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O Conde E Eu

O Conde E Eu

Autor:: Ana Queiroz
Gênero: Romance
Em uma Inglaterra vitoriana regida por convenções e segredos, Eleanor Ashford é uma jovem escritora ousada que foge às regras da sociedade. Quando seu caminho cruza com o enigmático e poderoso Conde de Ravenshire, um homem assombrado pelo passado e pelas expectativas do título que carrega, os destinos de ambos colidem em um contrato que deveria ser apenas formal, mas logo se transforma em um campo de batalha entre orgulho, paixão e segredos perigosos. Entre bailes luxuosos, cartas secretas, escândalos e encontros proibidos, Eleanor se vê dividida entre o dever e o desejo, enquanto o conde luta contra a única coisa que jamais pôde controlar: seu próprio coração. Uma trama intensa de amor, vingança, erotismo e redenção - onde até mesmo os contratos podem queimar com o calor do toque certo.

Capítulo 1 O Retorno a Ravenshire

A chuva parecia ter escolhido exatamente aquele dia para cair com uma fúria melancólica, como se o céu lamentasse o retorno do Conde de Ravenshire tanto quanto os criados que aguardavam, enfileirados sob a marquise da propriedade. As gárgulas de pedra vertiam lágrimas do telhado, e os vitrais vibravam com o trovão distante.

O coche preto deslizou pelos portões de ferro fundido, rangendo como se também protestassem contra a chegada. Dentro dele, o homem que há anos abandonara seu título olhava pela vidraça em silêncio, os olhos cinzentos fixos na silhueta do que um dia fora seu lar - e que agora mais parecia uma sepultura de lembranças.

Edward Alexander Blackwell, o nono Conde de Ravenshire, retornava após uma ausência de sete anos. O escândalo que o fizera partir fora abafado pelos boatos e pela distância, mas as cicatrizes permaneciam abertas em sua alma - e, ao que tudo indicava, também na mansão que parecia ter parado no tempo desde sua partida.

Assim que o coche parou, o lacaio abriu a porta. Edward desceu com um passo firme, mas seus olhos percorreram o saguão com a hesitação de quem retorna não por desejo, mas por obrigação. O cheiro de madeira envelhecida e rosas secas o atingiu com força. Nada havia mudado, exceto ele.

- Milorde - disse o mordomo, inclinando-se com a precisão de décadas de serviço. - Seja bem-vindo de volta a Ravenshire.

Edward apenas assentiu. Estava cansado, molhado e, acima de tudo, incomodado com a ideia de estar de volta àquele lugar. O testamento de seu pai havia sido claro: ele deveria retornar, assumir suas responsabilidades, ou a linhagem dos Blackwell se extinguiria por negligência.

E havia Eleanor.

Mas dela ele não se permitia lembrar. Ainda não.

Subiu as escadas pesadas, ignorando os criados que o seguiam com o olhar. A biblioteca o esperava como um velho amigo calado. Empurrou as portas com ambas as mãos, e o cheiro de pergaminhos e couro invadiu seus sentidos. A lareira estava acesa, como se alguém soubesse que ele iria direto para lá.

E, de fato, alguém sabia.

- Milorde. - A voz suave cortou o silêncio com uma elegância que apenas mulheres extremamente bem treinadas - ou perigosamente inteligentes - sabiam usar.

Ele se virou, o coração traidor acelerando por um instante.

Eleanor Ashford estava encostada em uma estante, trajando um vestido azul escuro, de mangas longas, com detalhes em renda preta. Seu cabelo castanho, preso em um coque frouxo, deixava fios rebeldes caírem sobre o rosto. Ela não sorriu. Não o cumprimentou. Apenas o olhou como se sete anos não tivessem passado.

- Lady Eleanor - disse ele, formal, erguendo levemente o queixo.

- Ainda é "Lady" mesmo depois de tudo? - ela replicou, sem alterar o tom.

Edward a observou em silêncio por longos segundos. Em sua ausência, Eleanor crescera, deixara de ser a jovem impulsiva que escrevia cartas ácidas e agora era uma mulher... perigosa. Não no sentido literal, mas no emocional. Sua presença o desarmava.

- Soube que publicaste um livro - ele comentou, andando até a lareira. - Um romance, não é?

- Com um conde canalha e uma jovem ingênua, sim. Inspirado em fatos reais, imagino que dirás. - Ela cruzou os braços. - Mas creio que vieste por outro motivo, milorde.

Ele serviu-se de um brandy e virou metade do líquido de uma vez.

- Meu pai está morto, Eleanor. Deixou ordens. Terras, dívidas, propriedades, contratos...

- ...e um acordo não cumprido.

Edward virou-se para ela. Seus olhos brilharam com algo entre raiva e confusão.

- Ainda te agarras àquilo?

- Era um contrato, Edward. Eu cumpri a minha parte. Você fugiu da sua.

A lembrança lhe caiu como gelo nas costas. Aos dezenove anos, ele havia sido prometido a ela por um acordo entre famílias, selado por interesses políticos e terras. Ele, orgulhoso e imaturo, recusara-se a aceitar o casamento. Fugira. Viajara pela Europa, tornara-se um homem frio, vivido, endurecido. Mas o contrato permanecera válido - e agora, com o conde morto, a cláusula era clara: ele teria de casar-se com Eleanor ou perderia Ravenshire para os Ashford.

Ela caminhou em sua direção, os saltos ecoando como um metrônomo que marcava o fim de sua liberdade.

- Não te quero por amor, Edward. Isso morreu com as cartas que nunca me respondeste. Quero o título. O que me é devido.

Ele a encarou, sério.

- E o que farás com ele?

Ela sorriu, fria.

- Ser condessa me cai bem. E pretendo transformar Ravenshire em algo útil. Talvez um centro literário. Ou um refúgio para mulheres abandonadas.

Ele quase riu. Quase.

- E eu, Eleanor? Onde fico nesse plano?

Ela aproximou-se tanto que ele pôde sentir o perfume de jasmim que ela sempre usara. Seus olhos castanhos eram abismos e espelhos ao mesmo tempo.

- Ficarás como sempre estiveste: à margem da minha história.

Sem mais palavras, ela se virou e saiu, deixando-o sozinho com sua bebida e o peso do passado. Mas Edward sabia - com a certeza cortante de um homem que já cometera todos os erros - que aquilo não terminaria ali.

Eleanor podia fingir indiferença, mas seus olhos... ah, seus olhos ainda o desejavam.

E ele pretendia explorar cada centímetro da fraqueza que ela negava possuir.

Mas não agora.

Agora, ele apenas precisava sobreviver à noite.

Capítulo 2 A Dama das Sombras

Os corredores de Ravenshire pareciam mais escuros do que Eleanor se lembrava. Talvez fossem as cortinas pesadas, ou talvez fosse ele - Edward, o homem cuja sombra agora voltava a cobrir a propriedade como uma névoa fria. Quando partira, jurara a si mesma que esqueceria seu nome. Agora, ali estava ele, cruzando portas como se ainda fosse o dono de tudo, inclusive dela.

Mas ela não era mais aquela garota que escrevia cartas em noites de tempestade e esperava uma resposta que jamais viria.

Subiu as escadas em direção ao quarto que lhe haviam reservado - não o de convidada, tampouco o de condessa. Ainda era cedo para reclamar tal título. O casamento precisava ocorrer primeiro. Um papel assinado. Uma aliança no dedo. Uma cerimônia diante de uma sociedade faminta por escândalos.

- Lady Ashford - chamou uma criada, apressada atrás dela.

Eleanor parou no corredor e virou-se, paciente.

- Sim, Molly?

- Há uma correspondência vinda de Londres. Entregaram hoje cedo.

Eleanor estendeu a mão e tomou o envelope selado. O brasão em cera vermelha era inconfundível: o selo da Baronesa Fairmont, sua antiga patronesse e, durante algum tempo, algo próximo de uma mentora. No entanto, nada com aquela mulher vinha sem segundas intenções.

- Obrigada, Molly. Pode ir.

Trancou-se no quarto e, com dedos cuidadosos, rompeu o selo. A carta era curta, mas carregava veneno nas entrelinhas:

"Querida Eleanor,

Soube de tua união iminente com o Conde de Ravenshire. Não posso senão parabenizá-la - ou lastimá-la, a depender do ponto de vista. Lembro-me bem da última vez em que mencionaste o nome dele com tanto veneno na língua quanto um escorpião. Diga-me, minha cara, és capaz de conviver com um homem que outrora fugiu do altar como um covarde? Ou estás prestes a vingá-lo com o chicote de tua própria astúcia?"

Com um misto de saudades e cinismo,

Baronesa A. Fairmont

Eleanor suspirou. Todos sabiam. E, pior, todos esperavam algo dela - seja uma reconciliação poética ou uma tragédia pública. Talvez, pensou, pudesse lhes oferecer ambos.

Na manhã seguinte, o sol finalmente rompeu as nuvens, mas a luz pouco fazia para dissipar o frio dentro da casa. Eleanor caminhava pelos jardins ao lado de Lady Beatrice, uma viúva idosa e vizinha constante da família Blackwell. A velha senhora era uma das poucas pessoas que ousava falar abertamente sobre as desgraças da aristocracia.

- O conde voltou com mais rugas e menos sorrisos - comentou ela, sem cerimônia. - Espero que não espere amor dele. Homens assim não sabem amar.

Eleanor sorriu, triste.

- Não espero amor. Apenas que cumpra sua parte.

- Então já estás adiantada à maioria das mulheres que conheço. - Lady Beatrice deu de ombros. - Mas cuidado, minha jovem. Homens perigosos se tornam ainda mais perigosos quando obrigados a obedecer uma mulher.

Naquele instante, um passo ecoou atrás delas.

- Não costumo obedecer ninguém, Lady Beatrice - disse Edward, aproximando-se com um sorriso ladeado. - Mas posso fazer exceções para senhoras respeitáveis.

A idosa ergueu uma sobrancelha, divertida.

- Milorde, achava que ainda dormia. Os demônios já o acordaram tão cedo?

- Eles nunca dormem - respondeu ele, com um toque de ironia.

Eleanor observava os dois, tentando decifrar se o conde estava se esforçando para parecer afável ou se aquilo era sua forma natural de seduzir até as pedras. De qualquer forma, funcionava. Lady Beatrice riu, tocando-lhe o braço.

- Deixo-vos a sós. Imagino que tenhas coisas mais interessantes a discutir com a futura condessa.

Assim que ficaram a sós, Eleanor cruzou os braços.

- Vieste espionar-me?

- Vim caminhar - respondeu ele. - Mas, se por acaso esbarrei em ti, creio que não é um crime.

- Tudo que fazes parece sempre um acidente. Uma fuga. Uma ausência.

Edward arqueou uma sobrancelha.

- Estás colecionando mágoas ou tentando me punir?

- Talvez os dois.

- Eu poderia dizer que sinto muito - disse ele, dando um passo mais perto -, mas estaríamos ambos mentindo. Nunca fui bom com arrependimentos.

- Fica melhor com promessas quebradas - replicou ela.

Eles se entreolharam. A tensão entre os dois parecia uma corda esticada sobre fogo. E, por um instante, nenhum deles falou. O vento brincava com os cabelos soltos de Eleanor, e Edward quase estendeu a mão para tocá-los. Quase.

- O casamento será público - disse ela, mudando de assunto. - E será no fim do mês. Precisamos publicar o anúncio.

- Já tão decidida?

- Não vim até aqui para hesitar.

Ele assentiu, admirando a firmeza dela. Estava diferente. Menos ingênua, mais letal.

- Muito bem, então. Casaremos no dia trinta. E depois?

- Depois? - ela inclinou a cabeça. - Depois você me deixará em paz.

Ele sorriu, irônico.

- Isso nunca foi parte do contrato.

Na noite seguinte, Eleanor decidiu percorrer os corredores da mansão. Há muito perdera o sono, e a presença de Edward a deixava inquieta. Estava prestes a subir a escada principal quando ouviu vozes vindas da biblioteca. A porta estava entreaberta.

Ela aproximou-se em silêncio.

- ...não confio nela - dizia Edward. Era sua voz, mais rouca, mais baixa. - Eleanor quer algo, e não é só o título.

- E o que pensas que ela deseja? - perguntou outro homem. A voz era de Lachlan, o novo administrador da propriedade.

- Vingança. Controle. Talvez poder. Ela nunca me perdoou por tê-la abandonado. E sabe usar isso com habilidade.

Eleanor se afastou da porta com o coração apertado. Talvez ele estivesse certo. Talvez tudo aquilo fosse mesmo sobre poder. Mas era ele quem a obrigava a isso. Um homem que retorna sete anos depois como se nada tivesse acontecido não merecia compaixão. Merecia... resposta.

No entanto, ao voltar ao quarto, encontrou algo inesperado sobre a cama: uma rosa branca.

Sem bilhete. Sem assinatura. Apenas a flor, fresca, perfumada, ainda com orvalho.

Ela soube de imediato que fora ele.

E por mais que sua razão mandasse ignorar o gesto, seu corpo - esse traidor - reagiu com calor.

Eleanor deitou-se com a rosa entre os dedos e, antes de dormir, pensou em algo que não ousava confessar nem a si mesma:

Parte dela ainda o queria.

Na manhã seguinte, o anúncio do casamento fora publicado no The London Gazette. Os nomes estavam lá, lado a lado, como se formassem uma unidade inquebrantável: O Conde Edward Blackwell e Lady Eleanor Ashford anunciaram oficialmente sua união, marcada para o dia trinta do corrente mês, em Ravenshire Hall.

A notícia espalhou-se como pólvora, acompanhada de comentários sussurrados, especulações e apostas sobre quanto tempo duraria tal união. Eleanor ignorava as cartas e bilhetes que chegavam a cada hora. Mas havia um nome entre os remetentes que a fez hesitar: Alistair Thorne, seu antigo pretendente - e inimigo declarado de Edward.

Ela não o via desde que recusara sua proposta dois anos atrás. E agora ele escrevia:

"Querida Eleanor,

Fiquei surpreso ao saber que decidiste entregar tua mão a alguém que a desprezou por tantos anos. Sei que tua inteligência não se curva facilmente a convenções, então pergunto: o que esperas ganhar com isso? Se precisares de um aliado, sabes onde me encontrar.

Com respeito e lembrança,

Alistair"

Ela fechou a carta com dedos trêmulos.

A guerra entre corações e interesses estava só começando.

Capítulo 3 O Primeiro Convite

O saguão de Ravenshire encheu-se de movimento conforme os dias passavam. Costureiras, floristas, mordomos e chefes de cerimônia entravam e saíam como peças de um tabuleiro cuidadosamente manipulado por mãos invisíveis. Tudo precisava estar perfeito - e tudo seria observado.

Eleanor observava tudo do alto da sacada central, com o diário fechado sobre o colo e a mente ainda agitada pela carta de Alistair Thorne. Ele era perigoso, mas havia um charme na maneira como ameaçava sem erguer a voz. Ainda assim, aceitar sua oferta seria o mesmo que incendiar o castelo antes de entrar. E ela não podia - ainda não.

- Lady Ashford - anunciou o mordomo, interrompendo seus pensamentos. - Um convite chegou de Lady Mortimer. Um baile exclusivo para os noivos da temporada. Espera-se vossa presença... e a de Lorde Ravenshire, naturalmente.

Eleanor ergueu os olhos, o coração pesando. Baile. Público. Olhares. Dança.

- Diga que aceitaremos - respondeu, com calma ensaiada. - Será o primeiro de muitos.

Naquela noite, Eleanor foi até a ala oeste da mansão. O lado onde Edward ficava. O convite exigia planejamento, trajes, aparência. Mas também exigia uma encenação: a de um casal que se suportava, que sorria, que conhecia as rotinas e preferências um do outro.

Bateu duas vezes na porta. Nada.

Abriu mesmo assim.

Edward estava à meia luz, a camisa aberta no peito, os cabelos úmidos, recém-saído do banho. Ele olhou por cima do ombro, sem surpresa.

- Achei que já não batias antes de invadir.

- Achei que já não te importavas.

Ele riu, baixo.

- Toque justo. A que devo a honra?

Ela aproximou-se e estendeu o convite.

- Lady Mortimer. Baile. Esta sexta. Teremos que dançar.

- A velha Mortimer ainda insiste em ver jovens sofrendo sob seus lustres. - Ele pegou o papel com desdém. - Supõe-se que fingiremos gostar um do outro?

- Não. Suponho que faremos parecer que podemos coexistir sem nos matar.

Ele sorriu com ironia. Deixou o papel sobre a mesa e foi até a garrafa de uísque.

- E o que espera que eu vista? - perguntou, virando o líquido âmbar no copo.

- Algo que pareça nobre. Discreto. E caro. - Ela hesitou antes de acrescentar: - Teremos os olhos de Londres sobre nós.

- Eles nunca deixaram de nos observar, Ellie.

Ela odiava aquele apelido nos lábios dele. Porque o fazia lembrar.

Antes que pudesse retrucar, ele se aproximou com o copo em mãos.

- Acredita que enganarão todos com um simples baile?

- Não quero enganar. Quero controlar a narrativa.

- Então controla a mim - murmurou ele, tão perto que ela podia sentir o calor de seu corpo, o leve cheiro de especiarias e tabaco. - Consegue?

Ela o encarou com firmeza. Uma batalha muda, de vontades, orgulhos e feridas antigas.

- Ainda não. Mas vou conseguir.

O baile de Lady Mortimer era o evento da temporada. Na sexta-feira, carruagens bordadas se alinhavam diante do portão da propriedade Mortimer, enquanto os convidados atravessavam os salões dourados com taças de champanhe, plumas e expectativas.

Eleanor surgiu como uma deusa entre os mortais.

Vestia-se de prata líquida, um cetim que escorria pelo corpo, moldando-lhe as curvas e expondo mais do que a aristocracia costumava aceitar. Mas não era vulgar. Era o tipo de provocação elegante que obrigava qualquer um a parar e notar. O decote era preciso, o bordado, letal. E os olhos? Dois cacos de gelo em brasa.

- Parece que preferes guerra em vez de paz - disse Edward ao vê-la.

Ele usava um terno preto de corte impecável, a gravata prata refletindo a luz das velas. Lindo demais para um homem tão perigoso.

- Guerra atrai mais aliados do que submissão - respondeu ela, aceitando o braço dele sem hesitação.

Eles entraram juntos no salão, uma pintura viva daquilo que a sociedade mais desejava ver: escândalo, poder, beleza e mistério.

Lady Mortimer veio recebê-los com entusiasmo artificial.

- Conde! Lady Ashford! Que prazer finalmente vê-los lado a lado. Londres anseia por vosso enlace.

- Então lhes daremos o espetáculo que merecem - disse Eleanor, sorrindo como se não escondesse uma lâmina na manga.

As danças começaram. Primeiro as formais, seguidas pelas mais íntimas. Quando o mestre de cerimônias anunciou a valsa, Edward estendeu a mão a Eleanor sem ironia.

- Uma dança, minha quase condessa?

Ela hesitou apenas um segundo. Depois aceitou.

Os dois deslizaram pelo salão como se sempre tivessem sido amantes - ou rivais. Ele guiava com perfeição. Ela, com altivez. O toque das mãos, firme. O olhar, um duelo.

- Está aproveitando o espetáculo? - sussurrou ele, os lábios quase roçando sua orelha.

- Estou comandando-o.

- E se eu quiser tomar o controle?

- Tarde demais, Edward. Já estás dançando conforme minha música.

Ele riu, e pela primeira vez em anos, foi genuíno.

- A Ellie de antes jamais falaria assim.

- A Ellie de antes morreu quando esperou tua carta por três anos.

Silêncio.

Ele a puxou mais para perto, tão perto que ela sentiu seu coração bater.

- Talvez eu devesse lamentar.

- Talvez devesse mesmo.

A música acabou. Eles pararam. E a sala explodiu em aplausos, não pela música, mas pelo que os dois representavam: um escândalo renascido, um casal que prometia incendiar toda a temporada.

Mais tarde, quando estavam prestes a deixar o baile, um criado entregou a Eleanor um envelope preto. Sem remetente. Sem lacre.

Ela o abriu ali mesmo, sob a luz do saguão, com Edward ao lado.

Dentro havia apenas uma frase escrita com tinta vermelha:

"Você não pode controlá-lo. Mas eu posso destruí-lo."

Edward olhou por cima do ombro dela. A expressão endureceu.

- Quem te mandou isso?

Eleanor dobrava o papel com calma.

- Alguém que não entendeu a mensagem. Ainda estou no comando.

Mas por dentro, ela sabia: o passado estava se movendo. E eles não estavam mais sozinhos nesse jogo.

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