Isa
- Seu nome, por favor!
- Isadora Dixon.
- Certo, Isadora! Temos uma vaga disponível para copa. Ela está bem longe do que o seu currículo nos oferece, mas... - Respiro fundo. A verdade é que eu já andei tanto e espalhei vários currículos por todos os lugares dessa cidade e nada. E o pior é que eu não posso esperar mais tempo. Eu preciso de um emprego e preciso para ontem!
- Tudo bem, eu fico com esse!
- Você tem certeza?
- Infelizmente, eu não tenho muita escolha. Eu preciso de um emprego e de um salário com urgência. - Forço um sorriso para a moça do outro lado do balcão da agência de empregos.
- Tudo bem! Anotarei o endereço para você e vou ligar para a D'Angelo avisando que ocupará essa vaga.
- Obrigada, Dany - Aguardo a moça fazer as anotações e assim que saio do prédio, sigo direto para a D'Angelo Corporation.
Um emprego em uma das maiores empresas de administração e contabilidade do país seria uma oportunidade única para a minha carreira. Servir cafezinho, limpar balcões e mesas não era o que eu tinha em mente, porém, para hoje me serve e muito. A minha vida não tem sido muito fácil desde que Andrew Dixon, meu pai faleceu em um acidente de carro. É como se ele fosse o eixo que mantinha tudo em seu devido lugar. Desde então John Dixon, meu irmão mais velho saiu de casa em busca de suas aventuras e a minha mãe Sara Dixon não tem tido muita vontade de viver ultimamente. Depois vieram as dívidas que quase nos deixaram sem um teto e sem comida, ou sem os dois.
Enfim, servir cafezinho é o que vai nos manter da melhor maneira possível por um tempo. Com uma respiração profunda ergo a minha cabeça e fito o arranha-céu suntuoso forçando-me a entrar nele em seguida. Inevitavelmente observo o luxo por todo o hall e caminho para o enorme balcão de um mármore negro e lustroso, e me apresento para a jovem atrás dele.
- Bom dia, eu me chamo Isadora Dixon. A agência de empregos me enviou para a vaga na copa. - Estendo-lhe o papel e ela o ler em silêncio, abrindo um sorriso profissional em seguida.
- Avisarei que está aqui, Senhorita Dixon. - Apenas aceno um sim para a moça, enquanto ela pega o telefone e fala com alguém. - Pronto, siga para o elevador dos empregados e aperte a tecla do terceiro andar. Alguém estará a aguardando.
- Obrigada! - Não me imaginei entrando em lugar como esse pela área de serviços, afinal, estudei tanto e me dediquei por anos a fio que esperava pelo menos entrar pela porta da frente e ocupar uma sala só minha. Sonhos, não dá para acreditar neles!
O Tim do elevador avisa que cheguei no meu andar e assim que as portas se abrem um homem de aproximadamente trinta anos, usando um terno barato me abre um sorriso espalhafatoso.
- Você deve ser a Senhorita Dixon. Eu sou Peter Thompson e sou o encarregado desse setor.
- É um prazer, Senhor Thompson! - Estendo uma mão acompanhado de um sorriso cordial para o homem que provavelmente será o meu chefe de agora em diante, enquanto saio do elevador.
- Por favor, me chame apenas de Peter. Agora, venha por aqui. - Ele pede, levando-me para um corredor largo e comprido, e seguimos para a última porta. Na copa tem algumas moças usando um uniforme azul-escuro com aventais e toucas brancas, com a logo de uma empresa que não conheço. Provavelmente a D'Angelo terceiriza esse tipo de serviço. - Vista isso, eu preciso que fique pronta para começarmos - Pega de surpresa apenas arqueio as sobrancelhas enquanto fito o homem alto me estendendo o uniforme.
- Ah... tipo, agora?! - gaguejo pois não imaginava que começaria o meu primeiro dia hoje e tão pouco agora. Quer dizer, eu não avisei nada para ninguém e mamãe ficou sozinha em casa. Droga!
- Algum problema, Senhorita?
- Ah, não, tudo bem! Onde eu posso me trocar?
- Tem um banheiro para empregados voltando por esse corredor, a terceira porta.
Seguro o fardamento e saio da copa para me trocar, e quando volto à cozinha, Peter me apresenta as dezenas de funcionários que estão em fileira e em pé diante dele. Não demora e descubro que a minha primeira tarefa do dia é organizar um Breackfast em uma das salas de reuniões do vigésimo sexto andar. Tudo parece ser muito rápido e pragmático por aqui, e em um piscar de olhos tenho um carrinho prateado na minha frente contendo algumas bandejas com torradas, biscoitos, croissants, uma garrafa de café e outra com água, um bule com chá, algumas xícaras e copos, e uma jarra de suco. A sala de reuniões está completamente vazia e isso me deixa mais à vontade para deixar tudo organizado em um canto de parede próximo a uma enorme janela que tem a mais bela vista da cidade New York. Assim que termino saio, deixando as portas duplas fechadas e imediatamente volto para o meu setor para seguir as próximas ordens.
- O que está achando do seu primeiro dia? - Anne, uma das funcionárias pergunta sentando-se ao meu lado no horário de almoço. Ela abre uma vasilha plástica e o cheiro de comida caseira se espalha pelo ar no mesmo instante. Dou de ombros para a sua pergunta.
- Nada mal - ralho abrindo a embalagem de uma barrinha de cereal que tinha na minha bolsa.
- Aqui não é tão ruim. Temos um salário, plano de saúde, cartão alimentação e ganhamos alguns extras caso precise passar do horário.
- Passar do horário? - Ela meneia a cabeça, fazendo um sim e leva uma garfada da comida a boca.
- Às vezes chego a fazer quase dois mil por mês só de horas extras.
- Uau! - digo com desdém. Não estou desdenhando, mas dois mil por mês não dá nem para começar a quitar as dívidas que meu pai deixou. Sem falar no aluguel e as contas do cotidiano. Bufo mentalmente. E ainda tem a minha mãe, que não pode ficar sozinha. Terei que pensar onde a deixá-la durante o dia enquanto estiver trabalhando.
- Você só trouxe isso para o almoço? - Anne pergunta me despertando.
- Na verdade, eu não sabia que começaria hoje.
- Entendi. Se quiser eu posso dividir o meu com você.
- Não precisa, Anne, obrigada! Na verdade, eu não estou muita fome no momento.
No segundo turno foi difícil manter a minha concentração. Eu estava preocupada com Dona Sara, com o fato de estar sozinha em casa e nem sequer pude telefonar para Mila a nossa vizinha para pedir que a olhasse até eu voltar. Contudo, pude me distanciar dos problemas que tiram o meu sono todas as noites desde que tudo virou de cabeça para baixo.
Os credores que batem em minha porta querendo receber o dinheiro que meu pai lhes deve, ou na última carta do banco que me deu um ultimato para quitar a hipoteca da casa. Como não pude pagar nada fomos despejadas e confiscaram tudo que tinha de valor. Menos as minhas economias, que já está quase no fim.
- Uau, você está maravilhosa! - sibilo admirada para Emma que surgiu no meu campo de visão usando em um vestido negro colado ao seu corpo de uma forma sensual e uma maquiagem que realçava os olhos negros, e puxados. Ela leva as mãos por baixo dos cabelos volumosos e cacheados, e sacode os fios.
- Ela está indo para a boate Tecno's Kiss. Emma é dançarina à noite. - Anne explica, enquanto a morena passa um batom vermelho-púrpura na boca.
- Ah! - É tudo que consigo dizer.
- Pois é, não dá para viver apenas com um salário de copeira. - Emma resmunga e ajeita uma bolsa a tiracolo brilhosa em seu ombro. Eu só penso que ela está certíssima, entretanto, eu não fazia ideia. Durante toda a minha adolescência e mocidade sempre tive tudo nas minhas mãos e a minha família era feliz, então eu estava satisfeita com isso. Como tudo mudou tão radicalmente do dia para noite? Essa é uma pergunta que me faço todos os dias.
- Estou indo! - aviso após trocar de roupa e as meninas acenam um tchau de dedos para mim.
Isa
- Ela está dormindo agora. - Mila fala assim que largo minha bolsa em cima do sofá.
- Obrigada, Mila! Não sabe o quão me preocupei com ela hoje - sibilo me sentindo cansada.
- Sabia que havia saído a procura de emprego e quando percebi que não voltou para casa, supus que havia conseguido algo. - Sorrio.
- Sim. Não é muita coisa, mas vai nos ajudar.
- Que bom, querida, e como fará com ela? - Solto uma lufada de ar audível.
- Ainda não sei, Mila. Será que pode olhá-la enquanto volto para casa?
- Posso fazer isso por alguns dias, querida, mas você sabe que a Sara precisa de cuidados especiais.
- É, eu sei. Mas com o que receberei mal dará para assumir as contas e nos alimentarmos. Como farei para pagar uma clínica? - resmungo desanimada.
- Querida, você pode deixá-la em uma casa de repouso. Só... até as coisas melhorarem. - Me sinto sufocar só de ouvir essa sugestão, mas sei que não terei outra opção.
- Prometo que pensarei com carinho, Mila. - A doce Senhora força um sorriso para mim.
- Tudo bem, querida! Deixei um pouco de macarronada para você na geladeira. Tome um banho, coma algo e descanse. Amanhã é outro dia.
- Sim. Mais uma vez obrigada, Mila! - Ela assente e sai. Após um banho demorado, visto apenas um conjunto curto de pijama de flanela e antes de ir para o meu quarto aproveito para olhá-la. Mamãe dorme tranquila sobre o efeito de medicamentos e em lágrimas sento-me na pequena poltrona, a observando por longos minutos. - Eu sinto muito, mãe! - sussurro. - Não queria ter que levá-la para longe de mim, menos ainda forçá-la a conviver com estranhos. No entanto, não estou vendo outra saída. Só... prometo que será por pouco tempo - sibilo baixinho e seco as lágrimas. Levanto-me e antes de deixar o quarto beijo suavemente a sua testa.
***
No dia seguinte...
- Bom dia, Isadora! Pronta para mais um dia? - Meu chefe me pergunta com uma animação que não dá para entender. Talvez esse seja o seu jeito estabanado demais, ou talvez queira apenas nos animar para mais um dia corrido. Com um sorriso pego meu uniforme e vou me trocar para mais um dia de trabalho. A D'Angelo é um edifício empresarial, porém, a grande maioria das salas comerciais são de escritórios de advocacia e de administração. Ele reúne nomes de empresas renomadas e de grande porte aqui. Pelo que ouvi as meninas comentarem o Senhor Heitor D'Angelo, o proprietário mantém uma de suas empresas aqui mesmo só que na cobertura. Os boatos ainda dizem que nenhuma de nossas copeiras chegou a servir esse andar. Parece que o homem tem manias de grandeza ou um rei na barriga. Enfim, nem mesmo trabalhando na copa do prédio terei a chance de chegar a esse topo também. - Vamos lá, meninas! Anne, terceiro, quinto e sexto andar. Emma, vigésimo, vigésimo terceiro e trigésimo primeiro. Isadora, o andar de empreendedorismo.
- Olha, mal chegou e já está perto do céu! - Anne ralha com humor tirando a minha atenção da chamada do nosso chefe e me fazendo olhá-la com curiosidade.
- Perto do céu? - Ela faz sim com a cabeça, esbanjando um sorriso largo.
- É o andar mais próximo da D'Angelo e o que dá as melhores gorjetas também. - Emma cochicha e eu olho para o meu chefe que continua lendo a enorme lista de afazeres, passando-as para os devidos funcionários. Enquanto ler ele me lança um olhar indecifrável e sorrio para o homem que me sorri sugestivamente para mim. Apenas finjo descaso e saio com os outros funcionários da pequena sala de reuniões.
- Acho que Peter está arrastando asas para você, Isadora. - Anne comenta com tom de segredo enquanto arruma o seu carrinho.
- Ah, é claro que não! Por que acha isso? - Ela dá de ombros.
- Ninguém nunca vai para esse setor no segundo dia de trabalho. Eles costumam ser bem exigentes quanto a isso e Peter sempre procura manter tudo na mais perfeita ordem. Você fez progressos com nosso chefe, menina! - A garota pisca um olho e empurra o seu carrinho. Inevitavelmente olho para as paredes de vidro que separa o escritório do meu chefe da copa e outra vez o encontro me olhando. Suspiro e tento me concentrar no meu carrinho.
***
Nervosa? Posso dizer que nesse momento essa palavra é um eufemismo para mim. Estou trêmula pra caramba! O fato de saber que a Maden Contabil é o escritório de contabilidade mais requisitado do país e do mundo mexeu com a minha estrutura. E você deve estar se perguntando, por que tanto estresse? Porque contabilidade é o meu mundo. Eu estudei para isso, sonhei com isso a minha vida inteira e principalmente, eu sonhei em trabalhar nessa empresa, mas olha onde estou agora! Exatamente em uma sala de reuniões dos melhores contadores olhando para cada cadeira acolchoada da mesa retangular. Só, que estou do lado errado e não em uma daquelas cadeiras. Ansiosa, passo a mão pelo tecido grosso e azulado de uma delas e chego a suspirar profundamente. Você precisa sair, Isa. Meu subconsciente me alerta e ansiosa pressiono os lábios, afastando-me da mesa, porém, sem lhe dar as costas para ir à porta de saída. No mesmo instante alguém a abre bruscamente e sou empurrada com violência para frente, caindo de quatro no chão de madeira lustroso.
- Merda! - xingo baixinho, porém, exasperada pois sei que fiquei mais tempo que devia estar aqui. Eu só tinha que deixar o maldito carrinho na sala e sair logo em seguida. Por que não diz isso, merda?
- O que faz aqui?! - Uma voz feminina questiona com irritabilidade me fazendo erguer a cabeça e sem jeito me levanto sibilando um pedido de desculpas.
- Eu só... eu só vim trazer o breakfast para a reunião - explicou passando as mãos pelo meu uniforme, tentando arrumá-lo da melhor maneira possível.
- Você é novata?! - É um nítido tom de insatisfação da mulher. Droga, estou muito ferrada!
- S-sim, senhora!
- Peter sabe das nossas exigências, como ele se atreve?! - Engulo em seco e penso que não posso me dar ao luxo de perder esse emprego.
- I-isso não voltará a se repetir, S-senhora - Garanto entre nervosa e agitada.
- Não, não vai! Agora saia daqui!
- Claro, Senhora e me desculpe pelo transtorno! - Dou dois passos apressados para sair quanto antes dali, porém, esbarro forte demais contra um corpo alto e sinto que estou sendo lançada ao chão outra vez. Contudo, antes que eu sinta o impacto um par de mãos seguram firmes a minha cintura e encontro imediatamente um par de olhos cor de mel me olhando. Um sorriso de lado surge em seguida no meio de uma barba rala bem delineada.
- Só me faltava essa agora! - A mulher resmunga ainda irritada e me fazendo-me afastar do homem imediatamente, e trêmula volta a ajeitar o meu uniforme.
- Me desculpe por isso, Senhor! - peço envergonhada, mas não ouso olhar nos olhos de todos que se aglomeram atrás dele devido o maldito incidente.
- Eu mesma cuidarei para que isso não se repita, não se preocupe! - A mulher ralha furiosa e eu forço a minha saída entre os
***
NOTAS DO AUTOR:
Uou, Luna tem uma história com uma reviravolta trágica e bem triste, mas percebo que é uma garota bem forte.
E esse esbarrão, será que trará algumas consequências para a garota?
Eu espero que Caleb consiga consertar as coisas para ela.
Amores por favor não se esqueça de: COMENTAR E AVALIAR O LIVRO.
Isa
Logo mais à noite...
Abro a porta de casa ansiosa por um banho demorado, louca para devorar um jantar e depois simplesmente cair na minha cama. Contudo, ao ver Mila em pé na minha sala com um olhar de pena as minhas energias se renovaram e corro para o segundo quarto do pequeno corredor. Paro estática ao ver minha mãe sentada na ponta da sua cama balançando o seu corpo para frente e para trás e com o olhar perdido.
- Ela não está nada bem hoje! - Mila comenta parando ao meu lado.
- O que houve? - Ela solta um suspiro audível.
- Eu não sei. Sara simplesmente se recusou a tomar os seus remédios e começou a dizer que estava vendo seu pai no quarto. Eu quis acalmá-la, mas ela não parava de gritar e quando parou ficou assim.
- Droga, Mila, por que não me ligou?
- E atrapalhar o seu segundo dia de trabalho?
- Mas, Mila, ela é a minha mãe!
- Sim, eu sei. E você precisa desse emprego para poder ajudá-la. - Solto uma respiração alta e vou para perto da minha mãe. Ponho as mãos nos seus ombros, mas ela sequer me olha nos olhos. O seu olhar continua fixo na parede atrás de mim.
- Oi, querida! - sussurro forçando um sorriso para ela. Mas nada acontece, nenhuma reação sequer. Sara simplesmente parece não estar aqui conosco. - Desculpe ter demorado tanto, mas eu já cheguei. Está vendo? - Forço uma animação que não tenho no momento.
- Isadora, a Sara precisa de ajuda! - Mila insiste. Fecho os meus olhos e seguro as lágrimas. Entretanto, ela tem razão. Eu não posso ajudá-la se não consigo estar perto dela o tempo todo. - A Marisa não pode viver roubando calmantes do hospital. Ela pode perder o emprego.
- Eu sei! - respondo baixinho e com desânimo.
- Andei pesquisando algumas casas de repouso que tem uma mensalidade razoável e eles cuidarão direto dela para você. Deixei alguns contatos e panfletos em cima da mesa para analisar.
- Obrigada, Mila! - Ergo o meu corpo e caminho para fora do quarto. Na sala, me despeço da nossa vizinha, fecho a porta e sento-me sem forças em uma cadeira da mesa de quatro lugares. Observo alguns papéis e cartas no tampo e com um suspiro cansado seguro um panfleto com o nome San Tiago Nursing Home – Casa de Repouso São Tiago e me ponho a ler deixando as lágrimas virem à tona.
- Desculpa, mãe! - Baixo a cabeça e me entrego ao momento doloroso.
***
Alguns dias...
O lugar não é de todo ruim e as mensalidades cabem direitinho no meu bolso, e ainda me sobrará tempo para fazer alguns extras se precisar. Penso enquanto caminho pelos cômodos da casa de repouso ao lado de Larissa Krill, a administradora do lugar. Um quarto só para ela com banheiro, um guarda-roupa pequeno e uma cama de solteiro próximo de uma janela larga de onde poderá apreciar um belo e convidativo jardim. O quarto não é muito espaçoso, porém, é bem iluminado e o contato com a natureza poderá ajudá-la. Larissa me garante um acompanhamento com psicólogo e outros profissionais. Contudo, separar-me da minha única família está me matando por dentro.
- E então? - A mulher me encara em expectativa através dos óculos de grau e antes de lhe responder, olho mais uma vez para o pequeno e aconchegante cômodo.
- Eu gostei! - digo por fim e ela me abre um meio sorriso. - Quando posso trazê-la?
- Primeiro, precisa preencher alguns documentos e uma ficha com todos os dados de sua mãe. É necessário sabermos os mínimos detalhes sobre ela, Isadora. Depois, você precisa pagar a primeira mensalidade adiantada. É só uma forma que encontramos de arcar com alguns gastos iniciais e então poderá trazê-la.
- Está bem, farei isso o mais rápido possível! Obrigada, Larissa!
Saio da casa de repouso satisfeita, embora com o coração apertado no peito, mas com a consciência de que será o melhor para ela. Agora precisarei de mais um emprego para garantir a minha sobrevivência e quitar a hipoteca da nossa casa, e quem sabe poderemos voltar a morar nela? Ao chegar em casa dedico-me a lhe fazer companhia pois a terei por perto por poucos dias, então quero aproveitar o máximo de tempo que teremos juntas. À noite preencho uma longa ficha tendo o cuidado de não esquecer alguma informação e janto sozinha como tenho feito nos últimos dias. Dona Sara passou o dia inteiro divagando e isso é preocupante. O adiantamento da mensalidade foi a coisa mais fácil de se conseguir e acredite, fiquei surpresa com isso, mas o meu chefe facilitou bastante esse quesito. Preciso lembrar-me de agradecê-lo na segunda. O início da semana foi a parte mais difícil da minha vida. Após deixá-la na casa de repouso e de ter a certeza de que ficaria bem fui direto para a D'Angelo, e como imaginei a minha cabeça estava o tempo todo focada em minha última decisão. Até pensei em voltar atrás e ir tirá-la de lá, mas e depois?
- O que você fez dessa vez?! - Peter pergunta com um tom preocupante assim que entra na copa. Eu simplesmente o fito sem reação alguma, afinal eu não sei dizer se fiz algo de errado realmente. Provavelmente sim, mas não tenho certeza.
- Eu... não sei! - gaguejo desnorteada. Deus, eu não posso me dar ao luxo de perder esse emprego! Repito em forma de oração pois agora eu tenho uma responsabilidade a mais.
- Por que a pergunta? - Forço-me a perguntar. O homem solta uma respiração alta e se aproxima um pouco mais.
- O Senhor D'Angelo deseja vê-la em sua sala, agora! - disse com um tom sério demais. Merda, agora eu tenho certeza de que fiz algo errado! Mas foi tão grave ao ponto de o chefão pedir para me ver?