Vamos ao lado ruim de ser um nerd. Você fica muito tempo com a cara enfiada nos livros, então, enquanto o meu irmão mais velho estava debaixo da saia de alguma garota, eu estudava pra caralho. Com dezoito anos eu sequer havia beijado uma garota ainda e sair com os amigos, só se fosse para estudar para alguma prova ou jogar pôquer. Porra, eu sou muito bom nesse jogo! O fato é que aos vinte e três anos segurei o meu primeiro diploma em minhas mãos e depois desse, conquistei mais dois e no meio deles, veio a especialização em gastronomia. Aquele mundo dos perfumes e das cores dos alimentos me fascinava e desde então, assumi que não seria mais um empresário da família Lamartine, eu seria um mega chef e passaria os meus conhecimentos para as pessoas apaixonadas por esse universo.
Estacionei meu carro no enorme pátio da universidade, encarei o prédio imponente a minha frente e abri um sorriso largo e satisfeito, observando ao longe os alunos se espalhando pelo enorme gramado. E saber que cada cabecinha daquela expressa um mundo diferente. Tá! É o meu primeiro dia aqui e eu realmente preciso impressionar, a final, eu sou o professor, certo? O mestre dos conhecimentos. Com uma respiração profunda e satisfeito, abro a porta traseira do meu carro e pego a minha pasta preta de couro, alguns livros e alguns papéis. Ajeito tudo com muito cuidado em meus braços e travo o carro em seguida, e começo a caminhar com passos firmes e confiantes. É exatamente assim que quero impor a minha presença neste lugar. Dentro do prédio, sou absorvido pelo enorme e largo corredor cheio de estudantes e alguns deles aparentemente tem quase a minha idade. É incrível como me olham como se eu fosse um aluno novato. É, eu sei exatamente como se olha para um aluno novato. "E que se foda, eu sou o professor de vocês!"
- Oh, você chegou! - Uma senhora de aparentemente trinta anos diz, abrindo um sorriso para mim. _ Eu sou a Mirela, aceita um cafezinho, professor?
- Ah, claro, Mirela, eu aceito! Eu sou o...
- Venha, é por aqui. - Ela pede, sem esperar que eu terminasse a minha devida apresentação. Pensei que os franceses fossem pessoas mais calmas. Sigo Mirela pelo corredor me sentindo sobrecarregado com os meus materiais. Ela entra em uma porta larga e lá dentro tem outras pessoas conversando animadas, provavelmente os outros professores.
- Essa é a cafeteira, ela produz o seu café do seu jeito, é só apertar o botão, assim... - Estreitei os olhos. É impressão minha, ou ela está me ensinando a fazer o meu próprio café? Dou de ombros e sem soltar o meu material, dou um jeito de pôr o copo na base da cafeteira e aperto o botão do expresso. Enquanto a cafeteria faz o seu trabalho, observo os funcionários espalhados pela sala, que eu acho que seria a copa, mas eu não tenho tanta certeza assim. O café fica pronto e antes mesmo que eu consiga dá um gole nele, Mirela bate palmas chamando a atenção de todos para si.
- Queridos, hora de ir para a sala de aula e por favor, não se esqueçam que teremos uma reunião de apresentação no auditório com os alunos e todo o corpo docente. Uma maneira de nos conhecermos melhor. - A mulher abre um sorriso agradável e nos mostra a porta de saída. Ok, eu já trabalhei em uma outras faculdades antes e não sei se é impressão minha, mas essa aqui tem um time peculiar, se é que vocês me entendem.
Merda, agora estou ainda mais sobrecarregado, pois, além de estar segurando a maleta de couro em uma mão e de os papéis estarem apoiados no outro braço, na mesma mão em que estou segurando os meus livros, agora também tem uma xícara de café e, eu realmente preciso ver o meu itinerário e o mapa da faculdade para saber para onde devo ir. Olho para um lado e depois para o outro a procura de alguém que possa me ajudar, porém, todos estão andando apressados feito um bando de malucos a procura da sala de aula. Eu consigo, com um jeitinho eu sei que consi... ah, consegui, viu? Não foi tão difícil assim tirar o itinerário do meu bolso traseiro. Enquanto ando apressado pelo imenso corredor, porque o sinal já havia tocado tem uns cinco minutos, olhei atento para o mapa que me levaria a minha sala. Essa é a vantagem de trabalhar para essa faculdade; eu tenho uma sala só minha e são os alunos que vem à mim e não eu a eles. Mas essa porra toda parece um labirinto e quanto mais eu olho para o maldito mapa, mais perdido eu me sinto.
- Merda! - Uma voz feminina me faz tirar os olhos do papel e eu fui imediatamente agraciado pela mais bela visão. É impossível não olhá-la com admiração. Sua pele de pêssego, seus lábios rosados e carnudos, e imagino que sejam suculentos também, como a polpa de um delicioso pêssego. E seus cabelos sedosos e brilhantes, que dá vontade de tocá-los? Ela deixou seus cadernos caírem e está atenta aos materiais no chão. Uhlala! Como pode ser tão linda assim? No segundo seguinte, eu perco totalmente a noção dos materiais que segurava em minhas mãos e me agacho para tentar ajudá-la. - Mais que merda você fez?! - Ela praticamente berra irritada, quando o meu café se derrama inteiro em seus cadernos. Um par de olhos cor de mel me encaram furiosos e isso por incrível que pareça, não me deixa acuado. Ela é linda até mesmo com raiva! Mon Dieu, je suis ravi, estou apaixonado! Eu não devia, mas estou. - Idiota! - Desperto quando escuto os seus resmungos. Ela se levanta segurando os cadernos molhados nas mãos e sai me dando as costas. E eu fico aqui parado feito um bobo, apenas olhando a menina se distanciar de mim.
- Professor, por que ainda não iniciou as suas aulas?! - A voz alta de Mirela me faz dá um salto desesperado, e eu caio sentado no chão, em uma chuva de papéis que caí sobre minha cabeça. Alguns alunos a nossa volta começam a rir da cena e eu bufo desanimado. "Não foi assim que imaginei o meu primeiro dia de trabalho!"
****
- Bom dia, alunos! Eu me chamo Adrien Lamartine e sou o professor de gastronomia de vocês. - Começo a falar assim que entro na sala de aula. Claro, que entrei um pouco desajeitado. Os papéis que antes estavam bem arrumados, agora estavam uma bagunça total e no meu tumulto, mal pude olhar para os meus alunos, mas uma engraçadinha me chamou a atenção.
- Uau, professor gatinho! - A garota praticamente cantou a exclamação. Confesso que me senti constrangido, a final, não sei se perceberam, mas eu também sou tímido e lidar com as mulheres não é a coisa mais fácil do mundo. Não para mim. Porém não demostrei o meu constrangimento para a aluna audaciosa, eu encarei a menina - que se diga de passagem deve ter seus vinte anos - com um olhar rígido, no entanto, ela sorriu, mordendo o lábio inferior. Com um suspiro, fui até o quadro e comecei a escrever.
- A partir de hoje vocês vão respirar as regras dos alimentos. Se não tem uma harmonia, não tem um prato perfeito, portanto, não haverá uma arte gastronômica.
- Com licença! - Uma voz feminina sibila atrás de mim, bem na entrada da sala. O olhar irritado da pesseguinho, agora parecia meio sem jeito. - Será que eu posso? - indaga, apontando para o interior da sala de aula. Eu a olho sem dizer nada e o meu lado interno parecia me dá uma boa bofetada na minha cara. "Fala alguma coisa, Adrien!" Ele ordenou, mas eu estava suando feito um porco defumado e não consegui dizer nada. "Que merda de professor você vai ser se estancar na frente da sua aluna?"
Porra, ela é minha aluna! "Fica longe dela Lamartine!"
- Pode - Finalmente falei, com um tom firme que eu nem eu mesmo reconheci. - Da próxima vez tente chegar no horário. - Caralho, o que foi isso seu estupido?
- Eu teria, se um destrambelhado não tivesse derramado café nos meus cadernos! - rebateu no mesmo tom que acabei de usar, e eu senti que virei um completo tomate vermelho. Puxo mais uma respiração e vou até a minha mesa, ignorando o seu comentário sarcástico.
- Abram os seus livros na página 37. Vamos ver a origem de alguns alimentos. - peço, tirando o lenço de linho branco do bolso do meu casaco e passo rapidamente em minha testa, secando o suor que começa a escorrer pela lateral do meu rosto. Alguns alunos encararam os seus livros e eu aproveito para olhá-la mais uma vez. Ela está concentrada, e uma mecha loira escura escapa do coque frouxo e cai sobre o seu rosto, formando um lindo quadro.
Pesseguinho!
Mas que merda Lamartine!
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Vocabulário;
Mon Dieu, je suis ravi! – Santo Deus, estou encantado!
NOTAS DO AUTOR:
eis aí o professorzinho que além de lindo e loiro, é completamente desajeitado hahahahah e é com esse jeito destrambelhado que ele irá penetrar o coraçãozinho frio da nossa Kell.
Vamos de Capítulo?
Kelly Ferraço
Um dia perfeito, sem atrasos, sem correria, sem estresses... A não ser pelo itinerário que está me deixando meio que perdida aqui. Seguindo o mapa da faculdade, que mais parece um labirinto, entro no terceiro corredor movimentado de alunos e agora eu só preciso descobrir qual a sala que devo entrar. Abro o mapa mais uma vez e enquanto ando em linha reta, procuro pela sala azul, no bloco B, e quando ergo a cabeça a encontro bem no meio do corredor. Satisfeita, dou dois passos na direção da sala e tento sem sucesso guardar o mapa no meu bolso traseiro, e para a minha infelicidade, alguns cadernos caem no chão.
- Merda! - xingo impaciente e me agacho para arrumá-los junto aos outros materiais. Logo encaro um belo par de sapatos lustrosos parados bem na minha frente. Penso em olhar quem quer que seja, mas antes que eu consiga fazer tal coisa, um líquido escuro e quente molha os meus cadernos, que ainda estão espalhados pelo chão. Meu sangue ferve imediatamente. - Mas, que merda você fez? - rosno praticamente aos gritos e irritada finalmente olho a cara da jamanta que fez o maldito estrago. Encontro uma bela cabeleira loira, adornando um par de olhos azuis que me encaram assustados, porém, admirados com alguma coisa. Sei lá, o cara parece um imbecil, atrapalhado e bobo! Rolo os olhos internamente. - Idiota! - ralho, pegando os cadernos agora danificados e me levanto em busca de um banheiro para tentar arrumar toda essa bagunça.
Primeiro dia de aula, merda, eu fiz tudo tão direitinho! Agora para piorar serei taxada de a aluna que só chega atrasada e tudo por causa daquele imbecil, estúpido e idiota!
Quase dez minutos depois, corro para a sala de aula. Os corredores agora estão completamente vazios e chego perto da porta da tal sala azul B, consigo escutar a voz grave do professor. Droga, espero que ele não me barre na porta logo no primeiro dia! Alcanço a porta que ainda está aberta e estanco bem na entrada quando vejo o imbecil que molhou os meus cadernos em pé, escrevendo algo no quadro. Merda, merda, merda, ele é o meu professor! Eu xinguei o meu professor? Mil vezes merda! Antes de falar qualquer coisa, eu limpo a minha garganta e encontro coragem para falar:
- Com licença! - Me forço a dizer. O loiro e alto... bem alto mesmo, diga-se passagem, se vira para me olhar. Lindos olhos azuis! Penso. São meigos e tranquilos... Que merda estou fazendo? Respiro fundo e continuo a falar: - Será que eu posso? - Aponto para dentro da sala. Ele continua me olhando e aquele maldito olhar bobo estava ali me encarando como se eu fosse uma fruta deliciosa.
Idiota!
- Pode. - Ele finalmente responde, usando um tom firme até demais. "Ok, vou relevar!" Puxo a respiração mais uma vez e assinto, adentrando a sala de aula. - Da próxima vez tente chegar no horário. - O infeliz comenta. Ah, não deu mais para segurar, então soltei uma resposta à altura do que acabou de falar.
- Eu teria, se um destrambelhado não tivesse derramado café nos meus cadernos! - Uso o mesmo tom que acabou de falar comigo. E, merda, é impressão minha ou o meu professor acabou de corar? Ele corou, é sério? O observei puxar uma respiração e sem dizer mais nada, ele foi para sua mesa e abriu um livro grosso.
- Abram os seus livros na página 37, vamos ver a origem de alguns alimentos. - A pergunta que me veio à cabeça de imediato foi, quem precisa saber a origem dos alimentos? Pelo amor de Deus, quem em sã consciência não sabe de onde veio a pizza? Ou picles? Ou a macarronada? Segui para a segunda cadeira no canto da parede, bem perto da janela e abro o único livro que trouxe comigo. Sim, seguindo o itinerário.
****
Após três aulas seguidas com o professor Adrien, saio da sala direto para uma lanchonete dentro do campus mesmo e me peço um delicioso pedaço de torta de limão e uma xícara de chá. Enquanto repasso os últimos traços da aula sobre a origem dos alimentos, releio sete tópicos interessantes que me chamaram a atenção e que eu não havia atentado para isso antes. O livro compara a alimentação em três fases da história; alimentação na pré-história e na idade antiga, depois na antiguidade clássica e na idade média e por fim na idade contemporânea. Uma mudança radical entre um tempo e o outro. A garçonete traz o meu pedido e o põe na mesa; uma porção de batatas fritas e um refrigerante, o meu chá e a torta que havia pedido. Encaro a jovem de pele branca e de bochechas rosadas, que me olha com um sorriso.
- Desculpe, eu não pedi essas batatas e o refrigerante!
- Eu sei, o moço ali pagou pra você. - Inclino um pouco a cabeça para ver o tal rapaz por trás da garota, bem acomodado na outra mesa e o meu professor ergue a sua latinha em um brinde. Reviro os olhos.
- Pode levar de volta, por favor? - peço. Seu sorriso gracioso desaparece instantaneamente.
- Mas,
- Só leve isso daqui! - A corto ríspida.
- Claro, senhorita! - Ela força um sorriso e põe os pedidos de volta em sua bandeja, deixando apenas o que lhe pedi, e eu volto a me concentrar no meu livro. Aonde foi mesmo que parei? Me pergunto, e no segundo seguinte, sinto alguém esbarrar forte contra a minha mesa, fazendo a xícara virar e derramar o líquido amarelado e quente pelo tecido perolado. "Mas o quê?" Ergo a cabeça e encaro o meu professor com um olhar espantado, olhando o estrago que acabara de fazer na toalha da mesa.
- Seu idio...
- Tá! Eu já sei - disse me interrompendo. - Eu sou mesmo um idiota, um destrambelhado e um imbecil, mas você é uma menina muito mal educada! - Ergo ainda mais a minha cabeça, empinando o meu queixo e demostro toda a minha irritação.
- O que você quer de mim, professor Adrien? - Tento não ser ríspida com ele. Ele dá de ombros.
- Um pedido de desculpas. Nós começamos esse relacionamento errado. - Hein?!
- Relacionamento, que relacionamento? - O corto outra vez. Ele cora literalmente e balbucia qualquer coisa sem fazer som. Parece nervoso.
- Es... esse - gagueja apontando dele para mim. Eu me encosto na cadeira e cruzo os meus braços, ainda perdida na palavra "relacionamento". - Professor/ aluna. - explica e só então ele consegue respirar. - Sem falar que é muita falta de educação sua, senhorita Ferraço! - Continua me encarando com repreensão e mais firme dessa vez. - Nós franceses gostamos de agradar as pessoas, somos pessoas adoráveis e você, deveria saber disso. - Arqueio as sobrancelhas. - Além do mais, como havia dito antes, gostaria me desculpar pelo acidente que causei em seus cadernos, não custa nada aceitar o meu pedido de desculpas! - bufo de modo audível.
- Se eu aceitar o seu pedido de desculpas, o senhor vai embora? - Agora ele arqueia as sobrancelhas loiras e em resposta, puxa uma cadeira para se sentar, sem nenhum convite, ficando de frente para mim.
- Mon Dieu, senhor é um termo muito velho, e eu nem sou tão velho assim. Quantos anos você tem? - Me ajeito na cadeira e me inclino um pouco, me aproximando da mesa e o encaro irritada.
- Não te interessa! E quer saber? Fica com essa mesa, com a torta, as batatas, não me importa! - Fico de pé imediatamente e começo a recolher as minhas coisas, saindo da lanchonete sem me preocupar com a sua reação, ou ouvir as suas idiotices. Mas que merda! Será que ele não vê que não quero saber de nada? Não quero a sua companhia, não quero conversar com ele e tão pouco um amigo. Eu preciso ficar sozinha com o meu passado, com o meu fracasso e com as minhas dores. Vou direto para o campus, para a próxima aula, que agradeço a Deus não ser desse professor pegajoso.
****
A sala de aula está praticamente vazia, pois, ainda temos mais vinte minutos até a próxima aula. Aproveito para abrir a primeira página do meu caderno e encontro nela a foto do Lipe, a única que sobrou, pois, os meus pais confiscaram todas na tentativa de amenizar o meu sofrimento. O que eles não sabem é que a minha dor não estava naquelas imagens e sim, dentro de mim. Perdida em lembranças, deslizo o meu indicador no seu sorriso lindo e as suas palavras doces imediatamente ecoaram dentro de mim.
- Achei isso aqui - Ele ergueu um colar de pérolas e me sorriu. - Posso pôr em você, senhorita? - Meu sorriso se alargou.
- Sim, por favor! - falei, afastando os meus cabelos para o lado e ele pôs o colar no meu pescoço. Lipe me olhou deslumbrado por um tempo.
- Ficou lindo em você! - sussurrou e já não estava brincando como antes. Nossos olhos se encontraram e se fixaram um no outro. Meu sorriso aos poucos foi se apagando e o dele também. Lipe segurou os meus ombros e me virou de frente pra ele. - Não me leve a mal, Kelly - sussurrou, erguendo sua mão e com ela acariciou o meu rosto. - Não estou querendo me aproveitar desse momento que estamos sozinhos aqui, mas...
- O quê? - perguntei com um som baixo demais. Ele deu mais um passo em minha direção e agora estávamos tão próximos um do outro.
- Eu quero... quer dizer, eu posso... te beijar?
(...)
- Bom dia! - Uma senhora entra na sala, me despertando de mais um sonho acordado e eu fecho o caderno, escondendo a imagem do amor da minha vida, sentindo o meu peito amargurado e cheio de saudades. Deus, se eu pudesse voltar no tempo. Se eu não tivesse saído da sua festa naquela noite. Se... são tantos sis, tantos arrependimentos. - Eu sou a professora Lettiê François e na aula de hoje vamos aprender sobre segurança no trabalho. Alguém aqui tem ideia de quantos acidentes podem acontecer em uma cozinha por causa de uma breve distração? - A aula não era atrativa, e confesso que algumas vezes me distrai com momentos que não conseguia apagar da minha mente. Essas lembranças é o que me mantém viva e ativa, e ao mesmo tempo elas me machucam também. No final da tarde, estou de volta ao apartamento e confesso que estou emocionalmente e fisicamente cansada, louca por uma ducha quente e uma cama macia.
****
Quando termino o meu jantar, me esforço para limpar os pratos e deixar a cozinha arrumada. Meu pai sempre me ensinou que um bom chef sempre mantém tudo em seus devidos lugares e eu sei que aprendi com o melhor. Sigo para o meu quarto praticamente me arrastando e quando finalmente chego a cama, ainda encontro forças para estudar e recapitular as aulas de hoje. Já é quase meia-noite quando apago a luz do abajur e ponho a minha máscara, para enfim ter mais uma noite de sonhos. Me viro para o lado e ajeito o lençol, cobrindo o meu corpo e finalmente posso relaxar, e foi aí que tudo aconteceu.
"Mas que porra é essa?"
Indago internamente enquanto retiro a máscara e encaro a escuridão do meu quarto, me sentando em seguida por causa do maldito som alto ecoando uma música francesa, praticamente dentro do meu quarto. Quem é o louco, ou a louca que está ouvindo música a uma hora dessas? Pulo para fora da cama e saio do meu quarto a passos largos, quase que atropelando os móveis a minha frente. Visto um casaco de tecido fino sobre o meu pijama de ceda, amarro pela cintura e vou até a porta. No entanto, quando chego a estender uma mão na maçaneta, a música simplesmente para e uma sequência de risadas femininas ecoa alto no apartamento em frente ao meu. Respiro fundo, muito fundo.
- Ah, j'adore cette chanson! Laisse la musique jouer. - A voz feminina diz manhosa, quase em uma súplica e depois volta a rir.
- Non chérie, il est tard. - Uma voz grossa e masculina responde com um tom doce e carinhoso.
- Je t'aime! - Ela sussurra.
- Je t'aime aussi! - Porra! Me afasto lentamente da porta, me sentindo arrasada e seguro as lágrimas. Volto para o meu quarto e me jogo na cama. A música volta a tocar, mas dessa vez com um tom mais baixo e suave, e é possível escutar os cochichos e as risadinhas dos dois através da parede. Sorri por dentro. Sei bem o que é estar apaixonada e eu jamais estragaria isso entre eles. O barulho do casal dura pouco tempo e a música foi desligada já na metade, mas o sono não veio mais. O cansaço e a fadiga não me abandonaram e mesmo assim, eu vi mais um dia amanhecer na grande Paris.
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Vocabulário;
Mon Dieu – Meu Deus
j'adore cette chanson! Laisse la musique jouer – Eu adoro essa música! Deixa tocar.
Non chérie, il est tard – Não, querida. Já está tarde.
Je t'aime! _ Eu te amo!
Je t'aime aussi! _ Eu te amo mais!