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O DONO DO MORRO E A IRMÃ DO SUB

O DONO DO MORRO E A IRMÃ DO SUB

Autor:: Gisele Araujo
Gênero: Romance
Essa história conta a vida de Rafaella, uma menina que acabara de passar por uma grande perda na família e vai morar com seu irmão mais velho na favela onde ele comanda. "Are different energies, but the direction is the same."

Capítulo 1 TUDO DESMORONANDO

Rafaella narrando

Eu sempre fui uma garota calada e observadora. Desde pequena aprendi a viver entocada nos compartimentos de casa, esquecida pelos meus pais. Eles não tinham muito tempo pra mim por causa do trabalho. Sempre foi o trabalho em primeiro lugar. Mas mesmo assim, eu os amo tanto que não consigo nem explicar. Tenho um irmão mais velho, Raffael. Mas ele já não vive mais conosco. Motivo? Meus pais enxotaram ele de nossas vidas, sem direito a despedida. A última vez que o vi e falei com ele, Raffael estava brincando de boneca comigo, algumas horas depois ele foi expulso. Nunca me faltou nada além de atenção e carinho. Tinha a Maria, minha governanta ou babá, tanto faz. Ela é meu porto seguro, ao contrário dos meus pais, está sempre aqui para me amparar quando eu cair.

Não diria que eu vivo, eu só sobrevivo dia após dia. Bom, não tem nada de importante na minha vida, quem vive de verdade tem alegria no coração. Eu sequer tenho isso. Espero que isso possa mudar um dia. Que eu construa laços afetivos, que eu tenha um bom emprego e uma família pra amar e ser amada na mesma intensidade.

Desperto dos meus pensamentos, e afasto a preguiça que se instala no meu corpo. Me alongo e levanto da cama, vou direto ao banheiro tomar aquele maravilhoso banho pela manhã para afastar toda a negatividade. Logo após, me visto rapidamente com o blusão da escola pra cobrir o cropped que decidi usar, e penteio meus cabelos. Me perfume inteira, e pego todos meus pertences necessários. Desço a escada e vou para a cozinha.

- Bom dia, Maria. - cumprimento Maria assim que a vejo.

- Bom dia, querida. - sorri.

- Meus pais já foram trabalhar? - começo a me servir o café da manhã. - Não os vi chegando ontem. - passo a nutella na torrada.

- Sim. Na verdade, seu pai viajou à trabalho e sua mãe o acompanhou.

- Nossa. Nem para se despedir. - lamento.

- A dona Suzana falou que iria ligar para você.

- Grande coisa. - bufo. - Maria, já vou indo para a escola.

- Sim. Boa aula, Rafinha. - mando beijo no ar.

Saio da cozinha e pego minha mochila que larguei em cima do sofá. Vou para a entrada de casa e espero o motorista encostar o carro.

- Bom dia, senhorita. - André me cumprimenta e abre a porta do carro para mim.

- Bom dia. - entro no carro.

Na escola, ando pelos gigantes corredores até chegar na minha sala, a qual a primeira aula seria Artes. Sento no fundo da sala, na frente do Daniel, meu melhor amigo.

- Oi, mi amor.

- Oi. - encosto a cabeça na parede.

- Boa notícia. - fala empolgado.

- Qual é a notícia? - pergunto sem interesse.

- Vai ter uma festa lá em casa. Meus pais convidaram os seus pais. - sorri mostrando os dentes. - Você vai né?

- Talvez. - dou de ombros. - Quando vai ser a festa?

- Hoje. - bate palmas.

- Em uma segunda-feira? - ergo a sobrancelha.

- Não vai ser uma festa daquelas. - faz uns sinais esquisitos. - É só uma social que os meus pais querem fazer para comemorar o contrato com uma empresa americana aí. - fala rápido. - Foi de última hora. Nem deu tempo de preparar muita coisa. - explica.

- Hum. Acho que vou. Meus pais viajaram hoje cedo, então eles não vão. - suspiro.

- Imagina só, várias meninas lá em casa. - fala olhando para o teto.

- Imagina só, vários meninos lá na sua casa. - falo fazendo a mesma pose que ele.

- Coitada de você. Quem disse que vou deixar você sair pegando os meninos? - dá um peteleco na minha testa.

- Credo. - sorrio. - Você pode pegar e eu não?

- Sou homem, é de natureza. Mulher tem que ficar em casa lavando à louça.

- E esse seu machismo aí? - rimos.

- Tô brincando.

- Ei, vocês dois! Prestem atenção na aula. - a professora ordena, visivelmente irritada.

- Desculpa. - olho pra lousa.

- Desculpa, professora desdentada. - sussurra.

- Menino! - rimos.

- Vou ter que falar outra vez? - olha para a gente.

- Não, professora. Pode dar sua aula.

A aula terminou rápido. Passei a aula inteira jogando bolinha de papel na lixeira, em um completo desafio para que a professora não me pegasse no flagra. Não tinha nada pra fazer. Desenhar e pintar não é a coisa mais divertida e interessante para mim.

Agora estou no intervalo com o meu belo amigo e ele tá me pedindo dinheiro emprestado, como sempre. Infelizmente ou felizmente, não tenho mais dinheiro.

- Mano, me devolve a coxinha. - falo irritada.

E o Daniel como sempre tendo atitudes infantis, que me irrita, ao mesmo tempo que também me diverte. Ter amizade te deixa um pouco perturbada.

- Esqueci minha carteira em casa. Divide vai. - implora.

- Claro que não. Morra de fome. - pego a coxinha de volta.

- Malvada. Deus vai te castigar. - fala emburrado.

- Será? - falo olhando para o céu. - Por que você não compra fiado? Depois você paga a tia.

- Eu pedi, mas ela não deixou.

- Faz uma dança sensual pra ela. - falo séria. - Ela vai te dar todas as coxinhas da cantina, pode dar até outras coisas... - insinuo.

- Idiota. - rimos. - Me dá a coxinha! - tenta pegar da minha mão.

- Socorro! - grito e saio correndo pelo refeitório.

Ao perceber que ele não veio atrás de mim, olho pra trás e vejo o Daniel com a mão no rosto de cabeça baixa. Acho que ele deve ter ficado com vergonha.

- Daniel, meu amigo! - grito indo em sua direção. - Como está seu estômago? Passou a dor de barriga? - todos gargalham.

- Eu ainda te mato. - puxa meu cabelo e sai andando de cabeça baixa.

Pra quê inimigo?

- Daniel, me espera. - agarro seu braço.

Os amigos nasceram para serem humilhados não é mesmo?

Depois que a última aula da professora de matemática acabou, fomos liberados para ir embora. Fico sentada no banco enfrente a escola esperando meu motorista chegar.

Percebo Allan e seus amigos se aproximando de mim e suspiro cansada, lá vem mais uma bomba para eu aguentar.

- E aí, suave? - senta ao meu lado.

- Tava tudo de boas antes de você chegar, mas felicidade de pobre dura pouco - falo cínica.

- Pobre você? Sério? Maior dondoca da escola. - dá risada.

- Sou pobre de felicidade, ok?!

- Tô ligado. Vai na social do Daniel? - pergunta mudando de assunto.

- Talvez. - digo com indiferença. - Que saco, onde o André se meteu? - sussurro irritada

- Como?

- Esquece. Vou indo nessa, meu motorista ainda não deu as caras - levanto e ele me segue.

- Vou com você até sua casa, assim a princesa não corre perigo. - assinto forçando um sorriso - Falou galera, até depois. - se despede de seus amigos.

Senhor, me ajuda. Esse menino não vai largar do meu pé. Maldita hora que o Daniel resolveu sair com aquela sem bunda da Vanessa!

- Mas, e aí, você tá de rolo com alguém? - quebra o silêncio.

- Você quis dizer namorando?

- É isso aí mesmo. - ri.

- Enfim, eu não tô namorando. E você? - olho para ele.

- Tô só ficando com umas e outras aí, tá ligada?

- Ah, entendi. - cruzo os braços. - Você faz o tipo de garoto piranha né?

Ele me encara por um tempo e também cruza os braços.

- E você faz o tipo de garota esnobe que só fica com playboy?

Franzo o cenho e faço bico. Eu não sou esnobe poxa!

- Quem disse que eu sou esnobe? - falo irritada.

- Relaxa, pô! Tô ligado que você não é.

Sem acreditar em suas palavras, arqueio a sobrancelha desconfiada. Continuamos nosso caminho, e de vez em quando ele puxava uns assuntos meio nada haver. Mas tirando isto, ele é legal até.

Já em casa, pude finalmente relaxar e assistir meus desenhos sem ninguém por perto. Liguei para meus pais e só deu caixa postal, devem estar em alguma reunião importante, ou só não querem perder tempo comigo. Vou ao banheiro e tomo uma ducha bem relaxante, depois me visto para ir a social dos pais do Daniel. Grito pela Maria, mas ela não responde. Deve ter saído. Tiro uma foto, só pra deixar salvo no celular, até porque não uso Instagram ou Facebook.

[...]

Fazem umas duas horas que estou na social do Daniel e nada de ver ele, acredita? Como venho em uma festa que não vejo o dono? Já estou ficando irritada. Allan já veio aqui várias vezes e conversou um pouco comigo, mas depois ele saiu com uns garotos da escola.

- Tá tudo bem?

Uma garota que estuda comigo pergunta.

- Sim, por que? - olho para ela que está sentada ao meu lado no sofá.

- Não sei. Você está impaciente... Tá procurando o Daniel? - assinto. - Ah, olha ele ali! - aponta em direção as escadas.

Vejo Daniel aparecendo de mãos dadas com a Vanessa. Ele olha na minha direção, mas parece que não me vê, porque o mesmo vira a cara e vai falar com uns meninos da escola. Ele realmente não me viu ou está me dando um gelo legal? Sinto uma vontade enorme de chorar, mas me controlo.

Pego o celular e mando uma mensagem para o meu motorista vir me buscar. Levanto do sofá e vou até os pais de Daniel para me despedir. Luíza e Jorge são meus padrinhos, grandes amigos dos meus pais.

- Oi, Rafinha. - fala ao me notar.

- Vim me despedir, estou indo para casa.

- Já? Ainda está cedo. - meu padrinho entra na conversa.

- Amanhã tenho aula, não quero faltar por causa do sono. - sorrio. - Vou indo, tchau gente.

- Tchau, minha filha. Tenha uma boa noite. - me abraça.

- Já chamou seu motorista? Posso pedir para que o meu motorista a leve em segurança. - sugere.

- Não precisa, padrinho. Já chamei. - abraço o mesmo. - Tchau.

Ao sair da casa, espero André que não demorou muito para chegar. Chegamos em casa rapidamente e em segurança, fui direto para meu quarto e dormi do jeito que estava.

[...]

Fazem duas semanas desde a social na casa do Daniel, já voltei a falar com ele e tudo mais. Meus pais voltaram de viajem há três dias, porém continuam fora de casa. Sempre estão trabalhando.

No momento estou assistindo Descendentes 2, deitada no sofá, comendo Diamante Negro e outras coisas prejudiciais a saúde como diz minha mãe.

Falando nela, observo a mesma aparecer na sala e tento esconder os meus lanchinhos da tarde.

- Já te falei que isso não faz bem a saúde. - senta na poltrona.

Enfim, a nutricionista sem diploma.

- Mas é bom... - sussurro. - Mãe? - a chamo.

- Diga. - me olha.

- Posso ir ao shopping?

- Pode. Aproveite e compre um vestido novo para irmos ao jantar do amigo de seu pai.

- Eu tenho mesmo que ir? - suspiro irritada.

- Mas é claro que sim. Quer mesmo dar esse desgosto a seu pai? - nego.

- Não... Tudo bem, a senhora ganhou. Vou me arrumar para ir ao shopping. - levanto do sofá.

- Chame o Daniel para ir com você. - manda.

- Não precisa, eu vou sozinha.

Posso ter feito as pazes com Daniel, mas ainda me sinto mal por ele ter me deixado de lado.

- Garota teimosa. - bufa. - Vá e volte em segurança. - saio da sala. - Mamãe te ama! - grita.

- Também te amo! - grito de volta.

[...]

Nesse momento estou em uma tentativa de fugir do jantar do amigo de meus pais. Como irei fazer isso? Aquela velha história do "resfriado em última hora".

- Como foi ficar doente logo hoje? - põe a mão na minha testa.

- Desculpa mãe e pai... Eu realmente queria ir com vocês nesse jantar, mas aconteceu esse imprevisto. - finjo uma tosse.

- Não tem problema, querida. Fique em casa e descanse. - sorri. - Vá descendo, Suzana. Preciso falar com Rafaella a sós. - meu pai manda.

- Tudo bem. Tchau, filha. - beija o topo da minha cabeça. - Te amo.

- Também te amo, mãe.

Depois que minha mãe sai do quarto, meu pai começa a rir e eu o encaro assustada. Ele me descobriu, droga!

- Pai..? Ta tudo bem? - me finjo de desentendida.

- Não se faça de santa, Rafaella. Sei muito bem que isso é tudo showzinho seu. - para de rir e ajeita a gravata.

Meu plano de ser atriz da Globo falhou.

- Como o senhor sabe? - levanto da cama e o ajudo com a gravata.

- Seu irmão fazia a mesma coisa quando não queria ir a escola. - sorrimos. - Sei que sente falta dele, nós também sentimos. - assinto e volto a me deitar na cama. - Não fique brava conosco. Você sabe que...

- Eu sei. - o interrompo. - Vocês não tem culpa de nada, estavam apenas querendo se privar da tempestade que o meu irmão causou. - suspiro. - O que você e a minha mãe fizeram é o que muitas pessoas queriam fazer, mas não conseguem.

- Você falando parece que entende o nosso lado... - sorri bobo. - Mas nós todos sabemos que você sente uma mágoa.

- Verdade, eu sinto. Mas sei que vocês estão corretos, então não tem nada a se fazer.

Escuto minha mãe gritar lá de baixo e gargalho.

- É melhor eu ir. Tenha uma boa noite, querida. Amo você. - beija minha testa e sai.

- Igualmente, senhor Marcos! - grito pois ele já havia saído.

Amo meu pai, ele sabe tudo sobre mim. Mesmo distante, ele que me dá conselhos quando preciso, assim como Maria, ele me ajuda com qualquer coisa em que eu precisar. Lógico que amo minha mãe também, mas ela é mais reservada. Como poderia dizer? É na dela, não demonstra ser tão carinhosa quanto o meu pai.

Depois de algum tempo, Maria me chamou para jantar, logo após voltei ao meu quarto e fui dormir.

Acordo no meio da madrugada e saio do quarto desorientada, escuto alguém conversando na sala de estar e então sigo as vozes. Ao me aproximar das pessoas, ouço Maria falar.

- Como assim sofreram um acidente? - dou um passo para trás desnorteada.

Capítulo 2 A DOR E A FELICIDADE

Rafaella narrando

Meus pais sofreram um acidente é isso mesmo que eu acabei de ouvir? Não é possível. É um pesadelo. Um bem real, mas que logo vou acordar. Só pode ser isso.

Volto ao meu quarto, pego meu celular e digito o número do meu pai. Sei que ele vai atender. Ele precisa atender.

Atende pai... Por favor. Não faz isso comigo.

Ajoelho perto da cama e começo a orar. O meu Deus não deixaria nada acontecer com minha família, eu sei que não. Eu confio nele, e ele vai permitir que meus pais vivam fortes e saudáveis.

Sinto alguém encostando no meu ombro e me assusto. Olho para trás e me levanto rápido ao ver Maria com um semblante triste.

- Maria... - digo baixo.

- Eu vou resolver tudo, minha menina. Não se preocupe. - me abraça.

- Eles estão bem? - pergunto, sem saber se estou preparada para ouvir a resposta.

- Não sei. - balança a cabeça em negação. - Eles chegaram no hospital a pouco tempo, devem estar em uma cirurgia ou sei lá.

- O que realmente aconteceu? - pergunto nervosa. - O acidente. - específico. - Como foi?

- Pelo que os paramédicos contaram, o carro derrapou na pista suja de óleo e capotou em um barranco que havia na estrada.

Balanço a cabeça negando, e estralo os dedos em nervosismo. Como assim? Óleo na pista?

- Eu não acredito. - solto um riso nasalado. - A gente tá em um filme? Que porra é essa? - me altero.

- Por favor, Rafaella. - segura meus braços. - É algo muito comum. Acontecem muitos acidentes por causa desse motivo.

- Mas não com os meus pais! - falo alto. - Não pode ser, Maria. Eles saíram daqui felizes. Eles estavam bem!

- Eu sei, querida. - vejo seus olhos cheios de lágrimas. - Sinto muito.

- Era pra eu estar com eles naquele carro, Maria. - minha voz sai arrastada. - Por que? Por que eu tive que fingir estar doente? - seguro meus cabelos. - Se eu tivesse ido com eles, talvez nada disso teria acontecido.

- Não, não, não. - nega rapidamente. - Jamais fale isso novamente, tá ouvindo? - segura meu rosto com as duas mãos. - Você não tem culpa de nada, minha menina.

- Eu só... - soluço. - Não consigo acreditar. Você disse que o carro caiu em um barranco não é?

- Sim. - assente. - Foi o que os paramédicos informaram, e o hospital apenas nos repassou.

- Então as chances deles são mínimas, Maria. - concluo. - Eu não posso perder eles. São tudo o que eu tenho.

- Você não vai perder ninguém. - me assegura. - Você vai ver, Rafaella. Eles vão ficar bem.

Nos abraçamos, e choramos juntas por alguns minutos. Eu precisava pôr toda essa angústia pra fora, e acredito, que Maria também.

- Eu tenho que ir pra lá. - me afasto dela e me levanto.

- Você é menor de idade, não vão te deixar entrar. - me segura.

- Então quem vai? Meus pais não tem mais ninguém além de mim. - me desespero.

- Você precisa ficar calma, entendeu? Eu vou resolver tudo. - assinto. - Já liguei para os seus padrinhos, eles tem mais influência que eu. Me asseguraram que iam até o hospital verificar todo o processo.

- Ok. - respiro fundo.

- Falaram que vão nos manter informadas. - continua a falar. - Vou ficar aqui com você, tá? Não vou te deixar sozinha.

- E se tudo der errado? - pergunto negativa. - E se os médicos não conseguirem salvar eles?

Minha respiração começa a ficar acelerada. Sinto meu coração batendo forte e rápido.Tento controlar minha respiração, mas é em vão. O ar começa a faltar, e eu me desespero em busca do mesmo. Isso seria uma crise de ansiedade? Não imaginei que fosse tão horrível assim.

- Maria, não consigo respirar. - falo baixo.

- Você precisa se acalmar! Respira, Rafaella. Respira comigo, vamos. Respira e inspira. Suavemente. - fala desesperada.

- Eu tô tentando. - sussurro.

Lágrimas escorrem pelo meu rosto. Meu olhos ardem tanto, parece que está em chamas. Meu peito dói. É como se alguém estivesse dando socos sem parar nele.

- Por favor, Rafaella. - Maria fala. - Vai ficar tudo bem, querida. Tá tudo bem.

Maria tenta me acalmar de todas as maneiras possíveis. Mas eu sinto que isso está tão longe de acabar.

- Meu Deus! - grita e corre para fora do quarto. - André! A Rafaella precisa de ajuda!

Sinto uma tontura chegando, minha vista embaça e eu perco as forças do meu corpo. Meus braços desabam encima de minhas coxas, e tudo fica em câmera lenta. Vejo a escuridão se aproximando, e me entrego a ela, aonde não tem mais dor.

[...]

Acordo ao sentir um peso encima da minha cintura. Demoro uns segundos para abrir os olhos por causa da claridade que se encontra no quarto.

- Daniel? - pergunto com a voz embargada.

- Oi, mi amor. - sorri para mim. - Boa tarde, bela adormecida.

- O que tá fazendo aqui? - empurro minhas pernas para sentar e encostar na cabeceira.

- Vim ficar com você, mocinha. - senta de frente pra mim. - Como está se sentindo?

- Sinto que um caminhão passou por cima de mim, e minha cabeça dói muito. - relato.

- Ok. Espera um minutinho.

Ele fala, e sai em disparada porta a fora. Mas logo volta, com um comprimido na mão e um copo de água na outra. Ele me entrega os dois, e eu engulo os dois sem pressa nenhuma.

- O que aconteceu? Tô de ressaca? - pergunto confusa. - Não lembro de ter saído pra beber.

- Você nem bebe, Rafaella. - sorri amarelo. - Não lembra o que aconteceu pela madrugada?

- Não, eu... - interrompo minha fala para pensar.

E então, vários flashs aparecem na minha mente. Tudo, absolutamente tudo vem à tona de repente. Encaro o rosto de Daniel, e procuro resquícios de que é tudo loucura da minha cabeça.

- Eu tô pirando, né? - ele me olha confuso.

- Como assim?

- Sei lá. - bufo. - Tive um pesadelo horrível.

- Não foi um pesadelo. - fala baixo. - Seus pais sofreram um acidente. Estão em cirurgia o dia inteiro, ainda não tivemos mais notícias.

Meus ombros caem, e meus olhos ardem. De novo não. Esse pesadelo mais uma vez.

- Que merda, Daniel. Que merda! - exclamo baixo. - Tudo isso é uma merda. - bato os punhos nas minhas coxas.

- Ei, olha pra mim. - segura minhas mãos. - Olha pra mim. - levanto a cabeça para o olhar. - Você precisa ser forte. Sei que isso é pedir muito nesse momento, mas é necessário.

- Eu tô tentando.

- Você consegue. É a garota mais forte e corajosa que eu conheço. - tenta me passar confiança. - Não se preocupe tanto, mi amor. Tudo vai se resolver.

Minutos depois, Maria apareceu no quarto para levar um lanche para nós. Eu besliquei uma coisa aqui e outra acolá, também beberiquei um pouco do suco. Não sentia vontade de comer.

Ficamos por muito tempo deitados na cama, sem trocarmos muitas palavras. Estava quase anoitecendo quando Daniel levantou da cama num pulo.

- Tive uma ideia. - fala animado.

- Qual? - pergunto sem interesse.

- Vamos ao cinema. - fala como se a ideia dele fosse genial. - Que tal?

- Você só pode tá de brincadeira comigo. - balanço a cabeça em negação. - Acha que tô com cabeça pra cinema? - minha voz soa mais grossa do que eu queria.

- Calma. - ergue as mãos em sinal de rendição. - Só tô tentando ajudar.

- Foi uma ideia meio idiota, né? Pelo amor de Deus.

- Tá, Rafaella! Ok. - se irrita. - Eu tô aqui tentando te ajudar e você fica com ignorância.

- Sem drama, Daniel. - tento acalmar os ânimos.

- Ah, me poupe. - se exalta. - Só pra você saber, eu poderia estar fazendo várias outras coisas. Mas eu tô aqui com você.

- Eu te chamei? Tô pedindo pra você ficar aqui? - me exalto também. - Você sabe onde fica a saída.

- Então é assim? - ri. - É isso que eu ganho? Olha, garota. Eu tô tentando ser legal.

- Eu não me importo, Daniel! E eu sei que você também não tá nem aí pra mim. Faz tempos que você me deixou de lado por causa daqueles seus novos amiguinhos.

- De que merda você tá falando?

- Não se faz de sonso. Na festa, na escola. - cito. - Você ta sempre me deixando de lado por causa deles.

- Isso é mentira.

- Sério, nunca imaginei que você fosse ficar assim. Mas eu nem me surpreendo mais com nada. - sorrio com ironia. - Bom namoro pra você e aquela sem bunda.

- Você não fala dela! - grita e aponta o dedo na minha cara. - Não vou permitir que você toque no nome dela.

- Nossa, que medo de você. - debocho.

- Então é disso que se trata? Ciúmes?

- O que? - me levanto irritada. - Olha aqui, garoto. Vai se fuder!

- Vai se fuder você! - grita.

Sinto a dor de cabeça voltar com tudo. E me sento na cama, com as mãos no rosto.

- Eu vou fazer você engolir todos os dentes se gritar mais uma vez com ela, filho da puta.

Escuto uma voz estranha e grossa falar, e levanto a cabeça com rapidez. Sigo a voz e vejo um rapaz na porta do meu quarto com uma cara de bravo. Ele não me parece estranho.

- Quem é você? - Daniel pergunta.

- Não te interessa, porra. - fala bravo. - É melhor tu vazar daqui agora. Tô tentando não quebrar sua cara.

- Você é louco. - meu amigo afirma. - Eu nem sei quem é você, e nem o motivo pra você ter entrado assim na casa dos outros. Mas acho que é bom você ir embora antes que eu chame a polícia.

- Chama aí. Quero ver se tu tem essa coragem. - cruza os braços.

- Espera aí, gente. - me pronuncio. - O que tá acontecendo aqui? Quem é você?

- Não lembra de mim? - ele arqueia a sobrancelha, a qual mal vejo por ele estar de boné.

- Não sei. - falo confusa. - Você não me parece estranho, mas não reconheço quem seja.

- Sou eu pô, Raffael.

O mundo parece parar. Meu corpo pesa, e eu tento raciocinar. Que porra tá acontecendo? Meus pais sofrem um acidente, meu irmão reaparece depois de anos. É o fim do mundo?

- Raffael? Seu irmão? - Daniel pergunta tão confuso quanto eu.

- É surdo? - meu irmão fala grosso.

Pelo visto, ele já não foi com a cara de Daniel. Nem eu tô indo com a cara dele esses dias.

- O que você tá fazendo aqui? - abraço meu próprio corpo. - Por que apareceu depois de tanto tempo? - fico de frente pra ele.

- Eu fiquei sabendo o que aconteceu. - explica. - Achei que você estaria precisando de alguém nesse momento.

- Eu sempre precisei de alguém. - desabafo. - Eu senti tanto a sua falta.

Desabo em meio às lágrimas. Não demoro muito pra sentir braços me serpenteando. Aperto meus braços ao redor de seu corpo e o puxo mais de encontro a mim.

- Estou aqui agora. - Raffael fala baixo e beija minha cabeça. - Prometo que nunca mais vou sair do seu lado.

- Obrigada por voltar por mim. - agradeço.

- Eu te amo, Rafaella. Eu ia voltar por você de qualquer forma.

[...]

Anoiteceu, Maria fez o jantar para todos nós, e depois Daniel foi embora. Raffael disse que ia passar a noite aqui comigo, e Maria pôde ir pra casa sem se preocupar comigo.

Estava tudo tranquilo. Nós assistimos muitos filmes, e estávamos quase adormecendo na sala quando o telefone da sala tocou. Ambos nos assustamos, mas foi meu irmão que tomou a iniciativa de atender.

- Alô. - ele me olha de soslaio. - Sim, é o número certo. Maria não está no momento. Pode falar que eu dou o recado a ela. - vejo ele ficar tenso. - Tem certeza? Ok. Vou passar o recado.

Ele deixa o telefone no gancho, e respira pesado. Observo ele passar as mãos no cabelo em um gesto nervoso. Aconteceu alguma coisa. Ruim, pelo visto.

- Pode me falar. - mantenho a voz firme. - Eu aguento.

- Porra. - xinga. - Olha, você precisa manter a calma.

- Só fala de uma vez. - peço.

- Sua mãe está em um estado crítico. Ela sobreviveu a cirurgia, mas os médicos não sabem se ela vai conseguir resistir.

- E meu pai? - pergunto com a voz embargada.

- Eu sinto muito. - abaixa a cabeça.

- É mentira. - falo para mim mesma. - Não pode ser. Todos me falaram que eles iam ficar bem! Todo mundo me deu esperança de que eles sobreviveriam! - e novamente lágrimas escorrem pelo meu rosto.

- Precisa tentar ficar calma. - se aproxima. - Maria me disse o que aconteceu com você. Não pode ficar muito nervosa.

- Como não vou ficar nervosa? Meu pai tá morto! - grito em meio ao choro. - O nosso pai morreu, Raffael. Não me pede pra ter calma.

- Eu sinto muito. - pude jurar que vi os olhos dele brilhando e uma única lágrima escorrendo. - Vou pegar uma água pra você.

Quando meu irmão me trouxe a água, bebi ela toda com rapidez. Sentia minha garganta seca e queimando como o inferno. Não duraram nem cinco minutos, e eu me entreguei a um sono profundo.

Uma semana depois

Já fazem sete dias que meu pai faleceu. Minha mãe continua na mesma, fui visitá-la, mas não pude ficar muito tempo. Chorei tanto que acho que minhas lágrimas secaram por completo. Raffael ta aqui comigo desde aquele dia, não sai do meu lado um segundo sequer. Ele não pôde ir visitar nossa mãe e nem ir ao velório de nosso pai, pois é procurado pela polícia. Maria não sai do hospital, está sempre lá na esperança de minha mãe acordar. Eu também tenho esperança dela acordar, ela não pode me abandonar.

[...]

Viro de um lado ao outro na cama e suspiro frustrada.

- Eu só queria dormir poxa! - grito irritada.

Raffael aparece na porta e me encara esperando uma explicação pelo meu grito repentino.

- O que? Posso nem gritar mais? Me deixa em paz! - afundo meu rosto no travesseiro.

- Sai fora, louca. - diz e sai.

Não aguento e começo a rir alto. Novamente, Raffael aparece na porta e coloca as mãos na cintura.

- Acho bom isso ser tpm. Porquê se não for, eu vou internar você. - fala sério até demais.

Paro de rir no mesmo instante. Sinto meu coração quebrar em caquinhos de vidro e começo a chorar.

- Isso, me interna junto daquelas pessoas loucas e psicopatas! - faço drama. - Ninguém me ama mesmo!

- Eu vou ligar pra uma clínica veterinária e pedir pra eles vir aqui te dar um sedativo. - pega o celular no bolso. - Tá parecendo um cachorro com raiva.

- Pra quê isso? - levanto e pego o celular da mão dele. - Eu tô bem. Olha só! - dou uma voltinha.

Agora é a vez de Raffael rir. Ele rir tanto que falta o ar. O que tinha na pizza que compramos?

Capítulo 3 ENCARANDO A REALIDADE

Rafaella narrando

Os dias estão passando rápidos demais. Praticamente larguei a escola. A diretora sempre liga, mas faço questão de desligar. Vou acabar me ferrando por isso.

Raffael foi embora. Quer dizer, ele vai voltar. Parece que o mesmo teve de ir resolver uns problemas lá na favela. Uma vez o celular do Raffael estava tocando e ele estava no banho, fui atender porque sou uma pessoa de bom coração e nem um pouco curiosa. Me arrependi? Sim, me arrependo amargamente. O carinha do outro lado me tratou super mal, me chamou até de marmita de bandido. Logo eu, uma lady. Falei umas boas verdades pra ele e ainda bloqueei o número. Contei tudo pro Raffael e ele riu da minha cara, mas depois me deu uma bronca. Parece que o carinha em que eu o coloquei no seu devido lugar era ,simplesmente, o dono da favela. Fiquei morrendo de medo. Fui mexer logo com um bandido.

Virei uma pessoa que só come lasanha de microondas. Não posso reclamar, é uma das melhores coisas do mundo da gastronomia. Enlatados e esses negócios prejudiciais a saúde estão sempre nas compras do mercado. Ah mãe, que saudades.

[...]

Existem muitas coisas horripilantes na vida. Mas nada se compara a estar sozinha em uma mansão gigante num dia chuvoso. Tudo parece ser um cenário de filme de terror.

Não suportando mais o medo e a solidão, pego meu celular e ligo para o Daniel. É nessas horas em que o amiguinho parece ser útil.

Início da ligação

- Oi, princesa.

- Tu me ama? - que comece a chantagem emocional.

- Lógico que amo, mas por que a pergunta?

- Sabe? Estou com saudades do meu amiguinho. - ouço ele rir. - É sério, Daniel!

- Fala sério, mi amor. - se recompõe. - O que você quer, ein?

- Nada demais. Só quero sua presença aqui e agora na minha casa. - falo divertida.

- Ok! Vou poder dormir aí? - reviro os olhos.

- Óbvio, Daniel. Vem logo, tá?

- Pode deixar. Vou comprar umonte de besteira para a minha nenenzinha.

- Acho bom. - rimos. - Tchau, Dani. - desligo a chamada na cara dele.

Fim da ligação

Ele vai ficar todo irritadinho. Nós dois tivemos uma conversa depois daquela confusão toda e acabamos nos resolvendo como duas pessoas maduras. Nem tão maduras assim, mas deu pro gasto.

Já fazem umas duas horas que o Dani chegou. Nós assistimos um filme e ele acabou entrando em um sono profundo. Acredite, é mesmo profundo. Coloquei o dedo no nariz dele e ele nem acordou. Do que adianta chamar uma pessoa pra te fazer companhia sendo que ela dorme e você continua abandonada? É o mesmo que pedir para o capiroto vir comer lasanha comigo.

Eu tô sem vontade de viver. Essa ansiedade de esperar minha mãe acordar do coma está me matando. Tem dia que a Maria nem me liga, pois não tem nada pra contar de novidade. Já fiz uns plantões na sala de espera do hospital, mas não me deixam entrar na uti onde minha mãe está.

A Maria não tem obrigação de ficar lá com minha mãe, mas mesmo assim ela está. Ela não sai de perto da minha mãe um segundo sequer. Foi Deus que colocou esse anjo em nossas vidas, e eu agradeço muitíssimo por isso.

Às vezes, eu me pego imaginando quanto tempo eu perdi longe dos meus pais. Bom, eu sei que eles viviam ocupados e quase não paravam em casa. Mas quando eles estavam aqui, eu não dava bola, eu preferia ir ao shopping. Eu devia ter aceitado ir em todas aquelas festas chatas com eles, eu devia... Sei lá, eu devia ir visitar eles no escritório. Eu fui uma idiota e agora estou aqui, me corroendo de arrependimento.

Eu só queria que Deus me desse mais uma chance e por obséquio permitisse que minha mãe continuasse aqui comigo. Como eu poderia imaginar que iria perder meu pai tão cedo assim? Que eu iria ter que ficar na ansiedade de saber se minha mãe vai viver ou não?

Mas essa é a tal chamada vida. Aquela que é tipo roda gigante, um dia a gente tá encima, mas em outro tá embaixo.

[...]

Faz uma semana que o meu irmão me abandonou aqui. Bom, não faz tanta diferença assim. Fiquei longe dele durante quase toda a minha vida. Tá, eu até pensei que nós íamos ser aquele casal de irmãos inseparáveis novamente, mas me iludi totalmente. Eu não quero parecer uma idiota, e ficar cobrando a presença dele. Então, apenas finjo que tá tudo bem.

Devido ao tédio e a falta de sono, decidi voltar à frequentar a escola hoje. Ainda são umas cinco horas da manhã, tenho tempo o suficiente para me arrumar. Melhor ir a escola do que ficar aqui sem fazer nada. Primeiramente tenho que ver se meu uniforme ainda vive e tenho que procurar meus materiais. Só de pensar nisso já sinto vontade de desistir, agora me tornei uma pessoa sedentária sem futuro. Ah, e uma pessoa bem exagerada e dramática também.

Depois de tomar banho, me visto e faço todo aquele processo de maquiagem, arrumar o cabelo, e etc. Pego minha mochila e meu celular, desço a escada e vou em direção a cozinha. Despejo leite e cereal em uma vasilha, lanchinho muito saudável. Enquanto estou tomando o café da manhã, já mando uma mensagem ao motorista pra avisar que irei a escola hoje. André até ficou surpreso.

Minutos depois, me encontro parada igual uma estátua enfrente ao enorme portão da escola, morrendo de vontade de dar meia volta.

Tomo coragem e sigo enfrente. Vejo alguns colegas e uns funcionários que me cumprimentam alegres. Os alunos me olham com dó e outros até com deboche. Ah lógico, a "típica patricinha que está passando necessidades". Ergo a cabeça e vou a direção da escola. Ao me ver, a diretoria toda se espanta.

Márcia anda apressadamente em minha direção e me cumprimenta com um beijo no rosto. Sorrio para a mesma e dou um bom dia a todos.

- É ótimo que você esteja de volta! - Márcia fala animada.

- Creio que sim. - dou um sorriso fraco.

- Você não atendeu minhas ligações, estava muito preocupada.

Ela segura minha mão e me encaminha para sentar na cadeira a frente de sua mesa. Eu tô muito envergonhada. Imagina só, eu dei uma de louca e sumi da vida de todos por umas três semanas.

- Desculpa, fui um pouco imprudente. - encolho os ombros.

- Não se preocupe. - sorri. - Você realmente está passando por um momento difícil, então entendo o seu lado. Bom, eu coloquei seu nome em licença, então você não ficou com faltas ou perdeu o conteúdo. Os professores irão lhe mandar todo o conteúdo por e-mail, e lhe aplicarão todas as provas que foram feitas.

- Nossa! Muito obrigada, Márcia. - falo alegre. - Eu pensei que estaria em apuros quando voltasse.

- Não tem de quê. - levanta. - Venha, vou lhe acompanhar até a sala de aula.

Duas aulas de gramática já estavam praticamente concluídas, estou apenas esperando o sinal do intervalo tocar para poder sair daqui de dentro igual um foguete. Confesso que foi meio esquisito entrar nessa sala de aula, não sei, me sinto diferente. Ainda mais depois que descobri a mudança do Daniel de turma, fiquei sabendo que ele mudou para a sala da namoradinha. Alguns alunos vieram falar comigo para dar os pêsames, e óbvio, não podia faltar o Allan. Como sempre ele está colado comigo. Porém, ele está meio que simpático hoje, nada de flertar ou algo do tipo. Estranho.

- E então? - Allan me tira dos meus pensamentos.

- O que? - pergunto sem ter a mínima ideia do que ele estava falando anteriormente.

- Meu Deus. - coloca a mão no rosto. - Faz uns cinco minutos que eu estou te chamando pra ir em uma sorveteria depois da aula.

- Ah. - encaro ele.

- Vai garota, me responde.

- Ah, sim! Vou sim. - falo depois do meu transe.

- Você tá muito grogue. Cê é louco. - ri, balançando a cabeça em negação.

Allan é um jovem bonito. Tem cara de mau, mas ele é bonito. Ele é diferenciado dos caras daqui. O garoto não é um mauricinho, muito pelo contrário, ele parece ser um maloqueiro. Algumas tatuagens espalhadas pelos seus braços, e uma tattoo perto do olho. Já ouvi vários comentários em que Allan é traficante. Mas acredito que seja porque ele tem as tatuagens. Essas pessoas são muito preconceituosas. Tatuagem não é sinônimo de criminoso.

- Você sabe que eu só vou por causa do sorvete, né? - ele me olha sem entender. - Não vou ficar com você.

Ele suspira enquanto balança a cabeça em forma negativa mais uma vez e depois dá uma risada sem graça.

- Eu tô ligado nisso aí. - coloca o boné. - Vamos só dar uma volta mesmo.

- Hurrum... - franzo o cenho desconfiada.

A professora para de escrever na lousa e volta para a mesa dela. Enquanto copio o que está na lousa, escuto um pigarro vindo da professora. Ela encara o Allan e ele sequer percebe.

Jura que ele ainda não percebeu que é pra ele? Cutuco ele que está ao meu lado conversando com uns garotos.

- Qual foi? - me olha.

- A professora tá te chamando.

- Diz, tia. - olha pra ela.

Ela nega com a cabeça e faz um gesto pra ele tirar o boné. Ele tira o boné com desgosto e fica resmungando.

- Você sabe que não pode usar boné na sala. - sussurro pra ele.

- Quero saber o porquê de não poder usar essa porra! - exclama alto.

- Chega, Allan! Direto pra diretoria! - ela levanta e bate com as mãos na mesa.

Eu me encolho na cadeira quando o Allan levanta todo revoltado. Que mico. A sala tá toda parada vendo isso. Antes de sair, Allan para e me encara.

- Vou te esperar na saída.

E então, sai batendo a porta. Os alunos ficam me olhando e eu abaixo a cabeça envergonhada. Que situação constrangedora.

Depois de mais duas aulas de história, sem o Allan, que acredito que tenha sido suapenso, o sinal finalmente tocou. Quando estou me aproximando da saída, vejo Allan fumando um cigarro distraído encostado no muro de frente a escola. Até lembrava de ter combinado de sair com ele, mas eu estava tentada a inventar uma bela desculpa. Porém, não posso dar um perdido nele logo agora.

Atravesso a rua e estralo os dedos enfrente o rosto dele.

- Tá vivo?

- Nem te vi, pô. - joga o cigarro no chão.

O meio ambiente chora com uma cena dessa.

- Percebi. - coloco as mãos para trás.

Eu tô me sentindo muito envergonhada diante dele, não sei o porquê.

- E aí, vamos?

- Tô esperando sua boa vontade de me mostrar o caminho até a sorveteria.

- Você é chatona. - anda na frente e eu o sigo.

Um cara mais bipolar que esse tá pra nascer. Fomos o caminho todo conversando. Nunca me imaginei indo tomar sorvete com ele, mas tudo bem. A vida é feita de ciclos.

- O que vai querer? - me pergunta ao chegarmos na sorveteria.

- Sorvete. - respondo divertida.

- Que engraçadinha. - finge um riso. - Qual o sabor, dondoca?

- Chocolate. - decido depois de ter visualizado todos os potes com sabores variados.

- Beleza. Faz dois de chocolate aí, moça. - pede.

- Vou me sentar ali. - aviso a ele, que assente.

Me sento em uma mesa afastada e observo Allan tirar o dinheiro da carteira para pagar a moça. Ele deixa o dinheiro encima do balcão quando recebe nossos sorvetes. Logo vem até onde estou sentada e me entrega o meu.

- Obrigado. - sorrio. - Nossa, é muito bom. - aprecio aquele doce maravilhoso.

- Papo reto. - concorda. - Eu passo aqui quase todos os dias com os moleques. Esse lugar é um paraíso.

- Verdade. É tudo muito lindo e organizado. Fora que o sorvete é incrivelmente delicioso.

- Espera só até provar o de flocos e o de morango.

- Tá me deixando curiosa. Será que é tão bom mesmo?

- Tô te falando. - me assegura. - Tu vai gostar, pô.

- Espero vir aqui mais vezes então.

- Posso te trazer aqui amanhã depois da aula de novo.

- Isso é um convite? - arqueio a sobrancelha.

- Se você quiser. - dá de ombros.

- Bom, então eu aceito.

Nos encaramos por alguns segundos e logo caímos na risada. O clima entre a gente estava finalmente melhorando. Estávamos os dois relaxados, e o encontrinho fluiu bem até demais.

Depois do nosso encontro, ele me deixou no ponto de táxi e foi embora. Ao chegar em casa fui direto ao meu quarto e me tranquei lá.

Sair com o Allan melhorou muito o meu dia. Faz dias que não me sinto tão livre e solta. Alguma coisa mudou, não sei bem explicar. Talvez seja a mudança de rotina ou talvez a minha nova amizade. Mas é uma mudança boa, um sentimento genuíno. É bom se sentir assim depois de tantos dias apenas chorando e se lamentando.

Algo dentro da minha cabeça diz que tem muita coisa para acontecer ainda. Seja uma coisa boa, ou ruim.

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