O som agudo dos pneus.
Depois, só escuridão.
Acordei em um hospital, sem memória, sem saber quem eu era ou por que meu corpo doía tanto.
Uma mulher linda, Sofia, se apresentou como minha noiva.
Ela falava sobre nossa vida, meu restaurante famoso, nosso casamento... mas nada parecia meu.
Eu era um estranho na minha própria história.
Até que Sofia trouxe Ana, sua melhor amiga, para "cuidar de mim" enquanto ela "resolvia umas coisas urgentes" .
Ana tinha olhos gentis, cansados, muito diferentes dos de Sofia.
Pouco depois, ouvi a conversa: Sofia abandonando-me, deixando Ana para fingir ser minha noiva.
"Você sempre gostou dele, não é? Agora é sua chance."
Minha cabeça doeu.
Não era pela batida, mas pela amarga descoberta da traição, da farsa.
Eu podia confrontá-la, gritar que sabia de tudo.
Mas uma parte curiosa de mim queria ver até onde essa farsa iria.
Queria entender Ana.
Quando Ana entrou, pálida, com a história ensaiada sobre a viagem de Sofia, eu assenti.
"Minha noiva?" repeti, saboreando a ideia.
Ela engoliu em seco.
"Sim. Eu. Ana."
Segurei a mão dela.
Estava quente, trêmula.
E, pela primeira vez desde o acidente, senti uma conexão real.
O jogo havia começado.
O som agudo dos pneus no asfalto molhado foi a última coisa que Pedro ouviu. Depois, apenas uma escuridão fria e silenciosa.
Quando abriu os olhos, a luz branca do teto do hospital o cegou por um instante. Uma dor surda latejava na sua cabeça, e sua mente era uma tela em branco. Ele não sabia quem era, onde estava, ou por que seu corpo doía tanto.
Uma mulher com um rosto que ele não reconhecia, mas que parecia ansiosa, estava ao seu lado. Ela era bonita, com cabelos loiros perfeitamente arrumados e maquiagem impecável, mesmo no ambiente estéril do hospital.
"Pedro, meu amor, você acordou!"
A voz dela era um pouco estridente. Ele piscou, confuso.
"Quem... quem é você?"
O sorriso dela vacilou por um segundo.
"Sou eu, Sofia. Sua noiva."
Ela pegou a mão dele, mas o toque era frio, quase formal. Pedro não sentiu nada. Nenhuma faísca de reconhecimento, nenhum conforto. Apenas a sensação estranha dos dedos dela nos seus.
Nos dias seguintes, a confusão de Pedro não diminuiu. Sofia o visitava, contava histórias sobre a vida deles, sobre o restaurante famoso dele, sobre o casamento que estavam planejando. Mas as histórias pareciam pertencer a outra pessoa. Ele se sentia como um espectador na vida de um estranho.
Uma semana depois, Sofia apareceu com outra mulher. Esta era diferente. Tinha cabelos castanhos presos num coque bagunçado, olhos gentis e um ar de cansaço, como se não dormisse há dias. Ela usava roupas simples e não tinha maquiagem.
"Pedro, esta é a Ana. Minha melhor amiga," Sofia disse, com uma animação forçada. "Ela vai ajudar a cuidar de você enquanto eu resolvo umas coisas urgentes do trabalho. Você sabe como é."
Pedro não sabia. Mas ele olhou para Ana, e pela primeira vez, sentiu uma pontada de algo familiar, embora não conseguisse identificar o quê.
Ana sorriu para ele, um sorriso tímido e genuíno.
"Oi, Pedro. Fico feliz em ver que você está melhor."
A voz dela era calma e suave, um contraste com a de Sofia.
Naquela tarde, Sofia saiu apressada, falando ao celular sobre um compromisso inadiável. Deixou Ana sozinha com Pedro. O silêncio no quarto era desconfortável.
"Então..." Pedro começou, sem saber o que dizer. "Vocês são melhores amigas?"
Ana assentiu, sem olhá-lo nos olhos. Ela ajeitava as flores num vaso ao lado da cama.
"Desde a faculdade."
Algo na postura dela parecia tenso. Pedro, mesmo com a memória em branco, era um observador. Ele sempre fora, mesmo que não se lembrasse disso. Ele notava os detalhes: a forma como Ana torcia as mãos, como seu olhar fugia do dele.
No dia seguinte, o médico deu a notícia: a amnésia de Pedro poderia ser temporária ou permanente. Ninguém sabia.
Quando o médico saiu, Sofia olhou para Pedro com uma expressão que ele não soube decifrar. Não era preocupação. Era... cálculo.
Mais tarde, Pedro estava cochilando quando ouviu vozes do lado de fora do seu quarto. A porta estava entreaberta. Eram Sofia e Ana.
"Eu não posso fazer isso, Sofia," a voz de Ana era um sussurro desesperado. "É loucura. É cruel."
"Cruel? Cruel é ficar presa a um homem que nem sabe o próprio nome," a voz de Sofia era baixa e dura. "Eu tenho uma vida, Ana. O Lucas está me esperando. A gente ia viajar. Eu não posso colocar tudo em pausa por causa disso."
Lucas. O nome flutuou no ar.
"Mas... e o Pedro? Você não pode simplesmente abandoná-lo."
"Eu não vou abandonar! Você vai estar aqui," Sofia disse, como se fosse a solução mais óbvia do mundo. "É perfeito. Você sempre gostou dele mesmo, não é? Sempre olhando para ele com essa cara de cachorrinho abandonado. Agora é sua chance."
Houve um silêncio. Pedro sentiu o coração acelerar. Ele não entendia tudo, mas entendia a essência. Traição.
"Você só precisa fingir que é minha noiva por um tempo," Sofia continuou, a voz agora mais suave, manipuladora. "Só até ele se recuperar um pouco, ou até eu resolver o que fazer. Pense nisso como um favor. Para sua melhor amiga."
Pedro fechou os olhos, a cabeça doendo de novo, mas desta vez não era pelo acidente. Era pela decepção que começava a se formar no vazio da sua mente.
No dia seguinte, Sofia não apareceu. Em vez dela, Ana entrou no quarto, pálida e com olheiras profundas. Ela carregava uma pequena mala.
Ela parou ao lado da cama de Pedro, respirando fundo.
"Pedro..." ela começou, a voz trêmula. "A Sofia... ela... ela precisou viajar a trabalho. De última hora. Ela pediu para eu... para eu cuidar de você. Como... como sua noiva."
Pedro olhou para ela. Ele podia ver a mentira nos olhos dela, a culpa pesando em seus ombros. Ele podia ver o conflito, a lealdade distorcida a uma amiga que não merecia, e talvez... algo mais. Uma esperança secreta, como Sofia havia dito.
Ele pensou em confrontá-la. Em gritar que tinha ouvido tudo. Mas uma parte dele, uma parte perspicaz e curiosa que o acidente não apagou, decidiu esperar. Ele queria ver até onde essa farsa iria. Queria entender quem era aquela mulher que aceitou participar de um plano tão absurdo.
Então, ele apenas assentiu, com uma expressão de confusa aceitação.
"Minha noiva?" ele repetiu, como se estivesse tentando se acostumar com a ideia.
Ana engoliu em seco e forçou um sorriso.
"Sim. Eu. Ana."
Pedro estendeu a mão e, desta vez, quando os dedos dela tocaram os seus, eles estavam quentes. Trêmulos, mas quentes. Ele segurou a mão dela, olhando-a nos olhos, e sentiu o primeiro fio de uma conexão real se formar em meio ao caos da sua mente perdida. O jogo havia começado. E, por alguma razão, ele estava ansioso para jogá-lo.
O apartamento para onde Ana o levou não parecia um lar. Pelo menos, não o lar dele.
Era um lugar pequeno e arrumado no centro da cidade, com paredes brancas e móveis funcionais. Havia plantas nas janelas e livros empilhados nos cantos, mas faltava algo essencial: ele.
"Esta é a nossa casa," Ana disse, com uma voz um pouco incerta, enquanto o ajudava a entrar.
Pedro caminhou lentamente pela sala, passando os dedos sobre uma estante de madeira. Havia fotos em porta-retratos: Ana com Sofia, Ana com um casal mais velho que ele supôs serem seus pais, Ana rindo com um grupo de amigos. Nenhuma foto dele.
Ele abriu um armário na cozinha. Estava cheio de chás de ervas e comida orgânica. Ele se lembrou de um flash, um fragmento de memória: o cheiro de manteiga e alho, o som de uma faca batendo numa tábua de cortar. Ele gostava de cozinhar. Comida de verdade. Com sabor. Aquele armário não era de um chef de cozinha.
"Você parece... gostar muito de chá," ele comentou, fechando a porta do armário.
Ana se virou, surpresa. Ela estava na porta do quarto, segurando a mala dele.
"Ah, sim. Eu gosto. Ajuda a relaxar," ela respondeu rapidamente. "Nós gostamos."
Ela se corrigiu, mas era tarde demais. O lapso pairou no ar entre eles.
Pedro continuou sua exploração silenciosa. O quarto era igualmente impessoal. Uma cama de casal, um guarda-roupa e uma pequena escrivaninha. As roupas no guarda-roupa eram todas femininas, exceto por algumas camisetas e calças masculinas dobradas numa prateleira, que pareciam ter sido compradas às pressas. Eram do tamanho dele, mas não tinham o cheiro dele, o desgaste do uso.
Ele se sentou na beira da cama. O colchão era macio. Ana o observava da porta, uma expressão de ansiedade no rosto.
"Está tudo bem?" ela perguntou.
"Sim. Só é... estranho. Não me lembrar de nada disso."
"O médico disse que é normal. Que as memórias podem voltar aos poucos."
Ela se aproximou e colocou uma mão no ombro dele. O toque era gentil, hesitante. Pedro não se afastou. Ele gostava da sensação.
"Eu vou preparar algo para você comer. Você deve estar com fome."
Enquanto ela estava na cozinha, ele ouviu o som suave dos armários se abrindo e fechando, a água correndo na pia. Eram sons caseiros, reconfortantes. Apesar da mentira que envolvia tudo aquilo, a presença de Ana era calmante.
Ele se deitou na cama, fechando os olhos. O apartamento tinha o cheiro dela. Uma mistura suave de livros antigos e do chá de camomila que ela estava preparando. Era um cheiro bom. Ele se perguntou qual era o cheiro de Sofia. Ele tentou se lembrar, mas sua mente só trazia o cheiro de antisséptico do hospital.
Ana voltou com uma bandeja. Tinha uma caneca de chá e um sanduíche simples.
"Não é nada muito elaborado," ela disse, sem graça. "Eu não sou uma chef como você."
Pedro pegou o sanduíche. Pão integral, queijo branco e peito de peru. Era exatamente o tipo de comida sem graça que ele imaginou que encontraria naquela cozinha. Mas ele estava com fome, e comeu tudo.
Enquanto comia, ele a observava. Ela se sentou numa poltrona no canto do quarto, fingindo ler um livro, mas ele podia ver que seus olhos estavam fixos nele por cima das páginas. Havia uma preocupação genuína em seu olhar. Diferente do olhar calculista de Sofia.
Ele terminou de comer e colocou a bandeja de lado.
"Obrigado. Estava bom."
Ela sorriu, um sorriso pequeno, mas verdadeiro.
"De nada."
Ele pensou na ironia da situação. Sua noiva o abandonou com a melhor amiga dela, que agora fingia ser sua noiva. E ele, o noivo sem memória, sabia de tudo. Era o roteiro de uma comédia trágica. Ele quase riu, mas se conteve.
"Acho que preciso descansar um pouco," ele disse, usando a desculpa perfeita. Sua recuperação. "Minha cabeça ainda dói."
Era uma mentira. A dor tinha diminuído. O que ele precisava era de espaço. Espaço para pensar, para processar a teia de enganos em que estava preso.
"Claro, claro," Ana se levantou imediatamente. "Descanse. Eu vou ficar na sala se precisar de alguma coisa. Qualquer coisa mesmo, é só chamar."
Ela saiu do quarto, fechando a porta suavemente atrás de si.
Sozinho, Pedro se levantou e foi até a janela. Observou as luzes da cidade se acendendo enquanto a noite caía. Ele não se lembrava do seu passado, mas seu instinto estava intacto. E seu instinto lhe dizia que Ana, apesar de fazer parte da mentira, não era como Sofia. Havia algo nela... uma decência, uma bondade que ela não conseguia esconder, mesmo tentando.
Ele se perguntou por que ela aceitou. Por lealdade? Por pena? Ou, como Sofia havia insinuado, por algo mais?
Ele voltou para a cama e se deitou, o cheiro dela nos lençóis o envolvendo. Pela primeira vez desde o acidente, ele não se sentiu completamente sozinho. Estava sendo enganado, sim. Mas também estava sendo cuidado. E essa dualidade era a coisa mais interessante que lhe acontecera desde que acordou naquele hospital. Ele decidiu continuar no papel do amnésico confuso. Por enquanto. Ele queria descobrir quem era a verdadeira Ana.