NARRAÇÃO HEITOR
O vento bate em meu corpo e queria poder senti-lo. Queria poder de alguma forma saber qual a sensação. Encaro Curitiba a minha frente em sua escuridão. Abaixo dos meus pés, há exatamente vinte andares, humanos sorrateiros vagam pelas ruas, quando deviam estar dormindo. Curitiba não dorme ao que me parece. Alguns meses vagando entre humanos podres, já pude perceber que sabem o privilégio que possuem de poder sentir. Queria saber como sãos os sentimentos humanos. Como é sentir a vida pulsar dentro de mim. Demônios não possuem alma. Demônios não possuem sentimentos. Demônios apenas servem para cumprir ordens da escuridão, do inferno. Novamente encaro o céu escuro e fecho meus olhos. Eu só queria que isso acabasse. Solto meu corpo e me jogo do topo do prédio. Não sinto nada, nenhuma emoção ou reação. Tem sido assim nos últimos dias. Meu corpo se choca com o asfalto e escuto a gritaria em torno de mim.
- Socorro!
A voz desesperada de uma mulher surge perto de mim. Abro meus olhos e a vejo de joelhos ao meu lado.
- Oh Deus! Você está bem?
Levanto e olho meu corpo todo em busca de alguma marca, sangue ou algo que me diga que estou deixando de ser demônio. Estou deixando de ser imortal na terra.
- Isso... isso...
A mulher tem o olhar assustado para mim.
- Você caiu de lá de cima.
Aponta para o alto e depois para mim.
- Era pra estar...
- Morto?!
- Sim!
- Infelizmente não tive essa sorte.
Viro e sigo andando pela rua, completamente nu.
- O que você é?
- Você não vai querer saber.
- Você é um anjo?
Paro de andar e viro para a mulher que está com os braços em torno de seu corpo, como se quisesse se proteger de mim. Caminho em sua direção e paro muito perto. Aproximo minha boca de seu ouvido.
- Anjos não cometem pecados.
Dou uma bela lambida em seu ouvido.
- Eu sou o pecado!
Ela se encolhe toda e esses humanos são um bando de bosta, criados para serem as coisas mais nojentas no mundo.
- Sou bem melhor que um anjo!
Ela se afasta de mim e sei que está prestes a correr.
- Sou um demônio!
NARRAÇÃO HEITOR
Visto minhas roupas, pois aparentemente os humanos não aceitam a nudez. Como se o problema, o pecado estivesse em quem não veste roupas e não naquele que olha com cobiça, luxúria ou inveja. Ainda não entendo como uma mulher pode invejar outra mulher. Para mim tudo se resume a peitos, bundas, carne. A verdade é que todas as mulheres com quem cometi pecado carnal foram apenas corpos. Como invejar apenas uma casca? Os humanos são focados no que os olhos podem ver. Boa aparência, carros, casas, dinheiro. Eles não sabem dar valor ao que realmente os tornam preciosos. Daria tudo para poder sentir. Tem qualquer sentimento dentro de mim. De sentir qualquer merda desse mundo. Raiva, ódio, ira, desejo, o tal do tesão. Eu não senti até agora nada disso. Tenho o tal do pênis que as mulheres adoram enfiar na boca e chupar. Queria saber que gosto meu pênis tem. Será que tem mesmo gosto de pau? Por que gostar de chupar algo com gosto de pau? Perguntei ao humano que trabalha com madeira se pau tem gosto bom e ele riu da minha cara. Imagino que não tem gosto bom. Então por que elas vivem dizendo que querem chupar meu pau? Sei que elas também gostam de ser chupadas e não faço idéia que sabor possuem. Será que tudo tem gosto de pau?
- Já vai embora?
A humana nua coloca a mão no meu peito. Olho para sua mão e queria poder sentir seu toque. Demônios literalmente foram feitos para porra nenhuma, só prestamos no inferno. Seus olhos parecem que vão me engolir. Deve ser culpa da minha perfeição. Corpo forte, altura acima do padrão humano, olhos, barba e cabelos negros contrastando com minha pele branca,
- Vou!
Tiro sua mão do meu peito e coloco minha camiseta.
- Achei que faríamos mais um pouco de sexo!
Morde a boca e fico sem entender por que.
- Só enfiei meu pênis em você pra saber se era diferente. Mas você é como as outras. Não muda nada.
A humana puxa o pano da cama e cobre seu corpo. Por que está fazendo isso? Eu já vi tudo que ela agora me esconde.
- Não precisava ser grosso assim.
- Grosso? Só por que lhe disse que você é como as outras? Vocês mulheres são a mesma espécie e não podem conter diferenças. Agora entendo que posso enfiar meu pênis em todas que será tudo igual.
- Seu insensível!
Joga um vaso em minha direção e ele se choca contra o meu peito, se quebrando em vários pedaços. Queria saber como é se ferir e sentir dor.
- Me desculpe! Eu...
A humana vem em minha direção e parece preocupada comigo.
- Você não se feriu?
- Não! Te falei que era um demônio.
Seus olhos se arregalam.
- Não tenho alma, não sinto dor, não me machuco, não sinto toque e não sei o que ter sentimentos. E vocês humanos de merda não podem me ferir.
- Você... você é estranho!
- Não sou estranho! Me apresentei a você. Sou Heitor e até pouco tempo atrás gritava meu nome.
- Acho melhor ir embora!
Segura meu braço e vai me puxando para fora da sua casa.
- Imagino que tenha ficado assustada. Essa é a reação que toda humana tem depois de sentar no meu pênis, gritar meu nome e ficar brava porque sou demônio.
- Adeus!
Me coloca na rua e fecha a porta. Mais uma humana que não mexe comigo. Estou cansado de ter esse pênis duro e nada o acalmar. Fica incomodo guardá-lo nas roupas. Por isso acho que a nudez é sempre mais confortável. Como será o tal gozo? Todas sempre me pedem a mesma coisa. "Goza pra mim!" Que porra é essa de goza pra mim? Será que é aquelas mijadas que algumas humanas dão em mim, enquanto meu pênis se enfia nelas? Será que preciso mijar nas humanas na hora do sexo? Paro de andar e algo me chama atenção. Uma sombra passa por mim. Mas é só uma sombra. Sei bem o que isso significa. É a morte! Olho em volta, para saber que humano está prestes a morrer. Está tudo vazio e não entendo porque a morte esta aqui. Olho para algumas casas, o fim da rua e o beco. A escuridão da noite não facilita muito.
Continuo andando e olhando tudo. Paro de andar ao ver finalmente quem está prestes a encontrar a morte. Em cima da ponte está uma humana. Ela não deveria estar na beira da ponte. Seus olhos estão fechados e a sombra da morte ao seu lado. Não sei por que, mas resolvo subir a ponte. Nunca interfiro quando o assunto é sobre levar humanos embora, mas essa humana... eu não faço idéia do que ela tem e porque estou na ponte. A mão dela está segurando a mureta da ponte e sei que se soltar a mão, ela cai e morre.
- Oi!
Digo me aproximando e a sombra da morte não recua. A humana vira a cabeça e me olha. Enormes olhos de mel claro que estão brilhando de tantas lágrimas.
- Oi!
Sua voz é baixa e ela volta a olhar para frente.
- Uma bela visão.
Paro atrás da mureta, perto dela.
- Sim...
- Não devia estar na sua casa?
- Não!
A sombra da morte não recua.
- Você...
- Não se aproxime. Não tente me impedir.
Fala soltando uma mão da mureta.
- Não vou te impedir. A verdade é que não me importo se pular.
A humana olha pra mim chorando.
- Nada muda na minha vida se ficar viva ou se morrer.
- Não muda a vida de ninguém.
Ela parece tão triste.
- Sente-se sozinha?
Não responde e sei como é estar sozinho. Estou vagando pela terra sem saber o que fazer, pra onde ir. Em certos momentos desejo voltar ao inferno. Mas então me lembro que fui expulso.
- Me responde!
- Por favor! Vai embora e me deixa fazer isso.
- Não vou embora! Acha mesmo que perderia o espetáculo que é seu corpo se espatifar no chão? Se eu tiver sorte ainda vejo seus órgãos expostos.
Vejo um pequeno sorriso se formar em seu rosto.
- Você tem um jeito estranho de salvar pessoas do suicídio.
- Não estou te salvando. A verdade é que você está salvando uma noite ruim de sexo horrível que eu tive.
A humana morde a boca como a outra humana fez, mas algo estranho acontece. Um vibrar no meu pênis como resposta. Meu corpo nunca reage aos humanos.
- Qual o seu nome?
- Eva!
- Sou Heitor!
- Pegaria sua mão, mas eu meio que estou prestes a me matar.
- Fique a vontade!
Olho para baixo e a vejo fazer mesmo. Então a sombra da morte praticamente gruda no corpo da humana que se desequilibra e solta a mão que a mantinha segura.
- Não!
Em um movimento rápido, seguro sua mão e consigo impedir que caia. Puxo seu corpo e ela me abraça forte.
- Não me solta!
Espera! Ela me abraça forte... forte o suficiente para me fazer sentir seu abraço.
- Me segura!
Meus braços agora estão em torno dela e posso senti-la. Eu finalmente posso sentir um humano. Fecho meus olhos ao sentir o cheiro de seu cabelo perto do meu nariz. Os humanos cheiram tão bem.
- Vou te tirar dai!
Puxo seu corpo para dentro da mureta e sinto algo no meu braço. Vejo sangue e não acredito.
- Estou sangrando!
Toco a ferida e isso dói. Dor... estou sentindo dor.
- Eu te machuquei?
Novamente a humana me toca e eu a sinto. Isso é loucura.
- Posso sentir você.
Minhas mãos agora a tocam.
- Você me sente?
- Sim...
Pela primeira vez um humano me faz sentir e me sente.
NARRAÇÃO HEITOR
- Agora já pode tirar as mãos dos meus seios.
Aperto ainda mais suas saliências e isso é tão intrigante. Meu pau até treme de felicidade.
- Heitor, pode soltar meus seios?
- Não consigo! Eles são tão...
- Tira a mão!
Levo um tapa. Caramba! Ela bateu na minha mão e doeu.
- Faz de novo!
- Fazer o que?
- Me bate!
- Não vou te bater.
- Por que não vai me bater?
- Porque não se deve bater nas pessoas.
- Primeiro eu não sou "pessoas".
Dou ênfase na palavra que odeio. Humanos são a espécie mais podre criada. Um demônio nunca deve ser comparado a lixo.
- Segundo, você acabou de me bater.
- Te bati porque está tocando meus seios.
- Oh!
Agora tudo fica mais claro. Tetas liberam a agressividade humana. Volto a tocar as tais tetas e isso é tão legal.
- Para!
Levo outro tapa.
- Eu preciso entender porque posso te sentir.
Espera! Ela disse que me sente. Pego sua mão e enfio no meu pau.
- Consegue sentir ele?
- Sim!
Normalmente as humanas que enfio meu pau, não o sentem de verdade. Ela sentem algo... como foi mesmo que a outra disse? Algo celestial, de outro mundo. É como se fosse algo fora do mundo e nada humano. Então entendi que não sentia o meu toque, mas o prazer em si que eu as dava. Um prazer que venho tentando sentir a cada trepada com humana que dou. Olho a humana a minha frente e ela parece tão deliciosa. Isso deve ser o tal apetite sexual. Quero me enfiar nela pra caralho.
- Vamos trepar.
- O que?
- Trepar! Vou enfiar meu pau no seu buraco.
- No meu buraco?
- Deixo você escolher. Não tenho problemas com nenhum deles. Pode ser boca, a sua buceta ou cu. Se quiser o ouvido, tudo bem. Mas devo informar que a ultima que tentou enfiar meu pau no ouvido, teve...
- Chega!
A humana grita com cara de nojo. Humano tendo nojo de humano. Julgando uns aos outros por suas escolhas.
- Você não vai enfiar nada em mim.
Olho para o meio de suas pernas e agora entendo tudo. Ela é tipo humana que nasceu humano. Ela tem pau. Bom! Nunca tentei isso antes, mas se ela é a única que pode me sentir...
- Tudo bem! Pode enfiar na minha bunda.
- O que?
Achei que não era possível ela fazer uma cara mais assustada que a de antes.
- Pode enfiar seu pau em mim. Nunca chupei um, mas se todas pedem pra chupar meu pau, é porque deve ser bom. Abaixa a calça e deixa eu provar.
- Meu Deus!
- Não enfia ele nisso! Não estou afim de ouvir sermão divino. Chame o diabo que ele vai me entender.
- Você usou drogas?
- Não! Já tentei usar, mas não fizeram efeito em mim.
- Bebeu?
- Bebida também não faz efeito em mim.
- Você é louco?
- Não! Sou um demônio.
E humana ri de mim e odeio quando fazem isso. Quando menos percebo, minhas mãos estão em seu pescoço.
- Hei...tor...
Bate no meu braço e isso é tão intenso. O que estou sentindo agora? Isso que cresce dentro de mim é um sentimento? Prazer?
- Me... solta...
Seus olhos cor de mel parecem desesperados e tudo que eu sentia antes some, entrando outro sentimento que também não reconheço. Remorso? Solto seu pescoço em busca o ar.
- Você quase me matou!
- Não era isso que queria?
Me olha com tristeza. Caramba! Muitos sentimentos aqui em tão pouco tempo.
- Há alguns minutos atrás estava querendo isso.
Limpa o rosto e percebo que chora.
- É melhor eu ir embora!
Vira e começa a andar. Sigo atrás dela, sem saber pra onde vamos.
- Por que está me seguindo?
- Porque vou com você!
Para de andar e não vira.
- Não! Vou embora sozinha!
- Não! A partir de agora estou com você.
- O que?
Vira pra mim e seus olhos estão bem apertadinhos. Isso dificulta minha leitura sobre ela. Essa humana é confusa demais.
- Olha! Sei que acabou de salvar minha vida e agradeço muito por isso.
Arruma o cabelo e parece inquieta.
- Mas não vai acontecer de novo. Estou bem!
- Não me importo com você!
Ela para de se mover e parece paralisada. Isso facilita minha tentativa de entendê-la. Apesar que paralisada totalmente assim, não me diz nada.
- Não me importa se vai se jogar da ponte.
Seus olhos piscam muito rápido.
- Na verdade o que me importa é saber porque você me sente de verdade e eu te sinto.
- Porque somos dois corpos cheios de carne, pele e isso facilita a parte do tato.
Fala com um tom de... irônia?
- Não! Não sinto vocês, humanos.
- Você também é um humano!
- Não! Eu sou um demônio!
- Certo! Você deve ser louco e não se contraria suas loucuras. Vou entrar na loucura.
Respira fundo e sorri com a boca quadrada.
- Talvez, oh digníssimo demônio, esteja demais entre nós humanos e tenha virado um de nós.
Isso é uma possibilidade.
- Mas isso só aconteceu com você. Depois que você apareceu pra mim. Quando enfiei meu pau na outra humana, ela enfiou meu pau na boca dela e sentou na minha cara nada aconteceu.
- Pelo amor de Deus, para de me contar suas putarias!
Grita e tenho vontade de rir. Ai caralho! Eu quero rir.
- Já pedi pra não chamar esse homem.
- Então para de falar suas putarias.
Rir é tão legal. Isso é muito bom.
- Qual a graça?
- Falar de trepada te deixa sem graça. Você fica vermelha.
- Estranho é você achar normal falar com estranhos sobre suas... suas... trepadas.
- Não somos estranhos. Te salvei da morte e você me fez sentir. Isso é muito mais intimo que um pau em vários orifícios.
Ela abre um sorriso que agora parece verdadeiro.
- Isso é verdade!
- Acho que somos bem íntimos agora.
- Mais uma vez obrigada por me salvar.
- Parece que a morte foi embora.
Ela olha em volta.
- Morte?
- Sim! A sombra da morte estava com você quando cheguei.
Seus braços agora estão em volta de seu corpo e ela parece assustada.
- Por que estava querendo morrer?
A humana me olha e volta a chorar.
- E agora por que chora?
- Eu não quero morrer.
Limpa as lagrimas e fecha os olhos.
- Eles querem que eu morra.
- Eles quem?
Seus olhos se abrem e parecem que vão me engolir.
- As vozes.
- Que vozes?
- Na minha cabeça! Elas dizem coisas horríveis sobre mim. Mandam fazer coisas para me machucar.
- As vozes na sua cabeça?
- Sim! Eu não sou louca!
- Não disse que era!
- Elas surgem quando a tristeza toma meu coração.
- Elas te mandaram pular da ponte?
- Não me mandam fazer algo. Elas me dizem que não sou nada e que o mundo seria melhor sem mim. Que as pessoas seriam mais felizes.
- Sua família sabe dessas vozes?
Balança a cabeça e volta a chorar.
- Não tenho ninguém! Não sei quem são meus pais. Cresci em um orfanato e eles não fazem idéia de onde vim e quem me deixou lá.
- Você mora nesse orfanato?
- Não!
- Onde você mora?
- Preciso ir...