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O Coração de Pedra

O Coração de Pedra

Autor: Morana_Valença
Gênero: Romance
Nas sombras de uma cidade onde a névoa encobre pecados antigos, Corinne sobrevive como sempre viveu: roubando, correndo e nunca olhando para trás. Astuta, audaciosa e moldada pelas ruas frias, ela conhece o valor de cada moeda e o preço de confiar em alguém. Mas quando invade uma mansão esquecida pelo tempo em busca de seu maior golpe, Corinne encontra algo muito mais perigoso que ouro. Um colar. Bela e amaldiçoada, a joia desperta uma sentença cruel: seu coração começará a se transformar em pedra, endurecendo a cada dia, até que não reste nela nada além de silêncio e morte. Para quebrar a maldição antes da próxima lua cheia, Corinne terá de fazer o impensável: derramar o sangue de um príncipe herdeiro. Lançada em um jogo mortal entre salões luxuosos, segredos enterrados e uma corte tão bela quanto corrupta, Corinne se infiltra no coração do reino com um único objetivo: sobreviver. Porém, quanto mais se aproxima de seu alvo, mais a linha entre caçadora e condenada começa a se desfazer. Porque algumas maldições não exigem apenas sangue, exigem escolhas. Entre bailes sombrios, profecias esquecidas e verdades capazes de destruir um trono, descobrirá que seu maior inimigo talvez não seja a morte que avança dentro dela...mas o coração que, pela primeira vez, ameaça sentir algo antes de virar pedra. Todo tesouro tem um preço, e Corinne pode estar prestes a pagar com a própria alma.
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Capítulo 1 A Maldição da Casa Esquecida

A névoa descia sobre Belladonna como um véu, engolindo as ruas de paralelepípedos e apagando os contornos das casas. Era nessas noites que Corinne se sentia menos vista. Não que ela quisesse ser vista, aos vinte e dois anos, era uma das ladras mais hábeis da cidade baixa, mas a escuridão e a bruma lhe davam uma espécie de licença poética para existir sem ser notada. Corinne avançava por entre as sombras, os passos leves e silenciosos como os de um gato. O alvo daquela noite, porém, não era uma simples bolsa de moedas pendurada no cinto de um comerciante descuidado.

Nem uma taverna mal vigiada onde os clientes bebiam além da conta. Não. Corinne mirava algo muito maior, no coração da cidade velha, além dos becos e vielas que ela conhecia como as linhas de suas próprias mãos, havia uma casa. Um casarão, na verdade, de torres inclinadas que se debruçavam sobre o abismo como velhos cansados, janelas escuras como órbitas vazias e uma fachada de pedra negra coberta por hera morta. Abandonado há décadas. Diziam que pertencera à família linhagem poderosa que desapareceram em uma única noite, sem gritos, sem sangue, sem rastros. Apenas ausência. Desde então, a casa permanecia intocada. Os moradores desviavam o caminho para não passar por suas grades enferrujadas. As crianças atiravam pedras nos portões e corriam, rindo nervosas. Os mais velhos sussurravam histórias sobre maldições, espíritos vingativos e uma joias amaldiçoadas. Mas Corinne não acreditava em lendas, ela acreditava no que podia ver, tocar e levar. E tudo o que via naquela casa era uma oportunidade dourada. Tesouros esquecidos, relíquias de família, joias em cofres que ninguém ousava abrir. Isso bastava para arriscar.

Ela deslizou pelo muro de pedra coberto de musgo, os dedos encontrando as fendas escuras com a precisão de quem já escalou cem muros como aquele. O musgo estava escorregadio por causa da névoa, mas suas mãos não tremeram. No topo do muro, espiou o jardim selvagem que se estendia abaixo. Ervas daninhas altas dominavam os caminhos, formando um tapete verde-negro que engolia os pés. Estátuas cobertas de trepadeiras pareciam vigias esquecidas, rostos erodidos pelo tempo, mãos levantadas em súplicas silenciosas. O vento gemeu baixo, fazendo as correntes de um velho balanço rangerem. Com um salto ágil e silencioso, Corinne aterrissou sobre a grama úmida, os joelhos flexionados para amortecer o impacto. Ficou imóvel por um instante, os ouvidos atentos. Nada. Apenas o som de seu próprio coração e o chiado distante da cidade.

Ela se esgueirou até a entrada dos fundos, uma porta de carvalho negro que parecia ter sido esquecida pelo tempo. A maçaneta de ferro estava enferrujada, mas cedeu com um rangido longo e profundo, um som que pareceu ecoar por dentro da casa como um gemido. Lá dentro, o cheiro de poeira centenária e madeira apodrecida preencheu o ar, denso como algodão. Corinne acendeu uma tocha que trouxera na bolsa, e a chama dançou trêmula, revelando o corredor à sua frente. O piso de mármore branco, outrora impecável, estava rachado como vidro após uma queda. Folhas secas, trazidas pelo vento através de janelas quebradas, cobriam o chão em montes escuros. Retratos antigos pendiam das paredes em ângulos tortos, seus ocupantes pintados com olhos que pareciam seguir Corinne na penumbra, homens de expressão severa, mulheres de sorrisos gelados. Ela ignorou os calafrios que subiam pela espinha. Não era supersticiosa, não podia ser.

Subiu a escada central com cautela, desviando-se de degraus quebrados que rangevam sob o peso mínimo. A madeira gemeu como se reclamasse de ser pisada. No andar superior, corredores escuros se abriam como galhos de uma árvore morta. Ela seguiu para o quarto principal, guiada por uma intuição que a raramente falhava. Portas cerradas, gavetas lacradas, baús empoeirados, nada que suas mãos habilidosas não pudessem abrir. Seus dedos ágeis passaram por frascos de perfume ressecados, cujo conteúdo virara pó escuro. Por roupas desbotadas pelo tempo, tecidos que se desfaziam ao toque. Por uma caixa de música enferrujada que, quando tocada, soltou uma nota triste e desafinada. Nada daquilo tinha valor. Mas então, atrás de um painel falso no fundo do armário de ébano, seus dedos encontraram algo. Uma caixa pequena, forrada de veludo roxo, sem fechadura. Corinne a abriu com os dedos trêmulos.

E ali estava. Um colar feito de ouro. Sua corrente era fina com um pingente em formato de gota ornamentada, destacando uma pedra rubi cercada por detalhes elegantes. A pedra era tão escura que parecia sugar a luz da tocha. Brilhava com um brilho interno, úmido e pulsante, como um olho que a observava. Corinne nunca vira nada igual. Quando o segurou entre os dedos, sentiu um arrepio elétrico percorrer sua pele, como se mil agulhas de gelo tivessem tocado sua espinha. Algo em sua mente gritava para largá-lo, mas a ambição falou mais alto. A beleza daquela joia era tão hipnótica que a fez colocar ao redor do pescoço.

E o mundo desabou. Uma dor lancinante explodiu em seu peito, como se uma mão invisível tivesse mergulhado entre suas costelas e apertado seu coração com dedos de ferro. Sua visão escureceu, salpicada de estrelas vermelhas. Seu corpo cambaleou para trás, esbarrando no ponto onde havia apoiado a tocha para iluminar o ambiente. A madeira se soltou com o impacto, caiu no chão empoeirado e a chama se apagou quase instantaneamente, mergulhando o ambiente na escuridão. Quando sua visão finalmente voltou ao normal, a sala parecia diferente, mais fria, pesada, quase irreconhecível. Mesmo envolto pela escuridão, ele conseguia ver a fumaça branca escapar de seus lábios a cada respiração trêmula enquanto tentava conter a dor intensa que queimava por dentro. Milhares de vozes pareciam estar falando ao mesmo tempo em línguas que ela não reconhecia. Corinne caiu de joelhos, ofegante, as unhas cravadas no próprio peito. E então, uma voz ecoou na escuridão.

- Ladrões sempre buscam ouro, mas esquecem que todo tesouro tem um preço.

Corinne tentou se levantar, mas algo dentro dela estava terrivelmente errado. Seu coração não batia mais como antes. Batia devagar. Pesado. Como se estivesse se acumulando ali dentro, transformando-se em algo duro e imóvel.

- Seu destino está selado. Seu coração se tornará pedra a cada nascer do sol, até que esteja completamente petrificado. A única maneira de reverter a maldição é derramar o sangue de um príncipe herdeiro antes da próxima lua cheia.

Corinne arfou, os olhos arregalados como os de um animal encurralado. Sua respiração vinha em golfadas curtas e rápidas.

- Quem está aí?! - gritou, a voz ecoando vazia nos corredores vazios. - Apareça!

Mas a casa estava em silêncio novamente. Apenas o chiado da tocha morta e o bater descompassado de seu coração.

Ela levou as duas mãos ao pescoço em um movimento desesperado, tentando arrancar o colar à força. Os dedos tremiam enquanto puxava a corrente, cada vez com mais violência, até as unhas rasgarem a própria pele delicada de seu pescoço, deixando marcas avermelhadas e finos filetes de sangue. Ainda assim, nada aconteceu. A corrente dourada não possuía mais fecho algum. Não havia abertura, emenda ou qualquer sinal de que pudesse ser removida. Estava presa a Corinne como uma algema moldada especialmente para ela. Quanto mais tentava arrancá-la, mais sentia o metal afundar contra sua pele fria. O rubi preso ao centro do colar brilhava intensamente na escuridão, como uma chama viva respirando contra sua garganta. A luz vermelha pulsava devagar, em um ritmo quase orgânico, semelhante às batidas de um coração adormecido. O brilho refletia em sua pele pálida, tingindo seus dedos de vermelho enquanto ela encarava a joia com horror crescente. Parecia fundida ao seu corpo.

Seu coração batia forte, mas errado. Quando tocou o peito com a palma da mão, sentiu uma rigidez estranha logo abaixo da pele, na altura do esterno. Como se uma pequena parte de si já estivesse endurecendo. Como se um dedo de pedra estivesse crescendo dentro dela. O pânico a atingiu como um soco no estômago, ela precisava sair dali. Agora.

Cambaleando, Corinne se levantou, apoiando-se na parede fria. Correu para fora do quarto, tropeçando nos próprios pés. Desceu as escadas aos trambolhões, seus passos ecoando alto demais. Assim que atravessou a porta da frente, o silêncio mortal foi substituído pelo som distante da cidade, carruagens, vozes abafadas, o tinir de ferreiros. O mundo real. Mas nada, absolutamente nada, parecia mais o mesmo.

Corinne correu para a névoa. E a névoa, indiferente, a engoliu.

Capítulo 2 Taverna

A taverna Lobo & Luar estava lotada naquela noite, tomada pelo calor sufocante de corpos apertados em meio às mesas de madeira gastas. Era um contraste quase absurdo com o frio cortante que dominava as ruas da cidade conforme o outono avançava. Do lado de fora, o vento assobiava entre os becos estreitos e carregava folhas secas pelas pedras molhadas da estrada. Lá dentro, porém, o ar era pesado pelo cheiro de cerveja derramada, lenha queimando na lareira e pão recém-assado saindo da cozinha.

Risadas altas ecoavam pelo salão, misturadas ao som irregular de um alaúde desafinado tocado por um homem bêbado perto do balcão. Canecas batiam umas contra as outras, cadeiras arrastavam pelo chão áspero e vozes se sobrepunham em uma confusão constante. Ninguém prestava atenção em ninguém, exatamente o tipo de lugar perfeito para alguém tentando desaparecer.

Corinne sentou-se em um dos cantos mais escuros da taverna, afastada da luz dourada das lanternas penduradas no teto. Puxou o capuz sobre os cabelos desgrenhados e manteve o rosto parcialmente escondido, observando o movimento ao redor sem realmente enxergá-lo. Seus dedos permaneciam fechados em punhos sobre a mesa de madeira, tensos ao ponto dos nós dos dedos estarem esbranquiçados. Não era raiva, era medo. Um medo silencioso e crescente que fazia seu estômago se contorcer.

Ela sentia aquilo outra vez. A rigidez lenta se espalhando por suas mãos, como se algo estivesse endurecendo sob sua pele pouco a pouco. O peso do colar contra sua garganta parecia maior a cada hora, quente demais, vivo demais. A pedra vermelha repousava sobre seu peito como um coração estranho pulsando em ritmo próprio, lembrando-a constantemente da contagem regressiva cruel que agora governava sua vida.

- Você está com a cara de quem viu um fantasma. Ou pior, perdeu uma aposta - disse uma voz zombeteira ao seu lado.

Corinne fechou os olhos por um instante, soltando um suspiro cansado. Não precisou erguer a cabeça para reconhecer aquela voz.

- Se fosse só isso, eu estaria abrindo uma garrafa para comemorar.

Loralie deslizou para o banco ao lado dela com a naturalidade de alguém acostumada a entrar e sair das sombras sem ser notada. Tirou as luvas de couro com calma antes de se acomodar, observando Corinne de lado. Seus cabelos ruivos estavam presos em um penteado simples e prático, embora algumas mechas rebeldes caíssem sobre seu rosto sardento. Havia diversão constante em seus olhos claros, aquele brilho travesso de quem parecia enxergar o mundo inteiro como uma grande piada particular. Se Corinne era uma tempestade prestes a desabar, Loralie era o vento brincalhão que vinha antes da chuva.

- Então conta. - Loralie puxou um pedaço de pão ainda quente da cesta sobre a mesa. - O que foi dessa vez? Aposto três moedas de prata que envolveu você sendo imprudente e uma consequência terrível logo depois.

- Você me conhece bem demais - Corinne soltou uma risada seca, sem humor.

- É um talento.

Por alguns segundos, Corinne ficou em silêncio. Seus dedos passaram lentamente pelo próprio rosto, como se tentasse reunir coragem suficiente para dizer aquilo em voz alta. Só de pensar, o aperto em seu peito aumentava.

- Eu roubei um colar.

- Hmm. - Loralie arqueou uma sobrancelha enquanto mordia o pão. - Nada fora do normal até agora.

- De uma casa abandonada.

- Certo, está ficando mais interessante... - Loralie inclinou-se um pouco para frente, genuinamente curiosa.

Corinne engoliu em seco antes de continuar: - E fui amaldiçoada.

- O quê? - O pedaço de pão parou a meio caminho da boca de Loralie. - Você está brincando, né?

- Queria estar.

Corinne puxou discretamente a gola do casaco para baixo, revelando por um instante o brilho vermelho pulsando sob o tecido escuro. A luz rubra refletiu nos olhos de Loralie antes que Corinne escondesse o colar novamente.

- Ah, merda - O sorriso da ruiva desapareceu.

- Tenho até a próxima lua cheia antes que meu coração se transforme completamente em pedra. - A voz de Corinne saiu mais baixa dessa vez, pesada. - E a única forma de quebrar a maldição é matando um príncipe herdeiro.

O barulho da taverna pareceu distante por alguns segundos. Loralie piscou devagar, encarando a amiga como se esperasse que ela começasse a rir e dissesse que tudo não passava de uma brincadeira cruel. Mas Corinne apenas permaneceu ali, imóvel, o olhar cansado perdido sobre a mesa.

Então Loralie soltou uma gargalhada, alta e escandalosa. Ela jogou a cabeça para trás enquanto ria tanto que precisou apoiar uma das mãos na barriga para recuperar o fôlego, enquanto dizia: - Você conseguiu se ferrar de um jeito completamente inacreditável!

- Você está rindo?! - Corinne lançou um olhar mortal para ela.

- É claro que estou! - respondeu entre risadas. - Corinne, das mil maneiras possíveis de morrer nesse mundo, você escolheu justamente a mais dramática!

- Eu não escolhi nada!

- Ah, escolheu sim. Você viu um objeto amaldiçoado numa casa abandonada e pensou: "vou tocar nisso". Isso definitivamente foi uma escolha.

Corinne bufou irritada e cruzou os braços, afundando ainda mais no banco.

- Muito engraçado - Corinne bufou irritada e cruzou os braços, afundando ainda mais no banco. - Agora me ajuda a sair dessa.

Loralie respirou fundo, finalmente tentando recuperar a compostura, embora ainda estivesse segurando o riso.

- Certo, certo, vamos pensar - Ela apoiou os cotovelos sobre a mesa. - Então você precisa matar um príncipe herdeiro.

- Exatamente.

- O que é um problema enorme, considerando que príncipes e princesas normalmente não ficam desfilando pelas ruas esperando um punhal no pescoço. Além disso, assassinato real costuma terminar em execução pública. O que, honestamente, talvez seja menos doloroso do que virar uma estátua.

- Você não está ajudando - Corinne deixou a cabeça cair sobre a mesa com um gemido abafado.

- Estou ajudando emocionalmente - Loralie sorriu de canto, os olhos brilhando outra vez. - É diferente.

- Estou ajudando emocionalmente. - Loralie sorriu de canto, os olhos brilhando com diversão outra vez. - É diferente.

Corinne soltou um suspiro longo e cansado, apoiando os cotovelos sobre a mesa enquanto passava as mãos pelo rosto. O calor da taverna já não parecia suficiente para afastar o frio que sentia por dentro.

- Acho que é melhor aceitar meu destino de uma vez - Sua voz saiu baixa, amarga. - Todos os príncipes e princesas herdeiros estão em reinos distantes. Eu morreria antes mesmo de conseguir chegar até um deles. - Ela desviou o olhar para a lareira acesa do outro lado do salão, observando as chamas dançarem enquanto tentava ignorar o peso do colar contra sua pele. - E Belladonna perdeu o único herdeiro do trono para aquela doença maldita que devastou metade da cidade no inverno passado - continuou. - Então acabou, eu vou morrer.

Por um instante, Loralie permaneceu em silêncio, girando distraidamente a caneca entre os dedos.

Então arqueou uma sobrancelha, e lembrou: - Mas o falecido príncipe Adrian não era o único herdeiro de Belladonna.

- Como assim? - Corinne ergueu os olhos imediatamente.

- Ah, então você realmente nunca ouviu os boatos - Loralie soltou uma risadinha incrédula. - Você vive nesse reino há anos e consegue ignorar todas as fofocas políticas, impressionante.

- Loralie!

- Certo, certo - Ela se inclinou um pouco para frente, abaixando a voz mesmo em meio ao barulho da taverna. - Aparentemente, anos atrás, o rei teve um caso com uma mulher da Casa Mordrake.

O nome fez Corinne franzir levemente a testa. A Casa Mordrake já havia sido uma das famílias mais poderosas de Belladonna, conhecida em todo o reino por sua tradição militar quase brutal. Durante gerações, seu brasão esteve presente nas maiores guerras do continente, e seus membros eram criados desde a infância para empunhar espadas antes mesmo de aprenderem a escrever o próprio nome.

Não eram apenas soldados.Eram estrategistas temidos, comandantes implacáveis e guerreiros treinados para sobreviver a qualquer campo de batalha. Diziam que o antigo patriarca da família havia sido um homem tão brilhante quanto cruel. Um comandante capaz de vencer batalhas mesmo em desvantagem numérica absurda, conhecido por transformar derrotas inevitáveis em massacres calculados. Sob seu comando, a Casa Mordrake acumulou riquezas, terras e influência suficiente para rivalizar discretamente com algumas famílias reais menores. Mas tudo começou a ruir após sua morte. Sem o velho patriarca para manter a família unida, os sucessores afundaram lentamente a própria casa em disputas internas, alianças fracassadas e decisões desastrosas. Os filhos herdaram o orgulho e a arrogância do falecido, mas nenhum possuía sua inteligência. Os anos transformaram a antiga linhagem gloriosa em uma sombra do que já havia sido. Parte das terras foi vendida para pagar dívidas, antigos aliados abandonaram a família e muitos soldados juraram lealdade a outras casas nobres mais estáveis. Alguns membros dos Mordrake passaram a trabalhar como mercenários para sobreviver, enquanto outros desapareceram completamente dos registros da corte. Ainda assim, mesmo decadente, o nome Mordrake continuava carregando certo peso dentro de Belladonna.

- Dessa relação nasceu Dimitri - Loralie contou.

- O rei teve outro filho? - Corinne piscou lentamente.

- Teve. E pelo que dizem, a mãe morreu pouco tempo depois do parto. Então o rei assumiu a criança e o colocou sob proteção da guarda real. Alguns dizem que foi culpa, outros dizem que foi medo de criar um inimigo dentro do próprio reino. - Loralie deu de ombros antes de continuar: - De qualquer forma, Dimitri cresceu entre soldados e treinamento militar. E, sinceramente, parece que herdou o pior, ou o melhor, da Casa Mordrake. Dizem que ele luta como um demônio. Alguns cavaleiros juram que ele venceu homens adultos quando ainda era adolescente. Outros dizem que ele quase nunca perde uma batalha. E tem gente que acredita que o rei mantém Dimitri longe da corte justamente porque muitos nobres prefeririam vê-lo no trono do que o falecido Adrian.

Corinne soltou um suspiro impaciente.

- Obrigada pela aula improvisada sobre os governantes do reino onde eu moro, mas isso não ajuda em nada - murmurou. - Mesmo que ele tenha sangue real, ainda preciso matar um príncipe herdeiro para quebrar essa maldição, e sua sugestão é apenas um cavaleiro.

- Mas é exatamente esse o ponto, Corinne - Ela inclinou-se sobre a mesa, quase triunfante. - Com a morte do príncipe Adrian no último inverno, Dimitri se tornou o novo herdeiro do trono.

Por um instante, Corinne apenas encarou a amiga. E então algo mudou em sua expressão, uma pequena centelha de esperança.

- Espera, o quê?

- O rei não teve outros filhos legítimos com a rainha - continuou Loralie - Então, querendo a corte ou não, Dimitri agora é o próximo na linha de sucessão. Quando o rei morrer, Belladonna será dele.

O coração de Corinne bateu mais forte. Talvez ainda existisse uma saída, talvez ela não estivesse condenada afinal. Mas a esperança durou pouco, Loralie fez uma careta antes de dar outro gole na bebida.

- O problema é que, pelo que ouvi, Dimitri está fora do reino há semanas.

A expressão de Corinne caiu imediatamente.

- Onde?

- Na fronteira sul - respondeu Loralie - Acho que liderando uma missão com os cavaleiros reais. Ninguém sabe exatamente o motivo, mas ouvi rumores sobre conflitos perto das montanhas.

- Claro, porque o destino claramente me odeia. - Corinne deixou escapar uma risada fraca, quebradiça, daquelas que nascem mais do cansaço do que do humor. Ela afundou ainda mais no banco de madeira gasto, sentindo o desespero retornar devagar ao peito, pesado como uma pedra sendo colocada sobre seus pulmões. As mãos tremiam levemente sobre a mesa, escondidas sob as mangas compridas. O calor abafado da taverna parecia sufocá-la agora, o cheiro de cerveja derramada, fumaça e gordura queimando na cozinha embrulhava seu estômago. - Eu morreria antes de conseguir chegar até lá.

- Honestamente, nada parece conspirar ao seu favor - Loralie soltou o ar pelo nariz, apoiando o cotovelo sobre a mesa enquanto observava a amiga com um misto de pena e preocupação. A luz amarelada das velas dançava em seus olhos cansados.

No balcão, alguém bateu uma caneca com força demais na madeira, arrancando novas gargalhadas dos bêbados reunidos ali. O alaúde desafinado voltou a ecoar pela taverna, rápido e irritante, acompanhado de uma voz rouca tentando cantar alguma música obscena. Em outro momento, Corinne talvez revirasse os olhos ou reclamasse do barulho. Agora, porém, tudo parecia distante demais, como se estivesse presa atrás de uma parede invisível enquanto o resto do mundo seguia normalmente. Ela manteve o olhar perdido na bebida intacta à sua frente. O líquido refletia a luz trêmula das velas, distorcendo seu próprio reflexo.

- Talvez eu simplesmente devesse desistir - murmurou, quase para si mesma. - Seria menos humilhante.

- Não fala isso - Loralie franziu o cenho imediatamente.

Corinne apertou os lábios, desviando o olhar. Havia algo exausto nela, algo que ia além do medo. Era o tipo de cansaço que se acumulava depois de tantas portas fechadas, tantas tentativas frustradas e tantas noites sem dormir pensando em possibilidades impossíveis.

Por fim, Loralie se levantou devagar, empurrando o banco para trás com um rangido baixo.

- Vamos para casa. - disse ela, pegando a própria capa. - Você precisa descansar antes de desmaiar de tanto pensar nisso. Amanhã tentamos encontrar outra solução, ou pelo menos uma menos suicida.

Corinne hesitou por alguns segundos antes de apenas concordar em silêncio.

Ela se levantou lentamente, sentindo as pernas pesadas. Jogou algumas moedas sobre a mesa para pagar as bebidas que mal haviam tocado e puxou o capuz sobre os cabelos loiros. O tecido cheirava levemente à chuva antiga e poeira.As duas atravessaram a taverna em meio ao caos barulhento. Um homem cambaleante quase esbarrou em Corinne, mas Loralie o afastou com um olhar irritado antes que qualquer coisa acontecesse. Próximo ao balcão, o taverneiro gritava com alguém sobre uma dívida enquanto o músico seguia torturando o pobre alaúde sem qualquer vergonha.

Corinne empurrou a porta de madeira pesada, e imediatamente o ar frio da noite atingiu seu rosto. Ela fechou os olhos por um breve instante. Lá fora, a cidade parecia completamente diferente da desordem sufocante da taverna. As ruas estreitas estavam úmidas pela chuva recente, refletindo a luz dourada dos lampiões espalhados pelas esquinas. O vento noturno balançava as placas das lojas fechadas e fazia sua capa dançar ao redor das pernas.

Por um momento, Corinne apenas respirou. Mesmo com o peito ainda apertado, o frio da madrugada parecia arrancar parte daquela sensação sufocante de dentro dela.

Loralie parou ao seu lado na escadaria da entrada e a observou de canto.

- Você está pensando demais de novo.

- Porque tudo pode dar errado.

- Tudo sempre pode dar errado - Loralie respondeu, puxando a capa contra o corpo. - Ainda assim, você continua viva até agora.

Corinne soltou uma pequena risada nasal, cansada. Então as duas começaram a caminhar pela rua silenciosa, desaparecendo lentamente entre as luzes trêmulas da cidade adormecida.

Capítulo 3 A chegada do príncipe herdeiro e outros velhos amigos

No dia seguinte, Corinne despertou acreditando, por um único e precioso instante, que tudo não passara de um delírio febril nascido da exaustão, da poeira antiga daquela mansão maldita e de sua própria ganância. A claridade pálida da manhã atravessava as frestas tortas das tábuas envelhecidas, desenhando riscos dourados sobre o pequeno quarto de teto baixo onde dormia. O aposento era simples, quase miserável para qualquer nobre, mas precioso para alguém como ela.

Havia uma cama estreita de madeira rangente, um baú antigo aos pés do colchão, uma bacia de cobre repousando sobre uma mesa irregular e uma única janela de vidro embaçado, de onde o vento frio escapava pelas bordas mal vedadas. Por um momento, Corinne permaneceu imóvel, fitando o teto manchado, ouvindo os sons familiares ao redor. Passos pesados no corredor. Risadas abafadas. O tilintar metálico de facas sendo afiadas. Murmúrios baixos demais para serem entendidos.

O Refúgio dos Corvos.

Era assim que chamavam o velho cortiço escondido entre vielas tortas no submundo de Belladonna. Uma construção decadente, de madeira escurecida, corredores estreitos e quartos improvisados, onde ladrões, vigaristas, falsários e sobreviventes como ela se escondiam da guarda real e das mãos famintas da miséria. Não era exatamente um lar, mas era o mais próximo disso que Corinne já tivera. Ali, cada um possuía seu próprio canto conquistado à força, respeito ou necessidade. Alguns protegiam os próprios segredos com facas sob o travesseiro. Outros, com alianças silenciosas. Não havia regras escritas, apenas uma compreensão simples: dentro daquelas paredes tortas, protegiam-se uns aos outros, desde que isso não custasse caro demais.

Corinne conhecia cada rangido daquele lugar, cada degrau quebrado, cada esconderijo. Mas naquela manhã, nada parecia familiar.

Porque o colar ainda estava ali.

Com um movimento brusco, sentou-se na cama e levou as mãos ao pescoço. Seus dedos encontraram imediatamente a corrente dourada fundida à sua pele, como se sempre tivesse pertencido ali. A pedra vermelha repousava sobre seu peito.

- Não... - sussurrou, a voz rouca.

Tentou puxá-lo, com força suficiente para arranhar a própria pele até finas linhas vermelhas surgirem sob suas unhas.

Nada novamente. A corrente não cedia, era como arrancar parte de si mesma.

Seu coração disparou e então veio aquela sensação outra vez. Um endurecimento sutil, mas terrível. Corinne pressionou a palma contra o peito, e o horror a invadiu quando sentiu, sob carne e osso, uma pequena área estranhamente firme. Não era imaginação.

A maldição era real. A voz da mansão ecoou em sua mente com a mesma frieza de uma lâmina: Até a próxima lua cheia.

Corinne ergueu o rosto lentamente, como se o próprio mundo tivesse acabado de se partir.

- Sangue de um príncipe herdeiro... - murmurou, o gosto das palavras sendo amargo como veneno.

Belladonna possuía apenas um.

Príncipe Dimitri.

Único herdeiro do trono.

E estava na fronteira norte, liderando tropas contra conflitos territoriais, distante demais para ser alcançado a tempo por uma ladra sem nome, sem recursos. Era impossível. Mesmo se partisse naquele instante, não conseguiria atravessar estradas vigiadas, florestas selvagens e campos de guerra antes que a lua cheia surgisse sobre sua cabeça como sentença. Ela estava condenada.

A constatação veio não como grito, mas como um silêncio sufocante.

Corinne levantou-se cambaleante, sentindo o quarto pequeno demais para seus pensamentos. Precisava respirar. Precisava tirar de si o cheiro daquela casa, daquela noite, daquela maldição. Desceu pelo corredor estreito até os fundos do refúgio, onde água aquecida era artigo raro, reservado aos dias de sorte ou pequenos luxos roubados. Encheu uma tina de ferro com água fria mesmo, incapaz de esperar, e despejou sobre si jarros sucessivos até que sua pele ardesse.

Esfregou o pescoço, os ombros, o peito. Como se pudesse lavar o destino, como se água pudesse remover magia. Mas o colar permanecia, brilhando sob a luz fraca como uma promessa cruel.

Quando terminou, vestiu-se devagar. Não com seus trajes escuros de couro maleável, feitos para telhados, sombras e fugas. Naquele dia, só de olhar para aquelas roupas, sentia exaustão.Escolheu um vestido simples, de tecido gasto em tom acinzentado, mangas modestas e saia sem graça. Era o tipo de roupa que a fazia parecer invisível entre plebeias e comerciantes, não uma ladra. Talvez invisibilidade fosse tudo o que lhe restava. Sentou-se junto à janela estreita de seu quarto, observando Belladonna despertar. Das alturas tortas do Refúgio dos Corvos, Corinne via telhados irregulares, chaminés cuspindo fumaça, carroças atravessando ruas de pedra, vendedores gritando ofertas e crianças correndo entre cavalos e sujeira. Belladonna era grandiosa, antiga e apodrecida em suas bordas. Um reino de riqueza dourada no centro, e sobrevivência brutal nas margens.

Naquela manhã, porém, algo estava diferente. As ruas estavam agitadas demais, mais movimentadas, mais barulhentas. Pessoas cruzavam vielas com pressa incomum. Mercadores abandonavam bancas para cochichar. Mulheres se inclinavam para fora das janelas. Até ladrões do refúgio pareciam inquietos.

Corinne percebeu a movimentação, mas sua mente estava longe. Pensava em mapas, rotas, carruagens, mentiras possíveis. Qualquer plano desesperado que pudesse levá-la até um príncipe inalcançável.

Então, de repente sua porta foi escancarada com violência tão abrupta que bateu contra a parede.

- Corinne! - Loralie surgiu ofegante, como uma tempestade ruiva em forma humana.

Os cabelos cor de cobre estavam desalinhados, alguns fios grudados ao rosto corado, denunciando a corrida frenética escada acima. Sua respiração vinha rápida, quase histérica, e seus olhos verdes brilhavam com uma mistura de choque e excitação.

Ela apoiou as mãos nos joelhos por um segundo, tentando recuperar o ar. Falhou, e praticamente gritou: - O príncipe Dimitri está de volta!

Corinne ficou imóvel, por um instante, achou que tivesse ouvido errado.

- O quê? - perguntou baixo.

- Dimitri voltou para Belladonna - Loralie ergueu o rosto depressa, ainda tentando recuperar o fôlego. - Entrou pelos portões do leste há menos de meia hora, a cidade inteira está um caos lá fora.

- Isso não faz sentido... - Corinne franziu a testa, o cenho se contraindo aos poucos. - Você não disse que ele estava na fronteira, comandando um exército?

- E estava. - Loralie atravessou o quarto em passos apressados, a tensão evidente em cada movimento. - Mas, ao que parece, ele resolveu o problema mais rápido do que esperavam e já estava a caminho de volta.

Corinne desviou o olhar para a janela. As ruas agitadas, as pessoas correndo, os cochichos. Então era isso. O príncipe herdeiro estava de volta em Belladonna.

Aqui, ao alcance dela.

Loralie passou a mão pelos cabelos ruivos, ainda tentando organizar os pensamentos.

- Então isso significa que você realmente tem uma chance agora.

- Chance? - Corinne soltou uma risada seca. - Dimitri voltou como herói de guerra, o castelo vai estar impossível de entrar.

- Melhor impossível do que inalcançável.

Ela odiava admitir, mas a amiga tinha razão.

Pouco tempo depois, as duas deixaram o Refúgio dos Corvos e mergulharam nas ruas agitadas de Belladonna.

A cidade parecia outra, as vielas normalmente tomadas por vendedores cansados e bêbados sonolentos estavam lotadas de gente. Bandeiras do reino começavam a ser penduradas nas janelas, músicos apareciam nas esquinas improvisando melodias festivas e comerciantes gritavam promoções como se o ouro estivesse prestes a chover dos céus. O retorno do príncipe havia transformado Belladonna numa celebração viva.

Corinne caminhava ao lado de Loralie pelas ruas movimentadas da capital enquanto mantinha os olhos presos no castelo de Belladonna ao longe. Ou, mais precisamente, nas mudanças ao redor dele. As ruas próximas à fortaleza estavam tomadas por soldados, cavalos marchavam de um lado para outro levantando o barro úmido das pedras da rua, enquanto carruagens nobres eram revistadas mesmo carregando os brasões das famílias mais influentes do reino. As entradas laterais, antes negligenciadas durante a madrugada, agora possuíam barricadas de ferro e homens armados em cada canto. Até os jardins externos pareciam território militar. Guardas circulavam entre as estáuas ornamentadas com lanças nas mãos, atentos até demais para um lugar que antes servia apenas para passeios da nobreza.

Nas torres, vigias extras observavam a cidade de cima.

- Isso piorou muito - murmurou Loralie, diminuindo discretamente o passo.

- Muito é pouco - Corinne continuou observando os arredores sem desviar o olhar. Ela estreitou os olhos ao ver dois soldados bloqueando até mesmo uma carroça carregada de alimentos. - Antes dava para entrar pelo corredor dos fornecedores durante a madrugada. Os guardas dormiam metade do turno e ninguém se importava em revistar sacos de farinha. - Seu olhar percorreu os portões principais lentamente. - Agora nem um rato passa sem ser interrogado.

Loralie soltou um suspiro curto.

As grades principais do castelo se abriram por alguns segundos para a passagem de cavaleiros armados, revelando mais homens posicionados do lado interno. Arqueiros, escudos e lanças. O castelo de Belladonna já era difícil de invadir em dias normais, agora parecia pronto para suportar uma guerra inteira.

Corinne sentiu o maxilar tensionar. Matar Dimitri seria muito mais complicado do que ela imaginava.

Enquanto caminhavam entre a multidão crescente da praça principal, o som estridente de uma trombeta ecoou pelo centro da cidade. A conversa das pessoas cessou quase imediatamente.

- Ouçam o decreto de Sua Majestade! - A voz alta atravessou a praça como uma ordem.

As pessoas começaram a se aproximar depressa, formando um círculo ao redor de um pequeno palco improvisado perto da fonte central. Comerciantes abandonavam suas barracas por alguns instantes, crianças corriam entre as pernas dos adultos e até bêbados curiosos se empurravam para ouvir. No centro, um homem elegantemente vestido segurava um longo pergaminho adornado com o brasão dourado da família real. As joias em seus dedos brilhavam exageradamente sob a luz fria do fim de tarde, e sua postura rígida denunciava alguém acostumado demais aos corredores da corte. Corinne quase revirou os olhos antes mesmo dele abrir a boca.

O homem desenrolou o pergaminho lentamente, como se estivesse prestes a anunciar algo divino, e então comunicou: - Pela bravura do príncipe herdeiro Dimitri de Belladonna, que conduziu nossas tropas à vitória e restaurou a paz em nossas fronteiras... Sua Majestade declara oficialmente o início das festividades reais em honra ao retorno triunfante do herdeiro do reino!

A praça explodiu em comemorações, palmas gritos e assobios. Algumas mulheres suspiraram ao ouvir o nome do príncipe, enquanto outras trocavam comentários animados sobre finalmente terem a chance de vê-lo durante os festejos reais.

Corinne soltou uma risada seca pelo nariz.

- O quê foi? - Loralie arqueou uma sobrancelha ao perceber.

- Engraçado.

- O que exatamente?

- Metade dessas pessoas nem sabia que havia uma guerra acontecendo - Corinne murmurou, observando os nobres sorrirem como se estivessem em um festival de colheita. Seu olhar percorreu a multidão lentamente antes dela completar, em tom mais seco: - E a outra metade provavelmente também não fazia ideia de que existia um segundo príncipe.

- Não, Corinne. - Loralie soltou uma risada abafada. - Nesse caso, acho que a ignorante aqui é só você mesmo.

- Ah, claro - Corinne lançou um olhar atravesssado para a amiga. - Porque acompanhar escândalos da corte é uma ocupação extremamente útil.

- Dependendo da fofoca? Muito útil. - Loralie sorriu de canto. - Dimitri de Belladonna sempre foi assunto entre os nobres. O príncipe favorito dos militares, o filho bastardo do rei, o príncipe que vive mais no campo de batalha do que dentro do castelo... sinceramente, estou surpresa por você nunca ter ouvido falar dele.

- Eu tinha coisas mais importantes para fazer do que decorar árvore genealógica de aristocrata.

- Como roubar aristocratas?

- Exatamente.

As duas trocaram um breve sorriso, mas ele desapareceu rápido quando Corinne voltou a observar a praça.

Porque, honestamente, aquilo tudo era ridículo.

Até poucos dias atrás, a única coisa que circulava pela cidade eram rumores vagos sobre algum conflito distante na fronteira. Nada concreto, nada oficial. Comentários soltos em tavernas, comerciantes reclamando de rotas fechadas temporariamente. Coisas pequenas demais para realmente chamarem atenção. Tão insignificantes que nem mesmo Corinne havia parado para ouvir. Ela só ficara sabendo da existência daquele suposto conflito na noite anterior, quando Loralie mencionou. E se ela, alguém acostumada a prestar atenção em movimentações estranhas da cidade, não sabia de quase nada. Então provavelmente boa parte daquela multidão estava descobrindo a verdade apenas agora.

Através de um anúncio de vitória, muito típico de Belladonna.

O reino escondia seus problemas atrás de ouro e discursos cuidadosamente ensaiados. A corte transformava guerras em celebrações antes mesmo da população entender que elas haviam começado.

Agora as pessoas aplaudiam um triunfo que sequer sabiam existir até alguns minutos atrás. Mas, diante de toda aquela hipocrisia, havia algo que Corinne precisava admitir: O caos tinha suas vantagens.

A praça estava lotada demais. A multidão comprimida na praça criava pontos cegos perfeitos. Pessoas distraídas demais comentando animadamente sobre o príncipe recém-chegado e uma guerra que oficialmente parecia ter começado e terminado no mesmo dia. Os Guardas estavam ocupados controlando o fluxo próximo ao castelo, deixando o restante da cidade vulnerável. Aquilo era perfeito, perfeito para desaparecer entre centenas de rostos fascinados por um homem que sequer conheciam de verdade.

Ela trocou um olhar rápido com Loralie, as duas sorriram no mesmo instante.

Sem precisar dizer mais nada, separaram-se naturalmente entre a multidão. Corinne caminhou entre as pessoas com leveza quase assustadora, desviando de ombros, carruagens e bolsas penduradas sem chamar atenção. Seu rosto permanecia neutro, tranquilo, como o de qualquer garota comum perdida nas festividades. Mas suas mãos eram rápidas. Um relógio de bolso sumiu do casaco de um homem rico antes mesmo dele terminar de aplaudir os músicos da praça, uma corrente de ouro escapou do pescoço de uma dama tão suavemente que ela sequer percebeu o peso desaparecendo. Corinne guardava tudo com movimentos fluidos enquanto atravessava a praça, quase dançando entre as pessoas. E pela primeira vez naquele dia, ela finalmente voltou a sentir controle sobre alguma coisa.

Ela jamais roubava moradores da parte baixa. Nunca crianças, nunca velhos miseráveis tentando sobreviver. Preferia comerciantes ricos, viajantes arrogantes e nobres distraídos demais para perceberem a própria fortuna desaparecendo. Loralie era igual, embora tivesse uma regra pessoal bastante específica: só roubava homens. Segundo ela, eram mais fáceis de distrair.

Depois de algum tempo, Corinne percebeu que havia perdido a amiga de vista no meio da confusão. Não se preocupou, a ruiva sabia se virar melhor do que a maioria dos homens daquela cidade. Continuou caminhando pelas ruas movimentadas até que uma melodia familiar alcançou seus ouvidos. Seus passos desaceleraram quase de imediato. O som vinha da pequena praça próxima ao velho mercado, misturando-se ao burburinho da multidão e ao tilintar distante das barracas abertas.

Violinos, tamborins e o som alegre de uma flauta preenchiam o ar. O coração de Corinne se apertou suavemente no instante em que reconheceu a melodia. Sem perceber, seus passos passaram a seguir o ritmo da música até a pequena praça. Ali, um palco improvisado havia sido erguido diante do velho mercado, cercado por dezenas de pessoas encantadas pelo espetáculo.

Era a trupe Solaris, velhos amigos seus.

Os dançarinos giravam pelo palco com movimentos graciosos, enquanto os músicos tocavam com uma energia contagiante que arrancava risos e aplausos da multidão. Crianças se espremiam entre os adultos na tentativa de enxergar melhor, algumas ficando na ponta dos pés, completamente fascinadas pela apresentação.

Solaris era uma trupe itinerante de artistas que atravessava os reinos levando espetáculos de dança, música, teatro e acrobacias por onde passava. Contudo, nem sempre haviam vivido de aplausos e convites nobres. Anos atrás, sobreviviam de maneira muito semelhante aos ladrões do Refúgio dos Corvos. Roubavam quando era necessário, enganavam aristocratas ingênuos quando surgia a oportunidade e, nas noites mais difíceis, se apresentavam em tavernas decadentes em troca de um prato de comida e um canto minimamente aquecido para dormir. Tudo mudou em uma cidade portuária, durante uma apresentação improvisada diante de um público pequeno e desinteressado. Entre os espectadores, porém, estava uma aristocrata excêntrica que ficou completamente fascinada pela trupe. Encantada pelo talento bruto e pela liberdade que carregavam, decidiu financiá-los. Desde então, Solaris deixara as ruas miseráveis para trás e passara a viajar entre cortes, festivais e celebrações da alta nobreza por todo o continente. Ainda carregavam a alma indomável de artistas de rua, mas agora vestiam seda em vez de farrapos.

A música terminou sob uma onda de aplausos calorosos.

Corinne aproximou-se do palco sem pressa, batendo palmas lentamente enquanto um pequeno sorriso surgia em seus lábios. Um dos músicos, Cassian, ergueu os olhos em sua direção e, no instante em que seus olhares se encontraram, o alaúde quase escapou de suas mãos.

- Corinne! - Cassian berrou, alto o bastante para fazer metade da trupe se virar ao mesmo tempo.

Outro integrante quase tropeçou ao saltar do palco às pressas.

- Pelos deuses, você está viva?! - exclamou Elias, ainda ofegante pelo quase tombo.

Corinne mal teve tempo de responder antes de ser puxada para um abraço apertado.

- Achei que tivesse morrido! - reclamou Lyra, apertando-a com força.

- Eu apostei três moedas de cobre que você tinha sido presa. - anunciou Cassian.

- Três moedas? - Corinne arqueou uma sobrancelha enquanto Lyra se afastava do abraço. - Nossa amizade vale tão pouco assim?

- Não seja dramática, eu considerei apostar cinco. - disse Lyra.

- Eu disse que ela provavelmente fugiu com algum velho rico. - acrescentou Mirelle, surgindo logo atrás dele com um sorriso debochado enquanto cruzava os braços. - O tipo cheio de joias cafonas e problemas cardíacos.

A mulher encostou-se na lateral de uma carroça pintada de vermelho desbotado, observando Corinne de cima a baixo com diversão descarada. Seus brincos dourados balançavam conforme ela ria, e os olhos escuros brilhavam daquele jeito irritantemente perspicaz que fazia parecer que ela sabia mais do que deveria.

- Credo. - Corinne fez uma careta. - Eu prefiro a prisão.

As gargalhadas explodiram quase imediatamente ao redor dela. Darian, um dos violinistas da companhia, ergueu lentamente os olhos do instrumento que afinava perto do palco. Ele estreitou os olhos de maneira exageradamente dramática enquanto apoiava o arco sobre o ombro.

- Espera. - disse num tom desconfiado. - Você não voltou aqui pra roubar a gente... voltou?

Corinne levou a mão ao peito, ofendida.

- Darian, isso foi cruel - Corinne levou a mão ao peito, ofendida. - Eu nunca faria uma coisa dessas.

O violinista permaneceu encarando-a em silêncio absoluto.

Então Mirelle soltou uma gargalhada, e disse: - Você literalmente roubou um saco de moedas do Cassian enquanto ele dormia.

- Isso aconteceu uma vez! - protestou Corinne imediatamente.

- Duas. - corrigiu Cassian sem hesitar. - Na primeira eu achei que tinha perdido o dinheiro, na segunda você deixou metade cair enquanto fugia pela janela.

- Tecnicamente isso mostra que eu sou ruim roubando amigos - tentou se defender.

- Isso não melhora a situação. - Darian comentou.

Corinne abriu a boca para responder, mas Mirelle foi mais rápida.

- E teve aquela vez no porto - acrescentou casualmente, fazendo Cassian arregalar os olhos.

- Ah, pelos deuses, é verdade!

- Nós juramos nunca mais falar sobre aquilo - Corinne apontou um dedo acusador para os dois.

- Você tentou roubar um capitão bêbado e acabou sendo perseguida por um ganso - Mirelle já estava rindo de novo. - Isso merece ser lembrado para sempre.

- Aquele animal era maligno.

- Era um ganso, Corinne.

- Um ganso treinado pelo inferno.

As risadas aumentaram ainda mais, até Darian precisou abaixar o rosto por um instante para esconder o sorriso enquanto fingia continuar afinando o violino. Os integrantes da Solaris continuaram cercando-a enquanto desmontavam parte do palco e guardavam os instrumentos.

- Então? - perguntou Elias, acomodando o alaúde nas costas. - O que aconteceu com você todos esses anos?

- Sobrevivi - Corinne deu de ombros.

- Isso explica exatamente nada - Cassian franziu o cenho.

- Então está perfeito - Corinne.

Eles riram novamente. A conversa seguiu fácil e natural, como se os anos não tivessem criado distância alguma entre eles. Comentaram sobre cidades distantes, apresentações desastrosas, nobres ridículos e festas extravagantes que haviam presenciado durante as viagens pelo continente.

- Vocês não fazem ideia de como os aristocratas de Valleric são estranhos - comentou Darian. - Um homem me pagou cinquenta moedas de ouro só para tocar a mesma música sete vezes seguidas.

- Isso não é nada - rebateu Mirelle, cruzando os braços. - Um conde tentou me pedir em casamento depois de me ver dançar.

- E você aceitou? - Corinne arqueou uma sobrancelha.

- Claro que não. - A mulher fez uma careta horrorizada. - Ele parecia um sapo embrulhado em seda.

As risadas recomeçaram imediatamente.

- Mas o que trouxe vocês de volta para Belladonna? - perguntou Corinne, genuinamente curiosa. - Não me parece exatamente o tipo de reino que paga bem por espetáculos, a maioria das pessoas daqui mal sorri.

- O rei organizou um baile real para celebrar a vitória do príncipe Dimitri - explicou Lyra - E nossa companhia foi contratada para se apresentar dentro do palácio.

Corinne sentiu o corpo enrijecer quase imperceptivelmente.

- Um baile? - ela repetiu, tentando manter a voz casual. - Belladonna não parece o tipo de reino que gosta de festas grandiosas.

- Ah, normalmente não. - Elias surgiu logo atrás de Lyra - Mas aparentemente sobreviver a guerras, doenças e caos político deixa os nobres com vontade de gastar dinheiro fingindo que suas vidas são perfeitas.

- É, mas parece que o rei de Belladonna ao saber da vitória de Dimitri a algumas semanas atrás o fez convidar outros nobres de outros reinos foram convidados para as festividades. Diplomatas, comerciantes ricos, lordes menores, o palácio vai estar lotado. O que significa um público enorme para nós. Gente rica, entediada e bêbada costuma ser excelente para artistas.

- E péssima para criados - acrescentou Mirelle.

Corinne quase não ouviu o resto da conversa. Dimitri estava em Belladonna, e estaria cercado por festas, distrações e movimento constante dentro do palácio. Pela primeira vez desde que ouvira sobre a maldição, a ideia de alcançar o príncipe não parecia impossível.

Perigosa? Muito. Suicida? Provavelmente. Mas não impossível.

- Dentro do palácio? - repetiu ela, tentando soar indiferente enquanto escondia o súbito interesse.

- Sim. - respondeu Lyra calmamente. - Vamos ficar hospedados na ala reservada aos artistas e criados da corte até o fim das celebrações.

O silêncio que veio em seguida durou pouco mais que um segundo, mas foi suficiente para Mirelle estreitar os olhos lentamente, observando Corinne com a expressão desconfiada de um gato percebendo movimento estranho.

- Por que você parece interessada demais nisso? - perguntou.

Corinne piscou rapidamente, como se tivesse sido arrancada dos próprios pensamentos.

- Interessada? Eu? Claro que não.

- Ah, pelos deuses - Cassian soltou uma risada curta enquanto cruzava os braços. - Essa foi provavelmente a resposta mais suspeita que já saiu da sua boca.

- E olha que a concorrência é enorme. - acrescentou Darian sem erguer os olhos do violino.

- Vocês estão exagerando.

- Corinne, você parece uma criminosa tentando fingir inocência diante de um guarda - Mirelle inclinou a cabeça. - O que, ironicamente, já aconteceu antes.

- Mais de uma vez. - murmurou Elias.

Corinne soltou um suspiro impaciente, desviando o olhar enquanto tentava pensar rápido. Não podia simplesmente dizer "preciso entrar no palácio para assassinar o príncipe herdeiro antes que meu coração vire pedra".

Então uma lembrança antiga surgiu em sua mente: um convite. Anos atrás, quando ainda costumava aparecer no acampamento da trupe com frequência, eles haviam sugerido que ela viajasse com eles. Na época, Corinne rira da ideia. Viver de apresentações parecia instável demais quando roubos rendiam dinheiro rápido, fácil e sem precisar sorrir para plateias bêbadas. Agora, porém, talvez aquela fosse sua única chance de entrar no palácio sem acabar presa antes mesmo de cruzar os portões.

- Eu só estava pensando - ela tentou soar casual - ainda tem espaço para mais um integrante?

O silêncio foi imediato. Até Darian parou de mexer nas cordas do violino, e Elias piscou lentamente.

- Espera. - Cassian apontou para ela como se tivesse ouvido errado. - Você quer entrar para a trupe?

Mirelle encarou Corinne por dois segundos inteiros, então começou a rir.

- Os negócios vão tão mal assim? - perguntou Lyra.

Corinne ergueu uma sobrancelha, sustentando o olhar debochado deles enquanto tentava parecer tranquila, e respondeu: - Meu último trabalho não terminou exatamente como eu esperava.

Aquilo era tecnicamente verdade. Só deixou de mencionar a maldição mortal, o colar demoníaco e o fato de que agora precisava assassinar um membro da realeza.

- Isso parece preocupante. - comentou Cassian lentamente, estreitando os olhos para Corinne. O tom despreocupado ainda estava ali, mas havia curiosidade genuína por trás dele agora.

- Foi só um pequeno desastre - comentou Corinne tentando parecer menos suspeita do que realmente era.

- Ah, ótimo. - Darian assentiu com falsa seriedade enquanto colocava o violino sobre o colo. - E o que exatamente significa "pequeno" vindo de você?

- Houve fogo? - perguntou Mirelle imediatamente.

- Gritos? - acrescentou Elias.

- Guardas? - Darian parecia sinceramente interessado.

- Um cadáver? - Cassian inclinou-se um pouco para frente.

- Vocês sempre pulam direto para homicídio. Isso é muito ofensivo para mim.

- Você não respondeu a pergunta. - Mirelle observou.

Corinne abriu a boca, fechou, então deu de ombros e falou: - Ainda estou viva, então considero um sucesso.

O grupo inteiro explodiu em gargalhadas outra vez.

- Pelos deuses... - Elias enxugou os olhos. - Essa definitivamente é a frase mais "Corinne" que eu já ouvi.

- Não sei se fico impressionado ou preocupado. - murmurou Darian.

- Os dois. - respondeu Mirelle sem hesitar.

Corinne acabou sorrindo também, mesmo que o peso escondido sob suas roupas ainda estivesse ali, pulsando silenciosamente contra sua pele. Por alguns minutos, era fácil fingir que nada havia mudado. Que ela não estava amaldiçoada, que não precisava assassinar um príncipe, que aquela noite era apenas mais uma ao lado da única companhia que já parecera remotamente próxima de uma família.

Elias passou o braço pelos ombros dela sem cerimônia, puxando-a levemente para o lado.

- Claro que você pode vir com a gente. - disse com um sorriso caloroso. - Vai ser bom ter você de volta.

Antes que Corinne pudesse responder, Darian ergueu um dedo dramaticamente no ar e comunicou: - Mas existe uma condição, Corinne.

- Qual?

- Não roubar ninguém durante o baile real, principalmente nobres.

- Especialmente nobres bêbados. - acrescentou Mirelle.

- Ou guardas distraídos. - Elias entrou na brincadeira.

- Ou objetos brilhantes deixados desacompanhados. - Darian continuou.

- Vocês realmente têm uma imagem terrível de mim - Corinne levou a mão ao peito numa falsa ofensa.

- Você roubou um anel de um duque enquanto dançava com ele. - comentou Cassian.

- E depois vendeu o anel para a amante dele. - completou Mirelle.

- Ela pagou bem. - Corinne deu de ombros.

- Corinne! - Lyra finalmente falou, num tom que misturava cansaço e reprovação.

- Certo, certo. - Corinne levantou as mãos em rendição imediatamente. Um sorriso escapou de seus lábios antes que ela soltasse uma risada baixa. - Eu prometo. Nenhum roubo dentro do salão de festas... ou fora dele.

O silêncio que veio logo depois foi instantâneo.

- Isso foi estranhamente específico - Cassian estreitou os olhos.

- Não estraguem meu raro momento de honestidade - Corinne se defendeu.

- Honestidade parcial ainda conta como honestidade? - perguntou Elias.

- Para ela provavelmente conta. - respondeu Cassian.

As risadas voltaram a se espalhar pelo grupo.

Pouco a pouco, a conversa mudou de assunto, deslizando naturalmente para os preparativos do espetáculo que apresentariam no palácio. Mirelle começou a reclamar dos figurinos novos que a corte exigira, jurando que nobres tinham obsessão por roupas impossíveis de respirar dentro. Elias defendia entusiasmado a ideia de usar fogos durante a apresentação, enquanto Darian insistia que aquilo terminaria com alguém incendiando uma tapeçaria real.

Mas Corinne já não prestava atenção. Seu olhar deslizou discretamente na direção distante do castelo de Belladonna, visível acima dos telhados da cidade como uma sombra colossal. Agora ela tinha uma entrada, tudo o que precisava fazer era encontrar uma maneira de chegar perto o bastante do príncipe Dimitri para derramar o sangue dele.

Sem morrer antes disso.

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