Capítulo 1
Milão - Itália
A tarde que estava tranquila na mansão Moretti foi rompida de forma abrupta. O jardineiro, que cuidava pacientemente das roseiras no jardim, parou de podar ao ouvir os gritos furiosos do patrão e o som de vidros se estilhaçando.
Dentro da imponente mansão, Giovanni Moretti, um dos mais temido chefe da máfia, estava à beira de perder o controle. Seus gritos ecoavam pelos corredores, e o ódio que sentia por seu pai era quase palpável. O homem era um vulcão prestes a explodir.
Seus olhos escureceram quando avistou a esposa entrando no escritório, observando a destruição que ele causara. Um lampejo de desgosto atravessou seu rosto.
- O que você está fazendo aqui? Saia! - Giovanni rugiu, virando-se abruptamente para pegar o telefone. Com uma pressa frenética, discou o número de um velho conhecido. - Paolo? "Ciao". Mande a garota para cá. Preciso me distrair.
Desligando o telefone com força, ele se voltou para a esposa, agora observando-a com desprezo.
- O que foi? Já mandei você sair. Não me provoque, ou você vai se arrepender. Além de tudo, o maldito do meu pai me traiu. Mas ele vai pagar com a vida!
Ela o encarou, sem dizer nada, deixando que o silêncio falasse por si. Sua mente a levou de volta ao início de tudo, quando Giovanni a cortejava com promessas de amor e luxo. Um ano de casamento, e esse mesmo homem havia se tornado seu maior pesadelo.
- Você está me traindo? - Sua voz saiu hesitante.
- Traindo? - Giovanni riu, um som sombrio e sem humor. - Você é fria demais para mim. Ultimamente, parece uma estátua de gelo na cama. Eu quero mulheres que gritem meu nome, que se entreguem sem limites. Algo que você nunca vai entender. Agora, suma da minha frente antes que eu perca a paciência.
- Eu não vou tolerar mais uma traição, Giovanni. - Seus olhos brilharam com raiva, coisa que ela estava reprimindo por meses.
- Como ousa falar comigo desse jeito? - O tom dele era letal, a fúria crescente. - Saia agora, ou eu mudo de ideia e você vai se lembrar de quem manda aqui.
- Não seria a primeira vez - respondeu, a voz firme, mas o corpo tremendo por dentro.
O comentário dela foi como um tapa na cara de Giovanni. Sem pensar, ele avançou sobre ela com a brutalidade de sempre. Agarrando-a pelos cabelos, ele a jogou com força contra a parede. Ela se retraiu, sabendo o que viria em seguida.
A mão dele se ergueu no ar, e o som seco do tapa preencheu a sala. Giulia caiu no chão, o gosto metálico do sangue enchendo sua boca enquanto o mundo ao seu redor escurecia. Giovanni a observou por um momento, antes de se virar, ignorando o corpo dela no chão.
Quando finalmente abriu os olhos, tudo ao seu redor estava quieto. Com uma dor intensa no rosto e no corpo, ela se arrastou até o sofá para conseguir se erguer, sabendo que aquele seria o último dia que passaria naquela casa. Ela não aguentaria mais. Era hora de fugir.
Antes de sair do escritório, Giulia escutou murmúrios abafados vindos de uma sala próxima. Eram gemidos, misturados com a voz de Giovanni, áspera e sem qualquer resquício de pudor. Seu coração apertou no peito. A confirmação que ela temia estava ali, em alto e claro som. Ele não só a maltratava, mas agora também a traía, sem se importar com quem estivesse por perto.
Determinada a escapar daquela vida sufocante, Giulia subiu para o quarto, aproveitando a distração do marido. Seus olhos ardiam pelas lágrimas não derramadas, mas a dor física era ainda mais intensa. O tapa deixara uma marca profunda em sua face, lembrando-a de que aquele seria seu último dia naquela prisão de luxo.
Andando pelos corredores vazios da mansão, ela percebeu algo incomum: a ausência dos seguranças. O caminho estava livre. Uma chance rara e preciosa de fugir.
Chegando ao quarto, Giulia pegou um celular que havia comprado às escondidas meses antes. Ligou para um contato confiável, combinando os detalhes de sua fuga. Sabia que não tinha muito tempo. Com agilidade, preparou uma mala com o essencial e uma bolsa cheia de dinheiro que tirou do cofre. Ela havia descoberto a combinação há algumas semanas, um golpe de sorte que agora poderia salvar sua vida.
Descendo com cautela até a garagem, onde seu carro estava estrategicamente posicionado, Giulia verificou se as câmeras tinham um ponto cego. Com a mala discretamente guardada no veículo, ela se permitiu um segundo de alívio.
Ao entrar no veículo, disfarçou a marca do tapa com maquiagem. Não podia chamar atenção.
Ela respirou fundo, suas mãos tremendo ao agarrar o volante. Cada fibra do seu ser gritava de medo, mas ela sabia que tinha que manter a calma. Sem hesitar, deu partida no carro e dirigiu em direção ao portão principal.
Surpreendentemente, os seguranças abriram o portão sem questionar.
Minutos depois, Giulia acelerava pela rodovia. Seu coração batia descompassado, e a sensação de estar sendo perseguida aumentava a cada quilômetro. Ao chegar ao aeroporto, encontrou seu contato no banheiro feminino. Ele estava disfarçado e pronto para ajudá-la.
- Aqui estão as passagens, o passaporte e seu novo documento - ele disse, entregando os documentos.
- Brasil? - Ela perguntou, surpresa ao ver o destino impresso nas passagens.
- Você precisa sumir. O país não importa, mas no Brasil você estará segura, ao menos por um tempo - respondeu ele, firme.
Giulia engoliu em seco. Ela queria fugir, queria se livrar de Giovanni e da vida que ele lhe impusera. Mas a incerteza de uma nova vida a milhares de quilômetros de distância era assustadora.
- Agora vá. Seu voo sai em uma hora. Não olhe para trás - disse o contato, com urgência.
Giulia agradeceu, segurando a ansiedade que se acumulava em seu peito. Ela se dirigiu ao guichê, onde um atendente verificou seu passaporte. Seu nome falso estava perfeito, mas o medo de ser descoberta fazia suas mãos suarem.
Liberada para o embarque, ela sentiu seu corpo ficar tenso ao avistar os capangas de Giovanni entrando no saguão, armados e prontos para encontrá-la. O coração dela disparou. Eles estavam próximos. Muito próximos.
Mas, contra todas as probabilidades, Giulia conseguiu embarcar. O alívio foi imediato, mas o pânico voltou quando ouviu o som de sirenes do lado de fora, antes de decolar.
O avião fechou as portas. As sirenes pareciam se aproximar, e Giulia mal conseguia respirar, mas, finalmente, sentiu o alívio quando as rodas do avião começaram a deslizar pela pista. A decolagem estava garantida. Ela fechou os olhos, permitindo que as lágrimas finalmente caíssem. Por pouco, muito pouco, ela escapara com vida.
Agora, ela teria que enfrentar um novo destino. E o Brasil seria seu refúgio.
***
Na mansão Moretti, o foi interrompido pelo som estridente de Giovanni esmurrando a mesa. Ele rangia os dentes, o rosto tomado por uma expressão de fúria incontrolável. Giulia, sua esposa, havia fugido. E o mais revoltante: estava a caminho do Brasil.
Ao desligar o telefone com um golpe, ele se levantou bruscamente, jogando a cadeira contra a parede e gritando cheio de ira. A notícia ecoava em sua mente como um tambor incessante. Ela ousara fugir, escapar de suas garras. Uma traição que ele jamais imaginara possível. Nunca a perdoaria.
Com passos rápidos, pegou o celular novamente, discando um número que não usava há muito tempo. Do outro lado da linha, atendeu uma voz grossa de alguém que devia muitos favores ao mafioso.
- Ela está indo para o Brasil. Eu quero Giulia de volta. Viva - ordenou, sem dar espaço para questionamentos. - Não me importa como vocês farão isso, apenas tragam-na. Se ela resistir, lidem com ela. Mas a quero viva.
A voz do outro lado concordou com um breve "Sim, senhor", e Giovanni desligou, sentindo o gosto amargo.
Ele se aproximou da janela, observando o jardim da mansão, as mãos ainda tremendo de raiva. Giulia podia correr, mas não havia lugar no mundo em que ele não pudesse encontrá-la. Giovanni sabia que, mais cedo ou mais tarde, sua esposa retornaria, arrastada de volta, se necessário. E quando isso acontecesse, ela conheceria o verdadeiro significado de ser sua prisioneira.
O mafioso respirou fundo, tentando controlar a maré de emoções que o dominava. O Brasil não era o fim da linha para Giulia. Apenas o começo de um jogo mais perigoso.
***
Giulia finalmente sentia o avião rasgar os céus, cada segundo a afastando do inferno que era a vida ao lado de Giovanni. No entanto, mesmo a milhares de metros de altura, sabia que o perigo estava longe de acabar. Ela tinha plena consciência de que Giovanni não aceitaria essa fuga tão facilmente.
Giulia finalmente pousou no Brasil, mas, ao invés de se esconder em uma grande cidade, decidiu fugir para o interior de Minas Gerais, buscando uma pequena cidade onde pudesse se camuflar. A tranquilidade do lugar seria a sua melhor proteção. O ônibus que a levou até a cidadezinha serpenteava por estradas rurais, e Giulia aproveitou o caminho para tentar acalmar as emoções em sua mente.
Ao descer na rodoviária, o ar era diferente, o clima era mais ameno, e a paisagem, bucólica.
"Aqui eles não me encontrarão", pensou.
Carregando a bolsa com dinheiro e a pequena mala, ela caminhou. Enquanto andava, passou em frente a um mercado pequeno, onde pretendia entrar para comprar mantimentos.
No entanto, antes de entrar, um barulho de pneu cantando no asfalto a paralisou. Uma criança corria despreocupada da calçada para atravessar a rua, e Giulia percebeu que um carro descia rapidamente pela estrada em sua direção, parecia fora de controle. Sem pensar duas vezes, ela largou sua bolsa no chão e correu com toda a força, conseguindo agarrar a menina que tinha cerca de dez anos no último segundo.
Capítulo 2
O carro freou bruscamente, parando a poucos metros das duas, mas o choque de quase ter sido atropelada deixou a garota paralisada nos braços de Giulia. Ela olhou para Giulia com os olhos arregalados e lágrimas prontas para cair.
- Você está bem? - Giulia perguntou, ainda com a voz trêmula pela adrenalina.
- Eu... eu acho que sim - respondeu a menina, assustada, enquanto se levantava lentamente.
Algumas pessoas se aproximaram, e logo um homem surgiu, visivelmente desesperado e ofegante, mas com uma expressão fechada.
- Vitória! Minha filha! - Ele correu até elas e, ao ver Giulia segurando a criança, afastou-a rapidamente da mulher estranha. - O que você pensa que está fazendo com a minha filha?
Giulia ficou surpresa com a reação, ainda tentando processar o que havia acontecido.
- Eu só... - começou ela, mas ele a interrompeu.
- Só? Só colocou a vida dela em perigo, isso sim! - disparou o homem, o rosto vermelho de frustração. - Se você tivesse prestado mais atenção, isso nem teria acontecido!
- Mas... eu salvei ela. O carro quase... - tentou explicar, mas se calou sem acreditar na agressividade dele.
- Não venha me dizer o que quase aconteceu! - O homem, claramente irritado, lançou um olhar desconfiado. - Fique longe da minha filha!
Giulia sentiu a injustiça das palavras dele e, por um momento, pensou em retrucar, mas mordeu os lábios. O homem, abraçando a filha, a levou para longe, sem sequer agradecer, lançando um último olhar de desdém.
Giulia suspirou e, sem dizer mais nada, entrou no mercado, ainda processando a situação. Tentou se concentrar nas prateleiras à sua frente, pegando os itens de que precisava, mas o olhar cheio de desdém do cowboy ainda estava fresco em sua mente.
Do lado de fora, Carlos ajudou a filha a entrar na caminhonete, fechando a porta com um estalo, ainda com os nervos à flor da pele. Ele olhou para a filha no banco de trás, tentando ver se ela estava realmente bem.
- Você está bem, querida? - perguntou, suavizando a voz.
- Sim, papai. Foi só um susto - respondeu Vitória, com a voz ainda um pouco trêmula.
Carlos soltou um longo suspiro de alívio. Mas logo sua expressão se fechou novamente, a raiva e a confusão misturadas em sua mente.
- Aquela mulher é uma louca! - ele exclamou, mais para si mesmo do que para a filha.
- Não, papai! - Vitória o corrigiu rapidamente, o tom de voz um pouco mais firme. - Ela me salvou. Eu estava atravessando a rua e não vi o carro. Se ela não tivesse me puxado...
Carlos ficou em silêncio por um momento, processando as palavras da filha. Ele tinha agido por impulso, tomado pela adrenalina e pelo medo de perder Vitória. Agora, ouvindo a verdade de sua própria filha, sentiu um arrependimento crescente se espalhar em seu peito. Olhou para o volante e suspirou forte, lembrando de sua grosseria.
- Ela te salvou? - ele murmurou, como se tentasse se convencer daquilo. A culpa agora o corroía. - Eu... eu fui um idiota.
Ele virou-se para a filha, decidido.
- Venha, vamos encontrar aquela mulher.
Carlos desceu da caminhonete rapidamente, puxando a filha pela mão. Ele olhou em volta, procurando pela mulher que, agora, ele sabia que devia um pedido de desculpas.
Dentro do mercado, Giulia estava distraída, passando os itens para o carrinho, quando sentiu alguém se aproximar. Ela olhou para o lado e viu cowboy, acompanhado de Vitória, se aproximando de forma um pouco hesitante. Sua expressão não era mais de raiva, mas de culpa.
- Com licença... - Carlos começou, a voz um tanto baixa. - Eu... preciso falar com você.
Giulia o encarou, surpresa. Não esperava vê-lo novamente, muito menos tão rápido. A imagem dele a insultando ainda estava fresca em sua mente.
- O que foi agora? - ela respondeu, tentando manter a calma.
Carlos suspirou e olhou para a filha, que o incentivou com um pequeno sorriso.
- Eu... eu fui um idiota lá fora - ele admitiu, a voz cheia de arrependimento. - Eu agi por impulso e não percebi o que realmente aconteceu. Vitória me contou que você... você salvou ela.
Giulia ficou em silêncio, encarando-o com surpresa no olhar.
- Eu só estava tentando ajudar - respondeu ela, com a voz baixa.
- E eu fui grosso, mal-educado - Carlos continuou. - Eu só... eu pensei que você estivesse distraída, mas na verdade, você a salvou. Se não fosse por você... - Ele parou por um momento, respirando fundo, visivelmente desconfortável. - Não sei o que teria acontecido. Me desculpe. De verdade.
Giulia relaxou um pouco ao ouvir as palavras dele, e sua expressão suavizou. Ela olhou para Vitória, que ainda segurava a mão do pai, e depois para o cowboy, que agora parecia um homem bem diferente daquele que havia gritado com ela momentos antes.
- Está tudo bem - ela respondeu, finalmente. - Eu entendo. Só fiquei surpresa com a sua reação.
Carlos assentiu, parecendo aliviado por ela não ter rejeitado seu pedido de desculpas.
- Obrigado, de verdade. Eu... não sei como agradecer - disse ele, baixando o olhar por um momento, visivelmente arrependido.
Vitória sorriu para Giulia, e a mulher retribuiu o gesto com um sorriso tímido.
- Bom, pelo menos agora você sabe - Giulia disse, olhando para Carlos. - Não foi nada, só fiz o que qualquer um faria.
Carlos balançou a cabeça, quase rindo de si mesmo.
- Eu não sei se qualquer um teria agido tão rápido quanto você - ele disse, agora mais leve. - Se precisar de qualquer coisa... estou em dívida com você.
Giulia sorriu de leve, sentindo o peso da tensão diminuir.
- Eu estou bem, obrigada. - Ela hesitou por um momento, e depois continuou: - Só... Fique de olho nela, ok? Crianças são imprevisíveis, mesmo ela já sendo uma mocinha.
Carlos riu, mais relaxado agora.
- Pode deixar. Eu vou - ele disse, olhando para Giulia com mais atenção, notando algo que não havia percebido antes. Seus olhos recaíram sobre a mala ao lado do carrinho de compras e o sotaque leve em suas palavras. - Você é nova por aqui, não é? - perguntou, curioso. - E tem um sotaque diferente... Você é estrangeira?
Giulia suspirou, sentindo uma pontada no peito ao lembrar o motivo que a levou àquela pequena cidade do interior.
- Sim... - disse ela, após uma pausa. - Agora minha vida é aqui no Brasil, mas sou italiana.
Vitória, que até então estava quieta, arregalou os olhos, empolgada.
- Uau! Você é da Itália? - exclamou a menina, encantada. - Eu amo esse idioma! Sempre quis aprender italiano!
Carlos sorriu ao ver a empolgação da filha, e isso o fez se sentir mais à vontade.
- Bom, meu nome é Carlos Albuquerque. E você, como se chama?
- Giulia Ricci - respondeu ela, oferecendo um leve sorriso enquanto apertava a mão dele. A impressão inicial, ainda que tensa, agora parecia mais amigável.
Carlos refletiu por um momento, observando Giulia e a situação em que ela estava. Ele sabia que sua fazenda precisava de ajuda em várias áreas, especialmente com Vitória. Um pensamento surgiu em sua mente, e, sem hesitar, ele perguntou:
- Você está procurando um emprego, Giulia?
Ela olhou para ele, surpresa pela pergunta direta, mas a realidade é que sim, ela precisava de um trabalho para se estabelecer.
- Sim, estou - admitiu, um pouco cautelosa.
Carlos balançou a cabeça, como se estivesse tomando uma decisão.
- Bem, eu estou precisando de alguém para cuidar da Vitória. Seria como uma babá, sabe? E já que você fala italiano, talvez até possa ensinar o idioma a ela. O que acha?
Vitória saltou de alegria, puxando o braço do pai.
- Por favor, Giulia! Eu adoraria aprender italiano com você!
Giulia sorriu para a menina, tocada pela empolgação dela, mas ainda incerta.
- Eu adoraria ensinar, de verdade - começou ela, com delicadeza. - Mas, Carlos... ela já está grande para ter uma babá, não acha?
Carlos riu e coçou a nuca, parecendo um pouco constrangido.
- É, talvez você tenha razão. Mas tem coisas, sabe, coisas de mulheres, que eu não sei como conversar com ela. Eu sou viúvo, e tem momentos que... eu só não sei lidar com certos assuntos.
Giulia entendeu imediatamente. Não era apenas sobre cuidados práticos, mas também sobre a necessidade de alguém que pudesse guiar Vitória em momentos delicados, que fossem além das capacidades de Carlos.
- Eu entendo. - Ela olhou para Vitória, que a observava ansiosa. - Se for assim, aceito ser a babá dela... e a professora de italiano, claro.
Vitória comemorou, abraçando o pai.
- Oba! Vai ser incrível!
Carlos sorriu, aliviado com a decisão dela.
- E mais uma coisa - disse ele, olhando de forma um pouco mais séria. - Se você vai trabalhar comigo, pode morar na fazenda Albuquerque. Temos espaço de sobra. O que me diz?
Giulia ficou em silêncio por um instante, ponderando. O convite parecia uma boa oportunidade, e a fazenda seria um refúgio seguro, longe do caos que a fez fugir. Além disso, Vitória parecia uma garota doce e Carlos, apesar de seu comportamento inicial, agora mostrava um lado mais gentil e preocupado.
Ela finalmente assentiu, com um pequeno sorriso no rosto.
- Parece uma boa ideia. Eu aceito.
Carlos estendeu a mão novamente, dessa vez com um olhar de agradecimento.
- Bem-vinda, Giulia.
Ela terminou de fazer as compras e saiu do estabelecimento com Carlos, que carregava sua mala e as sacolas até o carro. Enquanto ambos entravam e se preparavam para sair, quatro homens surgiram de trás das árvores da praça. Eles os observavam há algum tempo.
- Vamos atrás deles!
Capítulo 3
Carlos estacionou a caminhonete em frente à imensa casa rústica. Giulia ficou imediatamente encantada com a beleza simples e acolhedora da casa rústica.
- A casa é linda - disse Giulia, ainda admirada enquanto saía do carro.
Carlos sorriu, notando a expressão no rosto dela, e levou a mala e sacolas para dentro. Giulia o seguiu, seus olhos ainda presos na paisagem ao redor, onde a vastidão dos campos verdes parecia se estender pelo horizonte.
Enquanto Vitória corria para a área gourmet para ver o que os cozinheiros tinham preparado para o café da tarde, Carlos tirou o chapéu, passando a mão pelos cabelos castanhos antes de recolocá-lo de maneira prática e habitual.
- Fique à vontade - disse ele com um aceno de cabeça, enquanto caminhava em direção ao escritório.
Giulia o seguiu, curiosa. O escritório era aconchegante, com móveis de madeira escura e paredes decoradas com prateleiras cheias de livros e alguns troféus de montaria. Carlos abriu uma gaveta e, sem cerimônia, puxou um coldre duplo, colocando-o na cintura e ajustando-o nas pernas.
Giulia observou em silêncio, fascinada com a calma com que ele pegava duas armas e começava a carregá-las com a mesma precisão de quem já fez aquilo centenas de vezes. Ele pegou uma caixa de munição e colocou nos bolsos, suas mãos trabalhando com rapidez, mas sem qualquer sinal de pressa.
Antes de sair, ele olhou para Giulia, que ainda estava observando cada movimento dele.
- Se quiser pegar um cavalo e dar uma volta, fique à vontade. Só não vá muito longe para não se perder - disse ele enquanto caminhava até a porta da frente, o tom firme, mas não autoritário.
Giulia assentiu com a cabeça, um leve sorriso nos lábios, ainda fascinada com o lugar. Embora tivesse crescido cercada por luxo e ostentação, havia algo naquela simplicidade que a atraía profundamente.
Carlos abriu a porta e saiu, deixando Giulia sozinha, absorvendo tudo à sua volta.
Giulia seguiu Carlos até o estábulo. Ela o observou enquanto ele selava um cavalo branco de crina longa e brilhante. A cena era quase hipnotizante, e ela não conseguiu conter o comentário.
- Ele é lindo - disse, admirada.
Carlos olhou por cima do ombro e sorriu de leve.
- Ela é linda - corrigiu com suavidade. - Essa aqui é a Floco de Neve, a égua mais ágil e rápida da fazenda. - Ele parou por um momento, puxando a sela com firmeza e ajustando as correias. - Mas é a única que você não deve montar. Ela exige muito do cavaleiro e precisa de mãos experientes. Não quero que você corra nenhum risco.
Giulia assentiu, respeitando o aviso, mas algo dentro dela despertou. A ideia de cavalgar por aquelas terras abertas, sentir o vento nos cabelos e deixar um pouco da tensão para trás era tentadora. Antes que pudesse se conter, as palavras saíram de sua boca.
- Posso ir com você? - perguntou, surpreendendo até a si mesma com a espontaneidade.
Carlos parou por um momento, olhando-a nos olhos como se estivesse avaliando a pergunta. Depois de alguns segundos, um leve sorriso puxou os cantos de seus lábios.
- Claro - respondeu. - Vou fazer a ronda da tarde pela fazenda, seria bom ter companhia.
Giulia sentiu-se empolgada e sorriu. Ele terminou de selar a égua, e então caminhou até outro compartimento do estábulo para preparar um cavalo para ela, um belo animal castanho.
- Este aqui é o Tormenta. É dócil, mas rápido quando precisa. Vai se dar bem com ele - disse Carlos, entregando-lhe as rédeas e pegando um chapéu de palha entregando para ela.
Giulia acariciou o pescoço do cavalo, sentindo o calor da pele e o movimento dos músculos por baixo da pelagem brilhante. Com a ajuda de Carlos, ela montou, ajustando-se na sela.
Carlos subiu em Floco de Neve com uma naturalidade que mostrava o quanto estava acostumado à vida ali. Ele deu um leve toque com os calcanhares na lateral da égua, que começou a trotar tranquilamente à frente.
- Vamos dar uma olhada nos limites das cercas - explicou enquanto avançavam em um ritmo confortável. - Sempre verifico se está tudo em ordem antes do pôr do sol. Com a seca desse ano, temos que ficar atentos a qualquer problema.
Giulia seguiu ao lado dele, o vento suave acariciando seu rosto enquanto cavalgavam por entre as vastas planícies. O silêncio entre eles era confortável, apenas interrompido pelo som dos cascos dos cavalos no chão e o farfalhar das árvores ao redor.
- Esse lugar é incrível - disse ela depois de alguns minutos, quebrando o silêncio. - Não imaginava que pudesse ser tão... tranquilo.
Carlos olhou para ela, os olhos sob a aba do chapéu brilhando com certa curiosidade.
- É um bom lugar para recomeçar - disse ele, em um tom que sugeria que ele sabia mais do que estava dizendo.
Ela sorriu, mas não respondeu de imediato. Havia uma verdade nas palavras dele que a tocava de uma maneira inesperada. A vida no interior, longe do caos que ela havia deixado para trás, de repente parecia a escolha certa.
- E você, Giulia? O que te trouxe até essa parte do mundo? - Carlos perguntou, sem pressa.
Ela mordeu o lábio, ponderando por um momento se deveria responder com sinceridade ou apenas mudar de assunto. Mas algo no jeito direto dele a fez confiar e lhe contar uma parte da verdade.
- Eu... precisava de um recomeço. As coisas ficaram complicadas na minha vida, e achei que um lugar tranquilo como esse seria o melhor para... me reorganizar - disse, tentando não revelar muito.
Carlos assentiu, como se compreendesse.
- Bom, aqui você terá todo o espaço que precisar para isso.
O caminho os levou até uma colina que oferecia uma vista deslumbrante da fazenda abaixo, com cercas se estendendo até onde os olhos alcançavam. Ele parou o cavalo e olhou ao redor, atento aos detalhes.
- Tudo parece em ordem por aqui. - Carlos comentou, satisfeito. - Vamos descer até o riacho e dar uma olhada no gado.
Giulia apenas assentiu, sentindo-se cada vez mais conectada àquele lugar.
Eles chegaram a uma parte alta, de onde era possível ver o riacho que cortava as terras da fazenda. A vista era incrível, mas Giulia não conseguia se concentrar apenas na paisagem. De repente, seus olhos se voltaram para Carlos, o cowboy ao seu lado. Algo nele chamava a atenção de uma forma irresistível.
Ele era muito mais velho do que ela, mas as laterais levemente grisalhas de seus cabelos lhe davam um charme que a fazia morder o lábio, sem perceber. Seus olhos eram atentos, como os de uma águia, sempre vigilantes, captando cada movimento ao redor. Mas não era só isso.
O porte dele, a maneira como se movia com tanta naturalidade sobre o cavalo, a imponência de sua altura, os músculos visíveis através da camisa de botão que ele usava, tudo nele exalava charme.
Ela mal se dava conta de que o estava observando por tempo demais, até que Carlos, com um leve sorriso no canto dos lábios, a olhou de soslaio e comentou com uma voz rouca e provocante:
- Está reparando muito, não acha?
Giulia ficou vermelha, surpresa por ter sido flagrada. Ela abriu a boca para responder, mas antes que pudesse pensar em qualquer coisa, um som ensurdecedor de um motor rasgou o silêncio da tarde.
- Que diabos...? - murmurou Carlos, franzindo o cenho.
Ele virou a cabeça, focando seus olhos na direção do barulho, e viu um carro acelerando em alta velocidade, quebrando a cerca e vindo diretamente em direção a eles. O instinto de Carlos foi imediato; ele puxou as rédeas de Floco de Neve, virando a égua para o lado, enquanto gritava para Giulia.
- Saia do caminho!
O coração de Giulia disparou. Ela puxou as rédeas de Tormenta com força, mas o cavalo sentiu seu medo e começou a se agitar. Apoiando-se nos estribos, ela tentou manter o controle, enquanto Carlos, com uma habilidade impressionante, puxou sua égua para frente, parando próximo de Giulia e estendendo o braço.
- Aqui, pega minha mão! - ordenou ele.
Sem hesitar, Giulia segurou a mão de Carlos com força, e ele a puxou para perto, tirando-a do cavalo fazendo se sentar atrás dele.
- Segure-se em mim! - Carlos ordenou, a voz firme e sem hesitação.