O sino acima da porta da minha pequena floricultura, a "Pétalas de Helena", tocou com uma delicadeza que não combinava com o peso no meu peito. Eu estava nos fundos, tentando inutilmente salvar algumas orquídeas, mas minha mente estava no envelope de despejo que descansava sobre o balcão. Meu pai havia dedicado a vida a este lugar, e agora, por causa de dívidas que eu mal conseguia compreender, tudo estava prestes a virar pó.
Quando saí para atender o cliente, o ar pareceu fugir dos meus pulmões. O homem parado ali não pertencia ao nosso bairro humilde. Ele usava um terno grafite feito sob medida, os cabelos escuros perfeitamente alinhados e uma postura que exalava um poder opressor. Seus olhos cinzentos, frios como o aço, percorreram o ambiente com desdém antes de pararem em mim.
- Alexandre Volkov - sussurrei, sentindo meus joelhos fraquejarem.
Ele era o homem que liderava o império que comprou as dívidas da minha família. Ele era, na prática, o dono do meu destino agora.
- O lugar é ainda mais decadente do que as fotos sugeriam, Helena - ele disse, com uma voz grave que vibrou dentro do meu peito. - Mas o terreno é estratégico para os meus novos empreendimentos.
- Você não pode simplesmente destruir o legado do meu pai por causa de números em uma planilha - rebati, tentando manter a voz firme, embora minhas mãos tremessem escondidas atrás do avental.
Alexandre deu um passo à frente, invadindo meu espaço pessoal. O perfume dele, uma mistura cara de sândalo e couro, me cercou.
- Eu posso fazer exatamente o que eu quiser - ele afirmou com uma arrogância absoluta. - No entanto, vim te oferecer uma alternativa. Uma que salvará esta loja e garantirá que você nunca mais sinta o gosto da pobreza.
Ele colocou uma pasta de couro sobre o balcão, cobrindo o aviso de despejo.
- O que é isso? - perguntei, com o coração acelerado.
- Um contrato. Preciso de uma esposa por um ano para consolidar minha posição na presidência do grupo Volkov. Alguém comum, sem escândalos, que o conselho aceite. Em troca, eu quito suas dívidas e devolvo a escritura desta loja para o seu nome.
Eu olhei para o papel e depois para o homem à minha frente. Alexandre não me queria por amor; ele me odiava tanto quanto eu o odiava. Éramos inimigos declarados. Mas, enquanto olhava para as flores que meu pai tanto amava, percebi que o preço da minha liberdade seria me tornar a esposa do diabo.
O silêncio na floricultura era tão denso que eu conseguia ouvir o tique-tique do relógio antigo na parede, marcando os segundos que me separavam de uma vida que eu nunca imaginei ter. Alexandre Volkov permanecia imóvel, com a caneta de ouro estendida em minha direção, como se estivesse me oferecendo uma chave para o paraíso ou a corrente para a minha própria cela.
- Um ano, Helena - ele repetiu, a voz desprovida de qualquer emoção. - Você mora na minha casa, aparece nos eventos ao meu lado e mantém as aparências. Em troca, o banco retira o processo de despejo e eu injeto capital para reformar este lugar.
Olhei para a caneta. Eu o odiava. Odiava o jeito como ele achava que tudo tinha um preço, odiava a frieza no seu olhar e, principalmente, odiava o fato de que ele tinha razão: eu não tinha escolha.
- Por que eu? - perguntei, minha voz saindo mais firme do que eu esperava. - Você poderia ter qualquer modelo ou herdeira de Nova York. Por que uma florista de um bairro que você despreza?
Alexandre deu um meio sorriso, algo que não chegou aos seus olhos.
- Porque as herdeiras querem o meu coração, e eu não o possuo. Elas querem poder, influência e amor. Você... você só quer salvar o que sobrou da sua dignidade. Você é previsível, Helena. E no meu mundo, a previsibilidade é a única coisa que me permite dormir à noite.
Sem dizer mais nada, peguei a caneta. Meus dedos roçaram nos dele por um breve segundo, e uma descarga elétrica percorreu meu braço, me fazendo recuar instintivamente. Assinei meu nome no rodapé do contrato com uma caligrafia trêmula.
- Está feito - eu disse, entregando a pasta de volta.
- Ótimo. Esteja pronta às oito da noite. Um motorista virá buscar você. Traga apenas o essencial; o restante será providenciado.
Ele se virou e saiu, deixando para trás o rastro do seu perfume caro e a sensação de que eu acabara de vender minha alma.
As horas seguintes foram um borrão. Arrumei uma mala pequena, me despedi das minhas flores com lágrimas nos olhos e fechei a porta da loja. Quando o carro preto blindado parou na frente da "Pétalas de Helena", eu soube que não havia mais volta.
A mansão de Alexandre era uma fortaleza de vidro e aço no topo de uma colina. Tudo ali era cinza, branco e impessoal. Ele me esperava no hall de entrada, já sem o terno, apenas com a camisa branca levemente aberta no colarinho.
- Este é o seu novo lar - ele anunciou, apontando para a escadaria monumental. - Há regras, Helena. A primeira delas: nunca entre no meu escritório sem ser convidada. A segunda: não espere que eu seja um marido atencioso quando estivermos sozinhos.
- Não se preocupe, Alexandre - respondi, subindo o primeiro degrau. - A última coisa que eu quero de você é a sua atenção.
Ele me observou subir com um olhar indecifrável. Naquela noite, enquanto eu me deitava em uma cama que custava mais do que minha loja inteira, eu não sabia que aquele contrato era apenas o começo de um jogo onde o meu coração seria a aposta mais alta.
Acordar na mansão Volkov foi como despertar em um mundo de ficção científica, onde o calor humano havia sido banido. O quarto onde eu passara minha primeira noite era vasto, com janelas que iam do chão ao teto, revelando uma vista privilegiada da cidade que ainda parecia dormir sob a neblina cinzenta da manhã. Não havia o cheiro de café fresco que vinha da cozinha da minha vizinhança, nem o aroma terroso e reconfortante das minhas flores. Ali, tudo cheirava a produtos de limpeza caros, mármore frio e ao vazio de uma casa que nunca conheceu o que era um lar.
Levantei-me daquela cama imensa, cujos lençóis de cetim pareciam escorregar pela minha pele como as promessas vazias de Alexandre. Caminhei descalça pelo tapete felpudo até o closet, que era maior do que toda a minha antiga sala de estar. Estava lotado. Alexandre não tinha mentido quando disse que tudo seria providenciado. Havia vestidos de seda, conjuntos de alfaiataria de grifes que eu só conhecia por revistas e sapatos que custavam mais do que meu carro velho e barulhento.
Escolhi algo sóbrio, um vestido azul-marinho de corte impecável, tentando ignorar o fato de que cada peça ali era uma lembrança constante de que eu era agora parte de um acordo comercial. Eu não era Helena Ferreira, a florista; eu era a noiva contratada de um império.
Desci as escadarias monumentais em silêncio, esperando encontrar a casa vazia, mas Alexandre estava lá. Ele ocupava a cabeceira da mesa de jantar de doze lugares, concentrado em um tablet enquanto tomava um café preto que parecia tão amargo quanto o seu temperamento. Ele nem sequer levantou os olhos quando meus saltos ecoaram no chão de pedra.
- Sente-se, Helena. O café está servido - disse ele, a voz grave e fria cortando o silêncio como uma navalha.
- Bom dia para você também - respondi, sentando-me o mais longe possível dele, na outra extremidade da mesa.
Ele finalmente desviou o olhar do aparelho e me encarou. Seus olhos cinzas, da cor de um céu de tempestade, percorreram meu rosto com uma precisão cirúrgica, como se estivesse procurando por falhas na mercadoria que acabara de adquirir.
- Hoje teremos o nosso primeiro compromisso oficial. Um almoço com o conselho administrativo da Volkov Corp - anunciou ele, ignorando meu sarcasmo. - Eles precisam ver que o noivado é real e que você é... apresentável.
A palavra "apresentável" atingiu meu peito como um tapa. Senti o sangue subir às bochechas e o guardanapo de linho sob a mesa ser esmagado pelos meus dedos.
- "Apresentável"? - repeti, a voz carregada de veneno. - Eu não sou um troféu que você limpa e coloca na estante para impressionar seus sócios, Alexandre. Sou uma pessoa, embora você pareça ter esquecido o significado dessa palavra.
Ele deixou o tablet de lado e se inclinou para frente, apoiando os cotovelos na mesa. A intensidade do seu olhar era quase física, uma pressão que me fazia querer recuar, mas eu me forcei a continuar encarando-o.
- Para o mundo lá fora, você é exatamente o que eu disser que você é - ele afirmou com uma arrogância absoluta. - Use o vestido que deixei separado com a etiqueta dourada. E, por favor, tente esconder esse olhar de desprezo genuíno. Sorria. Finja que está perdidamente apaixonada pelo homem que salvou sua vida e a loja de flores baratas do seu pai, mesmo que saibamos que a verdade é o oposto.
- Você é um monstro - sussurrei, a garganta apertada.
- Um monstro que paga suas dívidas e garante que você não durma na rua, Helena. Não se esqueça disso antes de abrir a boca naquele almoço.
Ele se levantou com uma elegância irritante, ajeitou o paletó e saiu sem olhar para trás, deixando-me sozinha com uma mesa cheia de comida que eu não conseguia tocar. Eu tinha o dinheiro, as roupas e o título de futura Sra. Volkov, mas nunca me senti tão pobre e pequena em toda a minha vida. As muralhas de vidro daquela mansão estavam começando a se fechar ao meu redor, e eu temia que, antes do ano acabar, não sobrasse nada da verdadeira Helena.