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O Cheiro do Triunfo

O Cheiro do Triunfo

Autor:: Qing Bao
Gênero: Moderno
O cheiro de desinfetante no hospital era sufocante. Acabei de acordar da anestesia da cirurgia de coração aberto do meu pai. O sol de Lisboa brilhava lá fora, mas a notícia de um engavetamento grave na Ponte 25 de Abril gelava-me o sangue. O meu marido, Pedro, paramédico, estava destacado para lá. Precisava de saber se ele estava bem. Mas mais do que isso, precisava de lhe dizer que o nosso casamento tinha acabado. Quando ele finalmente atendeu, a voz dele era irritada, mas então ouvi a voz suave de outra mulher ao fundo: a minha prima Clara. Ouvir o meu tio, pai dela, a agradecer ao Pedro por "salvar" a Clara do acidente, e o Pedro a prometer cuidar dela, foi como um soco no estômago. O meu pai, o sogro dele, acabava de sair de uma cirurgia de emergência no mesmo hospital, e Pedro estava a cuidar da minha prima? Quando lhe disse que queria o divórcio, a raiva dele explodiu, chamando-me egoísta por não entender a "obrigação" dele, e depois bloqueou-me. Ele não se importava com o meu pai, que esteve à beira da morte? A vida do meu pai dependia de um tratamento caríssimo, e a minha única esperança, o homem que chamei de marido, negou-se a ajudar. Pior, ele recusou o divórcio, apontou para a nossa casa e para os nossos bens, e ameaçou: "E o teu pai? Achas que consegues pagar tudo sozinha com o teu salário de professora?" Fui forçada a engolir o meu orgulho e, com o coração pesado, aceitei o seu "acordo": eu retirava o pedido de divórcio e ele pagava. Pensei que a tinha perdido a mim mesma. Mas quando Pedro, embriagado, tentou forçar-me e meu pai, que mal se aguentava em pé, gritou para ele me largar, soube que tínhamos de lutar. Eu preferiria morrer a viver assim. Era hora de reativar o processo e ir com tudo.

Introdução

O cheiro de desinfetante no hospital era sufocante.

Acabei de acordar da anestesia da cirurgia de coração aberto do meu pai.

O sol de Lisboa brilhava lá fora, mas a notícia de um engavetamento grave na Ponte 25 de Abril gelava-me o sangue.

O meu marido, Pedro, paramédico, estava destacado para lá. Precisava de saber se ele estava bem.

Mas mais do que isso, precisava de lhe dizer que o nosso casamento tinha acabado.

Quando ele finalmente atendeu, a voz dele era irritada, mas então ouvi a voz suave de outra mulher ao fundo: a minha prima Clara.

Ouvir o meu tio, pai dela, a agradecer ao Pedro por "salvar" a Clara do acidente, e o Pedro a prometer cuidar dela, foi como um soco no estômago.

O meu pai, o sogro dele, acabava de sair de uma cirurgia de emergência no mesmo hospital, e Pedro estava a cuidar da minha prima?

Quando lhe disse que queria o divórcio, a raiva dele explodiu, chamando-me egoísta por não entender a "obrigação" dele, e depois bloqueou-me.

Ele não se importava com o meu pai, que esteve à beira da morte?

A vida do meu pai dependia de um tratamento caríssimo, e a minha única esperança, o homem que chamei de marido, negou-se a ajudar.

Pior, ele recusou o divórcio, apontou para a nossa casa e para os nossos bens, e ameaçou: "E o teu pai? Achas que consegues pagar tudo sozinha com o teu salário de professora?"

Fui forçada a engolir o meu orgulho e, com o coração pesado, aceitei o seu "acordo": eu retirava o pedido de divórcio e ele pagava.

Pensei que a tinha perdido a mim mesma.

Mas quando Pedro, embriagado, tentou forçar-me e meu pai, que mal se aguentava em pé, gritou para ele me largar, soube que tínhamos de lutar.

Eu preferiria morrer a viver assim. Era hora de reativar o processo e ir com tudo.

Capítulo 1

O cheiro de desinfetante no hospital era forte, quase me sufocava.

Eu tinha acabado de acordar da anestesia, o meu corpo parecia oco, como se algo vital tivesse sido arrancado.

Do lado de fora da janela, o sol da tarde de Lisboa brilhava, mas não trazia calor nenhum.

Liguei a televisão pequena na parede do quarto, e as notícias mostravam imagens aéreas da Ponte 25 de Abril, com uma fila de carros parados.

Um engavetamento grave.

O jornalista falava de dezenas de feridos, alguns em estado crítico.

O meu coração apertou.

O meu marido, Pedro, era um dos paramédicos destacados para o local.

Peguei no meu telemóvel com a mão a tremer.

O meu pai, ao meu lado na cama, ainda dormia, exausto pela longa cirurgia cardíaca que tinha acabado de fazer.

Eu precisava de falar com o Pedro, precisava de saber se ele estava bem.

Mas mais do que isso, eu precisava de lhe dizer que o nosso casamento tinha acabado.

O som da chamada era frio e longo.

Quando estava quase a desligar, ele atendeu. A sua voz estava cheia de irritação.

"O que foi, Sofia? Não vês que estou no meio de um inferno aqui? Estou a trabalhar sem parar, não tenho tempo para conversa!"

Antes que eu pudesse dizer uma palavra, ouvi outra voz ao fundo, uma voz feminina, suave e familiar.

"Pedro, querido, podes trazer-me um copo de água? A minha garganta está tão seca."

Era a Clara, a minha prima.

A voz do meu tio, o pai dela, soou logo a seguir, cheia de falsa gratidão.

"Pedro, meu rapaz, ainda bem que estavas aqui. Se não fosses tu a tirar a Clara daquele carro, nem quero imaginar o que teria acontecido."

Pedro respondeu imediatamente, a sua voz agora cheia de preocupação.

"Não se preocupe, tio. A Clara está bem, só uns arranhões. Eu estou aqui para cuidar dela."

Um riso amargo escapou-me.

Então ele estava a cuidar da minha prima.

Enquanto o meu pai, o seu sogro, lutava pela vida numa mesa de cirurgia a poucos metros de onde ele estava.

"Pedro," eu disse, a minha voz mais firme do que eu esperava. "Vamos divorciar-nos."

Houve um silêncio de dois segundos.

Depois, a sua raiva explodiu através do telefone.

"Divorciar-te? Estás maluca? Eu estou a salvar vidas! A Clara estava no acidente, era minha obrigação ajudá-la! Não tens um pingo de compaixão?"

"E o meu pai?" perguntei, sentindo a garganta a fechar-se. "Ele não importa? Ele estava a ter uma cirurgia de emergência no mesmo hospital onde estás."

"O teu pai tem os médicos! Eu sou paramédico, o meu lugar é na emergência! Para de ser tão egoísta, Sofia! A Clara precisa de mim agora. Pensa no que estás a dizer!"

E desligou.

Simplesmente desligou.

Tentei ligar de volta.

Ele tinha-me bloqueado.

Olhei para a porta fechada do quarto do meu pai.

Tínhamos passado os últimos dois anos a poupar cada cêntimo para esta cirurgia.

Era a nossa única esperança.

O nosso casamento já estava em ruínas, mas a doença do meu pai era a cola frágil que nos mantinha juntos.

Eu precisava do apoio dele, ou pelo menos, era o que eu pensava.

Agora, essa cola tinha-se dissolvido.

Não havia mais nada a que me agarrar.

Ele disse que era sua obrigação ajudar a Clara.

Mas o acidente foi na Ponte 25 de Abril. O hospital onde o meu pai foi operado fica em outra zona da cidade.

Ele não foi simplesmente "ajudar".

Ele escolheu estar com ela.

Quando liguei para ele esta manhã, em pânico, a caminho do hospital com o meu pai a sentir dores no peito, ele disse que estava demasiado ocupado.

Desligou-me na cara.

Várias vezes.

Ele não se importava.

Comigo, com o meu pai.

O homem que ele chamava de "pai" há cinco anos.

O telemóvel do meu pai, pousado na mesinha de cabeceira, começou a vibrar.

Era o meu tio a ligar.

O meu pai mexeu-se, abriu os olhos devagar, e atendeu a chamada antes que eu pudesse impedi-lo.

A voz zangada do meu tio encheu o silêncio do quarto.

"Afonso! Que raio de filha é que tu criaste? Ameaçar o Pedro com o divórcio num momento destes! Ela não tem vergonha? Depois de tudo o que ele fez pela Clara!"

Capítulo 2

O meu pai olhou para mim, a confusão no seu rosto pálido.

Ele tirou o telemóvel do ouvido e passou-mo, a sua mão tremia ligeiramente.

"O que se passa, Sofia?"

Eu peguei no telemóvel.

A voz do meu tio continuava a gritar do outro lado.

"Ela é uma ingrata! O Pedro é um herói! Ele salvou a minha filha!"

"Tio," eu disse, com a voz fria como gelo. "O Pedro é meu marido. O meu pai, o teu irmão, acabou de sair de uma cirurgia de coração aberto. Onde é que ele estava?"

Houve uma pausa.

"Ele... ele estava a cumprir o seu dever!" gaguejou o meu tio. "A Clara estava em perigo!"

"E o meu pai não estava?"

"Isso é diferente! Havia uma equipa inteira de médicos com o Afonso!"

"Exato," respondi. "E o Pedro escolheu não fazer parte dela. Ele escolheu estar com a sua prima em vez de estar com o seu sogro. O divórcio não é uma ameaça, é uma promessa."

Desliguei-lhe o telefone na cara, tal como o Pedro me tinha feito.

O meu pai olhava para mim, os seus olhos cheios de uma dor que não era apenas física.

"Ele não veio," sussurrou ele. "Eu perguntei por ele antes da anestesia... as enfermeiras disseram que não o viram."

Senti uma onda de fúria a subir, mas forcei-a a descer.

O meu pai não precisava da minha raiva agora.

Ele precisava de paz.

"Não importa, pai. Eu estou aqui. Nós não precisamos dele."

Ele fechou os olhos, e uma única lágrima escorreu pela sua têmpora.

Eu limpei-a com o polegar.

O meu telemóvel vibrou.

Era uma mensagem do Pedro.

"Tu vais arrepender-te disto, Sofia. A tua família vai virar-te as costas."

Eu apaguei a mensagem sem responder.

A minha família?

A minha família era o homem deitado naquela cama de hospital.

O resto... o resto eram apenas parentes.

Pouco tempo depois, a porta do quarto abriu-se.

Era a minha tia, a mulher do meu tio, com a Clara a apoiá-la.

A Clara tinha um pequeno curativo na testa e mancava de forma exagerada.

"Afonso, meu querido!" disse a minha tia, com a voz a pingar falsa simpatia. "Viemos assim que soubemos! Como te sentes?"

O meu pai abriu os olhos e forçou um sorriso fraco.

A Clara aproximou-se da cama, os seus olhos a brilhar com lágrimas de crocodilo.

"Tio, desculpe. Foi tudo culpa minha. O Pedro só estava a tentar ajudar-me."

"Não é culpa tua, querida," disse o meu pai, a sua voz rouca.

Eu fiquei de pé, bloqueando o caminho dela.

"Acho que já chega de teatro por hoje, Clara. O meu pai precisa de descansar."

A minha tia olhou para mim, ofendida.

"Sofia! Que modos são esses? A tua prima quase morreu!"

"Quase," repeti eu, olhando diretamente para a Clara. "Mas não morreu. O meu pai, por outro lado, esteve mais perto disso do que qualquer um de nós. E o marido que eu tenho, o teu salvador, não se dignou a aparecer."

A Clara recuou um passo, o seu rosto a contorcer-se.

"Eu não sabia! Pensei que ele te tinha avisado!"

"Oh, ele avisou-me," eu disse. "Avisou-me que a sua prioridade era tu."

"Sofia, para com isso!" gritou a minha tia. "Estás a ser cruel! O Pedro ama-te!"

Eu ri.

Um som seco e sem alegria.

"Se isto é amor, então prefiro o ódio. Agora, por favor, saiam."

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